Viabilidade econômica do uso da tela antigranizo em pomares de pêra-japonesa
VIABILIDADE ECONÔMICA DO USO DA TELA ANTIGRANIZO EM POMARES DE PÊRA-JAPONESA1
INTRODUÇÃO
A cultura da pêra envolveu 333 produtores no Estado de Santa Catarina, no ano
de 2000, correspondendo a uma área plantada de 400,6 ha (Faoro, 2001). Dentro
da cultura da pêra, a de origem japonesa (também conhecida por Nashi) é a que
vem despontando com uma nova alternativa para a pequena propriedade
catarinense. Isto se deve principalmente pelos plantios que vêm sendo feitos
nas colônias japonesas no Sul do Brasil e em função dos bons preços que a pêra-
japonesa tem atingido no mercado. Estes, segundo Faoro (2001), têm estado entre
U$ 0,31 e 0,90 / kg.
Existem poucas informações à disposição dos produtores de pêra-japonesa. Isto
faz com que sejam necessários esforços por parte da pesquisa pública envolvida
no sentido de atender às demandas de informações que surgem Uma destas demandas
diz respeito à viabilidade do uso da tela de proteção ao granizo. A dúvida
caracteriza-se pelo fato de que o investimento necessário é considerado alto,
requerendo uma análise de sua viabilidade econômica. Face a isto, o presente
estudo tem por objetivo estudar a viabilidade econômica de implantar a tela de
proteção ao granizo em pomares de pêra-japonesa.
MATERIAL E MÉTODOS
Inicialmente, foram obtidas as informações relativas aos custos de produção de
pêra-japonesa. Estas foram coletadas junto aos pesquisadores que atuam com a
cultura e validados junto aos produtores, em agosto de 2001. O investimento
necessário para a implantação de 1 hectare de tela antigranizo foi obtido junto
a uma empresa fornecedora e validado junto aos pesquisadores. O preço de venda
da pêra-japonesa utilizado (R$ 0,70/kg) corresponde ao preço médio recebido
pelos produtores na safra 2001 e corrigido monetariamente para agosto de 2001.
As informações de produtividade foram, também, obtidas junto aos pesquisadores
e validados junto aos produtores.
O modelo matemático usado é o do cálculo da TIR (Taxa Interna de Retorno),
conforme usado por Kreuz (2002):
onde FC0 representa o fluxo de caixa inicial (ano zero do investimento),
FCjrepresenta o fluxo de caixa no "j-ésimo" ano do empreendimento, n
representa o último ano do empreendimento (derrubada do pomar), i representa a
taxa interna de retorno. Para fins operacionais, todos os desembolsos (fluxo de
caixa negativo) são representados com o sinal negativo e todas as receitas
(fluxo de caixa positivo) o são com o sinal positivo. O fluxo de caixa é obtido
pela subtração entre as receitas e os desmbolsos do ano, supondo que os mesmos
ocorram, para facilitar o cálculo, simultaneamente no início do período. O
fluxo de caixa operará em moeda constante, a valores de agosto de 2001.
O modelo desenvolvido supôs uma vida útil de 20 anos para o pomar de pêra e que
a tela fosse instalada por ocasião da primeira colheita, no terceiro ciclo. A
condição edafoclimática do local encontra-se descrita em Petri (1986). O
sistema de condução do pomar corresponde ao sistema de condução livre (líder
central). O detalhamento da tecnologia de produção pode ser vista em Epagri
(2001).
A recomendação (ou não) do uso da tela antigranizo seguiu os resultados obtidos
da aplicação do modelo (1) com e sem o uso da tela.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para um produtor que se dispõe a ingressar nesta atividade, o investimento
inicial para implantar 1 ha de pomar chega a R$ 5.775,00 (preços de agosto de
2001), valor este que inclui o próprio valor da terra (Tabela_1). O item de
maior valor unitário é representado pelo custo das mudas (R$ 1.515,00).
