SELETIVIDADE DE INSETICIDAS A Neoseiulus californicus MCGREGOR (ACARI:
PHYTOSEIIDAE) EM MACIEIRA, NO RIO GRANDE DO SUL
INTRODUÇÃO
Entre os ácaros predadores, os pertencentes à família Phytoseiidae são os mais
estudados e utilizados em programas de controle biológico (McMurtry et al.,
1970; Fauvel & Atger, 1981). Neoseiulus californicus (McGregor) (Acari:
Phytoseiidae) é um ácaro predador que ocorre no Sul da Europa e nos Países
Andinos (Moraes et al., 1986).
Em 1992, este ácaro predador foi introduzido em um pomar de macieira da
Agropastoril Rincão das Flores, em Vacaria, Rio Grande do Sul, para o controle
do ácaro vermelho Panonychus ulmi Koch (Acari: Tetranychidae). A sobrevivência
dos inimigos naturais depende do programa fitossanitário empregado nos pomares.
Na região de Vacaria, ocorre a presença de várias pragas, entre as quais se
destaca a mosca-das-frutas Anastrepha fraterculus (Wied) (Diptera:
Tephritidae), que é a espécie dominante na região, com freqüência de 96% das
capturas em caça-moscas (Salles & Kovaleski, 1990a). Muitos dos
agroquímicos recomendados (Bleicher, 1982; Salles & Kovaleski, 1990b;
Salles, 1991) são extremamente tóxicos para ácaros predadores (Besson et
al.,1978; SPV, 1983; ANPP 1987). A presençade outras pragas, como Grapholita
molesta (Busck.) (Lepidoptera: Tortricidae) eNaupactus sp. (Coleoptera:
Curculionidae), cujos conhecimentos bioecológicos na região não foram
devidamente aprofundados, conduzem a tratamentos preventivos.
O objetivo deste trabalho foi conhecer os efeitos provocados pelos produtos
fitossanitários sobre o ácaro predador N. californicus utilizados no controle
de pragas em macieira.
MATERIAL E MÉTODOS
Obtenção do ácaro predador. N. californicus foi obtido do Centro Nacional de
Pesquisa do Meio Ambiente (CNPMA), unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (EMBRAPA), em Jaguariúna-SP, e introduzido no pomar de estudo, em
outubro de 1992 (Monteiro, 1994). Aproximadamente 500000 ácaros predadores
foram liberados em uma área de 2 ha, os quais foram coletados 6 meses após sua
liberação. A população utilizada para o tratamento-testemunha foi originada da
criação de rotina, não sofrendo nenhum tratamento químico.
Condução experimental. Os ácaros predadores utilizados para estes testes foram
previamente multiplicados a fim de obter uma população de idade conhecida. Para
tanto, seis fêmeas de N. californicus foram colocadas em uma arena de plástico
preto (2x2 cm), totalizando um conjunto de 12 arenas por tratamento,
depositadas sobre algodão úmido, que, por sua vez, está em uma caixa de
polietileno (13 x 7 cm), semelhante à utilizada em estudos de biologia por
Monteiro (1991). Para estimular a ovoposição, foi colocada nas arenas mechas de
algodão cobertas por uma lamínula de microscopia (18 x 18 mm) (Overmeer, 1985).
Após 5 horas ovopositando, as fêmeas foram retiradas das células, cujos ovos,
larvas e ninfas foram observados até a obtenção de fêmeas adultas de mesma
idade, alimentadas com ácaro rajado Tetranychus urticae. Destas, duas fêmeas
com dois dias de emergência e acasaladas foram colocadas em cada arena, as
quais foram previamente pulverizadas com os inseticidas e submetidas à secagem
natural por uma hora. Os tratamentos foram realizados com um atomizador marca
Desaga nº 124000, Heidelberg, durante 20 segundos por arena e produzindo uma
calda de 1,0 ± 0,25 ml de calda por cm2. Durante o período de avaliação, os
ácaros foram alimentados com pólen de mamoneira (Ricinus communis) depositado
sobre uma lamínula de microscopia, o que impediu o contado com os inseticidas.
Utilizaram-se 12 repetições (arenas), totalizando 24 fêmeas para cada
tratamento. Os ingredientes ativos testados encontram-se na Tabela_1, os quais
foram recomendados para o controle de A. fraterculus (Bleicher, 1982; Salles
& Kovaleski, 1990b; Salles, 1991), pulgões e lagartas (Andrei, 1990). A
mortalidade e oviposição das fêmeas foram observadas a 12; 24; 72 e 96 horas
após a pulverização; os intervalos de tempo para as avaliações foram escolhidos
a fim de identificar os inseticidas que apresentam efeito de choque sobre os
ácaros predadores; entretanto, os resultados finais apresentados neste estudo
representam os dados obtidos após 96 horas da pulverização. Entre a introdução
do ácaro predador no pomar e a coleta dos mesmos para os testes, foram
utilizados os seguintes inseticidas: malathion (3/11 e 17/11/92), phosmet (1-
12, 14-12-92 e 14-1-93), fenthion (7-12 e 21-12-92), triclorfon (14-1-93) e
sumithion (28-1 e 9-2-93).
