DESBASTE DE MUDAS TIPO FILHOTE DO ABACAXI CV. PÉROLA: 1. PRODUÇÃO E QUALIDADE
DO FRUTO
DESBASTE DE MUDAS TIPO FILHOTE DO ABACAXI CV. PÉROLA ¾ 1. PRODUÇÃO E QUALIDADE
DO FRUTO1
INTRODUÇÃO
O abacaxizeiro (Ananas comosus(L.) Merrill) é originário do Brasil tropical e
subtropical, sendo cultivado em todas as regiões do país. A cultura do abacaxi
encontra condições ecológicas favoráveis à sua exploração na maior parte do
território nacional, desde a região Norte até a porção setentrional da região
Sul, incluindo áreas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul não sujeitas
a geadas.
No Brasil, segundo maior produtor mundial de abacaxi, a variedade Pérola é a
mais cultivada. Esta cultivar é de origem e produção exclusivamente
brasileiras, sendo uma planta de porte médio, crescimento ereto com folhas
dotadas de espinhos nas bordas, com fruto cônico, coroa pequena, tendo como uma
das principais características a produção de elevado número de mudas tipo
filhote (oito a doze), inseridas predominantemente na parte superior do
pedúnculo, e que se desenvolvem concomitantemente com o fruto.
No País, o desbaste de mudas de abacaxi não tem sido uma prática comum, embora
seja usada esporadicamente, sem o devido embasamento científico, sobretudo por
produtores dos Estados de Tocantins e Minas Gerais, sempre em busca de
melhorias da produtividade e da qualidade dos frutos.
Na Estação Experimental de Limeira-SP, Giacomelli et al. (1967), estudando a
redução de coroa e o desbaste de filhotes em dois níveis (total e redução para
três filhotes), não constataram efeito significativo dos tratamentos sobre o
peso de frutos da cv. Pérola. Há também poucas referências sobre o assunto em
outros países. Na Malásia, constitui uma prática generalizada o desbaste de
filhotes do abacaxi cv. Singapore Canning, o que resultaria em aumento
significativo do peso médio do fruto (Dunsmore, 1957, citado por Py, 1969). Na
Costa do Marfim, a retirada da coroa do fruto, que constitui outro tipo de
muda, aumentou o peso médio do fruto da cv. Smooth Cayenne em cerca de 10%,
tornou sua forma mais cilíndrica, acrescentou uma rodela por fruto no
rendimento industrial e melhorou a relação açúcar/ácido (Silvy ,1955, citado
porPy, 1969). Tais resultados sugerem que as mudas em geral e os filhotes, em
específico, constituem estruturas, que drenam grande quantidade de substâncias
de reservas da planta. Acredita-se, portanto, que o desbaste destas mudas possa
acarretar maior fluxo de fotossintatos e nutrientes para o fruto, aumentando o
seu peso e melhorando a sua qualidade.
O estudo objetivou avaliar o efeito do desbaste de mudas tipo filhote sobre
aspectos vegetativos e produtivos do abacaxi cv. Pérola, cultivado sob as
condições de sequeiro do ecossistema dos tabuleiros costeiros, no litoral Norte
da Bahia.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi conduzido na Fazenda Agropecuária Gavião localizada no município
de Entre Rios, no Tabuleiro Costeiro da região do litoral Norte da Bahia, a
11055' de latitude sul e 38004' de longitude oeste, em altitude de 151 m.
O clima da região é do tipo "AS", tropical quente chuvoso de
floresta, duas estações secas de caráter úmido, com curto período seco no
verão, mês mais frio apresentando temperatura superior a 18oC, e o mais seco
com precipitação inferior a 60 mm, segundo a classificação de Köppen. Os dados
da distribuição mensal de precipitações pluviométricas no período de 1997 a
1998, da área experimental, encontram-se na Tabela_1.
A área experimental foi instalada sobre um solo de topografia plana a
suavemente ondulada, do tipo Podzólico Vermelho-Amarelo Equivalente Eutrófico
Tb abrúptico A moderado, com textura média/argilosa, fase floresta caducifólia,
com sedimentos de estratificação da formação Barreiras de caráter terciário, de
reduzida fertilidade natural, pobre em matéria orgânica e com baixa capacidade
de retenção de água e cations (Embrapa/SNLCS, 1997).
