«Visões» e «visionários»
«Visões» e «visionários»
René Pélissier
Historiador. Autor de Les campagnes coloniales du Portugal, 1844-1941 (2004) e,
com Douglas L. Wheeler, História de Angola (Tinta-da-China, 2009).
Em francês ' e na sua tradução portuguesa ' as palavras «visões» e
«visionários» foram em tempos vocábulos com sentidos múltiplos, por vezes
ambíguos, mas que não colonizavam perigosamente as nossas línguas. Depois
vieram os americanos e, por percolação, os anglófonos em geral. O fenómeno
tornou-se contagioso entre os especialistas da comunicação, sempre em busca de
novos ditirambos cada vez mais lisonjeadores para os seus clientes. Atualmente
é difícil ler, seja em que língua for, qualquer publicidade, discurso de um
presidente-diretor-geral ou de um homem político de terceira ou quarta
categoria, de um criador de moda ou de perfumes, ou mesmo o relatório de um
simples banqueiro no meio da crise mundial, onde não seja invocada uma «visão»
transcendente que habita estes «visionários», de quem se quer ganhar favores e
sobretudo orçamentos. Todos procuram um grama de notoriedade pública.
Iremos fugir deste psitacismo internacional e, se encontrarmos «visões» de
vários tipos, será sem procurarmos, a todo o preço, nos livros evocados
adiante, «visionários». Na nossa humilde opinião, seria de aconselhar aos
«comunicantes» do início do século xxi a leitura atenta da enorme tese de
doutoramento de Estado (mais de 2800 densas páginas) do historiador Jean-Marc
Delaunay. Se lhe sobreviverem, verão o que é, e o que deveria ser no futuro, a
visão de um investigador obstinado em abraçar exaustivamente o seu objeto sem
se preocupar com qualquer glória mediática. A sua glória não é monetária e é
finita, mas é provável que dentro de trinta ou mais anos nos rendamos à
evidência: o monólito continuará inigualado. O autor consagrou talvez vinte
anos da vida a descortinar, como nunca antes fora feito, as relações franco-
espanholas do fim do século xix até à I Guerra Mundial. Isto reconcilia-nos com
o trabalho obscuro e mesmo ingrato dos historiadores, numa época em que os mais
hábeis de entre eles se fazem eleger para a Academia Francesa à custa da
compilação de trabalhos anteriores e exteriores, temperados ao gosto do
momento: repetição e mesmo aliciamento bem (ou mal) escrito. No seio da
universidade francesa é encorajada, agora, a minitese, sucedânea do Ph.D,
redigida à pressa, rapidamente esquecida mesmo se publicada. Uma coisa é certa:
Méfiance cordialenão será esquecido no círculo estreito dos especialistas das
relações internacionais em Espanha. Mais de 2800 páginas sobre, grosso modo,
quinze anos não particularmente cruciais na história diplomática bilateral da
Espanha e da França não se justificam se não admitirmos a visão global de
Delaunay. Drenou os arquivos para o período 1898-1913. Eo que é que lhe
interessa? Tudo! Políticas internas, questões militares, coloniais,
estratégicas, económicas, migratórias, culturais, etc.
Perante a imensidão de riquezas, escolhemos o volume ii1, onde se dissecam os
interesses ultramarinos de Paris e de Madrid, nas metrópoles e nos territórios
onde estão em contacto. Por vezes os interesses são conflituais, ainda que
maioritariamente abafados. Há centenas de páginas sobre os seus cidadãos na
Ásia (após a perda das Filipinas) e no Magrebe Central e Oriental (sobretudo na
Argélia). A maior parte do volume, contudo, é dedicada a Marrocos, com as
rivalidades locais no contexto da crise franco-alemã de 1911, antes de se
chegar ao acordo de 1912 entre Paris e Madrid, e depois com o início das
ocupações dolorosas de Marrocos, sem esquecer o pomo de discórdia de Tânger,
antes de se conseguir uma aproximação desconfiada. O capítulo ix, de 55
páginas, é, na nossa opinião, o mais original, pois esclarece as disputas
franco-espanholas no Sara e na África Equatorial, tema raramente estudado antes
de Delaunay.
