Breve ensaio sobre a política externa portuguesa
Breve ensaio sobre a política externa portuguesa
País europeu, Portugal é também um país atlântico. Pequena potência,
semiperiférica e com uma só fronteira terrestre, Portugal viveu, sempre, um
equilíbrio instável, entre a pressão continental e a procura de uma alternativa
marítima. Dessas condicionantes geopolíticas e desta contínua tentativa de
equilíbrio, decorrem movimentos de longa duração que foram definindo
permanências nas opções estratégicas e nas características históricas da
política externa portuguesa, que podemos definir como estruturas ou modelos de
inserção internacional.
E, historicamente, Portugal conheceu três modelos de inserção internacional, a
que correspondem, também, três momentos históricos diferentes.
Heranças do passado
O primeiro modelo é o do Portugal medieval. Até ao século XV, as relações
externas de Portugal desenvolvem-se no quadro da Península Ibérica, entre cinco
unidades políticas, todas elas mais ou menos da mesma dimensão e potencial: os
reinos peninsulares ' Castela, Leão, Navarra, Aragão e Portugal.
A luta contra o islão no interior da Península e as limitações científico-
tecnológicas inviabilizavam, de resto, quaisquer relações sustentadas
extrapeninsulares. Durante a Idade Média, as relações externas de Portugal
desenvolvem-se, pois, no quadro intrapeninsular e num ambiente internacional de
equilíbrio quase natural.
O segundo modelo começa a desenhar-se a partir do século XV, estende-se ao
longo de cinco longos séculos e só termina entre 1974 e 1986, com o processo de
democratização e a integração europeia. é o modelo histórico, ou o modelo
clássico de inserção internacional do País.
O que muda, então, relativamente ao modelo medieval? Praticamente, tudo, a
começar pela condicionante geopolítica. Primeiro, a vitória sobre o islão e a
unificação da Espanha, pelos reis católicos, convertem a Península Ibérica em
duas unidades de desigual dimensão e potencial ' Portugal e Espanha. Segundo, a
evolução científica e tecnológica vem possibilitar o desenvolvimento sustentado
de relações internacionais extrapeninsulares.
O equilíbrio medieval converte-se num desequilíbrio geopolítico, o que obriga
Portugal a procurar uma compensação para esse desequilíbrio. A costa atlântica
e a capacidade de sustentação de relações extrapeninsulares vão possibilitar a
construção de um vector de compensação: o vector marítimo. A partir de então,
Portugal passa a viver sob a tentativa constante de equilíbrio, entre a pressão
continental da Espanha e a procura de uma compensação marítima do Atlântico.
Daqui decorrem os invariantes históricos que caracterizam o segundo modelo de
inserção internacional, o modelo clássico. Primeiro, uma percepção
contraditória entre o continente e o mar, entre a Europa e o Atlântico.
Segundo, o afastamento estratégico em relação à Europa (percepcionada como
ameaça espanhola) e a afirmação do vector marítimo e da opção atlântica de
Portugal. Terceiro, no quadro da opção atlântica, dois movimentos de longa
duração histórica na orientação externa do estado: em primeiro lugar, a aliança
privilegiada com a potência marítima (a aliança inglesa, os Estados Unidos da
América, a NATO); em segundo lugar, o projecto imperial (nos seus vários
ciclos: a Índia, o Brasil, a África). Quarto, a diversificação das alianças
extrapeninsulares relativamente à Espanha e uma diplomacia, fundamentalmente
bilateral, assente no triângulo Lisboa-Madrid-Londres e, depois de 1945,
Lisboa-Madrid-Washington. É este modelo que preside às relações internacionais
de Portugal durante cinco séculos e são, ainda, estas linhas de orientação
estratégica que dão forma à política externa portuguesa até ao fim do estado
novo.
São essas opções de afastamento das questões europeias, de afirmação de um
Portugal atlântico e colonial e do equilíbrio triangular entre Lisboa, Londres
e Madrid que estão presentes na posição portuguesa perante a Guerra Civil de
Espanha e na neutralidade durante a II Guerra Mundial. E são essas mesmas
opções que continuam a presidir à posição portuguesa na ordem internacional da
Guerra Fria: a integração no sistema de segurança Atlântico e a entrada de
Portugal na NATO; a reticência e o pragmatismo face ao processo de construção
europeia, com a participação nos projectos de cooperação económica e a recusa
de qualquer forma de integração política; e, finalmente, a recusa da
descolonização e a defesa intransigente do Império.
