A emergência da Índia e a ordem liberal americana: Notas sobre desafios futuros
INTRODUÇÃO: QUEM TEM MEDO DE UM MUNDO MULTIPOLAR?
Amitav Acharya, um proeminente construtivista crítico da American University,
publicou recentemente um livro-panfleto na senda de Kishore Mabhubani1 onde faz
dois argumentos centrais. O primeiro é que, independentemente de questões
quantificáveis de declínio e ascensão, a narrativa da indispensabilidade da
hegemonia americana tem os dias contados2. Não será fácil para os Estados
Unidos continuarem a defender a ideia de que o mundo beneficia da sua primazia
(da "nação indispensável") depois da Guerra do Iraque, que pôs em
causa a legitimidade da liderança e da crise económica internacional, que teve
início nos Estados Unidos, contaminou o mundo, e pôs seriamente em causa a
validade do modelo económico internacional liberal3. Para os países que compõem
os brics, um grupo que cada vez mais se apresenta como uma coligação que
pretende criar alternativas para a ordem internacional económica, os
acontecimentos de 2008, diz Acharya, provaram que o modelo americano está
esgotado. O segundo argumento é que o mundo ocidental desenvolveu a ideia falsa
de que a unipolaridade é condição necessária para a estabilidade
internacional4. O Ocidente tem defendido a validade da teoria da estabilidade
hegemónica5 que contém a ideia essencial de que o mundo beneficia da existência
de uma potência organizadora6 sem a qual a paz internacional e a cooperação
entre os estados é muito mais difícil de obter. E que a liderança americana tem
tido um papel preponderante quer pelo seu carácter benigno, quer pela sua
inclusividade e flexibilidade7.
Do ponto de vista de Acharya, esta tese tem dois problemas fundamentais que a
põem em questão. Por um lado, o sistema unipolar sofre da ausência de checks
and balances.
Assim, o Estado hegemónico tem um poder discricionário que, mal usado, põe em
risco a paz do sistema. Por outro, não há modelos para um mundo multipolar no
século xxi. A última vez que o sistema internacional foi multipolar (e
instável), no século xix, os protagonistas eram outros (os beligerantes estados
europeus), os pressupostos ideológicos eram diferentes, e as tecnologias que
hoje facilitam o entendimento entre os estados (institucionais e científicas)
ainda não tinham sido desenvolvidas. Assim, não se pode esperar que o passado
multipolar seja um guia fidedigno para o futuro multipolar. Acharya não diz,
mas leva o leitor a subentender, que os estados emergentes são inerentemente
pacíficos e, acima de tudo, responsáveis e respeitadores do direito
internacional na sua vertente mais soberanista8. Saberão, portanto, partilhar o
poder do sistema internacional de forma pacífica e tenderão a organizar-se para
estabelecer novas regras na ordem internacional (ou restabelecer regras
antigas) que, por se oporem às da ordem americana, tenderão a ser mais
pluralistas e menos solidaristas9. Mais, um sistema multipolar permitirá que os
estados se vigiem uns aos outros, garantindo assim um menor risco de conflitos
armados.
Apesar do tom persecutório de Acharya neste livro não ser partilhado por
muitos, as duas ideias centrais do seu livro - de que (1) a ordem
internacional política e económica americana está esgotada e que (2) um sistema
unipolar é inerentemente mais perigoso que um sistema multipolar - são
subscritas por cada vez mais decisores políticos e académicos dos estados
democráticos emergentes, nomeadamente da Índia e do Brasil10. Decisores,
diplomatas e académicos vão afirmando que não existe nenhum problema
fundamental nas relações diplomáticas entre os seus países e Washington, mas
vão simultaneamente procedendo a estratégias de soft balancing11que, na
prática, enfraquecem a posição norte-americana e a ordem internacional liberal
construída pelos Estados Unidos e os seus aliados nos anos 1940 e reforçada
pela vitória na Guerra Fria. No entanto, as preocupações dos declinistas
americanos têm-se concentrado em Pequim, votando a Índia e o Brasil a um quase
esquecimento. Joseph Nye diz mesmo que a Índia é "um poder
prematuro"12. Apesar de Nova Deli e Brasília darem cada vez mais sinais
de descontentamento relativamente às decisões norte-americanas, o que tem
levado, simultaneamente, ao uso das instituições internacionais para denunciar
o comportamento internacional norte-americano, e ao alinhamento ocasional com a
China com o objetivo de conter a evolução de regimes internacionais menos
favoráveis aos interesses do Sul global13, muito pouco se tem investigado sobre
a especificidade do seu comportamento que, até certo ponto, contraria as
previsões teóricas.
Três razões explicam a ausência destas análises. Primeiro, o tema da emergência
chinesa sobrepõe-se a todos os outros. Tanto porque Pequim é mais poderosa do
que as restantes potências emergentes como porque as suas posições normativas
estão tão distantes das americanas, a China tem sido considerada o rival
natural dos Estados Unidos em cenário de transição de poder14. Segundo, porque
frequentemente se estuda a ascensão de potências não ocidentais em conjunto
- como se os casos não tivessem especificidades suficientes para que as
trajetórias dos países e as suas posições na política internacional sejam
também elas muito diferentes. Terceiro, quando se estuda a Índia e o Brasil
separadamente dos outros brics, as questões de transição de poder entre
democracias e alinhamento em contexto de transição têm sido abordadas à luz da
Teoria da Paz Democrática. Autores das diversas escolas de relações
internacionais consideram que as democracias tendem a (1) criar contextos de
transição pacíficos por estarem de acordo com os valores vigentes da ordem
internacional15e/ou (2) alinhar-se entre si para conter a emergência de
potências autocráticas, naturalmente revisionistas dos valores internacionais
partilhados pelos estados democráticos16. Assim, prevê-se que o Brasil, e
especialmente, a Índia, com uma história de rivalidade com a China, tendam a
alinhar-se com os Estados Unidos para conter Pequim.
Mas a verdade é que a Índia e o Brasil se têm oposto sistematicamente a
Washington em questões estratégicas e normativas com profundas implicações na
ordem internacional liberal17. Mais, esta oposição tem tido maior impacto
internacional devido a três fatores: (1) o retraimento estratégico norte-
americano criou um vazio de poder que as potências emergentes têm sabido
ocupar; (2) as atuais ameaças transnacionais requerem soluções conjuntas,
aumentando o poder negocial dos estados emergentes; e (3) a estratégia destas
potências tem sido a de usar as estruturas institucionais criadas pela ordem
liberal norte-americana para questionarem a legitimidade de ação do Ocidente.
Caso esta tendência se mantenha, os alinhamentos das potências emergentes
democráticas poderão não ter um carácter revisionista clássico, mas terão um
impacto negativo na ordem internacional liberal. Mesmo que se mantenha um
registo revisionista soft, esta política tenderá a contribuir para o
enfraquecimento das estruturas da ordem vigente.
