A construção da paz em cenários de anarquia: uma inversão do foco de análise
O chamado "primeiro debate" das relações internacionais (RI), muito
mais do que simplesmente fundar a disciplina, contribuiu também para
estabelecer as concepções teóricas que predominariam entre os académicos
daquele campo de estudos nas décadas seguintes. A partir daí, e seguindo a
visão de E. H. Carr1 ' para quem a política internacional era dominada por um
jogo de poder entre os estados, a maior parte da produção académica das RI
teria na guerra e nos conflitos as suas preocupações primárias.
Contraditoriamente, tal postura minimizava a importância conferida às análises
teóricas sobre a paz, fim último dos primeiros académicos que se dedicaram às
RI.
Décadas mais tarde, as mudanças trazidas pelo fim da Guerra Fria despertaram de
vez os académicos daquele campo de estudos para as limitações das perspectivas
realistas. Assim, no contexto do chamado "terceiro debate" das RI,
o construtivismo emergiu como uma "promessa" para as teorias da
disciplina2. Embora não se apresentassem com um discurso único, os
construtivistas partilhavam um núcleo duro comum: a abordagem interdisciplinar
' principalmente a partir de outras ciências sociais, a ênfase no papel das
ideias, a mútua constituição dos agentes e estruturas e a importância dessa
interacção no processo de formação dos interesses dos agentes. De acordo com os
proponentes deste quadro teórico, a realidade social e, consequentemente, as
relações internacionais seriam "socialmente construídas".
Com o passar dos anos, contudo, percebe-se que a agenda de investigação
construtivista não se distanciou da ontologia realista das guerras e dos
conflitos. Alexander Wendt3, um dos maiores expoentes do construtivismo,
reconhece que em relações internacionais muito foi analisado sobre as causas da
guerra, mas pouco sobre as da paz. Tal constatação foi reforçada por Richmond4
ao afirmar que o tema da paz tem sido largamente negligenciado pelas teorias
daquele campo de estudos ' inclusive pelo construtivismo. Por outro lado,
parece urgente analisar as possibilidades de paz num ambiente anárquico, uma
vez que a este são frequentemente associadas apenas as situações de violência
entre estados ' reflexo directo da leitura realista do estado de natureza
hobbesiano.
Neste artigo, argumenta-se que o construtivismo teria muito a oferecer às
construções teóricas da paz se conseguisse afastar-se da ontologia realista de
guerras e conflitos, uma vez que perceber a paz como "socialmente
construída" significa entender e analisar as ideias compartilhadas que
informam a interacção dos agentes a nível internacional. A proposta teórica
construtivista, dessa forma, vai mais além da realista ao proporcionar o
entendimento de que a paz tem sempre um tempo e um lugar, e não é apenas a
ausência de guerras e conflitos entre estados. Para defender o argumento,
inverte-se aqui o foco da análise construtivista de Alexander Wendt5 e avaliam-
se as possibilidades teóricas de paz ' e não as de conflito ' existentes em
cada uma das situações de anarquia identificadas por aquele autor: a
hobbesiana, a lockeana e a kantiana.
O texto é dividido em quatro secções. A primeira discute, em síntese, como
realistas e construtivistas abordam o tema da anarquia em RI, apresentando o
argumento de Wendt de que anarchy is what states make of it. Na segunda secção
caracterizam-se as três culturas de anarquia discutidas na obra daquele autor
para, a seguir, relacionar a cada uma dessas culturas uma concepção teórica de
paz, também de acordo com a lógica de interacção predominante entre os estados.
Assim, as anarquias hobbesiana, lockeana e kantiana possibilitam
conceptualizações de paz ligadas, respectivamente, às ideias de paz do
vencedor, de paz pelo direito e de paz internacionalista. Na última secção,
conclui-se ao enquadrar este exercício numa proposta mais ampla de avaliação do
construtivismo para as conceptualizações da paz.
DA ANARQUIA EM RI
Em relações internacionais, a anarquia internacional mais comummente adquire o
sentido de ausência de um governo ou de normas que regulem a interacção entre
os estados6. Esta definição teve grande importância para os teóricos
realistas7, uma vez que lhes permitiu transpor o estado de natureza hobbesiano
de um contexto de indivíduos sem governo ' em que "a vida do homem [é]
solitária, pobre, sórdida, brutal e curta"8 ' para um de estados
soberanos sem uma autoridade central. Assim, Waltz afirma que "entre
estados, o estado de natureza é um estado de guerra"9.
