A participação portuguesa em missões de paz da ONU
Pretendemos com o presente artigo descrever e analisar o que foi a participação
nacional em missões de paz, desde o seu debute no Líbano, em 1958. Quando nos
referimos à participação nacional, estamos a considerar o envolvimento tanto
das Forças Armadas como das Forças de Segurança (GNR e PSP) nestas missões.
Para efeitos deste trabalho, considerámos como missões de paz todas aquelas
atividades que se enquadram nos conceitos de prevenção de conflitos,
peacemaking, manutenção da paz, imposição da paz e consolidação da paz
previstos na Capstone Doctrine, da ONU1.
O documento encontra-se organizado em cinco secções. Para enquadrar o leitor
começaremos por caracterizar de uma forma sumária o que tem sido a participação
nacional nestas operações. Seguem-se três secções, uma dedicada à participação
das Forças Armadas (FA), e as restantes duas a cada uma das Forças de Segurança
(FS), onde descreveremos os aspectos principais do mandato de cada missão, e o
que foi a participação nacional nessas missões. Finalizaremos com algumas
considerações que nos ajudarão a identificar os aspectos mais importantes dessa
participação. O trabalho inclui ainda uma secção de anexos, os quais permitem
visualizar de uma forma sintética o que foi a participação das diferentes
forças aqui consideradas.
Para elaborar este trabalho, o autor socorreu-se de outros trabalhos da sua
autoria, publicados e/ou a publicar, sobre temáticas próximas daquela aqui
tratada, procedendo à sua atualização e adaptação ao objeto aqui estabelecido.
Pela sua natureza própria e distinta, optamos por apresentar a participação das
FA e da GNR em dois capítulos distintos: em unidades constituídas
(contingentes/forças militares) e participações individuais (como, por exemplo,
os observadores militares). Para facilitar a identificação do leitor com as
missões, optámos deliberadamente por manter as suas designações originais (em
inglês ou francês), não as traduzindo para português. De salientar o facto de a
esmagadora maioria das missões em que atores nacionais participaram terem
decorrido sob os auspícios do Departamento de Operações de Apoio à Paz (DPKO).
A EVOLUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NAS MISSÕES DE PAZ
A primeira participação portuguesa em missões de paz da onu ocorreu no ido ano
de 1958, no Líbano, na United Nations Observation Group in Lebanon (UNOGIL), de
junho a dezembro, uma missão criada no rescaldo de uma revolta popular contra a
tentativa de o então Presidente Camille Chamoun alterar a Constituição, o que
lhe permitiria a eleição para um segundo mandato. Essa participação foi
singular e esporádica. Após um interregno de trinta e quatro anos e com a
Guerra Fria terminada, Portugal voltou a participar em missões de paz das
Nações Unidas. Em 1992, observadores militares portugueses entram em ação nos
territórios da antiga Jugoslávia, sob a bandeira da United Nations Protection
Force (UNPROFOR). Nos vinte e três anos que nos separam dessa data, a
participação nacional passou por quatro períodos distintos: o de Moçambique e
Angola; o de Timor-Leste; o de Timor-Leste e Líbano; e o do desinvestimento na
participação em missões lideradas pela ONU. O primeiro período corresponde a um
intervalo de tempo de seis anos (até 1998), em que, para além de uma presença
permanente nos Balcãs, as FA e as FS participam nas missões em Moçambique e em
Angola. No início de 1993, em Moçambique (United Nations Operations in
Mozambique, UNOMOZ), e de 1995 a 1998, em Angola (United Nations Angola
Verification Mission, UNAVEM III e United Nations Observer Mission in Angola
(MONUA). Com a retirada do grosso das forças nacionais de Angola temos um
período de dois anos com uma participação reduzida que faz a ponte para o
período seguinte (ver Anexo_A - Contribuição Nacional para as Missões de
Paz da ONU, p. 118). Em 2001, inicia-se o segundo período com a participação
nacional em Timor-Leste, que se prolonga até 2004, continuando
ininterruptamente durante este período a participação nos Balcãs.
À semelhança do período anterior, seguiram-se dois anos, com uma participação
reduzida e que fez a ponte para um terceiro período, com início em finais de
2006 e se prolongou até ao segundo semestre de 2012, a que podemos chamar o
período de Timor-Leste e do Líbano. Timor-Leste foi, de longe, o teatro de
operações onde Portugal consumiu mais recursos. No rescaldo da instabilidade
política e social que assolou Timor-Leste em 2006, Portugal enviou ainda nesse
ano uma força de manutenção da paz para o país, desta feita constituída por
unidades da Guarda Nacional Republicana (GNR). Este período termina com o
regresso a Portugal das forças destacadas no Líbano, em junho, e mais tarde, em
outubro, do grosso das forças destacadas em Timor-Leste. Daí em diante, até aos
dias de hoje, entrou-se num quarto período caracterizado por uma participação
residual, "minimizada" pelos contributos temporários para a missão
da ONU no Mali (United Nations Multidimensional Integrated Stabilization
Mission in Mali, MINUSMA).
A análise da participação portuguesa em missões de paz da ONU deve ser
acompanhada, em simultâneo, pelo estudo da participação nacional em missões da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e da Política Comum de
Segurança e Defesa (PCSD) da União Europeia (UE). Uma análise da participação
nacional em missões de paz efetuada tendo por base apenas a participação numa
das três grandes organizações será necessariamente manca. Não obstante esta
limitação na análise - recorda-se que não é objeto do presente trabalho
analisar a participação nacional em operações de paz, mas tão-somente nas
Nações Unidas - verifica-se a existência de um profundo desinvestimento
na participação em missões da ONU a partir de finais de 2012. Dos
"honrosos" 10.º e 12.º lugares ocupados por Portugal,
respetivamente, em 2002 e 2001, Portugal passou a ocupar, em junho de 2015, o
111.º lugar2no rankingdos países contribuintes com forças para missões da onu,
participando apenas com três militares, dois na MINUSMA (Mali) e um na United
Nations Assistance Mission in Afghanistan (UNAMA)3. Os decisores políticos
optaram por privilegiar a participação nacional em missões da NATO e da UE, em
detrimento das missões da ONU4.
