As eleições intercalares e a política externa da Administração Obama
RESULTADOS E CONJECTURAS
Em Novembro de 2010, decorreram nos Estados Unidos da América eleições
intercalares (midterms) para a selecção dos 435 futuros membros da Câmara dos
Representantes e de 37 senadores federais. Nesse dia, mais de 75 milhões de
norte-americanos dirigiram-se às urnas, gerando resultados muito favoráveis ao
Partido Republicano, que obteve um ganho líquido de 63 congressistas e seis
senadores federais, readquirindo assim a maioria na Câmara dos Representantes
(242 republicanos contra 193 democratas), tendo ainda encurtado a sua
desvantagem no Senado (47 republicanos contra 53 democratas).
Face às alterações ocorridas no panorama partidário, logo conjecturaram os
observadores sobre a possibilidade de estas eleições condicionarem
substantivamente as orientações políticas do governo federal. Afinal de contas,
durante os primeiros dois anos do seu mandato, Barack Obama contou com um
sólido apoio do Congresso (controlado pelos democratas desde 2006), que o
assistiu na aprovação de vários pacotes legislativos relevantes, como a reforma
do sistema de saúde norte-americano, a aprovação de um programa de estímulo
económico e de reformulação das organizações financeiras, entre outros. Face à
nova maioria republicana na Câmara dos Representantes, seria a Administração
obrigada a rever as suas pretensões?
Esta dúvida extrapolava os limites estritos da política doméstica (onde a
câmara baixa tem um papel preponresderante), estendendo-se mesmo à questão dos
assuntos externos. Com efeito, embora concentre na figura da Presidência as
prerrogativas essenciais desse domínio, o sistema constitucional norte-
americano distribui as competências de política externa por três órgãos
federais, juntando ao poder diplomático e militar do Presidente a intervenção
do Senado na discussão dos tratados internacionais e o importante papel da
Câmara dos Representantes na aprovação dos fundos a designar para equipamento
militar, missões internacionais e outras acções do país no exterior, cabendo
além do mais à câmara baixa a aprovação dos orçamentos federais ' o que lhe
permite condicionar decisivamente as orientações programáticas gerais da
Administração.
Deste modo, a existência de um cenário político-partidário modificado,
resultante das eleições intercalares, deu azo a diversas leituras relativamente
à hipótese de 2010 marcar um novo rumo na política externa norte-americana.
Alguns analistas disseram esperar da Administração Obama uma maior aposta na
política externa, traduzível quer na sua elevação a tema prioritário, quer numa
abordagem mais intervencionista dos Estados Unidos no palco internacional.
Estes observadores, como o editor do Journal of Transatlantic Studies, Alan
Dobson, ou o antigo conselheiro da National Security Agency, Paul Feaver,
recordaram dois casos históricos em que as eleições intercalares conduziram a
um reajustamento na estratégia presidencial: a situação de Bill Clinton, que
depois de uma derrota colossal dos democratas nas midterms de 1994 jogou grande
parte do seu prestígio político na condução de uma vigorosa agenda
internacional; e o caso de George W. Bush, que na sequência do desaire
republicano de 2006 demitiu o secretário da Defesa Donald Rumsfeld e inverteu a
sua estratégia na Guerra do Iraque, autorizando um reforço massivo de tropas
para conter a crescente insurreição naquele país2.
No entender destes analistas, quando um presidente enfrenta uma situação
doméstica gravosa, combinada com um cenário eleitoral desfavorável, é sua
tendência natural procurar compensar essa fragilidade com uma aposta robusta em
matéria de política externa, onde pode exercer a sua autoridade com menos
restrições e obter ganhos políticos que alterem a percepção da opinião pública
sobre as suas qualidades de liderança. Pois, como afirma Peter Feaver, «num
assunto de política externa, um Presidente deveras resoluto pode prevalecer
mesmo contra um Congresso oposicionista muito motivado»3. Segundo esta leitura,
dever-se-ia portanto esperar de Obama uma postura mais interventiva na política
externa, para contrariar a imagem de vulnerabilidade que a comunicação social
lhe tinha apensado e reafirmar o seu estatuto de líder reformista numa era de
crise.
Em sentido contrário, académicos reputados, como Charles Kupchan, ou diplomatas
da craveira de Aaron Miller, previram que os maus resultados eleitorais dos
democratas e a eminente fragilidade política do Presidente Obama levariam a
Administração a retrair-se ainda mais no plano externo, preferindo concentrar
as suas energias na política doméstica. Num artigo para a Foreign Policy com o
sugestivo título «Go small and stay home», Miller incentivou o Presidente Obama
a recentrar as suas prioridades no debate interno, pois só apostando numa
recuperação da economia e numa agenda reformista em áreas muito necessitadas
(saúde, educação) poderia obter triunfos políticos significativos.
Para o antigo diplomata no Médio Oriente, a política externa norte-americana
encontrar-se-ia demasiado condicionada por um cenário há muito corrompido,
tendo Obama herdado um conjunto de batalhas exteriores particularmente
delicadas (a Guerra do Afeganistão, a difícil situação do Iraque, um Médio
Oriente insolúvel, um Irão agressivo como nunca). Na sua relação com Hamid
Karzai, Ahmadinejad ou o Hamas, Obama «não encontrará grande consolo e
refúgio», escrevia Aaron Miller, para quem o momento actual da política externa
norte-americana não permitia acalentar vitórias políticas assinaláveis:
«O mundo herdado pelo Presidente, pelo menos no Médio Oriente e no Sul da Ásia,
não se define pela promessa de vitórias militares americanas conclusivas ou
acordos que ponham fim a conflitos de forma decisiva; os Estados Unidos já não
confrontam um mundo a preto e branco, mas cinzento ' com aliados corruptos e
tendentes a extorsões, inimigos determinados e muitas vezes indefinidos,
conflitos assimétricos, estados falhados ou quase falhados. Não existe aqui
grande espaço para heróis [...]»4.