Este artigo argumenta que os pressupostos teóricos que têm levado à conclusão
de que as democracias emergentes tenderão a reforçar a ordem liberal americana
estão, em parte, ultrapassados. Ter o mesmo tipo de regime não é condição
suficiente para alinhamento em contexto de transição de poder. Poderá até ter
um efeito contraproducente, uma vez que se criam expectativas que não são
cumpridas. Este tem sido o caso das relações Estados Unidos-Índia18. O
argumento será desenvolvido em três partes: a primeira escrutina a Teoria da
Paz Democrática e os seus pressupostos, que teoricamente se deveriam aplicar às
relações indo-americanas. A segunda procura encontrar explicações alternativas
através das críticas à Teoria da Paz Democrática, que serão testadas na
terceira parte, em que argumentos empíricos serão expostos. O artigo conclui
sugerindo que estes problemas não se aplicam apenas ao estudo de caso, e que,
com as devidas especificidades, poderão ser encontrados noutras potências
democráticas emergentes cujo processo de desenvolvimento económico (e político)
tem decorrido à margem da ordem internacional democrática fundada pelos Estados
Unidos nos anos 1940.
DESAFIANDO A VALIDADE DA TEORIA DA PAZ DEMOCRÁTICA: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Quando enunciou os princípios da Teoria da Paz Democrática (tpd), o realista
Jack Levy fez duas advertências: a primeira é que a tese que estava a enunciar
não se limitava ao princípio mais prontamente observável e empiricamente
comprovado de que as democracias raramente fazem guerra entre si, mas continha
uma série de outros elementos que não faziam das democracias estados
inerentemente pacíficos. Por outras palavras, Levy distinguiu entre um espaço
de paz criado pelos estados democráticos e as relações conflituosas entre
democracias e estados com outros tipos de regime. Segundo, Levy sugeriu que o
processo que desencadeava todos os princípios da paz democrática tinha origens
na política interna dos estados19. Contudo, a investigação do autor não foi
conclusiva relativamente a que mecanismos internos explicavam o comportamento
atípico dos estados democráticos no sistema internacional.
Ao todo, a tpd é composta por cinco princípios: (1) as democracias resolvem os
seus conflitos de forma pacífica, evitando a guerra; (2) os estados
democráticos nunca se encontraram em lados opostos de conflitos armados; (3) as
democracias são menos propensas a iniciar conflitos armados, mas quando entram
em guerra tendem a transformar conflitos de interesses em "cruzadas
morais"20. Assim, (4) as democracias envolvem-se em
"intervencionismo liberal" - a "promoção da sua própria
visão moral da ordem internacional" e (5) por isso mesmo tendem a não
formar alianças com "estados ideologicamente hostis" que tenderiam
a ser rejeitadas pelas suas opiniões públicas.
A questão da identificação das causas da TPD (i.e.os mecanismos que
desencadeiam o fenómeno descrito) foi estudada por diversos autores que
encontraram explicações complementares. Michael Doyle, recorreu à teoria
política da Immanuel Kant para explicar porque é que as democracias
"poderão ter escapado do mais perigoso desafio tradicional das mudanças
sistémicas - a transição entre líderes hegemónicos"21.
Os Artigos Definitivos da Paz Perpétua, na leitura de Doyle, contêm quatro
elementos essenciais: (1) estados com o regime interno
"republicano" (i.e.um regime constitucional); tendem a formar uma
"liga para a paz" (a que estes regimes aderem livremente e que
tenderá a alargar-se a cada novo regime democrático), que garante o (3)
"respeito mútuo" entre os estados (condição fundadora do direito
internacional) e que se transforma na (4) origem de uma "ordem
cosmopolita" com base no "direito à hospitalidade". Este
último direito confere ao indivíduo o papel de unidade mais relevante na ordem
internacional democrática (i.e.na hierarquia de justiça o indivíduo sobrepõe-se
ao Estado), independentemente da sua origem nacional22.
Assim, o processo causal da Paz Democrática desenvolve-se na seguinte lógica:
os governos republicanos desenvolvem regimes internos constitucionais nos quais
a liberdade individual é o valor mais importante. No sistema internacional os
estados comportam-se de acordo com os seus valores internos, reconhecendo e
aliando-se a estados com regimes semelhantes por razões de confiança e respeito
mútuo. O oposto acontece na relação internacional das repúblicas com estados
não-democráticos: a desconfiança é justificada pelo facto de as autocracias
tenderem a violar o "direito natural", a "legitimidade
moral" e estarem em "permanente estado de agressão", uma vez
que as elites frequentemente desvalorizam o interesse público e não são
forçadas a atenderem às suas opiniões públicas23. Consequentemente, as
democracias desenvolveram uma "estratégia de libertação" que se
traduz na proteção mútua dos aliados liberais ("ocidentais", na
designação datada de Doyle) que em casos extremos pode levar à intervenção
militar contra excessos de estados autocráticos24. Este processo causal foi
reforçado pela liderança hegemónica norte-americana, cuja estratégia
internacional passa, desde os anos 1940, pela criação de uma estabilidade
democrática (através das instituições internacionais) e pela promoção da
democracia25.
Já Bruce Russett reafirma que "quanto mais democracias houver no mundo,
menos adversários as democracias terão de enfrentar e mais vasta será a zona de
paz". Foi este princípio que norteou o desenvolvimento da comunidade de
segurança ocidental na Guerra Fria, cujo "princípio unificador" era
a democracia26. Tomando este exemplo mais empírico, o autor identifica três
condições necessárias para a ocorrência da tpd: os estados têm que se
reconhecercomo estados democráticos, o que implica a perceção de
"culturas normativas" e "estruturas comportamentais"
idênticas. São estas três condições que permitem uma "cultura democrática
transnacional" com base na ideia de enlightened self interest27.
Russet, que em conjunto com Zeev Moaz desenvolveu um exaustivo estudo
quantitativo para provar algumas das premissas de Levy28, tem vindo a ser
criticado por definir "democracia" de uma forma muito lata. Os
estados estudados têm quatro características comuns: eleições periódicas e
livres, respeito pelos direitos e liberdades civis, liberdades económicas, e
estabilidade e longevidade do regime29. Também alguns dos conceitos de Russett
são vagos: o elemento normativo não tem premissas concretas, deixando por
explicar o que quer dizer concretamente "cultura democrática"
- um elemento essencial para fazer exclusões e inclusões teóricas.
John Owen tenta corrigir esta questão introduzindo uma nova variável
independente. No seu estudo Liberal Peace, Liberal Waro autor afirma que o que
causa a Paz Democrática é o liberalismo. Owen mantém a variável interveniente
de Russett (perceções) e define liberalismo como a ideologia que modela as
instituições dos estados democráticos, que são essencialmente duas:
"liberdade de discussão" e "eleições livres e concorridas dos
agentes que têm o poder de fazer a guerra". Estes dois elementos
constituem a "identidade institucional" que é, por natureza,
duradoura - ainda que não imutável. E é esta identidade que outros
estados irão percecionar e sobre a qual irão decidir se estão perante um aliado
natural30. O efeito da tpd - resumida nas cinco observações de Levy, que
Owen não contesta - depende, então, da seguinte lógica de causalidade:
estados liberais percecionam os outros como estados liberais ou estados não
liberais, e tomam as suas decisões políticas com base nesse julgamento.