Foi utilizada a cultivar 'Pérola', mais plantada e mais aceita no mercado
interno de frutas in natura, a qual produz uma grande quantidade de mudas tipo
filhote, entre 8 a 12 por planta, localizadas, na sua maioria, próximo à
inserção da base do fruto no pedúnculo floral.
O experimento foi conduzido em abacaxizal comercial, plantado em 1997, em
sistema de filas duplas, com espaçamento de 0,80 m x 0,40 m x 0,30 m,
correspondendo a 55.550 plantas ha-1, sem considerar os carreadores para
passagem do trator com implementos. O delineamento experimental foi em blocos
completos ao acaso, com seis tratamentos e sete repetições. Cada parcela ocupou
área de 32,4 m2com 94 plantas, sendo 60 úteis, distribuídas entre duas fileiras
duplas com 15 plantas por fileira, além de bordaduras de fileiras simples de
cada lado e pelo menos uma planta nas extremidades de cada fileira.
Os tratamentos consistiram na testemunha e cinco níveis de desbaste de mudas
tipo filhote, efetuado aos 90 dias após o tratamento de indução floral, sendo
os seguintes: 1 - todas as mudas desbastadas; 2 ¾ mantidas duas mudas do lado
do sol poente; 3 ¾ mantidas quatro mudas, com desbaste, de cima para baixo; 4 ¾
mantidas quatro mudas, com desbaste, de baixo para cima; 5 ¾ mantidas seis
mudas; 6 ¾ sem desbaste (testemunha).
O preparo do solo constituiu-se de gradagem e nivelamento da área, e em seguida
abertura de sulcos, não havendo necessidade da aplicação de calcário dolomítico
de acordo com os resultados das análises de solo. A capina química para o
controle das plantas daninhas foi feita com herbicida à base de bromacil +
diuron na dose de 2,0 kg i.a. ha-1, em pré-emergência, entre as fileiras de
plantio, logo após a instalação da cultura, além das capinas manuais
complementares, sempre que necessárias.
O suprimento mineral às plantas foi aplicado em três parcelas e de acordo com
os resultados da análise química do solo e as necessidades demandadas para
cultura de sequeiro. Os fertilizantes químicos, uréia, superfosfato simples e
cloreto de potássio foram colocados nas axilas das folhas basais, sendo
distribuídos 8,5 g de N, 1,8 g de P2O5 e 5,0 g de K2O por planta. Além da
adubação de cobertura, foram realizadas quatro pulverizações foliares com
nitrogênio na dose total de 1,6 g por planta.
A indução floral artificial foi realizada no dia 20 de junho de 1998, em uma
única aplicação, no período da noite, diluindo-se 1,0 litro de Ethrel em 1.000
litros de água ha-1, com pulverização mecanizada, aplicando-se de 30 a 50 ml da
solução sobre a parte aérea da planta.
Após a formação do fruto, procedeu-se a colheita quando a cor da casca estava
mudando de verde-escura para amarelo-bronzeada e os frutilhos ficando
achatados, tornando a superfície do fruto mais lisa em comparação à do fruto
"de vez". Todos os frutos da área útil foram colhidos e pesados,
fazendo-se observações sobre a incidência de queima solar, cochonilhas, broca e
fusariose em cada fruto. A produtividade da cultura foi estimada a partir do
peso total dos frutos colhidos na área útil da parcela.
Com base na amostragem de três frutos de abacaxi da área útil de cada unidade
experimental, foram determinadas as seguintes variáveis em laboratório:
comprimento (cm), maior diâmetro (cm) e diâmetro do eixo do fruto; peso (g) e
comprimento (cm) da coroa; Sólidos Solúveis Totais (SST -oBrix) com
refratômetro regulado a 270C e corrigido em função da temperatura ambiente,
Acidez Total Titulável (ATT) expressa em volume de solução de hidróxido de
sódio 0,1N gasto para a titulação de 10 mL de suco diluídos em 10 mL de água
destilada; e o rendimento em suco (% p/p) em relação ao peso do fruto.
