COMPORTAMENTO DA CULTIVAR DE MACIEIRA FUJI (Malus domestica, Borkh.) SOBRE TRÊS
DIFERENTES PORTA-ENXERTOS
COMPORTAMENTO DA CULTIVAR DE MACIEIRA FUJI (Malus domestica, Borkh.) SOBRE TRÊS
DIFERENTES PORTA-ENXERTOS1
INTRODUÇÃO
A maçã é um dos principais produtos agrícolas de Santa Catarina (Hentschke,
1993). O Estado colheu mais de 50% da produção nacional de 720 mil toneladas em
1999 (Boneti et al., 1999). Entretanto, os produtores ainda se defrontam com
alguns problemas, dentre os quais a demora das plantas em iniciar a produção
comercial, a baixa qualidade dos frutos, especialmente em tamanho, e o excesso
de vigor das plantas.
Verifica-se, a nível mundial, uma forte tendência para o plantio de macieira em
alta densidade de cultivo, usando-se porta-enxertos anões (Sansavini et al.
1998). As principais justificativas para esta nova tendência são a facilidade
de manejo de plantas de pequeno porte sobre este tipo de porta-enxerto
(Wertheim, 1998), a alta precocidade em iniciar a frutificação e a eficiência
produtiva (Tukey, 1970). A mão-de-obra, em atividades como poda, raleio dos
frutos e colheita, representa um importante fator que onera mais os custos de
produção em plantas de grande porte.
No sistema de alta densidade, são utilizados porta-enxertos de pequeno porte,
conhecidos como anões. O mais utilizado é o M-9, em virtude do forte controle
sobre o porte da copa, da precocidade de produção, da alta produtividade e da
boa qualidade dos frutos que induz à copa.
No Sul do Brasil, por questões de tradição internacional, facilidade de
obtenção e do menor custo de investimento no plantio, têm sido empregados,
basicamente, porta-enxertos de vigor médio, dentre os quais se destacam o MM-
106, o M-7 e o MM-111. O primeiro atualmente pouco usado devido à alta
suscetibilidade à podridão-do-colo (Phythophtora cactorum, Lebert.-Cohn,
Schrot). Estes porta-enxertos, que já foram muito utilizados no Hemisfério
Norte, produzem copas com porte alto, necessitando de escadas e/ou plataformas
móveis para realizar os tratos culturais. A utilização de tais equipamentos
reduz a eficiência da mão-de-obra, encarecendo a produção.
Para atender a um mercado consumidor cada vez mais exigente em qualidade, os
fruticultores têm buscado porta-enxertos mais eficientes no que se refere ao
tamanho e à coloração dos frutos. Por outro lado, a capacidade de induzir
precocidade em iniciar a produção e alta produtividade são características
essenciais para um porta-enxerto, as quais permitem mais rápido retorno dos
investimentos de plantio. Pesquisas têm mostrado que, em macieira, em geral,
quanto mais anão, mais eficiente tem-se revelado o porta-enxerto (Tukey, 1970).
Por esta razão, os principais países produtores de maçã na Europa, e mais
recentemente nos Estados Unidos e Canadá, utilizam principalmente o M-9 e seus
diferentes subclones, considerados os mais eficientes dentre os porta-enxertos
das séries 'M' e 'MM' nas características acima (Barritt, 1992).
No Sul do Brasil, os porta-enxertos mais anões, como o M-9 e o M-26, foram
pouco utilizados até meados da década de 1990, por exigirem mais tecnologia de
manejo das plantas e do solo, e por necessitarem tutoramento, fatores que
encarecem o custo inicial de plantio do pomar. No entanto, observa-se
atualmente uma tendência de reversão deste processo. Pomares sobre porta-
enxertos anões, plantados em alta densidade, estão paulatinamente substituindo
os porta-enxertos mais vigorosos.
O objetivo deste estudo foi comparar o desempenho agronômico nas condições
edafoclimáticas do Sul do Brasil, de três dos porta-enxertos de diferentes
vigores mais utilizados comercialmente, o anão M-9, o semi-anão M-7 e o
semivigoroso MM-111.
MATERIAL E MÉTODOS
O presente trabalho foi extraído de um experimento composto por 17 diferentes
porta-enxertos de macieira. Foram excluídos deste trabalho 14 deles, em virtude
de se tratarem de seleções, sobre as quais ainda não se pode emitir qualquer
recomendação de plantio, enquanto não forem lançadas como novos porta-enxertos.
A análise estatística, cujos resultados são aqui referidos, foi aplicada sobre
os resultados obtidos com os 17 novos porta-enxertos.