Uma ressalva - acrescenta Owen: os conceitos de liberalismo e democracia
(ou de democracia-liberal, uma vez que o autor nunca faz uma distinção precisa)
vão evoluindo temporal e espacialmente. Assim, todos os casos têm que passar
pelo escrutínio do seu próprio contexto. Sem estudos de caso precisos, como os
que faz no seu livro, a tpd será uma mera abstração e apenas uma probabilidade,
uma vez que as estatísticas não captam as perceções. E se por um lado, o caso
da Índia se ajusta a qualquer das definições apresentadas pelos principais
autores que estudaram o assunto, a reserva deixada por Owen obriga a um estudo
mais aprofundado dos elementos contextuais dos Estados Unidos e do maior estado
do subcontinente asiático. Mas antes, importa rever as críticas à tpd, para
procurar os elementos que poderão determinar uma aproximação ou um afastamento
da "mais antiga democracia do mundo" e da "maior democracia
do mundo".
DESAFIANDO A VALIDADE DA TEORIA DA PAZ DEMOCRÁTICA: CRÍTICAS TEÓRICAS E
EXPECTATIVAS NORTE-AMERICANAS
Ainda que a Teoria da Paz Democrática seja aceite por um largo espetro
académico, não tem estado isenta de críticas31. Pelo menos três tipos de
problemas têm sido recorrentemente apontados e nunca ficaram definitivamente
resolvidos32.
O primeiro é a ausência de coesão entre definições e bases de dados33. A secção
acima já demonstrou que as definições são vagas, ao que se acrescenta o facto
de as amostras estatísticas serem reduzidas, uma vez que a democracia é um
fenómeno recente34. O segundo é o problema da variável omitida: até
recentemente, os estados democráticos partilhavam uma série de atributos para
além do tipo de regime comum. Todos se encontravam em posições económicas
estáveis e obtidas através do modelo da economia de mercado35, e gozavam de uma
certa "uniformidade cultural" e, na maioria dos casos, partilhavam
"um conjunto particular de circunstâncias histórica"36. Segundo os
críticos da tpd estas semelhanças podem ter tido um papel preponderante no
resultado atribuído ao regime político comum.
Uma terceira crítica está relacionada com a advertência de John Owen. O
problema da Paz Democrática será o facto de ser uma tese apresentada como se a
"democracia fosse um conceito a-histórico"37. Por outras palavras,
é entendido que as democracias não fazem a guerra entre si independentemente de
critérios de espaço e tempo. No entanto, não só se pode identificar uma
evolução no conceito de democracia38, como a democracia tem características
diferentes no mesmo tempo e em espaços distintos, quer na sua vertente
institucional doméstica, quer na projeção dos valores internos na ordem
internacional. Por exemplo, quando o Reino Unido era o Estado mais poderoso do
sistema internacional, não fez qualquer tentativa de transformar a ordem
westfaliana, herdada do século xvii e aceite pela maioria dos estados europeus.
Atualmente, como no passado, a visão do que significa ser uma democracia para
efeitos de relações pacíficas é determinada pelos estados mais poderosos, os
que criaram e mantém a ordem internacional. Por conseguinte, "os Estados
Unidos são a norma relativamente à qual outras ordens políticas são
comparadas"39. Quando um estado democrático se afasta dos valores
normativos democráticos implementados no sistema internacional pelos Estados
Unidos e os seus aliados, a tpd perde parte da sua validade. Assim, se é muito
pouco provável que os Estados Unidos e a Índia usem a força um contra o outro,
é possível que as outras premissas enunciadas por Levy estejam postas em causa.
Assim, questões internasdas tradições de política externa dos Estados Unidos e
da Índia, bem como as relações históricasdos dois países, e a forma como cada
um conceptualiza justiça e ordemno sistema internacional parecem ser variáveis
mais precisas para estudar as questões de alinhamento ou afastamento entre os
dois países.
À luz deste contexto teórico, restam duas perguntas fundamentais: em que
consiste o modelo de organização internacional norte-americano, e em que é que
ele é contestado pelos regimes democráticos emergentes, nomeadamente a Índia?
Antes de mais, existe uma questão basilar da ordem americana, inédita no
sistema internacional contemporâneo: a universalidade. No seu recente livro,
Henry Kissinger explica este fenómeno da seguinte forma: "a política
externa americana tem refletido a convicção de que os seus princípios internos
são evidentemente universais e que a sua aplicação é sempre salutar; que o
verdadeiro desafio do envolvimento americano além-fronteiras não consiste na
política externa no sentido tradicional, mas num projeto de expansão de valores
que [os Estados Unidos] acreditam que todos os outros povos aspiram a
replicar"40.
Este sentido de universalidade de valores explica dois elementos fundamentais
da política externa norte-americana: por um lado, os Estados Unidos aceitam a
condição de soberania dos estados (uma herança da ordem de Westfalia) atuando
eles próprios muitas vezes sob o signo da autonomia e da independência da
política externa com a intenção de proteger a paz kantiana da ordem
internacional41, mas não atribuem o mesmo grau de legitimidade a todas as
unidades, desvirtuando o conceito de "igualdade internacional" (no
sentido que as regras são igualmente aplicadas a todos os estados) - a
pedra basilar do direito internacional42. Os países que não têm regimes
democráticos são menos legítimos e, por conseguinte, mais vulneráveis à
intromissão de agentes da ordem internacional, do que os estados democráticos.
Por outro, a universalidade explica os esforços desenvolvidos pelas várias
administrações americanas desde a presidência de Woodrow Wilson para inverter
as regras do equilíbrio de poder e substituí-las por outras de carácter mais
normativo, refletindo os valores da democracia liberal americana43. O
Presidente norte-americano que presidiu à Conferência de Versalhes com 14
pontos que pretendiam iniciar uma nova forma de ordem internacional, trazia
também uma "teoria liberal da história"44(ou uma teoria da
modernização45) enraizada na tradição americana que vê os valores da paz,
democracia e prosperidade económica como indivisíveis e progressivos46e a visão
kantiana de que as democracias não fazem a guerra entre si.
De acordo com a visão wilsoniana, "a paz duradoura requeria governos de
consentimento popular"47porque os povos livres tenderiam a escolher a
democracia como tipo de regime. Para facilitar este progresso, era necessário
criar instituições que punissem os estados infratores (a ordem baseada no
equilíbrio de poder não fora, nesse aspeto, efetiva) e que garantissem a
"segurança coletiva". A estrutura internacional inventada por
Wilson, a Liga das Nações, deveria ter o papel de regular as relações entre os
estados, sob o signo dos princípios da interpretação americana dos princípios
kantianos.
