A reaproximação política entre a Turquia e a Arménia segundo o pensamento de
Hannah Arendt
Introdução
A relação política entre a Turquia e a Arménia tem sido, desde a fundação da
República da Arménia no início dos anos 1990, reconhecidamente conflituosa.
Esta tensão é sobretudo visível no que respeita ao não reconhecimento por parte
da Turquia de que os eventos ocorridos em 1915, durante os quais um vasto
número de arménios foi massacrado pelas autoridades turcas, naquela época,
ainda sob o Império Otomano, constituíram de facto um genocídio. Na verdade, a
República da Arménia persiste no reconhecimento do genocídio, enquanto Ancara
recusa esta designação, apenas reconhecendo estes acontecimentos como uma
deslocação forçada que resultou num massacre1.
De facto, esta questão continua a provocar pontualmente conflitos políticos.
Recentemente, a aprovação de uma lei que determinava a penalização do não
reconhecimento do genocídio arménio pela Assembleia Nacional francesa, deu
origem a uma reação hostil por parte do Governo turco, levando mesmo à
imposição de sanções militares e políticas impostas à República Francesa por
Ancara2. Não obstante, em meados da década de 2000, surgiram alguns movimentos
políticos que fizeram despertar a esperança de que as relações políticas entre
a Turquia e a Arménia iriam finalmente normalizar-se. No culminar desta
reaproximação encontra-se a assinatura por ambas as partes dos protocolos de
Zurique. Estes documentos foram considerados como um passo histórico para a
resolução desta questão3 pois determinavam os passos para conseguir o
estabelecimento de uma relação diplomática entre a Turquia e a Arménia.
Com base no pensamento de Hannah Arendt sobre o perdão e a política,
pretendemos avaliar quais os aspetospositivos e negativos destes protocolos
para uma eventual reconciliação política entre os dois países. Argumentamos que
apesar de algumas contribuições positivas, o compromisso em instaurar uma
subcomissão para avaliar a dimensão histórica entre os dois países, que
seguramente estaria destinada a avaliar os acontecimentos de 1915, condena os
protocolos de Zurique ao fracasso. De facto, segundo o pensamento de Hannah
Arendt, qualquer resultado determinado pela averiguação dos factos pode
dificultar a superação desta questão. Isto é, a constituição desta subcomissão
para a averiguação dos acontecimentos de 1915 poderá prejudicar o
estabelecimento de uma relação diplomática entre os dois países, uma vez que,
por um lado, segundo o pensamento de Arendt4 sobre o perdão e a política, caso
os acontecimentos de 1915 sejam reconhecidos como genocídio, este fator
dificultará ainda mais o estabelecimento da relação diplomática, pois o perdão
está consagrado aos atos cometidos sem intenção. Por outro lado, caso os
acontecimentos de 1915 não sejam considerados como genocídio, existe o risco de
a comunidade arménia optar pelo castigo à comunidade turca, mesmo sendo, neste
caso, o perdão possível e preferível.
Sendo assim, iniciamos a nossa exposição com uma descrição mais alargada sobre
as problemáticas que caracterizam a relação política entre a Turquia e a
Arménia. Em seguida, explicitaremos os conceitos patentes no trabalho de Hannah
Arendt, sobretudo sobre a reconciliação, o perdão, o castigo, a vingança e o
mal. Tendo isto em conta, seguimos com a análise dos protocolos de Zurique na
tentativa de demonstrar quais, segundo Arendt, os aspetos permissivos e
restritivos destes acordos no que respeita à sua contribuição para a
reconciliação política entre as duas partes. Concluímos com a explicação do
nosso argumento e de como, na verdade, a avaliação histórica dos acontecimentos
de 1915 proposta pelos protocolos tem de facto constituído, até hoje, um
elemento impeditivo na concretização destes acordos.
A relação política entre a Turquia e a Arménia
A República da Turquia e a República da Arménia não conseguiram ainda, desde
que a Arménia se constituiu como um país independente da União Soviética, em
1991, estabelecer laços diplomáticos estáveis. Esta relação encontra-se
bloqueada por duas razões.
