Confluência na Ásia? As relações Rússia-China
As relações Rússia-China, desde o final da Guerra Fria, têm sido consolidadas
em torno da parceria estratégica e dos acordos de amizade e cooperação, bem
como outros de cariz mais específico que definem os traços fundamentais que
orientam a parceria. Estas relações não têm sido, contudo, lineares. Pautadas
por espaços de cooperação assentes na partilha de posturas em temas
fundamentais de política externa, bem como por elementos de continuidade nos
projetos de consolidação nacional, apesar dos diferenciais existentes, estas
não têm sido isentas de constrangimentos, especialmente quando objetivos
incompatíveis se cruzam. Este texto analisa as relações entre a Rússia e a
China num quadro internacional mudado, onde a região Ásia-Pacífico tem vindo a
ganhar relevância acrescida. Relações políticas, económicas e de segurança são
objeto de análise, com vista a compreender as principais questões na agenda e
as dinâmicas que têm gerado em termos da relação bilateral, que se assume
crescentemente como assimétrica.
A viragem a Leste das políticas, recentradas na região Ásia-Pacífico, torna
esta área foco de especial atenção. Nesta dinâmica de viragem, a Rússia tem
sido um ator ativo, respondendo ao que entende como novos desafios, mas também
novas oportunidades. A China, enquanto ator fundamental neste contexto
regional, surge na agenda de política externa russa com relevância acrescida.
De facto, o novo conceito de política externa, aprovado em fevereiro de 2013,
refere-se aos processos globais que se aceleraram na primeira década do século
XXI e à necessidade de a Rússia dar resposta a uma situação internacional em
rápida mutação e onde as responsabilidades russas em informar a agenda
internacional são acrescidas. Refere ainda explicitamente que «o poder global e
o potencial de desenvolvimento estão agora mais dispersos e a virar-se para
leste, primeiramente para a região Ásia-Pacífico»1. Os parágrafos 75 a 87 deste
documento de referência são dedicados à Ásia-Pacífico, afirmando que o
desenvolvimento de relações amistosas com a China é uma das prioridades da
política externa russa2. Neste alinhamento, partilhado pela China, há questões
que aproximam claramente estes dois atores, e outras que se revelam motivo de
fricção, como veremos adiante, permitindo uma tensão constante entre políticas
de cooperação e contenção.
Esta gestão difícil de temas na agenda tem seguido princípios pragmáticos de
política externa de ambos os estados, o que se tem revelado na ambivalência que
resulta não só da cooperação económica intensificada, como também de relações
securitárias mais densas ' numa lógica de prevenção de dependências na
construção de relações bilaterais assentes em interdependência. Dinâmicas que
são objeto de análise nas secções que se seguem, e cuja estrutura assenta na
análise das políticas internas, identificando traços comuns e diferenciadores,
e nas opções de política externa destes estados, em termos políticos,
económicos e de segurança, e com uma explicitação mais concreta no caso da
Organização de Cooperação de Xangai (OCX). O artigo conclui que esta relação
bilateral é, e continuará a ser, pautada por ambivalências dado que o
estreitamento da cooperação é entendido como favorável, embora prosseguindo
numa lógica cuidada de gestão de diferenciais, em consequência da assimetria
crescente na relação, e em particular a preocupação que esta representa para a
Rússia.
ARRANJOS DE POLÍTICA EXTERNA: DA ORDEM INTERNA E DO CONTEXTO INTERNACIONAL
As políticas externas destes dois grandes estados refletem pressupostos comuns,
assentes em três pilares fundamentais: primeiro, o princípio de consolidação
interna no sentido de estabilidade e crescimento como base para uma política
externa sólida. Este princípio é acompanhado por políticas nacionalistas onde o
apoio popular se revela um fator essencial na consolidação da legitimidade do
Estado. Segundo, o princípio de não ingerência nos assuntos internos de outros
estados e de respeito pela integridade territorial, transcrevendo o
reconhecimento da soberania tradicional como elemento agregador e organizador
do Estado. E, por fim, o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU)
como a instituição internacional por excelência responsável pela garantia da
segurança e estabilidade internacionais. O lugar permanente no Conselho de
Segurança da ONU que os dois estados ocupam é aqui relevante ao permitir não só
uma voz, mas também o direito de voto e veto sobre temas fundamentais
relacionados com a segurança internacional. Uma forma de limitar decisões
entendidas como contrariando interesses e princípios fundamentais de ambos os
estados, que em várias ocasiões se têm unido na direção de voto neste âmbito. O
caso da Síria é um exemplo representativo deste alinhamento.