Charles Kupchan chegava a conclusões semelhantes embora EUAndo premissas
distintas. Avaliando a correlação de forças em Washington decorrente das
eleições intercalares ' um Presidente democrata na Casa Branca, uma curta
vantagem democrata no Senado e uma clara maioria republicana na Câmara dos
Representantes ' o professor de Georgetown antevia que a política norte-
americana até ao final do mandato de Obama seria caracterizada genericamente
por sucessivos bloqueios aos processos decisórios, o que não poderia deixar de
tornar Washington «menos ambicioso no exterior»: «Tal sucede simplesmente
porque, em períodos nos quais democratas e republicanos são incapazes de obter
acordos políticos, a consequência típica é haver menos acção.»5
Muitos analistas recEUAram, porém, quer a previsão «intervencionista», quer a
antecipação de uma «retracção» da política externa norte-americana, antes
defendendo a ideia de que as eleições intercalares não iriam gerar
transformações significativas neste âmbito. Colunistas conhecidos como Leon
Hadar e Michelle Brooks, ou académicos como James Lindsay e Richard Haass,
consideravam que, apesar da alteração de domínio partidário no Congresso, os
Estados Unidos deveriam, no essencial, prosseguir a sua actuação no palco
internacional tal como definido pela Administração Obama desde Janeiro de
20096.
Tal continuidade poderia ficar a dever-se a questões institucionais (embora
partilhe competências com o Congresso, cabe ao Presidente conduzir os grandes
conflitos militares e liderar os processos diplomáticos ' a grande parcela da
«política externa» propriamente dita), motivos políticos (é mais fácil obter
acordos bipartidários na política externa, onde as decisões servem um pretenso
«interesse nacional» homogéneo, do que na política interna, onde convivem
leituras mais diversas sobre as prioridades legislativas a definir) ou a
estratégias eleitorais (os republicanos prefeririam dirigir a sua oposição para
temas mais populares, como a crise económica e o desemprego elevado), mas em
qualquer dos casos o desfecho deveria ser o mesmo: uma política externa
essencialmente inalterada.
CONSEQUÊNCIAS E AVALIAÇÕES
A existência deste género de opiniões contraditórias revela apenas quão difícil
é fazer análises prospectivas num âmbito tão complexo como a política externa,
especialmente se ela for tomada em sentido lato (integrando temas como
cooperação internacional, acções militares, comércio, imigração, alterações
climáticas, etc.). Ainda assim (ou talvez por isso mesmo), ao avaliarmos as
consequências das eleições intercalares na política externa norte-americana,
observamos que os vários cenários anteriormente descritos acabaram todos eles
por se concretizar parcialmente, produzindo transformações em alguns aspectos
(com mais intervencionismo ou mais retracção) e uma inalterabilidade noutros
tópicos.
Na verdade, em algumas matérias a existência de uma maioria republicana no
Congresso trouxe mudanças sob a forma de bloqueio à agenda política da
Administração Obama, em temas como a imigração e as questões ambientais
(designadamente as alterações climáticas).
O problema da imigração tem provocado acesos debates em Washington. Por um
lado, a existência de grandes fluxos migratórios para os Estados Unidos é uma
propriedade constitutiva da nação, tendo contribuído para o seu desenvolvimento
cultural, científico, social e humano. No entanto, a existência de um largo
número de imigrantes ilegais (estimado em cerca de 11 milhões) e a sua
concentração numa área geopolítica sensível (os estados que fazem fronteira a
sul com o México) requerem atenção premente.
Neste sentido, o Presidente Obama promoveu na fase inicial do seu mandato a
adopção de medidas que facilitassem a concessão de cidadania ou o aumento da
prestação de serviços estatais a vários imigrantes ilegais já radicados nos
Estados Unidos. Referimo-nos mormente ao «DREAM Act», um projecto-lei que
intentava conferir vistos de residência aos filhos de imigrantes ilegais que
frequentassem instituições de ensino superior ou o serviço militar, desde que
tivessem entrado no país na condição de menores de idade e não tivessem
cadastro. Concebido ainda em 2001, mas logo criticado e esquecido pela então
maioria republicana, o «DREAM Act» foi readmitido a debate no Congresso em
Março de 2009, cumprindo-se os desígnios da Administração que tomara posse
poucas semanas antes.
Embora rapidamente aprovado pela Câmara dos Representantes, o diploma sofreu
todavia uma oposição feroz por parte de vários senadores (sobretudo
republicanos), que o consideraram uma forma sub-reptícia de amnistia. Reforçada
pelos resultados eleitorais de 2010, a bancada republicana tem utilizado
repetidamente um mecanismo de obstrução (filibuster) para impedir uma votação
definitiva na câmara alta, condenando ao insucesso pacotes legislativos como o
«DREAM Act» e iniciativas semelhantes.
Em sentido inverso, os sectores republicanos vêm defendendo intensamente a
necessidade de controlar as inconveniências da imigração ilegal, recomendando o
incremento da acção policial e das manobras de vigilância, ora em relação
àqueles que se encontram já indevidamente nos Estados Unidos, ora a potenciais
imigrantes futuros. Inicialmente sugeridas apenas pelas franjas mais radicais
do Partido Republicano, estas posições severas têm contudo vindo a recolher
cada vez mais adeptos. A Administração Obama procurou concentrar a discussão
política na eventual extensão de benefícios aos imigrantes integrados no tecido
produtivo e social, mas a coesão e tenacidade da estratégia republicana tornou
predominantes no debate político as sugestões de teor repressivo contra esses
mesmos indivíduos7.
Na realidade, vozes até aqui «moderadas» têm vindo no último ano e meio a
radicalizar a sua posição, insistindo na necessidade de aumentar o controlo
policial das fronteiras, antes de se discutirem eventuais políticas de
assimilação dos imigrantes. Desde 2010 têm sido consideradas no Senado
propostas polémicas ' como a detenção de imigrantes suspeitos na base do
questionável método de racial profiling; ou o desejo expresso pelo senador
republicano John Boozman (eleito nas intercalares pelo Arkansas) de repelir o
14.º Aditamento à Constituição (a chamada equal protection clause) para assim
restringir os direitos de cidadania aos filhos de imigrantes ilegais que
todavia tenham nascido no país8.
