Diferenciação floral do abacaxizeiro cv. SNG-3 em função da idade da planta e
da aplicação do carbureto de cálcio
DIFERENCIAÇÃO FLORAL DO ABACAXIZEIRO cv. SNG-3 EM FUNÇÃO DA IDADE DA PLANTA E
DA APLICAÇÃO DO CARBURETO DE CÁLCIO1
INTRODUÇÃO
O abacaxizeiro (Ananas comosus ( L. ) Merril) é cultivado na maioria dos países
de clima tropical e subtropical. No Brasil, são encontrados plantios comerciais
em todo o território, destacando-se os Estados de Minas Gerais, Pará, Paraíba e
Bahia que, em 1999, contribuíram com 70,26% da produção nacional e 61,78% da
área colhida do País (IBGE, 2001). No Acre, com 157 ha colhidos em 1999 (0,28%
da área nacional), o cultivo do abacaxizeiro vem assumindo grande importância
social e econômica. Os plantios baseiam-se nas cultivares locais 'Cabeça-de-
onça','Quinari', 'Rio Branco' e 'SNG-3' (Ritzinger, 1992; Donadio, 2000).
A escassez de conhecimentos sobre o comportamento dessas cultivares no âmbito
do mais racional e econômico manejo é característica limitante do cultivo do
abacaxi no Acre, principalmente na distribuição da produção de frutos ao longo
do ano. Segundo Cunha et al. (1993), quando a cultura é submetida a tratos
culturais adequados, pode produzir comercialmente durante todo o ano, ou então
fora da época normal da safra. Os autores mencionam ainda que a época de
plantio, o tamanho da muda e a idade da planta, por ocasião do tratamento de
indução floral, são fatores que, combinados convenientemente, podem
proporcionar adequado escalonamento da produção, melhor distribuição das
práticas culturais e da mão-de-obra na propriedade e redução das perdas dos
frutos por doenças e pragas, com conseqüente aumento da produtividade e dos
lucros da cultura.
Cunha (1999) menciona que a hora de aplicação do indutor de florescimento é
muito importante, devendo ser feita preferencialmente à noite (entre 20h e 5h),
ou em dias nublados. O horário noturno, portanto, implica maior dificuldade
operacional, além de inconveniente para os agricultores, que não têm estruturas
e hábitos para os trabalhos noturnos.
O conhecimento da indução floral do abacaxizeiro tornou viável o cultivo
racional desta espécie (Ferrão, 1999). Segundo Sampaio et al. (1997), a
diferenciação floral natural pode contribuir para a diminuição do rendimento
quando ocorre de maneira desuniforme, pois determina variações na época de
maturação dos frutos, dificulta os tratos fitossanitários e a colheita. Em
contrapartida, a interferência no processo de diferenciação floral natural, por
meio de indutores do florescimento, a exemplo do carbureto de cálcio (precursor
do acetileno), com eficiência na indução floral superior a 90%, possibilita a
colheita de frutos com padrão comercial em meses com maiores índices
estacionais de preço. Bezerra et al. (1978), em Pernambuco, realizaram indução
floral do abacaxizeiro cv. Smooth Cayenne aos 6; 7; 8; 9; 10 e 11 meses de
idade e concluíram que, com induções precoces, torna-se possível reduzir o
ciclo da cultura e produzir na entressafra. Choairy & Fernandes (1984), em
condições da Paraíba, realizaram induções da cv. Smooth Cayenne aos 8; 10; 12 e
14 meses após o plantio e observaram que o peso médio de frutos com e sem coroa
depende da idade com que as plantas são induzidas ao florescimento, sendo maior
nas induções mais tardias.
A cultivar de abacaxi cv. SNG-3, que apresenta padrão semelhante ao da cv.
Smooth Cayenne (Ritzinger, 1992), e por ser bem adaptada às condições
edafoclimáticas do Estado do Acre, salienta-se à tolerância à acidez e à falta
de água no período seco. Ritzinger (1991) observou que o florescimento natural
da cv. SNG-3 se iniciou aos 15 meses do plantio e o período compreendido entre
o surgimento da inflorescência e a colheita do fruto foi de 118 dias,
totalizando 568 dias, o que pode ser muito longo.