Para as teorias da tradição realista, portanto, a anarquia define um sistema em
que o Estado é o único responsável por si (e apenas por si), uma vez que não
existe um Leviatã para lhe dar quaisquer garantias. Em tal contexto, a
segurança torna-se o principal objectivo dos estados, pois "apenas se a
sobrevivência for garantida podem os estados buscar, em segurança, objectivos
outros como a tranquilidade, o lucro e o poder"10. Desta forma, a
"auto-ajuda é necessariamente o princípio de acção numa ordem
anárquica", uma situação de "guerra em um mundo de estados
livres"11 (itálico do autor).
Em "Anarchy is what states make of it: the social construction of power
politics", contudo, Wendt denuncia a falácia de se atribuir ao sistema da
política internacional uma lógica inerente de auto-ajuda. A sua teoria
construtivista12 critica a inevitabilidade defendida pelos realistas: a
anarquia é uma estrutura; logo, é socialmente construída ' e não exógena, como
na definição materialista de Waltz. A anarquia não possui uma lógica
preestabelecida e única; em realidade, não tem qualquer significado13. Como uma
estrutura social, a anarquia adquire significado apenas por meio do processo de
interacção entre os seus agentes e, portanto, pode ser baseada na auto-ajuda,
mas também pode assumir outros significados. Assim, "se os estados se
encontram num sistema de auto-ajuda, é porque as suas práticas assim o fizeram.
Mudando-se as práticas, mudar-se-á o conhecimento intersubjectivo que constitui
o sistema"14.
TRÊS CULTURAS DE ANARQUIA
15
Em obra posterior, Wendt aprofundaria o seu argumento e abordaria três dessas
lógicas: a hobbesiana, a lockeana e a kantiana16. A fim de caracterizar cada
uma, e influenciado pela ontologia realista, o autor analisa a postura dos
estados quanto ao recurso à força para a resolução das suas disputas. Assim, o
autor atribui para cada uma dessas lógicas uma posição subjectiva: inimigo,
rival ou amigo, respectivamente. Estas posições subjectivas são representações
particulares do eu (self) e do outro (other); em última instância, são uma
referência às identidades dos papéis (role identities)17 enquanto
representações colectivas. São, portanto, propriedades da estrutura, e não dos
agentes18. Assim, a postura do inimigo é ameaçar o outro, seu adversário, sem
reconhecer limites para o uso da violência. Os rivais são competidores que se
aproveitam da violência para avançar os seus interesses, mas respeitam o
direito à vida ' a violência, portanto, tem um limite. Já os amigos são aliados
e resolvem os seus eventuais conflitos sem o recurso à violência19.
Numa cultura hobbesiana, o outro é uma ameaça constante ' ele não é,
necessariamente, violento, mas é assim percebido pelo eu. Para garantir a sua
sobrevivência, o Estado não limitará o uso da violência contra o outro, uma vez
que este não tem o direito à existência. Neste sentido, a interacção entre os
agentes nessa cultura segue a seguinte lógica: numa situação de conflito, eles
responderão aos inimigos de forma a destruí-los ou a conquistá-los; as suas
decisões serão orientadas pelo worst-case thinking; o poder, então, será a
chave para a sobrevivência, tornando cruciais as capacidades militares
(relativas); por fim, numa situação de guerra, o recurso ao uso da força será
ilimitado20. Dessa forma, a lógica da anarquia hobbesiana é representada pela
fórmula da "guerra de todos contra todos"21, um jogo de soma zero
em que o imperativo é a sobrevivência ' "matar ou morrer". Isto,
contudo, não significa que os estados estão em guerra todo o tempo, mas que
"enquanto os estados, colectivamente, se representarem uns aos outros em
termos hobbesianos, a guerra pode literalmente ocorrer a qualquer
momento"22.
Na abordagem construtivista de Wendt, esta lógica implica que a segurança '
logo, a sobrevivência ' do Estado só pode ser garantida por meio da força
militar. Uma vez que esta crença é compartilhada pelos estados, quatro
tendências emergem a nível sistémico: a guerra endémica e ilimitada; a
eliminação dos mais fracos ' o que leva à formação de like units e a uma alta
taxa de "morte" (eliminação) entre os estados; balanças de poder
entre os estados mais fortes ' essas, contudo, serão de curta duração em
virtude da inexistência de comportamentos autolimitados; e, finalmente, o não-
alinhamento e a neutralidade são muito difíceis, uma vez que o sistema tende a
arrastar todos os outros estados para a guerra23. Pode-se, assim, afirmar que
esta cultura informava as interacções entre bárbaros e romanos da Europa
medieval24.
