Eficácia de uma nova formulação de glifosato para o controle de grama-seda
(Cynodon dactylon), em pomar de citros.
Eficácia de uma nova formulação de glifosato para o controle de grama-seda
(Cynodon dactylon), em pomar de citros.1INTRODUÇÃO
A citricultura tem grande importância no contexto nacional, pois é geradora de
riquezas aos setores industrial e agrícola, garantindo o crescimento e a
manutenção de todos os segmentos que dela se cercam (Fernandes & Ulian,
1999). Ela é uma das grandes fontes geradoras de divisas para o País com a
exportação de suco concentrado congelado e tem relevante importância no
contexto mundial por seu volume de produção e área plantada. O estado de São
Paulo é o grande produtor de citros, respondendo por, aproximadamente, 80% da
produção nacional (Ramos & Durigan, 1996) e 25 % da mundial (Silva, 2000).
O Brasil possui baixa produtividade, comparado aos demais países produtores (De
Negri, 1988). Um dos fatores responsáveis por isto é a interferência das
plantas daninhas nos pomares, que podem acarretar perdas de 10 a 50% (Blanco
& Oliveira, 1978; Salgado et al., 2000). As plantas daninhas reduzem o
crescimento e a produção das plantas cítricas, devido à competição pelos
fatores essenciais limitados no ecossistema comum ou, então, pela ação
alelopática de substâncias químicas excretadas pelas mesmas. Além disso, podem
servir como hospedeiras intermediárias de pragas e patógenos (Haddad, 1993).
Atualmente, são empregados vários métodos de controle das plantas daninhas,
evitando-se a competição e facilitando-se os tratos culturais (Silva, 2000). O
uso de herbicidas destaca-se por ser o mais eficiente e rápido,
disponibilizando a mão-de-obra na propriedade. Os herbicidas mais utilizados
são os aplicados em pós-emergência, principalmente devido aos efeitos
prejudiciais dos chamados herbicidas residuais em culturas perenes, como em
citros (Haddad, 1993) e em eucalipto (Rodrigues et al., 1991), se aplicados
erroneamente. Caetano (2000) afirma que o uso de herbicidas proporcionou
redução na infestação das plantas daninhas em relação à gradagem e roçagem.
Dentre os herbicidas aplicados em pós-emergência, os mais conhecidos entre os
citricultores são: glifosato, sulfosato e paraquat (Silva, 2000).
Um dos grandes problemas nos pomares é a presença de plantas daninhas com
propagação vegetativa, que são de difícil controle. Cynodon dactylon, que
produz grande número de rizomas e estolões, é exemplo disto (Mitich, 1989).
Devido a essas características, torna-se necessário o uso de herbicidas
sistêmicos. Johnson (1995) demonstrou que as diferentes cultivares de Cynodon
dactylon, como Commom, Cheyenne, Tropica e Sahara, têm sucetibilidades
diferentes para um mesmo herbicida. Alguns herbicidas necessitam de aplicações
seqüenciais, feitas em plantas jovens e posteriormente em adultas, repetidas ao
longo dos anos, para o bom controle de Cynodon dactylon (Grichar, 1995), sendo
que o glyphosate é indicado para o seu controle.
Claus & Behrens (1976) e Devine et al. (1983) trabalharam com o controle de
Agropyron repens; Wyrill & Burnside (1976) e Waldecker & Wyse (1985),
com o de Asclepias syriaca; Camacho & Moshier (1991) e Mcwhorter &
Hanks (1993), com o de Sorghum halepense, e concluíram que o glifosato mata os
rizomas e suas brotações devido à sua ação sistêmica.
Osipe (1995), comparando glifosato com sulfosato, na mesma dosagem (4,5 L/ha do
p.c.), não observou diferenças significativas no controle de Cynodon dactylon.
Para Cyperus rotundus L., também não se verificaram diferenças entre sulfosato
e glifosato nas dosagens de 1,92 e 2,40 kg/ha (Braz & Braz, 1995).
Em Agropyron repens, as dosagens de 0,56; 0,84 e 1,12 kg/ha de glifosato
proporcionaram controle completo dos rizomas (Claus & Behrens, 1976). Em
cana-de-açúcar, Richard Jr. (1997) constatou que o cultivo mecânico foi o
método menos eficaz para o controle de Cynodon dactylon. Duas aplicações do
herbicida glifosato (a 3,36 kg/ha), com intervalo de um mês, foi o tratamento
que proporcionou melhores resultados.
Outros herbicidas possuem boa eficácia para o controle de Cynodon dactylon.
