Os Estados Unidos e a transição para a multipolaridade: a crise na Ucrânia
A actual conjuntura internacional poderá contribuir para o acentuar da
redefinição da distribuição do poder no sistema internacional, na passagem da
unipolaridade para a multipolaridade com a liderança norte-americana e, por
fim, à plena multipolaridade com a crise ucraniana. A legitimidade norte-
americana volta a ser crescentemente contestada, seja por estados soberanos,
como a República Popular da China (RPC) na Ásia-Pacífico, ou por
autodenominados estados, como o Estado Islâmico no Médio Oriente.
O sistema internacional sofreu transformações na distribuição do poder ao longo
da História. Foi assim em 1648, 1815, 1919, 1945 e, por fim, em 19912. A teoria
realista das Relações Internacionais afirma que o redefinir do sistema
internacional só pode ocorrer depois de um conflito bélico que seja forte o
suficiente para o modificar, ou seja, em consequência de um conflito
hegemónico. A Guerra Fria foi um produto da Segunda Guerra Mundial e da
consequente ascensão no sistema internacional de duas superpotências com
ideologias e interesses antagónicos - os Estados Unidos e a URSS. O
conflito hegemónico deveria ser seguido de uma conferência entre as grandes
potências vencedoras em que fossem definidas as novas regras, leis e
instituições da nova ordem internacional. Foi assim em Vestefália, Viena,
Versalhes e Ialta, mas não em 1991 com o fim da Guerra Fria.
O mundo deparou-se durante quarenta e quatro anos com um sistema de
distribuição de poder bipolar, caracterizado pela potencialidade da destruição
mútua assegurada (mutual assured destruction). Com a queda do Muro de Berlim,
em Novembro de 1989 e a posterior implosão da ex-URSS, em Dezembro de 1991,
desapareceu uma das duas superpotências da bipolaridade e o sistema
internacional transformou-se pacificamente, contrariando a visão realista de
que tal apenas poderia ocorrer em consequência de uma guerra hegemónica. Porque
o sistema internacional pós-1945 foi construído principalmente pelos Estados
Unidos, a sua continuidade parecia consolidar as suas regras, normas e
instituições, englobando assim os estados que se localizavam no Bloco de
Leste3.
Neste contexto surgiu a apologia do fim da História de Francis Fukuyama (1999)
e a expectativa da expansão da visão liberal-institucionalista4. Defendeu-se a
alegada supremacia do sistema capitalista, e sua consequente globalização, bem
como da democra-cia-liberal perante todas as outras alternativas estruturantes
da sociedade e do modo de produção. É neste contexto que o alargamento da União
Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) se iniciou.
Com a intenção de desenvolver uma política externa a UE criou a Política
Externa de Segurança e Defesa (pesc) (1993), que veio a ser reforçada pela
Política Europeia de Segurança e Defesa (pesd) (1999), pela Política de
Alargamento e, por fim, pela Política Europeia de Vizinhança (pev) (2004).
Foram criadas as necessárias políticas para a expansão da UE e do seu modelo
neoliberal para Leste, para que se desse a adesão da Polónia e da Hungria,
entre outros estados. O cerne da política externa da UE na sua periferia
baseia-se na exportação do seu ordenamento político e económico interno:
legitima as suas intervenções nos estados da periferia europeia com a ajuda
económica e a promessa de uma eventual adesão, ao mesmo tempo que lhes impõe
condições para a receberem e para aderirem ao projecto europeu: reformas
económicas transformativas de cariz neoliberal e reformas das instituições
políticas. Na base do alargamento encontra-se a crença liberal de que a
democracia e a interdependência económica evitam conflitos bélicos, garantindo
assim a paz e a segurança da periferia europeia e, principalmente, do centro,
acrescen-tando-se os interesses agrícolas e energéticos, como no caso
ucraniano5. A UE olha para o Leste como a representação de uma oportunidade de
reforçar a sua segurança económica e energética6. No caso da Ucrânia, foi
criada a Parceria Oriental7(2009), seguindo a orientação geral da pev, que
definiu como prioridades a transição e consolidação dos regimes democráticos, a
promoção gradual da economia, a mobilidade dos cidadãos, a associação política
e o aprofundamento da cooperação, bem como o respeito pelos direitos humanos,
pelo Estado de direito, pela democracia e pela economia de mercado.
A par do alargamento da UE, assistiu-se à expansão da NATO para o Leste
europeu, e para o espaço pós-soviético, no caso dos países bálticos, após o fim
da Guerra Fria.
Na base da expansão da Aliança encontrava-se a mudança estratégica da mesma,
impulsionada pelos Estados Unidos, do containment8para o enlargement, por
entenderem que novasameaças se colocavam à paz e segurança do sistema
internacional, principalmente no seu espaço próximo, como o terrorismo, a
proliferação nuclear, os conflitos intraestatais, entre outros9. O Conceito
Estratégico da NATO de 1991 espelhou esta mudança estratégica, criando a
Parceria para a Paz. O alargamento teve por base dois objectivos: primeiro, o
anseio de estender as suas missões e capacidade de resposta fora das suas
fronteiras; e, segundo, responder ao desejo dos estados que pretendiam aderir à
NATO por considerarem que desta forma estariam mais seguros face a uma eventual
ascensão da Federação Russa e da sua ingerência nos seus assuntos internos e
também pelo facto de virem a ter acesso a meios militares que de outra forma
não teriam10. Em 1999, ocorreram as primeiras adesões de estados do ex-Bloco de
Leste à NATO, como a República Checa, a Polónia e a Hungria, além de se ter
formado, em 1997, o Conselho da Parceria Euro-Atlântica com países do eea que
não eram membros da Aliança. Em 2004 e 2009, a NATO consolidou a sua expansão
com as adesões da Bulgária, Eslovénia, Eslováquia, Estónia, Letónia, Lituânia,
Roménia, Albânia e Croácia, respectivamente11. O alargamento da organização
entrou assim no espaço de influência que a Federação Russa considera seu
privilégio num momento em que não possuía as capacidades necessárias para o
impedir. A Rússia aderiu também à Parceria para a Paz quando esta foi criada,
assinou o NATO-Russia Founding Act, em 1997, e aceitou criar o Conselho NATO-
Rússia, em 2002.
O alargamento da UE e da NATO espelharam a nova distribuição de poder unipolar
no sistema internacional. Se no caso da UE o alargamento foi apoiado pelos
Estados Unidos, no caso da NATO foram os Estados Unidos os grandes
impulsionadores da expansão no espaço pós-soviético. A implementação de
políticas de alargamento a estados cada vez mais importantes para os interesses
russos e próximos das suas fronteiras aumentou a possibilidade de eventuais
choques com a Federação Russa, possibilidade que se materializou com a crise
georgiana, em 2008, e actualmente na crise ucraniana.
DECLÍNIO E ASCENSÃO DA FEDERAÇÃO RUSSA
A Federação Russa, herdeira do império soviético, entrou, na década de 1990,
numa fase de acentuada destabilização e declínio, tanto no interior como no
exterior das suas fronteiras, protagonizada pelo então Presidente Boris
Ieltsin, ao iniciar a aplicação da doutrina económica neoliberal. De uma
burocracia degenerada que controlava o poder político do Kremlin, a Federação
Russa passou a ter uma classe de oligarcas nascida com a venda massiva das
empresas públicas e de recursos públicos da ex-URSS em processos muito pouco
transparentes12.