Uma cultura lockeana, por sua vez, é pautada pela representação do outro como
rival, uma representação menos ameaçadora que no caso anterior. Rivais
compartilham o respeito à vida e à liberdade ' no estado de natureza de Locke,
embora os indivíduos sejam livres e iguais, "nenhum [deles] deve
prejudicar outrem na sua vida, saúde, liberdade ou possessões", pois
todos são servos do "infinitamente sábio criador"25. Assim, numa
cultura lockeana, os agentes reconhecem um limite ao uso da violência. A lógica
de interacção entre os agentes é a seguinte: numa situação de conflito, os
estados tenderão a responder de forma a manter o status quo com o fim último de
salvaguardarem a sua soberania; o seu curso de acção continuará a ser pautado
por uma consideração racional e o poder militar (relativo) continuará a ser
importante, mas ambos serão "relaxados", uma vez que o direito à
soberania do outro é reconhecido; finalmente, na ocorrência da guerra, o uso da
violência será limitado, não atingindo os extremos da conquista ou da
eliminação do outro26.
A lógica desta anarquia, assim, assume a fórmula "viva e deixe
viver", em que o Estado, antes de optar pelo uso (limitado) da força,
considera a alternativa de uma resposta recíproca, quiçá não violenta ' numa
anarquia hobbesiana, o worst-case thinking compele o Estado ao uso da violência
à menor das ameaças. Nesta cultura, o comportamento dos estados apresenta
quatro tendências: a guerra é normal e legítima mas, ao mesmo tempo, limitada;
o número de membros do sistema é relativamente estável, com uma baixa taxa de
estados eliminados ' assim, não apenas os mais fortes sobrevivem, como na
cultura hobbesiana; as balanças de poder são mais uma base de ordem do que um
requisito para a sobrevivência; e o não-alinhamento e neutralidade têm um
estatuto reconhecido, pois a indiferença mútua pode apaziguar ou resolver
conflitos27. Conforme o próprio Wendt, esta tem sido a lógica de interacção
predominante nas relações internacionais desde 1648, embora com
"regressos temporários" ao Estado hobbesiano28.
Na última das culturas de anarquia analisadas por Wendt, a kantiana, a posição
subjectiva do outro é a de amigo, um ente pacífico. Nesta representação, o
Estado espera que o outro respeite duas regras: a do não uso da violência
contra o eu e a da ajuda mútua contra agressões externas. Nesse caso, o
processo de interacção entre os agentes extrapola a simples relação e passa à
identificação, de forma a que o eu começa a ver no outro uma imagem de si mesmo
' as identidades, portanto, são colectivas29. Em relação a esta formulação,
Wendt faz três considerações: a amizade só existe quando a não-violência e a
ajuda mútua forem praticadas pelo outro ' e não quando este observa apenas uma
delas, num cálculo instrumental que determinaria uma representação de
rivalidade; a representação da amizade é restrita à segurança, podendo haver
conflitos (não violentos) em domínios como o comércio, por exemplo; e a amizade
é duradoura ou tem expectativas de longo prazo, e não uma simples aliança
temporária30.
Numa anarquia kantiana, a lógica de interacção poderia ser expressa na fórmula
"um por todos e todos por um". Esta decorre das regras
supracitadas, sendo associada às ideias de comunidades pluralísticas de
segurança31 e de segurança colectiva. No primeiro caso, "há uma garantia
real de que os membros daquela comunidade não lutarão fisicamente entre si, mas
resolverão as disputas de uma outra forma"32. Em relação à segurança
colectiva, os membros da comunidade prometem segurança mútua contra agressores
externos, mesmo que a sua própria segurança não esteja ameaçada33. A
continuidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) após a
dissolução da União Soviética pode ser um indicativo de que a cultura kantiana
prevalece entre os estados-membros ' embora as análises realistas subordinem
este facto ao interesse nacional34.
A apresentação dessas três culturas é fundamental para desmistificar a
existência de uma única anarquia na política internacional. Contudo, cumpre
ressaltar que essas culturas não se apresentam inteira e uniformemente no meio
internacional. Ao contrário, são tipos ideais que, em maior ou menor grau, de
uma forma ou de outra, foram instanciados ao longo da história35: os exemplos
citados demonstram que na maioria das vezes tais representações restringiram-se
a tempos e a lugares específicos.