O experimento foi desenvolvido no município de Fraiburgo, em Santa Catarina,
principal pólo produtor de maçãs do País, em solo tipo Vacaria, categoria
Latossolo, Bruno, Úmico, Distrófico. O relevo é ondulado e a pluvio- metria é
de 1660 mm anuais. O pomar foi implantado no inverno de 1996, obedecendo ao
delineamento experimental de blocos ao acaso, com 4 repetições de 3 plantas por
parcela. A cultivar copa foi a Fuji e a polinizadora foi a Gala, principais
cultivares plantadas no Sul do Brasil. O espaçamento de cultivo foi de 2,0 m na
fila por 5,0 m entre filas, correspondendo a 1000 plantas por hectare. Os
tratamentos (porta-enxertos) estudados foram o M-9 (anão), o M-7 (semi-anão) e
o MM-111 (semivigoroso). Os tratamentos fertilizantes e fitossanitários, como
também os tratos culturais, seguiram as orientações do Sistema de Produção para
a Macieira (Embrater/Embrapa, 1984). Foram avaliadas, anualmente, as seguintes
variáveis: a) precocidade na produção comercial (gemas de flor/cm2 de área
transversal do caule); b) produção (kg/planta); c) produtividade acumulada (t/
ha); d) peso médio dos frutos (g); e) distribuição dos frutos por categoria de
tamanho; e f) porte das plantas (m). A precocidade, dada pelo número de gemas
de flor por cm2 de área transversal do caule, medida a 5 cm acima do ponto de
enxertia, expressa a capacidade do porta-enxerto em induzir precocemente a
diferenciação de gemas de flor. O tamanho dos frutos é expresso pelo seu peso
médio. Na distribuição por tamanho dos frutos, consideraram-se duas categorias:
a) frutos com diâmetro menor ou igual a 62 mm; b) frutos com diâmetro maior que
62 mm. O porte foi estabelecido pela altura das plantas, medida no quarto ano
após o plantio.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
a) Altura_das_plantas_e_precocidade_de_produção:
Na Tabela_1, é mostrada a altura das plantas e o número de gemas de flor por
planta e por cm2 de área transversal do caule - ATC, em ramos de 2 anos.
As plantas da cv. Fuji sobre o M-9 apresentaram porte médio 26,4% menor que
sobre o M-7, porém produziram 1,37 vez mais gemas de flor por planta. A área
transversal do caule (ATC) foi 1,41 vez menor sobre o M-9 do que sobre o M-7 e
2,28 vezes menor do que sobre o MM-111. Segundo Barritt (1992), o M-9 e o M-
7 têm, respectivamente, 30% e 60% do vigor do pé-franco. Carlson (1971) relata
que, no espaçamento adequado para cada tipo de porta-enxerto, quanto mais anão
for este, maior será a produção acumulada da copa enxertada sobre ele.
O número de gemas de flor por cm2 de ATC, o qual expressa a precocidade do
porta-enxerto, foi 1,93 vez maior no M-9 que no M-7 e 2,71 vezes maior no M-
9 que no MM-111, indicando que o M-9 é efetivamente bem mais precoce que o M-
7 e o MM-111. Westwood et al. (1986), em estudos de produção acumulada e
eficiência produtiva de uma série de porta-enxertos, realizados do 20 ao 40
anos após o plantio, observaram que o M-9, nestas três safras, produziu 33,4
kg/planta, enquanto o M-7 produziu apenas 17,6 kg/planta e o MM-111 24,9 kg/
planta. Estes autores observaram que a eficiência produtiva do M-9 foi de 2,31
kg/cm2 de ATC, a do M-7 foi de 0,95 kg e a do MM-111 foi de 1,10kg.
A área de produção do M-9 raramente chega aos 3 metros de altura, permitindo a
realização dos tratos culturais e de colheita, sem necessidade de escadas.
Devido à sua alta precocidade de produção, requer cuidados especiais no raleio
de frutos. Muitas vezes, além do raleio químico, necessita de um repasse manual
para a complementação do raleio. Apresenta, como principais limitações, a
fragilidade do sistema radicular e do lenho, requerendo, por isso, tutoramento
das plantas; e a alta suscetibilidade ao pulgão-lanígero (Eriosoma lanigerum,
Hausm.), praga importante no Sul do Brasil e que ataca, principalmente, o
sistema radicular.
O M-7 e o MM-111, por outro lado, são porta-enxertos mais vigorosos, cultivados
em média e baixa densidades de cultivo, respectivamente. Como principais
limitações, o MM-111 é lento em iniciar a frutificação, e o M-7 é também
altamente suscetível ao pulgão-lanígero e ao rebrotamento ao nível do colo das
plantas.
b) Produção_por_planta_e_produtividade_por_hectare
Os resultados da Tabela_2 evidenciam a influência da precocidade de produção e
da produtividade do M-9, especialmente no 30 ano após o plantio. O M-9, bem
mais precoce que os demais, também atinge a plena produção mais rapidamente. No
30 ano, enquanto o M-7 e o MM-111 não produziram 3 kg de frutos por planta, o
M-9 produziu, aproximadamente, 7 kg/planta.