AS FORÇAS ARMADAS E AS MISSÕES DE PAZ DA ONU
As Forças Armadas (FA) participaram em vinte e cinco missões de paz da ONU,
tanto na forma de unidades constituídas como de contribuições individuais (na
maioria dos casos como observadores militares ou eleitorais).
UNIDADES CONSTITUÍDAS
Ver Anexo_B - Participação das Forças Armadas Portuguesas em Missões de
Paz da ONU (Unidades Constituídas), p. 119.
United Nations Operations in Mozambique (UNOMOZ)
A 4 de outubro de 1992, após dois anos de negociações em Roma, a Frelimo e a
Renamo acordaram em assinar um acordo de paz, o qual previa o lançamento de uma
operação de paz - a UNOMOZ - para monitorizar o cumprimento do
acordo e apoiar o cessar-fogo, a desmobilização das forças beligerantes e levar
a cabo eleições nacionais. As FA iniciaram a sua ação em Moçambique, em abril
de 1993, e aí permanecem até dezembro de 1994. Estima-se que tenham passado
pelo território moçambicano um total de 463 militares portugueses, em serviço
no BTm 4 (Batalhão de Transmissões 4), no quartel-general da Força e nas
diversas comissões de acompanhamento.
United Nations Angola Verification Mission (UNAVEM III) eUnited Nations
Observer Mission in Angola (MONUA)
A UNAVEM III nasceu na sequência da assinatura do Protocolo de Lusaca pelas
fações beligerantes, em novembro de 1994. Tinha um mandato muito ambicioso:
alcançar a reconciliação nacional; monitorizar o cumprimento do cessar-fogo, a
desmobilização e o acantonamento das tropas da Unita e do Governo, e a
neutralidade da Polícia Nacional Angolana; coordenar a distribuição da ajuda
humanitária e as ações de desminagem; e verificar a realização do processo
eleitoral. Portugal participou nesta missão de maio de 1995 a junho de 1997,
com um efetivo próximo das seis centenas de militares, constituindo a Companhia
de Transmissões 5 (CTm 5) e a Companhia Logística (CLog 6) o núcleo duro dessa
participação. A MONUA sucedeu à UNAVEM III tendo por mandato promover a
reconciliação nacional, a par da consolidação do processo de paz. Portugal
continuou no terreno juntando às duas companhias já mencionadas, um
destacamento sanitário (DSan 7). As forças portuguesas da MONUA regressaram a
Portugal no início de 1999.
United Nations Transitional Administration in East Timor (UNTAET) e United
Nations Mission of Support in East Timor (UNMISET)
As FA iniciaram a sua intervenção em Timor-Leste, em 1999, com navios
integrados numa coligação de boas vontades designada por International Force in
East Timor (INTERFET), sancionada por uma Resolução do Conselho de Segurança
das Nações Unidas (RCSNU), tendo prolongado a sua presença no território
timorense com outros meios nas missões de manutenção e consolidação da paz que
se seguiram, primeiro na UNTAET e depois na UNMISET. Com a independência de
Timor-Leste, a 20 de maio, a UNTAET terminou o seu mandato de Administração
Transitória, dando lugar à UNMISET. Com características substancialmente
diferentes da sua antecessora, esta missão visava a consolidação do processo de
paz, o que significava apoiar a construção e consolidação das estruturas
administrativas centrais, elemento crítico para a manutenção da estabilidade
política do país.
A participação das FA portuguesas, sob a égide das Nações Unidas, neste teatro
de operações envolveu os três ramos. Salienta-se a presença de uma unidade de
escalão batalhão, desde fevereiro de 2000 até junho de 20045. Como veremos
adiante, Timor-Leste foi um teatro de operações onde as FA também participaram
com observadores militares e onde as FS tiveram um envolvimento
importantíssimo.
United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL)
A missão no Líbano teve início em 1978, sendo criada para confirmar a retirada
das forças israelitas do Sul do país, restaurar a paz e segurança
internacionais e ajudar o Governo na árdua tarefa de voltar a exercer a
autoridade naquela região. Em 2006, na sequência do fim do conflito que opôs as
milícias do Hezbollah ao Exército israelita, o Conselho de Segurança das Nações
Unidas (CSNU) legitimou a UNIFIL para cumprir, além do mandato que lhe tinha
sido conferido nos termos das RCSNU 425 e 426 aprovadas em 1978, várias tarefas
adicionais.
Para cumprir estas tarefas adicionais, a UNIFIL sofreu uma restruturação de
monta que implicou um aumento significativo do seu efetivo. É neste contexto
que, no final de 2006, Portugal decide enviar para o Líbano uma unidade de
engenharia militar de escalão companhia6, a qual teve a particularidade de
integrar militares de Timor-Leste (11 militares), os primeiros timorenses a
participar em missões de paz. Portugal terminou a sua contribuição para a
UNIFIL em 27 de junho de 2012.