Para alguns autores, como Aybars Görgülü, a disputa entre a Turquia e a Arménia
está sobretudo relacionada com a questão de Nagorno-Karabakh5. O conflito em
Nagorno-Karabakh, região que oficialmente faz parte da República do Azerbaijão,
começou em 1988 com manifestações a favor da unificação deste território com a
Arménia. Estes confrontos escalaram para um conflito armado e, em 1992,
Nagorno-Karabakh declarou-se como uma república independente. Os confrontos
continuaram até 1994 quando as partes envolvidas, Arménia, Azerbaijão e
Nagorno-Karabakh, assinaram um acordo de paz6. Esta questão não está ainda
resolvida, mas as Nações Unidas consideram Nagorno-Karabakh como território
azerbaijanês7. Nesta disputa, a Turquia, como aliada do Azerbaijão, apoiou este
país e encerrou a sua fronteira com a Arménia8.
A outra razão que dificulta a relação entre os dois países remete para um
passado comum entre a Turquia e a Arménia, nomeadamente, os eventos ocorridos
em 1915, antes da extinção do Império Otomano e da implantação da República da
Turquia. De acordo com a posição turca, estes eventos constituíram uma
deslocação forçada da população arménia que resultou numa luta entre as
comunidades e, consequentemente, num massacre. Para os arménios, estes eventos
constituem um genocídio planeado9. Apesar das duas questões conflituosas aqui
apresentadas, e resultado do início de contactos diplomáticos em 2008, foram
estabelecidos entre os dois países, a 10 de outubro de 2009 em Zurique,
protocolos que delinearam o estabelecimento das relações diplomáticas entre
ambas as partes, a abertura da fronteira comum e, entre outros, a criação de
uma comissão de especialistas para analisar a dimensão histórica das relações
entre a Turquia e a Arménia10. São estes protocolos que nos servem de exemplo
na aplicação do pensamento arendtiano à questão da reconciliação entre a
Arménia e a Turquia, uma vez que foram considerados um passo histórico no
processo de reconciliação entre a Turquia e a Arménia11. No entanto, antes de
prosseguirmos com a análise dos protocolos, serve uma apresentação mais
detalhada do pensamento de Arendt sobre o perdão e a política.
Arendt e o perdão como condição da ação política
Hannah Arendt desenvolveu o seu pensamento sobre a reconciliação e a vingança
após a II Guerra Mundial12. Shai Lavi argumenta que podemos identificar três
fases do pensamento arendtiano sobre a reação às falhas do comportamento
humano.
Numa primeira fase, Arendt nega que a vingança e o perdão possam ser respostas
adequadas ao crime, pois a comunidade política apenas pode existir entre
iguais. O perdão daria início a uma nova relação fundada numa «solidariedade
negativa» que destrói a possibilidade de existir igualdade política13. Nesta
perspetiva, a reconciliação, como reconhecimento mútuo do ato cometido mas
admitindo que perpetrador e vítima continuam a «caminhar juntos»14 é, para
Arendt, a melhor forma de ultrapassar as consequências do ato errado. Esta
reconciliação representa a vontade de o perpetrador em partilhar as
consequências do seu ato em conjunto com a vítima15.
Mais tarde, em A Condição Humana, Hannah Arendt aprofunda o seu conceito de
perdão e o seu contributo para a política. Nesta obra, Arendt faz uma análise
da sociedade humana e categoriza as atividades humanas como labor, trabalho e
ação, sendo através da ação que a vida humana se liberta da insignificância do
mundo material do trabalho16. A ação é «a única atividade que se exerce
diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria,
corresponde à condição humana da pluralidade, ao facto de que os homens, e não
o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo»17. Esta pluralidade explica-se pelo
facto de que cada ser humano é único, o que enforma a ação humana, tornando-
a imprevisível e de consequências infinitas18. É também por isso que a política
pode desencadear processos inesperados, sendo que, de acordo com Arendt, a
única possibilidade que o agente tem de se redimir da consequência dos atos que
não previu é a capacidade humana de perdoar19. Nas palavras de Arendt: «Se não
fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa
capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único ato do qual
jamais nos recuperaríamos, seríamos para sempre vítimas das suas
consequências.»20 Deste modo, a capacidade de perdoar é imprescindível para que
a política possa existir. O perdão torna-se assim uma resposta adequada à falha
humana. Sem o perdão, a política permaneceria bloqueada pelas ações
imprevisíveis inerentes à ação, tornando impossível a sustentação da esfera
pública por indivíduos que gozam da liberdade sem soberano que caracteriza a
experiência humana21.