O autor terá passado muitos anos a ler toda a correspondência diplomática nas
duas capitais e fora delas e, devido a esta filtragem, não pôde conceder a
mesma atenção às populações do Rio Muni colocadas perante colonizadores
indecisos e que se sentem espoliados (Espanha), saciados (França) ou ávidos e à
espreita (Alemanha). Seja como for, trata-se de um trabalho titânico de que não
existe equivalente minucioso no domínio franco-português, mesmo se alargarmos o
período coberto a todo o século xix colonial (até 1914 e mais além). Procuram-
se então candidatos sérios, tentados pelo assunto e sem preconceitos
nacionalistas. Mas quem é que os irá subvencionar no longo prazo (provavelmente
entre dez a quinze anos)?
Fiquemos na África Central tornada hispanófona com uma outra visão, assente na
vontade de enriquecer, disfarçada por um fino verniz de luta contra um «tirano»
africano. É um vasto programa, na verdade, que nos conduz pelo mundo
subterrâneo de antigos militares dos serviços especiais da Grã-Bretanha, da
África do Sul e até de Israel, financiados por personagens e redes duvidosas
com grande habilidade para se interessarem pelos antigos impérios português ou
espanhol. Se tiverem petróleo, claro está. Muito petróleo! Não nos preocupemos
demasiado então em saber se os dadores são «visionários» ou não. Oque conta é o
que põem em cima da mesa. O livro de Simon Mann é um bom produto desta forma de
comunicar com o grande público, ao esperar vender a sua história. Ea sua
história tem complôs, educação nas melhores escolas britânicas, carreira
militar prestigiada, família de oficiais oriundos de uma grande dinastia de
fabricantes de cerveja, cujo filho inexplicavelmente se vira para a criação de
uma empresa de fornecimento de mercenários de alta gama, e traição, detenção e
depois encarceramento durante cinco anos numa prisão muito dura em Harare
(Zimbabué) e numa outra em Malabo (na Guiné Equatorial), curiosamente descrita
como suportável!
Cry Havoc2 é um livro vítima dos maus hábitos ganhos nestas sociedades de «cães
de guerra». A essência das suas atividades resume-se a correr atrás de um
cliente que necessita de equipas de especialistas em combate rápido, capazes de
lutar contra os rivais prestes a tomar o poder, em Angola, na Serra Leoa, etc.,
ou, mais raramente, de depor, ex-nihilo, um governo. Por isso, para este género
de autores, as preocupações cronológicas dos historiadores são risíveis. O
leitor começa o texto em 2003 com a preparação de um golpe de Estado entre os
fangsda Guiné Equatorial em plena euforia petrolífera. Depois salta-se para
1993, quando o autor se bate com os sul-africanos contra a unita no Soyo, a
pedido das grandes companhias petrolíferas e do mpla, o inimigo jurado dos sul-
africanos entre 1975 e 1988. Voltamos a partir para 2004 e para o fiasco da
operação contra Malabo. Outro defeito é a abundância de siglas e de
abreviaturas de dezenas de nomes de protagonistas, que torna a leitura desta
apologia um penoso exercício na corda bamba.
Mesmo assim são abordados: 1.º ' os mecanismos da preparação de um golpe de mão
internacional contra uma ditadura; 2.º ' a ignorância extrema dos meios
financiadores destes aventureiros, que se fiam nos preconceitos racistas das
suas castas (public schools, serviços secretos, petrolíferas, etc.); 3.º ' as
operações contra o Soyo em 1993 (umas trinta páginas) e a aquisição de
armamento soviético entre os escombros do império russo; 4.º ' as relações com
a ou as flec de Cabinda, que lograram obter 600 mil dólares de Simon Mann em
troca da libertação dos reféns capturados durante uma tentativa de extração
mineira no enclave (1997); 5.º ' os confortos da prisão de Black Beach, bem
menos sórdida do que a frequentada durante quase quatro anos no Zimbabué. Mann
ficará entre os esbirros do Presidente O biang de fevereiro de 2008 até ao fim
de 2009, sendo finalmente perdoado e libertado pelo «tirano» que pretendia
derrubar. Talvez este general seja também ele um «visionário», como o tio que
mandou fuzilar em 1979. Se Simon Mann não ficou mais ajuizado com a idade e a
velhice, podemos indicar-lhe outros dois ou três nomes de tiranos africanos.
