Islão transnacional e os fantasmas do colonialismo português
OS DOIS TEMPOS DAS POLÍTICAS «ISLÂMICAS» DO COLONIALISMO PORTUGUÊS
É possível distinguir duas fases nas relações do colonialismo português com o
islão e com as populações muçulmanas. Dos anos 40 do século passado, e mesmo
antes1, até à primeira metade do período da Guerra Colonial (1961-1965), os
muçulmanos foram percepcionados como ameaçadores e virtualmente incontroláveis.
Ideólogos, militares, agentes da polícia política e antropólogos ao serviço do
sistema colonial descreveram como os muçulmanos estavam empenhados em derrubar
o poder português e o colonialismo em geral, atribuindo uma lógica
expansionista à natureza profunda do islão. Em contrapartida, as populações
«animistas» da Guiné-Bissau e de Moçambique eram consideradas aliados
potenciais do status quo colonial. Ao invés do islão, visto como impermeável
aos valores «portugueses» («ocidentais»), a resistência que pudessem oferecer
as religiões «nativas» africanas não era levada a sério por uma ideologia
basicamente racista. Pensava-se, por isso, que os «animistas», dada a
«inferioridade» congénita das suas crenças, seriam muito mais influenciáveis e,
no limite, «recuperáveis» pela pregação católica e pela propaganda oficial do
regime. O final dos anos 1960, porém, assistiu a uma reviravolta importante
nestas percepções, em grande parte devido ao conhecimento entretanto adquirido
que se começou a disseminar por entre o discurso dos «especialistas». Estes, em
particular os que operavam nos serviços de informação, passaram a encarar a
hipótese de uma aliança preferencial com as lideranças muçulmanas locais.
Supunha-se que elas haviam ganho gradualmente a consciência do que teriam a
perder em futuras nações africanas reguladas por regimes marxistas «ateus». A
isso acrescia a constatação de que os «animistas» andavam a ser recrutados, em
crescente número, pelos movimentos nacionalistas, ficando assim perdidos para a
«causa» portuguesa2.
Pese embora esta evolução, importa frisar que ela nada teve de linear. Com
efeito, no primeiro período acima referido a imagem negativa do muçulmano não
foi unidimensional. Foi antes dupla e ambivalente, contaminada pela percepção
racista e inferiorizante do negro africano. De facto, no mapa identitário com
que o discurso português percepcionou o islão nas colónias da Guiné e de
Moçambique o muçulmano aparecia cindido em duas versões: o árabo-asiático,
prenhe de supostas ameaças para a estabilidade do sistema colonial, e uma
espécie de proto-muçulmano, o «islamizado», produto híbrido ou «sincrético»,
incapaz de superar credos «animistas» que abastardavam um islão reduzido, nesta
óptica, a simples cobertura de superfície ou maquilhagem prestigiante para
efeitos de autopromoção no seio do grupo. Esta concepção, que encontramos em
diversos autores3, que se derrama por muita documentação produzida na
administração colonial e que, de resto, atravessa o segundo período ' de
aproximação às lideranças muçulmanas ', vinha replicar muito do que os
franceses haviam teorizado em torno das comunidades islâmicas da África
Ocidental Francesa e condensado na famosa ideia de «islão negro». Apodado com
os qualificativos de «superficial» e «ignorante», esse islão de matriz africana
era oposto a um islão indiano/asiático/árabe, o único tomado como realmente
«genuíno» e «profundo» nesta hierarquização típica de um certo imaginário
colonial4.
Tendo em conta este quadro geral, o presente artigo irá proceder a um vol
d'oiseau sobre esses dois períodos de evolução das estratégias «islâmicas»
portuguesas. O fio condutor da análise será a forma como estas foram lidando,
nos seus vários matizes, com a dimensão transnacional do islão.
ISLÃO: UMA INQUIETANTE TRANSNACIONALIDADE
Na concepção colonial portuguesa a representação do islão, enquanto força
política, foi dominada por três temas interligados: o pan-islamismo, o pan-
africanismo e a relação entre o islão e o comunismo. Estes temas balizavam o
modo como o sistema colonial interpretava o que se lhe afigurava ser a
perturbadora transnacionalidade do islão. A sua conjugação estava, como é
óbvio, longe de ser original e muito menos exclusiva do imaginário português.
Em meados da década de 1920, o pan-islamismo e as eventuais ligações entre o
islão e o movimento comunista tinham já obcecado a administração colonial
francesa e os seus serviços de informação nas colónias do Magrebe, construindo
uma imagem do «inimigo» e uma narrativa de perigos potenciais que se mostravam,
muitas vezes, em total desproporção e desvinculação face àquilo que ocorria no
plano real5. Num certo sentido, poder-se-á dizer que havia algo de importado na
forma como o discurso oficial português se apropriava desses temas e no
carácter retoricamente excessivo que estes aí assumiam. Eles tinham, porém, uma
ressonância peculiar no caso português, resultante do facto de o seu projecto
colonial se ver permanentemente confrontado com as fragilidades decorrentes da
posição semiperiférica de Portugal na hierarquia do sistema mundial e no
conjunto das nações colonizadoras propriamente ditas6. As ansiedades da
Administração portuguesa perante a transnacionalidade do islão e o impacto que
esta pudesse ter no interior das colónias portuguesas, especialmente na Guiné e
em Moçambique, têm pois de ser entendidas à luz dessa condição específica.