A política externa chinesa assume duas prioridades fundamentais na sua
formulação e implementação: estabilidade política interna liderada pelo Partido
Comunista enquanto veículo legitimador de políticas, favorecendo o nacionalismo
como ideologia agregadora, e crescimento económico assente num modelo
socialista de mercado3. Esta combinação traduz-se numa política pragmática,
voltada para a prossecução dos objetivos fundamentais de política externa,
mesmo que implicando combinações nem sempre fáceis de gerir entre
autoritarismo, dirigismo e capitalismo. Além do mais, a China continua a
descrever o seu percurso de crescimento e maior influência no sistema
internacional como resultado natural do seu desenvolvimento e não visando
objetivos hegemónicos, na linha do discurso de «ascensão pacífica». As
referências mais recentes ao «sonho chinês» numa replicação do «sonho
americano», com uma acentuação forte na necessidade de qualificação e projeção
das camadas mais jovens, reflete na sua própria formulação uma ideia não
confrontacionista.
Por seu turno, a política externa russa assenta também em pressupostos
pragmáticos de atuação, embora num sistema político diferenciado. Os
fundamentos de política externa passam também pela combinação entre
estabilidade interna e crescimento para uma política externa mais assertiva. E
nesta dimensão reside uma diferença fundamental entre estes dois estados, pois
a retórica russa assume um tom claramente mais forte e, quando necessário,
mesmo confrontacional. A política do reset nas relações com os Estados Unidos,
por exemplo, reflete de forma clara a divergência em temas centrais à relação
bilateral, e com impacto mais alargado, inclusive nas relações Rússia-União
Europeia.
Nos seus alinhamentos fundamentais, a política externa russa revela
continuidade relativamente aos seus objetivos de consolidação do seu
posicionamento no sistema internacional enquanto grande potência, reconhecida
enquanto tal pelos seus pares. Numa formulação multivetorial, onde a Comunidade
de Estados Independentes (CEI) assume primazia, seguida do vetor euro-atlântico
e asiático, torna-se claro no conceito de política externa publicado em
fevereiro de 20134, que a região Ásia-Pacífico está a ganhar relevância nas
políticas russas. Esta tendência havia sido já sinalizada aquando da publicação
da adenda ao documento de 20085, pouco tempo após a reeleição de Vladimir Putin
como presidente da Rússia na primavera de 2012. Esta alteração, não nos
pressupostos fundamentais mas nos alinhamentos geoestratégicos, traz novas
implicações para as relações Rússia-China, que se consolidam num espaço
geográfico partilhado.
Regressando às linhas de convergência nas políticas destes dois estados, o seu
posicionamento partilhado em defesa de uma ordem internacional multipolar, do
princípio de não ingerência e da ONU enquanto organização de segurança global,
merecem um olhar mais atento.
A questão da multipolaridade surge essencialmente informada pela oposição à
hegemonia norte-americana, mantendo-se na agenda desde o final da Guerra Fria.
Por exemplo, em julho de 2005 as partes assinaram a «Declaração sino-russa
sobre a ordem internacional no século XXI» onde a questão da ordem multipolar
por contraposição à prevalência norte-americana surge de forma muito clara6, ou
no próprio Tratado de Amizade e Cooperação de 2001, atualizado para o período
2009-2012, este alinhamento, por contraposição, é demonstrativo do esforço de
contenção da expansão da presença e influência norte-americana na área, em
particular na Ásia Central. No entanto, este discurso de contrapeso aos Estados
Unidos esbate-se gradualmente após 2008, em particular na Rússia, coincidindo
com a guerra na Geórgia. É interessante notar como o discurso russo se alterou
após o desfecho das hostilidades. Entendido o resultado como favorável à Rússia
e respondendo aos seus objetivos de afirmação não só face à Geórgia, como
também à região e internacionalmente, o discurso russo passou a incorporar o
princípio de que a ordem internacional é multipolar, desprendendo-se da
retórica antiamericana. Recentemente, um diplomata russo referia-se a esta como
«policêntrica», termo que surge também no novo conceito de política externa
aprovado em fevereiro passado7.