Bedmar (1997) cita que haloxifop, a 180 g/ha, e quizalofop-p-etil, a 54 g/ha,
proporcionaram os melhores controles de Cynodon dactylon em batata. Em soja,
além destes, o cletodim (336 g/ha) e o propaquizalofop (100 g/ha) apresentaram
o mesmo nível de controle. Cletodim e fenoxaprop, aplicados seqüencialmente, em
duas épocas, fluazifop-p e quizalofop com aplicações únicas em pós-emergência
inicial e setoxidim, aplicado uma ou duas vezes, foram os tratamentos que
apresentaram os melhores controles de Cynodon dactylon em amendoim (Grichar,
1995). No grupo das imidazolinonas, o herbicida imazaquim, aplicado a 0,42 kg/
ha, controlou razoavelmente esta planta daninha, porém os melhores resultados
foram obtidos com o imazapir a 0,06 kg/ha (Goatley Jr. et al., 1993).
Oren et al. (1984), citados por Haddad (1993), mostraram que o herbicida
glifosato, na concentração de 1,5% do produto comercial, aplicado com bicos
rotativos, em volumes variáveis de 50 a 130 L/ha de calda, controlou
satisfatoriamente Cynodon dactylon. Singh & Tucker (1983) aumentaram o
controle de Cynodon dactylon com o aumento na dosagem (0,56 para 2,24 kg/ha) de
glifosato.
O glifosato proporciona ótimo controle para a maioria das plantas daninhas com
propagação vegetativa, porém apresenta baixa eficácia para algumas, tais como
Commelina virginica L. (Lorenzi, 1986; Durigan, 1988). Visando-se a aumentar a
eficácia deste herbicida, realiza-se a sua mistura com outros herbicidas
(Galli, 1991). Neste sentido, Ramos & Durigan (1996) observaram que o
melhor controle de Commelina virginica L. se deu com a mistura pronta de
glifosato + 2,4-D amina, nas dosagens de 0,65 + 0,81 kg/ha. Timossi et al.
(2000) obtiveram bom controle de trapoeraba aplicando glifosato com imazamox ou
carfentrazone.
Atualmente, o glifosato é uma das melhores alternativas para o controle químico
de Cynodon dactylon, pois tem boa eficácia no controle, o menor preço em
relação aos demais, é pouco tóxico ao homem e ao ambiente, e é de aplicação
fácil e segura, por ser em pós-emergência protegida e dirigida.
No presente experimento, objetivou-se a avaliação da eficácia da formulação em
sal potássico do glifosato, em três dosagens, comparadas ao sulfosato e ao sal
amínico do glifosato, que são considerados padrões para o controle de grama-
seda em pós-emergência.
MATERIAIS E MÉTODOS
O experimento foi instalado e conduzido no Sítio São Judas Tadeu, municípo de
Taiúva, Estado de São Paulo, com latitude de 21o 07' S, longitude 48o 21'W e
altitude de 600 m. Iniciou-se em 13-01-2000 e foi concluído em 25-02-2000.
O solo é classificado como Podzólico Vermelho-Amarelo, distrófico, horizonte B
textural, textura arenosa, com relevo ondulado (Centurion, 1998).
Na região onde se localizou a área experimental, a temperatura média do mês
mais quente (janeiro ou dezembro) é de 24,3 oC, e do mais frio (junho), de
18,6o C. Também são características do clima regional, a média anual de
precipitação de 1388,0 mm e médias anuais de temperaturas máxima e mínima de
29,4 oC e 17,0 oC, respectivamente.
O experimento foi instalado a campo, no delineamento experimental de blocos
casualizados, com seis tratamentos, em quatro repetições, totalizando 24
parcelas experimentais, em um pomar de laranjas da variedade Pêra-Rio, espaçada
de três metros entre plantas e cinco metros entre linhas, com 5 anos de idade.
As dimensões da parcela foram 3x3m.
Os herbicidas testaods, com suas respectivas formulações e dosagens, assim como
a testemunha sem aplicação de herbicidas, estão relacionados na Tabela_1.
Os herbicidas foram aplicados em pós-emergência das plantas daninhas, com
pulverizador costal, à pressão constante (mantida pelo CO2 comprimido) de 2,5
kg/cm2, munido de barra com seis bicos de jato plano ("leque") DG 11002 e
consumo de calda equivalente a 200 L/ha.
Na aplicação dos herbicidas, o solo encontrava-se com excelente umidade, a
temperatura ambiente era de 28,5 oC, a temperatura do solo (a 5 cm de
profundidade) de 29,5 oC, a umidade relativa do ar de 68%, os ventos
intermitentes e fracos, com nebulosidade aproximada de 5%. A grama-seda
(Cynodon dactylon) predominava na área experimental, com 70% de infestação e 20
a 25 cm de altura.
Foram realizadas avaliações visuais, atribuindo-se porcentagens de controle em
relação à testemunha, aos 3; 7; 14; 21; 28 e 43 dias após a aplicação (DAA). O
controle dessa planta daninha foi atribuído visualmente em relação à testemunha
sem aplicação de herbicidas do respectivo bloco, onde se encontrava a parcela
avaliada. As notas de controle variaram de 0 a 100%, sendo 0% considerado sem
injúria visível e 100% a necrose total dos tecidos das plantas de grama-seda.
