Influência do manejo do solo na conservação, qualidade sensorial, teor de
nutrientes e incidência de fitopatias e fisiopatias pós-colheita de pêssegos
cv. Cerrito
INFLUÊNCIA DO MANEJO DO SOLO NA CONSERVAÇÃO, QUALIDADE SENSORIAL, TEOR DE
NUTRIENTES E INCIDÊNCIA DE FITOPATIAS E FISIOPATIAS PÓS-COLHEITA DE PÊSSEGOS
cv. CERRITO
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INTRODUÇÃO
Embora o consumo per capita de pêssegos no Brasil seja baixo, em torno de
0,25kg/hab/ano, comparado aos 5 kg/hab/ano em países como Itália, Espanha,
França e Inglaterra (Madail & Medeiros, 1998), houve crescimento da demanda
desta fruta nos últimos anos. Em algumas regiões, como a de Porto Alegre,
atingiu 1kg/hab/ano em 2000 (Marodin & Sartori, 2000). Aliado ao aumento da
demanda, também cresceu o grau de exigência dos consumidores, o que tornou
necessária uma nova postura do produtor para satisfazer o mercado.
A necessidade de validar sistemas de produção, que viabilizem a permanência do
produtor no mercado, com lucratividade do pomar e a preservação do meio
ambiente, justifica o estudo de novas estratégias.Torna-se necessária a
evolução tecnológica que incorpore técnicas e práticas culturais mais
produtivas, aliadas ao respeito ao ambiente e à obtenção de frutas de melhor
qualidade (Martins, 2001).
A qualidade pós-colheita está condicionada à qualidade que as frutas atingem no
pomar. Assim, o primeiro passo para assegurar a melhor qualidade de qualquer
fruta para o consumidor é maximizar a qualidade do pomar. Atualmente,
incentiva-se, dentro do sistema de produção integrada de frutas de caroço, a
prática de cobertura vegetal do solo, para recuperar e evitar a erosão,
conservar a água, proteger o meio ambiente e melhorar a qualidade das frutas.
Apesar da importância dos fatores de campo na frigoconservação, poucas
pesquisas têm sido conduzidas para verificar a influência do manejo do solo na
qualidade e no potencial de conservação de pêssegos.
Considerando o adequado manejo do solo como importante fator pré-colheita no
sistema de produção de pêssegos, o presente trabalho teve por objetivo
principal avaliar o efeito do manejo do solo na linha de plantio, na
conservação e na qualidade pós-colheita de pêssegos cv. Cerrito, durante o
período de armazenamento refrigerado.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi conduzido na Embrapa Clima Temperado, utilizando pêssegos da cv.
Cerrito, colhidos em pomar comercial de Pelotas, safra 1999/2000. Foram
colhidas frutas provenientes de um pomar com dois sistemas: 1) sem cobertura
vegetal na linha de plantio (cultivo convencional); 2) com cobertura vegetal de
aveia-preta (Avena strigosa) na linha de plantio. A cobertura com aveia no
pomar tem sido cultivada há três anos consecutivos. Em cada sistema de manejo,
as frutas foram colhidas em três estádios de maturação, caracterizados pela
coloração de fundo e de superfície, conforme Araújo (1998), sendo maduro
incipiente (M2-75 % coloração esverdeada e 25% coloração final do fruto), meio-
maduro (M3-50% coloração final característica da cultivar) e maduro (M4-75% da
coloração final característica da cultivar). Para cada tratamento, foram
armazenadas frutas nos três estádios de maturação à temperatura de 0ºC
e com U.R. de, aproximadamente, 90%. As frutas foram mantidas por períodos de
6, 12 e 18 dias de armazenamento refrigerado. Em cada um destes períodos,
também se realizou uma simulação de comercialização, mantendo-se as frutas
durante três dias a ± 25ºC, após a qual foram realizadas as seguintes
avaliações:
Análise de Nutrientes:
Foi realizada análise de nitrogênio (N), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio
(Mg) e boro (B), determinada segundo metodologia descrita por Freire (1998).