É sabido que Wilson não foi capaz de implementar a sua visão para uma nova
ordem internacional, mas a sua conceção manteve-se, manifestando-se de várias
formas ao longo da história da política externa americana, especialmente desde
que os Estados Unidos se tornaram a potência organizadora, primeiro da esfera
ocidental nos anos 1940 e depois à escala global cinquenta anos mais tarde. As
mais importantes materializações dos ideais wilsonianos são três: (1) a criação
de um conjunto de instituições internacionais conducentes ao desenvolvimento da
democracia e da economia de mercado; (2) a criação de estruturas de segurança
coletiva (em organizações internacionais como a nato e alianças bilaterais) que
defendam os estados democráticos dos estados hostis: (3) e o uso de diversos
instrumentos, diplomáticos, políticos, económicos e até militares para a
promoção da democracia - como a reposição de um Estado natural de que
determinados estados estão excluídos.
Desde 1990, a expressão da faceta liberal da política externa americana e a
projeção dos valores no sistema internacional aumentou significativamente por
duas razões: a vitória ocidental na Guerra Fria deu um novo impulso às ideias
liberais, incentivando a prática do liberalismo internacionalista, e o sistema
internacional unipolar que se seguiu permitiu aos Estados Unidos um reforço da
vertente da sua política externa liberal. As organizações internacionais
universalistas foram reforçadas com novos orçamentos e poderes48; foram criadas
novas normas internacionais com vista a defender o indivíduo (sendo a
responsabilidade de proteger a mais ousada e contestada)49, criaram-se ou
reforçaram-se regimes internacionais, alargou-se a comunidade de segurança
entre as democracias. Também aumentou exponencialmente o número de intervenções
militares por razões humanitárias.
Já nos anos 2000, o entusiasmo pela agenda liberal esmoreceu, não menos por ela
ter sido evocada como justificação para a Guerra do Iraque. No entanto, a ideia
do modelo norte-americano de democracia e ordem liberal cristalizou-se num
concreto número de princípios expresso num modelo visto pelas elites americanas
como inclusivo, acessível a todos os estados que quisessem aderir à mais
restrita ordem democrática liberal50. E se a hegemonia americana foi avaliada
como um êxito especialmente entre as democracias ocidentais, a liderança dos
Estados Unidos começa a ser contestada pelas democracias emergentes, pelo
elemento que mais a caracteriza: o universalismo.
DESAFIANDO A VALIDADE DA TEORIA DA PAZ DEMOCRÁTICA: O CASO DA ÍNDIA
Apesar das precauções académicas que sublinham que a Índia ainda tem grandes
desafios a enfrentar no que diz respeito à capacidade do Estado e ao
desenvolvimento económico51, cada vez é mais frequente a consideração de que
Nova Deli terá um papel importante no sistema internacional do futuro próximo.
Já correntemente, a "Índia é o swing stateglobal por excelência"52,
uma vez que ocupa uma posição económica que lhe permite ter uma palavra a dizer
nas questões globais, enquanto passa por um sério debate interno sobre qual
deverá ser o seu papel internacional.
Ainda que muito esteja por definir neste papel internacional e que haja cada
vez mais autores a destacar diferenças entre tradições da política externa
indiana53, alguns conceitos parecem reunir um certo consenso. Destacam-se seis:
(1) a Índia tem como "destino" tornar-se uma grande potência54; (2)
a ordem internacional é desigual e por isso não inteiramente justa; (3) o valor
central da política externa indiana é a autonomia estratégica55 -
"independência" e "liberdade de ação e decisão", no
vocabulário indiano56, o que leva Nova Deli a ter (4) preferência pelos valores
soberanistas no que respeita à ordem internacional. A Índia atribui um
"conteúdo moral" importante ao sistema soberanista como o único que
"proporciona um contexto para o pluralismo e um quadro de proteção para a
diversidade" e a "autodeterminação"57.
Assim, (5) na ótica indiana, os valores centrais do sistema internacional
deveriam ser a "igualdade entre estados" (na lógica Vattel58), a
reciprocidade (os estados devem ser tratados e percecionados segundo o seu
comportamento internacional e não a partir de outros parâmetros como o poder) e
o "pluralismo" (cada Estado deve ser respeitado de igual maneira à
luz do direito internacional, independentemente do tipo de regime, sistema
religioso e outros critérios sócio-culturais). (6) Estes valores dariam à Índia
a possibilidade de desempenhar na sua vocação internacionalista o papel de
mediador, mais concretamente "ponte entre mundos diferentes"59,
papel em que historicamente se sente confortável, e que justificaria a sua
posição de potência "avessa ao risco" e ao uso de força militar60.
Estes valores estão muito longe dos verificados nos estados liberais que foram
estudados pela tpd.
A revisão da literatura na secção anterior permitiu encontrar importantes
elementos que podem explicar as diferenças entre os Estados Unidos democráticos
e a Índia democrática: (1) os fatores de carácter interno, (2) as relações dos
estados emergentes com a grande potência e as perceções que daí advêm, e (3) as
conceptualizações de justiça relativamente às normas do sistema internacional.
No primeiro caso - a origem interna do afastamento ou alinhamento entre
estados avançada por Jack Levy - dois elementos explicam a postura
indiana. O primeiro é o anticolonialismo, relacionado com a história do
nacionalismo indiano. Como refere Ganguly, existe uma "aversão
profundamente enraizada relativamente ao colonialismo e imperialismo" que
são associados a questões de promoção de democracia. "Mesmo 60 anos
depois do fim do colonialismo britânico, as memórias da lógica colonial e pós-
colonial empregue nas intervenções militares no estrangeiro permanecem
vivas" e a Índia rejeita associar-se-lhes61.
O segundo, o pluralismo, está relacionado com a experiência interna da
diversidade indiana: a Índia integrou no seu território 562 principados, uma
população de quase um bilião de pessoas falantes de mais de vinte línguas e
origens histórico-culturais diferentes, bem como uma multiplicidade de
religiões, num "Estado unitário" e "dentro de um sistema
democrático bem-sucedido e dotado de uma Constituição secular"62. A
Índia, tal como os Estados Unidos, prefere que os seus valores internos tenham
ressonância no sistema internacional. E o anticolonialismo e o pluralismo têm
mais cabimento num sistema semelhante ao criado em Westfalia em 1648 -
onde o universalismo religioso foi deliberadamente destituído e substituído por
uma estrutura mais inclusiva e pluralista63.
