Brotação e produtividade de videiras da cultivar Centennial Seedless (Vitis
vinifera L.) tratadas com cianamida hidrogenada na região noroeste do estado de
São Paulo
INTRODUÇÃO
As fruteiras de clima temperado caracterizam-se pela queda das folhas no final
do ciclo e conseqüente entrada em dormência no inverno, com a drástica redução
de suas atividades metabólicas. Para que estas plantas iniciem um novo ciclo
vegetativo na primavera, é necessário exposição a um certo período de baixas
temperaturas (Petri et al., 1996).
De acordo com Lavee (1973), a dormência de gemas em plantas decíduas é
governada por fatores do meio ambiente que afetam o nível dos hormônios
vegetais, que, por sua vez, controlam as mudanças metabólicas que conduzem à
quebra de dormência. Emmerson & Powell (1978), tentando elucidar este
mecanismo, verificaram que o ácido abscísico endógeno decresceu a níveis muito
baixos quando as gemas de videiras foram expostas a um período de frio, sendo
que, durante a abertura das gemas, este atingiu o seu nível mínimo.
Em estudos conduzidos por Nir et al. (1984), verificou-se que a intensidade da
dormência de gemas estava diretamente relacionada à atividade da catalase que
apresentou acentuada redução com o declínio da temperatura no inverno. A
diminuição da atividade da catalase causou um aumento dos níveis de peróxido de
hidrogênio nos tecidos das gemas, ativando a via metabólica fosfato-pentose, o
que levou ao início da brotação das gemas, seguido por um rápido
desenvolvimento.
Comparadas a outras plantas decíduas, as videiras requerem pouca exposição a
baixas temperaturas para sair da condição de dormência. A necessidade de
temperaturas abaixo de 7oC situa-se entre 50 e 400 horas, variando em função da
cultivar (Dokoozlian, 1999).
Todavia, em regiões de clima tropical, o comportamento fisiológico da videira é
totalmente diverso, o que permite obter produções em qualquer época do ano,
desde que seja feito um controle da época de poda e da irrigação. De acordo com
Albuquerque & Albuquerque (1981), em conseqüência da alteração do
comportamento fisiológico da videira pelas condições climáticas, observa-se uma
acentuada dormência de gemas na maioria das cultivares de videira introduzidas
no Submédio São Francisco, que varia em intensidade conforme a época do ano.
Nessas regiões, faz-se necessária a utilização de compostos químicos para a
quebra artificial da dormência, garantindo uma brotação abundante e uniforme
das gemas (Petri et al., 1996).
A cianamida hidrogenada (H2CN2) é um regulador de crescimento que pode ser
utilizado para quebrar a dormência das gemas de plantas decíduas. O seu modo de
ação ainda não está totalmente esclarecido, podendo estar relacionado aos seus
efeitos no sistema respiratório das células e interferência em alguns processos
enzimáticos que controlam o repouso das plantas, como, por exemplo, a atividade
da catalase (Shulman et al., 1986).
Reddy & Shikhamany (1989) pesquisaram o efeito da cianamida hidrogenada na
quebra de dormência e brotação da videira 'Thompson Seedless' em condições
tropicais. O tratamento com H2CN2 a 3% resultou em alta porcentagem de
brotação, isto é, 88% de gemas brotadas, enquanto, no controle, esta foi de
somente 25%. Além disso, os tratamentos que receberam H2CN2 anteciparam a
brotação em cerca de 10 dias e aumentaram a produtividade por planta.
Na Região de Jundiaí-SP, Pires et al. (1999) constataram que a pulverização das
gemas da videira Niagara Rosada, com cianamida hidrogenada, adiantou a brotação
das gemas e aumentou a porcentagem de gemas brotadas, o número de cachos e a
produtividade por planta. Os melhores resultados foram verificados para as
concentrações de cianamida hidrogenada entre 1,44 e 1,63%. No Rio Grande do
Sul, Miele (1991) obteve resultados semelhantes em videiras da cultivar
Cabernet Sauvignon, sendo que as melhores doses de cianamida hidrogenada, para
as variáveis estudadas, se situaram entre 1,8 e 1,9%.