Análise Sensorial:
Realizada com auxílio de uma equipe de julgadores, previamente treinados,
pertencentes ao quadro da Embrapa Clima Temperado, segundo os métodos
descritivos (ABNT, 1993). Os atributos avaliados contemplaram características
externas e internas. Para avaliações dos aspectos externos, observaram-se:
aparência, desidratação, coloração e aceitação comercial (padrão de
comercialização das frutas). Para avaliações internas das frutas, avaliaram-se
aroma e sabor mais a qualidade geral (avaliações internas e externas à fruta).
A avaliação foi realizada por métodos descritivos, teste de avaliação de
atributos, usando escalas não estruturadas de 9 cm, cujo extremo esquerdo
representou a menor nota, e o direito, a maior intensidade das características
analisadas.
Fisiopatias e fitopatias:
determinados por contagem de frutas com escurecimento da epiderme, lanosidade,
desintegração e escurecimento interno e podridões.
O delineamento experimental foi completamente casualizado, com esquema
fatorial, sendo a unidade experimental de 20 frutas, com três repetições. Os
dados foram submetidos à análise da variância e a comparação de médias foi
feita pelo teste DMS (P£0,05).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados apresentados na Tabela_1 indicam a influência do manejo do solo no
teor de nutrientes da fruta. Pêssegos no estádio meio maduro (M3), cv. Cerrito,
provenientes de pomar com cobertura vegetal, apresentaram 0,20 mg de nitrogênio
/100g a mais do que os produzidos no cultivo tradicional. Estes mesmos
resultados foram detectados com pêssegos cv. Chimarrita (Martins et al., 2001).
Loreti & Pisani (1986) relatam que o cultivo mínimo do solo, com a
manutenção temporária ou permanente da cobertura verde, como alternativa ao
cultivo sistemático do solo, traz como conseqüências a redução das perdas de
nitrogênio por lixiviação, o aumento da quantidade de matéria orgânica, maior
porosidade e elevação dos teores de nutrientes assimiláveis no solo, através da
mineralização da biomassa, e, por conseqüência, frutas nutricionalmente mais
equilibradas, com incremento na qualidade e na conservabilidade. Com a prática
de cobertura verde, consegue-se reciclar grande parte dos nutrientes, e as
aplicações de adubos são reduzidas (Marangoni, 2000).
Tanto o teor de potássio (K) como de magnésio (Mg) não foram influenciados pelo
manejo do solo. O potássio é o nutriente que, de maneira geral, tem maior
influência na coloração das frutas, já o magnésio influencia o teor de açúcar
na polpa, sendo que o Ca e o Mg quase na total magnitude das frutíferas, também
exercem influência sobre o aroma (Carvalho et al., 1994).
Em relação ao teor de cálcio (Ca), mesmo não se constatando diferença
significativa, houve uma pequena superioridade na quantidade deste nutriente
nas frutas colhidas em pomar com manejo do solo com cobertura vegetal (0,3 mg
Ca /100g). Embora não se tenha encontrado trabalhos na literatura com pêssegos,
relacionando manejo do solo com equilíbrio nutricional e conservabilidade, em
outras frutíferas, como maçãs, o armazenamento é afetado por vários fatores,
como desequilíbrio de nutrientes no solo, principalmente a deficiência de Ca.
Esta deficiência pode provocar o aparecimento de fisiopatias nas frutas,
favorecendo a formação de podridões ou a manifestação de sintomas indesejáveis
durante o processo de frigoconservação (Iuch, 2000).
Já quanto ao teor de Boro (B) dos pêssegos, houve influência dos sistemas de
manejo do solo na sua concentração. Frutas provenientes de pomar com manejo do
solo com cobertura vegetal apresentaram maior aporte deste nutriente, quando
comparadas àquelas provenientes do pomar com manejo do solo tradicional. O B
assume papel importante no funcionamento das membranas e da parede celular das
frutas (Vendrell & Carrasquer, 1994).