Seja como for, se tomarmos o discurso missionário como barómetro, é curioso
verificar que, nos anos 30 do século passado, o islão parecia não representar
uma ameaça para um certo catolicismo ligado ao programa colonial. No número de
Junho de 1932 de O Missionário Católico afirmava-se, sem sobressaltos, que no
confronto absoluto entre duas civilizações, a islâmica e a cristã, esta última
teria de triunfar «necessariamente»7. Foi gradualmente que as autoridades e os
ideólogos portugueses reconheceram a força da influência islâmica e a
perspectiva da sua superioridade, que ameaçava derrubar o ascendente católico
(português) sobre as populações africanas ' um ascendente que, por falta de
meios, sempre havia sido mais retórico do que efectivo. Enquanto governador da
Guiné, Manuel Sarmento Rodrigues fora já forçado a confessar o seu embaraço
perante a comparação entre a fraqueza dos portugueses nessa colónia e o poder
dos seus rivais muçulmanos: «Vemos os Biafadas que eram feiticistas tornarem-se
maometanos e adoptarem nomes mandingas, a sua religião e costumes, facto que
considero vergonhoso para nós, por revelar que a influência dos islamizados é
superior à nossa»8. A partir dos anos 1950, o discurso público sofre uma
inflexão, e torna-se comum o reconhecimento de uma inversão das relações
imaginárias de força entre o islão e a presença portuguesa na África. O
triunfalismo desaparece das páginas de O Missionário Católico, de tal maneira
que, em 1954, o padre Porfírio Gomes Moreira escrevia nessa revista que «o
movimento de conversões para o islão é, actualmente, duas vezes mais forte que
o das conversões para o catolicismo». Com base nessa proporção, ele podia
justamente perguntar: «De quem será, no futuro, a África?» Entre as hipóteses
por ele colocadas, já não era líquido que Cristo triunfasse sobre Maomé9.
Na década de 1950 e início de 1960 multiplicam-se, pois, os argumentos que
associam o islão a um desígnio expansionista, particularmente centrado na
África, com o «pan-islamismo» e o «pan-africanismo» a confundirem-se e a
cavalgarem-se mutuamente, desafiando a permanência da dominação europeia sobre
o continente. Um relatório confidencial que o padre Albano Mendes Pedro redigiu
em 1961 para a Junta de Investigações do Ultramar, com base numa pesquisa por
ele conduzida em Moçambique, pintava em tons paranóides toda uma fantasmática
de invasão e de «domínio total» (projectando no islão o próprio expansionismo
dos europeus, não reconhecido enquanto tal):
«O Islamismo internacional está neste momento possuído pela
impaciência da conquista da África inteira. Trabalham com este
objectivo a Associação de África, a Liga de África e a Divisão Pan-
Africana do Grupo Afro-Asiático. [ ] Não há em África território
algum, mesmo Angola, onde não haja algum explorador maometano, em
função de guarda avançada, para proceder ao reconhecimento dos meios
e recolher as informações que permitirão organizar o plano de
ataque.»10
Um pouco antes, em 1956, um artigo do Boletim Geral do Ultramar, ostentando um
título ansiogénico ' «O Perigo do Islão em África» ', declarava «que nos
encontramos em presença de uma campanha sistemática de penetração, realizada
por militantes unidos e bem organizados», e que os chefes políticos do Egipto,
do Paquistão e da Arábia Saudita tinham decidido «passar à acção, estabelecendo
um plano de conquista muçulmano do continente africano»11. Já com as guerras
coloniais em curso, o então tenente-coronel Hélio Felgas manifestava a sua
inquietação de que a «África independente, tão heterogénea, tão tribal, tão
hostil consigo própria», estivesse lançada numa «grande campanha de
unificação», e que o «islamismo» estivesse ou pudesse vir a ser utilizado como
instrumento para conseguir esse fim, embora o autor depositasse esperanças no
ódio que habitualmente dividia os países árabes do Norte de África e do Médio
Oriente, ódio esse que acabaria também por transparecer na falsa fraternidade
com que os «pretos islamizados» se tratavam entre si12.
Nestas concepções, o pretenso projecto islâmico de conquista da África era uma
mera parcela de um conflito maior. Este podia ser vertido num molde geopolítico
que opunha o Oeste ao Leste, ou representado, de forma mais delirante, numa
megacompetição identitária entre um pólo que condensava a negatividade absoluta
' o Mal Islâmico Oriental ', desafiante e ameaçadora, e um pólo positivo ' o
Bem Cristão Ocidental ' cuja supremacia parecia condenada a um destino incerto.
Dez anos antes da irrupção das guerras que os portugueses iriam travar em
África, esta clivagem assombrara já discursos da Assembleia Nacional como o do
deputado Carlos Moreira, proferido em 1951:
«O movimento pan-islamítico, intensificado nos últimos séculos e com
maior vulto e importância que geralmente supõem os espíritos europeus
demasiadamente optimistas, tem por objectivo capital eliminar o
cristianismo da África e o que não é menos grave, opor-se, em nome da
fé ao que denominamos civilização cristã e ocidental»13.
Numa comunicação com o significativo título de «A Ameaça Islâmica na Guiné
Portuguesa», apresentado em 1956 no IV Congresso da União Nacional, António de
Sousa Franklin não hesitara em prever nada menos do que uma «guerra santa» do
Crescente contra a Cruz, a qual mobilizaria «todo o mundo islâmico» empenhado
em organizar uma rede terrorista global de «voluntários da morte»14 ' imagética
que mostra as fontes a que temos de recuar se quisermos traçar as origens dos
nossos fantasmas actuais em torno do «islão terrorista».