Alguns têm mesmo petróleo, ou esperam tê-lo em breve.
Um autor com uma visão global do que deveria ser uma grande bibliografia
africana é o incontornável Max Liniger-Goumaz3. Já vai no décimo sexto volume
de referências, recolhidas um pouco por todo o lado na maioria das línguas
europeias. A este ritmo, em breve atingirá 80 mil entradas; não é uma ideia
fixa, tornou-se uma missão obsessiva. Mas quem se aproveitará disso na Guiné
Equatorial, onde a maioria dos livros do geógrafo suíço estão no índex dos
livros proibidos? Porque é que escreve o adjetivo à portuguesa? Mais um golpe
de força da cplp (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) junto das
tipografias de Genebra?
Já que estamos nas margens do lago Léman, continuemos com um livro de título
cativante: La Suisse coloniale4. O seu autor dispendeu uma energia notável a
provar que os compatriotas eram tão racistas em relação aos africanos quanto os
contemporâneos dotados de territórios ultramarinos. Paradoxalmente não existiam
praticamente negros na Suíça e o número de nacionais da Confederação em África
(sobretudo no Congo depois belga e na África Austral, com alguns punhados de
empregados ou de missionários noutros sítios) era insuficiente para orientar
num sentido negativo a opinião nacional, no regresso. O paradoxo é apenas
aparente, pois não é necessário ter contactos com este ou aquele membro da
espécie humana para o desprezar: basta respirar o ar dos tempos, e as montanhas
suíças nunca o impediram de se propagar. Ou seja, sem colónias podemos tornar-
nos, apesar de tudo, num colonizador inocente e satisfeito com a sua
superioridade.
Patrick Minder dá-nos, assim, uma tese que derruba portas abertas, mas fá-lo
com método e encarniçamento. Após explicar quais são os agentes que transmitem
na Suíça as imagens do africano, ataca a sua representação enviesada (por
exemplo: os zoos humanos) e sobretudo a difusão do discurso colonial (os média,
a publicidade, os postais, as histórias engraçadas, o desenho humorístico,
etc.). De uma forma sistemática analisa detalhadamente o conteúdo da mensagem
(a paisagem africana, a vida dos indígenas, a sua «inferioridade», a sua
«bestialidade», a sua «animalidade», a sua «estupidez», etc.).
Notamos que a iconografia utilizada (e provavelmente a mais representativa) é
maioritariamente alemânica, e romanda em segundo lugar. Pouco existe do lado
dos italianófonos. Definitivamente, a impressão com que se fica é que o suíço
vulgar da época se sentia confortado na sua superioridade do homem branco, sem
nunca ter sequer visto na vida uns vinte negros. A imigração africana
(sobretudo para a zona francófona) terá modificado em profundidade esta visão?
Curiosamente, o autor não atribuiu grande importância aos livros dos
«exploradores» ou simples viajantes suíços na formação dos estereótipos que
denuncia. É provável que o seu papel não fosse tão decisivo quanto o da
imprensa local, mas mesmo sem colónias os suíços ocuparam um lugar notável na
«descoberta» da África pelos europeus, se os compararmos com outras
nacionalidades autocentradas, que posteriormente brandem o estandarte meio
desfiado da amizade entre os povos.
Quem melhor do que uma jornalista-vedeta da televisão, não africanista
profissional, para influenciar a visão que os alemães têm de África? Não haverá
muita gente, de tal maneira o audiovisual invadiu a nossa perceção do Outro.
Marietta Slomka efetuou uma reportagem em 2010 e sobre os cinco países
visitados contentar-nos-emos em relatar o que diz de Angola (pp. 141-184) e de
Moçambique (pp. 185-235). Não conhecemos aquilo que mostrou aos
telespectadores, mas o que escreveu em livro5 é muito pessimista sobre a
sociedade luandense. Contrasta a pobreza dos camponeses deslocados com a
ostentação dos novos ricos, na cidade «mais cara do mundo». Aconselhamos os
responsáveis do turismo e da propaganda angolana a ler o livro, a fim de
saberem o que não se deve fazer se pretendemos passar uma imagem positiva.