Schaap, na sua análise do pensamento de Hannah Arendt, defende ainda que a
vontade de perdoar é um importante elemento da reconciliação política pois,
seguindo as ideias de Arendt, as bases para o perdão político não devem ser nem
a necessidade nem a razão, mas a natalidade e a fragilidade do mundo22. A
vontade de perdoar «torna possível uma política na qual os membros de dois
regimes políticos contestam as suas perspetivas da violência do passado e a sua
importância para a associação política»23.
Por outro lado, Hannah Arendt afirma que a alternativa do ato de perdoar é o
castigo, sendo que ambos nascem da tentativa de pôr fim a algo que de outra
forma permaneceria indefinidamente24. No entanto, o perdão não é apenas uma
forma de reiniciar a ação e a política, é mais que isso, pois liberta o
perpetrador e a vítima das consequências do ato cometido. O perdão «é a única
reação que não reage apenas, mas age de novo e inesperadamente»25. De acordo
com Arendt, o perdão é necessário para impedir que o rancor, a vingança e o
ódio destruam o espaço político26.
Hannah Arendt contrapõe ainda o conceito de perdão àquele de vingança, que
enclausura a ação a um determinado processo, sendo que, «longe de pôr fim às
consequências da primeira transgressão, os seus participantes permanecem
enredados no processo, permitindo que a reação em cadeia contida em cada ação
prossiga livremente»27.
É por isso então que o pensamento de Arendt tem sido utilizado no contexto de
políticas de reconciliação, apoiando uma justiça restaurativa e não
retributiva28.
No entanto, nem todos os crimes são passíveis de ser perdoados, nomeadamente
aqueles que são feitos com intenção29. Arendt parte da definição de Kant de
«mal radical»30, referente ao facto de o ser humano ter «uma orientação moral
corrompida ou, o equivalente, uma predisposição para a maldade»31, para
defender que tais atos não podem ser perdoados: «Tudo o que sabemos é que nós
não podemos perdoar tais ofensas e que estas transcendem o espaço das relações
humanas e as potencialidades do poder humano, destruindo radicalmente ambos
sempre que surgem.»32
Também em As Origens do Totalitarismo, Arendt33 argumenta que os regimes
totalitaristas demonstraram que existe um mal que não pode ser explicado, e
portanto não poderá ser também punido ou perdoado. Por fim, Lavi defende que,
num terceiro momento referente ao pensamento sobre o perdão e a reconciliação,
Arendt transpõe o conceito de «mal radical» para aquele de banalidade do mal,
presente na obra Eichmann em Jerusalém. Aqui, Arendt associa a banalidade do
mal à incapacidade para pensar, decorrente da conformidade com a lógica
burocrática34. Lavi argumenta que Arendt defendeu, nesta fase, a violência e a
raiva, e por isso, a vingança como única resposta apropriada para a
injustiça35.
Antes de iniciarmos a nossa análise da aplicação do pensamento arendtiano aos
protocolos assinados entre a Turquia e a Arménia em outubro de 2009, é
necessário ter em conta que Hannah Arendt se referia sobretudo ao perdão entre
indivíduos36. Apesar disso, no presente trabalho, assumimos a transposição
deste conceito para o coletivo, pois, de acordo com Pettigrove, o perdão
comporta a emoção e «faz sentido falar de uma emoção coletiva se há
características estruturais do coletivo que reforçam a experiência desta emoção
em particular entre os seus membros»37. Neste caso, o Estado arménio assumiu
este papel. Na verdade, como vimos, os governos de ambos os lados assumem esta
questão como central na arena política. Mais, no caso da Arménia não foi
somente o Governo que continuou a assumir esta questão como central, mas as
atividades desenvolvidas pela diáspora arménia exacerbaram esta disputa, indo
até mais longe que o próprio Governo arménio38.
Importa de facto sublinhar que a questão do genocídio é central na construção
da identidade arménia, tanto no caso das comunidades da diáspora que, apesar
das diferenças que foram acumulando entre si, sempre tiveram como elemento
unificador a questão do genocídio39, como no que respeita ao Estado arménio,
que coloca como uma das questões principais da sua política externa o
reconhecimento do genocídio40. Posto isto, prosseguiremos com a análise dos
protocolos de Zurique segundo o pensamento de Hannah Arendt.