United Nations Multidimensional Integrated Stabilization Mission in Mali
(MINUSMA)
A missão foi criada em abril de 2013, no Mali, para apoiar a consolidação de um
processo político que conduzisse à reconciliação nacional, e simultaneamente
realizar várias tarefas relacionadas com a segurança. Nomeadamente, apoiar as
autoridades do Mali na estabilização do país e na implementação do programa de
transição política. Em junho de 2014, o CSNU clarificou as tarefas da missão
dizendo que esta se deveria focalizar em garantir a segurança, a estabilização
e a proteção de civis; apoiar o diálogo político e a reconciliação nacional; e
auxiliar no restabelecimento da autoridade do Estado, na construção do setor de
segurança, e na promoção dos direitos humanos no país. Portugal iniciou a sua
participação a 4 de setembro de 2014, com um contingente de 51 militares (45 da
Força Aérea Portuguesa e seis do Exército), tendo terminado a 15 de maio de
2015. À data da publicação deste texto, a Força Aérea Portuguesa mantém dois
militares no quartel-general da MINUSMA.
CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS
Para além do envio de contingentes e/ou plataformas aéreas e marítimas, as FA
também enviaram militares para 19 missões de paz7não inseridos em unidades
constituídas, para desempenharem diversas funções, das quais 11 em África. No
caso das missões de paz das Nações Unidas essas funções eram, na esmagadora
maioria das vezes, de observação militar, e exercidas só por oficiais de posto
superior a capitão. No terreno podíamos deparar-nos com duas situações
distintas: coexistência num mesmo território de duas missões da ONU. Uma de
contingentes e outra constituída com base em contribuições individuais (por
exemplo, missões constituídas por forças militares e missões de observadores
militares, cada uma com a sua cadeia de comando própria), ou apenas missões
constituídas com base em contribuições individuais. Para simplificar,
chamaremos às primeiras missões de tipo A, e às segundas missões de tipo B.
Passaremos a apresenta-las por ordem cronológica do início (ver Anexo_C -
Participação das Forças Armadas Portuguesas em Missões de Observação, pp. 120-
121).
United Nations Observation Group in Lebanon (UNOGIL)
Como foi referido, a missão é criada na sequência da insurreição popular que
ocorreu no Líbano, como reação à tentativa do Presidente da República, um
cristão maronita, de tentar alterar a Constituição para se perpetuar no poder,
a qual estava a conduzir o país para a guerra civil. As FA participaram com
cinco militares, de 11 de junho a 9 de dezembro de 1958. A missão estava
mandatada para assegurar que pessoal e armamento não eram infiltrados através
da fronteira. A UNOGIL limitava-se a observar. O seu mandato não incluía
tarefas de mediação, arbitragem ou proibição de infiltrações ilegais. Esperava-
se apenas que a sua presença fosse dissuasora desses atos. Era uma missão do
tipo B.
United Nations Transition Assistance Group (UNTAG)
Na sequência da guerra da independência dos territórios do Sudoeste Africano,
Angola, Cuba e a África do Sul acordaram em 22 de dezembro de 1988 uma série de
medidas que permitissem assegurar a paz na região, e, simultaneamente, abrissem
caminho à implementação de um plano que culminasse na independência dos
territórios que se passaram a chamar Namíbia. Esse acordo previa a realização
de eleições. É neste contexto histórico que nasce a UNTAG com o objetivo de
assegurar a realização pacífica de eleições, monitorizar o acordo de cessar-
fogo entre as forças da South West Africa People's Organization (SWAPO) e
da África do Sul, a retirada e a desmobilização de todas as forças na Namíbia.
Portugal participou apenas na supervisão do ato eleitoral com três militares,
de 22 de outubro de 1989 a 11 de novembro de 1989. Era uma missão do tipo A.
United Nations Protection Force (UNPROFOR)
Foi uma missão estabelecida nos territórios da antiga Jugoslávia, com início em
fevereiro de 1992 e término a 31 de março de 1995. Inicialmente circunscrita ao
território da Croácia, foi mais tarde alargada aos territórios da Bósnia-
Herzegovina (daqui em diante, apenas Bósnia) e da Antiga República Jugoslava da
Macedónia (FYROM). O alargamento do território sob a sua jurisdição
correspondeu também a um alargamento das suas atribuições. Inicialmente, a
UNPROFOR estava mandatada para assegurar a desmilitarização das três áreas
protegidas da ONU (UNPA) e proteger a população nela residente de quaisquer
ataques, assim como monitorizar a desmilitarização da península de Prevlaka. Em
junho de 1992, na sequência da extensão do conflito à Bósnia, o mandato da
UNPRO-FOR foi alargado, passando a incluir a segurança e o funcionamento do
aeroporto de Sarajevo, e a distribuição de ajuda humanitária, apoiando o Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no seu esforço
humanitário por todo o território da Bósnia. A pedido, podia também conferir
proteção às colunas do ICRC. Adicionalmente, a UNPROFOR também se encontrava
mandatada para monitorizar o cumprimento da no-fly zone, das cinco safe arease
Sarajevo. Em dezembro de 1992, a UNPROFOR alargou a sua intervenção à FYROM
para monitorizar os desenvolvimentos na sua fronteira, naquilo que se designou
por preventive deployment.
Em 31 de março de 1995, a UNPROFOR sofreu uma restruturação profunda. A sua
Área de Responsabilidade (AOR, Area of Responsability) passou a ser apenas o
território da Bósnia. Na Croácia, é criada a United Nations Confidence
Restoration Operation (UNCRO) e na FYROM a United Nations Preventive Deployment
Force (UNPREDEP), missões autónomas no entanto interligadas. Os mandatos nos
respetivos territórios permaneceram os mesmos da sua antecessora UNPROFOR. Em
substituição da antiga UNPROFOR com responsabilidades a nível de teatro de
operações foi criada a UNPF. As FA contribuíram para todas estas missões com
observadores militares do Exército e da Força Aérea. Estes últimos orientados
para a verificação do cumprimento da zona de interdição aérea. Participaram na
UNPROFOR desde julho de 1991 até 31 de março de 1995, e nas suas sucessoras
(UNPF, UNCRO, FYROM e UNPREDEP) até ao fim8. Estas missões eram todas do tipo
A.