A Federação Russa é um dos poucos exemplos na História de uma superpotência que
abandonou voluntariamente os princípios de governo e ideologia que
anteriormente a sustentavam, adoptando os dos seus adversários no sistema
internacional, mas mantendo as suas grandiosas ambições de poder13. No entanto,
se por um lado a Federação Russa possui algumas das características que definem
uma grande potência no actual sistema internacional liberal-institucional, como
o direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), o facto de
ser uma potência nuclear e de integrar organizações internacionais fundamentais
- como a Organização Mundial de Comércio (omc) desde 2011 -, por
outro lado, estão ausentes outros elementos que são fundamentais na definição
de uma grande potência, como uma taxa demográfica estável, a diversificação dos
factores de produção de riqueza e crescimento económico e soft power14. Estes
últimos elementos fazem com que a ascensão da Federação Russa não seja estável,
colocando em risco tanto as políticas seguidas até ao momento no sistema
internacional como as praticadas a nível interno. Ao mesmo tempo que a Rússia
tinha de construir uma nova legitimidade política e consolidar a sua nova
posição no sistema internacional15, Moscovo viu-se confrontada com a
incapacidade de travar o momento unipolar norte-americano em consequência dos
seus problemas internos, como a instabilidade política, o inexistente ou fraco
crescimento económico e as debilidades do seu aparelho militar parcamente
modernizado. Foi um período de reacção, mesmo que pouca, em vez de acção.
Foi neste contexto, em 2000, que a ascensão de Vladimir Putin à presidência
ocorreu. Putin começou por demonstrar uma posição de força no conflito da
Thetchénia e a inflacionar o preço do petróleo e do gás, fundamental para uma
economia fortemente dependente da exploração destes recursos. O preço do barril
ultrapassou os 50 dólares por unidade16. Em consequência, a Federação Russa
começou a alcançar o crescimento económico que lhe permitiu renovar o seu
obsoleto aparelho militar e começar a utilizar a dependência energética de
estados pertencentes ao espaço pós-soviético como instrumento político. Putin
iniciou o seu objectivo primordial: restituir a ordem e o nacional aos russos e
recuperar o equilíbrio de poder com os Estados Unidos17. Acrescenta-se também o
facto de o declínio russo ser percepcionado pelos seus cidadãos como um período
de vergonha e humilhação perpetrado pelo Ocidente, o que, a par da repressão e
da propaganda, permite o exacerbar do nacionalismo e a ascensão de uma
autocracia personificada em Vladimir Putin. Assim, o nacionalismo sustenta o
fortalecimento do poder e o prestígio interno do actual Presidente russo. Posto
isto, é possível que, caso a política externa russa sofra um sério revés, este
tenha impacto na estabilidade política interna russa e na permanência de Putin
no Kremlin e na sua afirmação como líder incontestável. Segundo Richard Sakwa,
a política externa russa, de 1991 até 2014, pode ser subdividida em quatro
fases: o "internacionalismo liberal" (1991-1996), a
"competitividade pragmática" (1996-2000), o "novo
realismo" (2000-2012) e o "neo-revisionismo" (2012-2014). A
fase do internacionalismo liberal ficou marcada pela "casa comum
europeia" de Gorbatchev e pela abertura económica russa através da
aplicação de medidas neoliberais. Esta fase foi prosseguida pelo então ministro
dos Negócios Estrangeiros, Andrei Kozyrev, com o reforço das relações com as
Comunidades Europeias, com a adesão à Parceria para a Paz da NATO (1994) e ao
Conselho da Europa (1996). Contudo, a abertura ao Ocidente não correspondeu ao
crescimento económico expectável nem ao estatuto de grande potência, anseios
que os russos granjeavam durante o processo de transição. Entrou-se na segunda
fase, a da competitividade pragmática que se baseou tanto numa visão crítica
sobre o Ocidente, como na cooperação com o mesmo dependendo da problemática e
dos interesses em questão, optando também pelo desenvolvimento de relações com
a Índia, Médio Oriente e RPC. Esta fase foi prosseguida por Evegny Primakov,
então ministro dos Negócios Estrangeiros, permitindo à Federação Russa um maior
equilíbrio na sua política externa, tendo como base a sua ambivalência Europa-
Ásia. A Federação Russa iniciou neste período o reafirmar do seu desejo de uma
ordem multipolar, na qual teria uma importância fundamental na definição das
várias questões. Com a chegada de Vladimir Putin à presidência inaugurou-se um
novo período, o do "novo realismo". Este baseou-se na visão
realista do interesse nacional no sistema internacional através da procura de
equilíbrios e vantagens competitivas para a Federação Russa. Este período foi
também caracterizado pela tentativa de a Rússia tentar estabelecer proveitos
mútuos através da sua integração em estruturas europeias e globais18. A quarta
e última fase, o "neo-revisionismo", iniciou-se com o discurso de
Putin na Conferência sobre Segurança de Munique, em 2007. Putin afirmou de
forma clara o seu descontentamento com as políticas norte-americanas e
europeias no espaço euro-atlântico, como o sistema de defesa antimísseis e o
conflito do Kosovo. Esta nova fase baseia-se no reafirmar da Federação Russa no
sistema internacional, tendo como pano de fundo o desenvolvimento e crescimento
económico baseados nas receitas da venda de recursos energéticos e de
armamento19.
No Russian National Security Strategy 2020, redigido em 2009, o Kremlin
reafirmou o fim da unipolaridade, bem como o estabelecimento da Federação Russa
como grande potência global com os seus grandes objectivos20. Em complemento,
este Estado tenta impor o seu estatuto enquanto potência euro-asiática
responsável, tal como ficou explícito na proposta do então Presidente Dmitry
Medvedev (2008-2012) quanto à criação de uma nova arquitectura de segurança
euro-atlântica, em que o papel da Federação Russa seria reconhecido tanto pelos
Estados Unidos como pela Europa Ocidental.
Perante estes desenvolvimentos é claro que a Federação Russa não aceita os
resultados do fim da ordem bipolar, nomeadamente a unipolaridade norte-
americana, e, portanto, pretende assumir um destacado papel entre as potências
emergentes, inserindo-se no brics. A par desta postura no sistema
internacional, a Federação Russa objectiva consolidar a sua posição enquanto
interlocutor entre o Ocidente e o Oriente, onde a sua parceria estratégica com
a RPC assume uma importância considerável, a par da actuação no seio do grupo
brics - símbolo das potências emergentes - capaz de contrabalançar
a unipolaridade norte-americana21.
Com este percurso de política externa, a Federação Russa assume uma posição
soberanista e vestefaliana nas suas relações com outros estados no sistema
internacional, excepto no espaço pós-soviético, onde atribui a si própria um
droit de regardpara intervir unilateralmente sempre que achar apropriado, mesmo
que, para defender os seus interesses, tenha de violar o Direito Internacional,
como se observou na Guerra da Geórgia, em 2008. Em contraponto, no sistema
internacional a Federação Russa assume uma posição hesitante no uso da força
militar, principalmente por não subscrever o princípio da ingerência nos
assuntos internos dos outros estados; rejeita assim o responsibility to protect
(r2p)22, receando que caso o aceite esteja a abrir um precedente que, no
futuro, possa ser utilizado contra si própria, tendo em perspectiva a situação
na Tchetchénia23.
O principal instrumento que a Federação Russa utiliza no espaço euro-atlântico,
principalmente no espaço pós-soviético, é a dependência energética (produtor e
fornecedor) que outros estados têm da Rússia: os decisores políticos russos
instrumentalizam os vastos recursos energéticos presentes no seu território
para projectarem poder político no sistema internacional. Por outras palavras,
a energia torna os países vizinhos susceptíveis de pressão política e
diplomática por parte de Moscovo com o intuito de forçar a alteração do
posicionamento externo desses mesmos estados, tal como aconteceu na Ucrânia em
2006 e 200924.