Visita o musseque de Samba, mas a polícia política proíbe-a de filmar. Nenhum
(?) jornalista local deseja comunicar com a sua equipa! Que faz ela? Encontra-
se com representantes de organizações não governamentais e de opositores
políticos. Daqui resulta uma crítica virulenta ao Presidente e aos que o
rodeiam (pp. 150-152), apoiados por homens de negócios e governos estrangeiros
visto que asseguram a estabilidade dos investimentos. Não é ela que se vai
acantonar na bolha dos expatriados, surdos e cegos enquanto estão no país. Não
corre riscos, está de passagem. Por isso utiliza todas as armas ao seu alcance,
como boa moralizadora chocada. Três polícias exigem-lhe dois mil dólares por
deitar beatas para o chão de um parque de estacionamento. O intérprete
português negoceia e em meia hora obtém uma redução para 60 euros, em dinheiro
e sem recibo. Slomka, falsa ingénua, aproveita para se espantar que um Estado
petrolífero tão rico não possa pagar decentemente aos seus funcionários, e vê-
se assim constrangida a fechar os olhos à «pequena» corrupção, pois a grande
está no poder. Num país como a Alemanha, que se esforça por viver na retidão, o
efeito desta viagem ao próprio coração da sua antítese não pode ser senão
devastador para Angola.
Slomka é menos ' um pouco menos ' ácida em relação a Moçambique, onde se
sacrifica ao turismo e mesmo à ecologia, mas não é indiferente à pobreza que a
rodeia. Não gosta demasiado de Maputo, que dilapidou o seu património urbano, e
parte, não sem arremessar uma última flecha aos corrompidos do aeroporto que
extorquem os estrangeiros. Os dois grandes palop não têm uma boa imagem junto
da jornalista e, depois, junto de alguns milhões de espectadores. Que podem
fazer os álbuns fotográficos financiados pelas autoridades para inverter esta
imagem? Mudar de máscaras, de diplomatas ou de fotógrafos? De mentalidade e de
comportamento, claro está. Mas será isto suficiente quando não temos a certeza
que os substitutos serão virtuosos, uma vez ao comando? Há com que desiludir os
leitores de La Suisse coloniale.
Sem querer absolver ninguém, é necessário trazer aqui alguns elementos
históricos que não são desculpas mas explicações. A colonização fundou-se, em
quase todo o lado, sobre a exploração do colonizado, fosse uma colonização
europeia ou uma colonização africana (casos da Etiópia e da Libéria nos seus
períodos expansionistas, e a devastação do tráfico negreiro em proveito de
estados pré-coloniais ou de bandos de muçulmanos perseguidores de animistas).
Como a espanhola, a colonização portuguesa na África Negra foi feita, além
disso, por estados pobres e durante muito tempo os seus vetores foram europeus
em busca de fortuna em países insalubres e não preparados para os acolher. Era
necessário usar a astúcia, tirar partido dos indígenas e violar uma legislação
inoperante, para se sobreviver. As duas administrações coloniais ibéricas
fecharam mais ou menos os olhos às fraquezas morais dos funcionários e dos
simples civis, pelo menos até que os escândalos não se tornassem ingeríveis.
Podemos citar numerosas queixas oriundas de observadores estrangeiros ou
locais. Os serviços das alfândegas, das administrações internas, do exército,
das finanças, etc., estavam mais ou menos gangrenados pela corrupção. Mesmo no
fim dos períodos salazarista e franquista subsistia localmente uma cultura da
corrupção, pequena ou grande, tacitamente aceite ou molemente combatida.
Perpetuou-se então a ideia de que aquele que detém o poder ' mesmo minúsculo '
deve obter dele alguns benefícios. A maior parte dos colonos portugueses
partiram entre 1974 e 1976, e os espanhóis bem antes, mas os maus hábitos
encrustraram-se na psicologia dos sucessores instantâneos (os pequenos
funcionários negro-africanos ou mestiços). Os movimentos ou partidos
emancipadores, inicialmente «virtuosos» quando estavam no exílio ou combatiam
clandestinamente o colonialismo, chegados ao poder, confrontados com uma
desorganização das estruturas portuguesas e com uma profunda queda da vida
económica, nunca mantiveram por muito tempo ' exceto em Moçambique; Cabo Verde
é um caso à parte ' as suas intenções moralizadoras, socialistas e
igualitárias, que faziam pasmar os conselheiros e dadores de fundos no tempo
das utopias marxistas e estudantis.