A região Noroeste do Estado de São Paulo apresenta inverno brando com
temperaturas amenas, o que possibilita a produção de uvas entre os meses de
junho e outubro, fora da época de safra das regiões vitícolas tradicionais.
Nestas condições climáticas, a brotação das gemas das videiras pode ser
deficiente e desuniforme se não for realizada a quebra artificial da dormência.
O uso da cianamida hidrogenada já é bastante difundido entre os produtores
desta região, porém não existem resultados de pesquisa que orientem a adoção
adequada desta prática. Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo
estudar o efeito de diferentes doses de cianamida hidrogenada na brotação e na
produtividade de videiras da cultivar Centennial Seedless, em diferentes
épocas, na região Noroeste do Estado de São Paulo.
MATERIAL E MÉTODOS
Este experimento foi conduzido em vinhedo localizado no município de Urânia-SP,
região Noroeste do Estado de São Paulo. As videiras da cultivar Centennial
Seedless encontravam-se no terceiro ano de produção, no espaçamento 5x3m,
enxertadas sobre porta-enxerto IAC-572 'Jales', conduzidas no sistema de
pérgula e com irrigação por aspersão.
As videiras foram podadas em três épocas distintas, nas datas de 23-03-2001,
05-04-2001 e 20-04-2001; deixando-se de 8 a 10 gemas por vara. Imediatamente
após a poda, realizou-se a aplicação de cianamida hidrogenada mediante imersão
das 4 gemas mais apicais de cada vara em solução aquosa contida em recipiente
confeccionado com tubo PVC. Para o preparo das soluções, utilizou-se do produto
comercial Dormex® (490g.L-1 de H2CN2).
O delineamento experimental foi em blocos ao acaso, para um experimento em
parcelas subdividas, com 6 repetições, 3 níveis do fator primário e 6 níveis do
fator secundário. Os níveis do fator primário foram constituídos pelas três
épocas de realização da poda, sendo cada parcela composta por uma planta. Os
níveis do fator secundário foram as seguintes doses de cianamida hidrogenada:
0; 0,75; 1,5; 2,25; 3,00 e 3,75%. A unidade experimental ou subparcela foi
composta por 4 varas previamente demarcadas.
As seguintes variáveis foram avaliadas:
1. Porcentagem de brotação: 15 dias após a poda, avaliaram-se as 4 gemas
apicais de cada uma das 4 varas marcadas por unidade experimental, computando-
se a proporção de gemas que já haviam brotado, considerando-se como base as
gemas que atingiram pelo menos o estádio de gema em abertura.
2. Porcentagem de ramos desenvolvidos: após a realização da desbrota, em 05-06-
2001, em que foram deixados, no máximo, 2 ramos por vara, eliminando-se os
ramos pouco desenvolvidos ou sem cachos, avaliaram-se as varas demarcadas,
computando-se a proporção de ramos desenvolvidos em relação ao número original
de gemas tratadas.
3. Número de cachos: foi contado o número de cachos totais de cada subparcela.
4. Produção: Os cachos totais de cada subparcela foram pesados em balança de
precisão. A colheita foi realizada nas datas de 02-08-2001, 15-08-2001 e 29-08-
2001, nas parcelas podadas na 1a, 2a e 3a época, respectivamente.
5. Peso médio dos cachos: estimou-se esta variável a partir dos dados de número
de cachos e de produção obtida em cada subparcela.
Os dados dos experimentos foram submetidos à análise de variância. A comparação
entre médias das épocas de poda foi realizada pelo teste de Duncan, ao nível de
5% de probabilidade. Para o estudo dos efeitos de doses de cianamida
hidrogenada, efetuou-se a análise de regressão polinomial.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Não houve interação entre os fatores para a variável porcentagem de brotação.