As acções da Federação Russa pautam-se por três objectivos que considera
fundamentais para salvaguardar os seus interesses nacionais no espaço pós-
soviético: a manutenção da sua presença militar, a protecção dos russos étnicos
e a obtenção de vantagens económicas25. Por sua vez, a importância do espaço
pós-soviético para a política externa russa baseia-se, de forma algo sumária,
em quatro razões: i) um passado histórico comum e a localização geográfica que
a tornam numa área de importância estratégica entre Ocidente e Oriente; ii) os
laços económicos que ligam a Federação Russa a estes estados continuam a ser
importantes, principalmente no que concerne a mercados e rotas de trânsito de
energia, pretendendo criar a União Económica Euro-Asiática desde 2011; iii) as
questões de segurança na vizinhança russa são fundamentais por facilmente
poderem colocar a própria segurança da Federação Russa, principalmente quanto
às ameaças islamistas e ao alargamento institucional da NATO, considerada pelos
russos como uma organização internacional mantida no pós-Guerra Fria com o
objectivo de fazer frente às suas aspirações; iv) a crescente influência
ocidental no espaço pós-soviético coloca em causa a influência russa, o que
poderia eventualmente minar a Comunidade de Estados Independentes (CEI), criada
após o colapso da ex-URSS26, e o projecto da União Económica Euro-Asiática27.
OS ESTADOS UNIDOS NA TRANSIÇÃO PARA A MULTIPOLARIDADE
O fim da Guerra Fria e da ordem bipolar iniciou um prolongado debate sobre a
distribuição de poder no sistema internacional. Debateu-se se a unipolaridade
seria duradoura, como defende William Wohlforth28, ou apenas um momento
transitório para a multipolaridade, tal como afirma Christopher Layne29.
Acreditamos que o fenómeno unipolar foi transitório e que podemos estar a
assistir a essa transição com a crise ucraniana. Na base da tese da
unipolaridade duradoura encontram-se três argumentos: i) o sistema é claramente
unipolar porque os estados possuem superioridade de poder perante todas as
outras grandes potências juntas em áreas como a militar, a económica, a
política, tecnológica, a cultural e a geopolítica; ii) a unipolaridade é
pacífica porque a disputa pela hegemonia entre as grandes potências deixou de
existir; iii) a unipolaridade pode durar tanto ou mais que a bipolaridade
porque a combinação da superioridade do poder norte-americano com a sua posição
geoestratégica impede a formação de uma coligação para contrabalançar o seu
poder30.
Por sua vez, a teoria da unipolaridade transitória defende que a unipolaridade
é perigosa e instável por obrigar as restantes potências do sistema
internacional a terem de se opor à potência hegemónica, através de mecanismos
de equilíbrio, e de criação de coligações anti-hegemónicas. Quando um Estado se
torna demasiado poderoso no sistema internacional, os restantes têm a tendência
para fazerem alianças, tanto formais como informais. Pretende-se limitar o
poder da potência hegemónica, quer seja através do Direito Internacional, quer
através de alianças militares, políticas, diplomáticas e económicas com o
objectivo de contrabalançar o poder do Estado hegemónico. Tenta-se transformar
a ordem unipolar numa ordem multipolar.
As invasões do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003, lideradas pelos Estados
Unidos durante a Administração de George W. Bush, foram expressões evidentes da
distribuição unipolar do poder no sistema internacional a favor dos Estados
Unidos, bem como da sua vontade em utilizar as suas capacidades na prossecução
dos seus interesses nacionais. No entanto, o desgaste moral e económico
provocado durante anos devido aos referidos conflitos, uma opinião pública
interna crescentemente céptica, assim como a crise económico-financeira de 2008
e a ascensão da RPC a potencial potência hegemónica no sistema internacional
levaram a Administração de Barack Obama a repensar a política externa norte-
americana: por um lado, teve de optar por uma retracção estratégica para
responder à crise económico-financeira, e, por outro, teve de se concentrar na
região da Ásia-Pacífico com o objectivo de conter a crescente ascensão da RPC.
Tal como afirma Christopher Layne, os Estados Unidos estão em retracção
estratégica com vista à adopção de uma nova Grande Estratégia de offshore
balancing31para salvaguardarem a unipolaridade no sistema internacional32. Esta
nova estratégia obriga ao assumir de crescentes responsabilidades pelos aliados
da superpotência, principalmente no espaço euro-atlântico, onde são observáveis
as pressões norte-americanas para que os estados-membros da NATO invistam mais
na defesa. Isto permite aos Estados Unidos concentrarem as suas forças nas
restantes regiões que consideram estrategicamente vitais, como o Médio Oriente
e a Ásia-Pacífico.
Quanto ao redireccionamento para a região da Ásia-Pacífico, tal opção foi
confirmada com a publicação do artigo America's Pacific Centurypela então
secretária de Estado, Hillary Clinton. Clinton afirmou que a prioridade da
política externa norte-americana se deslocou do espaço euro-atlântico para a
Ásia-Pacífico, rompendo assim com a prioridade dos últimos setenta anos, a
Europa33.
Um segundo elemento importante na definição da grande estratégia da
Administração de Barack Obama é o Defense Strategic Guidance, publicado em
Janeiro de 201234. Além de reafirmar o direccionamento para a Ásia-Pacífico,
este documento definiu um conjunto de medidas práticas que sustentam essa
opção: i) redução do orçamento da Defesa em 480 milhar de milhões de usd nos
próximos dez anos; ii) a redução de 520 mil efectivos ao nível do Exército num
universo de 1,3 milhões de soldados; iii) a retirada de 80 mil tropas
localizadas na Europa; iv) um novo acordo start35com a Federação Russa, que
entretanto (2010) foi ratificado pelo Senado e pelo Congresso; v) o abandono de
programas militares em curso ou que ainda não se tinham iniciado. Outra das
novidades do documento foi a alteração da concepção das Forças Armadas -
terem de ser capazes de deixar de combater em duas guerras simultaneamente para
passarem a "uma guerra em larga escala", impondo enormes custos a
um "agressor oportunista numa segunda região"36.
O mais recente documento, o National Security Strategy (nss) de Fevereiro de
201537, veio reafirmar o pivotpara a região da Ásia-Pacífico, quatro anos
depois da publicação do artigo de Hillary Clinton. No nss2015 pode ler-se:
"Para concretizar esta visão estamos a diversificar as nossas
relações de segurança na Ásia, bem como a nossa postura de defesa e
presença. Estamos a modernizar as nossas alianças com o Japão, Coreia
do Sul, Austrália e Filipinas e a melhorar as interacções entre estes
para garantir que são totalmente capazes de responder aos desafios
regionais e globais. Estamos comprometidos com o fortalecimento das
instituições regionais, como a asean, a Cimeira do Leste Asiático e a
Cooperação Económica para a Ásia-Pacífico a fim de reforçar as regras
e normas partilhadas, incentivar respostas colectivas para desafios
comuns e ajudar a garantir a resolução pacífica de conflitos."
Tendo em conta estes três documentos, as Forças Armadas norte-americanas
centrar-se-ão doravante no Médio Oriente, na Ásia-Pacífico e na Europa enquanto
regiões estrategicamente fundamentais para garantir a posição dos Estados
Unidos no sistema internacional. O Médio Oriente assume relevância devido à
aliança bilateral com Israel e à relação com estados-membros pertencentes ao
Conselho de Cooperação do Golfo, principalmente a Arábia Saudita, com o
objectivo de conter as ambições de hegemonia regional do Irão e de garantir o
abastecimento de matérias-primas energéticas, como o petróleo. A importância da
Ásia-Pacífico prende-se com as crescentes ambições da RPC, o conflito entre as
duas Coreias, a nuclearização da República Popular da Coreia do Norte e a
expansão do fundamentalismo islâmico. Segundo o nss2015, os Estados Unidos
assumem duas posições perante a RPC. Se por um lado consideram esta potência
emergente como um potencial parceiro no combate a desafios comuns, como as
alterações climáticas e o crescimento económico, por outro pretendem gerir as
relações com a China numa posição de força com o objectivo de esta continuar a
cumprir e respeitar as regras e normas da ordem internacional nas questões de
segurança internacional e de direitos humanos, ao mesmo tempo que monitorizam a
sua modernização militar e expansão na região.
