Desbaste da limeira-ácida-'Tahiti' (Citrus latifolia Tanaka) com "TPA" e
efeitos na produção
DESBASTE DA LIMEIRA-ÁCIDA-'TAHITI' (Citrus latifoliaTanaka) COM "TPA"
E EFEITOS NA PRODUÇÃO1
INTRODUÇÃO
Com a intenção de aumentar o rendimento da limeira-ácida-'Tahiti' na
entressafra, quando os preços se tornam mais atrativos aos produtores, alguns
estudos foram direcionados ao uso de fitorreguladores como ferramenta para
manejar a produção da cultura (Caetano et al., 1981; Marcondes, 1992; Rojas,
1994, 1995; Sanches, 2001). Entre as principais substâncias testadas, destacam-
se o NAA (Ácido naftalenoacético), o Ethephon (Ácido 2-cloroetil-fosfônico) e o
ácido giberélico. Entretanto, essas substâncias não se tornaram de uso comum
entre os produtores brasileiros, principalmente devido à falta de consistência
e segurança na obtenção de resultados satisfatórios, revelando a necessidade de
mais estudos neste campo.
A integração dos fitorreguladores nas práticas agrícolas exige conhecimentos
prévios para cada situação. Seus efeitos estão intimamente relacionados com
fatores como a seleção do fitorregulador, sua formulação, concentrações e
épocas de aplicação, quantidade de calda aplicada por planta, estádio
fisiológico, sanidade e vigor, estado nutricional, condições climáticas e
características genéticas das plantas, dentre outros. É de se esperar que a
investigação e experimentação agrícola possam trazer novas e melhores opções
além do que já se conhece (Agustí & Almela, 1991; Ragone, 1992; El-Otmani,
1992; Agustí et al., 1995; Castro, 1998; Agustí, 1999; Sanches, 2000, 2001).
O ácido 3,5,6-tricloro-2-piridil-oxiacético, também conhecido como 3,5,6-TPA ou
Trichlorpir (Sanches, 2000), foi referido em vários trabalhos com citros, como
de grande potencial para desbaste e para aumento do tamanho de frutos,
dependendo da concentração, formulação e época de aplicação (García-Lidón et
al., 1993; Agustí et al., 1993, 1994, 1995). Porém, até o momento, não se tem,
nas condições climáticas brasileiras, experimentos com limeira-ácida-'Tahiti'
(Citrus latifolia Tanaka). Esse trabalho teve como objetivo testar essa
substância como nova ferramenta para o manejo da produção da limeira-'Tahiti',
identificando a concentração eficaz para desbaste de frutos novos e seus
efeitos sobre a produção subseqüente.
MATERIAL E MÉTODOS
A substância testada foi o ácido 3,5,6-tricloro-2-piridil-oxiacético (3,5,6-
TPA), em sua formulação éster. O trabalho constituiu-se de dois experimentos.
No primeiro, foi identificada a concentração mais adequada para uso na cultura.
Foi realizado em agosto de 1999, no Município de Itápolis-SP, a 21º 24'
30"S e 48º 27' 30"W, com altitude entre 530 e 590m, precipitação
média anual de 1300mm e, segundo Köppen, com clima Aw. O solo do local foi
classificado como Podzolizado Variação Lins Marília, apresentando declividade
média de 9%. Foi utilizado o clone IAC-5 (C. latifolia Tanaka), enxertado sobre
limoeiro-'Cravo' (C. limonia Osbeck). A cultura estava instalada no espaçamento
7,0 x 5,5m, com 6 anos de idade. Optou-se por esta área devido à ausência da
doença "Queda prematura de frutos", causada pelo fungo Colletotrichum
acutatum Simmons, a qual certamente prejudicaria os resultados da pesquisa. O
delineamento foi em blocos casualizados, com 5 tratamentos e 5 repetições,
sendo as parcelas constituídas de 1 planta útil. Os tratamentos foram: T0:
Testemunha - plantas pulverizadas apenas com água; T1: 10mg/L; T2: 20mg/L; T3:
40mg/L e T4: 80 mg/L. Para a pulverização das plantas, foi utilizado
pulverizador tratorizado, tipo pistola, com bico número 5 e pressão aproximada
de 150 libras. As plantas foram pulverizadas em cobertura total até o ponto de
escorrimento, gastando-se, em média, 20L de calda por planta. A calda de
pulverização apresentou pH 5,5.
Para a avaliação da abscisão, foram marcados, anteriormente às aplicações,
quatro ramos por planta, na parte mediana da mesma, um em cada quadrante. Os
ramos apresentavam-se tenros, com comprimento médio de 10cm, e continham, em
média, 7 a 8 frutinhos cada, com 100% de pétalas caídas e diâmetro equatorial
variando entre 6 e 10mm. No dia anterior às pulverizações, 05-08-1999, foi
obtido o número exato de frutinhos por planta, referente à soma dos 4 ramos
marcados. No dia 6 de agosto de 1999, foram aplicados os tratamentos. Após 8;
15; 23 e 37 dias da aplicação, contou-se o número de frutinhos remanescentes
por planta, independentemente do seu estado de vigor. Na última contagem, aos
37 dias, realizou-se nova contagem dos frutos, utilizando-se de novo critério:
considerou-se como remanescentes, apenas os frutinhos que apresentavam o mesmo
aspecto externo dos presentes no tratamento-Testemunha. Optou-se por este novo
critério devido ao fato de muitos frutinhos tratados com o 3,5,6-TPA, e em
deterioração, ficarem aderidos aos ramos. Calculou-se, em seguida, a média de
abscisão, em porcentagem, por planta e para cada data. Os dados foram
submetidos à análise de variância, e as médias foram comparadas pelo Teste de
Tukey, ao nível de 5% de probabilidade.
A fitotoxicidade do 3,5,6-TPA foi avaliada 20 dias pós-tratamentos de acordo
com a escala de notas a seguir:
1) Baixa: ligeiras deformações de folhas novas e ramos tenros.
2) Média: folhas maduras encarquilhadas e ponteiros de ramos desfolhados.
3) Alta:clorose generalizada da planta, folhas e ponteiros secos.
No segundo experimento, foi usada a concentração 10mg/L, verificada no
experimento anterior como eficaz, para o desbaste de frutos novos da florada de
outubro. Neste caso, o experimento foi desenvolvido em uma cultura comercial
com irrigação localizada, situada no Município de Taquaritinga-SP, a 21º 24'
44''S e 48º 29' 53''W, com as mesmas características edafoclimáticas do
primeiro experimento. Foram utilizadas plantas de limeira-'Tahiti' da seleção
Quebra-galho (C. latifoliaTanaka), enxertadas sobre limoeiro-'Cravo' (C.
limonia Osbeck), com 4 anos de idade e plantadas no espaçamento de 7,0 x 4,0m.
A seleção Quebra-galho foi escolhida por ser a mais usada na região. As
adubações seguiram as recomendações do Grupo Paulista de Adubação e Calagem
para Citros (Grupo, 1994), e os tratamentos fitossanitários foram os pré-
adotados para a cultura. Os tratamentos foram: T0: Testemunha ' plantas não
pulverizadas; T1: 5mg/L e T2: 10mg/L, num delineamento inteiramente
casualizado, com 20 repetições e 1 planta útil por parcela. Optou-se por testar
a concentração 5mg/L como parâmetro para consolidação da concentração mínima
adequada para desbaste. As aplicações foram feitas no dia 28 de outubro de
1999, logo após florada normal, quando predominavam frutinhos com diâmetro
equatorial inferior a 10mm. Utilizou-se o mesmo tipo de equipamento do
experimento anterior para aplicação dos tratamentos, e as plantas foram
molhadas, em cobertura total, até o ponto de escorrimento. Gastou-se cerca de
20L de calda por planta. Neste experimento, a calda de pulverização apresentou
pH 7,0.
Foram realizadas quatro colheitas a partir de fevereiro de 2000, início da
safra. Colheram-se apenas frutos que apresentavam diâmetros equatoriais maiores
de 47mm, de acordo com Coelho (1993). A produção por planta foi medida para
cada data e os dados submetidos à análise de variância. As médias foram
comparadas pelo Teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade. Aos 100 dias
das aplicações, foram coletados 10 frutos por planta de 5 plantas tomadas
aleatoriamente de cada tratamento para análise das características físico-
químicas. Para cada amostra de 10 frutos, foram determinadas as médias de
diâmetro equatorial, diâmetro longitudinal e espessura da casca. Esta última,
logo após terem sido cortados equatorialmente. O suco foi extraído com um
extrator cônico, e a porcentagem foi obtida pela razão entre a massa do suco e
a massa dos frutos, multiplicada por 100. A porcentagem de sólidos solúveis
totais foi determinada, colocando-se algumas gotas de suco no refratômetro e
fazendo-se a leitura direta em graus Brix. A acidez do suco foi calculada pela
titulação com hidróxido de sódio a 0,3125N, padronizada, usando-se como
indicador a fenolftaleína, sendo o resultado expresso em gramas de ácido
cítrico/100g de suco. Os dados destas análises foram processados no
delineamento inteiramente casualizado, com 3 tratamentos e 5 repetições.
Foram registradas as temperaturas máximas e mínimas ocorridas no período de 6 a
13 de agosto e de 28 de outubro a 1º de novembro de 1999 como parâmetro para
comparações de resultados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No primeiro experimento, o 3,5,6-TPA causou paralisação do crescimento dos
frutos nos ramos marcados em todas as concentrações testadas. Estes tornaram-se
secos e deteriorados com o passar do tempo. Muitos frutinhos permaneceram
aderidos ao ramo por até 40 dias pós-aplicação. Esse fato distorceu os dados de
abscisão antes desse período. Os coeficientes de variação nas análises
estatísticas foram altos nas avaliações aos 8 e 15 dias pós-aplicação,
decrescendo nas demais. Na última contagem, 37 dias pós-tratamentos, na qual
foram considerados como ativos, ou seja, passíveis de vingamento, apenas os
frutos que apresentavam vigor equivalente aos das plantas não tratadas, os
tratamentos com 3,5,6-TPA diferiram significativamente do tratamento-
Testemunha, causando, praticamente, 100% de abscisão (Tabela_1). Observou-se,
no primeiro experimento, que parte dos frutinhos tratados com 3,5,6-TPA
deixaram o cálice fixado ao ramo, enquanto no tratamento-Testemunha, a abscisão
ocorreu no pedúnculo. No segundo experimento, isso não ocorreu.
Monselise (1986) relatou que a abscisão natural de frutos jovens, logo após a
florada, ocorre no pedúnculo, e, mais tarde, progressivamente, grande número de
frutos aborta, deixando o cálice fixado ao ramo, durante o período de queda
prematura de frutos. Segundo Volpe (1992), esse período é conhecido no
Hemisfério Norte como "June drop". Ainda, de acordo com Monselise
(1986), a celulase e poligalacturonase tornam-se muito ativas antes da abscisão
natural, sendo suas atividades promovidas pelo etileno.
É oportuno mencionar que, em agosto, durante o primeiro experimento, a média
das temperaturas mínimas registradas desde a data das aplicações até 7 dias
após foi de 8,5ºC. Já no segundo experimento, em outubro, não foi observada
retenção de frutinhos; contudo, a média das temperaturas mínimas registradas
até 4 dias pós-aplicação foi de 18ºC. Segundo Ortolani et al. (1991), os citros
sofrem relativa diminuição no seu metabolismo em temperaturas abaixo dos 13ºC,
e a taxa de crescimento aumenta bastante entre 25 e 31ºC, fato esse responsável
pela queda bem mais rápida dos frutinhos das plantas tratadas durante o mês de
outubro, observada no segundo experimento.
Quanto à fitotoxicidade, as concentrações de 20; 40 e 80 mg/L provocaram
severos danos às plantas. Os sintomas agravaram-se com o tempo e, cerca de 20
dias pós-aplicação dos tratamentos, verificou-se, nas dosagens de 40 e 80mg/L,
além de observar clorose generalizada das plantas, manchas necróticas em alguns
frutos maduros e em folhas mais expostas, seca de ponteiros e desfolha. Com
10mg/L, houve ligeira deformação de folhas novas e ramos tenros 24 horas pós-
aplicação. Contudo, nessa concentração, em pouco tempo, as plantas recuperaram-
se e passaram a emitir novos fluxos de vegetação. Na Tabela_2, estão
classificados os sintomas das diferentes concentrações da substância, com base
na escala de notas descrita anteriormente.
No segundo experimento, observou-se que a concentração de 5mg/L não provocou
queda significativa na produção do período de safra em nenhuma das colheitas
realizadas. Usando-se 10mg/L, houve significativa queda na produção do mês de
fevereiro. Contudo, nas duas últimas colheitas, março e maio, os tratamentos
não diferiram entre si (Tabela_3). Isso mostrou que o efeito do produto
aplicado em outubro limitou-se a um curto período de tempo e não provocou
deslocamento da produção para épocas mais tardias, até o período avaliado.
A capacidade de emitir múltiplas brotações ao longo do ano, sobretudo se o
clima for favorável, e de produzir flores nesses ramos (Figueiredo et al.,
1976; Coelho, 1993; Stuchi & Cyrillo, 1998), permitiu rápida recuperação
das plantas. Novas brotações compensaram os efeitos de fitotoxicidade
provocados pela auxina. Cerca de 60 dias pós-tratamentos, observou-se que as
plantas continuavam o ciclo produtivo normalmente. Esse fato sugere uma nova
aplicação do fitorregulador, como cita Caetano et al.(1981).
Em relação às características físico-químicas dos frutos estudadas, aos 100
dias pós-aplicação, o 3,5,6-TPA aumentou significativamente o diâmetro
longitudinal do fruto, cerca de 3,7 e 4,2% nos tratamentos 5 e 10mg/L,
respectivamente. Na concentração 10mg/L, a espessura média da casca aumentou
cerca de 12,6% e houve redução do Brix em aproximadamente 4,7% (Tabela_4). Com
o aumento da concentração, mesmo não apresentando diferenças significativas,
houve tendência de aumento do peso dos frutos, provavelmente devido ao aumento
do diâmetro longitudinal e da espessura da casca. Analogamente, observa-se que
a espessura da casca aumentou em detrimento à porcentagem de suco.
Sabe-se, no entanto, que o 3,5,6-TPA é um potente promotor de crescimento dos
frutos cítricos quando aplicado no final da queda fisiológica de frutos
(García-Lidón et al., 1993; Agustí et al., 1993, 1994), mas, neste caso,
aplicado logo após a florada, não revelou diferenças significativas quanto ao
peso médio dos mesmos. É oportuno mencionar que as características estudadas
referem-se às de frutos produzidos na florada de outubro, os quais, no momento
da aplicação, apresentavam diâmetro equatorial médio próximo a 10mm. Todavia,
pode ter havido diferenças nos frutos que, na época da aplicação, se
encontravam em estádio mais avançado de desenvolvimento.
De acordo com os resultados obtidos, sugerem-se novas pesquisas no sentido de
avaliar mais aplicações durante o ano e também as épocas mais adequadas para
realizá-las.
CONCLUSÕES
Nas condições em que foram realizados os experimentos, e considerando-se as
épocas de aplicação dos tratamentos, conclui-se que:
1. A concentração de 10mg/L de 3,5,6-TPA mostrou-se eficaz para desbaste de
frutos até 10mm de diâmetro equatorial da limeira-ácida-'Tahiti'.
2. As concentrações 20; 40 e 80mg/L de 3,5,6-TPA causaram severos danos às
plantas, principalmente quando havia grande quantidade de brotos novos.
3. O 3,5,6-TPA, quando aplicado sobre frutos com até 10mm de diâmetro
equatorial, nas concentrações 5 e 10mg/L, causou alongamento do fruto, por
ocasião da colheita. Na concentração 10mg/L, causou aumento da espessura da
casca e redução do Brix.
4. O desbaste de frutos novos logo após a florada de outubro, com uma única
aplicação de 3,5,6-TPA na concentração 10mg/L, não resultou em deslocamento da
produção de safra para épocas mais tardias, até o período avaliado. Entretanto,
reduziu a produção pela metade neste período avaliado.