Os Protocolos de Zurique à luz do pensamento Arendtiano
Optámos neste trabalho por nos cingir aos items que constam nos protocolos que
poderão ser relevantes na aplicação das ideias expressas por Hannah Arendt. O
primeiro ponto a salientar é a vontade de ambas as partes em iniciar um novo
relacionamento político. De facto, o protocolo estabelece que ambas as partes
desejam estabelecer boas relações e reiteram «a sua vontade em estabelecer um
novo padrão e percurso para as suas relações na base de interesses comuns, boa
vontade e na procura de paz, compreensão mútua e harmonia»41.
Como vimos anteriormente, na leitura que faz do pensamento arendtiano, Schaap42
constata que a vontade de perdoar é essencial para a reconciliação política.
Também Glen Pettigrove assume que a capacidade para começar algo de novo está
dependente da vontade e prontidão daqueles envolvidos43.
Os protocolos assinados contêm ainda outro elemento fulcral, na perspetiva de
Arendt, para o retorno da ação política entre dois agentes ' a promessa. Para
Hannah Arendt, a promessa é imprescindível para que o próprio indivíduo possa
conhecer o seu rumo, constituindo um instrumento contra a imprevisibilidade da
vida humana44. Segundo Pettigrove, as ações de perdoar e prometer têm algo em
comum ' «ambas tornam possível um futuro partilhado, reduzindo as incertezas do
futuro dando a conhecer aos outros o que podem esperar de nós»45. Sendo assim,
a promessa é um claro constituinte dos protocolos de Zurique, pois estes
mencionam, por exemplo, que ambas as partes reiteram «o seu empenho em abster-
se de adotar alguma política incompatível com o espírito de boas relações entre
as nações vizinhas»46, 47.
O segundo protocolo determina em primeiro lugar a abertura da fronteira entre
os dois países, sendo que as duas partes «concordam em abrir a fronteira comum
no espaço de dois meses após a entrada em vigor deste protocolo»48.
Numa perspetiva arendtiana, este dado poderá ser importante uma vez que
simboliza a abertura do espaço público entre as duas comunidades onde a
política poderá ter lugar. Segundo a explicação de Patricia Owens, para Arendt,
«o significado político pode apenas surgir através da interação humana ' a
promessa da política é que os humanos formam um mundo entre eles»49. A
interação humana e a ação política têm lugar no espaço público50 e, portanto,
as duas comunidades necessitam de uma arena comum para interagir.
Por fim, seguiremos com a leitura de um dos pontos mais conhecidos e discutidos
dos protocolos de Zurique ' a promessa em constituir uma subcomissão que deverá
analisar os factos históricos que fraturam a relação entre estes dois países.
De facto, o protocolo estabelece a criação de uma subcomissão:
«centrada na dimensão histórica para implementar o diálogo entre as
duas partes com o objetivo de restaurar a confiança mútua entre as
duas nações, incluindo uma análise científica e imparcial dos
registos e arquivos históricos para definir problemas existentes e
formular recomendações, da qual especialistas turcos, arménios, assim
como suíços e outros peritos internacionais farão parte»51.
Partindo do princípio que esta subcomissão será criada e, embora não esteja
explícito no texto, terá de necessariamente abordar a questão do reconhecimento
dos acontecimentos de 1915 como genocídio, pois esta faz parte do passado
histórico comum entre as duas comunidades, avaliaremos os dois resultados
possíveis e quais as suas implicações para a relação entre a Arménia e a
Turquia. Se, eventualmente, a posição turca for considerada a mais correta pela
Comissão e os eventos de 1915 considerados uma deslocação forçada da população
arménia que terminou com uma luta entre as comunidades e um massacre, então
estes atos poderão ser caracterizados como transgressões no pensamento
arendtiano, um ato errado cometido sem intenção. Este elemento deixa em aberto
a possibilidade de o povo turco ser perdoado pela comunidade arménia. Para
Arendt:
«O pecado, pelo contrário, é um evento quotidiano, decorrência
natural do facto de que a ação estabelece constantemente novas
relações numa teia de relações, e precisa do perdão, da libertação,
para que a vida possa continuar, desobrigando constantemente os
homens daquilo que fizeram sem o saber.»52
Na verdade, no caso dos atos cometidos serem considerados transgressões, Arendt
dá-nos duas opções ' o perdão ou, como referimos anteriormente, a sua
alternativa, o castigo, pois «o Homem não consegue perdoar aquilo que não pode
punir e é incapaz de punir aquilo que se tornou imperdoável»53. No entanto, o
perdão é algo mais que o castigo. De acordo com a leitura de Arendt por
Pettigrove, o perdão faz com que a transgressão faça parte do passado,
considera o transgressor como algo mais do que simplesmente o perpetrador e
cria a possibilidade de novas relações não exclusivamente relacionadas com as
ações passadas54.
Tendo em conta esta perspetiva, esta seria uma forma de conseguir a
reconciliação entre as duas comunidades, pois os eventos de 1915 seriam vistos
como uma transgressão que poderia ser, preferencialmente, perdoada. Neste
sentido, é importante salientar uma nova tendência na sociedade turca no que
respeita aos eventos de 1915, sendo notória a campanha liderada por
intelectuais turcos para pedir desculpa aos arménios pelo acontecimento que
apelidaram de «Grande Catástrofe»55, 56. Apesar disso, esta transgressão poderá
ser, como vimos, passível de ser castigada. Na verdade, este é um dos entraves
à vontade da República da Turquia em iniciar relações diplomáticas com a
Arménia. A Turquia receia que a Arménia reivindique a posse de territórios à
República da Turquia, sendo que uma das condições já expressas pela posição
turca no que respeita ao início de uma relação diplomática com a Arménia é que
este país desista de adquirir território turco e que reconheça o Tratado de
Moscovo, que define as atuais fronteiras entre os dois países57. Sendo assim, o
perdão, tal como Arendt prevê, seria a melhor opção.
Todavia, esta ação poderá não ser considerada como uma transgressão. Se
tivermos em conta o fator de consciência do ato pelo perpetrador, os eventos de
1915 poderão ser considerados, à luz do pensamento arendtiano, um ato de
maldade intencional58. De notar que, de acordo com o relatório do Centro
Internacional de Justiça Transitória sobre os eventos de 1915, alguns dos
perpetradores destes acontecimentos tinham consciência de que o resultado dos
mesmos seria a destruição dos arménios na parte leste da Anatólia59. Sendo
assim, esta ação não é passível de ser perdoada.
De acordo com a leitura de Arendt por Pettigrove, o perdão serve para criar
algo de novo, um novo futuro que não é determinado pelo ato cometido, mas isso
não é possível pois estes indivíduos que agem com maldade e intencionalmente
não podem agir de outra forma60. Sendo assim, o genocídio é também, segundo
Arendt, um ato que não pode ser perdoado, para além de qualquer outro crime ou
castigo61.
Conclui-se portanto que, caso os acontecimentos de 1915 sejam considerados como
um ato de genocídio, um ato intencional que pretendia aniquilar a comunidade
arménia na parte leste da Anatólia, este crime não poderá ser perdoado e
portanto dificultará o processo de reconciliação entre a República da Turquia e
a República da Arménia. Na verdade, muitos arménios olham para as intenções da
Turquia com desconfiança62, o que poderá ser um indício de como a vítima olha
para o perpetrador, que cometeu o ato com intenção, como alguém que não pode
mudar a sua natureza. Mais, os protocolos de Zurique referem claramente a
confiança como um fator importante no estabelecimento de uma cooperação entre
os dois países: «Tendo em conta que a importância do estabelecimento e a
manutenção de uma atmosfera de confiança e segurança entre os dois países irá
contribuir para a promoção da paz, segurança e estabilidade em toda a
região.»63,64.
A única opção seria uma reconciliação, tal como Arendt a conceptualizou num
primeiro momento em que pensou na resposta adequada para a falha humana, como
um ato de aceitar o passado mas continuando a relação entre perpetrador e
vítima, sendo que ambos carregam o peso do crime cometido65. Portanto, esta
reconciliação não libertaria o perpetrador e a vítima das consequências do ato.