De referir ainda neste contexto que, apesar da retórica de contenção dos
Estados Unidos, nenhuma das partes se revê numa relação de hostilização para
com estes, entendendo que têm a ganhar com o prosseguimento de relações
amistosas. De acordo com Charles Kupchan, a chegada do Presidente Obama à Casa
Branca parecia abrir espaço a uma era «pós-atlantista» que gerou mesmo receios
na Europa quanto ao compromisso norte-americano com a parceria estratégica
bilateral, em favor de um quadro reforçado nas relações com a China, num
formato «condomínio G2». Contudo, e apesar da maior interdependência entre os
Estados Unidos e a China, e de Obama estar a desenvolver, neste segundo
mandato, uma política externa com enfoque claro na região Ásia-Pacífico, as
relações tradicionais transatlânticas não perderam relevância. De facto, este
relacionamento mantém-se central à política externa dos Estados Unidos apesar
das dificuldades daí decorrentes, por exemplo, do que foi descrito como falta
de apoio europeu na intervenção no Afeganistão ou da concentração europeia nas
questões internas à UE, nomeadamente face à crise financeira.
Washington prossegue uma política externa mais diversificada, num contexto
internacional mudado, onde a Ásia se assume como região prioritária8. Note-se
ainda que a China tem assumido um peso considerável em termos económicos, com a
compra de dívida externa dos Estados Unidos a marcar um espaço importante.
Apesar de algumas reações inflamadas, no sentido de que a China se encontra em
condições de pressionar os Estados Unidos em matéria financeira, face à questão
do apoio continuado a Taiwan, por exemplo9, que têm gerado debate, parece que
este não é um cenário expectável, pelo menos no curto prazo.
No caso da Rússia, a relação com os Estados Unidos, definida também como
estratégica, tem prosseguido um curso diverso, com questões difíceis na agenda,
incluindo o apoio dos Estados Unidos ao alargamento da Aliança Atlântica ou às
revoluções coloridas no espaço pós-soviético, com a guerra na Geórgia no verão
de 2008 a marcar um dos momentos mais difíceis da relação. A política de
resetque se seguiu, e que passou pela criação da Comissão Presidencial
Bilateral Estados Unidos-Rússia, em novembro de 2009, demonstra como as partes
entendem as relações bilaterais como relevantes, apesar das dificuldades que
vão surgindo e que se vão repetindo.
A Ásia Central é um tema que tem estado nas agendas dos três estados (China,
Estados Unidos e Rússia), e tem permitido algum atrito, em particular após os
ataques terroristas de 11 de setembro, quando a Rússia, sem consultas prévias
com a China (e a Organização de Cooperação de Xangai poderia ter sido aqui um
fórum importante), avança com o apoio às operações no Afeganistão através do
consentimento do uso de bases militares na Ásia Central. Esta atitude, aliada à
representação material que a presença militar ocidental junto às suas
fronteiras constitui, causou preocupação na China10. A Ásia Central tem sido
foco de alguma perturbação nas relações sino-russas, resultante da sua
relevância em termos geoestratégicos, energéticos e securitários.
Relativamente à ONU como organização fundamental na garantia de paz e segurança
internacional, esta reflete a importância dos lugares permanentes destes dois
estados no Conselho de Segurança, a legitimidade que aí encontram para
sustentar o princípio de não ingerência e a tentativa cuidada de evitar a
predominância de arranjos de segurança de cariz regional, sem grande efeito,
contudo, em particular no caso da Aliança Atlântica e da postura russa face a
esta. Os princípios de não ingerência nos assuntos internos dos estados e o
respeito pela integridade territorial relacionam-se diretamente com os
problemas internos na província de Xinjiang na China, e cujo impacto na
estabilidade com os países vizinhos, nomeadamente o Cazaquistão, o Tajiquistão
e o Quirguistão, e no Cáucaso do Norte exigem um posicionamento político muito
claro. A fragilidade das fronteiras nesta área alargada constitui um elemento
adicional de preocupação face a atividades irredentistas. A questão de Taiwan
não pode também ser descurada na agenda política chinesa, como um elemento
perturbador nas suas políticas soberanistas.