Vários fatores erodiram progressivamente as vontades dos melhores: 1.º ' o peso
e os constrangimentos do tribalismo e a «desconfiança» em relação aos ex-
assimilados e mestiços; 2.º ' a necessidade de recompensar os apparatchicks, as
suas famílias alargadas e os seus «compadres» com a oferta de cargos nos raros
setores onde se podia ainda receber um salário, ainda que curto: as hierarquias
da administração e das empresas nacionalizadas, senão moribundas; 3.º ' a
impossibilidade de remunerar bem os agentes da função pública ou paraestatal,
exigindo deles, em troca, a probidade mais perfeita; 4.º ' o desencadear da
guerra civil em Angola e em Moçambique, que destruiu as infraestruturas
coloniais ' não eram negligenciáveis ' e, pior que tudo, esmagou milhões de
habitantes rurais numa loucura destrutiva infinitamente mais assassina do que a
guerra colonial (1961-1974/1975). Esta lista de fatores negativos não está
encerrada. É mesmo muito simplista, e não justifica de forma alguma o
desencadear da hidra corruptora numa sociedade a duas velocidades, pelo menos
tão inigualitária como no passado. O quarto fator permite, todavia, deitar uma
vista de olhos sobre alguns trabalhos que não se dirigem aos telespectadores,
mas a audiências mais exigentes.
A politóloga Maria Cristina Ercolessi é muito clara na análise6 das causas do
que qualifica, para Angola, de «profundo desequilíbrio social e défice de
democracia persistente». Em cinco capítulos muito ricos, resume bem e de uma
maneira frontal, sem perífrases, o essencial do colonialismo português em
Angola e, mais desenvolvido, a luta anticolonial, a guerra civil e
internacional, a economia política após a morte de Savimbi, a liberalização dos
constrangimentos marxistas, o reforço do mpla, a crise humanitária e social, a
reconstrução e o desenvolvimento, o nascimento de um capitalismo descontrolado
e explorador e, em definitivo, a irresponsabilidade da nomenklaturaem Luanda,
que abandonou os camponeses pelas aparências estatísticas de um crescimento
provisório alicerçado no petróleo e nos diamantes. Ercolessi não se deixa
enganar pelos discursos anticorrupção e, mesmo que admita um certo esforço de
recuperação após trinta e seis anos de ruínas e de incoerências egoístas, o
espetáculo que este país ' chamado emergente ' oferece não a satisfaz. As
oposições políticas, nota, são impotentes para contrariar a máquina do mpla que
comprou quase todas as «cabeças pensantes». Resta ver qual o peso do Exército
assim que a questão da sucessão do Presidente se colocar a sério. Manter-se no
poder mais de trinta e dois anos num país como Angola demonstra, pelo menos,
uma habilidade fora de comum. Controla solidamente a caixa, o que lhe permite
neutralizar quase todos os rivais mais ameaçadores. Mais do que «Esfinge»,
pensamos que lhe devíamos chamar «O Maquiavel Supremo» da África Centro-
Austral. Não nos espantaríamos se, dentro de dez anos, os historiadores futuros
reconhecessem nele uma figura mais importante do que o Dr. Agostinho Neto.
Escrevê-lo não é um sacrilégio.
L'Angola indipendentetem poucas páginas mas apresenta uma bibliografia
completamente espantosa num país como a Itália, onde as bibliotecas
africanistas não são reputadas pela riqueza em obras estrangeiras sobre Angola.
Temos mesmo as nossas dúvidas sobre a possibilidade de encontrar na cidade de
Nápoles a totalidade das entradas numeradas nesta síntese. O livro é, pois, um
bom resumo do que é necessário conhecer sobre uma potência regional que ainda
não atingiu o máximo do potencial, mas que saiu do sarcófago dogmático, ou pelo
menos da morgue, senão do hospital. Portanto, coragem.
Também é necessária coragem quando se é provavelmente originário da África
Ocidental, francófono e talvez muçulmano, quando se trabalha em França e se
decide, à distância de menos de trinta anos, consagrar uma tese de doutoramento
à guerra civil angolana de 1991 a 20027, ou seja, a uma atualidade ainda morna.