Em inícios dos anos 1960, a possível aliança entre o islão e o comunismo era
outro tema regular nas análises produzidas pelas autoridades portuguesas,
sobretudo ao nível das Forças Armadas e da polícia política. Aqui transparecia
uma peculiar ambivalência, pois o islão tanto era representado à maneira de um
dique, ainda que frágil, contra a invasão do continente africano pelo
comunismo, como era considerado um agente da penetração comunista. As próprias
explicações para a suposta aliança entre o «perigo verde» e o «perigo vermelho»
oscilavam na caracterização do islão: viam-no como uma espécie de irmão-gémeo
do comunismo, ou até como um comunismo tout court, mas também o consideravam
pervertido por ideologias comunistas essencialmente estranhas ao seu verdadeiro
sentido. Reconhecendo algumas importantes diferenças entre os dois, Hélio
Felgas acentuava uma semelhança profunda no facto de ambos, islão e comunismo,
partilharem o ódio em relação ao Ocidente e um desejo de conquistar o mundo
através do derrube de todas as fronteiras nacionais15. Um relatório da PIDE,
juntando a ansiedade político-identitária à ignorância atrevida, ia ainda mais
longe e descrevia Maomé como um verdadeiro precursor de Karl Marx, um Maomé que
«lutou contra o capitalismo, defendeu os pobres e oprimidos, levantando o
problema no aspecto da luta de classes e directrizou [sic] o Islão nos
campos ético, científico e político»16. Confrontado com a perspectiva de uma
«cooperação afro-asiática» na luta contra o imperialismo e o capitalismo, o
texto deste relatório associava pan-islamismo, socialismo marxista e
anticolonialismo.
Tal como já antes sucedera com os serviços de informação e de segurança
britânicos e franceses, nas suas colónias ou mandatos em regiões muçulmanas17,
os agentes e ideólogos do colonialismo português viam um parentesco profundo
entre o islão e o comunismo no carácter transnacional ou «internacionalista» de
ambos, no facto de ameaçarem os «equilíbrios» e a «boa ordem» das
territorialidades nacionais do sistema mundial. E este era, talvez, o aspecto
mais perturbador do islão para os mapas cognitivos do colonialismo português:
«desnacionalizador», precisamente porque dotado de uma transnacionalidade sem
outras fronteiras identitárias que não fossem a pertença à Umma. «Religião-
nação», conforme Albano Mendes Pedro lhe chamava no relatório atrás citado18.
Os receios perante uma «Comunidade dos Crentes», alegadamente capaz de engolir
as nações, tinham aqui amplo alimento. Este tema ligava-se a um outro, próprio
das ansiedades de um «império» de semiperiferia. Já em 1934 alguém afirmava que
«os chefes muçulmanos podem viver bem com as nossas autoridades [ ] mas a sua
alma nunca se poderá sentir portuguesa»19. Num estudo considerado, durante
vários anos, como a única referência de autoridade sobre o islão na
investigação científica portuguesa, José Júlio Gonçalves discorria sobre um
«credo muçulmano que é, inequivocamente, desnacionalizador e [ ]
antiportuguês»20. Associação frequente, tanto ao nível das representações
ideológicas como nas que eram produzidas pelos agentes coloniais no terreno.
FACE AO ISLÃO: ESTRATÉGIAS DE CONTROLO E SEDUÇÃO
Todas estas preocupações e percepções foram marcando a actividade diária da
administração colonial portuguesa, que destinava funcionários dos ministérios
do Ultramar e dos Negócios Estrangeiros, dos serviços de informação e da
própria PIDE para a tarefa de recolher todos os dados disponíveis,
particularmente nos órgãos e agências de comunicação estrangeiros, sobre as
tendências evolutivas do mundo islamo-árabe. Por vezes, as notícias pareciam
feitas à medida da paranóia islamofóbica que habitava o aparelho colonial
português, como a que irrompeu a 15 de Fevereiro de 1958 na primeira página do
jornal egípcio Al Ahram, num artigo intitulado «O Nacionalismo árabe aparece em
Moçambique», o qual indicava que teriam sido descobertos folhetos de propaganda
nacionalista árabe, com o retrato de Nasser, entre as famílias muçulmanas do
Norte dessa colónia ' uma notícia reproduzida, no mês seguinte, em dois lugares
aparentemente excêntricos em relação a Portugal: um jornal de Montevideu e um
de Havana21. Entretanto, com a mesma motivação de controlo e monitorização das
actividades islâmicas, as autoridades portuguesas votavam também uma atenção
específica aos congressos e conferências internacionais que reunissem países
muçulmanos ou que fossem consagrados ao islão, incluindo os raros que entre nós
se efectuavam22. A par deste acompanhamento dos eventos islâmicos de cunho
internacional, o aparelho colonial, nos seus vários dispositivos (que incluíam
também a polícia política), multiplicava as frentes de controlo sobre
indivíduos e comunidades especificamente focados pela sua pertença a uma
identidade muçulmana: mesquitas e mualimos, pregadores itinerantes, trocas de
correspondência, deslocações para outros territórios e regressos do exterior,
tudo podia ser alvo dos mecanismos de vigilância montados pela Administração
portuguesa23.