Relativamente ao segundo elemento - a origem relacional do afastamento ou
alinhamento entre estados, cristalizada nas perceções, importantes para Russett
e Owen - a Índia tem duas ideias centrais relativamente aos Estados
Unidos. A primeira é que, relativamente a Nova Deli, o fator democracianunca
foi relevante nas decisões de Washington. De todas essas decisões que terão, na
ótica indiana, prejudicado Nova Deli, nas três mais importantes - o
acordo com o Paquistão em 1954, a política de aproximação da China no início
dos anos 1970, e as sanções impostas à Índia em 1998 devido aos testes
nucleares - o comportamento americano favoreceu os estados autocráticos
rivais da Índia64. Stephen Cohen vai mais longe, garantindo que há "uma
institucionalização da desconfiança indiana por Washington", porque
"a América armou o Paquistão nos anos 1950 e 1960; opôs-se ao apoio justo
que a Índia prestou ao movimento bengueli em 1971, e aliou-se com a China nos
anos 1970 e 1980"65. A desconfiança que advém deste período era
reciprocada por Washington, que via o movimento dos Não-Alinhados como um
desafio aos Estados Unidos, confirmado pela assinatura do tratado de 1971, que
oficializou as relações de cooperação estreita entre a Índia e a União
Soviética. No entanto, presentemente, as questões políticas levantadas pela
Guerra Fria parecem ter maior impacto na memória coletiva indiana que na
americana.
A segunda ideia é que, para a Índia, um dos mais importantes valores
internacionais nas relações bilaterais é a reciprocidade66. O conceito incluiu
dois elementos inter-relacionados. Por um lado, a rejeição de uma hierarquia
internacional, no sentido em que a Índia considera que os estados devem ser
julgados pelo seu comportamento internacional e não pelas suas capacidades
militares latentes ou efetivas. Por outro, cria uma forma inovadora - e
de difícil apreensão por outros estados com menor sentido histórico - de
escolher que estados fazem parte da rede de confiança indiana. Da perspetiva de
Deli, os Estados Unidos nunca trataram a Índia como um Estado igual e apesar do
seu comportamento pacífico na região asiática.
Dois fatores mais recentes suavizaram o elemento relacional entre os Estados
Unidos e a Índia: Washington tem vindo a reconhecer a importância estratégica
de Nova Deli quer como potência nuclear, quer como estado central no equilíbrio
de forças regional. Esta aproximação teve início com a visita oficial de Bill
Clinton à Índia em 1999, foi reforçada pela solidariedade entre os dois países
no pós-11 de setembro67, e teve o seu ponto mais alto na assinatura do acordo
nuclear entre Washington e Nova Deli em 2006 (acordo esse que passou por
intensos debates entre os membros do governo do Partido do Congresso68). Por
outro, existe uma nova geração de académicos que tem optado por estudar a
política externa indiana usando instrumentos teóricos liberais e realistas
(menos enraizados em tradições históricas indianas), que defendem uma relação
mais próxima com os Estados Unidos - ainda que, a maioria das vezes, por
razões meramente estratégicas. Poderá ser o início de uma nova elite com
características diferentes da contemporânea69.
No entanto, por agora, a maioria da elite indiana - especialmente
decisores e diplomatas - ainda se identifica quer com os princípios acima
descritos, quer com a narrativa nehruviana - que estabelece o terceiro
elemento - as conceções de justiça da ordem internacional do Estado em
declínio (ainda o modelo de comparação) e o Estado emergente, para os quais Ido
Oren chamou a atenção. Neste contexto, os seis princípios consensuais entre as
elites indianas - a Índia como grande potência com papel de mediador
internacional, a autonomia estratégica como pedra basilar da política externa
indiana, e os valores soberanistas (conducentes à igualdade entre estados, à
reciprocidade e ao pluralismo), e a ideia de existir uma certa injustiça
internacional relativamente à Índia estão enraizados na história indiana.
Foram, com a devida contextualização, formulados por Jahawarlal Nehru e pelos
seus conselheiros ainda antes de a Índia se tornar independente70 revestem-se
da maior importância por terem resistido às mudanças internas e sistémicas
porque Nova Deli passou - sendo as mais importantes o tratado de amizade
com a União Soviética em 1977, que desvirtuou a doutrina do Não-Alinhamento e a
abertura indiana à globalização no início dos anos 1990, que desacreditou o
modelo de desenvolvimento baseado na centralização da economia71.
Estes princípios, aliados à ideia de que a ordem internacional vigente não é
justa para os países do Sul e a simultânea perceção que a Índia tem a
oportunidade de ascender ao estatuto de grande potência, tem levado à
atualização da "metanarrativa" indiana, inspirada no nehruvianismo.
Por um lado, diversos historiadores têm-se encarregue de desfazer o mito de que
Jawaharlal Nerhu centrou a sua política externa em princípios meramente
idealistas. Não se têm poupado esforços para resgatar a faceta mais pragmática
do líder histórico indiano72, tornando a sua herança mais adequada aos
problemas do século xxi e às exigências de uma política externa mais
"pragmática", mais relacionada com a concretização do
"enlightened self-interest" indiano73.
Por outro, a herança de Nehru tem sido adaptada às condições sistémicas
atuais74. Certos valores têm sido menos valorizados (o pan-asianismo, o
idealismo), outros adaptados a temas recentes. Por exemplo, o não-alinhamento
tem passado por reinterpretações e é, hoje essencialmente visto como uma
estratégia de transformação da ordem global, e como "contribuição para o
reforço dos fora internacionais", do enfraquecimento "do uso da
força na política internacional", e como fator que contribui para
"reduzir a desigualdade global"75. Já a figura de Nehru é por vezes
evocada por ter contribuído para um sistema internacional mais ético, por ter
ganho espaço internacional pela justiça dos seus argumentos (espaço esse
superior às suas capacidades militares indianas) e de ter elevado a política
externa indiana a um estatuto internacional que pode ser recuperado agora.
A narrativa está presente no debate atual na seguinte lógica: um sistema
multipolar com regras soberanistas seria mais justo, porque diluiria as
"desigualdades da ordem internacional"76. As potências emergentes
saberiam conviver num sistema internacional multipolar organizado à volta dos
valores da panch sheel(os cinco princípios da coexistência pacífica)77tornando
o sistema internacional mais harmonioso. Este sistema também beneficiaria os
interesses nacionais indianos porque seria mais condicente com um perfil
indiano, "internacionalista"78, e criaria espaço para uma maior
liberdade de exercer uma política externa sem constrangimentos ou dependências
de outros atores79. Também permitiria à Índia manter a sua política externa
multivetorial - de relações cordiais com todas as potências sem dar
preferência a nenhuma.
O encontro conceptual de uma ordem internacional mais pluralista (inspirada na
ordem Europeia pré-I Guerra Mundial) com a narrativa nehruviana adaptada ao
século xxi (sem idealismos exacerbados mas de teor internacionalista ético com
base nos valores da justiça, reciprocidade e pluralismo) tem o triplo efeito de
aproximar estrategicamente Nova Deli de outras potências emergentes, e de
pressionar o sistema internacional num sentido mais multipolar, e de recolher o
apoio da opinião pública indiana. E tem a consequência de, em muitas ocasiões,
colocar Nova Deli numa posição distante da de Washington e da ordem liberal
norte-americana.