Opções estas que correspondem, com uma clareza meridiana, ao segundo modelo
histórico, o modelo clássico de inserção internacional de Portugal.
Em primeiro lugar, a percepção contraditória, entre a Europa e o Atlântico, que
atinge o «paroxismo» no final do Estado Novo, precisamente, no debate político
entre as duas opções estratégicas para o País: a africanista e a europeísta.
Em segundo lugar, o afastamento da Europa e o predomínio da opção atlântica e
colonial. Predomínio no plano político e na esfera económica. No plano
político, com um dispositivo diplomático e estratégico totalmente assente no
vector atlântico: integração na NATO e alianças privilegiadas com Washington e
Londres. Na esfera económica, com um dispositivo geoeconómico, basicamente,
ultramarino e colonial. E que, mesmo quando o pragmatismo obrigava o País a uma
aproximação às instituições económicas europeias, essa aproximação continuava a
fazer-se num quadro estratégico atlântico e nunca continental. A entrada de
Portugal na EFTA é disso o exemplo mais acabado. Em terceiro lugar, a
diversificação constante das alianças extrapeninsulares. No quadro atlântico,
Portugal entra na NATO, a Espanha não. No quadro europeu, Portugal entra na
EFTA, a Espanha não. Dito de outro modo, Portugal estará sempre onde a Espanha
não está.
Finalmente, a persistência da diplomacia bilateral, assente no triângulo
Lisboa, Madrid e potência marítima.
A democratização em Portugal trouxe consigo a alteração de todo este quadro da
política externa. Mas trouxe mais do que isso. A transição para a democracia e
a consolidação democrática em Portugal e na Espanha e a própria evolução
internacional conduziram, em apenas doze anos (1974-1986), ao desaparecimento
deste modelo histórico de inserção internacional de Portugal, velho de cinco
séculos.
Mudanças do presente
O fim do regime autoritário e o processo de transição à democracia que se
inicia em 25 de Abril de 1974 vêm determinar uma redefinição da política
externa portuguesa de acordo com o espírito do programa do Movimento das Forças
Armadas (MFA), que se traduzia, sinteticamente, pela fórmula «democratização;
descolonização; desenvolvimento». Apesar de o programa do MFA assegurar o
cumprimento de todos os compromissos internacionais de Portugal, tornava-se
claro que esses dois simples princípios ' democratizar e descolonizar '
implicariam uma reinterpretação política desses mesmos compromissos e uma
alteração de fundo na orientação externa do Estado português.
A descolonização constitui o primeiro grande desafio da política externa do
regime democrático. Mas, ao mesmo tempo que decorre o processo de
descolonização, Portugal ultrapassa o isolamento internacional do fim do estado
novo e estabelece relações diplomáticas com os países do bloco soviético e do
Terceiro Mundo.
Todavia, a descolonização e a abertura ao mundo não bastavam, por si só, para a
definir as novas orientações externas da democracia portuguesa. Muito pelo
contrário. Sob as lutas ruidosas do processo de democratização interna, trava-
se uma outra luta, esta silenciosa, sobre os objectivos e as opções
estratégicas da política externa portuguesa. Entre Abril de 1974 e Janeiro de
1986, a política externa portuguesa oscilou entre duas orientações de fundo,
que marcaram, igualmente, duas fases distintas: a da transição para a
democracia, correspondente ao período pré-constitucional, dominado pelo
processo revolucionário; e a da consolidação democrática, correspondente ao
período constitucional, marcado pela institucionalização e pela estabilização
do regime democrático.
O período pré-constitucional (1974-1976) caracterizou-se pela luta em torno das
opções externas do País, pelo exercício de diplomacias paralelas e,
consequentemente, pela indefinição da política externa. Apesar das lutas, das
hesitações e da indefinição, durante os governos provisórios e em particular
aqueles de maior preponderância militar, a orientação global da política
externa portuguesa tende para uma opção terceiro-mundista e para o
desenvolvimento de relações privilegiadas com os novos países saídos da
descolonização portuguesa. Era o último avatar, agora socializante, da tese da
«vocação africana» de Portugal.