ANARQUIA(S): CULTURAS DE GUERRA OU CULTURAS DE PAZ?
Na última secção, apresentou-se o argumento de Wendt de que anarchy is what
states make of it e caracterizou-se cada uma das três possíveis configurações
de anarquia discutidas por ele: a hobbesiana, a lockeana e a kantiana. Essas
três configurações correspondem, respectivamente, a situações de guerras
endémicas, de guerras limitadas pelo respeito à soberania, e de ausência de
guerras (entre o eu e o outro). Nesta secção, inverte-se o foco de análise e
pretende-se verificar as possibilidades de paz, e não de conflito,
argumentando-se que aquelas culturas possibilitam conceptualizações ligadas,
respectivamente, às ideias de paz do vencedor, de paz pelo direito e de paz
internacionalista36.
Conforme a formulação de Wendt, uma anarquia do tipo hobbesiana é um estado de
"guerra de todos contra todos", em que o outro é sempre percebido
como uma ameaça. Sem um Leviatã ou comportamentos autolimitados, a guerra é
endémica e ilimitada ' ou, pelo menos, pode ocorrer a qualquer momento. Assim,
parece possível argumentar que nesta anarquia a mais plausível possibilidade de
paz é aquela imposta pelo vencedor, formulação frequentemente associada à
tradição realista das RI.
Baseados nos textos clássicos de Tucídides, Maquiavel e Hobbes, realistas como
Carr, Niebuhr e Morgenthau analisaram as relações internacionais fortemente
influenciados pela crença de que a natureza humana seria inerentemente
violenta. Para eles, esta seria a motivação última das guerras e, portanto, a
paz seria apenas uma quimera. Ao transpor o Estado de natureza hobbesiano para
o plano internacional, aqueles autores defendiam uma constante situação de
insegurança e medo que obrigaria os estados a pautarem o seu comportamento pelo
worst-case thinking ' pois o outro é sempre um inimigo. Os resultados seriam
políticas externas ofensivas, frequentemente amparadas pelo uso da força '
embora os constrangimentos materiais impeçam tais comportamentos todo o
tempo37.
De acordo com esta narrativa, são duas as situações em que a paz pode surgir
numa anarquia hobbesiana: na primeira, quando emerge uma balança de poder entre
os adversários; e, na segunda, quando uma das partes se torna suficientemente
forte para destruir ou conquistar a outra ' ou para tentar fazê-lo. No primeiro
caso, a paz nada mais é do que uma trégua, a ser quebrada assim que as partes
retomem as suas capacidades materiais. O período de paz existente entre a
Primeira Guerra do Peloponeso (460-455 a. C.) e o retorno dos conflitos entre a
Liga do Peloponeso e a Liga de Delos em 431 a. C. ilustra essa concepção38. No
segundo caso, a paz é uma imposição do mais forte, que estabelece as suas
condições até ser desafiado por outra potência. Exemplos são a Pax Romana e a
Pax Britannica39. Em ambas as situações, a paz é entendida como a ausência de
conflitos, como o intervalo entre as guerras40, reforçando a ideia de que a paz
é o "constante estado de preparação doméstica para a guerra"41.
Pode-se, então, afirmar que, numa cultura hobbesiana, a guerra é um mecanismo
de correcção da balança de poder entre os estados e que a paz é o intervalo
entre essas correcções ' ou, numa máxima, si vis pacem para bellum. Assim, a
paz é entendida como a simples ausência de violência (directa) ' uma paz
negativa42 ' e só pode ser alcançada por meio da imposição da vontade de uma
potência hegemónica. Em última instância, a paz mundial só poderia ser atingida
por meio de uma potência hegemónica (ou Leviatã) universal ' o que, para os
realistas, é uma quimera, uma vez que os estados jamais abdicariam das suas
soberanias.
Contrariamente a esta visão de paz pela imposição do mais forte, associa-se a
ideia da paz pelo direito como a paz possível numa anarquia lockeana. Nesta, os
estados, embora rivais, compartilham o respeito pela soberania, de forma que a
guerra não é a primeira opção: ela é uma opção e de facto ocorre, mas, quando
ocorre, é limitada pelo direito. Conforme uma analogia de Wendt, a ameaça é o
roubo ou o espancamento, mas não a morte ou a escravidão43. A ideia de paz pelo
direito é exemplificada pelos diversos tratados de paz que normalmente se
seguem aos períodos de guerras, como Vestefália (1648), Viena (1815) ou
Versalhes (1919)44.
