Nota Introdutória
Nota Introdutória1
Raquel Vaz-Pinto
É professora auxiliar de Relações Internacionais na Universidade Católica
Portuguesa e, desde março de 2012, presidente da Associação Portuguesa de
Ciência Política. Tem trabalhado e escrito sobre política interna e externa
chinesa, religião nas relações internacionais, os Estados Unidos e a Ásia-
Pacífico, e a China em África. O seu livro A Grande Muralha e o Legado de
Tiananmen, a China e os Direitos Humanos foi publicado pela Tinta-da-China
O impacto da China nas relações internacionais é um tema cuja pertinência
dispensa apresentações. A China é, hoje em dia, um país incontornável e tem uma
presença cada vez mais activa na sociedade internacional. Esta sua ascensão tem
sido guiada pela estratégia desenhada por Deng Xiaoping de manter um low-
profile em questões internacionais, de modo a permitir a concentração máxima no
objectivo principal: crescimento económico. No entanto, é cada vez mais difícil
à segunda maior economia do mundo defender uma abordagem discreta nas relações
internacionais e reforçar a ideia de que a sua ascensão será pacífica. Do ponto
de vista interno, sabemos que há um grande debate sobre qual o caminho que a
China deve seguir: mais nacionalista e assertiva? Ou mais «globalista»?2
Paralelamente, assistimos no último Congresso do Partido Comunista da China
(pcc), em Novembro de 2012, à passagem de testemunho para uma nova geração de
líderes, a primeira sem a bênção directa ou indirecta da Longa Marcha. A tomada
de posse do Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, a 14 de Março
deste ano, foi a pedra de toque na confirmação da «Quinta Geração» ao leme da
China. Apesar do «ruído» causado pela «queda do anjo vermelho» de Chongqing, Bo
Xilai, no Verão passado, esta transição foi feita de forma suave. E sem dúvida
que a luta nos bastidores foi intensa entre o «Grupo de Xangai» e a «Liga da
Juventude Comunista», mas a passagem de testemunho acabou por ser completa. Não
só Xi é o secretário-geral do pcc e Presidente do Estado chinês como também
dirige a poderosa Comissão de Assuntos Militares.
Pequim tem consciência da importância desta próxima década e dos enormes
desafios que terá de enfrentar. Do ponto de vista interno, a liderança sabe que
terá de manter um ritmo de crescimento económico elevado, ao mesmo tempo que
terá de lidar com as crescentes tensões sociais, laborais e ambientais. Um
aspecto fundamental e que tem sido reiterado por Xi Jinping, prende-se com a
corrupção, seguindo aliás o caminho traçado pelo seu antecessor, que considerou
a luta contra a corrupção como a luta de vida ou morte do Partido. Do ponto de
vista externo, os desafios não são de menor escala e é sobre estes que incidem
as reflexões propostas neste número.
Em primeiro lugar, é importante problematizarmos a relação da China com o seu
contexto regional. Tendo em conta a enorme heterogeneidade do continente
asiático a China tem procurado estabelecer uma «Grande Ásia», em que volta a
assumir o seu papel de «Império do Meio». Esta «Grande Ásia» ' um
«supercomplexo» de segurança regional ' está dividida em quatro sub-regiões: a
Ásia do Norte, a Ásia do Sudeste, a Ásia do Sul e a Ásia Central. No entanto,
para que a China seja capaz de levar este objectivo a bom porto teremos de
olhar para a sua relação bilateral com Washington.
Para que a China volte a ser o Império do Meio terá de levar a cabo um
reposicionamento em termos geoeconómicos, geopolíticos e estratégicos. Estas
transformações implicarão retirar aos Estados Unidos a liderança na Ásia e,
deste modo, diluir a centralidade inquestionável norte-americana. Esta questão
torna-se mais premente se tivermos em consideração a intenção da Casa Branca de
fazer com que este século seja o século do Pacífico americano3. Este
redireccionar estratégico norte-americano, após o fim do esforço de guerra no
Iraque e o «quase-fim» no Afeganistão, tem como principal propósito a contenção
da China. De qualquer modo, é certo que ainda não somos capazes de fazer uma
avaliação mais completa do empenho norte-americano concreto e, em especial, da
sua eficácia.