Devido à sua posição minoritária (e antecipando um previsível veto do
Presidente Obama) a bancada republicana não conseguiu aprovar tais propostas,
mas foi politicamente bem-sucedida quer ao recentrar o debate sobre imigração
nas ideias de maior repressão policial e controlo fronteiriço, quer ao bloquear
as pretensões da Administração federal relativamente à integração dos
imigrantes ilegais.
Os resultados das eleições intercalares trouxeram dificuldades renovadas à
Administração Obama também no campo da legislação ambiental. Trata-se de uma
área onde o actual Presidente pretendia encetar transformações profundas,
promovendo leis rigorosas quanto à emissão de gases de estufa, incentivando a
utilização das energias renováveis, financiando programas de investigação para
o desenvolvimento de tecnologias não poluentes e estimulando uma acção
concertada entre as agências ambientais, as autoridades estaduais e as grandes
indústrias para combater as alterações climáticas. Durante a primeira parte do
seu mandato, Obama encontrou contudo grandes focos de resistência às suas
pretensões, quer no Congresso (mesmo contando com uma maioria democrata), quer
por parte de empresas influentes ' que alertam para os efeitos potencialmente
nocivos destas políticas ambientais no tecido económico norte-americano. Este
último argumento tem sido repetido sistematicamente pela maioria dos
republicanos, que vêem nas leis restritivas às emissões de gases poluentes um
ónus demasiado pesado para as empresas americanas, uma vez que as obriga ora a
pagarem pesadas multas pelo recurso a tais emissões, ora a investirem avultadas
somas para assentarem a sua produção em tecnologias «verdes».
Neste quadro, poucas foram as propostas da Administração federal a recolher um
apoio alargado no Congresso, com destaque para a recEUA do Senado em considerar
favoravelmente o ambicioso projecto-lei conhecido nos Estados Unidos como cap-
and-trade ' uma espécie de «mercado» de troca de emissões de gases poluentes
que incentiva economicamente as empresas e as indústrias a reduzir as ditas
emissões e a atingir uma maior eficácia energética. Este programa ' apresentado
sob a forma de um projecto-lei denominado «American Clean Energy and Security
Act» ' permitiria a introdução nos Estados Unidos de uma regulamentação
ambiental em tudo semelhante aos acordos estabelecidos no Protocolo de Quioto e
no Regime Comunitário de Licenças de Emissão da União Europeia (RCLE-UE), mas o
Senado federal nunca deu luz verde ao projecto, mesmo após a Câmara dos
Representantes o ter aprovado.
Com o aumento dos republicanos no Congresso ' entre os quais se encontra um
elevado número de opositores ao reforço da protecção ambiental por via
legislativa ' tornou-se virtualmente impossível a adopção deste género de
políticas. Ademais, podem até estar em caEUA os compromissos assumidos pela
Administração Obama no que concerne ao controlo das emissões de gases poluentes
' em virtude dos acordos informais estabelecidos nas cimeiras de Copenhaga e da
Cidade do México (que pretendem reduzir aquelas emissões em 17 por cento até
2020). Tal sucede porque os republicanos no Congresso têm vindo no último ano e
meio a contestar sistematicamente as actividades da epa (Environmental
Protection Agency), a qual impôs apertados regulamentos ambientais a várias
indústrias, supervisionando a exploração mineira de carvão e restringindo a
emissão de gases poluentes.
Nas palavras do congressista republicano Edward Whitfield, a «epa está a levar
a cabo uma alteração dramática da política energética e ambiental do país, que
produzirá ondas de choque na economia»9. Na mesma linha, um outro congressista
(Lee Terry) acEUA a epa de ser uma «agência trapaceira [rogue agency]», que
«cria regras de uma maneira rápida e furiosa, afectando a capacidade da nação
para gerar electricidade»10. Face a este género de declarações, não surpreende
que após as eleições intercalares tenham sido apresentadas várias propostas no
Congresso para limitar a intervenção daquela agência federal ' criando mais
obstáculos à agenda ambiental da Administração Obama.
Os resultados eleitorais de 2010 não trouxeram porém apenas más notícias para o
actual Presidente. Se em alguns temas a nova maioria republicana gerou
bloqueios consideráveis, noutras questões registou-se um espírito de
colaboração entre o Congresso e a Administração, porventura até mais forte do
que o vivido nos dois anos anteriores entre democratas e Obama. Assim sendo,
registam-se também aqui mudanças em resultado das eleições intercalares, já não
sob a forma de bloqueio (como os casos previamente mencionados), mas por via de
um novo apoio à agenda política da Casa Branca.
Os casos mais relevantes da reforçada cooperação entre republicanos e a
Administração federal ocorreram nas políticas comerciais (externas), na
intervenção norte-americana no Afeganistão e na estratégia antiterrorismo em
geral. O primeiro domínio refere-se ao desejo da Presidência em combater a
estagnação económica e uma balança comercial deficitária através da celebração
de diversos acordos bilaterais (mormente com a Coreia do Sul, o Panamá e a
Colômbia), promovendo as trocas comerciais com estes apetecíveis mercados. Uma
vez que tais acordos pressuporiam a extinção de certas tarifas proteccionistas,
os sindicatos norte-americanos encetaram duras críticas aos desejos da
Administração, a qual foi até final de 2010 incapaz de cortejar o apoio do
Partido Democrata (habitualmente alinhado com aqueles sindicatos) para os seus
desígnios.
Curiosamente, o reforço dos republicanos no Congresso por via das eleições
intercalares foi a chave para solucionar este impasse. Tradicionalmente
críticos de restrições artificiais ao funcionamento do mercado e adeptos de
doutrinas comerciais liberais, os republicanos tinham já demonstrado no passado
capacidade para colaborar com um Presidente democrata nesta matéria, auxiliando
Bill Clinton a aprovar mais de trezentos acordos comerciais bilaterais durante
a década de 1990, medidas essas que os especialistas consideraram vitais para
estimular a economia norte-americana.