NOTAS FINAIS
Num artigo escrito em 2012, Pu Xiaoyo, afirmou que "nas próximas décadas,
o Ocidente tem de acomodar os poderes emergentes enquanto salvaguarda a ordem
liberal ocidental"80. Ao contrário de Amitav Acharya, que acredita que a
ordem liberal internacional está ultrapassada, Pu expressa o dilema que tem
prevalecido, especialmente nos Estados Unidos: a ordem americana tem tido um
impacto positivo para o sistema internacional, e seria benéfico preservá-la em
período de transição de poder. Esta questão reflete-se, regra geral, no estudo
das relações Estados Unidos-China, mas, como este artigo demonstrou, os
desafios não se encontram exclusivamente nesta relação bilateral. As
democracias emergentes não se têm posicionado como revisionistas no sentido
clássico do conceito, mas têm vindo a colocar desafios importantes à ordem
liberal. Este artigo centrou-se em alguns desses desafios, sendo que o primeiro
passará por analisar as democracias emergentes, nomeadamente a Índia, através
de pressupostos teóricos que vão além das antigas lentes da tpd. O fator
democracia pode facilitar as relações entre estados com tipos de regime comum,
mas no caso da relação Estados Unidos-Índia não parece ser o elemento
determinante no que concerne a determinar razões de afastamento ao alinhamento
no contexto da transição de poder.
Assim, este artigo chega a duas conclusões centrais. Por um lado, a tpd, tal
como tem sido enunciada do ponto de vista teórico e posta em prática pelos
decisores das democracias ocidentais, está posta em causa pela emergência de
novas potências de regime democrático. Se por um lado não há razões para
acreditar que as democracias passarão a fazer a guerra entre si, outros
pressupostos enunciados por Levy e desenvolvidos pelos seus seguidores não se
verificam no caso da Índia. Como afirma um grupo de proeminentes pensadores
indianos,
"estamos comprometidos com as práticas democráticas e estamos
convencidos que democracias robustas garantiriam a segurança da nossa
vizinhança. Mas mesmo assim, a Índia não promove a democracia nem a
vê como um conceito ideológico que serve como eixo polarizador na
política internacional"81.
Esta determinação não se aplica apenas à promoção internacional da democracia;
está presente noutras áreas das relações internacionais, em temas fundamentais
para a ordem internacional como o regime económico e financeiro, o regime da
proteção dos direitos humanos, e o regime das alterações climáticas, entre
outros exemplos. Resumindo, o tipo de regime comum não é, no século xxi,
condição suficiente para prever alinhamento em contexto de transição de poder.
Os decisores indianos parecem querer manter a sua independência na tomada de
decisão, criar uma política externa ao serviço do desenvolvimento interno do
Estado82, e que assuma "mais responsabilidades na gestão dos problemas
internacionais quando necessário". Para isso,
"[a Índia] deve tentar influenciar e configurar negociações
globais no que respeita ao comércio, alterações climáticas e reforma
do sistema financeiro global e da arquitetura de segurança
internacional, reforçando a [sua] voz e construindo coligações
flexíveis consoante cada questão"83.
Estas escolhas tanto históricas como renovadas deliberadamente ao longo das
últimas décadas, colocam a Índia numa posição de princípio muito diferente da
dos Estados Unidos e da ordem liberal.
A segunda conclusão do artigo é que os três fatores que explicam as
divergências entre a Índia e os Estados Unidos são de carácter identitário e
político. Estes elementos encontram-se ao nível interno (relacionado com a
autoimagem de cada Estado e do seu papel no sistema internacional), relacional
e do domínio da perceção (ação e reação a expectativas criadas quer pelos
Estados Unidos, quer pela Índia), bem como nas diferenças entre conceções
internacionais de justiça.
Deve acrescentar-se, no entanto, que estas disputas se têm manifestado
essencialmente ao nível normativo, relacionado com o conteúdo da ordem
internacional - ainda que tenham reflexos políticos evidentes,
especialmente ao nível das instituições internacionais. O que não impede que os
Estados Unidos e a Índia tenham tentado e conseguido encontrar posições
setoriais comuns em áreas como a segurança (ainda que com ambivalências)
especialmente na zona do oceano Índico, o terrorismo, e a proliferação nuclear.
Os Estados Unidos também poderão ser parceiros nas coligações flexíveis e
temporárias, mas não em alianças permanentes ou em quadros de segurança
coletiva - como tem sido a preferência dos Estados Unidos, nas relações
com democracias.
Nem quer dizer que os estados não tenham procurado estreitar as suas relações,
como demonstra a visita de Barack Obama à Índia, em finais de janeiro de 2015,
pelas comemorações do Dia da Independência. No entanto, este artigo sugere que
Nova Deli terá preferência por manter relações bilaterais com os Estados
Unidos, em parte por não subscrever inteiramente os valores internacionais
americanos, o que poderá contribuir para o enfraquecimento da ordem
internacional em contexto de transição de poder.
Data de receção: 15 de outubro de 2014. Data de aprovação: 29 de dezembro de
2014
NOTAS
1
Ver Mahbubani, Kishore - Can Asians Think?.Londres: Marshall Cavendish
International, 3.ª edição, 2004; e Mahbubani, Kishore - The New Asian
Hemisphere: The Irresistible Shift of Global Power to the East. Nova York:
Public Affairs, 2008.
2
Acharya, Amitav - The End of American Order. Cambridge: Polity Press,
2014, p. 2.
3
É importante referir que Acharya não representa o mainstream da academia
norte-americana. A esmagadora maioria dos autores argumentam que a ordem
internacional liberal continua a ter validade independentemente da Guerra de
2003 - vista como um incidente associado a um momento muito específico da
história dos Estados Unidos, e que os Estados Unidos provaram que,
ultrapassando a crise internacional e voltando aos seus níveis de crescimento
económico habituais em relativamente pouco tempo, o seu modelo económico está
longe de estar ultrapassado. No entanto, as posições de Acharya refletem em
grande medida a posição das elites dos países emergentes, nomeadamente da
Índia.
4
Acharya, Amitav - The End of American Order, p. 18.
5
Keohane, Robert O. - After Hegemony: Cooperation and Discord in the
World Economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.
6
Ikenberry, G. John - Liberal Leviathan: The Origins, Crisis and
Transformation of the American World Order. Princeton: Princeton University
Press, 2011, p. 2.
7
Ibidem,p. 20; Kagan, Robert - The World America Made. Nova York: Alfred
A. Knopf, 2012, p. 26.
8
Krasner, Stephen D. - Sovereignty: Organized Hypocrisy. Princeton:
Princeton University Press, 1999, p. 4.