O período constitucional (a partir de 1976), que se inicia, precisamente, com o
I Governo constitucional, caracterizou-se pela clarificação da política externa
portuguesa e pela definição unívoca e rigorosa do posicionamento externo do
Estado. Portugal assume, então, inteiramente, a sua condição de país ocidental,
simultaneamente, europeu e atlântico. Serão estes, pois, os dois vectores
fundamentais e as verdadeiras opções estratégicas do Portugal democrático.
O vector atlântico significou para Portugal a permanência das características
históricas da sua política externa e jogou um papel importante não só ao nível
da orientação externa como também da estabilização interna do País. O reforço
das relações bilaterais com os Estados Unidos e o reempenhamento nos
compromissos militares com a NATO constituíram a sua tradução mais visível.
A «opção europeia» será, porém, a grande novidade da política externa do regime
democrático. Ultrapassadas as resistências antieuropeias, primeiro, da opção
africana do regime autoritário, depois, da tentação terceiro-mundista do
período revolucionário, Portugal assume, claramente, a partir de 1976, a «opção
europeia». Agora, não mais com uma perspectiva estritamente económica e
pragmática, como no Estado Novo, mas enquanto opção estratégica e projecto
político. É o tempo da «Europa Connosco». Em 1976, Portugal entra no Conselho
da Europa. Em 1977 pede, formalmente, a adesão à Comunidade Europeia. E em 1985
assina o Tratado de Adesão. E a partir de 1 de Janeiro de 1986, Portugal torna-
se membro de pleno direito da, então, Comunidade Europeia. Se à opção europeia
e ao vector atlântico acrescentarmos o estabelecimento de relações de amizade e
cooperação com os novos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e
o renovar das relações com o Brasil, encontraremos aquelas que são as linhas,
fundamentais, de orientação estratégica da política externa da democracia.
A partir da década de 1990, a estes três eixos vem juntar-se um quarto: a
participação portuguesa na produção de segurança internacional, com a presença
dos militares portugueses nas operações de paz da NATO, da União Europeia (UE)
e das Nações Unidas. As forças armadas tornam-se instrumento da política
externa.
Desafios do futuro
As mudanças introduzidas pelo regime democrático não são, porém, de curto
prazo, nem se limitam às prioridades da política externa. Parecem de longa
duração e tudo indica que estão a conduzir Portugal a um novo modelo de
inserção internacional ' o modelo democrático de inserção internacional.
Mas o que caracteriza, então, o modelo democrático? Quais as permanências e
quais as mudanças?
Primeiro, as permanências. Decorrem dos factores estruturais e geopolíticos que
não se alteram e respeitam, fundamentalmente, às áreas de interesse estratégico
de Portugal que se mantêm: a Europa, o Atlântico e as relações pós-coloniais.
Segundo, as mudanças. Decorrem dos factores históricos e alteram as quatro
características do modelo anterior, a que deve juntar-se uma quinta,
inteiramente nova.
Em primeiro lugar, muda a percepção e a lógica contraditória entre o continente
e o mar. Hoje, a Europa e o Atlântico não só não são termos contraditórios como
são complementares. Para a política externa portuguesa, ser atlântico pode
significar valor acrescentado na Europa, tal como ser europeu pode ter valor
acrescentado no atlântico e, em particular, o Atlântico Sul, onde se
desenvolvem as relações pós-coloniais.
Em segundo lugar, no binómio Europa-Atlântico mantém-se a equação geopolítica
mas invertem-se as prioridades estratégicas: tradicionalmente, Portugal
pensava-se como um país atlântico e colonial e, quando o peso do vector
marítimo era excessivo, procurava compensações continentais. Hoje, pelo
contrário, pensa-se como país europeu e é como membro da UE que procura
valorizar e potenciar a posição atlântica e as relações pós-coloniais.
Em terceiro lugar, e como resultado da democratização em Portugal e na Espanha,
os dois estados peninsulares aproximaram as suas posições internacionais.
Significa isto, pelo menos, duas coisas: em primeiro lugar, que o dispositivo
geoeconómico português se continentalizou com a entrada na comunidade europeia
e, para Portugal, o mercado único começa no mercado ibérico; em segundo lugar,
que os dispositivos diplomáticos e estratégicos de Portugal e Espanha se
aproximaram, progressivamente e, pela primeira vez na sua história, Portugal e
Espanha partilham, hoje, as mesmas alianças extrapeninsulares: a UE e a NATO.
