Influência da polinização sobre o número de sementes do tangor-'Murcote'
INTRODUÇÃO
O Brasil é o maior produtor mundial de citros; no entanto, sua produção é
basicamente de laranjas destinadas para o processamento. A produção de outros
citros, com qualidade de mesa, é pequena, devido à falta de tecnologia
apropriada (Boteon, 1999). O tangor-'Murcote' (Citrus reticulataBlanco x Citrus
sinensisL. Osbeck) é o principal híbrido de tangerina cultivado no Brasil,
existindo aproximadamente 1,8 milhão de pés desta variedade em cultivo, que
estão produzindo por volta de 3,9 milhões de caixas (40,8kg) por ano,
atualmente (Instituto de Economia Agrícola, 2001).
A 'Murcote' é uma velha variedade de tangor, desenvolvida por W.T. Swingle, na
Flórida, sendo propagada inicialmente por dois citricultores, Charles Murcott
Smith e J. War Smith, ficando conhecida nos Estados Unidos pelos nomes de
Murcott e Smith. Atualmente, possui o nome oficial, nesse país, de tangerina-
'Honey' e, no Brasil, é mais conhecida como tangerina-'Murcote' (Saunt, 1990).
No Estado de São Paulo, esta variedade apresenta frutos de tamanho médio, casca
fina e aderente, de cor laranja-viva. Sua polpa também é laranja-viva,
apresenta bastante suco, com teor adequado de açúcares e possui grande número
de sementes (Figueiredo, 1991).
Atualmente, no mercado externo de frutas cítricas, algumas características são
exigidas, como, por exemplo: ausência de danos na casca, boa qualidade interna,
principalmente uma apropriada relação sólidos solúveis/acidez, e um pequeno
número de sementes (Gravina, 1998).
O número de sementes nos frutos cítricos é freqüentemente controlado por dois
processos naturais: a polinização e a fecundação, que antecedem a frutificação
que se inicia por ocasião do florescimento (Lupo et al., 1991). Dessa maneira,
a polinização cruzada entre variedades pode influenciar severamente o número de
sementes dos frutos cítricos (Frost & Soost, 1968).
Por esta razão, nos países com tradição na produção de fruta fresca, há uma
grande preocupação da pesquisa para estudar estas influências. Estes estudos
são realizados em variedades de importância local, como é caso do tangelo-
'Nova', na Espanha (Ubeda et al., 1989), da tangerina-'Daisy', na África do Sul
(Barry et al., 1995) e do tangor-'Murcote', em Israel (Lupo et al., 1991) e na
Austrália (Wallace & Lee, 1999).
O objetivo deste trabalho foi estudar a influência da polinização sobre as
características dos frutos do tangor-'Murcote', com ênfase para o número de
sementes, nas condições edafoclimáticas do Centro de Citricultura Sylvio
Moreira (CCSM)- IAC, em Cordeirópolis-SP.
MATERIAL E MÉTODOS
A experimentação foi conduzida em 1999, no CCSM/IAC, em plantas de tangor-
'Murcote', com 13 anos, enxertadas em tangerina-'Cleópatra' (Citrus reshniHort.
ex Tan.), plantadas em espaçamento 7x4m. A área experimental foi composta por
21 plantas, onde se instalaram sete tratamentos, como segue: 1. Polinização com
laranja-'Valência'; 2. Polinização com laranja 'Natal'; 3. Polinização com
laranja-'Pêra'; 4. Polinização com tangerina-'Poncã'; 5. Isolamento de flor
completa; 6. Isolamento de flor emasculada, e 7. Testemunha (flor livre). Como
delineamento estatístico, utilizaram-se blocos ao acaso, com três repetições.
Para a instalação do experimento no campo, primeiramente, efetuou-se a coleta
de botões florais fechados, grandes e jovens, das variedades mencionadas nos
tratamentos 1; 2; 3 e 4, para fornecimento de pólen, conforme metodologia
descrita por Cameron & Frost (1968). Estes foram mantidos em placas de
Petri com papel de filtro e acondicionados em estufa à temperatura de 30ºC, por
24 horas.