Na Rússia, toda a região do Cáucaso do Norte tem sido marcada por grande
instabilidade associada a movimentos secessionistas que põem em causa a
autoridade central de Moscovo, criando instabilidade acrescida, já identificada
como a ameaça interna à integridade territorial do Estado russo. Acresce a
preocupação comum com a expansão do radicalismo islâmico na área, problema este
identificado na Rússia e na China como prioritário nas agendas de segurança. A
instabilidade associada a estas regiões tem sido diretamente relacionada com a
atuação de movimentos terroristas islâmicos que pretendem uma islamização de
vastas áreas territoriais dentro destes estados, questionando a viabilidade da
manutenção da atual configuração territorial. Uma questão que é entendida pelas
autoridades russas e chinesas como uma não-questão no sentido de não conceberem
a possibilidade de qualquer alteração ao statu quo territorial, e ainda menos
como resultante da atuação deste tipo de movimentos radicais. De facto, este
posicionamento estrito tem estado presente em exercícios conjuntos de natureza
antiterrorista que as partes têm conduzido, sinalizando a partilha desta
preocupação e o desenvolvimento de esforços conjuntos de contenção de quaisquer
efeitos de contágio, desestabilizadores internamente e na sua área partilhada
de vizinhança, em particular a Ásia Central. Este tipo de iniciativas tem sido
desenvolvido no quadro da Organização de Cooperação de Xangai [OCX] que será
objeto de análise em seguida.
ORGANIZAÇÃO DE COOPERAÇÃO DE XANGAI: COOPERAÇÃO ESTRATÉGICA OU INSTRUMENTAL?
Criada em 1996 reunindo na altura cinco estados ' Cazaquistão, China,
Quirguistão, Rússia e Tajiquistão ', o Grupo dos Cinco de Xangai visava
essencialmente responder aos múltiplos desafios fronteiriços na região, tendo
mais tarde alargado a sua agenda a outras questões de natureza securitária,
incluindo a ação antiterrorista.
Em junho de 2000, os cinco acordam quanto ao estabelecimento de um centro
regional antiterrorismo, com sede em Bichkek, no Quirguistão. Será em 2001, que
o Grupo se renomeia como OCX, integrando na altura o Uzbequistão também como
membro. Os seus objetivos passam pela cooperação política com base na igualdade
entre os membros, com vista a formar um bloco militar que possa assumir
responsabilidades a nível regional. Este projeto, que tem sido liderado pela
China, tem encontrado alguma resistência da parte da Rússia, que através da
Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) pretende consolidar a sua
presença militar na área, de forma autónoma e onde possa exercer influência e
controlo dos processos em curso.
Neste sentido, estes dois projetos de integração regional seguem caminhos
diferenciados, eventualmente colidindo, dada a sobreposição de estados-membros
nas duas organizações, e a ausência da China na OTSC11. De qualquer modo, a
Rússia tem desenvolvido esforços no sentido de integrar algumas atividades das
duas organizações, o que poderia contribuir para o aumento da sua influência na
OCX enquanto fórum militar. Apesar do reconhecimento que a China faz da
importância do desenvolvimento de atividades de cooperação entre ambas, e de já
terem decorrido alguns exercícios nesta lógica cooperativa, as relações entre
as duas não foram ainda formalizadas, sinalizando receios de que a Rússia possa
de facto aumentar a sua influência no quadro destes organismos.
No âmbito da OCX, o primeiro exercício militar conjunto envolvendo todos os
seus membros decorreu em 2007. A Peace Mission 2007 era centrada na ação
antiterrorista e envolvia na sua totalidade cerca de sete mil elementos
repartidos pelos vários estados. Uma missão que foi entendida, como outras,
como limitada no número de efetivos envolvidos e consequentemente no verdadeiro
alcance destes exercícios em termos dos objetivos ambiciosos que lhes estão
subjacentes12. No entanto, e apesar dos limites identificados, tem sido sempre
sublinhado que este e outros exercícios que os antecederam, bem como os que lhe
sucederam, envolvendo todos os membros, ou apenas uma parte, ou mesmo
decorrendo no quadro bilateral sino-russo, não visam países ou organizações
terceiras e decorrem no quadro de cooperação da organização, com vista ao
aprofundamento da interoperacionalidade das forças, de modo a dar resposta aos
múltiplos desafios na região Ásia-Pacífico.