United Nations Operation in Mozambique (ONUMOZ)
Portugal contribui para a componente de observadores militares da missão com
seis militares, de 4 de abril de 1993 a 20 de outubro de 1994.
United Nations Mission of Observers in Prevlaka (UNMOP)
A missão foi criada em fevereiro de 1996 e prolongou-se até dezembro de 2002.
Herda as missões que do antecedente pertenciam à UNPROFOR, desde outubro de
1992, e a partir de 31 de março de 1995 à UNCRO. Continuava mandatada para
monitorizar a desmilitarização da península de Prevlaka e das áreas vizinhas da
Croácia e da FRYOM. As FA participaram nesta missão desde o início, com um
total de seis militares, até 25 de setembro de 2001.
United Nations Interim Administration Mission in Kosovo (UNMIK)
Na província sérvia do Kosovo, a missão teve início em junho de 19999, e
coexistiu no terreno com outras operações levadas a cabo por diferentes
organizações internacionais, nomeadamente a Kosovo Force (KFOR) sob a égide da
NATO, para a qual Portugal também contribuiu com forças. As FA integraram
ininterruptamente o "Military Liaison Office" com um militar
(durante alguns períodos com dois), até 30 de setembro de 2013, data em que
terminou a participação nacional10, num total de oito militares. Dois oficiais
generais portugueses chefiaram essa componente de "ligação
militar". É uma missão do tipo B.
United Nations Mission for the Referendum in Western Sahara (MINURSO)
Operação no Sara Ocidental, iniciada em 1991, na sequência dos acordos
celebrados entre o Governo de Marrocos e a Frente Polisário, com o objetivo de
criar condições para levar a cabo uma transição política na região, o que nunca
veio a acontecer dadas as divergências irreconciliáveis entre as partes. As FA
participaram na componente de observadores militares desta missão, de 9 de
abril de 1996 até 15 de fevereiro de 2001, com um total de 23 militares. De
salientar que dois dos comandantes da missão foram oficiais generais
portugueses. É uma missão do tipo A.
United Nations Observer Mission in South Africa (UNOMSA)
Esta missão decorreu na África do Sul, teve início em setembro de 1992 e
prolongou-se até junho de 1994. Tinha por objetivo garantir uma transição
política pacífica do país para a democracia, assegurando que as forças de
segurança e as organizações políticas respeitavam os códigos de conduta
estabelecidos no acordo de paz. No seguimento de um pedido efetuado pelas
autoridades sul-africanas, a onu decidiu apoiar a realização de eleições, para
o que foi necessário reforçar o dispositivo existente com cerca de dois mil
observadores eleitorais, de modo a cobrir todo o país. Portugal contribuiu para
este esforço adicional com cinco observadores eleitorais, de 15 a 30 de abril
de 1994.
United Nations Angola Verification Mission (UNAVEM) II
A missão teve início em junho de 1991 e prolongou-se até fevereiro de 1995.
Tinha por objetivo monitorizar o cumprimento do acordo de paz assinado em
Bicesse, muito em particular verificar o cumprimento do cessar-fogo. O acordo
de paz previa ainda a realização de eleições. As FA participaram na
monitorização das eleições presidenciais e legislativas com quatro militares,
na segunda quinzena de setembro de 1992. Foi uma missão do tipo A.
United Nations Angola Verification Mission (UNAVEM) III eUnited Nations
Observer Mission in Angola (MONUA)
Para além da contribuição com forças para a UNAVEM III e MONUA, conforme atrás
referido na secção "Unidades Constituídas", as FA também
participaram na componente de observação militar destas duas missões com um
total de 22 militares, entre maio de 1995 e outubro de 2002. Foram ambas
missões do tipo A.
United Nations Assistance Mission in Afghanistan (UNAMA)
É uma missão política da ONU estabelecida em março de 2002, a pedido do Governo
do Afeganistão, que se encontra mandatada para apoiar a implementação do Acordo
de Bona. A missão da UNAMA assemelha-se à da UNMIK, no Kosovo; tem como mandato
liderar e coordenar os esforços civis internacionais para apoiar as autoridades
afegãs no processo de transição11. A UNAMA integra uma unidade de
aconselhamento militar cuja missão é proporcionar conselho militar ao
representante especial do secretário-geral da ONU. As FA participam nesta
missão com um militar, desde 2008. O grosso da participação nacional no
território fez-se no âmbito da NATO. É uma missão do tipo B.
United Nations Mission of Support in East Timor (UNMISET)
Em Timor-Leste, as FA participaram de 20 de maio de 2002 a 20 de outubro de
2005, com nove militares, três dos quais oficiais generais que chefiaram a
componente de observadores militares da missão. Foi uma missão do tipo A.
United Nations Office in Timor-Leste (UNOTIL)
Foi uma missão política de peacebuilding(sob os auspícios do Department of
Political Affairs, UN Secretariat - DPA) que sucedeu à UNMISET. Teve
início em 20 de maio de 2005 e durou cerca de um ano, tendo sido substituída
pela UNMIT, na sequência de uma grave crise política, humanitária e de
segurança que varreu o país. A UNOTIL encontrava-se mandatada para apoiar o
desenvolvimento das instituições do Estado e da polícia, a governança
democrática e o respeito pelos direitos humanos. As FA participaram com cinco
militares, de 20 de maio de 2005 a 30 de agosto de 2006.