Posteriormente, os tratamentos foram instalados emoutubro/1999, onde a
polinização controlada foi realizada em 100 flores de tangor-'Murcote' por
tratamento, escolhidas ao acaso, ao redor de cada planta e etiquetadas para
posterior identificação.
A polinização nos tratamentos 1; 2; 3 e 4 foi realizada manualmente, após a
emasculação das flores, utilizando-se dos pólens armazenados. Este procedimento
consistiu na retirada da parte masculina, quando elas se encontravam fechadas e
com tamanho 'cotonete', segundo a metodologia descrita por Socias (1987). No
tratamento 5, as flores foram mantidas intactas (antes de se abrirem),
etiquetadas e ensacadas; no tratamento 6, antes do isolamento, as flores foram
emasculadas e, posteriormente, etiquetadas e ensacadas; no tratamento 7, as
flores foram etiquetadas e deixadas livres para que ocorresse polinização
cruzada ao acaso.
Dois meses após a instalação do experimento no campo (dezembro1999), realizou-
se a contagem do número de frutos fixados e, no mês de outubro/2000, efetuou-se
a colheita. Destes, retirou-se uma amostra de três frutos por planta para a
realização das análises quantitativas e qualitativas.
As determinações de altura e diâmetro dos frutos foram realizadas através da
leitura direta de cada amostra com o auxílio de um paquímetro. O peso total dos
frutos da amostra foi obtido em balança, com precisão de 1 grama. O número de
sementes foi obtido através da contagem direta, nos frutos da amostra (três
frutos/planta). A extração do suco foi realizada em espremedor manual, onde se
obteve o peso para posterior cálculo do rendimento do suco. A leitura do teor
de sólidos solúveis (Brix) foi obtida diretamente em refratômetro (RFM 330). A
acidez foi determinada por titulação de25ml de suco/amostra, com solução de
hidróxido de sódio a 0,3125N, utilizando-se da fenolftaleína como indicadora,
sendo expressa em porcentagem segundo REED et al. (1986), e oratiopela relação
direta Brix/acidez.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
a) Porcentagem de frutos fixados e colhidos
A polinização com a laranja-'Natal' foi o tratamento que propiciou uma
porcentagem maior de frutos fixados, sendo significativamente superior aos
demais (Tabela_1). O tratamento 5, isolamento de flor completa, resultou um
baixo número de frutos e não diferiu da Testemunha. Segundo Wallace & Lee
(1999), a baixa fixação de frutos nestes casos ocorre porque pequena quantidade
de pólen é depositado naturalmente sobre o estigma da mesma flor, sem a ajuda
de um agente polinizador, o que é chamado de auto-polinização ou, ainda, porque
o pólen se torna inviável antes de o estigma estar prontamente receptivo.
Pode-se notar, ainda, que quando se isolam flores emasculadas (Tratamento 6),
não ocorre fixação de frutos, sugerindo que este tangor, nas condições
testadas, não desenvolva frutos partenocárpicos. Lupo et al. (1991), em
experimentação realizada em Israel, obtiveram resultados semelhantes, mostrando
esta incapacidade do tangor-'Murcote' em produzir frutos partenocárpicos. Os
tratamentos com as laranjas-'Valência', 'Pêra' e tangerina-'Poncã' não
diferiram entre si, propiciando um número de frutos inferior ao tratamento 1.
Em relação aos frutos colhidos, os resultados mostram que a polinização com
laranja-'Natal', resultou num maior número de frutos, mas não diferiu dos
tratamentos com 'Valência', 'Poncã', 'Pêra' e a testemunha, diferenciando
apenas dos tratamentos 5 e 6 (Tabela_1). O isolamento de flores completas
apresentou um baixo número de frutos, conforme descrito anteriormente, e não
diferiu significativamente dos tratamentos 1; 3; 4 e 7.