Para melhor compreendermos as opções estratégicas e o seu debate em Beijing e,
deste modo, tentarmos descortinar se há uma grande estratégia chinesa, é
fundamental analisarmos a relação entre três conceitos: «ascensão/
desenvolvimento pacífico», «sociedade/mundo harmonioso» e o «sonho chinês». Em
relação a este último, enunciado por Xi Jinping, persistem ainda muitas dúvidas
sobre o seu verdadeiro alcance e o saber até que ponto é uma mudança em relação
aos anteriores. Esta questão também se manifesta na análise sobre o impacto da
China na governação económica mundial. Tendo em consideração o peso da economia
chinesa ' segunda maior economia, a maior produtora industrial, a maior
exportadora e segunda maior importadora de mercadorias, o segundo maior destino
para o investimento directo estrangeiro, a maior detentora de reservas em moeda
estrangeira e a maior credora mundial ' será que continuará satisfeita com as
regras do jogo financeiro e económico mundial ou tentará readaptá-las?
Paralelamente, é pertinente analisarmos as relações da China com dois dos seus
vizinhos e membros dos brics: a Índia e a Rússia. Há uma grande competição com
estes dois gigantes, com quem a China tem uma relação histórica complexa.
Apesar da concordância na defesa da não-ingerência e multipolaridade, a relação
entre Moscovo e Pequim é tensa e assimétrica a nível político, económico e
securitário. Destas três dimensões o contraste económico é bastante revelador:
entre a quase monodependência energética russa e a pujança económica chinesa.
No caso indiano, para além das questões fronteiriças e de uma «luta
cartográfica», há um elemento de comparação inevitável: o seu regime político.
Em muitas análises, a Índia é apontada como o contrapeso democrático à China e
um exemplo de como um país tão heterogéneo ' religiosa, étnica e
linguisticamente ' e com a segunda maior população mundial é governado de modo
democrático. Para a sociedade indiana a democracia tornou-se um elemento de
identidade desde que os seus cidadãos embarcaram naquilo a que Sunil Khilnani
apelidou de «aventura de uma ideia política».
A disputa entre a Índia e a China pelos recursos naturais é visível no contexto
regional asiático, mas não se fica por aí. Esta competição tem lugar noutras
regiões, nomeadamente no Atlântico Sul, uma região com crescente relevância
estratégica pelos seus recursos energéticos, minerais e alimentares. A
dianteira na corrida por estes recursos tem sido chinesa, seja do ponto de
vista comercial, seja a nível do investimento directo e financiamento ' embora
seja muito interessante a análise do impacto positivo da diáspora indiana e da
indústria Bollywood. Na região do Atlântico Sul assume especial destaque o
Brasil e iremos avaliar os efeitos da presença chinesa na América Latina, a
partir da política externa brasileira durante os mandatos presidenciais de
Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Tendo em
consideração o caso brasileiro, até que ponto é que podemos falar da
substituição do Consenso de Washington pelo Consenso de Pequim?
Em suma, os desafios de política externa que a quinta geração em Zhongnanhai
irá enfrentar são múltiplos e multifacetados. Só o tempo nos dirá se esta
geração esteve à altura do objectivo enunciado por Xi Jinping: levar a cabo o
«Grande Renascimento da Nação Chinesa».
NOTAS
1
A pedido da autora o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Leonard, Mark (ed.) ' China 3.0. Londres: ecfr, 2013.
3
Obama, Barack ' «Remarks by President Obama to the Australian Parliament»,
Camberra, 17 de Novembro de 2011. Consultado em: 25 de Maio de 2013. Disponível
em: http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/11/17/remarks-president-
obama-australian-parliament, e Clinton, Hillary ' «America's
Pacific Century». In Foreign Policy. N.º 189, Novembro de 2011, pp. 56-63.
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