United Nations Mission in Liberia (UNMIL)
Trata-se de uma missão na Libéria iniciada em outubro de 2003, mandatada para
apoiar a implementação do acordo de cessar-fogo e do processo de paz; proteger
os funcionários, as instalações e os civis das Nações Unidas; apoiar as ações
no capítulo humanitário e dos direitos humanos, assim como na reforma do setor
de segurança, nomeadamente no treino e formação da polícia nacional e das
Forças Armadas liberianas. Mantinha-se ativa no momento em que este texto foi
redigido. As FA portuguesas contribuíram marginalmente com um militar, de 15 de
outubro a 15 de novembro de 200312. É uma missão do tipo A.
United Nations Operation in Burundi (ONUB)
Foi uma missão no Burundi iniciada em junho de 2004 e terminada em 31 de
dezembro de 2006. Tinha por mandato apoiar a implementação das provisões do
acordo de reconciliação e de paz de Arusha, assinado em 28 de agosto de 2000.
As FA iniciaram a sua participação em 11 de junho de 2004, tendo projetado um
total de quatro militares, até 5 de dezembro de 2006, quando terminou a
operação13. Foi uma missão do tipo A.
United Nations Operation in Côte d'Ivoire (UNOCI)
É uma operação na Costa do Marfim que se iniciou em junho de 2004 e que se
mantém em funcionamento na presente data. Tem por mandato facilitar a
implementação do acordo de paz celebrado entre as partes beligerantes em
janeiro de 2003. Após as eleições presidenciais realizadas em 2010 e a crise
política que se seguiu, a UNOCI continuou no terreno reformulando a sua missão,
desta feita incluindo nas suas atribuições a proteção de civis, proporcionar
bons ofícios, apoiar o Governo liberiano na reintegração e desmobilização de
antigos combatentes, assim como na reforma do setor de segurança, e monitorizar
e promover os direitos humanos. Numa participação que se pode considerar
marginal e insignificante, as FA contribuíram apenas com um militar, de 19 de
março de 2004 a 17 de abril de 200414. É uma missão do tipo A.
United Nations Mission in the Central African Republic and Chad (MINURCAT)
Foi uma operação que se iniciou em setembro de 2007 e terminou em dezembro de
2010. O mandato sofreu algumas alterações, porque o texto não era explícito
quanto às suas atribuições. Inicialmente, tinha por objetivo ajudar a manter a
ordem nos campos de refugiados e deslocados de guerra próximo da fronteira com
o Darfur, contribuir para a proteção de civis e para a promoção do respeito
pelos direitos humanos e do Estado de direito. Sucessivas RCSNU alargaram os
termos do mandato. Em março de 2009 assumiu as responsabilidades da missão da
European Union Force Chad/CAR (EUFOR TCHAD/ RCA), tanto no Chade como na
República Centro-Africana (RCA). O CSNU autorizou a projeção de uma componente
militar para compensar o fim da missão da UE no território15. A
"nova" MINURCAT passou a ter responsabilidades no treino da polícia
e na melhoria das infraestruturas judiciais. As FA participaram na operação de
1 de maio de 2008 a 1 de maio de 2009, com um militar colocado no quartel-
general da missão16.
United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL)
Na forma de contribuições individuais, a Marinha contribui com um militar, de
29 de fevereiro de 2008 a 13 de junho de 2008.
A GUARDA NACIONAL REPUBLICANA E AS MISSÕES DE PAZ DA ONU
A Guarda Nacional Republicana (GNR, ou simplesmente Guarda) participou em 13
missões da onu, seis das quais no continente africano e uma no continente
americano, desempenhando um leque bastante variado de funções, tanto na forma
de unidades constituídas (duas missões) como de contribuições individuais (11
missões, na maioria dos casos como monitores de polícia), executando tarefas
específicas de polícia17(ver Anexo_D - Participação da gnr em Missões de
Paz da ONU, p. 122)18.
UNIDADES CONSTITUÍDAS
As duas participações da Guarda em missões das Nações Unidas com unidades
constituídas ocorreram em Timor-Leste, na UNTAET e na UNMIT. Nesta última, a
Guarda participou simultaneamente na forma de unidades constituídas e de
contribuições individuais. Na UNTAET, a GNR participou entre março de 2000 e
junho de 2002, com uma Unidade de Reação Rápida, de escalão companhia19. Fruto
da instabilidade política e social que assolou o jovem país, a 25 de agosto de
2006, o CSNU aprovou uma nova Resolução que deu origem à UNMIT e ao envio de
uma nova força de manutenção da paz para o país. De agosto de 2006 a julho de
2012, a GNR participou na UNMIT com um subagrupamento (unidade de escalão
companhia constituída por 127 militares) que atuou como FPU. A missão da Guarda
no quadro da UNMIT cessou em dezembro de 2012.
CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS
Nesta modalidade, a Guarda participou na UNAVEM III e na MONUA em Angola,
UNMISET (Timor-Leste), MONUC (República Democrática do Congo), UNIMIL
(Libéria), United Nations Operation in Côte d'Ivoire (UNOCI, Costa do
Marfim), United Nations Stabilization Mission In Haiti (MINUSTAH, Haiti),
UNOTIL e UNMIT, estas duas em Timor-Leste, e na United Nations Integrated
Peacebuilding Office in Guinea-Bissau (UNIOGBIS,Guiné-Bissau).
Em Angola, a GNR participou na UNAVEM III com 31 militares, entre 1995 e 1996,
e na MONUA com um total de 93 militares, entre 1997 e 1999.