Quanto ao continente europeu existem três questões que mantêm a importância da
Europa para os Estados Unidos: a Federação Russa, a economia (crise económico-
financeira) e a NATO. No que concerne à Federação Russa, os Estados Unidos
pretendem impedir o fortalecimento da influência russa na Europa, sobretudo no
espaço pós-soviético. A crise económico-financeira na Europa é uma questão
importante para a política externa norte-americana visto que a debilidade da
Europa facilitou a ascensão económica dos brics, diminuindo o poder económico
do Ocidente, e porque pode colocar em causa o projecto europeu, o que é
pautável com o crescimento de partidos de extrema-direita em vários estados-
membros da UE. Em última instância, um possível colapso da UE facilitaria o
aumento da influência russa em todo o continente europeu, fragilizando, por
consequência, a influência norte-americana no mesmo. Por fim, a NATO assume-se
como fundamental por se constituir, na perspectiva norte-americana, como um
pilar fundamental nas relações transatlânticas e como contraponto à ameaça que
a Rússia demonstra ser para si e para os seus parceiros europeus.
A retracção estratégica, visível no chamado leading from behinddos Estados
Unidos na intervenção na Líbia conduzida pela NATO e no apoio logístico à
França no Mali, tra-duziu-se na redefinição da posição internacional dos
Estados Unidos como "polícia do mundo" numa posição que privilegia
o multilateralismo e a legitimidade do Conselho de Segurança - em
oposição às acções militares unilaterais da Administração Bush (2000-2008)
- na responsabilidade de garantir a paz e segurança no sistema
internacional. No entanto, esta retracção é identificada por certas potências
como sendo o acentuar do declínio norte-americano, e até mesmo do Ocidente; a
transformação de um sistema unipolar para um multipolar, em que as potências
emergentes, como os brics, serão preponderantes.
Assim, a Federação Russa e a RPC envidam esforços com o intuito de colocarem em
causa as actuais regras liberais-institucionalistas que regem o sistema
internacional no período pós-Guerra Fria. Para tal, é constatável uma parceria
estratégica entre estes dois estados nas grandes questões que assolam o sistema
internacional: a nuclearização do Irão, as crises nucleares com a Coreia do
Norte, a guerra civil na Síria, o terrorismo e o direito de não-ingerência e,
por fim, na actual crise na Ucrânia. Esta cooperação também é espelhada na
Organização de Cooperação de Xangai (ocx), fundada em Junho de 2001, com o
objectivo de promover a cooperação militar e de segurança, tornando-se num
bloco militar significativo na região da Ásia Central, com o objectivo de
excluir os Estados Unidos da região. Neste âmbito, realizaram-se inúmeros
exercícios militares desde 200338. É de realçar o "Peace Mission
2005" por este ter sido o primeiro exercício bilateral conjunto a
envolver forças aéreas, marinhas e terrestres. É também importante referir que
tanto a Federação Russa como a RPC defendem que estes exercícios não visam um
adversário em concreto - os Estados Unidos, entenda-se - mas apenas
o reforço da segurança na Ásia-Pacífico e da cooperação intra-organizacional39.
Esta organização também assume interesses e objectivos distintos pelas duas
principais potências suas propulsionadoras, apesar da união em prol da exclusão
dos Estados Unidos40. Para a Federação Russa é um instrumento para
contrabalançar o alargamento institucional da NATO; para a RPC é um instrumento
de penetração na Ásia Central com o objectivo de contrabalançar a Organização
do Tratado de Defesa Colectiva (csto), patrocinada pela Federação Russa41. Por
último, a ocx é também um mecanismo de contenção mútua entre a Federação Russa
e a RPC, no que concerne à Ásia Central. Em contraponto a esta perspectiva,
pode-se defender que não se observa o declínio dos Estados Unidos, mas sim a
ascensão de outras potências, como os brics, alterando-se a distribuição de
poder no sistema internacional a favor da multipolaridade. A ascensão
económico-financeira destas potências será provavelmente acompanhada pelo
fortalecimento gradual do seu poder militar, nivelando as capacidades das
várias potências no sistema internacional em prol da multipolaridade. A actual
crise económico-finan-ceira está a contribuir para o acelerar da deslocação de
poder do Ocidente para os países emergentes com base no poder económico-
financeiro42.
Quer haja declínio ou manutenção da principal potência, é pautável a
redefinição gradual do sistema internacional, e a transição da unipolaridade
para a multipolaridade com liderança norte-americana. Nesta transição, a
Federação Russa é actualmente a principal potência a contestar as regras
internacionais no espaço euro-atlântico, nomeadamente nas questões relativas ao
espaço pós-soviético, com possíveis repercussões em todo o sistema
internacional.
A CRISE UCRANIANA E A POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA
O conflito na Ucrânia é uma consequência directa do choque de interesses
económicos, militares e geopolíticos entre a NATO/UE e a Federação Russa, mas a
perspectiva ocidental tem atribuído as responsabilidades de forma exclusiva à
Federação Russa. Se por um lado a NATO e a UE se expandiram para Leste nos
últimos vinte anos, por outro, a Federação Russa considera a Ucrânia um Estado
fundamental na sua área de influência e para o seu projecto económico, bem como
para a sua segurança43. Citando Robert Kagan:
"Os problemas (a disputa geopolítica e o receio que os estados
bálticos têm da Rússia) pareciam geríveis desde que a Rússia se
encaminhasse numa senda pós-moderna e integracionista ou, pelo menos,
enquanto estivesse enfraquecida, pobre, e absorvida por dificuldades
internas. Mas com a Rússia de novo de pé e à procura de restaurar o
seu estatuto de grande potência, incluindo o predomínio nas suas
esferas tradicionais de influência, a Europa encontra-se numa muito
inesperada e indesejada posição de concorrência geopolítica. Esta
grande entidade do século xxi vê-se envolvida, através do
alargamento, numa verdadeira confrontação do século xix."44
A crise mais grave anterior foi o conflito bélico entre a Federação Russa e a
Geórgia no Verão de 2008. Em Abril desse ano, na Cimeira da Aliança Atlântica
de Bucareste, a NATO adiou a entrada da Geórgia e da Ucrânia, o que a Rússia
terá visto como oportunidade para reafirmar a sua influência na Geórgia, com a
qual entrou em conflito na chamada "Guerra dos Cinco Dias". Em
consequência deste conflito, a Abcásia e a Ossétia do Sul
"alcançaram" a independência - reconhecidas apenas por
Moscovo - sob protectorado efectivo da Federação Russa, que ainda mantém
forças armadas nesses territórios. Adiou-se a entrada da Geórgia e da Ucrânia
na NATO por tempo indeterminado, em parte em consequência da oposição, por
exemplo, da Alemanha e da França, por considerarem que a posição da Federação
Russa e as suas preocupações de segurança deveriam ser tidos mais em conta pela
potencial instabilidade que poderia resultar de uma eventual adesão45. Ou seja,
que o alargamento da NATO a estes estados colocaria a segurança e interesses
nacionais russos em causa. Este conflito demonstrou quais as linhas vermelhas
que Putin não permitiria que o Ocidente ultrapassasse, nomeadamente a adesão da
Geórgia e Ucrânia à NATO e à UE.