Será a atração do exotismo ou existirão laços entre o candidato a doutorado e
Angola? Não sabemos, mas esta distância com o objeto permite-lhe escapar ao
sectarismo étnico ou político, que é uma das fraquezas da maior parte dos
livros publicados por africanos, especialmente lusófonos, quando defendem ou
massacram determinado aspeto do país de onde são oriundos. Nada disso com
Amadou Koné. O credo do autor é uma espécie de neutralidade moralizadora, por
vezes com algumas apreciações pouco amenas das atividades do mpla e da unita
durante o período considerado. Este último apresenta um inconveniente: não é
possível entrar nos segredos dos arquivos, evidentemente inabordáveis por
enquanto. O essencial da documentação utilizada por Koné provém da onu e sobre
tudo da imprensa internacional, tanto a informativa como a académica. Também
existem poucas ou nenhumas entrevistas a personalidades marcantes. A
comunicação social angolana pró-governamental está praticamente ausente, e o
mesmo se passa com a da unita. Este partido, com representações na Europa,
nomeadamente em Portugal, em França e na Alemanha, que publicavam comunicados,
é visto através do prisma dos analistas mais ou menos engagésnum campo ou
noutro. O autor fez um esforço por consultar duas centenas de obras e de
artigos, mas se tivesse na mão a nossa bibliografia internacional crítica (René
Pélissier, Angola-Guinées-Mozambique-Sahara-Timor, etc. Orgeval: Éditions
Pélissier, 2006), veria a utilidade em ler uma outra centena de obras
poliglotas recentes que faltam nos seus ficheiros. Enão nos referimos aqui a
artigos ou informações que não dizem respeito ao período escolhido.
Por outro lado, perguntamo-nos se alguém ' um lusófono de nascimento ' terá
lido atentamente, ou seja, de caneta na mão, o texto antes de ser impresso. Por
exemplo, as entradas citadas em notas (há 1332) não foram todas inseridas na
bibliografia, e nem todos os mapas aparecem na página indicada (cf. o de
Cabinda). Estamos longe das exigências requeridas outrora aos candidatos a um
doutoramento de Estado (cf. os três volumes atrás citados de Jean-Marc
Delaunay) em História. Não sabemos, de resto, se este livro releva da ciência
política ou da erudição histórica pura e dura.
Feitas estas salvaguardas, para um debutante em angolanismo universitário Koné
realizou um trabalho meritório, em que soube misturar o diplomático, o político
e o militar, e seguir uma progressão estritamente cronológica. É o primeiro
autor a introduzir ordem nesta sucessão de confrontos trágicos que Angola
atravessou durante a terceira ' ou quarta ' guerra que ' fora de Luanda, dos
outros portos e do Sudo-este ' a pôs de joelhos. Sem se entregar a um deboche
de sensacionalismo jornalístico (cf. a secura factual com a qual assinala a
morte de Savimbi), oferece então o esqueleto acontecimental indispensável a
quem quiser desenvolver os fatores socioeconómicos que as pessoas que na
atualidade detêm o poder deveriam levar em conta. Saber se realmente o desejam
releva de um vasto debate de onde a polémica não pode estar ausente. Passemos
então a outro tema igualmente militar.
A literatura memorial publicada pelos antigos combatentes de todos os países
acaba por irritar pela abundância e, muitas vezes, pelo triunfalismo. É
suportável e explicável quando se refere a conflitos que puseram em jogo a
existência política de todo um país, ou a vida de vários milhões dos seus
habitantes. Neste sentido compreendemos e aceitamos as vagas de impressos que
as I e II Guerras Mundiais suscitaram junto dos seus beligerantes. Deveremos
ser igualmente indulgentes em relação ao que é a exaltação editorial das
proezas ' fala-se menos dos fracassos ' no terreno de unidades de profissionais
ou de voluntários como os mercenários, os paraquedistas, os marines, ou os
comandos, que se erigiram em élites da violência? Cada um escolherá, mas o
historiador e o bibliógrafo alimentam sempre a esperança de encontrar nas suas
páginas dados que serão sempre escondidos pelos arquivos oficiais.