Na República Democrática do Congo, a gnr participou na MONUC com dois militares
na sua componente de Polícia Civil, de outubro de 2003 a outubro de 2005; na
Libéria, a GNR participou de julho de 2004 a agosto de 2005 na UNMIL com dois
militares, nas funções de monitores de polícia, os quais integraram a
componente de Polícia Civil (CIVPOL) da missão; na Costa do Marfim, a gnr
participou na UNOCI de julho de 2004 a agosto de 2005, com dois militares
integrados na componente de monitores de polícia civil da missão. A GNR
participou ainda na missão da ONU no Haiti (MINUSTAH), de julho de 2004 a julho
de 2005, com um total de quatro militares20, com o objetivo de colaborarem na
reforma e na restruturação da Polícia Nacional do Haiti.
Em Timor-Leste, a GNR participou na UNMISET, a missão que sucedeu à UNTAET, com
onze militares atuando como monitores de Polícia Civil, integrados na sua
componente de Polícia Civil, de dezembro de 2002 a dezembro de 2003. À UNMISET
seguiu-se em maio de 2005 a UNOTIL, uma missão política que visava assegurar a
estabilidade e o desenvolvimento de Timor-Leste, tendo a gnr contribuído com um
militar entre janeiro de 2005 e maio de 2006. De novembro de 2006 a fevereiro
de 2009, a GNR contribuiu com 57 monitores de polícia para a componente de
CIVPOL da missão, os quais desenvolveram um papel extremamente importante na
capacitação e formação do efetivo da Polícia Nacional de Timor-Leste. A Guarda
contribuiu também para a UNMIT na forma de contribuições individuais com seis
militares que operaram como elementos de ligação.
Na Guiné-Bissau, a Guarda participa na UNIOGBIS com duas militares, uma entre
janeiro de 2014 e março de 2015, e a outra encontra-se em funções, no momento
em que este texto foi elaborado. A UNIOGBIS é uma missão integrada estabelecida
em 2009, na Guiné-Bissau, que substituiu a missão até aí existente. Entre os
seus vários objetivos salientamos o apoio: ao fortalecimento das instituições
nacionais, com o intuito de manter a ordem constitucional, a segurança pública
e o pleno respeito pelo Estado de direito; à implementação de um processo
inclusivo de diálogo político e reconciliação nacional; à reforma do setor de
segurança; às autoridades nacionais no combate ao tráfico de droga e à
criminalidade organizada, assim como ao tráfico de pessoas.
A POLÍCIA DE SEGURANÇA PÚBLICA E AS MISSÕES DE PAZ
Entre 1992 e meados de 2015, a Polícia de Segurança Pública (PSP) participou em
17 missões de paz da ONU, das quais oito em África e duas no continente
americano. Os profissionais da psp têm participado em missões de paz operando
como monitores de Polícia Civil, apenas na forma de contribuições individuais.
Têm desempenhado um leque bastante alargado de funções, tais como: comando e
planeamento, formação em academias de polícia, investigação criminal,
informações policiais, ordem pública, segurança pessoal, apoio à vítima,
patrulhamento, policiamento comunitário ou de proximidade, trânsito e
observação eleitoral.
A PSP participou/participa nas seguintes missões, tais como: UNPROFOR (Bósnia),
UNOMOZ (Moçambique), UNMIBH (Bósnia-Herzegovina), MINURSO (Sara Ocidental),
MINURCA (República Centro-Africana), MINUGUA (Guatemala), UNTAET, UNMISET,
UNOTIL, UNMIT (estas quatro últimas em Timor-Leste), UNMIK (Kosovo), MONUC
(República Democrática do Congo), MINUSTAH (Haiti), UNIOSIL (Serra Leoa),
MINURCAT (Chade/República Centro-Africana), UNIOGBIS (Guiné-Bissau) e MINUSCA
(República Centro-Africana).
UNPROFOR
A PSP participou nesta missão e nas suas sucedâneas (UNPF, UNCRO e UNPREDEP)
com cerca de 158 polícias, entre março de 1992 e dezembro de 1995, integrando a
componente de Polícia Civil destas missões.
UNMOZ
A PSP envolveu-se nesta missão entre fevereiro de 1994 e dezembro de 1994,
integrando a sua componente de Polícia Civil.
UNMIBH
Esta missão foi criada no final de 1995, na Bósnia, na sequência dos Acordos de
Dayton, e tinha vários objetivos relacionados com a aplicação da lei e com a
reforma da polícia local; coordenava as atividades da onu no campo do apoio
humanitário e dos refugiados de guerra, da desminagem, dos direitos humanos,
das eleições e da reabilitação de infraestruturas e da reconstrução económica.
Os elementos da PSP integraram a sua componente de Polícia Civil designada por
UN IPTF (United Nations International Police Task Force) desde o seu início, em
dezembro de 1995 até dezembro de 2002, com um total de 264 elementos, quando
esta missão foi substituída por uma missão da UE.
MINURSO
A PSP integrou a componente de Polícia Civil da missão, tendo começado a sua
participação em outubro de 1997, inicialmente com um contingente de dez
elementos. A psp cessou definitivamente a sua presença em novembro de 200321,
tendo participado na operação com um total de 18 elementos.
MINURCA
A PSP participou nesta missão na República Centro-Africana com dois elementos,
entre junho de 1998 e fevereiro de 2000, tendo desempenhado funções
essencialmente ligadas à formação e assessoria das autoridades policiais
locais22.
United Nations Verification Mission in Guatemala (MINUGUA)
A operação foi lançada em junho de 1998, na Guatemala, como resposta à decisão
do Governo e das guerrilhas guatemaltecas de regressarem à mesa das
negociações, e terminou em setembro de 2002. Tratava-se de uma missão mandatada
para verificar o cumprimento dos acordos assinados entre as partes, assim como
o respeito pelos direitos humanos. A PSP integrou a componente de Polícia Civil
da missão entre junho de 1998 e setembro de 2002, tendo contribuído com um
total de cinco elementos policiais.