Independentemente da dose de cianamida hidrogenada, a porcentagem de brotação
na primeira época de poda, realizada em 23 de março, foi inferior às demais
(Tabela_1). As doses de cianamida hidrogenada apresentaram efeito quadrático
para a porcentagem de brotação (Figura_1), sendo que a dose estimada para o
máximo valor foi de 2,89%.
A menor porcentagem de brotação verificada para a poda realizada mais cedo, em
23 de março, independentemente da dose de cianamida hidrogenada utilizada, pode
estar relacionada ao baixo nível de dormência das gemas e, conseqüentemente, ao
amadurecimento inadequado dos ramos, por ocasião da quebra de dormência. A
entrada em dormência, antes do reinício do ciclo vegetativo, parece necessária
para uma adequada brotação das videiras, o que pode estar diretamente associado
à mobilização de nutrientes das folhas senescentes para os órgãos de reservas,
como raízes, troncos e ramos (Ndung'u et al., 1997).
Segundo Fennel et al. (1996), a dormência em videiras é promovida em resposta a
um decréscimo de fotoperíodo. Em Vitis riparia, duas semanas de dias curtos,
com 8 horas de fotoperíodo, promoveram o início da dormência, porém o processo
ainda foi reversível. Entretanto, após 6 semanas de dias curtos, o processo de
dormência estava bem avançado, sem haver nenhum crescimento. Como em março o
fotoperíodo ainda é longo no Estado de São Paulo, possivelmente a realização da
poda neste período não permitiu a dormência adequada das gemas, reduzindo a
brotação das mesmas.
De acordo com Ndung'u et al. (1997), em regiões tropicais, práticas culturais,
como o desfolhamento e a interrupção da irrigação após a colheita, podem ser
benéficas para a brotação das videiras. Estes autores verificaram que a
interrupção da irrigação, por um período de 16 dias após a colheita, aumentou o
conteúdo de ácido abscísico e de açúcares, e as reservas de compostos
nitrogenados nos ramos, tronco e raízes. Em São Paulo, o mês de março ainda
apresenta um bom nível de precipitação, o que pode ter impedido a entrada de
dormência das videiras podadas mais precocemente e o adequado amadurecimento
dos ramos.
O efeito de aplicações de cianamida hidrogenda no aumento da porcentagem de
brotação das gemas está de acordo com os resultados obtidos em outras pesquisas
(Shikhamany et al., 1989; Miele, 1991 e Pires et al., 1999). Shulman et al.
(1986) verificaram que a cianamida hidrogenada é um eficiente agente de quebra
de dormência em plantas decíduas cultivadas em climas quentes. A aplicação de
H2CN2 em gemas de videira resultam na redução da atividade da catalase,
similiar ao que ocorre em videiras mantidas à temperatura de 4oC.
Para a porcentagem de ramos desenvolvidos após a desbrota, constatou-se
interação entre os fatores. As videiras podadas na terceira época, em 20 de
abril, apresentaram menor porcentagem de ramos somente quando não foram
tratadas com cianamida hidrogenada (Tabela_2). Para o fator doses, aplicações
de cianamida hidrogenada aumentaram a porcentagem de ramos após a desbrota,
apresentando efeito linear para as duas primeiras épocas de poda e efeito
quadrático para a terceira época de poda (Figura_2). Para esta última data de
poda, a maior porcentagem de ramos desenvolvidos foi estimada para a dose de
2,38% de cianamida hidrogenada.
A menor porcentagem de ramos desenvolvidos verificada para a terceira época de
poda, em 20 de abril, pode estar diretamente relacionada às condições
climáticas. Com o declínio das temperaturas e do fotoperíodo no início do
outono, os ramos brotados não encontraram condições ideais para o seu
desenvolvimento. Para as videiras que receberam tratamentos com cianamida
hidrogenada, o problema foi amenizado, possivelmente, pela antecipação da
brotação, encontrando, conseqüentemente, condições mais apropriadas para o
desenvolvimento dos ramos. Segundo Shikhamany et al. (1989), videiras da
cultivar Thompson Seedless tratadas com H2CN2 anteciparam a brotação em até 10
dias.
Não houve interação entre os fatores para a variável número de cachos.