A conceptualização da paz pelo direito inspira-se na ideia de que se a paz
doméstica é uma consequência do contrato entre os indivíduos e o Leviatã,
árbitro das disputas entre os indivíduos, então a paz internacional deve ser
obtida por meio de acordos entre os estados45. Aquela formulação, contudo, não
clama a imposição de um Leviatã mundial, mas sim a abolição do direito que os
estados soberanos têm de fazer guerra46. Assim, a paz é obtida por meio do
respeito ao direito como árbitro dos conflitos e pode ser entendida como a
"extensão da civilização [termo aqui relacionado à civil ou civilidade]
para a arena internacional"47.
Esta conceptualização remete aos escritos de Francisco de Victoria, para quem a
guerra deveria ser moralmente justificável, e de Hugo Grotius, que defendia um
"direito natural" regulador da interacção entre os estados48. Dessa
forma, uma vez que a guerra é um fenómeno "normal" entre os estados
' pois existe desconfiança entre os rivais, ela deve estar de acordo com
determinados entendimentos preestabelecidos que regulem as causas consideradas
justas para uma guerra (jus ad bellum) e os padrões de comportamentos a serem
seguidos durante a guerra (jus in bello).
Em suma, na conceptualização da paz pelo direito, o direito internacional
assume o papel do árbitro entre os estados, prevalecendo sobre o jogo de poder
na política internacional e regulando o uso da violência entre os estados. Numa
anarquia cujo respeito pela soberania foi internamente aceite pelos estados, a
guerra, embora uma opção possível, tem seus limites ' e estes são impostos pelo
direito. Poder-se-ia, então, dizer que nesta conceptualização a paz é baseada
numa combinação de consensos e sanções49.
Finalmente, numa anarquia kantiana, a posição subjectiva do outro é a de amigo,
ente pacífico no qual o eu vê a sua própria imagem ' razão pela qual os estados
se abstêm do recurso à violência para resolver as suas disputas. Nesta
anarquia, a única possibilidade de ocorrência da guerra seria contra uma
agressão externa, reflectindo, portanto, o princípio da segurança colectiva.
Argumenta-se aqui que uma anarquia assim caracterizada possibilita uma
concepção de paz associada à ideia de paz internacionalista. A melhor
ilustração desta situação, contemporaneamente, é a União Europeia.
Esta conceptualização é pautada principalmente pelas propostas de paz que
surgiram na Europa iluminista. Numa das mais conhecidas, Kant (1795) defende
que a paz é, racionalmente, uma escolha melhor que a guerra50. Em uma situação
de paz, os cidadãos não têm que sofrer com as consequências do "miserável
jogo" da guerra, "tendo que lutar, tendo que pagar os custos da
guerra com os seus próprios recursos, tendo dolorosamente que reparar a
devastação que a guerra deixa para trás" e ainda comprometer-se com
dívidas que angustiarão os tempos de paz (primeiro artigo definitivo). A
proposta de paz de Kant repousa nas ideias centrais dos seus três artigos
definitivos ' a forma de governo republicana, a federação de estados livres e o
direito cosmopolita ' e na visão de que a história é um processo de crescente
integração entre os estados51.
Segundo Negretto52, há uma profunda semelhança entre o pensamento de Kant e a
formulação de segurança colectiva que surgiria no século XX53. Esta baseia-se
em três condições: a renúncia ao uso da força sem a autorização da organização
que adoptou o princípio da segurança internacional, a inexistência de pactos
entre os membros dessa organização e estados terceiros e a definição do
mecanismo de defesa da coligação multinacional. Contudo, há também enormes
discordâncias: embora Kant advogasse a criação de uma foedum pacificum (liga da
paz) sem instituições, a concretização desta viria por meio de organizações
como a Liga das Nações e as Nações Unidas.
Podemos, assim, concluir que essa conceptualização de paz não significa apenas
a ausência da guerra, mas envolve um conceito de paz positiva54. Mais do que o
simples respeito pelas regras ' o que poderia ser analisado em termos de um
comportamento instrumental de rivalidade, os estados compartilham valores e
querem respeitar a regra da não-violência. A paz, portanto, sustenta-se numa
identidade colectiva que almeja a paz, de forma que os eventuais conflitos
entre estados são sempre resolvidos por meios outros que não os violentos.