Passados seis anos deste episódio, deflagrou a actual crise que se vive na
Ucrânia. Esta foi despoletada por um amplo movimento de massas composto por
cidadãos com aspirações democráticas, bem como por movimentos
ultranacionalistas e neonazis, em consequência da recusa do Presidente
Yanukovitch em assinar o "Association Agreement" com a UE em troca
de um empréstimo de 15 mil milhões de dólares e do desconto em 33 por cento nos
preços do gás por parte da Federação Russa. A Ucrânia volta assim a ser,
simultaneamente, foco e campo de confronto entre o Ocidente e a Federação
Russa. Negociações entre as forças do regime e a oposição, mediadas pela
França, Alemanha, Polónia e pela então alta representante da UE, Catherine
Ashton, apoiadas tanto por Washington como por Moscovo, resultaram num acordo
que estipulava uma reforma constitucional e a convocação de eleições
presidenciais46. No entanto, forças da oposição mais radicais realizaram um
putschque obrigou o Presidente Yanukovitch a abandonar a capital ucraniana a 22
de Fevereiro. Moscovo denunciou a movimentação que depôs o Presidente
ucraniano, enquanto os Estados Unidos e a UE não se pronunciaram em defesa do
acordo recentemente firmado. A 27 de Fevereiro, formou-se um novo governo, em
que Arseni Iatseniuk ocupou o cargo de primeiro-ministro e, momentos depois,
Oleksander Turhinov assumiu a presidência interina47. O novo executivo
declarou-se como pró-UE e contou com o apoio da Casa Branca, o que na
perspectiva russa obrigou Putin a patrocinar a secessão da Crimeia por temer
uma futura adesão ucraniana à NATO, colocando em causa a permanência da Armada
russa no porto de Sebastopol. Para Putin, a queda de Yanukovitch, a não
condenação do putschpor parte do Ocidente e a formação do novo executivo com
uma postura pró-UE foram o ponto de viragem na posição russa na crise
ucraniana. Assim, apoiou os movimentos pró-russos com forças militares não
identificadas com o objectivo de salvaguardar o porto estratégico de Sebastopol
- essencial para a Armada russa do mar Negro e consequente acesso aos
mares quentes do Egeu e Mediterrâneo -, e recuperar um território símbolo
para os russos cedido por Krustchov à Ucrânia, parte integrante da antiga URSS,
em 1956, para saldar uma dívida, e, por último, devido aos recursos energéticos
que a península possui, fundamentais para a ascensão da Rússia no sistema
internacional.
Para justificar tal acção, que perante o Direito Internacional pode ser
considerada um acto de agressão, Putin apontou a defesa das minorias russas na
península, utilizando retoricamente o precedente da intervenção militar da NATO
no Kosovo, em 1999, que culminou com a declaração unilateral de independência
por parte do Kosovo - reconhecida por outros estados, incluindo Portugal,
e pelo Tribunal Internacional de Justiça. A legalidade e legitimidade do
referendo são profundamente questionáveis, mas a realidade é que o Ocidente
teve de assistir ao facto consumado, podendo apenas aplicar sanções económicas
e financeiras para punir tal acto com receio de um escalar da crise. Se a queda
de Yanukovitch e a posição pró-UE do novo executivo foram o ponto de viragem da
posição russa, a anexação da península da Crimeia por Moscovo constituiu-se
como marco na viragem na postura do Ocidente. Iniciou-se uma escalada nas
posições de ambos os lados do conflito.
A resposta ocidental não se fez esperar e rapidamente a Casa Branca recebeu
Arseni Iatseniuk e garantiu-lhe o seu apoio, enquanto em concertação com a UE e
os seus estados-membros denunciou a anexação da Crimeia como uma violação do
Direito Internacional e exigiu a retirada das forças russas junto da fronteira
ucraniana48. Em complemento, os Estados Unidos e a UE, bem como outros estados,
como o Japão, iniciaram uma estratégia de isolamento e contenção da Federação
Russa com o cancelamento da cimeira do g8 em que Putin seria o anfitrião em
Julho de 2014 e a sua expulsão do fórum, bem como a aplicação de sanções,
nomeadamente com a proibição de entrada de personalidades próximas de Putin nos
seus estados e o congelamento dos seus bens, ameaçando Moscovo com acrescidas
sanções. Já a NATO, incentivada pela Polónia e estados do Báltico e com o aval
dos Estados Unidos, tomou posição na crise com o anúncio de patrulhas aéreas
regulares para monitorizarem a crise ucraniana, com a suspensão da cooperação
civil e militar com a Federação Russa, o reforço dos níveis de prontidão das
suas forças, com a realização de exercícios conjuntos e, por fim, com um plano
de acção rápida em caso de escalada49.
Na última Cimeira da NATO, em Setembro de 2014, no País de Gales, ficou mais
uma vez patente o desejo de Washington de que os restantes estados-membros da
Aliança aumentem as suas despesas militares para dois por cento do seu pib, na
criação de forças de reacção rápida e na realização de exercícios militares,
tal como demonstra o seguinte excerto do NSSde Fevereiro de 201550: "O
nosso artigo n.º 5, sobre o compromisso com a defesa colectiva de todos os
membros da NATO, é rígido, tal como o nosso compromisso em garantir que a
Aliança continua preparada e capaz para responder às crises e à segurança
cooperativa."
Esta pressão que a Casa Branca tem vindo a fazer junto dos seus parceiros
europeus tem como objectivos garantir-lhes que os Estados Unidos mantêm o
compromisso de acorrerem em seu auxílio em caso de ameaça militar, demonstrar à
Federação Russa que a organização tem capacidade militar para fazer frente a
eventuais ameaças ao mesmo tempo que os seus parceiros diminuam a dependência
securitária face aos Estados Unidos para que estes se possam redireccionar para
a região da Ásia-Pacífico. Entretanto, Putin decidiu patrocinar dois movimentos
secessionistas nas regiões de Donetsk e Lugansk, movimentos que conduziram o
Leste do país à guerra civil. O objectivo, por detrás do apoio às
autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk, baseia-se na criação de uma
zona tampão que proteja as fronteiras russas. Em consequência da precária
situação daquelas regiões, Putin vê-se obrigado a apoiá-las política, militar e
logisticamente, estando cada vez mais comprometido com a sua manutenção. A
realização de eleições presidenciais e a vitória de Petro Poroshenko, em Maio
de 2014, estabilizaram a situação política no seio do regime ucraniano,
conferindo legitimidade ao Executivo liderado por Iatseniuk. Dias depois da
tomada de posse, Poroshenko deslocou-se a Washington para pedir um reforço da
assistência militar, que foi garantido por Barack Obama, mas que incluía apenas
equipamento não letal. Ao fornecer assistência militar a Kiev, Washington
pretende que as forças militares ucranianas sustenham o avanço militar das
forças separatistas e que o custo do conflito se torne demasiado alto para
Putin, aumentando a pressão para que este pare de patrocinar as autodenominadas
repúblicas.
O Partido Republicano, que detém a maioria dos assentos no Congresso, tem feito
crescente pressão para que a Administração Obama aumente a assistência militar
e, principalmente, que comece a fornecer equipamentos militares letais às
forças ucranianas51.
A Administração Obama nunca colocou de parte essa opção, mas até ao momento
preferiu aguardar pelos resultados do Acordo de Minsk 252e, acima de tudo, pela
mudança da postura russa para eventualmente tomar essa decisão, enquanto
aguarda que as sanções já firmadas produzam os efeitos económicos pretendidos.
