ALTERAÇÕES EM ALGUNS ATRIBUTOS QUÍMICOS DO SOLO DECORRENTES DA IRRIGAÇÃO E
ADUBAÇÃO NITROGENADA E POTÁSSICA EM BANANEIRA APÓS DOIS CICLOS DE CULTIVO
INTRODUÇÃO
A bananeira é uma planta de crescimento rápido que necessita, para seu
desenvolvimento e produção normais, de uma concentração elevada de nutrientes
disponíveis no solo. Esses podem ser fornecidos, em parte, pelo solo e pela
reciclagem no sistema solo-planta; entretanto, para obtenção de produções
economicamente rentáveis, é imprescindível a aplicação de fertilizantes em
quantidades e proporções adequadas ao extraído pela cultura (Soto, 1992).
Segundo Lahav & Turner (1983), os nutrientes minerais necessários à
bananeira podem ser apenas parcialmente supridos a partir das reservas do solo.
Como exemplo, citaram que aproximadamente 1500 kg ha-1 ano-1 de K devem ser
absorvidos pelas plantas para um rendimento de frutos de 50 t ha-1 ano-1. Em
cultivos de alto rendimento (70 t ha-1 ano-1 ) e para as condições da América
Central, López & Espinosa (1995) estimaram uma quantidade de nutrientes
exportada com os frutos superior a 400 kg ha-1 ano-1 de K, 125 de N e 15 de P.
Esses autores destacaram que a manutenção de rendimentos elevados ao longo do
tempo depende da reposição dos nutrientes exportados por meio de adubações.
Além da exportação, podem ocorrer perdas de nutrientes do sistema solo-planta
devido à volatilização, erosão e lixiviação. Perdas de nutrientes por
lixiviação e escorrimento superficial em bananais, sob diversas condições de
solo e clima, foram avaliadas numa série de trabalhos descritos por Godefroy et
al. (1975), nos quais se determinaram perdas entre 60 e 85% dos fertilizantes
aplicados (exceto para P), sendo N, K, Ca e Mg perdidos predominantemente (85 a
95%) por lixiviação. Em estudo realizado num solo caulinítico, com 530 g kg-
1 de argila, observaram-se também perdas elevadas de N e K pela água de
drenagem no perfil do solo (Godefroy & Dormoy, 1990).
Num experimento visando a estudar a resposta de bananeiras à aplicação de
calcário, no Vale do Ribeira (SP), Saes (1995) monitorou a evolução da
fertilidade do solo e teve que reaplicar os tratamentos de calcário após três
ciclos de cultivo, devido a grandes alterações no pH e na saturação por bases.
Bataglia & Santos (1999) detectaram incrementos lineares na acidez do solo
cultivado com seringueira em função de doses de N. Em citros, alterações
significativas no pH do solo e saturação por bases foram atribuídas à adubação
nitrogenada por Sanches et al. (1999).
O objetivo deste trabalho foi estudar alterações em atributos químicos de um
solo sob cultivo de bananeira em função da adubação nitrogenada e potássica e
da irrigação durante dois ciclos de produção.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado em Jaboticabal-SP (altitude: 575 m; latitude:
21o15'S), com clima mesotérmico de inverno seco (Cwa ¾ Classificação de
Köeppen) e solo classificado como Latossolo Vermelho Eutroférrico típico.
Valores médios de alguns atributos do solo, em amostragem realizada na época da
instalação do experimento, encontram-se na Tabela_1.
Empregou-se o delineamento experimental casualizado em blocos completos, com os
tratamentos arranjados em parcelas subdivididas, sendo as parcelas principais
constituídas por dois regimes hídricos: irrigado (microaspersão) e sequeiro, e
as subparcelas, pelas combinações de quatro doses de nitrogênio (0; 200; 400 e
800 kg ha-1 ano-1de N) e quatro de potássio (0; 300; 600 e 900 kg ha-1 ano-1de
K2O). As doses de adubo (nitrato de amônio e cloreto de potássio, como fontes
de N e K, respectivamente) foram aplicadas na superfície do solo, sem
incorporação, parceladas em quatro vezes durante a estação das chuvas.
Antes da instalação do experimento, a área vinha sendo utilizada com cultivos
anuais de verão (soja e milho), em plantio convencional. No final de 1996,
foram aplicadas 2,5 t ha-1 de calcário dolomítico. O manejo inicial do solo
constou de uma operação de subsolagem e aplicação de termofosfato (16 % de P2O5
solúveis em ácido cítrico a 2%), em área total, na dose de 90 kg ha-1 de P2O5,
incorporado com grade pesada. Fez-se a adubação de plantio com 15 L/cova de
esterco de curral e 80 kg ha-1 de P2O5 (termofosfato) aplicados nas covas. O
bananal foi implantado empregando-se mudas micropropagadas in vitroda cultivar
Nanicão (Musa AAA subgrupo Cavendish), em outubro de 1997, num espaçamento de 2
por 2,6 m.