Conclusão
Embora os protocolos tenham sido considerados um passo histórico na
normalização das relações entre a Turquia e a Arménia66, estes contêm elementos
que, segundo o pensamento arendtiano, poderão ser benéficos mas também
prejudiciais para o início de uma nova relação política entre a Arménia e a
Turquia. Entre os elementos positivos, soma-se: a expressão da vontade de ambas
as partes em respeitar uma nova relação diplomática, um elemento essencial
segundo Schaap67; a abertura da fronteira entre os dois países, que no
pensamento arendtiano está ligada à abertura do espaço para a política e a
promessa como um instrumento contra a imprevisibilidade da política. No
entanto, acreditamos que a constituição de uma subcomissão para avaliar os
factos ocorridos em 1915 é problemática. Se a subcomissão considerar que não
houve intenção de genocídio por parte das autoridades turcas, este elemento é
considerado uma transgressão e portanto passível de ser perdoada segundo
Arendt68. No entanto, mesmo neste caso, o perdão poderá ser remetido para
segundo plano, e o castigo imposto (eventualmente a cedência de territórios
turcos à Arménia) poderá não ser aceite pela Turquia que, consequentemente,
bloqueará o processo.
Caso os acontecimentos sejam considerados como um genocídio, o perdão não é
possível, segundo o pensamento arendtiano, mas apenas uma reconciliação que não
pressupõe a libertação do fardo da consequência, conceito considerado por
Arendt numa fase inicial69. Essa reconciliação e a não expiação do ato fariam
com que o perpetrador ficasse para sempre limitado a um único ato, segundo o
pensamento arendtiano em A Condição Humana. Concluímos, portanto, que os
protocolos de Zurique não deveriam abordar a questão histórica entre a Turquia
e a Arménia. Mais, argumentamos que qualquer tentativa de aproximação política
entre os dois países não deverá incidir sobre esta questão. Até porque, em
termos práticos, será difícil avaliar hoje estes acontecimentos70.
Na realidade, os protocolos de Zurique já deram provas da sua falha. A
aplicação destes documentos encontra-se até hoje congelada precisamente por
causa da averiguação histórica neles prevista. Pouco depois da assinatura dos
documentos, a questão da criação de uma subcomissão para avaliar o passado
histórico entre as duas partes originou o desentendimento que levou ao
congelamento do processo. De facto, desde o início da abertura política para a
reconciliação entre os dois países que a posição turca era de apoio à
constituição de um comité para avaliar a questão histórica, enquanto que Erevã
preferia que a prioridade fosse prestada ao estabelecimento da relação
diplomática, antes da avaliação histórica. Na Arménia, surgiram críticas à
aceitação desta comissão histórica baseadas no argumento de que, uma vez aceite
este grupo de trabalho, se punha em causa a realidade histórica do genocídio71.
Mais tarde, logo após a assinatura dos protocolos, o Tribunal Constitucional
arménio decidiu avaliar a legitimidade dos protocolos face à Constituição
arménia e, apesar de ter declarado a compatibilidade dos protocolos com a
Constituição, afirmou também que os documentos não poderiam ser interpretados
de forma a pôr em causa a cláusula da Constituição que prevê o compromisso da
República da Arménia em perseguir o reconhecimento internacional do genocídio.
Por sua vez, a reação turca foi de que esta atitude por parte de Erevã impunha
pré-condições aos protocolos e que portanto destruía na verdade o objetivo
destes mesmos documentos.
Concluímos então que neste processo de aproximação política o enfoque poderá
estar na possibilidade de construção de uma nova relação política entre os dois
países sem avaliar o passado. De facto, não obstante a hostilidade entre as
duas comunidades, não devemos esquecer a possibilidade do renascimento
geracional trazer consigo novas oportunidades. Aliás, é a própria Hannah Arendt
que relembra, com o seu conceito de pluralidade humana, que cada nascimento é
um novo começo.
Data de receção: 23 de janeiro de 2012 | Data de aprovação: 11 de outubro de
2013
Notas
1
«Turkey and Armenia: Opening Minds, Opening Borders». Europe Report n.º 199,
International Crisis Group. 2009.
2
«French assembly approves controversial genocide denial bill». In Today's
Zaman, 2011.
3
IDIZ, Semih ' «The Turkish-Armenian debacle». In Insight Turkey. Vol. 12, N.º
2, 2010, pp. 11-19.
4
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana. Lisboa: Relógio d'Água Editores, 1958.
5
GÖRGÜLÜ, Aybars ' «Towards a Turkish--Armenian rapprochement?». In Insight
Turkey. Vol. 11, N.º 2, 2009, pp. 19-29.
6
GOSHGARIAN, Rachel ' «Breaking the stalemate: Turkish-Armenian relations in the
21st century». In Turkish Policy Quaterly. Vol. 4, N.º 4, 2005, pp. 4-5.