UNMIK
A PSP integrou a componente de Polícia da ONU, no âmbito da Administração
Transitória Interina do Kosovo desde o primeiro instante, em julho/agosto de
1999, com 20 elementos que transitaram da Bósnia para o Kosovo23. A
contribuição da PSP para a missão foi diminuindo progressivamente tendo cessado
definitivamente em julho de 2008, tendo totalizado aproximadamente 75 elementos
policiais.
UNTAET, UNMISET, UNOTIL e UNMIT
A PSP operou integrada nas componentes de Polícia Civil destas missões. Com a
chegada em janeiro de 2000 do comandante da UNPOL e dos primeiros elementos
policiais, a PSP foi a primeira força de segurança a assumir responsabilidades
no território, ainda quando a INTERFET tinha a responsabilidade da manutenção
da lei e da ordem. O contingente da PSP ficou completo com a chegada, no
princípio de fevereiro de 2000, dos restantes 40 elementos. Três oficiais
superiores da PSP chefiaram a componente de Polícia Civil das diferentes
missões (de janeiro a agosto de 2000, e de setembro de 2000 a novembro de 2001,
ambos durante a vigência da UNTAET, e entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012,
durante a UNMIT).
Equipas da PSP integraram a Unidade de Segurança Pessoal da UNPOL que garantiu,
entre 2000 e 2004, a segurança dos mais altos dignitários timorenses,
designadamente o Presidente da República, primeiro-ministro e ministro dos
Negócios Estrangeiros. Simultaneamente, ministraram formação aos polícias
timorenses que integraram posteriormente aquela unidade especial. Um dos pontos
altos da ação da PSP foi a formação ministrada na Academia de Polícia em Comoro
- Díli, de que o primeiro diretor foi um oficial da PSP. A presença de
polícias portugueses foi determinante na linha orientadora daquela escola24. A
participação da PSP terminou em dezembro de 2012, quando terminou a missão,
tendo rondado um total superior a 230 elementos.
MONUC
A PSP integrou a componente de Polícia Civil da missão, tendo participado com
seis elementos, os quais desempenharam funções essencialmente na área da
formação da polícia local, entre 2001 e 2004. Entre maio e dezembro de 2003, um
elemento da PSP desempenhou as funções de police commissioner, chefiando a
componente de Polícia Civil da MONUC.
MINUSTAH
A PSP participou nesta missão no Haiti em dois momentos: de junho de 2004 a
junho de 2005, com um elemento integrando a componente de Polícia Civil; e de
janeiro de 2013 a setembro de 2014, com um elemento que ocupou o cargo de
police commissioner.
UNIOSIL
Foi a operação que sucedeu à UNAMSIL e encontrava‑se mandatada para apoiar o
Governo da Serra Leoa no processo de construção das instituições do Estado, na
defesa dos direitos humanos e na implementação da reforma do setor de
segurança. A Secção de Polícia Civil e de Assistência Militar da Missão era
composta por elementos policiais internacionais dos quais dois pertenciam à
PSP. A contribuição da PSP teve lugar entre 2006 e 2008.
MINURCAT
Elementos da PSP participaram nesta missão em duas tarefas distintas: segurança
pessoal do representante especial do secretário-geral da ONU (RESG)25; e
aconselhamento e formação das forças de segurança locais. Participaram nesta
última tarefa quatro oficiais.
United Nations Multidimensional Integrated Stabilization Mission in the Central
African Republic (MINUSCA)
A missão nasceu em janeiro de 2010 com o objetivo de consolidar a paz e
reforçar as instituições democráticas. Contudo, as vicissitudes por que passou
fizeram com que o seu mandato em setembro de 2013 tivesse sido alterado em
cinco domínios (apoio à implementação do processo de transição; apoio à
prevenção de conflitos e à assistência humanitária; apoio à estabilização das
condições de segurança; promoção e proteção dos direitos do homem; e
coordenação da ação dos atores internacionais). Em março de 2014, transformou-
se numa operação ao abrigo do capítulo vii da Carta das Nações Unidas com a
tarefa principal de proteger os civis. A PSP participa nesta missão desde 13 de
setembro de 2014, com o police commissioner.
UNIOGBIS
A PSP participou nesta missão entre 2010 e 201226 com três elementos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez feita a apresentação do que foi a participação nacional em missões de
paz da ONU, importa perceber quais os aspectos relevantes dessa atividade que
nos permitem identificar traços comuns e tendências. De pouco valerá afirmar
que as Forças Armadas e as Forças de Segurança participaram em 35 missões de
paz, em quatro continentes, com cerca de 8400 militares e polícias, se essa
informação não for contextualizada. Nem as missões nem as funções desempenhadas
tiveram a mesma importância e significado. Para esse exercício selecionámos
três dimensões: a localização do teatro de operações onde decorreram as
missões, os meios empregues (concentrar-nos-emos apenas nos recursos humanos,
por ter sido esse o enfoque do trabalho), e os mandatos das operações.
No início da década de 1990, Portugal participou ativamente com unidades
constituídas nas missões de paz da ONU que ocorreram no espaço lusófono,
nomeadamente, em Moçambique e Angola. Durante esse período, Portugal participou
ainda em missões nos Balcãs. Com a entrada no século XXI, verificou-se uma
dispersão geográfica das missões de paz em que o País se envolveu. Aumentou o
número de teatros de operações, assim como a distância entre eles. Como aspecto
relevante sobressai o facto de as forças nacionais operarem primordialmente em
regiões que não se inseriam nas áreas tradicionais de interesse nacional
(Balcãs, Serra Leoa, Libéria, Sudão, Guatemala, Haiti, Burundi, Costa do
Marfim, Líbano, etc.), não sendo óbvia a existência de uma relação direta entre
uma e a outra coisa, isto é, entre participação e interesse nacional.