No quartoano, ficou evidenciado que as diferenças de produção entre os três
porta-enxertos foram bem menores que as obtidas no terceiro ano. Isso mostra
que as diferenças em produção vão diminuindo à medida que as plantas atingem a
idade de produção. No entanto, a precocidade em iniciar a produção do M-
9 contribui para um melhor rendimento do pomar, principalmente nos primeiros
anos após o plantio. A produtividade acumulada até o 40 ano foi quase 10 t/ha
maior neste porta-enxerto que no M-7 e no MM-111 (Tab._2). Barritt (1992)
relata que a cv. Starkspur Supreme Delicious sobre o M-9 produziu, até o 100
ano, 326,32 t/ha, contra 219,53 t/ha sobre o M-7.
O espaçamento utilizado foi adequado até o 40 ano para os porta-enxertos M-7 e
MM-111, mas muito amplo para o M-9. Usando-se espaçamento mais denso para este
último, poder-se-ia obter produção comercial mais cedo e produtividade maior do
que a apresentada na Tabela_2.
c) Peso_médio_e_distribuição_por_categoria_de_tamanho_dos_frutos
O raleio de frutos em macieira é uma prática de rotina. Esta prática visa a
melhorar o calibre dos frutos e, ao mesmo tempo, evitar a alternância de
produção.
No terceiro ano após o plantio, procurou-se fazer o raleio, mantendo-se igual
densidade de frutos nos cachos florais, via de regra, um ou, no máximo, dois
frutos por cacho em todos os tratamentos.
Segundo Tukey (1970), porta-enxertos mais vigorosos como M-7 e o MM-111 levam
mais tempo para atingirem a idade de produção comercial. Este fato foi
observado neste experimento. Por causa do pequeno número de cachos florais
nestes dois porta-enxertos por ocasião do raleio, a densidade de frutos, após
efetuado o raleio, foi muito baixa, em relação ao que ficou no M-9. Mesmo com
uma produção 2,7 vezes maior que a do MM-111, o M-9 produziu frutos
significativamente maiores, com quase 160 g, contra 131,5 g no MM-111 (Tab._3).
Isto mostra que a produção de frutos grandes é uma característica varietal
deste porta-enxerto. A distribuição dos frutos por categoria de tamanho
confirma isto. Mais de 90% deles apresentaram tamanho acima de 62 mm de
diâmetro, contra 70,9% no MM-111. O M-9 é um porta-enxerto que tem também a
vantagem de ser mais resistente à podridão-do-colo que o M-7 e o MM-111, e de
produzir frutos mais coloridos, devido à copa mais compacta, com ramos curtos,
expondo mais os frutos ao sol. No entanto, requer solos de alta fertilidade,
principalmente em matéria orgânica, com boa retenção de umidade, mas ao mesmo
tempo bem drenados. Em virtude de produzir plantas de pequeno porte e de ser
altamente produtivo, em condições de deficiência hídrica e/ou nutricional,
poderá entrar precocemente em declínio vegetativo. Este processo de declínio
vegetativo é muito mais difícil de ser revertido em porta-enxertos anões, como
o M-9, do que em porta-enxertos mais vigorosos, como o MM-111.
Uma das vantagens mais relevantes do M-9 é a rápida entrada em produção
comercial, permitindo mais rápido retorno do capital inicial investido no
plantio do pomar. Via de regra, estes custos iniciais são mais elevados nos
porta-enxertos anões, devido ao tutoramento e ao maior número de mudas
necessárias por hectare. Por todas estas razões, o M-9 é um porta-enxerto de
pequeno porte, ideal para plantios em alta densidade.
CONCLUSÕES
Os resultados obtidos neste estudo permitiram as seguintes conclusões:
1. O porta-enxerto de macieira M-9 induz maior precocidade para iniciar a
produção na cv. Fuji que o M-7 e o MM-111, iniciando a produção comercial já no
terceiro ano após o plantio do pomar, no espaçamento de 2,0 m x 5,0 m.
2. Na cv. Fuji, o porta-enxerto M-9 induz maior produção por planta do que os
porta-enxertos M-7 e o MM-111, até o quarto ano após o plantio.
3. No espaçamento de 2,0 m x 5,0 m, a cv. Fuji sobre o M-9 é mais produtiva que
sobre os porta-enxertos M-7 e o MM-111 até o 40 ano.
4. A cv. Fuji sobre o M-9, além de mais produtiva nos primeiros 4 anos, produz
frutos de maior calibre que sobre o M-7 ou sobre o MM-111.