Independentemente da época da poda, as doses de cianamida hidrogenada
apresentaram efeito quadrático sobre o número de cachos (Figura_3). Não houve
diferença significativa entre as épocas de poda para esta variável.
O aumento do número de cachos nas varas tratadas com cianamida hidrogenada está
de acordo com relatos de Miele (1991) e Pires et al. (1999). De acordo com
Miele (1991), houve uma relação direta entre porcentagem de brotação e número
de cachos por planta, em videiras da cultivar Cabernet Sauvignon. No presente
trabalho, as videiras não tratadas apresentaram menor porcentagem de brotação e
menor número de ramos desenvolvidos, o que poderia explicar o menor número de
cachos formados.
A interação entre os fatores foi significativa para as variáveis massa média
dos cachos e produção total. Para a variável massa de cachos, poucas diferenças
significativas foram observadas entre as épocas de podas. A massa dos cachos de
videiras podadas na segunda data foi inferior àquelas podadas na terceira e
primeira data para as doses de cianamida hidrogenada de 0,75 e 1,5%,
respectivamente (Tabela_3). As plantas podadas na segunda época, em 05 de
abril, apesar de terem apresentado menores valores de massa dos cachos para
algumas doses de cianamida hidrogenada, não tiveram redução da produção total
em relação às outras épocas (Tabela 5), tendo, inclusive, superado a produção
das plantas podadas na terceira data para as doses de 0 e 3,75% de cianamida
hidrogenada e daquelas podadas na primeira época para as doses de 2,25 e 3,75%
de cianamida hidrogenada.
O fator dose, de cianamida hidrogenada, apresentou efeito linear para as
variáveis produção total e massa dos cachos, na segunda data de poda, e efeito
quadrático na terceira época (Figuras_4 e 5). Para a poda realizada mais
tardiamente, em 20 de abril, a máxima produção total foi estimada para a dose
de 2,25 %.
Ainda que as aplicações de cianamida hidrogenada tenham um efeito significativo
na brotação das gemas dormentes, não se verificou diferença significativa na
produção total em videiras podadas na primeira data. Isto ocorreu,
possivelmente, porque as varas não tratadas, apesar de apresentarem uma
porcentagem de brotação menor, ainda produziram ramos em número e nível de
desenvolvimento adequado para garantir uma produção satisfatória, em função das
condições climáticas mais apropriadas. De acordo com Dokoozlian (1999), o nível
mínimo de quebra de dormência necessário para a produção comercial de uvas
varia em função da cultivar, região e condições de cultivo. Na região de
Coachella Valley, na Califórnia, um nível de 75% de brotação é suficiente para
garantir uma boa produção.
Concluindo, a cianamida hidrogenada pode ser utilizada para aumentar e
uniformizar a brotação das gemas de videiras da cultivar Centennial Seedless,
cultivadas na região Noroeste do Estado de São Paulo. O efeito desta prática no
aumento da produção é mais evidente nas podas mais tardias, realizadas no mês
de abril, quando as condições climáticas se tornam mais limitantes para o
desenvolvimento normal dos ramos.
O efeito da época de poda na brotação de videiras Centennial Seedless,
cultivadas na região Noroeste do Estado de São Paulo, não foi totalmente
esclarecido, devendo ser objeto de futuras pesquisas. Aparentemente, o grau de
dormência e do amadurecimento dos ramos influi diretamente na brotação das
gemas, sendo que as podas mais precoces, no final de março, apresentaram piores
resultados.
CONCLUSÕES
1- A aplicação de cianamida hidrogenada para a quebra de dormência de gemas de
videiras da cultivar Centennial Seedless, na região Noroeste do Estado de São
Paulo, aumentou a brotação e o número de cachos por vara, independentemente da
época de poda.
2- A cianamida hidrogenada aumentou a produção total e a massa dos cachos
somente nas podas realizadas no mês de abril.
3- A dose de cianamida hidrogenada estimada para a maior porcentagem de
brotação foi estimada em 2,89 %, independentemente da época da poda.