Da mesma forma que na abordagem de Wendt, as três conceptualizações de paz aqui
apresentadas são tipos ideais ' construções teóricas que reflectem as
possibilidades de paz internacional consoante os processos e dinâmicas de
interacção em anarquias definidas em termos hobbesianos, lockeanos ou
kantianos. Aquelas, contudo, não são as únicas construções possíveis55 e nem se
concretizam inteira e uniformemente no sistema internacional. Por outro lado,
também não são quadros estáticos e imutáveis. Seguindo Wendt56, sugere-se aqui
que a possibilidade de mudança dessas conceptualizações teóricas está
estreitamente associada ao grau de aceitação interna das ideias que orientam a
interacção entre os estados57 ' neste caso, as representações de inimigo, rival
e amigo. O aprofundamento deste ponto, contudo, está além dos objectivos deste
texto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora as teorias construtivistas tenham criado grandes expectativas entre os
académicos das RI quanto à sua capacidade explicativa, verifica-se que tal
corrente dedicou pouca atenção ao tema da paz. Neste sentido, argumentou-se
aqui que aquelas expectativas poderiam ser atingidas caso o construtivismo
conseguisse abandonar a ontologia realista de guerras e de conflitos que
orienta a maior parte da sua produção teórica. Tendo como ponto de partida a
obra de um dos maiores expoentes do construtivismo, Alexander Wendt, o
argumento foi ilustrado por meio da inversão do foco da análise daquele autor.
Assim, procurámos analisar as possibilidades de paz, e não as de conflito,
existentes em situações de anarquia internacional. Verificou-se, então, que as
anarquias dos tipos hobbesiana, lockeana e kantiana possibilitam,
respectivamente, as construções de paz do vencedor, de paz pelo direito e de
paz internacionalista.
Avaliar se as teorias construtivistas fornecem de facto uma melhor compreensão
da paz é lançar novas interpretações sobre importantes questões contemporâneas,
como, por exemplo, a conceptualização de paz subjacente às operações de
peacekeeping e peace-building ou às acções multilaterais no Iraque e no
Afeganistão. É também entender as reais possibilidades de paz (e que paz?)
entre povos que se representam, expressa e declaradamente, como inimigos, como
fazem os mais radicais israelitas e palestinianos. Significa ainda entender
quais são as ideias e valores que informam as acções de organizações
internacionais como a UNESCO, que defende a promoção das "culturas de
paz" em detrimento das "culturas de violência": paz para
quem? É a partir de reflexões sobre estas e outras questões mais afastadas da
ontologia realista que o construtivismo pode reinventar-se, contribuindo para a
sua consolidação enquanto proposta teórica alternativa às teorias mainstream
das RI.
NOTAS
* Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada na Conferência
Internacional Conjunta da International Studies Association e da Associação
Brasileira de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro, em Julho de 2009. O
autor agradece os comentários e sugestões de José Manuel Pureza, Naeem
Inayatullah, Xavier Guillaume e dos revisores anónimos da R:I. Erros e omissões
são, contudo, da inteira responsabilidade do autor.
1 CARR, Edward H. ' Vinte Anos de Crise, 1919-1939: Uma Introdução ao Estudo
das Relações Internacionais. 2.ª edição. Brasília: Editora UnB, 2001 (1939).
2 HOPF, Ted ' "The promise of constructivism in international relations
theory". In International Security. Vol. 23, N.º 1, 1998, pp. 171-200.
3 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999, p. 298.
4 RICHMOND, Oliver P. ' Peace in International Relations. Abingdon: Routledge,
2008.
5 WENDT, Alexander E. ' "Anarchy is what states make of it: the social
construction of power politics". In International Organization. Vol. 46,
N.º 2, 1992, pp. 391-425. WENDT, Alexander E. ' Social Theory
of International Politics.
6 BULL, Hedley ' A Sociedade Anárquica: Um Estudo da Ordem Política Mundial.
Brasília: Editora UnB, 2002 (1977). O tema da anarquia
internacional foi central no chamado "segundo debate" das RI.
Alguns textos de referência encontram-se nos volumes de KEOHANE, Robert O.