Tal sucedeu novamente com a Administração Obama, tendo o Congresso validado os
referidos acordos em Outubro de 2011, que o Presidente logo de seguida
assinou11. Ao analisarmos a votação na Câmara dos Representantes, facilmente
compreendemos como foi decisivo o apoio da «nova maioria» republicana: os
acordos com a Colômbia, o Panamá e a Coreia do Sul receberam, respectivamente,
os votos favoráveis de 231, 234 e 219 republicanos e de apenas 31, 66 e 59
democratas12.
De igual modo, o actual Presidente beneficiou com o reforço da bancada
republicana no que respeita aos seus planos para a Guerra do Afeganistão.
Embora envolvido num cenário político interno complexo, marcado por uma divisão
profunda (ambicionando os democratas uma retirada rápida do país e os
republicanos uma presença militar mais vincada e duradoura), Obama sempre
pareceu estar mais próximo das pretensões republicanas, designadamente ao
considerar que os Estados Unidos necessitavam de fortalecer súbita e
consideravelmente o dispositivo militar no terreno para extinguir os focos de
resistência, bem como para pôr cobro à violência e corrupção gritantes no país.
A decisão de proceder a um aumento expressivo de tropas durante o ano de 2010
(mais 30 mil homens no terreno) concretizou essa estratégia, sob um coro de
críticas dos democratas, que durante a primeira fase do mandato de Obama
criaram vários obstáculos à alocação de fundos para o esforço de guerra no
Afeganistão.
Apesar de se ter mantido fiel à promessa de iniciar a retirada das tropas em
meados de 2011 (o que veio a ser anunciado formalmente em Junho desse ano), a
Administração continuou a defender o prolongamento das missões no terreno,
propondo incrementar as acções de contra-insurgência ' particularmente com
operações cirúrgicas de desmantelamento de células terroristas (EUAndo em
especial veículos aéreos não tripulados [drones]), recorrer à utilização de
dispositivos militares alternativos (como empresas privadas de segurança),
participar mais activamente nos esforços de nation-building (nomeadamente no
treino das forças policiais afegãs, bem como no estabelecimento de infra-
estruturas básicas no país) e ainda reforçar o combate às diversas formas de
corrupção existentes no Afeganistão.
Este plano multifacetado ' que já produziu alguns resultados salientes (a morte
de bin Laden, a destruição de vários centros operativos da Al-Qaida, o
enfraquecimento da insurreição afegã, entre outros) ' tem sido apoiado
principalmente pelas forças republicanas no Congresso, as quais, tanto por
motivos ideológicos (sendo defensores de uma política externa musculada), como
políticos (pois foram os principais apoiantes da Guerra do Afeganistão desde o
seu início, em 2001), estão mais próximas do roteiro traçado pela Administração
Obama do que as hostes democratas. Neste sentido, as eleições intercalares
impulsionaram os objectivos da Presidência, como previra no passado Max Boot
(especialista em defesa e segurança do Council on Foreign Relations):
«Até aqui [Outubro de 2010], os republicanos têm dado um sólido apoio ao
Presidente Obama no Afeganistão. A maior parte da oposição vem do Partido
Democrata. Com mais republicanos [no Congresso], podemos presumir que haverá
mais apoio para o esforço de guerra, o que é positivo. Isso enviará também uma
mensagem do poder americano para a região [...]; significativos ganhos
republicanos [nas eleições intercalares] serão um sinal da seriedade e do
compromisso americano, o que ajudará nesta matéria.»13
O facto de muitos congressistas e senadores republicanos terem conferido apoio
à Administração Obama não nos deve surpreender. Tal como referimos, o tema da
política externa ' porque assenta na defesa dos interesses da União norte-
americana ' presta-se por definição à existência de consensos políticos,
alicerçados em torno de um interesse nacional que importa acima de tudo
preservar. A este propósito, sirvam de exemplo os eventos ocorridos em torno do
novo Tratado start, o qual visa prosseguir políticas de não proliferação
nuclear, bem como reforçar os regimes de verificação e controlo no terreno
entre os Estados Unidos e a Rússia. Com efeito, este acordo promovido pela
Administração Obama (e assinado pelo Presidente em Abril de 2010) gozou do
patrocínio dos principais líderes democratas, mas pôde apenas ser aprovado
devido ao imprescindível apoio de 13 senadores republicanos, que o votaram
favoravelmente no fim de Dezembro de 2010 (possibilitando assim a necessária
maioria de dois terços dos votos no Senado).
Ademais, como alerta Alan Dobson, há um outro aspecto que tipicamente fomenta
este género de acordos bipartidários na política externa: a existência de um
complexo cenário político-económico nacional e internacional que exige um
elevado sentido de responsabilidade dos agentes políticos, potenciando o que o
professor de Dundee chama de «consensos induzidos por situações de crise»
[crisis-induced consensus]14. Trata-se de uma espécie de estado de excepção no
quadro político que reclama processos decisórios mais resolutos e transversais,
por oposição a cenários de divisão partidária ou demorados debates estratégicos
' usualmente mal recebidos pela opinião pública nas referidas situações de
crise política e económica severa, que têm dominado a agenda mediática nos
últimos anos.
A (re)introdução de lógicas consensuais no discurso e prática políticos, bem
como o apoio dos republicanos a várias opções da Administração Obama, levaram
assim a que diversos aspectos da política externa norte-americana tenham
permanecido essencialmente inalterados após as eleições intercalares. Tal
sucedeu em grande parte porque a política externa, como mencionámos, depende
maioritariamente do Presidente, o qual tem demonstrado neste domínio reger-se
por um pensamento estratégico de fundo. Efectivamente, a opção de Obama por uma
abordagem externa com grande enfoque diplomático ' sublinhando os mecanismos de
colaboração internacional, multilateralismo e estabelecimento de parcerias em
diversas regiões do globo ' surge como fruto de um planeamento estruturado e
não como mera reacção circunstancial a pressões momentâneas, sendo por isso
naturalmente propenso a uma continuidade.