A cobertura vegetal constitui-se numa importante fonte nutritiva para o pomar.
A biomassa produzida pode alcançar, através de decomposição sucessiva pela
microflora, até 19 ton de peso fresco/ha, dependendo da espécie vegetal. Da
mineralização desta biomassa, ficam disponíveis, respectivamente, 80; 13; 70;
13 e 7 kg/ha de N, P, K, Ca e Mg, os quais reciclam no solo e contribuem para
balanço nutricional do pomar (Rombolá et al., 2000).
Em relação à análise sensorial (Tabela_2), pêssegos verdoengos (M2) produzidos
em pomar com manejo do solo com cobertura vegetal apresentaram melhor aparência
do que pêssegos produzidos no pomar com manejo do solo com cultivo tradicional.
O atributo aparência decaiu na preferência dos julgadores com o aumento do
período de armazenamento, independentemente da procedência das frutas. A
aparência das frutas de caroço é representada pela uniformidade das
características típicas de cada cultivar. Problemas como desuniformidade e
defeitos aumentam com frutas em estádios avançados de maturação e períodos
prolongados de armazenamento (Neri et al., 1996).
Os pessegueiros cultivados em pomar com manejo do solo com cultivo tradicional
produzem frutas de melhor sabor em relação às produzidas em pomar com manejo do
solo com cobertura vegetal. O fator que, provavelmente, influenciou
positivamente no sabor, encontrado nos pêssegos produzidos em pomar com sistema
tradicional, foi o maior teor de SST nas frutas provenientes deste sistema. O
sabor melhora com o aumento do grau de maturação.
A maior permanência das frutas em condições de refrigeração proporciona sabor
característico menos intenso. Aos 6 dias de armazenamento, os pêssegos não
apresentaram diferença significativa no sabor, quanto à procedência das frutas.
Ao expor as frutas a condições de ambiente, porém, o metabolismo da fruta
retorna ao nível normal, desencadeando o consumo de açúcar e ácidos pelo
aumento da respiração. Este processo reflete-se na diminuição do sabor
característico do pêssego (Chitarra & Chitarra, 1990; Crisosto et al.,
1997).
Segundo Valero & Altisent (1998), a relação entre açúcar e acidez (SST/ATT)
é importante no equilíbrio do sabor dos pêssegos. Com o avanço da maturação, a
acidez diminui e o teor de SST aumenta, sendo esta relação fortemente
influenciada pelas condições climáticas, pela cultivar e pelo manejo do pomar.
O parâmetro aceitação comercial foi avaliado no sentido de o consumidor aceitar
ou não os pêssegos dentro de um padrão de comercialização. A aceitação
comercial diminui com o grau de maturação e período de armazenagem. As frutas
provenientes de pomar com manejo do solo com cobertura vegetal apresentaram
maior aceitabilidade comercial nos estádios meio-maduro e maduro. No estádio
verdoengo, a maior aceitabilidade foi obtida com frutas produzidas em pomar com
manejo do solo com cultivo tradicional.
Qualidade geral expressa o somatório das avaliações internas e externas à
fruta. Deste modo com o aumento do grau de maturação, a qualidade geral foi
incrementada. Somente pêssegos nos estádios meio-maduro e maduro, provenientes
de pomar com manejo do solo com cobertura, foram significativamente superiores
aos produzidos em pomar com manejo do solo com cultivo tradicional. Qualidade é
determinada por propriedades físicas e químicas, controladas por constituintes
químicos que são variáveis pelo metabolismo da fruta. Durante a maturação,
acontecem trocas importantes nos constituintes físico-químicos e estes, por sua
vez, alteram a qualidade sensorial. A qualidade geral diminui com o avanço do
período de armazenamento. Somente aos 6 dias, as frutas provenientes de pomar
com manejo do solo com cobertura vegetal apresentaram qualidade superior. Nos
demais períodos de armazenamento, não houve diferença na qualidade geral quanto
à procedência das frutas. Segundo López et al. (1998), o consumidor valoriza
cada vez mais a qualidade organoléptica juntamente com a aparência externa, de
forma que a preferência geral se dá por pêssegos suculentos e doces, com
consistência dura e que tenham boa coloração tanto de polpa como de película.
Os pessegueiros cultivados em pomar com manejo do solo com cultivo tradicional
produziram pêssegos apenas no estádio verdoengo de melhor coloração de que os
de pomar com manejo do solo com cobertura vegetal. A coloração, assim como
demais critérios de qualidade, depende essencialmente das características da
cultivar, condições ambientais e de manejo (Byrne et al., 1991; Vendrell &
Carrasquer, 1994; Crisosto et al., 1997). Todos esses fatores têm uma
contribuição relativa na intensidade da coloração e, por conseqüência, na
qualidade e comportamento pós-colheita dos pêssegos.
Pêssegos verdoengos produzidos em pomar com manejo do solo com cultivo
tradicional apresentaram coloração significativamente superior aos produzidos
em pomar com manejo do solo com cobertura vegetal; entretanto, nos demais
estádios de maturação, não houve diferença significativa.
Crisosto et al. (1997) descrevem que solos com teores elevados de N
proporcionam reduções no avanço da maturação dos pêssegos, induzindo a um
pequeno desenvolvimento da coloração avermelhada e inibindo a mudança de
coloração esverdeada para amarelada. Regiões de solo com teor de potássio (K)
elevado têm proporcionado melhor coloração das frutas (Vendrell &
Carrasquer, 1994).
Não houve diferença significativa em relação à desidratação dos pêssegos quanto
à procedência de frutas. A desidratação aumenta significativamente com o avanço
do período de armazenagem e estádio de maturação, independentemente da
procedência das frutas.
Pêssegos produzidos em pomar com manejo do solo com cobertura vegetal
apresentaram aroma característico significativamente superior àqueles
produzidos em pomar com manejo do solo com cultivo tradicional,
independentemente do estádio de maturação e do período de armazenamento. A
intensidade de aroma característico diminuiu significativamente com o período
de armazenamento, no entanto, aumentou com o grau de maturação,
independentemente da procedência das frutas.
Os compostos aromáticos também contribuem para a qualidade da fruta. O aroma
dos pêssegos é determinado pela combinação ou superposição de elevado número de
substâncias voláteis, como álcoois, acetonas, aldeídos, ésteres e outros
compostos (Romojaro & Riquelme, 1994). Atualmente, poucas informações são
encontradas a este respeito. Trabalhos de pesquisas devem começar a ser
desenvolvidos com ênfase neste tão importante atributo de qualidade.
Em relação às fisiopatias (distúrbios fisiológicos) e fitopatias (podridões),
frutas com escurecimento da epiderme, lanosidade, desintegração da polpa,
escurecimento interno e com podridões foram praticamente inexistente, não sendo
constatadas diferenças significativas quanto ao sistema de manejo do solo,
estádio de maturação e período de armazenamento (Tabela_3). Durante os 18 dias
de armazenamento mais 3 dias de simulação de comercialização, tanto fisiopatias
como fitopatias não se mostraram limitantes à conservação das frutas desta
cultivar, independentemente do manejo do solo.
CONCLUSÕES
1. Pêssegos produzidos em pomares com manejo do solo com cobertura vegetal
apresentam maior conteúdo de nitrogênio, cálcio e boro do que frutas colhidas
em pomar com cultivo tradicional.
2. Pêssegos provenientes de pomares com manejo do solo com cobertura vegetal
apresentaram aroma, aceitação comercial e qualidade geral ao final do período
de armazenamento superior aos pêssegos provenientes de pomar com manejo do solo
com cultivo tradicional.
3. Independentemente do manejo do solo, a qualidade pós-colheita dos pêssegos
não foi influenciada por fisiopatias e fitopatias.