A irrigação (microaspersão) foi manejada a partir de dados meteorológicos
(evaporação medida no tanque Classe A e precipitação), com intervalo entre
regas de dois ou três dias, visando a atender às exigências hídricas da
cultura, de acordo com as recomendações de Doorenbos & Kassam (1979).
Os efeitos dos tratamentos sobre alguns atributos do solo foram avaliados por
meio de amostragens anuais (set/97, set/98 e set/99) realizadas em cada
subparcela, antes da aplicação dos adubos, com 12 pontos por amostra composta.
Fizeram-se as duas primeiras amostragens nas camadas de 0 a 20 cm e de 20 a
40 cm; a terceira amostragem estendeu-se até a camada de 40 a 60 cm. Todas as
amostragens foram realizadas na área de aplicação dos fertilizantes, a qual
variou com o caminhamento do bananal. As análises de solo seguiram os métodos
descritos por Raij & Quaggio (1983).
Por meio da amostragem inicial, caracterizaram-se as unidades experimentais de
modo individualizado, permitindo, com o decorrer do trabalho, que se estimasse
a evolução da fertilidade em função dos tratamentos de irrigação e adubação.
Calcularam-se as variações (D) de pH, saturação por bases, K e Mg trocáveis,
após um e dois anos, em relação à amostragem inicial. Como as amostragens foram
realizadas em áreas de solo diferentes ao final do primeiro e segundo anos,
devido ao "caminhamento" das touceiras, optou-se por cotejar esses
resultados com aqueles obtidos na amostragem inicial, não fazendo comparações
entre épocas.
Os efeitos dos tratamentos aplicados às parcelas principais (sequeiro e
irrigação) foram avaliados empregando-se o teste F. Para as situações nas quais
se detectaram efeitos significativos dos tratamentos de adubação, foram
ajustadas equações de regressão relacionando doses de potássio e nitrogênio com
as variáveis resposta, para condições de sequeiro e irrigação. Fez-se, também,
a comparação dos parâmetros dos modelos para cada regime hídrico, visando a
determinar se os efeitos das variáveis independentes diferiam em função da
irrigação. Nas análises de variância, empregou-se o módulo GLM (General Linear
Models) do SAS, segundo Freund & Litttell (1981); os parâmetros dos modelos
de regressão foram estimados por máxima verossimilhança, empregando-se o módulo
MIXED (Mixed Models), conforme Littell et al. (1996).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na Tabela_2, destacam-se os efeitos da adubação nitrogenada sobre as alterações
de pH e saturação por bases e da adubação potássica sobre o teor de K trocável,
nas duas profundidades de amostragem e nos dois períodos de cultivo.
A aplicação de N causou significativo decréscimo no pH do solo e na saturação
por bases, observando-se uma redução de pH superior a uma unidade ao final de
um ano (Figura_1-A). A acidificação foi proporcional à dose de N aplicada, numa
relação quadrática. A saturação por bases (V) também foi afetada pela adubação
nitrogenada (Figura_1-B). Na amostragem inicial, V era de aproximadamente 60%,
após dois anos, com uma dose de 700 kg ha-1 ano-1 de N, na forma de nitrato de
amônio, e estimou-se uma redução para 39%. A capacidade de acidificar o solo de
alguns fertilizantes nitrogenados é bastante conhecida e deriva de reações que
produzem H+ (nitrificação) e da perda de cátions para camadas mais profundas,
acompanhando o ânion NO3- (Tisdale et al., 1985). Em bananeira, Saes (1995)
observou decréscimo significativo de pH e saturação por bases após três anos de
cultivo.
Para bananeiras, a acidificação causada pela adição de N representa um risco à
manutenção de produtividades elevadas no decorrer do tempo, pois recomenda-se,
manter a saturação por bases, acima de 60% (Teixeira et al., 1996). Além disso,
sabe-se que as bananeiras exigem suprimento adequado de Mg, especialmente em
áreas adubadas com potássio (Moreira & Hiroce, 1978; Lichtemberg &
Malburg, 1983; Delvaux, 1995). Nesse experimento, além de uma expressiva
redução na saturação por bases em decorrência da adubação nitrogenada (Figura
1-B), o teor de Mg trocável também foi afetado (Figura_2), atingindo níveis
inferiores ao mínimo recomendado para a cultura (9 mmolc dm-3). Estimou-se que
aplicações de nitrogênio, em doses superiores a 336 kg ha-1ano-1 de N,
determinaram que o teor de Mg trocável do solo ficasse abaixo de 9 mmolc dm-
3 após o segundo ciclo de cultivo. Esses aspectos acentuam a importância do
monitoramento periódico da fertilidade do solo e do estado nutricional das
plantas.