Assim, a OCX sugere uma política de cooperação no treino e capacidade das
forças, enquanto simultaneamente revela os limites inerentes à própria relação
Rússia-China. Por exemplo, em termos de armamento, apesar de a Rússia exportar
quantidades significativas deste tipo de material para a China, não deixa de
limitar a qualidade e especificidade do mesmo, de modo a evitar um aumento de
capacidade militar ao seu rival. Apesar de a Rússia deter superioridade a nível
militar, a China tem estado a investir fortemente neste setor, inclusive
através de recursos humanos e técnicos próprios, o que constitui preocupação em
Moscovo. Este exemplo simplificado revela como a competição inerente à própria
organização assente na rivalidade entre a Rússia e a China em matérias
específicas, é limitativa do seu potencial.
A OCX acaba por funcionar como um instrumento de contenção dupla: de contenção
mútua entre a China e a Rússia, e de contenção do envolvimento dos Estados
Unidos na área13. Revela ainda que a relação estratégica que ambos os estados
desenvolvem está imbuída de desconfiança, limitando o alcance do próprio
relacionamento bilateral e demonstra como este se assume em vários momentos
como um «eixo de conveniência», funcionando de forma instrumental14 mais do que
estrategicamente ponderada. A procura de apoios por parte da Rússia na OCX para
o reconhecimento da Abcásia e Ossétia do Sul após a guerra na Geórgia de 2008,
esbarrou com declarações políticas cordiais dos estados-membros, mas sem uma
expressão favorável e objetiva de apoio. A preocupação demonstrada nas ações e
nas implicações destas, em termos do reconhecimento de independência das duas
repúblicas, em linha com a discussão relativa à integridade territorial dos
estados, esteve na base das reticências chinesas. Na Rússia, a questão foi lida
como a consagração de um statu quo já existente, mas não política e
juridicamente reconhecido, reforçando a sua influência naquela área. No
entanto, é interessante notar como a questão foi lida e tratada internamente na
China, que apesar da sua reprovação em sede de política externa, a usou como
exemplo concreto da crescente fricção Leste-Oeste, sublinhando a necessidade de
reforço estratégico a leste, numa lógica de afirmação por contrapeso ao
Ocidente15.
Em 2007, e numa lógica de expansão dos espaços de intervenção da organização a
outras áreas consideradas relevantes para a segurança regional, foi fundado o
chamado «Clube Energético». O objetivo é racionalizar recursos e otimizar todo
o processo de acesso, transporte e fornecimento de energia, não só entre os
membros permanentes, mas num quadro regional mais alargado16. É interessente
notar que a nível energético as relações sino-russas têm-se expandido, embora
ambas receiem demasiada dependência mútua, seja em termos de importações
(China), seja de exportações (Rússia), sublinhando novamente a questão da
desconfiança que atravessa este relacionamento. E ambas têm diversificado
relações, assinando contratos bilaterais individuais com o Cazaquistão, por
exemplo.
Embora numa leitura imediata possa parecer que a interdependência energética
entre estes dois gigantes seja significativa, de facto os números são muito
limitados. A Rússia é o quarto fornecedor, assegurando apenas oito por cento
das importações chinesas destes recursos. E noutras áreas comerciais a mesma
tendência se verifica17. «A Rússia representa apenas dois por cento do comércio
externo chinês, com a relação comercial entre a China e os Estados Unidos a ser
dez vezes maior, enquanto a China representa para a Rússia apenas seis por
cento do seu mercado. O investimento russo na China é insignificante e o
investimento chinês na Rússia é inferior a um bilião de dólares, enquanto as
reservas de ouro russas no valor de 450 biliões de dólares são esmagadas pelas
reservas chinesas num total de 1,9 triliões»18.