(ed.) ' Neorealism and its Critics. Nova York: Columbia University Press, 1986; BALDWIN, David A. (ed.) ' Neorealism and Neoliberalism: The
Contemporary Debate. Nova York: Columbia University Press, 1993; e OYE, Kenneth A. (ed.) ' Cooperation under Anarchy. Princeton:
Princeton University Press, 1986.
7 Para os fins deste artigo não se distingue realistas de neo-realistas, uma
vez que ambas as correntes partilham essencialmente as mesmas visões sobre a
anarquia. CARR, Edward H. ' Vinte Anos de Crise, 1919-1939: Uma Introdução ao
Estudo das Relações Internacionais; MORGENTHAU, Hans, A
Política entre as Nações: A Luta pelo Poder e pela Paz. Brasília: Editora UnB,
2003 (1948); NIEBUHR, Reinhold ' Moral Man and Immoral
Society: A Study in Ethics and Politics. Nova York: Charles Schribner's Sons,
1960; ARON, Raymond ' Paz e Guerra entre as Nações. Brasília:
Editora UnB, 2002 [1962]; WALTZ, Kenneth N. ' Man, the State
and War: A Theoretical Analysis. Nova York: Columbia University Press, 1969; WALTZ, Kenneth N. ' Theory of International Politics. Nova
York: Mcgraw-Hill Book Co, 1979; GILPIN, Robert ' War and
Change in World Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1981, e MEARSHEIMER, John J. ' The Tragedy of Great Power Politics. Nova
York: Norton, 2001, são alguns dos principais autores da
tradição realista.
8 HOBBES, Thomas ' Leviathan. [S. l.], 1651, cap. XIII. [Consultado em: 10 de
Janeiro de 2009]. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/
texto/Hobbes_Leviathan_1909.pdf
9 WALTZ, Kenneth N. ' Theory of International Politics, p. 172.
10 Ibidem, p. 126.
11 Ibidem, p. 111.
12 A vasta gama de abordagens construtivistas em RI, quase sempre divergentes,
leva a entender essa corrente teórica em termos de construtivismos, e não de
uma única teoria. A obra de Wendt retrata apenas uma destas abordagens, podendo
o leitor encontrar outras nos textos de ONUF, Nicholas G. ' World of Our
Making: Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Columbia:
University of South Carolina Press, 1989; KRATOCHWIL,
Friedrich ' Rules, Norms and Decisions: On the Conditions of Practical and
Legal Reasoning in International Relations and Domestic Affairs. Cambridge:
Cambridge University Press, 1989; PRICE, Richard, REUS-SMIT,
Christian ' "Dangerous liaisons? Critical international theory and
constructivism". In European Journal of International Relations, Vol. 4,
N.º 3, 1998, pp. 259-294; e GUZZINI, Stefano ' "A
reconstruction of constructivism in international relations". In European
Journal of International Relations, Vol. 6, N.º 2, 2000, pp. 147-182.
13 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, p. 249.
14 WENDT, Alexander E. ' "Anarchy is what states make of it: the social
construction of power politics", p. 407.
15 Título do capítulo 6 do livro de Wendt, no qual o autor ilustra o seu
argumento.
16 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics.
17 Wendt identifica quatro tipos de identidade: pessoal ou corporativa, tipo,
de papéis (role) e colectiva (WENDT, Alexander E. ' Social Theory of
International Politics, pp. 224-233).
18 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, p. 257.
19 Ibidem, p. 258.
20 Ibidem, p. 262.
21 HOBBES, Thomas ' Leviathan. [S. l.], 1651, cap. XIII. [Consultado em: 10 de
Janeiro de 2009]. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/
texto/Hobbes_Leviathan_1909.pdf
22 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, p. 265.
23 Ibidem, pp. 265-266.
24 Para referências, cf. WATSON, Adam ' A Evolução da Sociedade Internacional:
Uma Análise Histórica Comparativa. Brasília: Editora UnB, 2004 (1992), e MACEDO, José Rivair ' "Conquistas bárbaras". In
MAGNOLI, Demétrio (ed.) ' História das Guerras. São Paulo: Editora Contexto,
2006, pp. 77-98.
25 LOCKE, John ' Two Treatises of Government. [S. l.], 1690, cap. 2, parágrafo
6. [Consultado em: 6 de Janeiro de 2009]. Disponível em: http://
www.dominiopublico.gov.br/download/texto/gu007370.pdf
26 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, pp. 279-282.
