Maturação de frutos de seis cultivares de laranjas-doces na Depressão Central
do Rio Grande do Sul
MATURAÇÃO DE FRUTOS DE SEIS CULTIVARES DE LARANJAS-DOCES NA DEPRESSÃO CENTRAL
DO RIO GRANDE DO SUL1
INTRODUÇÃO
O Brasil, dentro do contexto mundial, é o maior produtor de frutas cítricas,
com uma produção que, segundo a Fao (1998), ultrapassa 23 milhões de toneladas.
Deste montante, a produção principal é de laranjas, com predominância das
cultivares Pêra, Natal e Valência, sendo em menor escala produzidas as
laranjas-'Hamlin', 'Lima' e do tipo umbigo ('Bahia', 'Baianinha' e 'Monte
Parnaso'). O Rio Grande do Sul é o quinto maior produtor nacional de laranjas.
As condições ambientais do Estado favorecem a produção de frutos com coloração
atrativa e boa relação açúcar/acidez, características muito valorizadas pelos
mercados de fruto fresco e para a elaboração de sucos de alta qualidade. Apesar
disso, a produção de laranjas do Rio Grande do Sul ainda é insuficiente para o
abastecimento do mercado interno. Segundo Koller (1994), o Estado importa
aproximadamente 52% de laranjas, 48% de limas-ácidas-'Tahiti' e 5% de
tangerinas.
Em termos econômicos, o cultivo de citros é de grande importância,
principalmente na Depressão Central do Estado, onde os pomares se localizam na
sua grande maioria nas regiões dos rios Caí e Taquari. Estas são compostas,
predominantemente, de pequenas propriedades rurais (Dornelles, 1980).
Segundo a classificação de Köppen, o clima do Estado do Rio Grande do Sul é
classificado como subtropical úmido - Cfa, com temperatura média do mês mais
quente superior a 22ºC e a temperatura média do mês mais frio mantém-se entre 3
e 18ºC. Esta condição climática, de acordo com Agustí & Almela (1991),
favorece a produção de frutos com maior teor de sólidos solúveis totais, em
especial de açúcares, e melhor coloração da casca, em comparação com regiões
mais quentes.
Cunha Sobrinho et al. (1992) consideraram a temperatura como fator mais
importante do clima dentre os fatores que influenciam a qualidade dos frutos,
como, por exemplo, tamanho e formato de frutos, coloração da casca e estágio de
maturação. Albrigo (1992) cita que, além da temperatura, a disponibilidade de
água no solo e umidade do ar também influenciam no desenvolvimento do fruto. Em
períodos de umidade excessiva, o fruto aumenta de tamanho, mas os teores de
sólidos solúveis e acidez titulável são diluídos e, em períodos de estiagens,
ocorre o contrário. Outros fatores, como a carga de frutos na planta,
irrigação, porta-enxertos, nutrição, insetos e doenças também influenciam a
qualidade dos frutos cítricos.
O período de crescimento exponencial, ou Fase I, dura desde a antese até o
final da caída fisiológica dos frutos e caracteriza-se por um rápido
crescimento do fruto pela divisão celular. A Fase II, ou período linear,
prolonga-se desde o final da caída fisiológica dos frutos até pouco antes de
sua mudança de cor, e é caracterizada por uma expansão dos tecidos, aumento
celular e a formação de um mesocarpo esponjoso, com a ausência de divisão
celular em quase todos os tecidos, exceto do exocarpo. Na terceira e última
Fase ou amadurecimento, ocorre uma reduzida taxa de crescimento e compreende
todas as mudanças associadas ao amadurecimento (Agustí et al., 1995).
A maturação dos frutos cítricos é caracterizada por uma fase de reduzida taxa
de crescimento. Neste estádio, ocorre a mudança de cor da casca, em
conseqüência da degradação enzimática das clorofilas e da síntese de
carotenóides no flavedo. Este estádio caracteriza-se também pelo aumento dos
teores de sólidos solúveis totais, sobretudo açúcares, e de compostos
nitrogenados, aminoácidos principalmente, e uma concomitante redução de ácidos
orgânicos (Agustí et al., 1995).