Os dados obtidos foram submetidos a análises de variância pelo Sistema de
Análises de Engenharia e Genética ¾ SAEG, comparando-se as médias pelo teste de
Tukey, a 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Produtividade e os seus componentes -O resumo da análise de variância para
desbaste de mudas tipo filhote não evidenciou diferenças significativas entre
os tratamentos para produtividade, número de frutos colhidos e peso do fruto
com coroa (Tabela_2).
Como esperado, a produtividade mais baixa ocorreu no tratamento testemunha
(Tabela_3), mas o desbaste total não determinou o maior acréscimo nesta
variável, fato este observado no tratamento-2 (desbaste parcial, mantendo duas
mudas do lado do sol poente), com aumento de 13,2%, e no tratamento-5 (desbaste
parcial leve, mantendo seis mudas), com ganho de 12,3%. Entre os tratamentos
desbastados, o desbaste total das mudas, o mais intenso, foi o que apresentou o
menor peso médio de frutos (Tabela_3).
Apesar da ausência de diferença estatística, os dados obtidos sugerem uma
tendência para elevação da produtividade em resposta ao desbaste de mudas tipo
filhote. Resultados semelhantes foram encontrados por Giacomelli et al. (1967),
em São Paulo, e por Dantas et al. (1978), em Pernambuco, os quais não
observaram variações significativas na produtividade do abacaxi cvs. Smooth
Cayenne e Pérola, respectivamente, em resposta ao desbaste de mudas filhotes e/
ou a redução e eliminação da coroa do fruto.
Analisando-se os componentes da produtividade, o peso médio do fruto com coroa
não variou significativamente entre os tratamentos, com valores mais baixos
para a testemunha e mais altos para os tratamentos 2 e 5 (Tabela_3), com um
ganho máximo de apenas 100,7 g (13,2%) com a realização do desbaste parcial.
Resultados semelhantes foram encontrados por Silvy (1965), citado por Py
(1969), para a cv. Smooth Cayenne, obtendo um aumento de 10% no peso médio dos
frutos, com a retirada da coroa, e Dunsmore (1957) citado por Py (1969), com a
cv. Singapore Canning. Entretanto, Py & Tisseau (1965), estudando a cv.
Smooth Cayenne na Malásia, observaram que o desbaste de filhotes pode antecipar
a maturação do fruto, sem influir sobre o peso médio dos frutos, no primeiro
ciclo.
O outro componente da produtividade, número de frutos colhidos, não deveria ser
afetado pelos tratamentos de desbaste estudados, pois as inflorescências e,
portanto, os frutos já se encontravam em formação quando as mudas tipo filhote
haviam brotado e atingido tamanho mínimo adequado para se proceder o desbaste.
Após esta fase, a perda de frutos só poderia ser causada por incidência de
doença (fusariose) e/ou queima solar intensa, entretanto, no momento da
colheita dos frutos, não foram constatados sintomas de Fusarium
subglutinans.Considerando-se que o agente patogênico necessita de um ferimento
na superfície da planta para começar o processo infeccioso, rachaduras ou
aberturas provocadas por agentes bióticos (desbaste das mudas) ou abióticos
constituem, geralmente, sítios de infecção (Matos, 1999). Provavelmente, a
escassez de precipitações pluviométricas, no momento do desbaste até o
fechamento das aberturas (cicatrização) provocadas pelas retiradas das mudas,
não favoreceu a contaminação por fusariose.
A queima solar é uma conseqüência da exposição excessiva de um dos lados do
fruto do abacaxizeiro à ação direta dos raios solares, favorecida pela
inclinação ou tombamento das plantas. Normalmente, a queima ocorre no lado
exposto ao sol da tarde, mais quente e prejudicial para os frutos (Matos,
1999). Esta anomalia física poderia ser favorecida pela retirada parcial das
mudas tipo filhote, mas a sua ocorrência não foi constatada nos frutos neste
estudo, mesmo nos tratamentos com desbaste intenso e apesar de a maturação dos
frutos ter coincidido com período bastante quente, ensolarado e seco.