Como não houve pegamento no tratamento 6, este foi desconsiderado nas análises
estatísticas que envolveram os frutos colhidos.
b) Características dos frutos ' peso, diâmetro e altura
Os frutos de maior peso foram observados nos tratamentos 1; 7; 2; 4 e 3, que
não diferiram entre si, sendo que se observaram diferenças estatísticas apenas
entre os tratamentos 1 e 5 (Tabela_2). Praticamente, a mesma observação pode
ser feita para o diâmetro dos frutos, sendo que o tratamento 7 também se
mostrou diferente do 5, enquanto não se observaram diferenças estatísticas para
altura.
Confrontando as Tabelas_1 (dados sobre o número médio de sementes) e 2
(características dos frutos), nota-se que os frutos maiores foram aqueles que
apresentaram maior número de sementes, evidenciando uma correlação entre essas
características. Essa correlação foi relatada por Krezdorn (1967) em algumas
variedades, como tangelo-'Orlando' e laranja-'Valência' e por Mischan &
Salibe (1979) em frutos de tangor-'Murcote'.
c) Análises do suco - peso, rendimento, brix, acidez e ratio
Não houve diferenças significativas entre os tratamentos quanto às análises do
suco (Tabela_3), porém observa-se um maior volume de suco/fruto no tratamento
com laranja-'Valência', mas um rendimento superior na Testemunha. O teor de
açúcares (Brix) foi maior no tratamento 1, enquanto a acidez foi menor no 2.
Assim, o ratio mais alto foi observado no tratamento com 'Natal'. Na Austrália,
Wallace & Lee (1999), estudando a influência de diferentes polens sobre os
frutos de tangor-'Murcote', também não observaram efeitos significativos sobre
a acidez e o teor de açúcares dos mesmos.
d) Número médio de sementes por fruto
Ocorreu um incremento do número médio de sementes do tangor-'Murcote' no
tratamento com laranja-'Valência' (12,0/fruto), em relação aos tratamentos com
'Poncã' (6,3/fruto), 'Pêra' (6,8/fruto) e isolamento de flores completas (5,9/
fruto), o que evidencia a influência da polinização nesta característica do
fruto (Tabela_1).
Por sua vez, a polinização com laranja-'Natal' também apresentou um incremento
do número de sementes (10,3/fruto), porém não diferiu estatisticamente dos
demais tratamentos. Como descrito anteriormente, os tratamentos com 'Poncã',
'Pêra' e isolamentos de flores completas apresentaram uma redução do número de
sementes, diferindo apenas do tratamento empregando-se 'Valência' como
polinizadora. Influências significativas da polinização cruzada sobre o número
de sementes do tangor-'Murcote' também foram observadas por Wallace & Lee
(1999) na Austrália e Lupo et al. (1991) em Israel.
O baixo número de sementes no tratamento onde se isolaram as flores completas,
pode ter sido decorrente da autopolinização do tangor-'Murcote', como já
descrito anteriormente (item a.). Para Wallace e Lee (1999), isso ocorre devido
à pequena quantidade de pólen que é depositada no estigma das flores que
estavam isoladas. Contrariamente, nos demais tratamentos, houve maior
disponibilidade de pólen, tanto naqueles com polinização manual, como naquelas
com polinização aberta (Testemunha), onde, provavelmente, a polinização ocorreu
com a ajuda de agentes polinizadores (abelhas).
Os resultados acima sugerem que pomares de 'Murcote' podem estar próximos ou
intercalados aos de tangerina-'Poncã' e de laranja-'Pêra' que não ocorrerá
incremento no número de sementes, caso ocorra polinização cruzada; ou então
plantá-los em blocos isolados, separados por quebra-ventos para evitar
cruzametos externos.
CONCLUSÕES
1.O tangor-'Murcote', nas condições deste experimento, foi incapaz de produzir
frutos partenocárpicos, mostrou-se auto-compatível e depende de um agente de
polinização para haver boa fixação de frutos.
2.Há um incremento no número médio de sementes dos frutos do tangor-'Murcote'
quando polinizado com as laranjas-'Valência' e 'Natal', e uma redução nos com
laranja-'Pêra' e tangerina-'Poncã', o que evidencia a influência da polinização
cruzada nesta característica dos frutos.
3.Os frutos do tratamento onde se isolou a flor completa, apresentaram baixo
número de sementes, mostrando que a ausência de polinização abertapropicia tal
característica.