A superioridade económica chinesa e os problemas demográficos graves que a
Rússia enfrenta, a par de uma economia monodependente, tornam esta relação
assimétrica19. Os problemas que surgiram nas fronteiras leste da Rússia,
entretanto objeto de negociações formais, são exemplo dos receios em Moscovo de
que a China se assuma como um gigante asiático que venha a limitar a sua
presença e influência numa área que considera estrategicamente fundamental. Os
limites associados a esta parceria apontam para o cuidado de Moscovo em manter
boas relações com Pequim, embora encontrar o equilíbrio certo entre interesses
de curto prazo e considerações de longo prazo não seja fácil20.
CONCLUSÃO: UMA RELAÇÃO CRESCENTEMENTE ASSIMÉTRICA
As relações entre a Rússia, que se vem assumindo como um ator fundamental nos
novos arranjos internacionais, e a China, que de forma mais moderada prossegue
o mesmo percurso, estão num momento de viragem face aos desenvolvimentos a
nível estrutural do sistema internacional.
As agendas dos grandes atores internacionais, claramente voltadas para a Ásia-
Pacífico, reconhecem a crescente importância desta região e como esta viragem
acarreta implicações no ordenamento global. Para a Rússia, o historial de
relações de amizade com a China permite-lhe uma boa base de entendimento, à
qual deve ser adicionada a partilha de um conjunto de princípios fundamentais
que unem estes dois estados, incluindo a multipolaridade do sistema e as
políticas de não-ingerência. Mas não sem limites, pois a rivalidade regional
não é apenas aparente. Revela-se de forma objetiva nos contratos de vendas de
armas, ou nas políticas energéticas em curso, bem como no próprio quadro
multilateral que a OCX representa. A Rússia, nas suas políticas pragmáticas,
prossegue ações assertivas de afirmação no sistema internacional, mas reconhece
as suas principais debilidades neste processo, em particular dados os problemas
demográficos que enfrenta e a sua grande dependência de um mercado volátil como
o dos recursos energéticos.
Neste contexto, a proposta de criação de um Banco de Desenvolvimento no quadro
dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), à qual a Cimeira de
Durban, na África do Sul em março de 2013, conferiu os contornos em termos de
objetivos gerais, surge como uma proposta fundamental para assegurar o
posicionamento russo no sistema internacional, enquanto sugerindo limites e
receios face ao crescendo que a China significa, inclusive comparativamente em
relação aos outros BRICS. Aliás, uma das questões ainda em debate para que esta
proposta possa tomar forma, prende-se com as contribuições de cada país, e em
que medida devem estas ser iguais, ou proporcionais à sua dimensão económica.
Uma questão essencialmente política, onde se questiona a possibilidade de
conferir peso excessivo, e consequentemente poder excessivo, à China21.
Certo é que, independentemente dos resultados deste projeto, uma nova ordem
internacional se afigura, com grande peso da Ásia-Pacífico, e onde as relações
entre a Rússia e a China não deixarão de ser relevantes, não só pelos
benefícios que ambas podem colher de um relacionamento de cooperação
estratégica, como também face aos limites e contenção impostos neste mesmo
quadro bilateral, e que constituem sinal da rivalidade latente entre estes dois
gigantes. Rivalidade esta que assenta numa crescente assimetria entre os dois
atores, em matéria política, económica e securitária.
Data de receção: 21 de março de 2013 | Data de aprovação: 20 de maio de 2013
NOTAS
1
Concept of the Foreign Policy of the Russian Federation, Approved by President
of the Russian Federation V. Putin on 12 February 2013, The Ministry of Foreign
Affairs of the Russian federation official site, 303-18-02-2013, n. 3 e título
II, parágrafo 6.
2
Ibidem, título IV, parágrafo 79.
3
FREIRE, Maria Raquel, e MENDES, Carmen Amado ' «Realpolitik dynamics and image
construction in the Russia-China relationship: forging a strategic
partnership?». In Journal of Current Chinese Affairs. N.º 2, 2009, pp. 27-52.
4
Concept of the Foreign Policy of the Russian Federation, Approved by President
of the Russian Federation V. Putin on 12 February 2013, The Ministry of Foreign
Affairs of the Russian federation official site, 303-18-02-2013.