Este trabalho teve como objetivo avaliar a influência do horário de aplicação
do carbureto de cálcio e da idade das plantas na diferenciação floral e
produção do abacaxizeiro cv. SNG-3 nas condições de Rio Branco-Acre.
MATERIAL E MÉTODOS
Este trabalho foi conduzido no Campo Experimental da Embrapa Acre, em Rio
Branco-AC, com coordenadas de S 10º01'30''e W 67º42'18'', e altitude de
aproximadamente 160 m. Utilizou-se a cultivar de abacaxi cv. SNG-3, que
apresenta padrão semelhante ao da cv. Smooth Cayenne (Ritzinger, 1991). O clima
é quente e úmido, com estações seca e úmida bem definidas. A distribuição
mensal de pluviosidade, temperatura e umidade relativa do ar, durante o período
do ensaio, encontra-se na Tabela_1. O solo é classificado como Argissolo
Vermelho de topografia plana, apresentando as seguintes características
químicas: pH (água) = 5,0; P = 1,0 mg dm-3; K = 0,10 cmolc dm-3; Ca + Mg = 3,20
cmolc dm-3; Al = 0,20 cmolc kg-1; e C = 0,53 g kg-1.
O plantio foi realizado no dia 12 de maio de 1999, utilizando mudas tipo
filhote selecionadas por peso (250 a 300 gramas), em covas no espaçamento 0,90
m x 0,40 m, em fileiras simples. Os tratos culturais e adubações seguiram as
recomendações de Choairy (1992). Durante a condução do ensaio, foram feitas
quatro pulverizações com dois gramas por litro do inseticida Carbaryl, para
controle do percevejo-do-abacaxizeiro (Thlastocoris laetus Mayr, 1866).
O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições,
em esquema fatorial, sendo combinados três idades de indução (aos 8, aos 10 e
aos 12 meses após o plantio) e dois horários de aplicação, manhã (07h 30 ± 20')
e tarde (15h 30 ± 20'), além da testemunha (indução natural versus carbureto),
totalizando sete tratamentos. O delineamento pode ser representado de acordo
com a seguinte matriz [(3 x 2) + 1]. As parcelas foram constituídas por 40
plantas distribuídas em quatro filas de 10 plantas, considerando-se úteis as 20
plantas das duas filas centrais, descartando-se as laterais, que compuseram a
bordadura. A comparação das médias foi feita pelo teste de Tukey.
O estímulo da indução floral foi feito com carbureto de cálcio comercial, na
forma sólida, em pedras com peso médio de 0,8 g/planta em única aplicação, nos
horários da manhã ou tarde, conforme o respectivo tratamento, com auxílio de um
funil de tubo prolongado, colocado no centro da roseta foliar.
As avaliações das plantas e dos frutos foram realizadas a partir da colheita,
procedida quando os frutos apresentavam cerca de 30% a 50% da casca com
coloração amarelada. Avaliaram-se os seguintes caracteres: altura das plantas,
determinada da superfície do solo até a extremidade terminal do pedúnculo (base
do fruto); diâmetro do pedúnculo, aferido no terço mediano com auxílio de um
paquímetro digital; número de filhotes; número de rebentos (mudas tipo filhote-
rebentão e rebentão); porcentagem de floração (emissão de inflorescências
observadas aos 60 dias após o tratamento de indução, ou na colheita, no caso da
indução natural); índices físicos da fruta: peso com e sem coroa; peso da
coroa; índices químicos: acidez total titulável do suco (% de ácido cítrico);
sólidos solúveis totais (SST) por meio de refratômetro manual, com posterior
correção dos valores observados para temperatura ambiente, de acordo com
Pregnolatto & Pregnolatto (1985); e, por último, a relação SST/acidez.