Após a eclosão da guerra colonial, o relacionamento das autoridades portuguesas
com as comunidades islâmicas vai adquirir uma complexidade acrescida,
especialmente em Moçambique. Doravante, e até ao final do conflito, assiste-se
nessa região a uma mistura, em doses assimétricas, de duas modalidades. Por um
lado, procedimentos de repressão e de controlo, típicos de uma situação de
guerra em que a Administração se sentia acossada, mas também da permanência de
sentimentos de desconfiança em relação ao «outro», indissociáveis de qualquer
ordem colonial. Por outro lado, um amplo programa de sedução que, pela primeira
vez, procurava racionalizar a relevância estratégica do islão no confronto que
opunha o poder colonial à Frelimo. Tendo fracassado nas tentativas de competir
com o islão no terreno religioso, dado que as missões católicas não mostravam
sinais de progresso significativo, o contexto podia acolher uma outra abordagem
que aceitasse a presença irremovível do islão e, ao mesmo tempo, a soubesse
usar ao serviço dos interesses portugueses. O novo raciocínio estava até
disposto a descartar décadas de suposto conhecimento sobre essa religião e a(s)
sua(s) cultura(s), ao admitir «ser errada a noção de que o islamismo é
desnacionalizante»24. Por outras palavras, a diferenciação identitária do negro
moçambicano, enquanto muçulmano, podia ser manejada de modo a transformá-lo,
apesar de tudo, num «português». Para atingir tal fim, as autoridades teriam de
cortar todas as pontes que o pudessem ligar a instâncias estrangeiras ou
potencialmente incontroláveis pelo poder colonial: «Na apreciação do islamismo
presente na Província, há que distinguir o islamismo negro do islamismo
asiático, dito monhé, e evitar que venham a identificar-se.» Sendo o
asiático, tal como os ideólogos coloniais o concebiam, uma identidade superior
ao africano, deviam ser tomadas medidas para impedir que as lideranças
muçulmanas de Moçambique ficassem «polarizadas» em redor de modelos externos
(asiáticos ou árabes).
A leitura de alguma documentação, nomeadamente os relatórios produzidos por um
observador privilegiado, Jacques Honoré, cônsul-geral da França em Lourenço
Marques entre 1965 e 1969, leva-nos a admitir que a estratégia acima referida
foi pensada dentro de um triângulo complexo. Um dos seus vértices, aquele que
se afirmou em primeiro lugar, foi preenchido pela Igreja Católica e pelo
Vaticano, em fase de adaptação «ecuménica» à realidade de um islão predominante
no Norte de Moçambique. Refiro-me ao diálogo com as comunidades islâmicas,
encetado pelo bispo de Vila Cabral, D. Eurico Dias Nogueira, a partir da sua
Carta Fraterna aos Muçulmanos de 1966, diálogo muitas vezes em colisão com a
relutância islamofóbica da hierarquia do catolicismo local, mas que tudo indica
ter obtido o suporte discreto do próprio Salazar ' em articulação tácita com o
segundo vértice do triângulo, consubstanciado no centro do aparelho de poder25.
Finalmente, o terceiro vértice assentou nos ramos locais desse aparelho, em
particular nos serviços da intelligence portuguesa que operavam em Moçambique.
Neste último vértice destaca-se uma figura fundamental. Nascido em Lisboa no
ano de 1935, tendo passado a sua infância e adolescência em Angola, Fernando
Amaro Monteiro trabalhou, entre 1965 e 1970, como adjunto dos Serviços de
Centralização e Coordenação de Informações de Moçambique (SCCIM), onde chefiou
o respectivo Gabinete de Estudos, mantendo ulteriormente, até ao final da
guerra colonial, funções oficiosas de consultoria já na qualidade de
investigador da Universidade de Lourenço Marques. Um dos mais informados
islamólogos portugueses, em grande medida graças aos contactos pessoais que
criou e manteve com diversas figuras proeminentes do islão local, ele actuou
nos bastidores para dar corpo a uma série de iniciativas de aproximação às
lideranças islâmicas de Moçambique que procuraram alinhá-las com o poder
português no combate à Frelimo.
É impossível analisar aqui em detalhe a «acção psicológica» que Amaro Monteiro
reservou para os muçulmanos, num plano que, segundo ele, deveria incluir quatro
estádios: (1) «detecção» (recolher dados sobre o contexto e as estruturas da
liderança islâmica em Moçambique); (2) «captação» (seduzir os muçulmanos
através de acções públicas de reconhecimento por parte do poder colonial); (3)
«comprometimento» (persuadir os dignitários islâmicos a identificarem-se com a
Administração portuguesa); (4) «accionamento» (envolver as populações
muçulmanas e as suas chefias religiosas na guerra «antisubversiva» contra os
movimentos anticoloniais, prevendo a integração de milícias assumidamente
islâmicas nas tropas especiais)26. Com este programa, os SCCIM tornaram-se o
organismo pivot da estratégia apostada em conquistar a boa vontade dos
dignitários muçulmanos, sobretudo na região norte de Moçambique onde
prevaleciam as confrarias islâmicas sufistas, consideradas um ingrediente
típico do chamado «islão negro». Nem todas as comunidades muçulmanas da região
seriam, portanto, alvo da abordagem de sedução, ou, pelo menos, nem todas o
seriam com a mesma intensidade, mas apenas as que se acreditava serem mais
permeáveis à influência portuguesa.
Este plano destinava-se a ser conduzido em vários tabuleiros, de âmbito interno
mas também internacional. Contudo, mesmo o que se apresentava numa escala
essencialmente local não deixava de incluir uma preocupação com a
transnacionalidade do islão. Conforme referimos atrás, tratava-se, antes de
mais, de escudar um islão negro mais «manobrável» e de o isolar
«profilacticamente» face a influências anticolonialistas que pudessem emanar da
África Oriental, da Índia ou do mundo árabe. No contexto português, isto
significava instituir «uma organização islâmica centralizada e patrocinada pelo
Estado, um centro local de autoridade religiosa, independente e autónomo em
relação aos centros do islão no estrangeiro»
27
. Para alcançar este objectivo, Amaro Monteiro concebeu, em Dezembro de 1965 e
sob a égide dos SCCIM, um questionário sobre o islão, o maior alguma vez
realizado em Moçambique, pensado para cobrir grande parte das comunidades
muçulmanas espalhadas na região, das quais se esperava que respondessem a
questões referentes à estrutura familiar, às atitudes e práticas religiosas, às
percepções islâmicas de temas cristãos ou cristológicos, etc. O questionário
foi sendo aplicado, em condições de fiabilidade por vezes duvidosa, ao longo de
1966. Através dele, o que estava a ser posto em prática não era mais do que a
primeira fase do programa de APSIC delineado por Amaro Monteiro. O questionário
foi, assim, um expediente para identificar o mais depressa possível quais os
líderes efectivamente importantes e influentes dentro das comunidades
muçulmanas de Moçambique, dada a urgência em enquadrar o islão num cenário de
guerra cada vez mais difícil. O objectivo seria aliciá-los a integrarem o tal
centro local de autoridade islâmica, inicialmente designado por Ijmâ e mais
tarde apelidado de «Conselho de Notáveis», um órgão que Amaro Monteiro pensava
poder vir a ser utilizado para mobilizar a «massa islâmica» de Moçambique
contra a Frelimo, depois de publicamente comprometido com o poder português
28
. O seu embrião viria a ser lançado apenas a 15 de Agosto de 1972, quando os
vinte dignitários muçulmanos de maior influência foram reunidos pelas
autoridades portuguesas, sob a batuta sempre discreta de Amaro Monteiro, para
darem o aval à publicação da versão portuguesa de uma selecção de Hadiths, em
cerimónia pública intensamente difundida pela propaganda colonial.
Monteiro estava convicto de que o Ijmâ também serviria para contrariar as
pretensões supostamente hegemónicas e centralistas dos muçulmanos de origem
indiana e paquistanesa29. Estes continuavam a ser objecto de desconfiança e
controlo, e o próprio Amaro Monteiro recomendou que as associações islâmicas de
Moçambique, de maioria indiana, fossem colocadas sob apertada vigilância. Para
justificar semelhante medida, recorreu à velha dicotomia identitária que
distinguia entre uma «massa nativa controlável», por um lado, e «elementos de
raiz asiática», cuja orientação doutrinária podia colidir com os interesses do
poder português30. A atitude do aparelho colonial para com o islão «asiático»
estava, no entanto, tingida pela ambivalência, pois o discurso da suspeição
hesitava perante as estratégias de integração dos muçulmanos indianos e a
aparente evidência de que eles não alinhavam, de facto, com o «inimigo».
Esta atitude flutuante acentuou-se no início da década de 1970. As suspeitas
não impediram, por exemplo, que Abdool Magid Karim Vakil, membro destacado da
comunidade islâmica «asiática» de Moçambique, fosse, em 1973, o primeiro (e
único) muçulmano a ser nomeado membro do governo-geral da região, facto que
mereceu destaque nalguma imprensa internacional, nomeadamente no Paquistão, e
que o poder português procurou explorar nas relações diplomáticas com os países
árabes31. Aliás, no início dos anos 1970 a diplomacia portuguesa começou a
ensaiar um discurso de aproximação a esses países que, pelo menos no plano
retórico, vinha ao arrepio da clivagem entre o «bom» muçulmano negro e o «mau»
muçulmano árabo-asiático. Um telegrama de 16 de Janeiro de 1971 do Ministério
dos Negócios Estrangeiros para a Embaixada do Cairo, dando conta de tentativas
de cooperação luso-líbia no domínio económico (com a compra de petróleo) e até
militar (com a venda à Líbia de bombas de napalm de fabrico português),
sustentava uma aproximação ao mundo árabe argumentando que, em boa verdade,
nada ligava os países dessa região, «nem histórica, nem culturalmente», aos da
África Negra ' posto que os últimos até aceitavam a ajuda de Israel. Segundo
este argumento, «pareceria muito mais razoável que existisse um grupo africano
(África Negra) e um grupo árabe-asiático constituído por países com outro nível
de civilização, outros interesses e outra perspectiva de vida», e que, assim
sendo, «Portugal acolhia com grande interesse o desenvolvimento das suas
relações com países árabes, ainda que estas se estabelecessem por enquanto de
forma oficiosa»32. Eis uma completa inversão das polaridades identitárias: o
muçulmano «mais desenvolvido», que por isso mesmo fora objecto de permanente
suspeita, era agora elevado ao estatuto de potencial aliado. Esta aspiração a
criar pontes com o mundo árabe fora, aliás, antecipada por Amaro Monteiro, na
sua tentativa de amplificar, junto de nações de maioria islâmica, os efeitos
das famosas mensagens dos governadores-gerais de Moçambique dirigidas aos
muçulmanos da «Província» ' uma ideia sua, por ele encenada milimetricamente e
abraçada pelos três últimos detentores do respectivo cargo antes do 25 de
Abril.
Percorrida por ambivalências várias, por sinais contraditórios ' onde se
destacava o desagrado do meio católico mais conservador ' e pelas próprias
ineficiências do aparelho colonial, a política de aproximação aos muçulmanos
veio a soçobrar num relativo fracasso, pelo menos no tocante ao seu objectivo
mais imediato: contrariar o sucesso dos movimentos anticoloniais. Em Julho de
1973, foi o próprio Fernando Amaro Monteiro, recebido por Marcelo Caetano no
Palácio de Queluz, quem anunciou ao chefe do Governo a deterioração acelerada
da posição portuguesa em Moçambique. Caetano terá então reagido com um misto de
irritação e de impotência33. Uma síntese do destino que esperava a ditadura e o
colonialismo português.
NOTAS
1 Ver, por exemplo, ENES, António ' Moçambique. Relatório Apresentado ao
Governo. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1946 (1.ª edição, 1893), pp. 212-
215.
2 Cf. CRUZ, Luís Fernando Dias Correia da ' «Alguns aspectos da subversão na
província portuguesa da Guiné». In Ultramar. Vol. 4, N.º 32, 1968, pp. 125-147;
VIEIRA, Guilherme de Sousa Belchior ' «Contribuição dos muçulmanos portugueses
da Guiné para a estabilidade nacional». In Revista Militar. N.º 10, 1971, pp.
595-613.
3 Alguns exemplos lapidares deste género de caracterização do islão na África:
CARVALHO, J. Vaz de ' «O islamismo negro». In Revista do Gabinete de Estudos
Ultramarinos. N.º 11-12, 1956, p. 140; GONÇALVES, José Júlio ' O Mundo Árabo-
Islâmico e o Ultramar Português. Lisboa: Centro de Estudos Políticos e Sociais
da Junta de Investigações do Ultramar, 1958; GONÇALVES, José Júlio ' O
Islamismo na Guiné Portuguesa: Ensaio Sociomissionológico. Lisboa: [s. n.],
1961; MOTA, Avelino Teixeira da ' Guiné Portuguesa. Vol. I. Lisboa: Agência
Geral do Ultramar, 1954.
4 Para os teorizadores do Islam Noir, desde a era clássica de início do século
passado até às décadas de 1950-1960 ' tendo quase todos passado pela
administração colonial da Senegâmbia francesa, alguns com postos elevados ',
veja-se, a título de exemplo: DELAFOSSE, Maurice ' Haut-Sénegal-Niger. Paris:
Émile Larosse, Librarie-Éditeur, 1912, tomos i, ii, iii; ANDRÉ, P.-J. ' L'Islam
noir. Contribution à l'étude des confréries religieuses islamiques en Afrique
Occidentale suivie d'une étude sur l'Islam au Dahomey. Paris: Librairie
Orientaliste Paul Geuthner, 1924; GOUILLY, Alphonse ' L'Islam dans l'Afrique
Occidentale Française. Paris: Éditions Larose, 1952; DESCHAMPS, Hubert ' Les
religions de l'Afrique noire. Paris: Presses Universitaires de France, 1954;
FROELICH, J. C. ' Les Musulmans d'Afrique Noire. Paris: Éditions de l'Orante,
1962. Para a história da articulação entre as teorias «científicas» do «islão
negro» e as políticas de governança das populações muçulmanas nas possessões
subsarianas francesas, cf. HARRISON, Christopher ' France and Islam in West
Africa, 1860-1960. Cambridge: Cambridge University Press, 1988; ROBINSON, David
' «France as a Muslim power in West Africa». In Africa Today. Vol. 46, N.º 3-4,
1999, pp. 105-127. Uma crítica cerrada dos preconceitos orientalistas inerentes
à concepção francesa do «islão negro» e da sua influência sobre a percepção
colonial portuguesa dos muçulmanos de Moçambique encontra-se em BONATE, Liazzat
' Traditions and Transitions: Islam and Chiefship in Northern Mozambique ca.
1850-1974. Tese de doutoramento. Cape Town: Department of Historical Studies,
University of Cape Town, 2007.
5 THOMAS, Martin ' Empires of Intelligence: Security Services and Colonial
Disorder After 1914. Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California
Press, 2008, pp. 73, 82-88, 91-105.
6 Cf. SANTOS, Boaventura de Sousa ' «Entre Prospero e Caliban: colonialismo,
pós-colonialismo e inter-identidade». In RAMALHO, Maria Irene, e RIBEIRO,
António Sousa (org.) ' Entre Ser e Estar. Raízes, Percursos e Discursos da
Identidade. Porto: Afrontamento, 2002, pp. 23-85.
7 Cf. RIBEIRO, Sílvio ' «Islamismo e cristianismo. Conversão dos maometanos».
In O Missionário Católico. Ano IX, N.º 95, Junho de 1932, pp. 104-107, 123-
124.
8 Apud FRANKLIN, António de Sousa ' A Ameaça Islâmica na Guiné Portuguesa.
Comunicação apresentada ao IV Congresso da União Nacional. Lisboa, 1956, p.
8.
9 MOREIRA, Pe. Porfírio Gomes ' «De quem será a África». In O Missionário
Católico. Ano XXXI, 2.ª série, N.º 8-9, Agosto-Setembro de 1954, pp. 303-
306.
10 PEDRO, Padre Albano Mendes ' Influências Político-Sociais do Islamismo em
Moçambique (Relatório Confidencial). Missão para o Estudo da Missionologia
Africana. Lisboa: Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta de
Investigações do Ultramar, 1961, pp. 8-9. Sobre este estudo cf. ALPERS, Edward
' «Islan in the service of Colonialism? Portuguese strategy during the armed
liberation struggle in Mozambique». In Lusotopie, 1999, pp. 169-170. Como é
óbvio, o termo «islamismo» não se refere, nestes textos, às vertentes
fundamentalistas da religião islâmica, mas opera como sinónimo do islão no seu
todo.
11 «O perigo do islão em África». In Boletim Geral do Ultramar. Ano XXXII, N.º
378, Dezembro de 1956, pp. 105-106.
12 FELGAS, Hélio ' Influência dos Árabes na África Actual. Separata da Revista
Militar, Julho e Agosto-Setembro de 1965, pp. 19-20.
13 Discurso do deputado Carlos Moreira. In Diário das Sessões da Assembleia
Nacional e Actas da Câmara Corporativa. N.º 98, V Legislatura, 14 de Abril de
1951, p. 848.
14 FRANKLIN, António de Sousa ' A Ameaça Islâmica na Guiné Portuguesa, pp. 15-
16, 18.
15 FELGAS, Hélio ' Influência dos Árabes na África Actual, pp. 15-17.
16 «Seitas gentílicas no Concelho de Marromeu vistas por uma brigada desta
polícia», Relatório da Polícia Internacional de Defesa do Estado ' Delegação de
Moçambique, de 14 de Setembro de 1966, Exemplar n.º 559/66-GAB, fl. 50.
17 Cf. THOMAS, Martin ' Empires of Intelligence: Security Services and Colonial
Disorder After 1914, p. 73.
18 PEDRO, Padre Albano Mendes ' Influências Político-Sociais do Islamismo em
Moçambique, p. 9.
19 FONTOURA, Álvaro de ' «Missões religiosas nacionais e estrangeiras e
influências desnacionalizadoras nas colónias portuguesas». In Boletim Geral das
Colónias. Ano X, N.º 112, Outubro de 1934, p. 124.
20 GONÇALVES, José Júlio ' O Mundo Árabo-Islâmico e o Ultramar Português.
Lisboa: Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta de Investigações do
Ultramar, 1958, p. 169.
21 Cf., em Arquivo Histórico-Diplomático (AHD), Ministério dos Negócios
Estrangeiros, Secção dos Negócios Políticos Ultramarinos, Proc. 945, N.º 600
PAA, pt. 70, as cartas e os telegramas, datados de Fevereiro de 1958, emitidos
pelos serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alguns destinados ao
Ministério do Ultramar, citando o jornal egípcio «de grande tiragem» Al Ahram;
ver igualmente as cartas das legações de Portugal em Montevideu e em Havana,
respectivamente de 5 e 6 de Março desse ano, acompanhadas pelos recortes do
jornal El Día, de Montevideu (publicado na primeira dessas datas), e
Información, de Havana (publicado na segunda data). O Gabinete dos Negócios
Políticos do Ministério do Ultramar compilava diversos artigos sobre temáticas
islâmicas que iam saindo na imprensa internacional, bem como os que a imprensa
de países de orientação muçulmana dedicava às colónias portuguesas. Como
exemplos, veja-se a Resenha n.º 50/63, de 10 a 16 de Dezembro de 1963 Arquivo
Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Serviços de Centralização e Coordenação de
Informações de Moçambique (SCCIM) n.º 408, fls. 262-266), a Resenha n.º 15/66,
de 12 de Abril de 1966 (ANTT, SCCIM n.º 410, fls. 428-433) e o ofício 563 T-2-
3-6-93, de 10 de Fevereiro de 1969, acompanhado de uma tradução francesa de um
artigo publicado, em Dezembro do ano anterior, num jornal de Istambul, versando
a situação do islão em Moçambique (ANTT, SCCIM n.º 413, fls. 40-44).
22 Tanto o Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar como os
Serviços de Centralização e Coordenação de Informações de Moçambique (SCCIM)
seguiam atentamente as conferências e os congressos internacionais árabes,
afro-asiáticos e muçulmanos. A 6.ª Conferência Mundial Islâmica, realizada em
Mogadíscio em Janeiro de 1965, mereceu um enfoque particular (ver a Informação
n.º 1274, de 9 de Junho de 1965, do Gabinete dos Negócios Políticos, ANTT,
SCCIM n.º 410, fls. 568-574). Reportando-se às conclusões dessa conferência,
Afonso Ivens-Ferraz de Freitas, então director dos SCCIM, informava, em ofício
confidencial, o governador do distrito de Cabo Delgado que se esperava «uma
ofensiva de subversão no sentido de utilizar o islamismo» (ANTT, SCCIM n.º 410,
fl. 579). Quando o IV Congresso de Estudos Árabes e Islâmicos se efectuou em
Lisboa, em Setembro de 1968, os SCCIM sugeriram ao Ministério do Ultramar a
presença de um seu elemento nas sessões do congresso, como «observador». O nome
avançado foi o de Fernando Amaro Monteiro, considerado a figura mais abalizada,
entre os serviços coloniais portugueses, para tratar do islão. Cf. a Informação
n.º 12/68 dos SCCIM, de 29 de Agosto de 1968 (ANTT, SCCIM n.º 413, fls. 62-63).
23 A este respeito, os documentos depositados no fundo arquivístico dos SCCIM
são legião. Menciono somente alguns exemplos: sobre o controlo das confrarias
islâmicas, cf. ANTT, SCCIM n.º 408, fls. 334-337; sobre o controlo de reuniões
religiosas islâmicas, realizadas ou não em mesquitas, cf. ANTT, SCCIM n.º 410,
fl. 522; SCCIM n.º 413, fls. 174-179; sobre o controlo da localização de
mesquitas e mualimos, cf. ANTT, SCCIM n.º 408, fls. 24, 29, 46, 50, 74, 80-83;
SCCIM n.º 410, fls. 601-602.