Os desembolsos anuais para a manutenção de 1 ha de pomar adulto de pêra-
japonesa atingem R$ 11.107,80 (preços de agosto de 2001), sendo o custo de
ensacamento dos frutos o de maior relevância (Tabela_2). É importante que se
destaque que a cultura da pêra é intensiva em mão-de-obra, principalmente face
à atividade de ensacamento dos frutos, a qual demanda em torno de 200 dias de
serviço humano por hectare.
Com relação à tela antigranizo, o custo da implantação de 1ha atinge o valor de
R$13.235,50 (Tabela_3). Considerando-se que a tela possui uma vida útil de 5
anos e que os demais itens (mourões, arames, etc,) tenham uma vida útil de 10
anos, obtém-se um custo anual da tela de R$ 2.011,55 (preços de agosto de
2001).
Não se dispõe de informações precisas quanto às possíveis perdas em lavouras em
função do granizo. Petri et al. (2001), estudando o uso de tela de proteção na
cultura da macieira, relatam, com base em dados de 5 anos, perda média anual de
6,54% em empresa localizada na cidade de Fraiburgo-SC. Relatam, também, perdas
de 45,9% (cultivar Gala) e de 19,4% (cultivar Fuji) em área experimental na
cidade de Fraiburgo, no ano de 2000. Com base nestas informações, julga-se
conveniente supor-se uma perda anual de 10% em pomares de pêra-japonesa.
Desta forma, para fins da presente análise, supõe-se que um pomar com o uso da
tela de proteção mantém o seu faturamento (receitas) em uma condição normal,
enquanto os custos ficam acrescidos do custo anual da tela de proteção. Já um
pomar sem o uso da tela tem o seu faturamento reduzido em 10% (dano médio anual
do granizo), enquanto seus custos não ficam acrescidos do custo anual da tela
de proteção. Os respectivos fluxos de caixa, tendo por base um preço de venda
de R$ 0,70/kg, são apresentados na Tabela_4.
A TIR anual encontrada foi de 36,07% (2,60% ao mês) para um pomar sem o uso da
tela e de 34,11% (2,48% ao mês) para um pomar com o uso da tela. Portanto, o
uso da tela faz com que haja uma leve redução na rentabilidade de todo o pomar.
Contudo, a rentabilidade, ao se investir em pomar de pêra-japonesa, com ou sem
o uso da tela de proteção ao granizo, supera em, pelo menos, quatro vezes as
aplicações em caderneta de poupança. Supera, também, a rentabilidade que pode
ser obtida em empreendimentos florestais na região, a qual se aproxima de 1% ao
mês (Kreuz e Baú, 2001) e os da cultura da macieira, que se aproximam de 1,7%
ao mês (Kreuz, 2002).
Desta forma, a decisão quanto ao uso da tela de proteção fica atrelada a
aspectos de segurança de mercado ou de disponibilidade de recursos financeiros.
O aspecto do mercado evidencia-se uma vez que o uso da tela evita a oscilação
na produção, vindo o produtor a dispor de fruta com boa qualidade em todos os
anos.
Além disto, apesar de o retorno econômico do pomar ser levemente reduzido com o
uso da tela, este mantém-se em um patamar elevado, sendo recomendado para as
situações onde não existam limitações de recursos financeiros. São raras as
atividades (alternativas de investimento) à disposição do produtor que lhe
possibilitem um retorno mensal de 2,48%. Ferree et al. (1989); Kreuz (2002) e
Fett e Waquil (2001), em estudos com a cultura da macieira, recomendam, também,
sistemas de produção intensivos em capital que reduzem levemente a taxa de
retorno.
CONCLUSÕES
1. A taxa de retorno de investimentos na cultura da pêra-japonesa, a qual gira
em torno de 2,48% e 2,60% ao mês, independentemente do uso ou não da tela de
proteção ao granizo, é considerada muito boa.
2. A decisão quanto ao uso ou não da tela de proteção fica condicionada a
disponibilidade financeira do produtor, sendo recomendada quando não houverem
restrições desta ordem.