Critérios de avaliação. O efeito negativo (E) foi calculado pelas indicações da
IOBC/WPRS (International Organization for Biological and Integrated Control of
Noxious Animal and Plants/West Paleartic Regional Section) (Hassan et al.,
1985; Bakker et al., 1992), sendo E=100% - (100%-Mc) x Er, onde Mc= mortalidade
corrigida (Abbott, 1925) e Er= efeito na reprodução. Er= Rtratamento/
Rtestemunha, onde R é o número de ovos viáveis/número de fêmeas vivas. O
experimento foi conduzido a 22ºC ±1º, UR de 75% ±10 e fotofase de 12 h. Os
produtos foram classificados quanto à toxicidade de acordo com IOBC/WPRS, onde:
classe 1 = E < 30% (neutro); classe 2 = 30% < E < 79% (levemente nocivo);
classe 3 = 80% < E < 99% (moderadamente nocivo) e classe 4 = E > 99% (nocivo)
(Hassan et al., 1985; Bakker et al., 1992; Reis et al., 1998)).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados dos efeitos dos inseticidas sobre N. californicus expostos aos
mesmos por 96 horas, expressos em mortalidade corrigida (Mc), percentagem de
sobrevivência (100-Mc), efeito reprodutivo (Er), efeito total (E%) e classe
toxicológica, são apresentados na Tabela_2.
Os agroquímicos azinphos ethyl, deltametrina e fenthion mostraram-se nocivos,
causando 100% da mortalidade de fêmeas em 24 horas após a exposição aos mesmos,
demonstrando forte efeito de choque, enquanto dimethoato, fenitrotion,
parathion methyl, phosmet e triclorfon apresentaram um efeito de choque menor,
o que possibilitou oviposição pelas fêmeas viáveis durante todos os dias de
observação.
O efeito dos inseticidas na reprodução (Er) de fêmeas sobreviventes de N.
californicus nos tratamentos malathion, parathion e triclorfon produziram
proporcionalmente mais ovos do que a testemunha, apresentando valores de Er
maiores do que 1 (Tabela_2). O cálculo de Er levou em consideração a Mc e a
produção média de ovos por fêmeas sobreviventes, neste caso, mesmo que o efeito
negativo do inseticida sobre a população seja elevado, as fêmeas sobreviventes
mantiveram as suas características genéticas e o seus potenciais de ovoposição.
Assim, embora a mortalidade no tratamento malathion tenha sido superior à
testemunha, respectivamente 33% e 7%, o efeito sobre a reprodução foi favorável
às fêmeas sobreviventes do tratamento malathion em função de estas terem
produzido 97 ovos contra 95 ovos na testemunha.
Esse elevado valor de Er pode estar relacionado com os tratamentos de
inseticidas fosforados realizados no pomar entre a liberação e a coleta dos
adultos de N. californicus, pois é possível que tenha havido seleção destas
populações, tornando-as mais tolerantes a estes agroquímicos. A seleção de
populações resistentes devido à intensidade dos tratamentos fitossanitários foi
observada por diferentes autores (Meyer, 1974; Caccia et al., 1985; Corino et
al., 1986).
Os resultados obtidos sugerem-nos que os produtos da classe 4 não devam ser
utilizados em programas de controle biológico, pois o alto grau de mortalidade
apresentado em laboratório deverá ser reproduzido a campo (Hoy & Conley,
1987). Entretanto, os ácaros predadores poderão desenvolver uma outra
estratégia de seletividade que não seja a fisiológica, necessitando de que os
testes de seletividade sejam repetidos a campo (Reis et al., 1998).
No caso de fenthion e de phosmet, os resultados de laboratório confirmam os
efeitos obtidos no campo por Monteiro (1993), que mostrou que a população de N.
californicus foi reduzida após pulverizações com fenthion, enquanto phosmet não
apresentou o mesmo efeito e não influenciou o equilíbrio entre as populações
dos ácaros vermelho e predador.
Os resultados encontrados neste trabalho não podem ser extrapolados para outras
regiões de macieiras, pois estes são dependentes da espécie, do microambiente e
da seleção da população exercida pelos tratamentos fitossanitários.