24 Informação n.º 24/67, 17 de Novembro de 1967, ANTT, SCCIM n.º 413, cx. 63,
pt. 1, fls. 91-103.
25 Na correspondência de Honoré com a Embaixada da França em Lisboa, é
frequentemente sugerido que as iniciativas «ecuménicas» do bispo de Vila
Cabral, dirigidas aos muçulmanos, fariam parte de uma estratégia mais vasta de
conquista das populações do Norte de Moçambique e de reforço das posições
portuguesas contra o movimento anticolonial. Ver, por exemplo, o Relatório n.º
163, de 21 de Novembro de 1966 Archives Diplomatiques de la Cournéuve, Paris
(ADC), Ministère des Affaires Étrangères, Afrique-Levant, Mozambique 1966-1972
Politique intérieure ' Questions religieuses, 59QO/34, Abril de 1966-Dezembro
de 1972) e o Relatório n.º 55, de 15 de Abril de 1967 (ADC, Ministère des
Affaires Étrangères, Afrique-Levant, Mozambique 1966-1972 Politique intérieure
' Action rebelle et défense portugaise, 59QO/29, Maio de 1966-Dezembro de
1971). No Relatório n.º 152, de 21 de Dezembro de 1967, reportando-se a uma das
várias conversas que manteve com o bispo de Vila Cabral, Honoré diz que este
último lhe confidenciou ter publicado a Carta Fraterna aos Muçulmanos da sua
diocese, de Setembro de 1966, apenas após uma audiência que Salazar lhe
concedeu e a seguir a vários contactos com o Ministério do Ultramar. O cônsul
francês infere daí a relevância propriamente política da Carta de D. Eurico
Dias Nogueira.
26 Cf. MONTEIRO, Fernando Amaro ' «Moçambique 1964-1974: as comunidades
islâmicas, o poder e a guerra». In Africana. N.º 5, 1989, pp. 84-89. As
iniciativas e o plano de Fernando Amaro Monteiro no domínio da «acção
psicológica» destinada aos muçulmanos mereceram, para além dos estudos
historiográficos que ele próprio empreendeu, a análise de diversos autores:
ALPERS, Edward ' «Islam in the Service of Colonialism?..., pp. 179-181; CAHEN,
Michel ' «L'État Nouveau et la diversification religieuse au Mozambique, 1930-
1974. II. La portugalisation désespérée (1959-1974)». In Cahiers d'Études
africaines. N.º 159, 2000, pp. 575-577, 581-583; GARCIA, Francisco Proença ' «O
Islão na África Subsariana. Guiné-Bissau e Moçambique, uma análise
comparativa». In Africana Studia. N.º 6, 2003, pp. 88-90; VAKIL, Abdool Karim '
«Pensar o Islão: questões coloniais, interrogações pós-coloniais». In Revista
Crítica de Ciências Sociais. N.º 69, 2004, pp. 28-30; MACAGNO, Lorenzo ' Outros
Muçulmanos: Islão e Narrativas Coloniais. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais,
2006, pp. 94-99, 164-166. Liazzat Bonate também se debruçou sobre a estratégia
desenvolvida por Amaro Monteiro: ver Traditions and Transitions , pp. 194-
202.
27 Socorro-me aqui das palavras de Liazzat Bonate em Traditions and
Transitions , pp. 196-197.
28 Sobre o projecto do Ijmâ há um conjunto de documentos relevantes nos
arquivos dos SCCIM, todos assinados por Amaro Monteiro, dos quais importa
realçar a Informação n.º 28/968, de 28 de Dezembro de 1968, ANTT, SCCIM n.º
412, fls. 332-334, a Informação n.º 19/70, de 31 de Julho de 1970, ANTT, SCCIM
n.º 420, fls. 16-23, e o Anexo à Informação n.º 22/70, 26 de Setembro de 1970,
ANTT, SCCIM n.º 420, fls. 96-100, bem como a Informação n.º 11/971 dos SCCIM,
29 de Maio de 1971, ANTT, SCCIM no. 413, fls. 118-124.
29 Cf. Informação n.º 19/70, ANTT, SCCIM n.º 420, fl. 21.
30 Cf. Informação n.º 11/971, ANTT, SCCIM n.º 413, fl. 123.
31 Ofícios da Embaixada portuguesa em Islamabad e do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, datados de Agosto e Setembro de 1973, informavam que dois jornais
de Karachi, a 3 de Agosto e a 5 de Setembro, haviam publicado notícias sobre a
nomeação de Abdool Magid Abdool Karim Vakil como ministro do Governo da
Província de Moçambique, sublinhando o facto de ser o primeiro muçulmano na
história de Portugal a aceder a semelhante cargo. Nas pastas do Arquivo
Histórico-Diplomático constam os recortes dos referidos jornais. Um deles, o
The Star, dava destaque à notícia na primeira página, acompanhando-a com uma
fotografia de Abdool Karim Vakil. Cf. AHD, Ministério dos Negócios
Estrangeiros, Direcção-Geral dos Negócios Políticos, Repartição da África, Ásia
e Oceânia, Proc. 945, Cota AB 1322 PAA
32 AHD, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Telegrama n.º 187 expedido para
Embaixada de Portugal no Cairo, 16 de Janeiro de 1971.
33 Esse encontro está relatado em MONTEIRO, Fernando Amaro ' «Depois do fim».
In Um Certo Gosto a Tamarindo. Estórias de Angola (colectânea de contos).
Braga: Braga Editora, 1979, pp. 199-227. A reunião com Marcelo Caetano surge
nas pp. 203-205.
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