O fio condutor desse pensamento centra-se na leitura de um novo equilíbrio de
forças em termos internacionais, que se sucedeu ao «bipolarismo» da Guerra Fria
e ao «unipolarismo » dos anos 1990 (quando os Estados Unidos emergiram como a
única superpotência mundial). Referimo-nos ao surgimento nos últimos anos de um
quadro multipolar, no qual os Estados Unidos partilham um lugar proeminente
juntamente com outros países de grande capacidade demográfica, altos índices de
crescimento económico e vincada relevância geopolítica (como o Brasil, a
Rússia, a Índia e a China)15. Trata-se de um peculiar cenário sobre o qual
Obama tem discursado e escrito em várias ocasiões, apelando à necessidade de os
Estados Unidos reconhecerem a emergência destas novas potências e de com elas
estabelecerem estratégias de cooperação, em vez de reagirem de modo agressivo e
unilateral, hostilizando aqueles e outros actores internacionais de relevo.
Recordemos a este respeito uma famosa intervenção de Obama na campanha
eleitoral presidencial de 2008:
«Estamos num momento decisivo da nossa história. Podemos escolher o caminho da
guerra interminável e da acção unilateral, e minar a nossa força e as nossas
posições. Podemos escolher o caminho do isolamento e ceder a nossa liderança.
Ou podemos enfrentar o medo e o perigo de cabeça erguida, com esperança e
força; com um propósito comum, com uma América unida, e com uma caEUA comum com
velhos aliados e com novos parceiros.»16
O que está em caEUA, segundo o actual Presidente, não é o desejo de que os
Estados Unidos se rendam a uma espécie de irrelevância internacional, mas antes
a necessidade premente de os norte-americanos se adaptarem a este novo quadro
internacional multipolar, procurando preservar uma posição dominante num
tabuleiro de xadrez onde várias peças se movem em simultâneo. Ora, no entender
de Obama, tal objectivo só poderá ser alcançado se os Estados Unidos se
envolverem numa lógica de diálogo com estas novas (e graduais) potências,
procurando compreender as suas prioridades e influenciar as suas decisões
estratégicas.
A aposta na criação de relações próximas com estes países, traçada pela
Administração Obama, não representa portanto uma dinâmica de resignação ou
retracção internacional, mas antes um reequacionamento do papel dos Estados
Unidos no mundo, manifestando o desejo de auscultar os (inevitáveis) parceiros,
pois sem a sua contribuição e/ou influência, os Estados Unidos ficariam numa
posição de fraqueza ao enfrentarem os grandes desafios do século xxi, como o
terrorismo, as alterações climáticas, a revitalização da economia mundial, o
combate à pobreza, o controlo de um agressivo Irão e de uma imprevisível Coreia
do Norte, etc.
Uma vez que este programa está solidamente organizado e assenta sobretudo no
trabalho diplomático (supervisionado exclusivamente pelo Presidente e seus
colaboradores próximos), os Estados Unidos prosseguiram uma abordagem
multilateral na política externa, independentemente do partido que dominava o
Congresso, transformando o G20 num fórum permanente de cooperação económica
(alargando os mais importantes círculos de decisão político-económica),
reforçando o seu peso diplomático no Sudeste Asiático (com a participação dos
eua na East Asia Summit, por exemplo) e encetando programas cooperativos com
rivais tradicionais como a Rússia e a China.
Este último caso, embora problemático (devido às discordâncias ideológicas
entre americanos e chineses, além de conflitos relativamente à política
monetária da China), mereceu particular atenção, tendo Hillary Clinton, a
secretária de Estado, insistido publicamente na necessidade de contrariar a
ideia de que a China constitui um «adversário » dos Estados Unidos, sendo ao
invés um importante parceiro económico, com quem os americanos «iriam trabalhar
arduamente para construir bases de entendimento em áreas com preocupações
comuns e oportunidades partilhadas»17.
No delicado caso da crise líbia, a Administração Obama excluiu igualmente a
possibilidade de uma intervenção unilateral, preferindo antes reabilitar o
papel das Nações Unidas (que com a Resolução do Conselho de Segurança 1973,
votada favoravelmente pelos Estados Unidos, sancionou futuros actos de acção
militar na Líbia), integrando posteriormente o auxílio dos Estados Unidos aos
rebeldes líbios no quadro geral da intervenção militar da nato naquele país.
Por outro lado, uma vez que a União Europeia é tida por Obama como um
interlocutor fundamental neste novo quadro internacional multifacetado, os
Estados Unidos procuraram também manter uma colaboração próxima com Bruxelas.
Alguns analistas sublinham que as relações transatlânticas são hoje preteridas
pelos Estados Unidos em favor das ligações com os países asiáticos ou com a
Rússia18, mas como referiu João Vale de Almeida (embaixador da ue nos Estados
Unidos) numa entrevista em 2010, «o mundo necessita que os Estados Unidos e a
União Europeia dialoguem de forma abundante e concordem no maior número de
assuntos possíveis, fortalecendo a sua relação»19. O Presidente Obama viria a
corroborar esta opinião no final de 2011, afirmando que os Estados Unidos
«apoiavam o projecto europeu e apoiavam o euro»20, manifestando o desejo de
colaborar de perto com as autoridades europeias para apaziguar tanto quanto
possível os efeitos nocivos da crise económica na esfera transatlântica.
INCÓGNITAS E DESAFIOS
Ao apreciarmos o impacto das eleições intercalares na política externa da
Administração federal, não devemos esquecer que algumas decisões tomadas na
«segunda fase» do primeiro mandato de Barack Obama terão sobretudo implicações
de médio ou longo prazo. Ainda que as eleições de 2010 não tenham levado a
alterações radicais imediatas na política externa norte-americana, pode suceder
portanto que as conquistas republicanas nessas eleições (especialmente se forem
mantidas e/ou reforçadas em 2012 e 2014) venham a ter importantes repercussões
no futuro. Embora não pareça prudente dizê-lo desde já, é pois possível que o
ciclo eleitoral de 2010 venha a ser visto como um momento decisivo na
(re)definição da política externa dos Estados Unidos.