27 Ibidem, pp. 283-285.
28 Ibidem, p. 270.
29 Ibidem, p. 229.
30 Ibidem, pp. 298-299.
31 Segundo Karl Deutsch, as comunidades de segurança podem ser de dois tipos:
amalgamadas, quando ocorre unificação formal de estados; e pluralísticas,
quando os estados mantêm as suas soberanias [Deutsch citado por ADLER, Emanuel,
e BARNETT, Michael (eds.) ' Security Communities. Cambridge: Cambridge
University Press, 1998, p. 5 )].
32 Deutsch citado por WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International
Politics, p. 299.
33 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, pp. 299-302.
34 WALTZ, Kenneth N. ' "Structural realism after the Cold War". In
International Security. Vol. 25, N.º 1, 2000, pp. 5-41.
35 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, p. 257.
36 Optou-se pela expressão "paz internacionalista", e não
"kantiana", para evitar repetição de termos e para afastar a
conotação negativa adquirida pelo termo após a crítica de Carr (CARR, Edward H.
' Vinte Anos de Crise, 1919-1939: Uma Introdução ao Estudo das Relações
Internacionais. 2.ª edição. Brasília, São Paulo: Editora UnB, IOESP, IPRI, 2001
(1939).
37 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, pp. 273-274.
38 TUCÍDIDES ' História da Guerra do Peloponeso. 4.ª edição. Brasília: Editora
UnB, 2001.
39 RAPOPORT, Anatol ' Peace: An Idea Whose Time Has Come. Ann Arbor: University
of Michigan Press, 1992; RICHMOND, Oliver P. ' The
Transformation of Peace. Basingstoke, Nova York: Palgrave Macmillan, 2005; RICHMOND, Oliver P. ' Peace in International Relations, 2008.
40 HOBBES, Thomas ' Leviathan. [S. l.], 1651, cap. XIII. [Consultado em: 10 de
Janeiro de 2009]. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/
texto/Hobbes_Leviathan_1909.pdf [Consultado em: 10 de Janeiro de 2009].
41 RICHMOND, Oliver P. ' Peace in International Relations, p. 42.
42 GALTUNG, Johan ' "Violence, peace and peace research". In
Journal of Peace Research. Vol. 6, N.º 3, 1969, pp. 167-191.
43 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, p. 260.
44 Sobre esses tratados, cf. CERVO, Amado Luiz ' "Hegemonia coletiva e
equilíbrio: a construção do mundo liberal (1815-1871)". In SARAIVA, José
Flávio Sombra (ed.) ' Relações Internacionais ' Dois Séculos de História: Entre
a Preponderância Européia e a Emergência Americano-Soviética (1815-1947).
Brasília: IBRI. Vol. 1, 2001, pp. 59-103, e WATSON, Adam ' A
Evolução da Sociedade Internacional.
45 RICHMOND, Oliver P. ' Peace in International Relations, 2008.
46 RAPOPORT, Anatol ' Peace: An Idea Whose Time Has Come, p. 151.
47 Ibidem, pp. 150-151.
48 BARASH, David P. ' "International Law". In BARASH, David P.
(ed.) ' Approaches to Peace: A Reader in Peace Studies. Nova York, Oxford:
Oxford University Press, 2000, pp. 106-113.
49 WIBERG, Håkan ' "JPR 1964-1980 ' What have we learnt about
peace?". In Journal of Peace Research. Vol. 18, N.º 2, 1981, p. 136.
50 KANT, Immanuel ' Perpetual Peace: A Philosophical Sketch. 1795. [Consultado
em: 8 de Janeiro de 2009]. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/ll000011.pdf
51 OSIANDER, Andreas ' "Rereading early twentieth-century ir theory:
idealism revisited". In International Studies Quarterly. Vol. 42, N.º 3,
1998, pp. 409-432.
52 NEGRETTO, Gabriel L. ' "Kant and the illusion of collective
security". In Journal of International Affairs. Vol. 46, N.º 2, 1993, pp.
501-523.
53 NEGRETTO, Gabriel L. ' "Kant and the illusion of collective
security" .
54 GALTUNG, Johan ' "Violence, peace and peace research", pp. 167-
191.
55 Para outras conceptualizações de paz, cf. especialmente RICHMOND, Oliver P.
' Peace in International Relations, e RAPOPORT, Anatol '
Peace: An Idea Whose Time Has Come.
56 WENDT, Alexander E. ' Social Theory of International Politics, cap. 7.
57 Ibidem.