Como nenhum desses fatores apresentou incidência relevante nos frutos da área
experimental, as variações, não significativas, no número de frutos,
representam falhas no stand do plantio comercial objeto deste estudo (Tabela
3).
Apesar de as produtividades obtidas neste experimento terem sido boas, com
média geral de 45,0 t ha-1, muito superior à média nacional (em torno de 32 t
ha-1), o peso médio do fruto foi baixo (810,8 g). Para tanto, contribuíram
decisivamente as condições climáticas reinantes durante a formação e maturação
dos frutos, caracterizadas por longo período de deficiência hídrica, de agosto
a dezembro de 1998, quando foram registradas precipitações pluviométricas com
um total de apenas 51 mm (Tabela_1). Sabe-se que o abacaxizeiro demanda cerca
de 60 a 100 mm de chuvas por mês (Almeida & Reinhardt, 1999), ficando
evidente o estresse hídrico sofrido pelas plantas. Tal fato pode, ainda, ter
contribuído para os pequenos ganhos de peso e produtividade verificados neste
estudo, pois a deficiência hídrica pode ter afetado a produção e, sobretudo, a
translocação de fotossintatos entre órgãos da planta. Desta forma, a redução do
número de drenos pelo desbaste de mudas pode não ter resultado em aumento
proporcional do acúmulo de fotossintatos, provenientes do talo e das folhas da
planta, no fruto, pelo dreno principal. Se esta hipótese estiver correta, o
desbaste de mudas deverá apresentar melhores resultados relativos ao peso dos
frutos em plantas irrigadas ou desenvolvidas em condições naturais sem risco de
ocorrência de estresse hídrico acentuado.
Qualidade do fruto - As principais características químicas, físicas e físico-
químicas do fruto, tais como os teores de acidez total titulável (ATT) e
sólidos solúveis totais (SST), a relação (SST/ATT), o rendimento de suco (%),
comprimento, diâmetros mediano e do eixo central do fruto e comprimento da
coroa, não foram significativamente afetados pelos níveis de desbaste de mudas
tipo filhote estudados (Tabelas_4 e 5). Os valores médios obtidos para estas
variáveis foram típicos para os padrões da variedade Pérola, e similares
àqueles relatados por outros autores que conduziram estudos em condições
ambientais semelhantes (Reinhardt et al., 1981; Cabral et al., 1988; Reinhardt
& Medina, 1992; Caetano et al., 1997).
Por outro lado, para a variável peso da coroa (g), houve significância pelo
teste F, ao nível de 1% de probabilidade (dados não apresentados), determinada
pelas diferenças entre os tratamentos 6 (testemunha) e 5 (desbaste parcial
leve), que tiveram os menores valores médios, e os tratamentos 1 (desbaste
total das mudas), 2 e 3 (desbaste parcial), com os maiores pesos médios da
coroa (Tabela_5). A diferença mais notável ocorreu no tratamento 1, que
determinou a formação de frutos relativamente pequenos com as maiores coroas
(Tabelas_3 e 5). Estes dados sugerem que a redução do número de mudas (drenos)
pelo desbaste favoreceu o acúmulo de massa fresca através da translocação e
assimilação de fotossintatos pela coroa, outro tipo de muda e de dreno. Os
valores obtidos neste estudo, para peso da coroa, são semelhantes aos
encontrados por Caetano et al. (1997), mas são superiores aos encontrados por
Cabral et al. (1988) e por Santana & Medina (1997), e inferiores àqueles
relatados por Reinhardt & Medina (1992) para a mesma cultivar.
CONCLUSÕES
1. O desbaste de mudas tipo filhote em plantas de abacaxi cv. Pérola cultivada
sob condições de sequeiro, no Litoral Norte da Bahia, não determinou diferenças
estatísticas significativas para a produtividade da cultura e o peso do fruto,
observando-se, no entanto, tendência consistente para a elevação dos valores
deste último.
2. O desbaste de mudas não afetou a qualidade do fruto, que apresentou
características químicas, físicas e físico-químicas dentro dos padrões da
cultivar Pérola.