Referimo-nos em particular ao desejo da Administração ' fortemente instigada
pelos republicanos ' em reduzir consideravelmente os gastos federais nas áreas
da defesa e da política externa, de forma a combater a galopante dívida pública
dos Estados Unidos, bem como os seus crescentes défices. Tal pretensão figura
nos principais documentos estratégicos emitidos pela Presidência, que aposta
numa «revisão fundamental» da intervenção norte-americana nos cenários
internacionais (tomada em sentido lato), através da redução de uns
impressionantes 400 mil milhões de dólares em gastos no sector da defesa21. O
Congresso apoia genericamente estas orientações, tendo por sua vez sugerido
diminuir a habitual concessão de verbas emanada da câmara baixa federal para o
Pentágono e apresentado documentos orçamentais que circunscrevem os fundos
existentes para várias missões internacionais.
Com o patrocínio (e a pressão) do Congresso, a Administração federal tem vindo
assim a pôr em prática um vasto plano de contenção financeira no âmbito da
política externa, que começou por aplicar cortes na ajuda a países em
desenvolvimento (em programas de educação, assistência humanitária e oferta de
serviços de saúde), mas que prevê no médio prazo consignar igualmente
limitações aos gastos com programas de nation-building em áreas
intervencionadas pelos Estados Unidos, reduções dos efectivos militares em
vários continentes (nomeadamente nas bases europeias e em outras zonas
actualmente sem conflitos bélicos), diminuição dos gastos em operações de
vigilância, limitação do corpo diplomático, entre outras medidas de teor
semelhante.
Ainda que compreensíveis à luz da crise económico-financeira que abala de forma
particular o mundo ocidental, estas orientações têm implicações severas em toda
a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos
estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos essas implicações são
sobretudo simbólicas (a redução de bases militares na Europa, por exemplo),
noutros elas significam uma efectiva retracção da influência norte-americana,
que pode comprometer os seus interesses futuros em áreas estratégicas vitais
(designadamente o Médio Oriente e a Ásia) ' como tem sublinhado Robert Kagan:
«devem culpar-se tanto a Administração Obama como o Congresso [...] por
elaborarem uma estratégia orçamental de Defesa que não é comensurável com os
objectivos e interesses estratégicos americanos. [...] Caso não sejam
invertidos, os cortes profundos que ameaçam a Defesa irão minar de forma
prolongada a posição dos Estados Unidos no mundo. Eles irão mesmo prejudicar os
esforços da Administração Obama para transformar os Estados Unidos num
interveniente mais consistente na Ásia»22.
Ao reduzirem a margem de manobra das autoridades americanas no palco
internacional, os cortes previstos poderão abrir as portas a renovadas posições
de força de competidores imprevisíveis (sendo a China e o Irão os casos mais
evidentes), que certamente anseiam por um enfraquecimento da posição americana
para afirmarem as suas pretensões estratégicas, as quais contemplam uma agenda
económica, mas também objectivos políticos, territoriais e militares. Não será
necessário insistir para os potenciais riscos inerentes a tal situação de
instabilidade em zonas sensíveis do globo, nem para as eventuais consequências
globais de um reenquadramento do contexto internacional assente na progressiva
diminuição da influência norte-americana.
Embora primariamente delineado pela Administração Obama, este reposicionamento
estratégico tem uma relação mais próxima com as eleições intercalares do que um
primeiro olhar sugere, dado que o núcleo de apoio fundamental a estas
restrições financeiras reside precisamente na bancada republicana, alargada em
2010 com fervorosos defensores de uma política de contenção nos gastos da
Defesa23. A maioria está associada ao Tea Party, que apesar da sua diversidade
e descentralização organizativa, conjuga uma mensagem intransigente no domínio
do conservadorismo fiscal com um discurso predominantemente isolacionista na
política externa.
No entender de Michael Gerson, trata-se de uma nova geração de políticos,
ansiosa por actualizar os princípios do «jacksonianismo» (uma das quatro
grandes tendências ideológicas dos norte-americanos no domínio da política
externa, a par do «hamiltonianismo », o «jeffersonianismo» e o «wilsonianismo»,
segundo o historiador Walter Russel Mead24). Quais os seus princípios? Em
traços largos, uma curiosa mescla de nacionalismo, populismo e isolacionismo,
alicerçada numa crença inabalável na superioridade moral dos Estados Unidos e
na desconfiança das instâncias internacionais, às quais porém juntam um vincado
anticentralismo e um ardente desejo de conter as despesas de Washington também
no campo da defesa. Numa das ironias em que a política é frequente, este grupo,
caracterizado por uma veemente aversão ao Presidente Obama, tem sido um
importante aliado da Administração no delineamento do novo quadro de restrição
financeira na política externa dos Estados Unidos.
A eleição de vários congressistas e senadores associados ao Tea Party adensou
um fenómeno que a jornalista e historiadora Anne Applebaum designou de
«desaparecimento dos moderados»25. Na realidade, a radicalização do discurso
político nos últimos anos tem afastado dos partidos personalidades
tendencialmente «centristas», substituídas por figuras polarizadoras, que se
impõem pelo seu discurso polémico e muitas vezes populista. Durante décadas
confinados a cargos menores ou a posições ideológicas minoritárias, estes
políticos têm assumido uma crescente preponderância nos dois principais
partidos norte-americanos, conferindo uma maior agressividade ao debate
político em Washington.
Efectivamente, é hoje comum encontrar em lugares proeminentes figuras como
Ileana Ros-Lehtinen, a actual presidente do House Committee on Foreign Affairs,
conhecida pelas suas posições radicais em política externa. Feroz advogada de
um conservadorismo fiscal, esta congressista republicana da Florida defende a
redução dos serviços diplomáticos e a limitação das missões humanitárias '
«estratégias falhadas enraizadas na arcaica abordagem pós-Segunda Guerra
Mundial»26, nas suas palavras. Ao mesmo tempo, Ros-Lehtinen é defensora de uma
política externa agressiva, recomendando a adopção de sanções políticas e
económicas à China, uma intervenção militar no Irão e a rejeição de qualquer
diálogo com o regime cubano (pretendendo limitar os voos de americanos para
Cuba e taxar fortemente o envio de dinheiro para esta ilha)27.
Até ao momento, Obama tem resistido a este tipo de discurso virulento, mas
permanece uma incógnita, que é a de saber de que forma a generalização
mediática e política de tais doutrinas poderá conduzir a alterações relevantes
no posicionamento da Administração até ao final deste ano (e para além dele,
caso Obama obtenha um segundo mandato), em matérias delicadas como a política
para o Médio Oriente ou as relações com o Irão, entre outras. Até porque a
opinião pública parece alinhar com aquele argumentário agressivo, colocando
(ainda) maior pressão à Presidência, que tem seguido uma simples táctica de
contenção (para isolar internacionalmente o Irão, contando com o apoio da
Rússia para controlar a circulação de material nuclear). Com efeito, segundo as
sondagens mais recentes, 61 por cento dos americanos identificam a ameaça
iraniana como «crítica»; 56 por cento defendem que os Estados Unidos devem
atacar o Irão caso existam provas de que estão a ser construídas armas
nucleares nesse país (39 por cento são contra); 54 por cento dos inquiridos
receiam que as autoridades americanas tenham já demorado demasiado tempo a
agir; 62 por cento consideram que os Estados Unidos devem estar ao lado de
Israel caso este país decida bombardear o Irão; e quando questionados sobre a
nação cujo poder militar mais receiam os inquiridos responderam em primeiro
lugar «Irão», à frente de outras potências aparentemente mais relevantes como a
China ou a Rússia28.
No contexto de uma reflexão prospectiva, não devemos ignorar a importância da
opinião pública ' a qual «define limites a todo o governo, e é o verdadeiro
soberano em todos [os governos] livres», nas famosas palavras de James
Madison29. Na realidade, apesar de os governantes beneficiarem de uma
(necessária) autonomia operativa, continuam a estar dependentes do juízo
popular, sendo permanentemente forçados a ajustar as suas posições em função
dos interesses do eleitorado.
Ora, os estudos de opinião revelam uma sociedade norte-americana mergulhada no
pessimismo, frustração, impaciência e enorme incerteza. Os dados recolhidos nas
eleições intercalares de 2010, através de sondagens à boca da urna, são
conclusivos: 73 por cento dos eleitores estavam insatisfeitos com o governo
federal, 90 por cento descreviam o estado da economia como «mau» ou «péssimo»,
61 por cento consideravam que o país «está no rumo errado» ' dados que pouco ou
nada mudaram até ao momento. Até os números relativos à política externa (uma
área onde a acção governativa é tendencialmente elogiada pelos eleitores,
quando comparada com a política doméstica) mostram um descontentamento geral e
sobretudo uma apreensão vincada face aos desafios futuros30.
Perante tais dados, facilmente percebemos que uma das mais difíceis tarefas da
próxima administração ' seja ela chefiada por Obama ou um outro candidato
vencedor em Novembro de 2012 ' será lidar com a imensa pressão de uma opinião
pública particularmente susceptível e potencialmente imprevisível, face a um
desolador e persistente cenário político interno e externo. A nosso ver, este
contexto explosivo exige do governo federal uma cabal demonstração das suas
virtudes políticas, resistindo aos impulsos radicais do momento e traçando um
plano de acção estratégica ponderada. No domínio da política externa, isso
significa, acima de tudo, aprender com as lições do passado (e a década de 1930
é aqui a referência máxima), rejeitar a tentação fácil do proteccionismo
comercial ou do isolacionismo político, recEUAr acções militares desnecessárias
e procurar soluções concertadas com os parceiros internacionais. É um desafio
de monta, reconheçamos. Mas como dizia o grande revolucionário Thomas Paine31,
«estes são os tempos que põem à prova as almas dos homens»...
NOTAS
1
A pedido do autor este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Cf. Dobson, Alan ' «What could the us mid-term election results mean for
nato?», Disponível em: http://www.nato.int/docu/review/2010/View-America/US-
Mid-Term-Election/EN/index.htm; Feaver, Peter ' «What are
foreign-policy consequences of the midterm election results?». Disponível em:
http://shadow.foreignpolicy.com/posts/2010/11/03/
what_are_foreign_policy_consequences_of_the_midterm_election_results?wpisrc=obnetwork
[consultados em 07/05/2012].
3
Cf. Feaver, Peter ' «What are foreign-policy consequences of the midterm
election results?».
4
Miller, Aaron ' «Go small and stay home». InForeign Policy. Disponível em:
http://www.foreignpolicy.com/articles/2010/11/01/go_small_and_stay_home
[Consultado em: 7 de Maio de 2012] .
5
Kupch an, Charles, citado por Lobe, Jim ' «Obama foreign policy likely to face
Republican challenges». Disponível em: http://ipsnews.net/
news.asp?idnews=53453. [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
6
Cf. Hadar, Leon ' «Post-midterms foreign policy: will they make a difference?
». Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/leonthadar/post-midterms-
foreign-pol_b_771962. html; Brooks, Michelle ' «No major foreign policy shift
after u.s. midterm election ». Disponível em: http://
archives.uruguay.usembassy.gov/EUAweb/2010/10-208EN.shtml; Lindsay, James
citado por Cook, Steven ' «The midterm elections and mideast foreign policy».
Disponível em: http://blogs.cfr.org/cook/2010/11/03/the-midterm-elections-and-
mideast-foreign-policy Haass, Richard ' «American foreign policy after the mid-
term elections ». Disponível em: http://www.project-syndicate.org/commentary/
haass33/English [todos consultados em: 7 de Maio de 2012].
7
Sirva de exemplo a famosa lei aprovada no Arizona («Support Our Law
Enforcement and Safe Neighborhoods Act»), que obriga todos os estrangeiros a
transpor tarem permanentemente consigo documentos que provem estarem legalmente
naquele estado, pune severamente quem der abrigo ou transporte a imigrantes
ilegais, e confere uma autoridade discricionária às forças de segurança, uma
vez que estas podem revistar qualquer indivíduo que considerem suspeito de ser
um imigrante ilegal, em qualquer circunstância e sem um mandado judicial.