Em quarto lugar, como resultado da globalização, da interdependência das
relações internacionais e da valorização dos quadros diplomáticos
multilaterais, ao velho triângulo bilateral Lisboa, Madrid e potência marítima
junta-se, hoje, um novo triângulo multilateral, correspondente à presença de
Portugal nas organizações internacionais das suas áreas de interesse
estratégico: a UE na Europa, a NATO no Atlântico e a CPLP para as relações pós-
coloniais.
Finalmente, um elemento novo, quinta característica do modelo democrático de
inserção internacional: uma política externa de valores. Teve a sua origem,
ainda no Estado Novo, no debate entre africanistas e europeístas. Para os
africanistas, a manutenção do império implicava a continuação da guerra e a
guerra implicava a continuação do regime autoritário. Para os europeístas, a
integração europeia implicava a descolonização e a descolonização implicava a
democratização. Significa isto que os valores da democracia e do Estado de
direito estão na própria matriz genética da política externa do regime
democrático. E nas suas opções estratégicas essenciais, a democracia acabará
por concretizá-los. Na UE como na Aliança Atlântica, todos os parceiros e
aliados de Portugal são democracias. E a presença das forças armadas
Portuguesas nas missões de paz, sob a égide das nações unidas, confirma essa
diplomacia de valores que teve na independência de Timor um dos seus maiores
sucessos. A política externa parte, sempre, da formulação dos interesses. Mas
no modelo democrático, não só não ignora como assume o seu quadro de valores.
Valores que para Portugal são os da democracia, do estado de direito e da
segurança humana.
Ora, é no quadro do modelo democrático de inserção internacional que Portugal
terá de pensar os seus desafios futuros.
Em primeiro lugar, os desafios no plano global do sistema internacional.
O primeiro desafio global e a prioridade das prioridades é, hoje, a superação
da crise económica e financeira internacional. Não é, bem entendido, uma
questão de política externa. Ou melhor, é muito mais que uma questão de
política externa, mas não deixa de ter, para Portugal, uma fortíssima
componente internacional. Primeiro, porque sendo a economia portuguesa uma
economia pequena e aberta, Portugal depende da evolução económica e dos
mercados internacionais. Segundo, porque sendo membro do euro, é objecto dos
ataques dos mercados financeiros internacionais ao euro e é no quadro do euro
que terá de procurar a solução para os seus problemas nos campos económico e
financeiro. O que significa, desde logo, reafirmar o empenhamento europeu de
Portugal.
Um segundo desafio, no plano global, é o da segurança internacional e da
prioridade que deve merecer a contribuição de Portugal para a segurança e a paz
no mundo. Num ambiente estratégico internacional marcado pela proliferação do
terrorismo e das armas de destruição maciça, dos conflitos étnicos e
religiosos, dos estados falhados, da criminalidade organizada e da pirataria
internacional, o quadro de segurança não pode ser outro que o da segurança
cooperativa.
E, nesse quadro, Portugal tem desempenhado e deve continuar a desempenhar um
papel de produtor líquido de segurança internacional. Essa é uma prioridade
para Portugal. E num quadro de segurança global e cooperativo, a prioridade da
presença nacional deve avaliar-se não só a partir do tradicional critério de
ordem histórico ou de proximidade geográfica mas, sobretudo, num critério de
segurança internacional. A presença dos militares portugueses nas missões
internacionais das Nações Unidas, da NATO e da UE é do interesse estratégico de
Portugal e tem constituído não só um factor de modernização das Forças Armadas
mas também um factor de credibilidade externa do Estado.
Finalmente, um terceiro desafio global é o da estabilidade e reforço do vínculo
transatlântico. Abalado pela crise pós-intervenção americana no Iraque e
restaurado pela administração Obama, é, hoje, confirmado pela reentrada da
França na estrutura militar integrada da NATO e pelo novo conceito estratégico
da aliança, aprovado em Lisboa. O vínculo transatlântico é e continua a ser um
garante da segurança internacional. Se outra razão não houvesse, essa seria já
razão bastante para que fosse do interesse estratégico de Portugal. Mas há.
País, simultaneamente, europeu e atlântico, não interessa a Portugal a clivagem
entre os dois lados do Atlântico e muito menos ser obrigado a uma opção entre
Europa ou Estados Unidos. Interessa, pelo contrário, valorizar a dupla
pertença: fazer valer a sua condição de país europeu na relação com os Estados
Unidos e rentabilizar a sua relação transatlântica enquanto membro da UE. E é
por isso que no quadro nacional e no quadro da União deve trabalhar neste
sentido.