Com o deflagrar da crise, a Casa Branca demonstrou o seu apoio aos líderes
ucranianos, quer na pessoa de Arseni Iatseniuk quer na de Poroshenko, a nível
político, económico, técnico, financeiro e, mais tarde, militar ao fornecer
assistência militar não letal, ao mesmo tempo que incentivava o Executivo
ucraniano a encetar as reformas políticas e económicas que a UE colocava como
condições para a sua adesão e o intensificar da cooperação53. Com o acentuar
dos confrontos e a par do apoio ao regime ucraniano, Washington decidiu avançar
a 16 de Julho de 2014 com sanções unilaterais contra a Federação Russa. Estas
focaram-se em sectores-chave da economia russa, como o financeiro, energético e
de tecnologia militar, acrescentando-se a impossibilidade de empresas e
cidadãos norte-americanos negociarem empréstimos com uma maturidade superior a
noventa dias com empresas russas.
A queda do avião comercial mh-17da Malaysian Airlines em território da
autoproclamada República de Lugansk, a 17 de Julho, causando 298 mortos, veio
dar azo ao fortalecimento das sanções por parte da UE, que acompanhou as novas
sanções norte-americanas, enquanto a Casa Branca decidiu alargar as sanções com
a inclusão do Banco de Moscovo, do VTB Bank e do Banco Agrícola Russo, entre
outras empresas, na lista das excluídas do mercado de capitais norte-americano.
Apesar da aprovação das sanções, o Exército ucraniano deparou-se com uma
ofensiva militar das forças separatistas, tendo Washington decidido alargar as
sanções atrás referidas a outras empresas russas, como a Gazprom Neft, Rostec,
Sberbank, etc., ao que se somou a proibição de qualquer cidadão norte-americano
fazer novos investimentos ou facilitar qualquer transacção com as empresas ou
personalidades sediadas na península da Crimeia54. Com estas sanções Washington
pretendeu demonstrar que o patrocínio das forças separatistas por parte de
Putin tem consequências, obrigando-o, em última instância, a travar o avanço
militar separatista sob a ameaça do acentuar do impacto na economia russa das
sanções já aprovadas e de aplicação de sanções adicionais.
A continuação dos combates no Leste da Ucrânia e o impasse militar demonstraram
que a resolução para a crise ucraniana não é de cariz militar, mas sim
político. Neste contexto, iniciaram as negociações entre as forças em conflito
e os seus apoiantes, tendo contado também com a presença da Organization for
Security and Cooperation in Europe (OSCE) em Minsk, na Bielorrússia. Estas
resultaram, a 5 de Setembro de 2014, no que veio a ser chamado Acordo Minsk 1,
que definia um cessar-fogo e o comprometimento de Poroshenko em encetar
reformas de descentralização do poder, a protecção da língua russa, a
reconstrução política e económica das zonas afectadas pelo conflito, a
libertação de reféns e amnistias, a retirada de formações militares ilegais e a
criação de uma zona tampão nas fronteiras55.
A proximidade das eleições regionais veio intensificar as tensões, pois os
líderes separatistas ao terem decidido realizar eleições a 2 de Novembro,
quando estavam marcadas para 7 de Dezembro, assumiram uma postura desafiante.
Putin apoiou a realização das eleições dos separatistas e os seus resultados,
demonstrando mais uma vez o seu apoio a estes, minando a autoridade do governo
central ucraniano que já não possuía qualquer controlo sobre estes territórios.
Washington e Bruxelas denunciaram as eleições argumentando que estas iam contra
a Constituição ucraniana e o acordado em Minsk. Em consequência do aumento da
tensão o cessar-fogo foi continuamente violado por ambos os lados, até que
Alexander Zakharchenko, líder da autoproclamada República de Donetsk, anunciou
o fim do cessar-fogo a 20 de Outubro. Os combates continuaram a intensificar-se
nos meses seguintes até ao retorno às negociações em Fevereiro de 2015,
novamente em Minsk. Esta nova fase das negociações contou com o forte empenho
de François Hollande, Presidente da França, e Angela Merkel, chanceler da
Alemanha, com Poroshenko e Putin. Nas negociações em Minsk estiveram presentes
os líderes europeus - demonstrando o afastamento dos responsáveis da
Comissão Europeia -, bem como Putin, Poroshenko, responsáveis da OSCE e
os líderes das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, Alexander
Zakharchenko e Igor Plotnitsky, respectivamente.
O acordo definiu como linhas principais a aplicação de um cessar-fogo imediato
a 15 de Fevereiro, a criação de uma zona de segurança de 50 quilómetros entre
as forças em conflito, a atribuição de responsabilidades de monitorização da
aplicação do acordo a observadores da OSCE e o início do diálogo de uma solução
política para o estatuto das regiões de Donetsk e Lugansk de acordo com a
Constituição ucraniana56. Tanto Washington como as capitais europeias
anunciaram que o levantamento ou aumento das sanções à Federação Russa estariam
dependentes do cumprimento deste acordo. É de referir o facto de não ter estado
presente nas negociações do acordo nenhum responsável da Administração Obama, o
que deu azo, no rescaldo da assinatura do acordo, ao facto de os Estados Unidos
poderem ter perdido a liderança da resolução da crise pelo bloco ocidental ou
terem simplesmente optado pelo leading from behinddiplomático.
Podemos afirmar que a prática da política externa norte-americana na crise
ucraniana se tem baseado em dois eixos estratégicos: a contenção e isolamento
internacional e a pressão económica contra a Federação Russa57. A contenção
baseia-se no fortalecimento do regime ucraniano, através da assistência às suas
Forças Armadas e às suas instituições por via da cooperação técnica bilateral
quer pela cooperação com a UE e no reforçar das Forças Armadas dos estados-
membros da NATO, quer pelo aprofundamento da cooperação no seio da organização.
O isolamento internacional baseia-se na exclusão da Federação Russa de fóruns,
como o g8, e na aplicação de sanções que a isolem economicamente, ao mesmo
tempo que pressionam a economia russa, colocando Putin numa posição mais frágil
para que se veja obrigado a negociar uma solução política para a crise
ucraniana de acordo com as regras e normas da actual ordem internacional. O
objectivo da política externa da Administração Obama é a contenção dos anseios
expansionistas e contestatários da ordem internacional por parte da Federação
Russa. Nesta linha a Administração Obama afirma no nss:
"A agressão da Rússia à Ucrânia deixa claro que a segurança
europeia e as regras e nor-mas internacionais contra a agressão
territorial não podem ser tomadas como garantidas (…) nós vamos
continuar a impor custos significativos à Rússia através de sanções e
outros meios enquanto neutralizamos a propaganda enganosa de Moscovo
com a verdade. Nós vamos deter a agressão russa, permanecer alerta em
relação às suas capacidades estratégicas e ajudar os nossos aliados e
parceiros a resistir à sua coerção, se necessário, ao longo do
tempo."58
Por fim, podemos concluir que Washington tem assumido posições ora convergentes
com a UE e capitais europeias, ora assumindo unilateralmente posições de força
mais avançadas, como a aprovação de acrescidas sanções a 16 de Julho ou a
crescente possibilidade de fornecimento de assistência militar letal ao Estado
ucraniano. A política externa da Administração Obama depara-se com a
dificuldade em encontrar uma solução política para a crise ucraniana que não
comprometa os interesses, que não mine a credibilidade das potências em questão
e que não coloque em causa as suas relações com a Federação Russa -
relação fundamental na resolução pacífica de várias questões que assolam o
sistema internacional, como a proliferação nuclear, a guerra civil na Síria, e
a existência do autoproclamado Estado Islâmico, entre outras.
NOTAS FINAIS
A violação das regras da ordem liberal-institucionalista construída no pós-
Segunda Guerra Mundial e mantida no pós-Guerra Fria com a violação da anexação
da península da Crimeia pela força veio colocar em questão a capacidade norte-
americana em garantir o cumprimento das regras do sistema internacional, mesmo
que no passado as tenha desrespeitado, como aconteceu com o Iraque em 2003.
Esta contestação demonstra a confiança que as novas potências emergentes, neste
caso a Federação Russa, possuem com base nas suas próprias capacidades e no
desejo de alterarem a distribuição de poder no sistema internacional em prol da
multipolaridade, mesmo que com liderança norte-americana no curto-médio prazo.
A contestação da legitimidade norte-americana poderá ter repercussões em todo o
sistema internacional, principalmente em regiões onde se mantêm disputas
territoriais com aliados seus, como é o caso da disputa entre o Japão e a RPC
pelas ilhas Senkaku/Diaoyu.
A crise ucraniana obrigou os Estados Unidos a terem de manter um significativo
dispositivo militar ao abrigo da NATO no continente europeu - colocando
em causa o Defense Strategic Guidance- com o objectivo de aplacar os
desejos expansionistas da Federação Russa ou para pressionar os estados-membros
da NATO a investirem mais do seu pib na defesa, tornando o continente mais
auto-suficiente e não tão dependente dos Estados Unidos, como tem acontecido
desde a Guerra Fria. O atraso no redireccionamento para a Ásia-Pacífico poderá
ter severas consequências a curto e médio prazo na contenção da RPC,
nomeadamente no fortalecimento de alianças e na credibilidade e reforço norte-
americano na região. O aparecimento e expansão do autodenominado Estado
Islâmico e a resposta norte-americana vieram demonstrar a falta de vontade
política que a Administração Obama tem para intervir. Esta ameaça à segurança e
paz internacionais obrigará os Estados Unidos a terem de apoiar política e
militarmente os seus aliados na região do Médio Oriente, dificultando o seu
redireccionamento para a região da Ásia-Pacífico. Por outro lado, enquanto os
Estados Unidos se deparam com sérias dificuldades no continente europeu e no
Médio Oriente e se atrasam no redireccionamento, a RPC terá mais margem de
manobra para consolidar e expandir a sua posição ao mesmo tempo que os aliados
dos Estados Unidos consideram a sua segurança nacional crescentemente ameaçada
e iniciam políticas armamentistas. Nas últimas duas décadas as relações Estados
Unidos-Federação Russa tiveram fases positivas e negativas, sendo ambas
cíclicas, oscilantes e imprevisíveis59. A política de reset, em 2010, da
Administração Obama nas relações com a Federação Russa foi definitivamente
posta de lado com o deflagrar da crise ucraniana, despoletando um confronto
político-diplomático. No entanto, as relações entre estes dois estados são
fundamentais para a paz e segurança no sistema internacional, pois ambos têm
assentos permanentes no Conselho de Segurança e assumem um papel fundamental
nas várias questões que assolam a política internacional, como a proliferação
nuclear, o terrorismo com a expansão de organizações terroristas como o
autodenominado Estado Islâmico, a guerra civil na Síria, entre outras. Uma das
grandes dificuldades será como evitar que o degradar das relações não tenha
impacto na resolução de outras questões no sistema internacional, o que
prejudicaria não apenas os interesses destes dois estados mas toda a comunidade
internacional.
Data de recepção: 10 de Fevereiro de 2015 | Data de aprovação: 24 de Março de
2015
NOTAS
* A pedido do autor o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
1
Um especial agradecimento à Prof. Doutora Patrícia Daehnhardt pelo apoio e
orientação na escrita deste artigo.
2
As datas referem-se à criação do sistemavestefaliano, ao Congresso de Viena, à
assinatura do Tratado de Versa-lhes e criação da Sociedade das Nações, ao fim
da Segunda Guerra Mundial e institucionalização da Organização das Nações
Unidas e ao fim da Guerra Fria com o colapso da ex-União Soviética,
respectivamente.
3
Lukyanov, Fyodor - "Russia's asymmetrical response: global
Aikido". In Saunders, Paul J. (ed.) - Costs of a New Cold War
- The U.S.-Russia Confrontation Over Ukraine. Washington: Center for
National Interest, 2014, PP. 9-24.
4
Fukuyama, no seu livro O Fim da História e o Último Homem, utilizou a teoria
do fim da História de Friedrich Hegel para argumentar que o capitalismo e a
democracia liberal constituem o último estágio da história da Humanidade após a
des-truição e colapso do fascismo e do "socialismo real". Assim, o
capitalismo e a democracia liberal afirmaram-se como únicas alternativas
relativas ao modo de produção e ao regime político, tendo a Humanidade
alcançado a estagnação no processo histórico.
5
Dias, Vanda Amaro - "Política Europeia de Vizinhança: práticas
imperiais na fronteira com o "outro"?". In Relações
Internacionais. Lisboa, N.º 43, 2014, PP. 75-84.
6
Barata, Pedro - "A Ucrânia, a UE e a Rússia: softpower versus
realpolitik?". In janus.net, e-journal of International Relations. Vol.
5, N.º 1. (Consultado em: 22 de Maio de 2014). Disponível em: http://
observare.ual.pt/janus.net/en/home-eng/86-english-en/vol-5,-n-%C2%BA1-may-
october-2014/articles/266-ukraine,-eu-and-russia-soft-power-versus-realpolitik.
7
Esta política visava também o alargamento dos princípios do projecto europeu à
Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Geórgia e Moldávia, mesmo que não garantisse
com isto uma futura adesão à UE.
8
A estratégia do containment representou a resposta norte-americana à presença
de tropas soviéticas e hegemonia política da União Soviética na Europa de
Leste, dando início à Guerra Fria, em 1947, sob a presidência de Harry S.
Truman (1945-1953). Esta estratégia consistiu na criação de várias alianças
militares, como a NATO, por todo o mundo com o objectivo de conter militarmente
o avanço político e militar da União Soviética.
9
Lopes, Marina Branco - A NATO: O Paradigma de Uma Integração Defensiva.
Tese de mestrado em Sociologia, Faculdade de Economia da Universidade de
Coimbra, 2010.
10
Ibidem, p. 37.
11
Gaspar, Carlos - "O conceito estratégico da Aliança
Atlântica". In Nação e Defesa. Lisboa, N.º 126, 2010, PP. 9-36.
12
Klein, Naomi - A Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo de
Desastre. Lisboa: Smartbook, 2009.
13
Sakwa, Richard - "A política externa russa contextualizada".
In Freire, Maria Raquel - A Rússia de Putin - Vectores
Estruturantes de Política Externa. Coimbra: Almedina, 2010, PP. 11-25.
14
Daehnhardt, Patrícia - "A Rússia e a Alemanha: uma relação sui
generis em mudança". In Daehnhardt, Patrícia, e Freire, Maria Raquel
(coord.) - A Política Externa Russa no Espaço Euro-Atlântico: Dinâmicas
de Cooperação e Competição num Espaço Alargado. Coimbra: Imprensa da
Universidade de Coimbra, 2014, PP. 141-175.
15
Daehnhardt, Patrícia, e Freire, Maria Raquel - "As relações entre
a Alemanha e a Rússia - duas políticas externas em transição". In
Relações Internacionais. Lisboa, N.º 32, 2011, PP. 171-196.
16
Pires de Lima, Bernardo - "Washington e Moscovo: em busca de um
modus vivendi". In aehnhardt, Patrícia, e Freire, Maria Raquel (coord.)
- A Política Externa Russa no Espaço Euro-Atlântico: Dinâmicas de
Cooperação e Competição num Espaço Alargado, PP. 223-252.
17
Ibidem, p. 227.
18
Sakwa, Richard - "A política externa russa contextualizada",
PP. 11-25.
19
Freire, Maria Raquel - "A evolução da política externa da
Rússia". In Daehnhardt, Patrícia, e Freire, Maria Raquel (coord.) -
A Política Externa Russa no Espaço Euro-Atlântico: Dinâmicas de Cooperação e
Competição num Espaço Alargado, PP. 29-55.
20
Pires de Lima, Bernardo - "Washington e Moscovo: em busca de um
modus vivendi".
21
Gaspar, Carlos - "A política internacional da Rússia". In
Oliveira, Pedro Aires (coord.) - O Fim da Guerra Fria, A Nova Rússia e a
Crise das Esquerdas. Lisboa: Edições Colibri, 2013, PP. 63-100.
22
A responsabilidade de proteger insere-se na doutrina da intervenção
humanitária armada da Organização das Nações Unidas. Esta norma do Direito
Internacional foi elaborada no relatório com o mesmo nome da International
Commission, em 2001, e o seu uso apenas pode ser autorizado pelo Conselho de
Segurança. Cf. Saraiva, Francisca - "A definição de crise das
Nações Unidas, União Europeia e NATO". In Nação e Defesa. Lisboa, N.º
129, 2011, PP. 11-30.Esta norma defende que o Estado tem a obrigação
fundamental de assegurar a segurança dos seus cidadãos e quando tal não
consiga, cabe à comunidade internacional assegurar a mesma através de meios
diplomáticos, humanitários ou outros meios necessários, nomeadamente o uso da
força. Esta norma coloca em causa a soberania dos estados quando a segurança
dos seus cidadãos esteja em causa, atribuindo responsabilidades e legitimidade
à comunidade internacional para que aja.
23
Daehnhardt, Patrícia - "A Rússia e a Alemanha: uma relação sui
generis em mudança", PP. 141-175.
24
Ibidem, p. 156.
25
Dias, Vanda Amaro - "As relações com a Ucrânia, Bielorrússia e
Moldova: poder, dependências e assimetrias no espaço pós-soviético". In
Daehnhardt, Patrícia, e Freire, Maria Raquel (coord.) - A Política
Externa Russa no Espaço Euro-Atlântico: Dinâmicas de Cooperação e Competição
num Espaço Alargado, PP. 141-175.
26
Freire, Maria Raquel - A Rússia de Putin, Vectores Estruturantes de
Política Externa. Coimbra: Almedina, 2011.
27
A União Euro-Asiática assume-se como um bloco económico com o objectivo de
potenciar a integração regional e à eventual liderança do comércio global. Este
projecto de integração económica foi proposto com base na experiência e
resultados da Comunidade de Estados Independentes, da Comunidade Económica
Asiática e com a União Aduaneira entre a Federação Russa, o Cazaquistão e a
Bielorrússia. Cf. Barata, Pedro - "A Ucrânia, a UE e a Rússia: sof-
tpower versus realpolitik?".
28
Wohlforth, William - "The stability of a unipolar world". In
International Security. Vol. 24, N.º 1, 1999, PP. 5-41.
29
Layne, Christopher - "The unipolar illusion revisited". In
International Security. Vol. 31, N.º 2, 2006, PP. 7-41; Lopes, Marina Branco
- A NATO: O Paradigma de Uma Integração Defensiva.
30
Moreira de Sá, Tiago - "A ausência de ordem internacional no pós-
Guerra Fria". In Oliveira, Pedro Aires (coord.) - O Fim da Guerra
Fria, A Nova Rússia e a Crise das Esquerdas, PP. 201-215.
31
O offshore balancing consiste na definição de um número limitado de regiões
estrategicamente fundamentais para manter a posição do Estado, neste caso dos
Estados Unidos, no sistema internacional, garantindo que nenhum outro Estado
consegue dominar essas regiões. Para evitar a influência de outros estados
deve-se proceder à consolidação de alianças com potências locais que possuam a
capacidade de conter os estados aspirantes à hegemonia regional ao mesmo tempo
que se mantém forças militares a uma distância aceitável caso seja necessário
intervir para repor a ordem.
32
Layne, Christopher - "The unipolar illusion revisited".
33
Clinton, Hilary - "America's pacific century". In
Foreign Policy. N.º 189, 2011, PP. 56-63.
34
Defense Strategic Guidance 2012. (Consultado em: 22 de Maio de 2014).
Disponível em: www.defense.gov/news/Defense_Strategic_Guidance.pdf.
35
O Strategic Arms Reduction Treaty (start) caducara em 2009 sendo necessária a
sua renovação. O novo start, assinado em Abril de 2010 por Obama e Putin, prevê
a redução em um terço da capacidade nuclear estratégica de ambas as potências.
Este tratado demonstra que apesar das tensões nas suas relações, quer no
sistema internacional, quer especificamente no espaço euro-atlântico, existem
desafios comuns, seja a nuclearização e a sua proliferação, seja o terrorismo,
que obrigam a uma cooperação EUA-Federação Russa.
36
Moreira de Sá, Tiago - "O debate estratégico das eleições
presidenciais norte-americanas". In Relações Internacionais. Lisboa, N.º
34, 2012, PP. 89-106.
37
"Estratégia de Segurança Nacional", White House, Washington DC,
Fevereiro de 2015.
38
Freire, Maria Raquel - "A evolução da política externa da
Rússia".
39
Ibidem, p. 51.
40
Ibidem, p. 52.
41
Gaspar, Carlos - "A política internacional da Rússia", PP.
63-100.
42
Telo, António José - "Da grande ordem à grande confusão.
Implicações estratégicas do fim da URSS". In Oliveira, Pedro Aires
(coord.) - O Fim da Guerra Fria, A Nova Rússia e a Crise das Esquerda,
PP. 217-246.
43
Mearsheimer, John J. - "Why the Ukraine crisis is the West's
fault - the Liberal delusions that provoked Putin". In Foreign
Affairs. (Consultado em: 24 de Março de 2015). Disponível em: https://
www.foreignaffairs.com/articles/russia-fsu/2014-08-18/why-ukraine-crisis-west-
s-fault.
44
Kagan, Robert - O Regresso da História e o Fim dos Sonhos. Lisboa: Casa
das Letras, 2009. p. 44.
45
Daehnhardt, 2013
46
Pereira, Carlos Santos - "Ucrânia: crónica de uma crise
anunciada". In Revista de Ciências Militares. Lisboa, Vol. II, N.º 2,
2014, PP. 337-259.
47
Ibidem, p. 340.
48
Ibidem, p. 348.
49
Ibidem, p. 349.
50
Estratégia de Segurança Nacional, White House, Washington DC, Fevereiro de
2015.
51
"Congresso pressiona Obama para apertar sanções". In Público. 18
de Dezembro de 2014. (Consultado em: 10 de Março de 2015). Disponível em:
www.publico.pt/destaque/jornal/congresso-pressiona-obama-para-apertar-sancoes-
29269338.
52
"Ukraine crisis: US waits to see if Minsk accord holds before sending
Kiev heavy weapons". In The Independent, 18 de Fevereiro de 2015.
(Consultado em: 10 de Março de 2015). Disponível em: http://
www.independent.co.uk/news/world/europe/ukraine-crisis-us-waits-to-see-if-
minsk-accord-holds-before-sending-kiev-heavy-weapons-10054957.html.
53
Woehrel, Steven - "Ukraine: current issues and U.S. policy".
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