9
Hurrell, Andrew - On Global Order: Power, Values, and the Constitution
of International Order. Oxford: Oxford University Press 2007, p. 5
10
A lista é extensa. Apenas alguns exemplos: Tellis, Ashley, e Mirski, Sean
- Crux of Asia: China, India and the Emerging Global Order. Washington
DC: Carnegie Endowment for International Peace, 2013, pp. 5 e 10; Amorim, Celso
- "Brazilian foreign policy under President Lula (2003-2012): an
overview". In Revista Brasileira de Política Internacional. N.º 53, 2012,
pp. 214-240; Burges, Sean - "Brazil: a bridge between old and new
powers?". In International Affair s. Vol. 83, N.º 3, 213, pp. 577-594;
Hurrell, Andrew, e Sengupta, Sandeep - "Emerging powers, North and
South relations and global cli-mate politics". In International Affairs.
Vol. 88, N.º 3, 2012, pp. 463-484; Narlicar, Amrita -
"Introduction: negotiating the rise of great powers". In
International Affairs Vol. 83, N.º 3, 2013, pp. 561-567.
11
Brands, Hal - Dilemmas of Brazilian Grand Strategy. Washington DC: ssi,
2010.
12
Nye, Joseph - The Future of Power. Nova York: PublicAffairs, 2011, p.
173.
13
Laidi, Zaki - "The brics against the West?". In CERI
Strategy Papers. N.º 11, novembro de 2011. Disponível em file:///C:/Users/
d.dossantos/Downloads/SSRN-id2315108.pdf, p. 9.
14
Shweller, Randal, e Pu, Xiaoyu - "After unipolarity: China's
visions of inter-national order in the era of u.s. decline". In
International Security. Vol. 36, N.º 1, 2011, p. 43.
15
Kupchan, Charles A. - "Introduction: explaining peaceful power
transition". In Power Transition: The Peaceful Change in International
Order. Nova York: United Nations University Press, p. 8; Organski, A. F. K.
- World Politics. Nova York: Alfred A. Knopf, 1958, p. 363; Gilpin,
Robert - War and Change in World Politics. Cambridge: Cambridge
University Press, 1981, p. 15.
16
Ver Doyle, Michael W. - Liberal Peace Selected Essays. Londres:
Routledge, 2012.
17
Os exemplos são abundantes: tem-se verificado desafios relativamente a
questões de segurança internacional (Declaração de Teerão), ordem económica (a
Rodada de Doha da omc), direitos humanos (a votação da Resolução 1073 do
Conselho de Segurança a autorizar o uso da força na Líbia), e do regime
internacional de alterações climáticas (Cimeira de Copenhaga). Estas
referências excluem as decisões políticas dos brics, que desde 2008 se tornaram
crescentemente acertivas. No entanto, este artigo pretende estudar as políticas
das potências emergentes democráticas, e o grupo não reflete esta realidade.
Cf., por exemplo, Pu, Xiaoyu - "Socialisation as a two-way process:
emerging powers and the diffusion of international norms". In The Chinese
Journal of International Politics. 2012, pp. 1-27.
18
Hurrell, Andrew - "Hegemony, liberalism and global order: what
space for would-be great powers?". In International Affairs. Vol. 82, N.º
1. 2006, p. 13; Cohen, Stephen P. - India: Emerging Power. Washington DC:
Brookings Institution Press, 2001, p. 287.
19
Levy, Jack S. - "Domestic politics of war". In Journal of
Interdisciplinary History. Vol. 18, N.º 4. 1998, p. 662.
20
Ibidem, pp. 659-660.
21
Doyle, Michael W. - Liberal Peace Selected Essays, p. 30.
22
Ibidem, pp. 26, 27, 28, 29.
23
Ibidem, p. 38.
24
Ibidem, p. 41.
25
Ibidem, p. 25; Ikenberry, G. John - After Victor y: Institutions.
Strategic Restraint, and the Rebuilt of Order After Major Wars. Princeton:
Princeton University Press, 2001, p. 163.
26
Russett, Bruce - Gasping the Democratic Peace: Principles for a Post
Cold War World. Princeton: Princeton University Press, 1993, p. 4.
27
Russett, Bruce - Gasping the Democratic Peace: Principles for a Post
Cold War World, pp. 31 e 32.
28
Ver Moaz, Zeev, e Russett, Bruce - "Normative and structural
causes of democratic peace". In The American Political Science Review.
Vol. 87, N.º 3. 1993, pp. 624-638.
29
Russett, Bruce - Gasping the Democratic Peace: Principles for a Post
Cold War World, pp. 15-16.
30
Owen, John M. - Liberal Peace, Liberal War: American Politics and
International Society. Ithaca: Cornell University Press, 1997.
31
Pugh, Jeff - Democratic Peace Theory: A Review and Evaluation. CEMPROC
Working Paper Series. Cumming: Center for Mediation, Peace, and Resolution of
Conflict International, 2005, p. 12.
32
Lynn-Jones, Sean M. - "Preface". In Debating the Democratic
Peace. Cambridge: The MIT Press, 1996, p. xviii.
33
Spiro, David E. - "The insignificance of liberal peace". In
Debating the Democratic Peace, 1996, 202-238, p. 203.
34
Layne, Christopher - "Kant or cant: the myth of democratic
peace". In Debating the Democratic Peace, pp. 157-201, p. 159.
35
Scheweller, Randall - "Democracy promotion: realist
reflections". In American Democracy Promotion: Impulses, Strategies , and
Impact s. Oxford: Oxford University Press, 2000, pp. 41-61, p. 53.
36
Cohen, Raymond - "Pacific unions: a reappraisal of the theory that
"Democracies do not go to war with each other"". In Review of
International Studies. Vol. 20, N.º 3. 1994, p. 208.
37
Oren, Ido - "The subjectivity of democratic peace: changing u.s.
perceptions of imperial Germany". In Debating the Democratic Peace, pp.
263-300, p. 267.
38
Owen, John M. - Liberal Peace, Liberal War: American Politics and
International Society, p. 6.
39
Oren, Ido - "The subjectivity of democratic peace: changing u.s.
perceptions of imperial Germany", p. 267.
40
Kissinger, Henry - World Order. Nova York: Penguin Press, 2014, pp. 32-
33.
41
Cooper, Robert - The Breaking of Nations: Order and Chaos on the Twenty
First Centur y. Nova York: Atlantic Monthly Press, 2003, p. 45.
42
Krasner, Stephan - Sovereignty: Organized Hypocrisy. Princeton:
Princeton University Press, 1999, p. 14.
43
Ikenberry, G. John - "Introduction: Woodrow Wilson, the Bush
Administration and the future of liberalism". In The Crisis of American
Foreign Policy: Wilsonianism in the Twenty First Century. Princeton: Princeton
University Press, 2008, pp. 1-24, p. 10.
44
Mandlebaum, Michael - The Ideas that Conquered the World: Peace
Democracy, and Free Markets in the Twenty-First Century. Nova York: Public
Affairs, 2002, p. 11.
