Waltz e a unipolaridade americana
Kenneth Waltz sempre resistiu a descrever o mundo do pós-Guerra Fria como
unipolar. Em 1993, quatro anos após a União Soviética ter desistido da
competição geoestratégica com os Estados Unidos que definiu a Guerra Fria,
Waltz descrevia o mundo como estando num estado de «bipolaridade alterada»2. Em
2000, Waltz apontava para uma «multipolaridade emergente»3. Porquê esta
persistente omissão da unipolaridade na obra de Waltz?
A relutância de Waltz em falar da unipolaridade americana vem, é claro, da sua
visão teórica. Na sua obra magna Theory of International Politics, de 1979,
Waltz determinou que o número mínimo de grandes potências são duas, excluindo a
unipolaridade ' um mundo com apenas uma grande potência ' da sua análise do
funcionamento da política internacional4. Historicamente, existem três razões
para Waltz não ter incluído a unipolaridade no seu principal livro5. Primeiro,
escrevendo durante a Guerra Fria, Waltz estava convencido da estabilidade de um
mundo bipolar, não esperando a queda de uma das duas grandes potências então
existentes e não antevendo por isso a necessidade de analisar o funcionamento
de um mundo unipolar. Segundo, para Waltz, um mundo unipolar seria hierárquico
e não anárquico, contrariando a principal premissa do seu realismo
estruturalista ' e a base de toda a sua análise da política internacional ' o
princípio da anarquia internacional. Por fim, Waltz cria que os restantes
estados nunca permitiriam a criação de um sistema hierárquico dominado por uma
única grande potência. Uma análise da unipolaridade não passaria, por isso, de
um exercício meramente académico, do tipo que ele sempre desprezou.
Apesar de se poderem aplicar a um livro escrito em 1979, estes três motivos não
justificam, no entanto, o continuado silêncio de Waltz em relação à
unipolaridade depois da queda da União Soviética. A chave para compreender a
relutância dos neo-realistas estruturais em abraçar o conceito de unipolaridade
na descrição do mundo do pós-Guerra Fria está em dois outros motivos.
O primeiro pode ser encontrado na única menção do termo na obra publicada de
Waltz. Em 1997, ele escreveu que «à luz da teoria estrutural, a unipolaridade
aparece como a menos estável das configurações estruturais»6. Dado o papel
proeminente dos mecanismos da balança de poder no realismo estruturalista, a
unipolaridade aparece como uma anomalia que rapidamente seria ultrapassada.
Mais, um sistema unipolar duradouro colocaria em causa uma das mais básicas
previsões do realismo estruturalista. Como Randall Schweller escreveu dois anos
mais tarde, «a formação recorrente de equilíbrios de poder é crucial para a
teoria de Waltz... Se isto é colocado em questão, as previsões da teoria
errarão o alvo, e as suas prescrições poderão revelar-se desastrosas»7. Na
realidade, a teoria de Waltz prevê que os «estados secundários, quando têm
liberdade de escolher, optarão por aliar-se ao lado mais fraco; pois é o lado
mais forte que os ameaça»8. O resultado inevitável é o reaparecimento de um
equilíbrio sistémico de poder.
Isto explica como uma década após o fim da Guerra Fria Waltz continuava a
acreditar que o fim da momentânea preponderância de poder militar dos Estados
Unidos era inevitável. Em 2000, escreveu que «mesmo que um poder dominante se
comporte com moderação, contenção e tolerância, os estados mais fracos
preocupar-se-ão com o seu comportamento no futuro»9. Em suma, a presença
duradoura de uma única grande potência parece contrariar um preceito-chave do
realismo estruturalista: a previsão de que os estados tentarão, através da sua
militarização e da criação de alianças internacionais, contrariar concentrações
de poder, fazendo assim com que os equilíbrios de poder entre dois ou mais
blocos sejam recorrentes10.
A segunda razão por detrás do continuado silêncio de Waltz sobre a
unipolaridade decorre do enfoque nas grandes potências típico do realismo
estruturalista. A principal contribuição de Waltz para a nossa compreensão da
política internacional (para usar o termo que ele mesmo preferia em vez de
«relações internacionais») é a observação de que a estrutura do sistema
internacional condiciona as acções de cada Estado e os seus resultados. Nessa
estrutura, Waltz englobava o princípio organizativo do sistema (a anarquia), as
funções de cada Estado (com destaque para a salvaguarda da sua própria
sobrevivência) e a distribuição de poder entre os estados, dedicando particular
atenção ao número de grandes potências. Dada a centralidade do poder nas
preocupações realistas, não nos devemos surpreender que as análises estruturais
do sistema internacional se centrem nas interacções entre grandes potências11.
Como Waltz escreveu: «a teoria, como a história, da política internacional é
escrita em termos das grandes potências de uma era.»12
Ora, esta preocupação com as grandes potências torna-se em mais uma razão pela
qual Waltz não tem muito a dizer sobre a unipolaridade. Esta visão explica
porque os realistas despenderam tanto esforço averiguando os méritos relativos
de sistemas bipolares e multipolares, ao passo que os sistemas unipolares foram
em larga medida ignorados. Num sistema unipolar existe apenas uma grande
potência. Por definição, não existem relações entre grandes potências, pelo que
pode parecer numa primeira análise que o realismo estruturalista nada tem a
dizer sobre este mundo. Daí, pelo menos em parte, o silêncio de Waltz.
Em suma, para Waltz, como para a maioria dos seus seguidores na escola neo-
realista, o estado natural do sistema internacional é um equilíbrio de poder
entre duas ou mais potências ' e é sobre as relações entre estas que o esforço
analítico do neo-realismo se concentra. Assim sendo, Waltz pouco mais tinha a
dizer sobre a preponderância de poder militar exibida pelos Estados Unidos na
sequência do colapso da União Soviética para além da previsão de que ela
rapidamente terminaria.
Como veremos, nenhuma destas duas razões por detrás do silêncio de Waltz sobre
a unipolaridade é válida. Pelo contrário, a capacidade de o realismo
estruturalista contribuir para o entendimento do mundo do pós-Guerra Fria
depende em larga medida da disponibilidade de os seguidores de Waltz
questionarem estes dois motivos. Por um lado, é necessário que a concepção
naturalista, ou automatizada, dos mecanismos da balança de poder seja posta em
causa. Isto permitir-nos-á compreender melhor as condições que determinam a
durabilidade de um sistema unipolar. Por outro lado, é importante alargar o
âmbito da análise neo-realista às pequenas e médias potências. Isto
possibilitar-nos-á uma melhor compreensão das causas da guerra num sistema
unipolar.
Em resumo, o realismo estruturalista de Waltz necessita de ser revisto para
acomodar períodos duradouros de preponderância de poder por um só Estado. Não
sem ironia, as raízes das modificações necessárias para reconciliar a teoria de
Waltz com a era da unipolaridade americana encontram-se no seu próprio trabalho
sobre a revolução nuclear, designadamente no artigo que escreveu em 1981 para o
International Institute for Strategic Studies britânico, intitulado «The spread
of nuclear weapons: why more may be better»13. Apenas quando as ideias de Waltz
sobre as consequências da introdução de armas nucleares nas relações entre
estados são incorporadas no realismo estruturalista podemos maximizar o
contributo desta tradição teórica para a análise do período do pós-Guerra
Fria14.
Afortunadamente, este trabalho parece seguir no caminho que o próprio Waltz
começou a trilhar durante os anos mais recentes, em que reconheceu arrepender-
se do seu silêncio sobre a unipolaridade. Numa entrevista concedida em 2011
para a série Theory Talks, Waltz foi questionado sobre «se pudesse escrever o
livro [Teoria da Política Internacional] de novo, agora que a bipolaridade
terminou, que alterações faria?». Em resposta, disse: «Com certeza
acrescentaria algo sobre a unipolaridade [...] sobre como um mundo unipolar
poderia funcionar, e sobre quais as vantagens e desvantagens mais prováveis
desse mundo.»15
Waltz foi um grande defensor dos benefícios das armas nucleares para a paz e a
estabilidade internacional. De facto, o seu último artigo ' que mereceu honras
de capa na revista Foreign Affairs 'apresentava uma defesa do programa nuclear
iraniano, intitulando-se: «Why Iran should get the bomb»16. O optimismo nuclear
de Waltz baseava-se em dois argumentos muito simples. Primeiro, dada a
possibilidade de qualquer conflito entre dois estados possuidores de armas
nucleares poder escalar para um confronto nuclear, a presença destas armas leva
a relações pacíficas entre os estados que as possuem. Segundo, como o processo
de difusão das armas nucleares é relativamente lento, a instabilidade gerada
por este processo é limitada. Em resumo, na visão de Waltz, desde que o
processo de difusão da tecnologia nuclear seja suficientemente lento para
evitar alterações súbitas de poder relativo (que poderiam levar a ataques
preventivos), quanto mais estados tiverem armas nucleares, mais pacífico e
estável será o sistema internacional.
A introdução de armas nucleares no sistema internacional foi suficientemente
significativa para ser apelidada de uma «revolução nuclear»17. Ora, esta
revolução nuclear tem um impacto significativo na teoria realista da balança de
poder. Quando devidamente identificado, este impacto permite extrair da teoria
de Waltz previsões mais sofisticadas sobre a durabilidade de um sistema
unipolar e, portanto, da presente preponderância de poder militar dos Estados
Unidos. Para tal, temos de explorar o impacto da revolução nuclear na relação
entre, por um lado, as estratégias de balanceamento que os estados implementam
e, por outro, um equilíbrio sistémico de poder, que é, como veremos, apenas um
de vários resultados possíveis dessas estratégias. Mais especificamente, o
argumento que Waltz me inspira aqui é que na era nuclear é possível aos estados
atingir os objectivos das suas estratégias de balanço ' ou seja, garantir a sua
sobrevivência ' sem produzir um equilíbrio de poder a nível sistémico.
No trabalho de Waltz, a teoria da balança de poder é apresentada como tendo uma
qualidade natural. A necessidade que os estados têm de garantir a sua própria
sobrevivência num contexto de anarquia sistémica conduz inevitavelmente a um só
resultado: um equilíbrio de poder a nível sistémico18. Como é frequentemente o
caso com a «naturalização» de leis sociais, a contingência inerente à relação
entre, por um lado, as estratégias que os estados implementam para balancear
contra estados mais poderosos e, por outro, o equilíbrio de poder a nível
sistémico é obscurecido por esta compreensão naturalista do equilíbrio de poder
como sendo inevitável.
A lógica central da teoria de equilíbrio de poder de Waltz é relativamente
simples. Os estados preocupam-se em primeiro lugar com a sua própria
sobrevivência. Uma concentração única de poder num Estado ameaça a
sobrevivência dos outros. A fim de melhorar as suas chances de sobrevivência,
os outros estados irão, portanto, balancear contra essa concentração de poder.
Qualquer ameaça à sobrevivência do Estado só é minimizada quando este possui
(ou está aliado com estados que possuem) pelo menos tanto poder como qualquer
outro Estado (ou aliança de estados). Consequentemente, os esforços de
balanceamento de um Estado levarão inevitavelmente ao surgimento de um
equilíbrio sistémico de poder.
Ora, na era nuclear, estas observações não resultam necessariamente umas das
outras, porque agora uma concentração ímpar de poder (convencional) num Estado
não ameaça necessariamente a sobrevivência dos outros. Especificamente, a
preponderância de poderio convencional que os Estados Unidos possuem hoje não
ameaça a sobrevivência dos outros estados possuidores de armas nucleares.
Portanto, as tentativas que quaisquer outros estados façam para melhorar as
suas chances de sobrevivência em face da concentração de poder num só Estado
não os levará necessariamente a acumular tanto poder como esse Estado. Pelo
contrário, mal um Estado adquire armas nucleares a sua sobrevivência está
garantida mesmo que os Estados Unidos continuem a beneficiar de uma
preponderância de poder convencional. Como consequência, os esforços de
balanceamento por parte de vários estados, mesmo se bem-sucedidos, podem não
produzir um equilíbrio de poder a nível sistémico.
A dissuasão da violência entre as potências com arsenais nucleares é baseada em
cada uma delas ser incapaz de evitar sofrer danos catastróficos às mãos de
outra no caso de um conflito total entre as duas. Uma vez que esta capacidade
retaliatória não depende de um equilíbrio de poder convencional, um pequeno
arsenal nuclear capaz de perpetrar um ataque retaliatório pode dissuadir
qualquer Estado ' mesmo um Estado com um poder convencional inigualável ' de
tentar colocar em causa a sobrevivência de um Estado nuclear. Estados que
adquirem um arsenal nuclear passam portanto a ter a sua sobrevivência
praticamente garantida, mesmo que possuam capacidades militares convencionais
insignificantes. Num mundo nuclear, a minimização da ameaça colocada por outro
Estado não passa mais pelo estabelecimento de um equilíbrio de poder a nível
sistémico.
Como escreveu Robert Jervis, para um equilíbrio de poder a nível sistémico
emergir, «a guerra tem de ser uma ferramenta viável de política»19. Ora, as
armas nucleares aumentam os custos de guerra até ao ponto em que esta deixa de
ser uma ferramenta viável de política entre os estados mais poderosos do
sistema. Na verdade, não é possível vencer uma guerra total entre estados
nucleares, que coloca em perigo a própria existência do Estado, e viola assim a
premissa inicial do argumento que levou ao equilíbrio de poder em primeiro
lugar: o interesse absoluto que os estados têm na sua própria sobrevivência.
Por conseguinte, qualquer ameaça de guerra entre estados nucleares coloca uma
ameaça directa à sobrevivência do Estado que a emite. Em suma, as armas
nucleares retiram à guerra o carácter de ultima ratio da política
internacional. Seria, para usar a expressão de Bismarck, suicídio causado por
medo da morte.
Em resumo, as armas nucleares obrigam a uma distinção entre, por um lado,
teorias que prevêem que os estados se esforcem por balancear o poder de outros
e, por outro, teorias que prevêem a reemergência automática de equilíbrios de
poder sistémicos. Dito de outra forma, o argumento de Waltz sobre os efeitos da
revolução nuclear invalida o argumento de Waltz sobre a automaticidade dos
equilíbrios de poder a nível sistémico, tornando possível um mundo unipolar
duradouro.
Até aqui, vimos como a lógica do neo-realismo estruturalista de Waltz, quando
combinada com a lógica da revolução nuclear, pode contribuir para explicar a
existência de sistemas unipolares duradouros. Passemos agora a uma análise de
como os argumentos de Waltz sobre os efeitos das armas nucleares, quando
estendidos para além do âmbito da política de grandes potências, podem
contribuir muito para uma melhor compreensão das causas da proliferação e da
guerra num mundo unipolar. Isto é particularmente importante na medida em que
os Estados Unidos têm estado em guerra durante catorze dos vinte e quatro anos
que passaram desde o final da Guerra Fria. De facto, o período da unipolaridade
americana, representando cerca de dez por cento da história dos Estados Unidos,
é responsável por mais de 25 por cento do tempo que o país passou em guerra20.
Waltz pode, aliás, ser visto como um motivador deste passo analítico. Ao
contrário da maior parte dos académicos liberais americanos, que vêem nos
Estados Unidos um fornecedor benigno de serviços de gestão do sistema
internacional global, Waltz compreendeu desde logo que uma grande potência
apenas levará a cabo funções de gestão global na medida em que estas servirem
os seus próprios interesses21. Quando conjugado com o argumento exposto acima
sobre o papel da revolução nuclear na pacificação das relações entre estados
que possuam armas nucleares, este alargamento da análise realista às funções de
gestão global levadas a cabo pelos Estados Unidos no sistema unipolar do pós-
Guerra Fria aponta na direcção de um problema particularmente saliente: a
proliferação nuclear. Posto de modo mais directo: qualquer Estado que se
preocupe com a possibilidade de uma intervenção directa americana tem grandes
incentivos para adquirir armas nucleares. Isto mesmo observou Waltz em 2011:
«Quando o presidente Bush identificou [no início de 2002] os países
que, segundo ele, constituíam um eixo do mal ' ou seja, o Iraque, o
Irão e a Coreia do Norte ' e, em seguida, invadiu um deles ' ou seja,
o Iraque ' isto foi certamente uma lição que o Irão e a Coreia do
Norte aprenderam rapidamente. Isso quer dizer que, se um país quer
dissuadir os Estados Unidos de um ataque, tem que se equipar com uma
força nuclear. Creio que todos nós vimos isto demonstrado muito
claramente.»22
Seguindo a visão de Waltz sobre o papel do interesse nacional na definição das
acções de qualquer Estado, torna-se claro que o esforço dos Estados Unidos
contra a proliferação nuclear tem pelo menos em parte na sua origem uma
determinação de manter a sua liberdade de acção perante estados não nucleares.
A posse de arsenais nucleares por um número crescente de estados poderia
pacificar as relações entre eles. Mas, ao mesmo tempo, restringiria a liberdade
de acção dos Estados Unidos. Por isso mesmo Washington opõe-se à aquisição de
armas nucleares por estados com os quais não desfrute de boas relações. Foi
esta oposição à proliferação nuclear para estados adversários que levou a Casa
Branca a contemplar uma guerra contra a Coreia do Norte em 1994, que esteve por
detrás da invasão do Iraque em 2003, e que continua a manter em aberto o debate
sobre uma eventual acção militar contra o programa nuclear iraniano23.