8
Cf. Rawlins, Aimee ' «Immigration and the midterm elections». Disponível em:
http://www.cfr.org/publication/23225/immigration_and_the_midterm_elections.html
[Consultado em: 7 de Maio de 2012] .
9
http://www.reuters.com/article/2011/03/04/us-epa-emissions-bill-
idUSTRE7226UJ20110304.
10
Cf. http://www.foxnews.com/politics/2011/09/23/house-gop-passes-bill-
targeting-epa-regulations/#zz1tH6N2TDL.
11
Cf. http://iipdigital.usembassy.gov/st/english/inbrief/2011/10/
20111021123055eiznekcam0.9893152.html#axzz1tI0MskPq [Consultado em: 7 de Maio
de 2012].
12
Cf . http://en.mercopress.com/2011/10/13/us-congress-approves-free-trade-
agreements-with-colombia-panama-and-s-korea [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
13
Boot, Max ' «The road to negotiations with Afghanistan». Disponível em: http:/
/www.cfr.org/publication/23171/road_to_negotiations_in_afghanistan.html
[Consultado em: 7 de Maio de 2012] .
14
Cf. Dobson, Alan ' «What could the us mid-term election results mean for nato?
». Disponível em: http://www.nato.int/docu/review/2010/View-America/US-Mid-
Term-Election/EN/index.htm [Consultado em: 7 de Maio de 2012] .
15
Sobre este assunto, cf. Zakaria , Fareed 'O Mundo Pós-Americano. Tradução
portuguesa. Lisboa: Gradiva, 2008.
16
Obama, Barack ' «Discurso de 19 de Março de 2008». In Olive, David (org.) '
Uma História Americana: Os Melhores Discursos de Barack Obama. Lisboa: Esfera
do Caos, 2008, pp. 275-276.
17
Hillar y Clinton em declarações à imprensa a 17 de Fevereiro de 20 09.
Disponível em: http://www.theaustralian.com.au/news/clinton-reaffirms-japanese-
alliance/story-e6frg6t6-1111118873910. [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
18
Cf. Raposo, Henrique ' Um Mundo sem Europeus. Lisboa: Guerra e Paz, 2010 (bem
como a ampla bibliografia citada no livro a este propósito).
19
Cf. entrevista de João Vale de Almeida ao Deutsche Welle, 12 de Novembro de
2010. Disponível em http://www.dw-world.de/dw/article/0,,6221014,00.html.
[Consultado em: 7 de Maio de 2012].
20
Barack Obama em conferência de imprensa de 24 de Novembro de 2011. Disponível
em: http://www.businessweek.com/news/2011-11-24/obama-says-firewall-needed-to-
show-europe-stands-behind-euro.html [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
21
Cf. http://www.defence.pk/forums/military-forum/103687-EUA-defense-spending-
cut-us-400-billion-2023-a.html; http://www.defense.gov/news/
Defense_Strategic_Guidance.pdf; http://www.cfr.org/defense-strategy/panettas-
remarks-defense-strategic-review/p26978. [Consultados em: 7 de Maio de 2012].
22
Kagan, Robert, entrevista à Foreign Policy. Disponível em: http://
www.foreignpolicy.com/articles/2012/01/23/
grading_obama_s_foreign_policy?hidecomments=yes. [Consultado em: 7 de Maio de
2012].
23
A este respeito, os republicanos enfrentam um complexo dilema, relativo ao seu
desejo de harmonizar medidas de austeridade interna com uma política externa
eminentemente robusta, que necessita de fundos chorudos. Na realidade, insistir
na necessidade de limitar as verbas destinadas à defesa enfraqueceria
severamente a imagem do Partido Republicano como a força política
tradicionalmente mais preocupada com os temas da segurança e da afirmação
externa dos Estados Unidos ' imagem essa que demorou décadas a construir e que
lhe vale hoje uma impor tante parcela do eleitorado norte-americano.
24
Cf. Gerson, Michael ' « A post-midterm look at u.s. Foreign Policy».
Disponível em: http://newsok.com/article/3512487 [Consultado em: 7 de Maio de
2012] . Cf. também o livro de Mead, Walter Russell ' Special
Providence: American Foreign Policy and How it Changed the World. Nova York:
Routledge, 2002.
25
Cf. Applebaum, Anne' «The disappearance of the moderate moderates». Disponível
em: http://fullcomment.nationalpost.com/2010/10/27/anne-applebaum-the-
disappearance-of-moderate-moderates/ [Consultado em: 7 de Maio de 2012] .
26
Ileana Ros-Lehtinen, comunicado oficial emitido a 8 de Dezembro de 2010.
Disponível em: http://republicans.foreignaffairs.house.gov/
press_display.asp?id=1657. [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
27
No essencial, estamos pois perante uma recuperação do discurso neoconservador
seguido pela anterior Administração Bush, como atestam as seguintes afirmações
de Ros-Lehtinen: «My worldview is clear: isolate and hold our enemies
accountable, while supporting and strengthening our allies. I support strong
sanctions and other penalties against those who aid violent extremists,
brutalize their own people, and have time and time again rejected calls to
behave as responsible nations. Rogue regimes never respond to anything less
than hardball», Ileana Ros-Lehtinen, comunicado oficial emitido a 8 de Dezembro
de 2010. Disponível em: http://republicans.foreignaffairs.house.gov/
press_display.asp?id=1657. [Consultado em: 7 de Maio de 2012].
28
Cf. http://www.pollingreport.com/iran.htm;http://www.gallup.com/poll/125996/
View-Iran-Critical-Threat-Interests.aspx. [ambos consultados em: 7 de Maio de
2012].
29
Madison, James ' Public Opinion [1792], Papers of James Madison, vol. 14,
University Press of Virginia, p. 170.
30
Cf. http://edition.cnn.com/ELECTION/2010/results/polls/#USH00p1; http://
www.gallup.com/tag/Presidential%2bJob%2bApproval.aspx e ainda http://
www.gallup.com/poll/151628/congress-ends-2011-record-low-approval.aspx
[Consultados em: 7 de Maio de 2012].
31
Paine, Thomas ' The American Crisis I. In Collected Writings. Nova York:
Library of America, 1995, p. 91.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
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