Segundo Rodriguez (1987), em climas frios, a determinação do ponto de colheita,
baseando-se na mudança da coloração da casca, é mascarada pela aceleração da
redução de clorofila e o aumento de pigmentos carotenóides na casca dos frutos.
Estas alterações na pigmentação não permitem que se estabeleça uma boa
correlação entre cor da casca e maturação interna do fruto.
Conforme Marchi (1993), o aumento da concentração de açúcares ocorre durante
toda a fase de crescimento e maturação dos frutos, estando diretamente
relacionado à intensidade do processo fotossintético e, por sua vez, à
temperatura e à intensidade de luz. Quanto aos ácidos, eles são formados no
ciclo dos ácidos tricarboxílicos nas mitocôndrias das células formadoras do
suco, sendo o cítrico o primeiro a ser elaborado.
Agustí & Almela (1991) mencionam 3 fases de crescimento dos frutos:
exponencial, linear e de maturação. A síntese dos ácidos orgânicos é intensa
nos dois primeiros estádios de desenvolvimento do fruto: Fase I, de crescimento
exponencial, desde a antese até o final da queda natural, e Fase II, de
crescimento linear, desde a queda natural até o início da coloração da casca,
mantendo-se então constante na Fase III, em valor absoluto, até o final da
maturação. Contudo, com o aumento do tamanho final do fruto, ocorre uma redução
na concentração de ácidos por um efeito de diluição. Este decréscimo em
concentração da acidez total titulável, concomitante com o incremento dos
sólidos solúveis totais, durante todo o desenvolvimento do fruto, resulta em um
incremento da relação sólidos solúveis totais/acidez titulável total (SST/ATT),
usado como parâmetro para indicar o ponto de maturação comercial. Segundo
Ziegler & Wolfe (1975), citado por Genú et al. (1981), o teor de SST mínimo
para que o fruto possa ser considerado maduro é de 9%.
Nos estudos realizados por Kefford & Clandler, citados por Chitarra &
Chitarra (1979), os frutos apresentaram um crescente aumento da relação SST/
ATT, seguido de um pequeno decréscimo na fase final, sendo esta relação o
índice mais representativo de maturidade. Segundo Salibe (1977), os frutos para
consumo in natura devem apresentar SST/ATT acima de 8 e um teor de suco acima
de 35%. Outros autores, como Jones et al. (1962), consideram como maduros, e
adequados para o consumo, frutos que apresentam SST/ATT entre 8,8 e 15,4.
Manica (1966), citado por Koller (1994), classifica a relação SST/ATT de acordo
com as zonas produtoras: para a zona do Planalto Paulista e Sul do Brasil, a
relação ideal para consumo de laranja é de 6,5:1; e, para Litoral Brasileiro e
Baixada Fluminense, a relação é de 8:1. As indústrias processadoras de laranja
exigem uma relação mínima de 10:1 (Campos, 1976).
Sartori et al. (1998), no Rio Grande do Sul, determinaram épocas ideais de
maturação de tangerineiras, relacionando características físicas e químicas dos
frutos. A relação de SST/ATT de 8:1 foi tomada como indicadora do ponto inicial
de maturação; entretanto, o ponto final variou conforme o comportamento
particular de cada variedade.
Fundamentados em observações feitas em pomares dos vales dos rios Taquari e
Caí, no Rio Grande do Sul, Porto et al. (1995) apresentam as seguintes épocas
de colheita para as variedades de laranjeiras ali mais cultivadas: 'Céu'
(Piralima), de abril e junho; 'Piralima-Tardia', de junho a setembro; 'Bahia',
de maio a agosto; 'Monte Parnaso', de agosto a outubro; 'Hamlin', de maio a
julho; 'Pêra', de setembro a dezembro e 'Valência', de setembro a dezembro.
Vários estudos, realizados no Brasil e em outros países, mostram que a época de
maturação e colheita dos frutos é afetada por diversos fatores, dentre os
quais, pelo clima e solo. Assim sendo, neste trabalho, procurou-se determinar o
período de maturação de seis cultivares de laranjeiras-doces, na região de
Eldorado do Sul, Depressão Central do Estado do Rio Grande do Sul, com o
objetivo de caracterizar a amplitude do período de colheita, do início da
maturação ao começo da senescência dos frutos, para cada cultivar, nesta
região.
MATERIAIS E MÉTODOS
Para a realização deste trabalho, foram usados frutos provenientes de
laranjeiras-doces (Citrus sinensis[L.] Osbeck), enxertadas sobre limoeiro-
'Cravo', dos 12 aos 17 anos de idade, plantadas no espaçamento de 5 X 8m, num
pomar de coleção de variedades de citros da Estação Experimental Agronômica da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no município de Eldorado do Sul, em
solo Podzólico Vermelho Amarelo com declive médio estimado em 10% e clima cfa,
temperado sem estação seca definida, temperatura média do mês mais quente
superior a 22º C e temperatura média do mês mais frio entre 3 e 18º C (Moreno,
1961). Os tratos culturais foram uniformes para todas as plantas e seguindo
recomendações de Koller (1994).
Foram avaliados os frutos de 5 árvores de cada cultivar. Os frutos das
cultivares Rubí, Hamlin, Tobias e Pêra-Rio, foram avaliados durante 6 anos, de
1992 a 1997; enquanto os frutos das cultivares 'Valência' e 'Folha-Murcha'
foram avaliados por 5 e 3 anos, iniciando-se o período de amostragem em 1993 e
1995, respectivamente.
Para análises físicas e químicas, quinzenalmente, foram colhidas amostras desde
março a fevereiro, dependendo de cada cultivar. Cada amostra foi composta por
20 frutos, mediante colheita aleatória de um fruto de cada quadrante, de cada
planta, na altura de 1,5 metro da copa, de acordo com recomendações de Sites
& Reitz, apud Chitarra & Chitarra (1979) e Mars et al. (1994),
metodologia já utilizada por Sartori et al. (1998).
Após a colheita, os frutos foram acondicionados em sacos plásticos e
conservados em câmara fria com temperatura variável entre 4 a 7°C, durante 1 a
5 dias, até o momento da análise no Laboratório do Departamento de Horticultura
e Silvicultura da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Foram realizadas as seguintes determinações: peso dos frutos (g); peso
do bagaço (g); rendimento em suco (%), obtido através de espremedor elétrico,
calculando-se a relação peso de suco/peso do fruto; acidez titulável total
(ATT) do suco, determinada por titulometria com solução de NaOH 0,1N e
indicador fenolftaleína (%); sólidos solúveis totais (SST), determinado com o
uso de sacarímetro de bulbo (ºBrix) e relação SST/ATT.
A análise estatística dos dados obtidos seguiu um esquema experimental,
considerando as épocas de coleta das amostras de frutos como tratamentos e os
anos de observação, em cada cultivar, como repetições. Os dados de cada
variável foram submetidos a análises de variância, seguidas análises de
regressão, com nível 5% de significância.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os frutos da laranja-'Hamlin' alcançaram a relação SST/ATT superior a 6:1,
mínima satisfatória para consumo, na segunda quinzena de abril, e permaneceram
nas plantas, aptas para consumo, até a primeira quinzena de outubro, com
relação SST/ATT inferior a 12 (Tabela_1 e Figura_1).
Os frutos da cultivar Rubi atingiram relação SST/ATT de 6:1 na segunda quinzena
de maio e permaneceram nas plantas, aptas para consumo, até a primeira quinzena
de outubro, com relação SST/ATT de aproximadamente 9 (Tabela_1 e Figura_2).
Nos frutos da cultivar 'Tobias', a relação SST/ATT de 6:1, foi alcançada a
partir da segunda quinzena de julho e mantiveram-se nas árvores, aptas para
consumo, até a primeira quinzena de novembro, com relação SST/ATT não superior
a 10 (Tabela_1 e Figura_3).
Nos frutos da laranjeira-'Pêra-Rio' (Tabela_1 e Figura_4), a relação 6:1 foi
atingida na segunda quinzena de agosto, sendo que os frutos se mantiveram nas
árvores, em boas condições de consumo, até a primeira quinzena de fevereiro,
com relação SST/ATT de aproximadamente 10.
Na cultivar Valência (Tabela_1 e Figura_5), os frutos só atingiram a relação
SST/ATT de 6:1 na segunda quinzena de setembro e mantiveram-se retidos nas
árvores, aptos para o consumo, até a primeira quinzena de janeiro.
Já para os frutos de laranjas-'Folha-Murcha' a relação SST/ATT também só
alcançou um valor igual ou superior a 6:1 na segunda quinzena de setembro e
mantiveram-se retidos nas árvores, aptos para o consumo, até a segunda quinzena
de fevereiro (Tabela_1 e Figura_6).
Desde o início até o final da fase de maturação, nos frutos de todas as
cultivares, os teores de SST foram crescentes, conforme o constatado por
Halpern & Zur (1988). Segundo esses pesquisadores, o aumento do teor de SST
está relacionado com o decréscimo do teor da ATT.
A relação SST/ATT, nos frutos das cultivares estudadas, nunca atingiu o índice
de 16:1, considerado como limite máximo, acima do qual o sabor do fruto se
torna insípido, impróprio para o consumo in natura (Jones, 1962). O teor de ATT
apresentou variação decrescente, em praticamente todas as variedades avaliadas,
com pequenas oscilações.
Os teores de suco oscilaram entre 50 e 60%, nunca baixaram até o índice de 35%,
citado por Salibe (1977) e Jones et. al. (1962) como limite mínimo aceitável
para frutos de mesa.
Os resultados obtidos neste trabalho mostram que o período de colheita dos
frutos das cultivares Valência, Pêra-Rio e Hamlin, em Eldorado do Sul, podem
prolongar-se, respectivamente, por mais 30; 45 e 75 dias, além da época
especificada como limite, por Porto et. al (1995), nos vales dos rios Taquari e
Caí. Isso pode ser atribuído principalmente às temperaturas, que, nesta região,
em geral, são um pouco mais altas nos meses mais frios, acelerando a maturação
e senescência dos frutos.
Os dados obtidos nesta pesquisa mostraram também que, em geral, os frutos de
todas as variedades conservaram boas características físico-químicas até as
datas finais, de coleta das últimas amostras, sem evidenciar senescência que,
em geral, coincide com a queda dos frutos por causas fisiológicas. Neste
trabalho, não foi possível prolongar o período de avaliações, porque ocorreu a
queda dos frutos, em princípio não relacionada com fatores fisiológicos, mas,
sim, ao ataque de moscas-das-frutas, carências hídricas e temperaturas altas em
alguns dias de verão.
CONCLUSÕES
1. Na região de Eldorado do Sul, a colheita de laranjas pode ser iniciada na 2ª
quinzena de abril, com laranjas-'Hamlin', e prolongar-se até a 2ª quinzena de
fevereiro, com laranjas-'Folha-Murcha';
2. Os períodos de colheita das cultivares estudadas são:
a. 'Hamlin': desde a 2a quinzena de abril até a 1a quinzena de outubro;
b. 'Rubi': desde a 1a quinzena de maio até a 2a quinzena de outubro;
c. 'Tobias': desde a 2a quinzena de agosto até a 2a quinzena de novembro;
d. 'Pêra-Rio': desde a 2ª quinzena de agosto até a 1a quinzena de fevereiro;
e. 'Valência': desde a 1a quinzena de setembro até a 1a quinzena de fevereiro;
f. 'Folha-Murcha': desde a 2a quinzena de setembro até a 2a quinzena de
fevereiro.