Em segundo lugar, os desafios no quadro da UE.
O primeiro desafio e a primeira prioridade é, hoje, o da superação da crise do
euro. É, sem dúvida, uma questão económica e financeira. Mas é muito mais do
que isso. É uma questão política da maior importância, porque, em boa medida,
do sucesso ou insucesso do euro depende o sucesso ou insucesso do projecto
europeu. A Europa económica depende, hoje, de mais Europa política. Isto é, do
aprofundamento do projecto europeu. E se a União Europeia quiser continuar a
ter uma moeda única terá de desenvolver uma política económica comum. E isso é
do interesse de Portugal. E é nesse quadro que Portugal terá, em primeiro
lugar, de consolidar as suas finanças públicas. Não só para resolver o seu
problema nacional, mas também para não fragilizar o euro. E em segundo lugar,
repensar o seu modelo de desenvolvimento económico, de modo a relançar o
crescimento, o emprego e as exportações.
O segundo desafio europeu é o das questões institucionais e políticas. Potência
média no quadro europeu mas, geograficamente, periférica, é do interesse de
Portugal estar, sempre, no centro da construção europeia. Esta é uma prioridade
central para a política europeia de Portugal. Enquanto membro, não interessam a
Portugal «directórios» nem uma Europa a diferentes velocidades. Mas se a
evolução do processo de integração europeia a isso conduzir e impuser quaisquer
«geometrias variáveis», o interesse nacional aconselha a presença portuguesa em
todos os «núcleos duros» ou «cooperações reforçadas» que vierem a constituir-
se. Com a entrada em vigor, do Tratado de Lisboa, em Dezembro de 2009, a UE
passou a dispor de um conjunto de instrumentos institucionais para melhor
responder aos desafios que enfrenta, quer no plano interno, com as mudanças
institucionais para garantir maior eficácia numa Europa alargada a 27, quer no
plano internacional, com o reforço dos mecanismos de acção externa que lhe
permitem maior consistência e maior coerência na resposta aos desafios de um
mundo globalizado. Em particular, na Política Comum de Segurança e Defesa com a
criação do novo mecanismo da «cooperação estruturada permanente». Ora, tal como
Portugal esteve na linha da frente da moeda única e fez parte do núcleo duro da
integração europeia, também agora é do interesse nacional estar em qualquer
núcleo duro da segurança e defesa que, eventualmente, venha a formar-se. A
razão é simples: é que o caminho mais curto e a estratégia mais eficaz para
superar a periferia geográfica é conquistar a centralidade política. Antes
dizia-se que depois da Europa económica chegaria o momento da Europa política.
Hoje, depois da crise do euro, terá de dizer-se que sem mais Europa política
estará em risco a própria Europa económica. E é do interesse estratégico de
Portugal apoiar esse objectivo e integrar essa estratégia.
Em terceiro lugar, os desafios no quadro peninsular e das relações com a
Espanha.
No modelo tradicional, a Espanha era pensada como ameaça e toda a lógica da
relação com a Espanha era a lógica da fortaleza. Fortaleza no campo económico,
reduzindo ao mínimo as trocas e voltando todo o dispositivo geoeconómico para o
mar. No campo diplomático e militar, construindo fortalezas ao longo da
fronteira e alianças com as potências marítimas. Até na sociedade e nos
costumes esse princípio se traduzia no ditado popular: «De Espanha nem bom
vento nem bom casamento.»
Hoje, todo este modelo se desvaneceu. Com a democratização e a integração
europeia,
O dispositivo geoeconómico português continentalizou-se e as alianças externas
dos dois países ibéricos aproximaram-se de tal forma que são, hoje,
coincidentes. Mas significará essa coincidência que se desvaneceu, também, o
interesse nacional? Não. Muito pelo contrário. Significa que o interesse
nacional permanece. Mas que se tornou mais exigente a sua formulação e mais
complexa a sua defesa. Porque a lógica da fortaleza deixou de funcionar. Numa
economia aberta e num espaço sem fronteiras, como é o do mercado único, a
estratégia não está na construção de fortalezas. Está, sim, na competitividade
da economia e na clarividência da política externa.
O primeiro desafio é, pois, de natureza essencialmente económica: a capacidade
para manter em Portugal centros de decisão económica nos sectores estratégicos
para o País; e a competitividade da economia portuguesa, a capacidade de
concorrência e penetração das empresas portuguesas no mercado espanhol.
O segundo é de natureza, essencialmente, política: num quadro de integração
económica e de excelente relação política, as relações luso-espanholas exigem
da política externa grande clareza na formulação dos objectivos e grande
flexibilidade na execução da estratégia. Porque se a integração das economias e
a excelente relação política dos estados comporta para Portugal um conjunto de
potencialidades comporta, na mesma medida, outras tantas vulnerabilidades.
Como, de resto, se tem visto na recente crise. E é por isso que o interesse
nacional exige, e, por vezes, em simultâneo, um reforço da cooperação, onde os
interesses sejam comuns, e uma clara e firme diversificação, onde os interesses
sejam diferentes.
Em quarto lugar, os desafios no plano das relações pós-coloniais. No actual
modelo de inserção internacional, as relações pós-coloniais têm funcionado como
um importante mecanismo de compensação às prioridades europeia e atlântica.
Compensação que ganha maior peso e mais defensores sempre que se agudizam as
crises no quadro transatlântico ou no quadro europeu. E num contexto como o da
crise actual, em que regressam as vozes em defesa da prioridade pós-colonial,
importa sublinhar que neste modelo, as relações pós-coloniais devem
desenvolver-se, precisamente, como um mecanismo de compensação e num quadro de
complementaridade com as prioridades europeia e atlântica.
Ora, nas relações pós-coloniais, o desafio coloca-se tanto no plano bilateral
como no plano multilateral.
No plano bilateral, é óbvio, mas não poderá deixar de se dizer que é do
interesse estratégico de Portugal o reforço das relações com os países de
expressão portuguesa. E não só no campo político mas também no domínio
económico. E no que toca às relações económicas com os países de expressão
portuguesa, a prioridade para Portugal deve dirigir-se para os sectores de
maior inovação e que representem modernização para a economia portuguesa.
Consequentemente, a prioridade deve dirigir-se para os países cujas economias
constituam um factor de modernização para a economia portuguesa. Nesse sentido,
na hierarquia das prioridades, por exemplo, o Brasil tenderá a ser mais
importante que Angola.
No plano multilateral, é do interesse português que a CPLP possa constituir um
instrumento diplomático credível e operacional para os países de língua
portuguesa. Mais, pode e deve alargar as suas áreas de intervenção, para além
da língua e da cultura, às esferas económica e da segurança. Mas não pode nem
deve tomar-se a CPLP por aquilo que ela não é. Sem contiguidade geográfica e
com os membros dispersos por vários continentes e integrados em diferentes
organizações regionais, a CPLP não pode substituir-se a essas organizações nem
desempenhar as suas funções internacionais. Mas pode e deve constituir um
instrumento diplomático e um mecanismo de compensação para que os países de
língua portuguesa possam ganhar margem de manobra e poder acrescido nas áreas
regionais em que se integram. Num mundo em globalização e em que se multiplicam
as redes de pertença, faz todo o sentido uma rede de língua portuguesa e
Portugal deve potenciá-la.
Finalmente, um último desafio: o dos valores. A política externa parte da
formulação dos interesses. Mas, no modelo democrático, a política externa não
ignora e não pode ignorar o seu quadro de valores: a Democracia, o Estado de
direito e a segurança humana. E a democracia portuguesa que teve uma das
maiores vitórias da sua política externa na questão de Timor Leste que
assentou, por inteiro, numa diplomacia de valores, deve assumir esse princípio
como uma das prioridades da sua política externa. E na escolha dos seus
parceiros privilegiados, sobretudo na diplomacia económica, onde mais pesam os
interesses, não pode nem deve ignorar os valores. Os resultados económicos, que
são importantes, não justificam por si só relações privilegiadas com regimes
que não partilham os valores da democracia mas não justificam, sobretudo, o
silêncio sobre questões de direitos humanos que esses regimes, eventualmente,
não respeitem. Sobretudo, quando nesses regimes os resultados económicos são
uma dúvida e o desrespeito pelo Estado de direito é uma certeza.
O equilíbrio entre os interesses e os valores constitui, pois, um último
desafio para a política externa portuguesa.
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