Do ponto de vista teórico, a análise deve incidir portanto não apenas sobre o
efeito da posse de armas nucleares mas também sobre as possíveis consequências
da busca de armas nucleares por estados relativamente fracos. É aqui que reside
parte do potencial de conflito existente no actual sistema unipolar do pós-
Guerra Fria. Neste sentido, e de uma forma compatível com o argumento de Waltz
sobre a revolução nuclear, é o próprio processo de proliferação nuclear ' não o
seu resultado ' que é propenso a gerar conflitos num mundo unipolar.
A explicação para este mecanismo capaz de causar guerras relativamente
frequentes num mundo unipolar deriva da descrição que Waltz fez das causas da
estabilidade bipolar24. Como Waltz argumentou, quando o mundo está organizado
em dois blocos, cada um encabeçado por uma grande potência, os estados mais
fracos normalmente podem aliar-se com uma destas para aumentar a sua segurança
em face de uma ameaça feita pela outra. Assim, por exemplo, se os Estados
Unidos ameaçassem um pequeno Estado durante a Guerra Fria, esse Estado iria
provavelmente obter o apoio da União Soviética, impossibilitando qualquer acção
militar contra ele. Num mundo com um poder preponderante como o do pós-Guerra
Fria, em contraste, um Estado que se sinta ameaçado pelos Estados Unidos
dificilmente conseguirá encontrar um aliado e seguramente não se conseguirá
aliar a uma grande potência, já que não existe outra.
Este desequilíbrio ' a que se poderia chamar uma situação de auto-ajuda
extrema25 ' tem duas consequências. A primeira é impulsionar os estados mais
fracos com os quais os Estados Unidos têm más relações a tentar adquirir armas
nucleares. A segunda é baixar o custo de uma guerra entre um poder
preponderante como os Estados Unidos e um Estado relativamente fraco. Isto
significa, por um lado, que os pequenos estados recalcitrantes irão tentar
desenvolver um arsenal nuclear em segredo. Assim foi o caso da Coreia do Norte
e assim é com o Irão, que continua a negar qualquer propósito militar do seu
programa nuclear. Por outro lado, estas duas consequências do desequilíbrio
sistémico de poder em favor dos Estados Unidos também possibilita guerras
preventivas contra estados suspeitos de estarem a tentar desenvolver armas de
destruição maciça. Tal foi o caso da Guerra do Iraque26. Em suma, os efeitos
indirectos da preponderância de poder americana, quando explorados ao estilo da
análise sistémica de que Waltz foi pioneiro, ajudam a explicar a particular
frequência do envolvimento dos Estados Unidos em conflitos militares desde o
fim da Guerra Fria.
Waltz foi, sem dúvida, o principal teórico da política internacional na segunda
metade do século xx. Durante as últimas duas décadas da sua vida, o mundo viveu
debaixo de uma preponderância do poderio militar americano. Apesar de Waltz
nunca ter ele mesmo explorado a totalidade das implicações da sua visão do
mundo e do seu modo de análise para as circunstâncias do pós-Guerra Fria, a
nossa capacidade de compreender o mundo em que vivemos beneficia muito de uma
visão waltziana.
Data de receção: 5 de Junho de 2013 | Data de aprovação: 5 de Agosto de 2013
NOTAS
1
A pedido do autor o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Cf. Waltz, Kenneth N. ' «The emerging structure of international politics». In
International Security. Vol. 18, N.º 2, 1993. Em todas as
citações de obras em língua inglesa a tradução é minha.
3
Cf. Waltz, Kenneth N. ' «Structural Realism after the Cold War». In
International Security. Vol. 25, N.º 1, 2000.
4
Cf. Waltz, Kenneth N. ' Theory of International Politics. Reading, MA:
Addison-Wesley, 1979, p. 136.
5
Cf. Hansen, Birthe ' Unipolarity and World Politics: A Theory and Its
Implications. Nova York: Routledge, 2011.
6
Waltz, Kenneth N. ' «Evaluating theories». In American Political Science
Review. Vol. 91, N.º 4, 1997, p. 915.
7
Schweller, Randall L. ' «Realism and the present great power system: growth
and positional conflict over scarce resources». In Kapstein, Ethan, e
Mastanduno, Michael (eds.) ' Unipolar Politics: Realism and State Strategies
After the Cold War. Nova York, NY: Columbia University Press, 1999, p. 37.
8
Waltz, Kenneth N. ' Theory of International Politics, p. 126.
9
Waltz, Kenneth N. ' «Intimations of multipolarity». In Hansen, Birthe, e
Heurlin, Bertel (eds.) ' The New World Order: Contrasting Theories, Londres:
Macmillan, 2000, p. 1.
10
Cf. Nexon, Daniel H. ' «The balance of power in the balance». In World
Politics. Vol. 61, N.º 2, 2009.
11
Cf. Mastanduno, Michael ' «Preserving the unipolar moment: Realist theories
and U.S. grand strategy after the Cold War». In International Security. Vol.
21, N.º 4, 1997, p. 50.
12
Waltz, Kenneth N. ' Theory of International Politics, p. 72.
13
Cf. Waltz, Kenneth N. ' «The spread of nuclear weapons: why more may be
better». In Adelphi paper. N.º 171. Londres: International Institute for
Strategic Studies, 1981; Sagan, Scott D., e Waltz, Kenneth N.
' The Spread of Nuclear Weapons: A Debate Renewed. Nova York: W. W. Norton,
2002.
14
Para uma análise mais detalhada da unipolaridade a partir de uma perspectiva
realista e estruturalista, com base na qual o presente artigo é escrito, ver:
Monteiro, Nuno P. ' Theory of Unipolar Politics. Cambridge: Cambridge
University Press, 2014 (no prelo).
15
Waltz, Kenneth N. ' «Theory talk 40: Kenneth Waltz ' The physiocrat of
international politics». Entrevista com Peer Schouten, Theory Talks, 2011, p.
4. Disponível em: http://www.theory-talks.org/2011/06/theory-talk-40.html .
16
Cf. Waltz, Kenneth N. ' «Why Iran should get the bomb». In Foreign Affairs.
Vol. 91, N.º 4, 2012.
17
Cf. Waltz, Kenneth N. «The spread of nuclear weapons: why more may be better»;
Sagan, Scott D., e Waltz, Kenneth N. ' The Spread of Nuclear Weapons: A Debate
Renewed. Ver também Jervis, Robert ' The Meaning of the Nuclear Revolution:
Statecraft and the Prospect of Armageddon. Ithaca, NY: Cornell University
Press, 1989.
18
Cf. Nexon, Daniel H. ' «The balance of power in the balance».
19
Jervis, Robert ' Systems Effects: Complexity in Political and Social Life.
Princeton, NJ: Princeton University Press, 1997, p. 132.
20
Sobre as origens do conflito num mundo unipolar, ver: Monteiro, Nuno P. '
«Unrest assured: why unipolarity is not peaceful». In International Security.
Vol. 36, N.º 3, 2011-2012); Monteiro, Nuno P. ' Theory of
Unipolar Politics.
21
Cf. Waltz, Kenneth N. ' Theory of International Politics, p. 197. Em
contraste, ver os principais trabalhos liberais, como, por exemplo, Ikenberry,
G. John ' After Victory: Institutions, Strategic Restraint, and the Rebuilding
of Order after Major Wars. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2001; Ikenberry, G. John ' Liberal Leviathan: The Origins, Crisis,
and Transformation of the American System. Princeton, NJ: Princeton University
Press, 2011.
22
Waltz, Kenneth N. ' «Theory talk 40: Kenneth Waltz ' the physiocrat of
international politics», p. 2.
23
Cf. Debs, Alexandre, e Monteiro, Nuno P. ' «The flawed logic of attacking
Iran». In Foreign Affairs, 18 de Janeiro de 2012; Kahl, Colin
H. ' «Not time to attack Iran». In Foreign Affairs. Vol. 91, N.º 2, 2012; Kroenig, Matthew ' «Time to attack Iran». In Foreign Affairs.
Vol. 91, N.º 1, 2012.
24
Waltz, Kenneth N. ' «The stability of a bipolar world». In Daedalus. Vol. 93,
N.º 3, 1964, e Waltz, Kenneth N. ' Theory of International
Politics
25
Monteiro, Nuno P. ' «Unrest assured: why unipolarity is not peaceful».
26
Debs, Alexandre, e Monteiro, Nuno P. ' «Known unknowns: power shifts,
uncertainty, and war». In International Organization. Vol. 68, N.º 1, 2014 (no
prelo).
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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