As análises estatísticas foram realizadas utilizando o Software Científico/
Núcleo Tecnológico para Informática Agropecuária - SOC/NTIA (Paniago, 1987).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Houve diferenças significativas na altura (ALT), no diâmetro de pedúnculo (DP),
número de filhotes (NF), número de rebentões (NR), porcentagem de plantas
floradas (PPF), peso da fruta com coroa (PFCC) e sem coroa (PFSC), peso da
coroa (PC), acidez titulável (AT), sólidos solúveis totais (SST) e relação SST/
AT das plantas induzidas artificialmente, em relação às idades de indução
(Tabelas_2 e 3). Quanto ao horário de aplicação do indutor floral, houve
diferença significativa apenas para a altura e porcentagem de plantas floradas.
Para todos os caracteres analisados, a interação entre os fatores idade de
indução e horário de aplicação do carbureto de cálcio foi não significativa,
mostrando que a resposta do abacaxizeiro cv. SNG-3 à idade de indução independe
do horário em que o mesmo é aplicado. Houve diferença significativa do
tratamento adicional (indução natural versus carbureto de cálcio) para os
caracteres ALT, DP, NF, NR, PPF, PFCC, PFSC e SST. Para o PC, AC e SST/AC, não
houve diferença significativa (Tabelas_2 e 3).
Idade de indução
Nas Tabelas_4 e 5, observa-se a comparação das médias, permitindo a análise dos
efeitos isolados de cada fator. A resposta das plantas à idade em que foram
induzidas ao florescimento mostrou altura maior para aquelas tratadas com
carbureto de cálcio aos 12 meses do plantio e menor para as induzidas aos 10
meses, que superaram as estimuladas artificialmente aos 8 meses do plantio
(Tabela_4). Este resultado está de acordo com Ferrão (1999), que menciona ser a
influência do carbureto de cálcio responsável pela mudança da fase vegetativa
para a reprodutiva, o que resultou em plantas de porte variando de acordo com
sua idade de indução. Comportamento semelhante foi verificado para o DP e
número de mudas tipo filhote, o que pode ser atribuído à maior idade e
desenvolvimento vegetativo dos abacaxizeiros quando ocorreu o estímulo à
floração. Esses resultados foram semelhantes aos obtidos por Melo (1993). A
produção de mudas tipo rebentão (filhote-rebentão e rebentão) não foi alterada
pela idade de indução (Tabela_4). Choairy et al. (1994a) verificaram que, para
a cv. Smooth Cayenne, a produção de rebentos/ha foi significativamente maior
com a indução floral realizada aos 12 meses do plantio.
Observa-se ainda, na Tabela_4, menor porcentagem de floração (48,75%) para as
plantas induzidas aos 8 meses que para as tratadas aos 10 (83,12%) e 12 meses
(93,12%), correspondendo a um aumento médio superior 80%, atribuindo-se ao
menor estádio vegetativo apresentado pelas plantas aos 8 meses do plantio.
Segundo Cunha (1999), a resposta ao tratamento de indução artificial varia de
acordo com o vigor e taxa de crescimento da planta.
A indução aos 8 meses reduziu o ciclo do abacaxizeiro de 575 dias (plantas que
não receberam carbureto de cálcio) para 398 dias (Tabela_5). No entanto, o PFCC
e PFSC foram menores que o dos frutos produzidos aos 10 meses (ciclo de 475
dias) e 12 meses (ciclo de 558 dias), atribuindo-se ao desenvolvimento
vegetativo das plantas no momento da indução da floração. A colheita aos 475 e
558 dias do plantio antecipa a produção de frutos da cv. SNG-3 em 100 dias (3,3
meses) e 17 dias, respectivamente, em relação às plantas estimuladas ao
natural. Salienta-se que, mesmo com pequena diferença no ciclo das plantas
induzidas aos 12 meses, há vantagens no uso da indução devido à melhor
uniformidade na floração e maturação dos frutos (Reinhardt & Cunha, 2000).
Na indução aos 12 meses do plantio, houve aumento no ciclo da cultura de 83
dias (558-475), em relação à indução aos 10 meses, proporcionando aumento do
ciclo de 23 dias, devido, provavelmente, à maior regularidade das condições
climáticas (precipitação, temperatura, umidade, nebulosidade, luminosidade)
ocorrida no período de crescimento e maturação dos frutos das plantas induzidas
aos 12 meses. As plantas estimuladas aos 10 e 12 meses não apresentaram
diferença significativa entre si. Os resultados comprovam os de outros autores
que obtiveram frutos de abacaxi mais pesados quando as plantas foram induzidas
ao florescimento mais tardiamente (Vieira et al., 1983; Choairy &
Fernandes, 1984; Cunha et al., 1993; Melo, 1993; Choairy et al. 1994a, 1994b).
O maior peso dos frutos sem coroa apresentados pelas plantas induzidas à
floração aos 10 e 12 meses após o plantio, com 872 g e 908 g, respectivamente,
em relação àquelas tratadas aos 8 meses (698 g), enquadra-se, segundo Coelho
& Cunha (1982), nos padrões de peso de 700 a 1.500 g destinados ao consumo
in natura.
Plantas induzidas pelo estímulo natural (cerca de 13 meses do plantio)
produziram frutos maiores (peso médio de 1.040 g) que as induzidas aos 8; 10 e
12 meses (frutos com peso médio de 998 g) (Tabela_5), devido ao menor
desenvolvimento vegetativo, com conseqüente menor quantidade de reservas
acumuladas destas plantas, no momento da indução da floração.
Quanto ao PC, observou-se que as plantas induzidas aos 8 meses produziram
coroas menos pesadas (154 g) (Tabela_5). Quando induzidas aos 10 meses, o peso
da coroa (192 g) foi maior que o das induzidas aos 12 meses (171 g). Estes
resultados estão de acordo com os observados para a cv. Pérola, por Melo
(1993), e por Manica et al. (1994), para a cv. Smooth Cayenne, que obtiveram
maiores pesos de coroas nas frutas cujas plantas foram induzidas mais
precocemente. Não houve diferença entre PC das plantas induzidas em relação às
estimuladas ao natural (Tabela_5).
As plantas induzidas com idade mais avançada (10 e 12 meses do plantio)
produziram frutos com menor acidez e mais ricos em sólidos solúveis totais
(Tabela_5). Comportamento semelhante da influência da idade de indução floral
do abacaxizeiro sobre a qualidade do fruto também foi observado em outros
trabalhos com a cultivar 'Smooth Cayenne', por Choairy & Fernandes (1984) e
Choairy et al. (1994a), e com a cultivar 'Pérola' (Choairy et al., 1994b).
Horário de aplicação
Nas Tabelas_4 e 5, verificou-se que houve influência do horário de aplicação do
carbureto de cálcio apenas sobre AP e PPF. As plantas induzidas no horário da
tarde apresentaram maior altura (41 cm) que as induzidas pela manhã (39 cm).
Em relação ao horário de aplicação do indutor floral, verificou-se que, no
horário da manhã, a emissão da inflorescência (81,67%) superou a PPF do horário
da tarde (68,33%) (Tabela_4). A melhor resposta observada no horário matinal
pode ser devido à ocorrência de maior absorção do produto aplicado, favorecida
pelas condições ambientais do mesmo (horário mais fresco), associadas à
melhores atividades fisiológicas da espécie (metabolismo ácido das
crassuláceas, abertura de estômatos). De acordo com Py et al., citados por
Cunha (1999), é importante que os estômatos permaneçam abertos por três a
quatro horas após a aplicação do indutor.
O horário de aplicação do carbureto de cálcio, manhã ou tarde, não influenciou
a qualidade dos frutos (peso e índices químicos) (Tabela_5).
CONCLUSÕES
1. O carbureto de cálcio estimulou a floração do abacaxizeiro cv. SNG-3, com
melhor indução, quando a aplicação foi realizada a partir dos 10 meses do
plantio, favorecendo a produção de frutos menos ácidos e mais ricos em sólidos
solúveis, em ciclos menores.
2. A indução aos 8 meses antecipa a colheita em 177 dias, mas os frutos
apresentam baixa qualidade.
3. O horário de aplicação do carbureto de cálcio, pela manhã, influenciou a
altura e a floração das plantas, sem alterar a qualidade (peso, acidez e SST)
dos frutos de abacaxi cv. SNG-3.