Pathfinder Company8 é uma recolha de memórias de uma unidade de paraquedistas
sul-africanos criada em abril de 1980 pelo coronel Jan Breytenbach, a um passo
de se tornar no Mouzinho de Albuquerque de uma geração de afrikaners que
combateram em Angola de 1975 a 1988: o ícone do seu ultranacionalismo e das
suas competências militares. Na verdade, é no rescaldo da vitória em Cassinga,
em 1978, que o coronel mais condecorado ' e com o maior atrevimento do Exército
sul-africano ' se torna num oficial «visionário», ao dar-se conta de alguns dos
defeitos desta operação aerotransportada contra o exército dos nacionalistas
namibianos (a swapo), escondido em Angola. Foi encarregado da criação de uma
brigada de paraquedistas e precisava por isso de uma companhia especializada na
seleção de lugares de largada e de evacuação. Para fazê-lo, recrutaria, com
contrato, profissionais saídos de guerras anteriores (especialmente na
Rodésia).
Por razões diferentes, esta grande operação aerotransportada contra
concentrações inimigas não se repetiu em Angola e os Pathfinders, durante a
breve existência, tiveram sobretudo atividades puramente terrestres. Em 1980
atacaram o campo da swapo e das fapla em Cuamato. Minaram a estrada para o
Cunene. Participaram igualmente na Operação Protea (agosto de 1981) contra as
tropas angolanas em Xangongo (ex-Roçadas) e em N'Giva, de gloriosa memória
entre os militares portugueses. Em janeiro de 1982 a unidade é dissolvida e
incorporada no Batalhão 32 (formada por mercenários angolanos), que se tornará
a ponta de lança de quase todas as batalhas combatidas pelos sul-africanos em
Angola durante ainda seis anos. Negras, as perdas destes estrangeiros permitiam
evitar as de brancos. Não se era racista no exército de Pretória.
Ocioe/ctoe pode ser considerado, certamente não como o modelo dos sul-
africanos, mas como a resposta dos portugueses à necessidade de unidades
formadas para a guerra ultramarina não convencional. Criado em 1960, o Centro
de Instrução de Operações Especiais, em Lamego, foi a matriz das tropas de
choque do exército terrestre durante a guerra colonial. Hélder da Silva Serrão9
faz o seu histórico ao longo de meio século, até às missões externas confiadas
ao Portugal pós-revolucionário. A utilidade do livro deste alferes pode
dividir-se em três vertentes. Serve, para começar, para conhecer as modalidades
de recrutamento, de formação e de utilização destes soldados que iam na
vanguarda do exército terrestre. O exército convencional era mais estático que
operacional para a maioria dos recrutas, que se submetiam a 24, 26 ou 28 meses
de serviço ultramarino em condições materiais e psicológicas muito duras. O
livro contém igualmente ' e será talvez aí que começará a interessar ao
historiador ' uma descrição da penetração no coração duro do aparelho militar
das «novas ideias» que conduziriam ao 25 de abril de 1974. Não dispomos de
elementos que permitam matizar o que é afirmado pelo autor e pelos atores. Em
terceiro lugar, o livro contém várias dezenas de testemunhos de antigos
operacionais do Centro, onde encontramos por vezes relatórios ou relatos de
operações ultramarinas (por exemplo: 1.º ' um reconhecimento na região da Pedra
Verde, em julho de 1961, nos Dembos; 2.º ' os caçadores especiais na Baixa do
Cassange em fevereiro de 1961, etc.).
É evidente que num livro quase oficial não se deve procurar o que denigra a
imagem dos antigos combatentes. E como todos, ou quase, se consideram
superiores aos vulgares soldados de infantaria que não frequentaram o cioe, os
maus espíritos gostariam de saber como é que com tais élites a guerra não foi
vencida mais rapidamente. Seria necessário ser-se adepto da geopolítica para
lhes responder. Contentar-nos-emos, portanto, em ler um sul-africano que
admirava os soldados portugueses na Guiné.
Al J. Venter10 é um desses jornalistas anglófonos que cobriram um número
importante de conflitos africanos desde 1960. No último dos seus já cerca de
vinte volumes, coligiu memórias pessoais e de outros fornecidas por vários dos
seus confrades. Uma espécie de livro de homenagem, de certa maneira. É dos
raros profissionais que viajou intensivamente nos três palop na época colonial.
Vamos cingir-nos, para a Guiné, a citar o que já publicara nos Estados Unidos
no seu Report on Portugal's War in Guiné-Bissau[Pasadena (ca): Munger Africana
Library, Caltech], e que retoma aqui, mais ou menos revisto. Exalta os feitos
de João Bacar Jalo, capitão fula dos comandos africanos, morto pela própria
granada em abril de 1971. Venter não julgou necessário explicar aos leitores
que a lealdade inegável aos portugueses deste oficial se apoiava na luta
política de um muçulmano contra os cabo-verdianos e os animistas ou cristãos
locais do paigc. Este é o mais interessante dos três capítulos (pp. 258-311)
que consagra à Guiné, onde o encontramos com o relato da patrulha que efetuava
na selva com Bacar Jalo antes da sua morte, a leste de Tite (no Sudeste do
país).
As pessoas do cioe rangeriam os dentes se lessem o que Ron Reid-Daly, o
primeiro oficial rodesiano destacado para junto das tropas portuguesas, pensava
das suas atividades em campanha em Moçambique. O criador dos célebres Selous
Scouts rodesianos faz apenas apreciações ultranegativas aos seus métodos de
luta contra a guerrilha da frelimo. Destaca o desjeito operacional das
unidades, o massacre do gado, a destruição das aldeias, a brutalidade excessiva
contra os camponeses abatidos à mínima tentativa de fuga, para não integrar os
famosos aldeamentos estratégicos, que julga fundados em conceções «clumsy and
inept» (p. 203). É aqui que medimos a distância entre o que nos dizem os
especialistas estrangeiros para nos lisonjear e o que realmente pensam das
nossas hipóteses de vitória na guerra.
Notemos que, por mais brilhantes que pretendessem ser no mato, os Selous Scouts
também não conseguiram deter a catástrofe inevitável na Rodésia.
No fim de contas, «visionários» criativos ou rotineiros sem «visões», tanto uns
como outros estavam no mesmo barco. Este livro estabelece um balanço nostálgico
e pessimista para o futuro da África. Despeito, cansaço ou lucidez?
Tradução: Marta Amaral
NOTAS
1
Delaunay, Jean-Marc ' Méfiance cordiale.Les relations franco-espagnoles, de la
fin duxixesiècle à la Première Guerre mondiale. Volume 2. Les Relations
coloniales. Paris: L'Harmattan, 2010.
2
Mann, Simon ' Cry Havoc. «When I Set Out to Overthrow an African Tyrant, I Knew
I Would Either Make Billions or End Up Getting Shot ». Londres: John Blake
Publishing Limited, 2011 (inclui fotografias a preto e branco e a cores).
3
Liniger-Goumaz, Max ' Guinea Equatorial. Bibliografia General. XVI. Referencias
59693-76704. Genebra: Les Éditions du Temps, 2011.
4
Minder, Patrick ' La Suisse coloniale. Les représentations de l'Afrique et des
Africains en Suisse au temps des colonies (1880-1939). Berna: Peter Lang, 2011
(inclui centenas de ilustrações a preto e branco).
5
Slomka, Marietta ' Mein afrikanisches Tagebuch. Reise durch einen Kontinent im
Aufbruch. Munique: C. Bertelsmann Verlag, 2011 (inclui fotos a cores).
6
Ercolessi, Maria Cristina ' L'Angola indipendente. Roma: Carocci Editore, 2011.
7
Koné, Amadou ' La Guerre civile angolaise de 1991 à 2002. Saint-Denis: Editions
Edilivre Aparis, 2011.
8
Gillmore, Graham ' Pathfinder Company. 44 Parachute Brigade. The Philistines.
Joanesburgo: 30º South Publishers, 2010 (inclui numerosas fotos a preto e
branco e a cores).
9
Serrão, Hélder da Silva ' CIOE/CTOE. Operações Especiais. 50 Anos. Viseu:
Edições Esgotadas, 2011 (inclui fotos a preto e branco e a cores).
10
Venter, Al J., and friends ' War Stories. Up Close and Personal in Third World
Conflicts. Pretória: Protea Book House, 2011 (inclui 16 páginas de fotografias
a cores, e inúmeras fotos a preto e branco).
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