5
PUTIN, Vladimir ' «Executive order on measures to implement foreign policy»,
President of Russia official website, 7 de maio de 2012. Disponível em http://
eng.kremlin.ru/acts/3764.
6
DE HAAS, Marcel ' «Russia-China security cooperation». In Power and Interest
News Report, 27 de novembro de 2006; Menon, Rajan ' «The limits of Chinese-
Russian partnership». In Survival. Vol. 51, N.º 3, 2009, pp. 110-112.
7
Comunicação de Vasily Niorazde na conferência «Jornadas Rusia en el mundo»,
Universidad de Nebrija, Madrid, 7 de maio de 2013. Ver também Concept of the
Foreign Policy of the Russian Federation, Approved by President of the Russian
Federation V. Putin on 12 February 2013, The Ministry of Foreign Affairs of the
Russian federation official site, 303-18-02-2013, título II, parágrafo 5.
8
KUPCHAN, Charles ' «No dilemma between Europe and Asia for Washington
strategists». In Global Times, 28 de março de 2013. Disponível em http://
www.globaltimes.cn/content/771437.shtml#.UVXm9JPU-85
9
GANG, Ding ' «China must punish us for Taiwan arm sales with financial
weapon». In People's Daily Online, 8 de agosto de 2011, http://
english.people.com.cn/90780/91342/7562776.html.
10
Para um desenvolvimento alargado desta questão cf. BERRYMAN, John ' «Russia
and China in Eurasia: the wary partnership». In FREIRE, Maria Raquel, e KANET,
Roger (org.) ' Key Players and Regional Dynamics in Eurasia: The Return of the
Great Game'. Basingstoke: Palgrave MacMillan, 2010;
MACHAFFIE, James ' «China's role in Central Asia: security implications for
Russia and the United States». In Comparative Strategy. Vol. 29, N.º 4, 2010,
pp. 368-380.
11
Os membros da Organização de Cooperação de Xangai incluem o Cazaquistão, a
China, o Quirguistão, a Rússia, o Tajiquistão e o Uzbequistão. A Organização do
Tratado de Segurança Coletiva inclui como estados-membros a Arménia, a
Bielorrússia, o Cazaquistão, o Quirguistão, a Rússia e o Tajiquistão.
12
Cf. BERRYMAN, John ' «Russia and China in Eurasia: the wary partnership».
13
CF. FREIRE, Maria Raquel, e MENDES, Carmen Amado ' «Realpolitik dynamics and
image construction in the Russia-China relationship: forging a strategic
partnership?».
14
LO, Bobo ' Axis of Convenience: Moscow, Beijing, and the New Geopolitics.
Washington: Brookings Institution Press, 2008, p. 3.
15
Ver nesta matéria, TURNER, Susan, «China and Russia after the Russian-
Georgianw». In Comparative Strategy. Vol. 30, N.º 1, 2011, pp. 50-59.
16
MOISEYEV, Leonid, entrevista ao China 21st Century Magazine, 23 de setembro de
2007. Disponível em: http://www.sectsco.org/html/01761.html.
17
Federal State Statistics Service, Russian Federation, e Ministry of Commerce
of the People's Republic of China.
18
Cf. BERRYMAN, John ' «Russia and China in Eurasia: the wary partnership».
19
Cf. CHENG, Joseph Y. S. ' «The Shanghai Cooperation Organisation: China's
initiative in regional institutional building». In Journal of Contemporary
Asia. Vol. 41, N.º 4, 2011, pp. 632-656.
20
RUMER, Eugene B. ' Russian Foreign Policy beyond Putin. Adelphi Paper 390.
Londres: Routledge for the International Institute for Strategic Studies, 2007,
p. 42; BERRYMAN, John ' «Russia and China in Eurasia: the
wary partnership».
21
A economia chinesa é vinte vezes maior do que a da África do Sul e cerca de
quatro vezes maior do que a da Rússia ou a da Índia. Cf. «Watch out, World
Bank: here Comes the brics Bank». In Reuters¸ 27 de março de 2013. Disponível
em http://www.cnbc.com/id/100596232.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt