A Turquia de Erdogan: o início do fim ou somente o fim do início?
Desde há uma década parte do grupo das chamadas potências emergentes, a Turquia
passa hoje por significativos processos de transformação política e social de
desfecho inesperado, tanto interno, como na relação com aliados e parceiros
regionais. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (akp, na sigla turca), até
agora o grande motor desta mudança, dá crescentes sinais de autoritarismo1e
desgaste político. Apesar de tudo, 2014 acabará com Recep Tayyip Erdogan como
Presidente do país, confirmando o domínio hegemónico deste e do seu partido na
cena política turca. A grande questão que agora se coloca é se esse domínio
entrou numa irreversível fase de declínio em que a vitória nas presidências
significa o canto do cisne do akp, ou se, pelo contrário, a chegada de Erdogan
ao (novo e imponente) palácio presidencial representa a consolidação estrutural
do partido, em que o kemalismo institucional que dominou a Turquia desde o
nascimento da República é substituído por uma elite religiosa, conservadora,
mas também neoliberal. Este artigo procura analisar os dois últimos e cruciais
anos da vida política turca, mostrando como Erdogan e o akp passaram do quase
colapso no verão de 2013, para o completo domínio institucional do país.
A CONFIRMAÇÃO DO PODER DE ERDOGAN
Depois do ano de 2013 marcado por manifestações e confrontos violentos entre
manifestantes antiGoverno e forças de segurança, 2014 caracterizou-se por uma
intensa atividade política: primeiro com a realização de eleições autárquicas
em março e, posteriormente, com a realização de eleições presidenciais, em
agosto. Apesar de geralmente serem as eleições legislativas aquelas que mais
peso têm num país com um sistema político parlamentar, no caso turco foram as
autárquicas de 2014 que decidiram o rumo do país e do seu governo. Foi a
confirmação do akp com maioria parlamentar desde 2002, como favorito nestas
eleições que reforçou o já esperado projeto de Recep Tayyip Erdogan de
abandonar o cargo de primeiro-ministro para se candidatar às eleições
presidenciais. Assim, Erdogan tornou-se no primeiro Presidente turco eleito por
sufrágio universal direto (51,7 por cento dos votos) com promessas de um
aumento da influência do presidente nas decisões políticas no país.
As críticas da comunidade internacional ao crescente autoritarismo de Erdogan,
apesar de tímidas, fizeram-se sentir, por exemplo, por parte do embaixador
americano na Turquia, John R. Bass, que declarou que a Ancara estaria a
caminhar vagarosamente para um regime autoritário2. Constitucionalmente, o
Presidente da República da Turquia deveria permanecer uma figura simbólica e
neutra. Erdogan, no entanto, declarou no seu discurso de vitória que "um
presidente não pode ser imparcial. Nenhum presidente neste país foi neutro e eu
também não vou ser um presidente imparcial"3. Muito mudou na Turquia e em
Erdogan nestes últimos 12 anos.
OS PRIMEIROS ANOS
O partido de Erdogan formou-se em 2001, depois do Partido da Virtude (Fazilet
Partisi) ter sido banido pelo Tribunal Constitucional, devido à sua insistência
em acabar com a proibição do véu islâmico nas universidades4. Como
consequência, os membros do partido dividiram-se entre uma ala mais reformista
e outra tradicional. Foi a ala reformista que esteve na base da criação do akp
cuja ideologia política se demarcou do movimento político islâmico e adquiriu o
rótulo de partido conservador democrático, adotando uma postura mais inclusiva
de outras filiações políticas. A sua ascensão política seria fulminante,
vencendo as eleições legislativas de novembro de 2002 com 34,6 por cento dos
votos, assim como todas as outras que se lhe seguiram (2007, com 46,6 por cento
dos votos, e finalmente em 2011 com 49,8 por cento5). Pelo meio várias vitórias
nas eleições locais (2004, 2009 e 2014) e no referendo constitucional de 2010.
Nos anos 1990 nenhum partido tinha conseguido sozinho a maioria parlamentar na
Turquia. O akp alcançou três consecutivas.
O akp conseguiu nos primeiros anos de governo os votos não só da população mais
conservadora mas também daqueles que não sendo tão religiosos esperavam que o
partido levasse a cabo reformas políticas que ajudassem à democratização do
país6. Apesar de nos primeiros anos de governo se ter verificado efetivamente
um avanço no processo de democratização, em paralelo a uma positiva evolução no
processo de integração europeia, desde 2005 que este se encontra estagnado7,
com o receio de que se tenha entretanto assistido a um retrocesso efetivo na
garantia de várias dessas liberdades8. Na verdade, os segundo e terceiro
mandatos do akp foram marcados pelo acentuar da tensão política entre a
oposição secular e o Governo e não por reformas políticas no sentido de uma
maior democratização do país9. Para piorar a situação desde 2011 que se tem
verificado um crescente comportamento autoritário por parte do governo do akp,
com a monopolização do poder político nas mãos do partido e a crescente
politização do sistema judicial, além do uso de força excessiva por parte das
forças policiais10.
DE GEZI AO PALÁCIO PRESIDENCIAL
O autoritarismo de Erdogan tornou-se claro durante os protestos de Gezi em 2013
quando a brutalidade policial e a atitude obstinada do primeiro-ministro contra
os manifestantes foram um sinal claro de que Erdogan queria demonstrar o seu
poder. Os protestos começaram com um pequeno grupo de manifestantes no parque
Gezi, no centro de Istambul, que protestavam contra a demolição do parque para
a construção de um centro comercial de estilo arquitetónico otomano, um projeto
apoiado pelo próprio primeiro-ministro Erdogan11. A agressiva intervenção
policial contra os manifestantes desencadeou uma forte reação popular, levando
milhões de turcos para as ruas em múltiplas cidades do país, especialmente em
Istambul onde centenas de milhares de pessoas se manifestaram.
Apesar disso, não foram os protestos de Gezi que mais abalaram o governo de
Erdogan, mas sim o escândalo de corrupção que veio a público alguns meses mais
tarde, em dezembro de 2013. Nesta altura, a polícia prendeu os filhos de três
ministros do gabinete do governo de Erdogan, assim como o gerente de um banco
estatal, o presidente de câmara do distrito de Fatih em Istambul, Mustafa Demir
e um empresário responsável por vários projetos de desenvolvimento em Istambul,
Ali Ag?aog?lu12. A operação anticorrupção resultou na detenção de um total de
52 pessoas13. Dias mais tarde, os três ministros implicados, o ministro da
Administração Interna, Muammer Güler, o ministro da Economia, Zafer Cag?layan,
e o ministro do Ambiente, Erdogan Bayraktar, demitiram-se. Erdogan reagiu
dizendo que esta era apenas uma campanha contra os interesses nacionais e
removeu dos cargos dezenas de responsáveis das forças policiais14. Após as
eleições autárquicas, muitos destes agentes seriam mesmo detidos, sob acusação
de terem conduzido escutas ilegais. Na verdade, mais de uma centena de agentes
policiais foram detidos nesta operação15.
Estes escândalos revelaram um novo conflito na vida política turca: a oposição
entre Erdogan e o movimento Hizmet de Fethullah Gülen. Fethullah Gülen, o líder
espiritual do movimento, que vive autoexilado na Pensilvânia, Estados Unidos,
prega com base nos ensinamentos de Said Nursi por uma prática religiosa que
conjuga os preceitos islâmicos com a modernidade. Este movimento foi ganhando
seguidores na Turquia ao longo das últimas décadas. Inicialmente divulgadas
através de pequenos grupos, as suas ideias foram ocupando lugar na sociedade,
tendo criado uma importante rede com os próprios meios de comunicação,
instituições educacionais e instituições financeiras16. O apoio do movimento
Gülen ao governo do akp tem vindo a esmorecer nos últimos anos, tendo a
intenção do Governo de acabar com as escolas privadas de preparação para exames
do sistema educacional turco, muitas sob a direção do movimento Gülen, sido a
última gota numa série de discordâncias entre as duas partes, que também
incluíram a ativa crítica de membros do movimento, incluindo do próprio Gülen,
à reação do governo de Erdogan aos protestos de Gezi17. Quando o escândalo de
corrupção rebentou em dezembro do ano passado envolvendo o governo akp, Erdogan
acusou indiretamente Gülen de ser responsável pelo ataque ao governo, referindo
que haveria "um estado dentro de um estado"18.
De notar que a referência a "um estado dentro de um estado" na
política turca não é recente. A vida política na Turquia sempre se caraterizou
pela existência de múltiplas conspirações associadas a um "Estado
profundo"19, referente à elite burocrática, militar e judiciária que
controlava os desenvolvimentos políticos do país (e que acabou por estar na
origem dos julgamentos de centenas de militares, intelectuais e políticos em
2013). É pois interessante constatar que esta referência ao "estado
dentro de um estado" passou no vocabulário político turco, ou pelo menos
no do seu atual presidente, a fazer referência a uma luta de poder dentro do
mundo conservador-islâmico na Turquia. Num curto espaço de tempo, os ataques
entre as duas partes tornaram-se claros, sendo que Erdogan usou termos como
"falso profeta" ou "falso santo"20. Por sua vez, Gülen
tem respondido num tom menos agressivo que Erdogan, apenas lamentando a conduta
deste e afirmando que não esteve envolvido nos escândalos de corrupção21.
Apesar das dúvidas levantadas22relativamente ao impacto que esta guerra entre
Gülen e Erdogan pudesse ter no sucesso eleitoral do akp, os resultados nas
eleições locais de março de 2014 mostraram justamente que este continuava a ser
o partido dominante na Turquia. É verdade que o período que antecipou as
eleições autárquicas na Turquia foi bastante conturbado. Foram divulgados na
internet vídeos comprometedores do governo de Erdogan, que alegadamente
mostravam um diálogo entre o próprio primeiro-ministro de então e o seu filho
sobre como esconder quantias avultadas de dinheiro. Estes vídeos terão sido
gravados a 17 de dezembro quando irrompeu o escândalo de corrupção envolvendo
aliados de Erdogan23. Estes eventos desencadearam novos protestos em várias
cidades da Turquia. Em Istambul, 70 pessoas foram detidas em protestos cujo
lema era "agarra o ladrão"24. Até às eleições, a divulgação de
vídeos comprometedores em relação ao Governo foi constante. Em fevereiro foi
divulgado um vídeo com a transcrição de uma escuta telefónica alegadamente
entre Erdogan e o seu filho, Bilal Erdogan, que visava uma conversa entre os
dois sobre como retirar milhões de euros em dinheiro de uma casa.
Outra das escutas divulgadas, seria uma alegada conversa entre o então ministro
dos Negócios Estrangeiros Ahmet Davutoglu, e Hakan Fidan, chefe dos Serviços
Secretos turcos, sobre a possibilidade de uma intervenção militar na Síria para
proteger o túmulo de Salomão Shah, que se encontra num exclave turco naquele
país, contra os ataques do Estado Islâmico (ei). Fidan terá proposto enviar
agentes para a Síria para que estes lançassem mísseis para o território turco e
assim forjar uma justificação da intervenção militar turca no exclave25.
Erdogan acusou Gülen de ser responsável pela divulgação das escutas26.
Em consequência da divulgação de toda esta informação comprometedora, o governo
de Ancara decretou guerra às redes sociais tendo, durante este período,
proibido o acesso ao Youtube e ao Twitter. Em fevereiro de 2014, o parlamento
turco aprovou uma lei referente à proteção de privacidade on-lineque gerou
controvérsia e críticas de que esta restringiria o direito à liberdade de
expressão27. A lei previa que o presidente da Direção de Telecomunicações turca
pode decidir o bloqueio de websitesdevido à violação de privacidade sem a
aprovação prévia de um tribunal. O bloqueio foi levantado depois de um mês para
o Twitter e dois meses para o Youtube28. Este episódio demonstra o porquê das
preocupações levantadas relativamente ao governo de Erdogan, não só
internamente mas também a nível internacional, sendo que a lei referida foi
amplamente criticada por oficiais da União Europeia e Estados Unidos29.
Entretanto, a atribuição do poder de bloquear websitesà Direção de
Telecomunicações foi declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional
turco30.
No entanto, as eleições autárquicas confirmaram o apoio ao akp que ganhou
também as eleições em Istambul e em Ancara, apesar de ambos os candidatos do
akp e do maior partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (chp), terem
declarado a vitória para si próprios poucas horas depois do fecho das urnas31.
Em termos nacionais, o akp conseguiu cerca de 43 por cento dos votos (mais 4,5
por cento que em 2009), uma vitória seguida de um discurso de Erdogan no qual
este prometeu que os seus inimigos iriam "pagar" pelas acusações de
que tinha sido alvo32. Na verdade, mesmo após as eleições, a tensão política
ainda se fazia sentir, devido a acusações de fraude e a apelos veementes à
recontagem dos votos em algumas localidades, incluindo Ancara33.
O tratamento que os meios de comunicação social deram a estas eleições suscitou
críticas de parcialidade a favor do partido do Governo. Por exemplo, logo após
as eleições, a agência noticiosa estatal mostrou resultados diferentes daqueles
apresentados pela agência privada Cihan34. Também durante as eleições
presidenciais registaram-se problemas, com mais acusações de censura a órgãos
de comunicação independentes, incluindo mais uma vez a agência Cihan,
aparentemente impedida de ter acesso a eventos cruciais como o encontro do akp
onde seria escolhido o próximo primeiro-ministro turco35. De notar que esta
agência terá ligações ao movimento Gülen36e terá sido esta a primeira vez em
que terá sido excluída deste tipo de acontecimento37.
Em contraste com o período conturbado que antecipou as eleições autárquicas, as
presidenciais decorreram de forma pacífica, ou mesmo, até, passiva. Erdogan,
interdito segundo as leis do partido de se candidatar a um quarto mandato como
primeiro-ministro nas eleições legislativas que se vão realizar no próximo
ano38, era o principal candidato à vitória. Por forma a conseguir propor uma
alternativa viável à popularidade de Erdogan, os maiores partidos da oposição,
o republicano e secular chp e o Partido de Ação Nacionalista (mhp), formaram
uma coligação cujo candidato foi Ekmeleddin I?hsanog? lu, anterior secretário-
geral da Organização para a Cooperação Islâmica. Esta escolha demonstrou uma
tentativa de apelar também aos eleitores mais conservadores, que normalmente
votariam em Erdogan. Apesar disso, Erdogan foi o vencedor com quase 52 por
cento dos votos, enquanto Ekmeleddin I?hsanog?lu arrecadou quase 39 por cento.
O terceiro candidato, Selahattin Demirtas¸, do Partido Democrático Popular
(hdp, na sigla turca), apesar de não ter conseguido sequer 10 por cento dos
votos, foi visto como um dos "vencedores" da noite39, por ter sido
o candidato com mais votos no sudeste turco de maioria curda, (o que não é
totalmente inesperado devido às fortes ligações do hdp ao partido curdo bdp), e
também pela mensagem que a sua campanha passou, em defesa da luta pelos
direitos e liberdades fundamentais na Turquia40.
UM FUTURO INCERTO
A candidatura e consequente vitória de Recep Tayyip Erdogan nas eleições
presidenciais levantam inúmeras questões sobre o futuro político da Turquia,
incluindo uma possível mudança de institucional de um sistema parlamentar para
um sistema presidencial. No seu discurso de vitória como presidente, Erdogan
fez referência ao começo de uma nova era, benéfica para todos41; a uma nova
Turquia diferente daquela dominada por um sistema autoritário e por golpes de
Estado42, em referência ao quase século de domínio republicano e secular, no
qual o setor militar detinha o papel de zelar pela segurança. No entanto,
muitos veem nesta nova Turquia o mesmo autoritarismo por outros meios e outros
atores. O próprio Erdogan referiu nos seus discursos de campanha que não
tencionava ser um presidente neutro e que iria permanecer influente, sendo que
"aqueles que querem um presidente neutro na realidade querem um
presidente que fique do lado do Estado contra o povo. Essa era
terminou"43, declarou, numa clara referência ao domínio do Estado pela
elite secular. No discurso proferido para o seu partido depois das eleições
presidenciais, este expressou a sua vontade de que o akp consiga a maioria
parlamentar necessária para alterar a Constituição nas eleições legislativas de
201544. Como já foi referido anteriormente, Erdogan é o primeiro Presidente
eleito por sufrágio universal na Turquia. Até agora, o Presidente era nomeado
pelo parlamento turco, algo que foi alterado em 2007 depois de um referendo que
apoiou a proposta de alteração à Constituição turca que determinava a eleição
por sufrágio universal do Presidente da República45. Esta mudança oferece maior
legitimidade ao Presidente para se envolver de forma mais ativa na política
nacional46. A intenção de transformar o sistema político turco num sistema
presidencial através da alteração da Constituição já tinha sido anteriormente
expressa por Erdogan e pelo akp, mas tal vontade não conseguiu o apoio da
oposição necessário para levar a cabo esta reforma47. Daí que a presidência de
Erdogan seja apontada por alguns como uma forma de conseguir na prática o
exercício de um sistema presidencial apesar de formalmente o papel do
Presidente não ter sido alterado48. De notar que, Erdogan tem justificado o seu
poder através das suas sucessivas vitórias eleitorais desde 2002, confundindo a
vontade da maioria com a vontade da nação49. Neste ponto, vários analistas
comparam Erdogan ao Presidente russo, Vladimir Putin50: os tiques autoritários
de Erdogan e a perseguição aos seus oponentes, como no caso do movimento Gülen,
são vistos como semelhantes ao modus operandido Presidente russo. É uma
comparação que, por enquanto tem os seus limites, uma vez que Erdogan não
possui, neste momento, o mesmo espaço de manobra que Vladimir Putin tem na
Rússia. No entanto, em particular se a Turquia acabar por evoluir para um
sistema presidencial51, é possível que as semelhanças entre os líderes se
acentuem nos próximos anos.
IMPACTOS EXTERNOS
Além de um novo Presidente da República (e como consequência disso), a Turquia
tem agora também um novo primeiro-ministro. Apesar de alguma especulação antes
das eleições presidenciais sobre uma eventual troca de lugares entre o então
presidente Abdullah Gül e Erdogan, muito à semelhança da situação entre Putin e
Medvedev na Rússia52, o sucessor apontado pelo partido foi Ahmet Davutoglu, até
então ministro dos Negócios Estrangeiros. A nomeação de Davutoglu levantou
questões quanto ao afastamento de Abdullah Gül de cargos preeminentes no
Governo. A relação entre Erdogan e Gül terá sofrido com os eventos mais
recentes, sendo que Gül adotou uma postura mais conciliatória, especialmente em
relação aos protestos no país que o então primeiro-ministro53, enquanto que
Davutoglu permaneceu leal a Erdogan54, algo que o atual presidente da Turquia
não deixou de referir na cerimónia55que consagrou Davutoglu como líder do akp e
consequente primeiro-ministro56.
Ahmet Davutoglu tem sido o responsável pela estratégia política do akp em
relação à política externa da Turquia, mesmo antes de ter sido nomeado ministro
dos Negócios Estrangeiros em 2009. Foi com base nas ideias de Davutoglu e na
sua conceção de "profundidade estratégica" que a política externa
da Turquia durante o governo do akp procurou, na última década, fortalecer
laços com os países vizinhos do Médio Oriente, Cáucaso e Balcãs. Durante este
período, a Turquia tentou assumir um papel mais relevante na política
internacional, tanto ao nível bilateral, como multilateral. No entanto,
Davutoglu e a política externa da Turquia têm sido criticados nos últimos anos
pela forma como a Turquia tem sido incapaz de lidar com um Médio Oriente pós-
Primavera Árabe57, marcado pela guerra civil na Síria e pela crescente ameaça
de instabilidade no Iraque.
A retórica turca relativamente à influência positiva de Ancara na região,
incluindo a capacidade de mediação de conflitos e o uso da diplomacia para
chegar a acordo entre partes beligerantes58, acabou por revelar a falta de uma
estratégia clara na resposta da Turquia a estes eventos59, expondo o vazio da
política externa de Ancara e a sua limitada influência na região.
Apesar de promover a luta pela democracia na região, Ancara teve dificuldade em
apoiar forças antirregime nos casos dos países com que mantinha boas relações
económicas, como foi o caso da Líbia de Qaddafi. No caso da Líbia, a Turquia,
depois de alguma relutância, acabou por se juntar à intervenção da nato no
país, embora de uma forma passiva numa operação liderada pela França e pela
Grã-Bretanha, com o apoio dos Estados Unidos. Consciente de que esta indecisão
poderia levar a um decréscimo na popularidade da Turquia na região, a resposta
por parte do Governo turco tornou-se mais assertiva com os casos do Egito e
Síria60. No Egito, o akp foi claro no seu apoio ao fim do regime de Mubarak e à
ascensão política da Irmandade Muçulmana. Na verdade, a tensão entre o Governo
turco e o egípcio é hoje visível dado o contínuo apoio de Ancara a Morsi,
entretanto afastado do Governo61.
Apesar de tudo, o maior desafio à política externa da Turquia foi e continua a
ser a Síria. Depois de uma década que parecia ter estabilizado as relações
entre os dois países, as revoltas populares na Síria voltaram a colocar Ancara
e Damasco em polos opostos. Esta proximidade fez com que a Turquia tivesse
tentado, após os primeiros sinais significativos de contestação popular,
influenciar o regime de Bashar al-Assad a levar a cabo as reformas exigidas
pela população62. Uma vez que Assad não mudou de posição, a Turquia assumiu uma
posição tendencialmente crítica, acabando por ativamente apoiar os movimentos
de oposição63. Nesse sentido, o ei surge como um enorme desafio à política
externa turca.
Tanto no caso do Iraque como no caso da Síria, uma eventual desintegração
destes países não só geraria imprevisíveis ondas de instabilidade, como
potencialmente levaria à constituição de um estado curdo na sua fronteira, uma
questão que se tornou ainda mais relevante dado o apoio que os curdos têm
recebido por parte dos Estados Unidos na luta contra o ei64. Mesmo Ancara tem
colaborado com os curdos iraquianos na defesa da cidade síria (curda) de Kobane
65, 66.
O atual contexto de violência que assola a região pode afetar diretamente os
planos de Erdogan para o futuro político da Turquia, nomeadamente os planos
quanto à alteração da Constituição e consequente mudança para um sistema
presidencial. Uma eventual alteração da Constituição depende do apoio do
partido pró-curdo Partido da Paz e da Democracia (bdp, na sigla turca). Essa
tem sido uma das razões que tem levado Erdogan a procurar uma conciliação com o
movimento rebelde do pkk, em particular com o seu líder Abdullah Öcalan, que se
encontra em prisão perpétua desde 199967.
No entanto, este processo está em risco pela falta de empenho da Turquia em
defender a cidade síria (curda) de Kobane contra o ei. Para o governo de Ancara
que tem tido uma posição pouco firme relativamente à rápida ascensão do ei68, o
dilema é grave: ou apoia as forças rebeldes curdas, potenciando a ascensão do
pkk e de outros movimentos a estes ligados, ou não o faz e correndo o risco de
ter de lidar com uma crise humanitária de escala imprevisível. De facto, Ancara
tem evitado uma colaboração total com os Estados Unidos no combate ao ei na
Síria, tentando ao mesmo tempo conseguir o apoio da comunidade internacional
para uma estratégia que vise não só combater o ei mas também remover Assad do
poder. Davutoglu declarou que a Turquia fará "o possível para ajudar as
pessoas de Kobane porque são nossos irmãos e irmãs. Não os vemos como curdos,
turcomanos ou árabes. Se há necessidade para uma intervenção em Kobane, nós
dizemos que há necessidade de intervir em toda a Síria, em toda a nossa
fronteira"69. Esta seria uma maneira de garantir que o pkk deixasse de
ver Assad como um aliado70.
A não-intervenção da Turquia na defesa de Kobane provocou ainda protestos em
vários pontos do país, provocando a morte de dezenas de pessoas, principalmente
no leste do país71. O Governo chegou mesmo a declarar o recolher obrigatório
para várias províncias da região72.
O número de refugiados (registados) na Turquia ascende hoje em dia a quase 900
mil73. Este número tão significativo tem levado a um escalar da tensão entre
diferentes grupos étnicos na região, nomeadamente na província de Hatay onde a
chegada de um elevado número de refugiados, maioritariamente sunitas, perturba
o delicado equilíbrio entre as diferentes etnias na região74, sendo este um
fenómeno que igualmente presente noutros pontos do país75. A chegada de tantos
refugiados coloca igualmente em questão a capacidade financeira da Turquia em
financiar a criação e manutenção de campos de refugiados. De acordo com a
unhcr, a Turquia estava já com dificuldades em lidar com os refugiados
provenientes um pouco de toda a Síria, antes de receber os mais de 180 mil
residentes de Kobane76. A Turquia gastou já quatro mil milhões de dólares na
assistência aos refugidos, sendo que 220 mil vivem nos campos providenciados
pelo Governo e mais de 85 por cento vive fora dos campos, segundo a Amnistia
Internacional77. A nível interno, o estatuto dos refugiados sírios levanta
ainda questões relativamente a uma eventual estratégia do Governo para
conseguir mais apoio eleitoral para o akp, através da concessão de cidadania a
muitos destes78.
CONCLUSÃO
A Turquia vive hoje num contexto de enorme instabilidade externa e de incerteza
quanto ao rumo político e económico do país. No segundo trimestre de 2014, o
crescimento económico foi mais lento que o esperado, ficando apenas nos 2,1 por
cento79. Entre outros aspetos, a tensão política gerou uma quebra de confiança
no mercado turco, provocando a saída de capital que levou o banco central a
aumentar acentuadamente as taxas de juro no início de 201480. O akp domina a
vida política, mas são inúmeros os sinais de fim de regime, com o avolumar dos
casos de corrupção, com a multiplicação dos casos de censura e com as cada vez
mais frequentes demonstrações de descontentamento popular. O caminho traçado
por Erdogan que pretende ver a Turquia entre as dez maiores economias mundiais
em 2023 (aquando da comemoração do centenário da República) parece hoje mais
distante do que há alguns anos atrás. O processo de integração europeia só
existe no papel e a política de "problemas zero com a vizinhança"
não passa hoje de uma ironia do destino. A Turquia continua, por enquanto, a
ser uma potência "emergente". Resta saber até quando.
Data de receção: 21 de outubro de 2014 | Data de aprovação: 14 de novembro de
2014
NOTAS
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De notar ainda que o carisma de Erdogan e o seu estilo populista marcam a sua
liderança, sendo que até a sua despedida do partido levou alguns dos deputados
do akp às lágrimas. Ver em Özel, Riza - "PM Erdogan's
"final group speech" moves deputies to tears". In Hürriyet
Daily News. [Consultado em: 10 de outubro de 2014]. Disponível em: http://
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Apesar do receio do que estes acontecimentos poderão implicar para a população
curda na Turquia, o interesse económico por parte da Turquia no território
curdo iraquiano é notório; heuvelen, Ben Van - "Iraq's
Kurdish region pursues ties with Turkey". In The Washington Post.
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