Percebendo essa relação, intrinsecamente ligada à política externa do Estado,
mais facilmente se perceberá como é que a participação nacional em determinados
teatros de operações se poderá inscrever nessa equação. Os argumentos mais
plausíveis poderão encontrar-se nos domínios da segurança cooperativa. Se é
verdade que foi através da participação em missões da ONU que Portugal pôde
estar presente no auxílio a países pertencentes à CPLP - mais tarde as
Forças Armadas e Forças de Segurança participaram em missões em Timor-Leste e
na Guiné-Bissau - também é verdade que foi através da ONU que Portugal
conseguiu estar presente noutros teatros de operações, onde noutras
circunstâncias dificilmente conseguiria estar. Contudo, ficam por esclarecer os
motivos subjacentes à dispersão geográfica dessas participações. Em termos de
interesse nacional, participar numa missão e não participar noutra tem de ter
necessariamente um significado político diferente. Terá prevalecido a
possibilidade de explorar novas oportunidades de política externa, ou foi
apenas um exercício de show the flag? Através da participação nacional em
missões de paz não se consegue discernir a existência (ou não) de áreas
geográficas prioritárias que devam ser objeto de maior atenção por parte dos
diferentes atores nacionais, partindo do princípio que haverá um sincronismo na
utilização de todos os instrumentos de política externa à disposição do Estado.
À dispersão geográfica das missões há que adicionar a dispersão de meios, sem
embargo do facto de em várias ocasiões terem sido empregues no mesmo teatro de
operações, em simultâneo, elementos das Forças Armadas e/ou das Forças de
Segurança27: antiga Jugoslávia, Moçambique, Angola, Chade e República Centro-
Africana, Sara Ocidental, Burundi, Costa do Marfim e Timor-Leste. Em princípio,
a quantidade e o tipo de meios empregues, por outras palavras, o tipo de
participação nessas missões, também deve ter uma relação direta com o interesse
nacional na região onde decorrem as missões. Este motivo explica porque é que a
participação nacional em Timor-Leste foi, de longe, a que consumiu mais
recursos ao erário público e se prolongou por cerca de doze anos, em contraste,
por exemplo, com a diminuta participação na missão em curso na Guiné-Bissau.
Noutros casos, porém, é mais difícil estabelecer este tipo de relação.
Ao procurar estabelecer uma ponte entre a geografia e o tipo de participação, é
possível identificar uma tendência na participação nacional: numa significativa
maioria de casos, a participação das Forças Armadas e Forças de Segurança
efetuou-se através de contribuições individuais, diminutas e de curta duração
(um/dois anos). Seria importante saber o racional que preside à adoção desta
opção: aspectos de natureza financeira - os custos das participações
individuais são sempre muito menores do que os encargos com unidades
constituídas -, ou aspectos de natureza política, nomeadamente a
possibilidade de se retirarem dividendos políticos específicos através do
emprego desta modalidade (monitorização, formação, mentoria, etc.), pensando no
efeito multiplicador, muito provavelmente intangível e de longo prazo que estas
participações poderão ter. Face à impossibilidade real deste tipo de
participação em criar redes de relacionamento, adquirir conhecimento relevante
sobre o país ou exercer influência em setores nevrálgicos daquelas sociedades,
ficam-nos algumas interrogações sobre o mérito e os benefícios destas opções.
Este tipo de participações tem ocorrido, sobretudo, em missões no continente
africano.
A alteração qualitativa da natureza dos mandatos transporta-nos para outro
aspecto relevante da participação nacional que merece ser destacado. Como
pudemos observar pela descrição feita dos mandatos das diferentes missões,
verifica-se uma significativa alteração qualitativa na sua natureza, à medida
que vamos caminhando pelo século XXI. A ONU tem vindo a relegar a gestão da
violência para segundo plano, concentrando-se progressivamente em ações
características do pós-violência, onde se inserem todas as questões
relacionadas com a reconstrução e desenvolvimento, entre outras, a reforma do
setor de segurança, com as implicações sociais, económicas e políticas que daí
advêm e que lhe estão subjacentes. Por isso, a maioria das missões lançadas
pela ONU, assim como pela UE, na segunda metade da década foram de construção/
consolidação da paz, mais vocacionadas para aspectos de desenvolvimento e da
reconstrução dos estados que emergem de conflitos violentos.
Este novo enfoque das missões de paz, igualmente adotado pela ue e evidente na
formulação do conceito de gestão civil de crises veio trazer um maior
protagonismo às Forças de Segurança, cada vez mais chamadas para participarem
nestas missões. Esta ênfase explica parcialmente o aumento de protagonismo da
gnr nas missões de paz, dadas as suas características de força militar e de
polícia, tornando-a particularmente apta para participar naquele tipo de
operações. Embora tenha havido o engenho de utilizar as Forças Armadas e Forças
de Segurança nos nichos de especialidade para os quais aquelas se encontram
extremamente aptas e dispõem de inegáveis vantagens competitivas neste novo
tipo de missões, não podemos deixar de referir, apesar de este tema não ter
sido objeto de estudo neste trabalho, que Portugal não se preparou
convenientemente para este novo desafio. Excetuando o caso de Timor‑Leste, em
que houve uma participação significativa de atores civis, nos restantes casos
essa participação tem sido praticamente inexistente28.