Os dados de controle foram transformados em arc-sen v%, para a análise
estatística.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As médias das percentagens de controle da grama-seda, atribuídas visualmente,
em várias épocas após a aplicação dos herbicidas, são apresentadas na Tabela_2.
O controle de grama-seda consolidou-se aos 28 dias após a aplicação, quando se
atingiram porcentagens iguais ou superiores a 90% para a maioria dos
tratamentos. Os resultados obtidos aos 43 dias mostram redução das porcentagens
de controle em função das rebrotas que foram constatadas nesta época. Devido a
essas rebrotas precoces, alguns autores, como Grichar (1995) e Richard Jr.
(1997), ressaltaram a necessidade de realizar-se aplicações seqüenciais,
visando-se ao melhor controle da planta e menor reinfestação na área.
O tratamento com glifosato potássico a 1,05 kg e.a./ha foi menos eficaz, em
todas as avaliações, confirmando a necessidade de maiores dosagens para o
controle desta planta daninha. A rebrota também foi mais evidente nesse
tratamento. Goatley Jr. et al. (1993), trabalhando com o herbicida imazaquin na
dosagem de 0,42 kg e.a./ha, não obtiveram bom controle da grama-seda, pois ele
apenas inibiu o seu crescimento. Melhores resultados foram alcançados com a
aplicação da mistura deste herbicida com o imazapir.
O glifosato potássico a 2,10 kg e.a./ha proporcionou controle estatisticamente
igual aos padrões (sulfosato e glifosato), até 28 DAA, diferindo negativamente
aos 43 DAA por causa da rebrota mais intensa nas plantas sujeitas a esse
tratamento. A eficácia da maior dosagem (2,50 kg e.a./ha) desta nova formulação
do herbicida foi superior a sua mais baixa (1,05 kg e.a./ha) durante todo o
período de avaliação e, dos 21 aos 43 dias após a aplicação, em relação à
dosagem imediatamente menor (2,10 kg e.a./ha). Dependendo da espécie a ser
controlada, a dosagem de glifosato pode ser reduzida, como no caso de Agropyron
repens, para a qual, dosagens entre 0,56 e 1,12 kg e.a./ha ocasionaram a morte
total dos rizomas (Claus & Behrens, 1976).
O sulfosato e o glifosato, utilizados como padrões no experimento, não
apresentaram diferenças significativas entre si e com as dosagens de 2,10 e
2,50 kg e.a./ha de glifosato potássico, para o controle da grama-seda. Singh
& Tucker (1983) também obtiveram aumento no controle desta planta daninha
com o aumento na dosagem de 0,56 para 2,24 kg e.a./ha de glifosato.
Aos 43 dias após a aplicação, apenas o tratamento com glyphosate potássico a
2,50 kg e.a./ha manteve controle superior a 90%, porém sem diferir
estatisticamente nos padrões.
Pelos dados obtidos, é possível indicar o uso do glifosato potássico a 2,10 kg
e.a./ha para o controle de grama-seda, sem perda de eficácia em relação ao
sulfosato a 1,98 kg e.a./ha e ao glifosato amínico a 2,16 kg e.a./ha. Isto
levaria a uma redução na dosagem do produto comercial de 6,0 para 4,2 L/ha. No
entanto, este tratamento permite a rebrota, e a reinfestação é mais precoce,
com necessidade de reaplicação para a manutenção dos bons níveis de controle.
A grande quantidade de estolões e rizomas por onde o herbicida tem de
distribuir-se após ser absorvido pelas folhas, é uma das razões para a
necessidade de maiores dosagens para a obtenção de resultados consistentes de
controle. Devido a isso, a dosagem maior de glyphosate potássico (2,50 kg e.a./
ha) proporcionou melhor controle (97,2%) aos 28 DAA e menor rebrota aos 43 DAA.
Considerando-se que ela representa economia de 1,0 L/ha do produto comercial em
relação aos padrões, novos estudos seriam necessários para avaliar-se os
benefícios da equivalência de dosagens comerciais, apesar da maior quantidade
de ativo dispendida neste tratamento.
No entanto, além da dose do herbicida, outros fatores podem interferir no
controle de plantas daninhas com propagação vegetativa, como a temperatura
(Devine et al., 1983), tamanho das gotas e volume de aplicação (McWhorter &
Hanks, 1993).
Com base nos resultados obtidos, torna-se fundamental um estudo da relação
custo/benefício envolvendo dosagens, níveis e períodos de controle, além da
quantidade de rebrotas e rapidez de reinfestação da área.
CONCLUSÕES
Para as condições edafoclimáticas e de infestação da área experimental e com
base nos resultados obtidos, pode-se concluir que a dosagem de 2,10 kg e.a./ha
de glifosato potássico pode ser indicada para o controle de grama-seda, sem
perda de eficácia em relação ao sulfosato e glifosato, com 1,98 e 2,16 kg e.a./
ha, respectivamente. A maior dosagem (2,5 kg e.a./ha) desta formulação foi a
que garantiu menor brotação da planta daninha.