As alterações médias de alguns atributos de solo decorrentes da irrigação são
apresentadas na Tabela_3. Ao final do primeiro ano, os incrementos de K
trocável nas camadas de 0 a 20 cm e 20 a 40 cm foram menores na área irrigada.
Depois de dois anos, a irrigação determinou, na média de todos os tratamentos
de N e K, diminuição no teor de K trocável do solo para as duas camadas, em
relação à amostragem inicial. O fato de se obterem D K menores sob irrigação,
indica que se deva ter um cuidado especial na estimativa dos nutrientes a serem
repostos via adubação em áreas irrigadas.
Pode-se creditar os menores D K (diminuição no teor de K trocável) encontrados
na área irrigada, parcialmente, à maior acumulação de K pelas plantas sob
irrigação. Em dois ciclos de produção, estimou-se que as plantas acumularam, na
parte aérea, 741 kg ha-1 de K em sequeiro e 1078 kg ha-1 de K sob irrigação.
Possíveis incrementos nas perdas por lixiviação não foram confirmados, pois não
houve aumento na movimentação de K para camadas mais profundas (até 60 cm)
associado à irrigação. Na figura_3-C, observa-se que os teores de K trocável na
camada de 40 a 60 cm não aumentaram em função da irrigação após dois ciclos de
cultivo.
Na Figura_3, constata-se, também, que o potássio aumentou em todo o perfil do
solo (0 a 60 cm) proporcionalmente à dose de K aplicada. Por meio das
regressões, foi possível inferir que a adubação potássica aplicada na
superfície teve efeito até a profundidade de 40 a 60 cm, semelhantemente à
tendência descrita por Ritchey (1982) para um Latossolo Vermelho-Escuro.
A variação no K trocável em função da adubação potássica, em duas condições de
irrigação, é apresentada na Figura_4. Em média, para os dois regimes hídricos,
cada tonelada de K2O aplicada determinou um incremento no K trocável de
8,5 mmolc dm-3 na camada de 0 a 20 cm. Observou-se que o efeito da adubação
potássica foi maior nas áreas de sequeiro, evidenciado pelos coeficientes
angulares das regressões que diferiram (p<0,10) em função do regime hídrico.
Credita-se parte desse efeito da irrigação à maior imobilização de K na
biomassa das plantas, o que determinaria que uma fração menor do K aplicado
fosse detectada na análise do solo.
Utilizando-se das regressões apresentadas na Figura_4, estimou-se a dose mínima
de K2O suficiente para manter o teor de K trocável da camada de 0 a 20 cm
inalterado em relação à amostragem inicial. Após dois ciclos de cultivo, esses
valores atingem 164 e 618 kg ha-1 ano-1 de K2O, para sequeiro e irrigado,
respectivamente. A preocupação com a sustentabilidade dos cultivos de
bananeira, pelo menos em relação à fertilidade dos solo, é antiga (Jacob &
Uexküll, 1958; Cunha & Fraga Jr., 1963; Gallo et al., 1972). A grande
acumulação de K na biomassa das plantas e a exportação desse nutriente pelos
frutos implicam que, mesmo em solos com boas reservas de K, sejam necessárias
adubações potássicas em doses elevadas, sem as quais o rendimento da cultura
declinará rapidamente (Uexküll, 1985). Saes (1995), num trabalho com 'Nanicão'
no Vale do Ribeira (SP), mesmo aplicando potássio regularmente, detectou
diminuição no teor de K trocável de 2,3 mmolc dm-3 (amostragem inicial) para
0,8 mmolc dm-3 e 0,6 mmolc dm-3 no primeiro e segundo anos de cultivo,
respectivamente. Esses resultados são indicadores de que a perenidade dos
cultivos de bananeira, especialmente sob condições de irrigação, pode ser
comprometida em conseqüência do esgotamento acelerado das reservas de
nutrientes do solo.
CONCLUSÕES
1. A adubação nitrogenada em bananeira determinou incrementos significativos na
acidez do solo, diminuindo a saturação por bases e teor de Mg trocável.
2. O cultivo de bananeiras, especialmente sob irrigação, reduziu
significativamente o teor de K trocável do solo em dois ciclos de produção.
3. Os efeitos do cultivo de bananeiras sobre alguns atributos químicos do solo
indicam a necessidade de monitoramento periódico da fertilidade, visando à
manutenção de condições satisfatórias para a produção, especialmente quanto à
acidez e aos teores de K e Mg trocáveis.