7
«The situation in the occupied territories of Azerbaijan», Resolução 62/243,
Organização das Nações Unidas. 2008,
8
GÖRGÜLÜ, Aybars, ISKANDARYAN, Alexander, MINASYAN, Sergey ' «Turkey-Armenia
dialogue series: assessing the rapprochement process». Caucasus Institute,
Istambul: TESEV Publications, maio de 2010. Disponível em: http://
www.tesev.org.tr/Upload/Publication/d0fd468b-c642-444b-9d90-4662e2edef1e/
Assessing%20the%20Raprochment%20Process_05.2010.pdf
9
«Turkey and Armenia: opening minds, opening borders». International Crisis
Group.
10
República da Arménia e República da Turquia ' Protocol on the Establishment of
Diplomatic Relations between the Republic of Turkey and the Republic of
Armenia. Zurique, 2009.
11
IDIZ, Semih ' «The Turkish-Armenian debacle».
12
LAVI, Shai ' «Crimes of action, crimes of thought: Arendt on reconciliation,
forgiveness, and judgment». In BERKOWITZ, Roger, KATZ, Jeffrey, e KEENAN,
Thomas ' Thinking in Dark Times ' Hannah Arendt on Ethics and Politics. Nova
York: Fordham University Press, 2010, pp. 229-234.
13
LAVI, Shai ' «Crimes of action, crimes of thought: Arendt on reconciliation,
forgiveness, and judgment», p. 230.
14
Ibidem, p. 231.
15
Ibidem.
16
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana.
17
Ibidem, p. 20.
18
Ibidem.
19
Ibidem.
20
Ibidem, p. 289.
21
URE, Michael ' «The politics of mercy, forgiveness and love: a nietzschean
appraisal». In S. Afr. J. Philos. Vol. 26, N.º 1, 2007, pp. 56-69.
22
SCHAAP, Andrew ' «Forgiveness, reconciliation and transitional justice».
InLANG, Anthony, F.; e WILLIAMS, John ' Hannah Arendt and International
Relations. Nova York: Palgrave Macmillan, 2005, pp. 67-93.
23
SCHAAP, Andrew ' «Forgiveness, reconciliation and transitional justice», p. 69.
Tradução livre da autora.
24
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana.
25
Ibidem, p. 293.
26
Cf. JACOBITTI, Suzanne Duvall ' «The public, the private, the moral: Hannah
Arendt and the political morality». In International Political Science Review.
Vol. 12, N.º 4, 1991, pp. 281-293; Ure, Michael ' «The
politics of mercy, forgiveness and love: a nietzschean appraisal».
27
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana, p. 293.
28
URE, Michael ' «The politics of mercy, forgiveness and love: a nietzschean
appraisal».
29
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana.
30
Cit. por ARENDT, Hannah ' A Condição Humana, p. 241. Tradução livre da autora.
No original: «radical evil» (Kant apudARENDT, Hannah ' A Condição Humana, p.
241).
31
FORMOSA, Paul ' «Kant on the radical evil of human nature». In The
Philosophical Forum. Vol. 38, N.º 3, 2007, p. 221. Tradução
livre da autora.
32
ARENDT, Hannah ' A Condição Humana, p. 241. Tradução livre da autora.
33
ARENDT, Hannah ' The Origins of Totalitarism. 3.ª edição. Orlando: Harcourt
Brace Jovanovich, 1951.
34
LAVI, Shai ' «Crimes of action, crimes of thought: Arendt on reconciliation,
forgiveness, and judgment». Herzog, Annabel ' «Repor ting and stor y telling:
Eichmann in Jerusalem». In Thesis Eleven. Vol. 69, 2002, pp. 83-98.
35
LAVI, Shai ' «Crimes of action, crimes of thought: Arendt on reconciliation,
forgiveness, and judgment».
36
PETTIGROVE, Glen ' «Hannah Arendt and the collective forgiving». In Journal of
Social Philosophy. Vol. 37, N.º 4, 2006, pp. 483-500; LERNER,
Rosemary R. P. ' «Between conflict and reconciliation: the hard truth». In
Human Studies. Vol. 30, 2007, pp. 115-130.
37
PETTIGROVE, Glen ' «Hannah Arendt and the collective forgiving», p. 491.
Tradução livre da autora.
38
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