45
Kupchan, Charles - No One's World: The West, the Rising Rest and
the Coming Global Turn. Oxford: Oxford University Press, 2012, p. 5.
46
Huntington, Samuel P. - Political Order in Changing Societies. New
Haven: Yale University Press, 1968, p. 5.
47
Manela, Erez - The Wilsonian Moment: Self-Determination and the
International Origins of Anticolonial Nationalism. Oxford: Oxford University
Press, 2007, p. 24.
48
Paris, Roland - At War's End: Building Peace after Civil Conflict.
Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 8.
49
Ver Stuenkel, Oliver - "Rising powers and the future of democracy
promotion: the case of Brazil and India". In Third World Quarterly. Vol.
34, N.º 2. 2013, pp. 339-355.
50
Ikenberry, G. John - Liberal Leviathan: The Origins, Crisis and
Transformation of the American World Order, p. 20.
51
Kohli, Atul - Poverty Amid Plenty in the New India. Cambridge: Cambridge
University Press, 2012, p. 65.
52
Kliman, Daniel M., e Fontaine, Richard - Global Swing State: Brazil,
India, Indonesia, Turkey and the Future of International Order. Washington DC:
The German Marshall Fund of the United States, 2012.
53
Ver, por exemplo, Ba jpai, Kanti - "Indian conceptions of order
and justice: Nehruvian, Gandhian, Hindutva, and Neo-Liberal". In Order
and Justice in International Relations. Oxford: Oxford University Press, 2003,
pp. 237-262; e Ollapally, Deepa M., e Rajagopalan, Rajesh - "India:
foreign policy perspetives of an ambiguous power". In Worldviews of
Aspitin g Po wer s: Do m es tic For eig n Po lic y Debates in China, India,
Iran, Japan and Russia. Oxford: Oxford University Press, 2012.
54
Khilnani, Sunil et al. - Nonalignment 2.0: A Foreign & Strategic
Policy for India in the 21st Century. Gurgaon: Penguin Books, 2014, pp. xxix,
3.
55
Pardesi, Manjeet S. - "Understanding the rise of India: review
essay". In India Review. Vol. 6, N.º 3. 2007, p. 210.
56
Tharoor, Shashi - Pax Indica: India and the World in the 21st
Century.Nova Deli: Alan Lane, 2012, p. 9.
57
Hurrell, Andrew - "Order an justice at international relations:
what's at stake?". In Order and Justice in International Relations.
Oxford: Oxford University Press, 2003, pp. 24-49, p. 29.
58
Krasner, Stephan - Sovereignty: Organized Hypocrisy, p. 14.
59
Khilnani, Sunil et al. - Nonalignment 2.0: A Foreign & Strategic
Policy for India in the 21st Century, p. 78.
60
Pardesi, Manjeet S. - "Understanding the rise of India: review
essay", p. 226.
61
Ganguly, Sumit - "India in the Liberal order". Transatlantic
academy analysis, German Marshall Fund of the United States, novembro de 2013.
Disponível em http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/
publications/Ganguly_IndiaLiberalOrder_Nov13_0.pdf
62
Pardesi, Manjeet S. - "Understanding the rise of India: review
essay", p. 211.
63
Kissinger, Henry - World Order, p. 3.
64
Kapur, S. Paul - "India and the United States from World War II to
the present: a relationship transformed". In India's Foreign
Policy: Retrospect and Prospect. Nova Deli: Oxford University Press, 2010, pp.
258-259.
65
Cohen, Stephen P. - India: Emerging Power, p. 42. Ver também Khilnani,
Sumil - The Idea of India. Nova York: Farrar, Straus, Giroux, 1998, p.
xiv.
66
A questão da reciprocidade muito raramente é analisada do ponto de vista
conceptual. No entanto, há vários exemplos históricos em que se verifica este
sentimento. Ver, por exemplo, Khilnani - The Idea of India, p. xii, e
Chaudhuri, Rudra - Forged in Crisis: India and the United States since
1947.Noida: HarperCollins Publishers India, 2014, p. 128.
67
Mohan, Raja - Crossing the Rubicon: The Shaping of India's New
Foreign Policy. Nova York: Palgrave MacMillan 2004, p. xxii.
68
Baru, Sanjaia - The Accidental Prime Minister: The Making and Unmaking
of Manmohan Singh. Nova Deli: Penguin, 2014.
69
Ollapally, Deepa M., e Rajagopalan, Rajesh - "India: foreign
policy perspetives of an ambiguous power", p. 101; Cohen, Stephen P.
- India: Emerging Power, p. 49.
70
Tharoor, Shashi - Nehru: The Invention of India. Nova Deli: Penguin
Books, 2003.
71
Raghavan, Srinath - "Indira Gandhi: India and the world in
transition". In Makers of Modern Asia. Boston: Harvard University Press,
2014, pp. 215-242, p. 240.
72
Ver, por exemplo, Raghavan, Srinath - War and Peace in Modern India: A
Strategic History of the Nehru Years. Ranikhet: Permanent Black, 2012. Este
também é o argumento subjacente ao supracitado Chaudhuri, Rudra - Forged
in Crisis: India and the United States since 1947.
73
Ganguly, Sumit - "The genesis of Non-Alignment". In
India's Foreign Policy: Retrospect and Prospect. Nova Deli: Oxford
University Press, 2010, p. 110, p. 4.
74
Tharoor, Shashi - Pax Indica: India and the World in the 21st Century,p.
15.
75
Ganguli, Sumit, e Mukherji, Rahul - India since 1980. Nova York:
Cambridge University Press, 2011, p. 19.
76
Tharoor, Shashi - Pax Indica: India and the World in the 21st Century,p.
19.
77
Panch Sheel é o nome indiano para os cinco princípios da coexistência pacífica
enunciado na Conferência de Bandung em 1955: o respeito pela soberania, a não-
agressão, a não-interferência nos assuntos internos dos estados, a igualdade e
coexistência pacífica. Ver Tharoor, Shashi - Nehru: The Invention of
India. Nova Deli: Penguin Books, 2003, p. 158
78
Kalyanaraman, S. - "Nehru's advocacy of internationalism and
Indian foreign policy". In India's Grand Strategy: History, Theory,
Cases. Nova Deli: Routledge, 2014, pp. 151-175, p. 159.
79
Ollapally, Deepa M., e Rajagopalan, Rajesh - "India: foreign
policy perspetives of an ambiguous power", p. 79.
80
Pu, Xiaoyu - "Socialisation as a two-way process: emerging powers
and the difusion of international norms", p. 3.
81
Khilnani, Sunil et al. - Nonalignment 2.0: A Foreign & Strategic
Policy for India in the 21st Century, p. 77.
82
Mohan et al. - Rebalance and Reform: An Agenda for the New
Government.Nova Deli: Observer Research Foundation, 2014, p. 44.
83
Ibidem, p. 46.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt