A finança islâmica nas sociedades ocidentais
Na comissão [parlamentar], a deputada Chantal Brunel (UMP) tinha explicado – a
propósito do artigo 6.º, sexto B modificando o código civil, a fim de «permitir
a emissão em Paris de produtos compatíveis com os princípios éticos
muçulmanos», que «esta disposição visa introduzir os princípios da shari’ano
direito da fidúcia tornando-o compatível». A relatora acrescentava que há
«determinantes culturais que é necessário ter em conta» para «corrigir» o nosso
sistema bancário. Para o deputado (PS) Henri Emmanuelli, estes propósitos
prejudicam profundamente a divisa republicana e a lei de 1905 de separação da
Igreja e do Estado e acrescentou: «Nós pensamos ao contrário, que não é
necessário introduzir os princípios da shari’anem a ética do Alcorão, nem mesmo
o direito canónico, a Tora, o Talmude, quer seja da Babilónia ou de
Jerusalém»1.
A 7 de Fevereiro de 2008, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária e líder
religioso da Igreja Anglicana, após uma palestra proferida no Royal Courts of
Justice sobre a lei civil e religiosa2, declarou, em entrevista à BBC, que lhe
parecia «inevitável» a introdução da shari’aislâmica no Reino Unido até porque,
sublinhou, «como matéria de facto» algumas disposições eram «já reconhecidas»
pela sociedade e «estavam sob a lei»
3
britânica. Considerou ainda que atribuir-lhe um estatuto oficial ajudaria à
coesão social, pois existiam muçulmanos que não se reportavam ao sistema
legal4do país. Estas declarações públicas desencadearam uma enorme polémica,
com repercussões dentro e fora
5
da sociedade britânica. Ao nível oficial, foram objecto de um rápido
distanciamento crítico do Governo. Pronunciando-se sobre a questão, o porta-voz
do executivo trabalhista de Gordon Brown declarou que «a nossa posição geral é
que a sharianão pode ser usada como justificação para abrir brechas na lei do
Reino Unido, nem os princípios da shariadevem ser incluídos num tribunal civil
para resolver disputas contratuais»
6
. As declarações do arcebispo foram ainda objecto de críticas dentro da própria
Igreja Anglicana7e repudiadas pela maioria da imprensa
8
, tendo várias vozes pedido a sua renúncia ao cargo. Todavia, houve igualmente
apreciações mais compreensivas, dentro e fora da Igreja Anglicana. Alguns
defenderam que o discurso de teor erudito do arcebispo de Cantuária tinha sido
mal interpretado e as suas afirmações retiradas do contexto em que tinham sido
proferidas. Outros compararam a sua palestra e declarações sobre a shariaa uma
polémica anterior com o islão, desencadeada pelo Papa Bento XVI, quando, em
2006, na sua também erudita palestra na Universidade de Ratisbona9, abordou, de
forma crítica, a doutrina da jihad. Apesar de ter também recebido várias
críticas dos meios muçulmanos liberais
10
teve, sem grande surpresa, apoios explícitos de outras organizações muçulmanas
como o Muslim Council of Britain11, próximo do movimento islamista radical
Irmãos Muçulmanos do Egipto (paradoxalmente, ou talvez não pelas razões que
veremos em seguida, reconhecido pelo Governo trabalhista britânico como sendo
uma organização representativa dos muçulmanos britânicos
12
). De forma já mais surpreendente, os apoios surgiram também do interior de
instituições jurídicas fundamentais da sociedade britânica. Num discurso
efectuado alguns meses mais tarde no Centro Muçulmano de Londres Oriental
13
, Lord Phillips de Worth Matravers, o magistrado chefe da justiça na altura,
expressou posição similar favorável ao reconhecimento oficial da shariano
quadro do sistema legal. Apesar de tudo, à medida que a controvérsia se
dissipou ficou a ideia de terem sido declarações infelizes e inconsequentes, do
arcebispo de Cantuária e de Lord Phillips, tendo estas últimas tido pouca
repercussão na opinião pública. Poucos ligaram o assunto a outros
desenvolvimentos mais gerais, nomeadamente à tendência de expansão da finança
islâmica para as sociedades ocidentais. A verdade é que mais ou menos por esse
período de tempo, o executivo britânico de Gordon Brown, que tão veementemente
repudiara as declarações eclesiásticas sobre o reconhecimento oficial da
shariaem matéria de família estava, em paralelo, a desenvolver esforços para
tornar Londres a capital da finança islâmica. Simultaneamente, planeava emitir
um empréstimo obrigacionista de acordo com as prescrições da shariaem matéria
comercial (sukuk). Ao mesmo tempo, instituições bancárias e seguradoras
britânicas e internacionais procuravam oferecer produtos configurados segundo
as prescrições islâmicas aos muçulmanos residentes no Reino Unido. Similares
desenvolvimentos começam a surgir em vários países europeus, nomeadamente em
França, onde a ministra da Economia, Christine Lagarde, apoiou os esforços de
vários grupos bancários e financeiros franceses para disputar a primazia
britânica na corrida à finança islâmica na Europa, o que, neste país, implicava
também uma alteração em matéria de laicidade, nomeadamente com uma emenda ao
código civil. Todavia, o que quase nunca foi discutido foram as possíveis
implicações, a médio e longo prazo, para as sociedades ocidentais, do
reconhecimento, ainda que implícito, da shariaem matéria comercial e o
precedente que isso implica, pois estas medidas foram quase sempre tomadas fora
do olhar e do escrutínio da opinião pública. Assim, o objectivo principal deste
artigo é efectuar essa análise e discussão ligando a finança islâmica com as
tendências mais gerais do islamismo
14
(islão político). Para além disso, será feito um esforço de avaliação do seu
previsível impacto nas instituições das sociedades democráticas, pluralistas e
seculares e ocidentais, o qual usará sobretudo como exemplos os casos britânico
e francês.
OS PRINCÍPIOS DA FINANÇA E DA ECONOMIA ISLÂMICA (CAPITALISMO SHARI’A)
Embora os textos religiosos do islão contenham preceitos sobre como efectuar
transacções comerciais e financeiras e sobre actividades lícitas (halal) e
ilícitas (haram) e exista, no islão clássico, uma jurisprudência (fiqh) sobre
questões de finança islâmica, a verdade é que conforme explica Timur Kuran15, a
teorização da finança e economia islâmicas e a criação de instituições
financeiras conformes à shariaé essencialmente um fenómeno moderno, datado de
meados ou até de finais século XX. Em termos de realizações institucionais, o
seu marco fundacional foi a criação, em 1975, do Banco Islâmico de
Desenvolvimento, em Jeddah, na Arábia Saudita. Este surgiu com o objectivo de
apoiar os países muçulmanos no seu desenvolvimento económico, fornecendo
capitais e concedendo empréstimos em conformidade com a shari’a
16
. Quanto às suas bases teóricas, encontram-se de alguma maneira ligadas ao
islão político (islamismo) e surgiram sobretudo nos trabalhos de ideólogos do
islamismo radical17sunita, como o paquistanês Abul Ala Mawdudi (O Problema
Económico do Homem e a sua Solução Islâmica, 1947) e o egípcio Sayyid Qutb
(Justiça Social no Islão, 1949). No caso do islamismo radical xiita, a
teorização principal deve-se ao iraquiano Muhammad Baqir al-Sadr (A Nossa
Economia, 1961). Todavia, os ensinamentos destes ideólogos do islamismo radical
diferem em vários aspectos relevantes sobre o que deve ser a configuração
concreta da finança e economia islâmicas. No caso de Abul Ala Mawdudi, este
«via favoravelmente o processo de mercado mas insistia que o comportamento
fosse limitado pelas normas que se encontram nas fontes clássicas do islão».
Por sua vez, Sayyid Qutb e Baqir al-Sadr eram, em geral, mais desconfiados dos
mecanismos de mercado tendo posições «mais favoráveis à intervenção e ao
controlo da economia pelo Estado». Quanto à razão de ser da economia islâmica,
esta foi enunciada por Abul Ala Mawdudi como sendo prioritariamente «um veículo
para afirmar a primazia do Islão e, secundariamente, como um instrumento para
uma mudança económica radical. Tal como Abul Ala Mawdudi, muitos outros
defensores da economia islâmica subordinaram-na a objectivos mais alargados»18.
Por exemplo, o ayatollahKhomeini negou que a revolução islâmica no Irão fosse
realizada por questões económicas:
«Khomeini, claro, falou contra a pobreza e a exploração e suportou certas
reformas económicas, incluindo a ostensiva eliminação do juro. Mas este sempre
subordinou os objectivos económicos à finalidade geral de restaurar a
centralidade do Islão na vida privada e pública, mesmo até em objectivos
particulares como a eliminação do consumo de álcool e assegurar a modéstia
feminina.»
As realizações com mais impacto da economia islâmica19encontram-se
provavelmente na área financeira (banca islâmica que não pratica a riba/juro e
faz operações de mudarabae musharaka) e na área da redistribuição
(administração do zakatpelo Estado). Vejamos, nos seus traços essenciais, como
funcionam estas operações económicas e financeiras:
· A banca islâmica pretende ser uma banca em harmonia com os preceitos
da sharia(Alcorão, hadith e fiqh), não praticando por isso o juro (riba, que
pode também ser entendido como usura), não efectuando transacções especulativas
(gharar), nem lidando com negócios envolvendo produtos proibidos (haram), como
bebidas alcoólicas, carne de porco ou jogo. Caracteriza-se por recorrer
alternativamente a duas técnicas de lucro e de partilha de perdas, utilizadas
desde os primeiros tempos do islão mudarabae musharakadiscutidas já pelos
teólogos-juristas clássicos.
· A mudarabaé uma operação onde «um investidor ou grupo de investidores
entrega o capital a um empresário que o aplica na produção ou no comércio e
depois devolve ao investidor o capital emprestado mais uma parte dos lucros
obtidos».
· A musharakaé uma operação em que «o empresário junta algum dinheiro
do seu próprio capital àquele que é fornecido pelos investidores, expondo-se
também a si próprio ao risco de perda de capital»
20
.
· O zakaté uma espécie de imposto religioso mencionado explicitamente
no Alcorão (surata do Arrependimento, 9: 103), sendo visto como «um dos cinco
pilares do islão, juntamente com a crença na unidade de Deus, as orações
obrigatórias, o jejum durante o Ramadão e a peregrinação a Meca, para aqueles
que tiverem condições de a efectuar»
21
.
Especificamente em relação ao zakat, as principais novidades introduzidas pela
economia islâmica foram a administração estadual do zakat(posta em prática em
países como, por exemplo, o Paquistão, a Malásia, a Arábia Saudita), o
alargamento da sua base de obrigatoriedade, por exemplo às empresas (com o
fundamento que estas são pessoas jurídicas) e a mexida nas taxas que
tradicionalmente variavam entre os 2,5 por cento e os 20 por cento aplicadas a
produtos agrícolas, minerais, materiais preciosos, etc., ou seja, às fontes de
riqueza de uma sociedade tradicional
22
.
Como se pode verificar, se não considerarmos as referidas ambições ideológico-
político-religiosas de supremacia do islão inerentes aos seus teorizadores
(Mawdudi, Qutb, al-Sadr e Khomeini), a especificidade da finança islâmica
reside essencialmente na proibição existente na religião muçulmana da prática
do juro/usura (riba) – «Alá tornou lícito o comércio e ilícito o juro» (surata
A Vaca, 2: 275)23. Todavia, esta aversão à prática do juro/usura não é
propriamente uma especificidade cultural-religiosa do islão. Também no quadro
tradicional do cristianismo se podia encontrar similar estigma religioso.
Robert Solomon, num estudo sobre a ética empresarial ocidental, mostra como as
raízes deste estigma (que se estendia igualmente ao resto do mundo dos
negócios), se podem encontrar na Antiguidade, na visão helénica pré-cristã do
mundo, estando ainda reflectido nos textos bíblicos do Novo Testamento.
O ataque de Aristóteles à prática repugnante e improdutiva da «usura» manteve a
sua força praticamente até ao século xvii. Apenas os marginais, nas franjas da
sociedade, e não os cidadãos respeitáveis, se dedicavam a tais actividades. (O
Shylock de Shakespeare no Mercador de Venezaera um marginal e um usurário.)
Esta é, a traços largos, a história da ética empresarial o ataque
indiscriminado ao comércio e às suas práticas. Jesus expulsou os vendilhões do
templo, e os moralistas cristãos de São Paulo a São Tomás de Aquino e Martinho
Lutero seguiram o seu exemplo, condenando rotundamente a maior parte daquilo a
que hoje prestamos homenagem como «o mundo dos negócios»24.
A aversão à prática do juro e às actividades de negócios de tipo capitalista,
vistas negativamente como actividades «usurárias», teve um marco decisivo de
viragem nos séculos XVI-XVII. A partir daí, o estigma do juro e o anátema sobre
o «mundo dos negócios» foram progressivamente ultrapassados pelos processos
paralelos de evolução da teologia cristã, que se foi adaptando às condições da
modernidade, do triunfo do «espírito do capitalismo»25e de secularização das
sociedades ocidentais. Assim, se no passado, até aos séculos XVI-XVII, as
concepções teológicas de ambas as religiões, sobre a questão específica do
juro/usura, não eram substancialmente diferentes, hoje a situação é totalmente
diferente. Basta recordar que, primeiro no âmbito dos desenvolvimentos da
Reforma protestante, sobretudo do calvinismo (séculos XVI e XVII), e depois no
âmbito do catolicismo a proibição do juro foi eliminada. Na Igreja Católica a
mudança decisiva começou a ocorrer sobretudo ao longo do século XVIII, tendo
culminado já no início do século XIX, entre 1822 e 1836, com a declaração pela
Santa Sé de que todas as formas de juro permitidas pela lei do Estado podiam
ser usadas por qualquer católico
26
.
No caso da finança islâmica, o que ressalta mais à vista é o facto de a sua
teorização efectuada a partir de meados do século XX e que se deve sobretudo,
como já referido, a ideólogos do islamismo radical como Mawdudi, Qutb, al-Sadr
e Khomeini ser um processo notório de recusa da modernidade ocidental, o qual
pretende recriar o velho preconceito religioso antijuro, agora com tonalidades
islâmicas. Em termos comparativos, há uma curiosa e desconcertante diferença na
maneira como a aversão muçulmana ao juro (recriada no presente) e cristã (um
passado ultrapassado por um progresso social e teológico), parece estar a ser
encarada nas sociedades ocidentais. Como veremos em seguida, a configuração e
controlo religioso de produtos financeiros «islamicamente correctos» implica,
entre outras coisas, que as instituições bancárias e financeiras disponham nos
seus quadros, ou, pelo menos, como consultores externos, de clérigos muçulmanos
(tipicamente um mufti ou um xeique no caso do islão sunita e um ayatollahno
caso do islão xiita), os quais certificam e exercem um controlo dessa
conformidade com a sharia. A benevolência a favor de uma acomodação empresarial
e política com princípios teológicos medievais que se pretendem afirmar como
contemporâneos é merecedora de reflexão. Analisemos em seguida esta atitude
empresarial e política, de forma a descortinarmos as suas motivações.
A REDENÇÃO DO CAPITALISMO OCIDENTAL PELA FINANÇA ISLÂMICA
Nos últimos anos, diversas empresas europeias e norte-americanas ligadas à
actividade bancária e ao sector segurador passaram a configurar produtos
financeiros de acordo com as prescrições da shariaislâmica tendo como mercado-
alvo inicialmente os países árabes e islâmicos e, mais recentemente, também os
muçulmanos residentes na Europa e nos Estados Unidos. Entre os bancos e
seguradoras que têm entrado nesta área encontram-se alguns dos nomes mais
conhecidos internacionalmente pela dimensão global das suas operações (nalguns
casos também por ligações à crise desencadeada no Verão de 2008 nos Estados
Unidos e pelos escândalos financeiros em que estiveram envolvidos). Entre essas
empresas destacam-se o Barclays
27
, a AIG (American International Group) seguradora que, na sequência da crise
financeira de 2008, teve de ser salva da insolvência28pelo governo federal dos
Estados Unidos, o UBS
29
(originalmente fundado pela Union Bank of Switzerland que, entretanto, se
fundiu com o Swiss Bank Corporation), a SwissRe
30
, a Allianz31, o Citi
32
(Citigroup), o Deutsche Bank33, o Morgan Stanley34, o HSBC
35
(originalmente Hongkong and Shanghai Banking Corporation) e o Lloyds TSB
Bank36. Quanto ao Citibank e ao Goldman Sachs este último envolvido na recente
controvérsia sobre operações de cosmética contabilista da dívida pública da
Grécia, que abalaram a zona euro37, mostraram já intenção de investir no Irão
que, em inícios de 2009, levantou a proibição de abertura de filiais de bancos
estrangeiros no seu território
38
. Estes avanços na área da banca e finanças islâmicas têm sido acompanhados por
agências de ratingcomo a Moodys, a qual avaliou o potencial deste mercado em
800 biliões de dólares)39e secundados pelas principais praças financeiras
ocidentais e pelos seus índices de mercado: em Nova York foram criados os Dow
Jones Islamic Market Indexes40; por sua vez, na Citylondrina surgiu o FTSE
ShariaGlobal Equity Index Series
41
.
Para credibilização do seu negócio aos olhos dos muçulmanos pios, ou dos que
pretendem transmitir tal aparência, as instituições financeiras ocidentais
contrataram teólogos-juristas muçulmanos para certificarem a conformidade dos
seus produtos face às prescrições da sharia(Alcorão, hadith e fiqh). Conforme
já referimos, a finança islâmica implica a sua inclusão no órgão de
administração dessas instituições, ou então, mais vulgarmente, a criação de um
conselho consultivo especialmente para esse efeito. Existem vários nomes
«sonantes» neste círculo bastante estrito: um dos mais conhecidos é o xeique
Yusuf Talal DeLorenzo
42
estabelecido em Washington DC, a capital federal dos Estados Unidos e sede das
instituições de Bretton-Woods, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.
Outro teólogo-jurista muçulmano incontornável, também para estas questões
financeiras, é o xeique Yusuf al-Qaradawi, de origem egípcia e estabelecido no
Qatar onde dirige o sítio na internet «Islamonline»
43
e que vê na economia islâmica um substituto para o capitalismo ocidental
44
cristão/secular. Quanto ao mufti Muhammad Taqi Usmani
45
, ex-juiz do Supremo Tribunal Federal Shariado Paquistão, envolto em
controvérsia pela pouco empresarial afirmação de que os «muçulmanos devem viver
em paz até que sejam suficientemente fortes para lançar a jihad»46, também
integra este grupo restrito de estrelas da finança islâmica ao serviço de
instituições ocidentais47ou de países árabes e islâmicos.
Aparentemente indiferentes a estas polémicas, alguns governos europeus mostram
um interesse directo nas possibilidades da banca e finanças islâmicas. Em
França, o país da Europa Ocidental com o maior número de muçulmanos religiosos
ou sociológicos, a ministra da economia, Christine Lagarde, tem procurado,
sobretudo desde o desencadear da crise económica e financeira de 2008, atrair
investimento e capitais dos emirados árabes através de uma política de
estímulos fiscais. Mas para a entrada das instituições bancárias no negócio da
finança islâmica no mercado francês, nomeadamente para a emissão de obrigações
«islamicamente correctas»
48
, os estímulos fiscais mostraram-se insuficientes sendo necessário ultrapassar
a barreira do actual quadro legislativo moldado pela lei laïcitéde 1905 (que
estabelece uma separação estrita das igrejas do Estado), alterando nomeadamente
o dispositivo do código civil nesta matéria. Todavia, em França, esta mudança
da legislação por imperativos religioso-empresariais e de oportunidade (ou
oportunismo) capitalistas, mostra-se um assunto mais complicado do que noutros
países europeus onde a ideologia e as políticas multiculturais tradicionalmente
prevalecem é o caso, por exemplo, do Reino Unido, surgindo uma oposição
significativa à sua modificação49. Isto para grande consternação de certos
meios financeiros e empresariais franceses que sentem estar em situação de
desvantagem competitiva na actual corrida ocidental ao capitalismo sharia.
Sem os entraves da laicïtée do quadro legislativo francês, o Governo britânico
anunciou, em inícios de 2008, a intenção de lançar um empréstimo especial
obrigacionista (sukuk), configurado de acordo com as regras da sharia(tendo, já
em inícios do ano anterior, tomado outras medidas para facilitar50a finança
islâmica). Para Alistair Darling, o chanceler do Tesouro do Governo trabalhista
de Gordon Brown, a medida justificou-se não só como uma forma de aceder à
grande liquidez de capitais dos países árabes-islâmicos do Médio Oriente, como
também para estabelecer pontes com a comunidade O dinamismo e o crescimento da
finança muçulmana britânica51. Similar entusiasmo parece ser partilhado nas
influentes publicações financeiras e económicas britânicas,
Financial Times
52e revista The Economist,quanto às potencialidades de mercado da emergente
banca e finanças islâmicas e às suas virtudes éticas e de inclusão social. Para
esta última publicação, o dinamismo e o crescimento da finança e economia
shariacontrasta com a estagnação do capitalismo e dos mercados ocidentais,
atraindo crescentemente grandes empresas financeiras, escritórios de advogados
de negócios e governos.
Os grandes escritórios de advogados e bancos ocidentais, sempre rápidos a
farejarem novos negócios, estão a aumentar as suas equipas de finança islâmica.
Os governos também estão atentos a este processo. Em Julho, a Indonésia, o país
muçulmano mais populoso, anunciou que iria lançar o primeiro empréstimo
obrigacionista soberano sukuk. O Governo britânico, que cobiça ser centro líder
da finança islâmica, está também à beira de emitir um empréstimo soberano de
curto prazo sukuk. A França iniciou a sua própria ofensiva de charme dirigida
aos investidores islâmicos. Face aos mercados doentes ocidentais tal vigor
impressiona. A liquidez baseada no petróleo alavancou os fundos soberanos do
Médio Oriente dando também novo alento à procura da finança islâmica. Comparada
com a ética de algumas instituições financeiras americanas do subprime, a
finança islâmica parece tão virtuosa como vigorosa53.
Mas não é só nos meios empresariais e na imprensa financeira que se encontra
esta narrativa laudatória e de redenção moral do capitalismo pelos produtos
sharia.A atracção parece também estar a estender-se a prestigiadas
universidades norte-americanas e europeias. Por exemplo, no âmbito da escola de
Direito da Universidade de Harvard foi criado o Islamic Finance Project
54
, sendo também organizado um fórum anual dedicado às finanças islâmicas. Por
sua vez, a sua reputada escola de Gestão, a Harvard Business School, preocupa-
se, cada vez mais, com a forma de efectuar negócios num contexto cultural
islâmico
55
. Quanto à Universidade de Oxford, vai organizar em Junho de 2010, na Saïd
Business School
56
, o primeiro Global Islamic Branding and Marketing Forum57.
OPORTUNIDADE DE NEGÓCIO E/OU OPORTUNIDADE DE ISLAMIZAÇÃO?
Conforme acabamos de descrever, uma parte do mundo financeiro e empresarial
europeu e norte-americano, bem como alguns governos ocidentais – ao que tudo
indica sob influência ou pressão de lóbis financeiros empresariais com
interesses nesta área –, procuram apresentar a economia e a finança islâmicas
como uma oportunidade de negócio interessante, particularmente neste período de
crise. Paralelamente, são desvalorizadas as questões levantadas pela sua base
religiosa (e ideológica) e pela necessidade de conformidade das instituições e
produtos com a shariaislâmica, apresentando esses aspectos como detalhes
secundários ligados à promoção da «diversidade cultural», ou então ligados à
necessidade de alinhamento do negócio com a «ética» de outra cultura. Todavia,
esta forma de apresentar a finança islâmica como algo similar a qualquer outra
oportunidade de negócio ou segmento de mercado – e que se poderia justificar
com argumentos de racionalidade económica e alguma dose de ética à mistura – ,
tende a ignorar, ou, pelo menos, a subestimar, as potenciais implicações
sociais e político-jurídicas, vistas como inócuas externalidades para as
sociedades ocidentais. No entanto, estas podem ir bastante além do estrito
horizonte económico e empresarial. Na literatura teórica académica e na
discussão política foram já formuladas algumas objecções e críticas de vulto à
aposta no capitalismo shariaque instituições financeiras e governos ocidentais
estão já a efectuar, ou pretendem efectuar, a curto ou médio prazo. As
objecções e críticas são de vária ordem e podem ser sistematizadas da seguinte
maneira para efeitos analíticos:
· a finança islâmica não tem efeitos visíveis na eficiência, redução da
pobreza e crescimento sustentado, sendo pouco transparente e levantando até
problemas de compatibilidade com as usuais regras de mercado das instituições
financeiras;
· a finança islâmica põe em causa valores sociais e políticos
primordiais das sociedades ocidentais, nomeadamente os princípios estruturantes
de um Estado secular/laico;
· a finança islâmica abre a porta ao islão político (islamismo) e à sua
estratégia de islamização levantando, por isso, questões estratégicas e de
segurança.
Analisemos então com mais profundidade esta questão, de forma a podermos
igualmente avaliar a solidez das críticas formuladas. Como referimos, a
abordagem mais frequente do mundo financeiro e empresarial consiste em
configurar o que está em causa numa lógica puramente empresarial, falando em
«mercados emergentes», numa nova «oportunidade de negócio», num «segmento de
mercado a satisfazer» ou na captação de «investidores e mercados com liquidez».
Como vimos também, paralelamente a estes argumentos de racionalidade económica
e empresarial que, em si mesmos, procuram induzir nos seus receptores uma
imagem positiva, são usados outros de tipo multiculturalista apelando,
simultaneamente, a elevados valores morais, ou seja, sugerindo que a adopção do
capitalismo shariaé uma forma de demonstração da responsabilidade social da
empresa capitalista. Assim, a finança islâmica poderia também justificar-se
pelo carácter ético dos seus produtos – explícita ou implicitamente comparado
com o carácter não ético dos produtos financeiros ocidentais que levaram à
crise de 2008… -, aliado ao argumento atractivo de favorecer a inclusão social
e integração dos muçulmanos nas sociedades europeias e norte-americanas. Este
último argumento está perfeitamente exemplificado na entrevista dada por Jean-
Paul Laramée
58
, director da Secure Finance (organização que é também membro fundador do
Institut Français de Finance Islamique
59
), à revista L’Express, em resposta a uma questão que lhe foi colocada sobre as
críticas feitas à finança islâmica, como pondo em causa o modelo laico
estruturante do sistema político-jurídico francês:
«a laicidade não deve impedir de trabalhar com sistemas económicos que extraem
os seus princípios fundadores de uma religião. Pelo contrário, como sublinhava
recentemente a ministra Christine Lagarde, o sistema financeiro internacional
faria bem em integrar, para se reformar e para construir um melhor sistema
bancário mundial, certos princípios da finança islâmica. A sinergia entre estes
dois sistemas deve igualmente permitir abandonar todo o comunitarismo. […] A
finança islâmica seria uma manifestação formidável de integração dos muçulmanos
na nossa sociedade.»60
O argumento do seu carácter ético procura evocar, na mente secular ocidental,
algo parecido a uma forma de comércio justo ou de economia alternativa e
inclusiva, sobretudo quando confrontado com a notória falta de ética de várias
empresas ocidentais envolvidas, directa ou indirectamente, no desencadear da
crise financeira de 2008 (o banco Lehman Brothers61é um exemplo óbvio e bem
conhecido). A questão é que a realidade económica e empresarial não parece
confirmar esta apreciação tão generosa. De facto, como se pode facilmente
verificar pela crise grave que afectou e afecta o Dubai
62
– um dos mercados emergentes da banca e finança islâmicas – onde importantes
operações de financiamento de infra-estruturas e projectos imobiliários ficaram
a cargo de instituições financeiras actuando segundo princípios islâmicos, este
mercado esteve longe de ficar imune63à crise económica e financeira global. Por
outro lado, como assinala Mahmoud El-Gamal
64
, professor de Economia e Finanças Islâmicas da Universidade Rice, os produtos
financeiros moldados pela shariaislâmica tendem a ter, em média, um preço
bastante superior aos convencionais. Se de facto assim é, estamos menos no
domínio da ética e mais de uma cosmética para tornar os produtos atractivos aos
olhos dos crentes mais pios. Por outras palavras, acaba por existir o
equivalente a uma taxa de juro, ainda que a esta não se chame juro e que o
comprador, feitas bem as contas, até tenha de pagar um valor mais elevado…
Para além da ética, ou da cosmética, e agora sob o prisma das questões
estratégicas e de segurança, há outros aspectos relevantes que merecem ser
ponderados ligados à expansão da finança islâmica para as sociedades
ocidentais. Sylvain Besançon
65
, primeiro num artigo no jornal suíço Le Temps, e depois, de forma mais
exaustiva, em livro, relatou a existência de um plano – designado como o
«Projecto» –, o qual teria sido concebido por personalidades não identificadas
no mesmo, mas ligadas ao movimento islamita radical (sunita). Nesse «Projecto»
estaria delineada uma ambiciosa estratégia destinada a «estabelecer o reino de
Deus» sobre toda a terra. Aspecto a notar, o documento em questão – traduzido
do original árabe e reproduzido no livro – foi, segundo é relatado, apreendido
na residência do banqueiro islamista Youssef Nada, durante as investigações
feitas à filial europeia de Lugano, na Suíça, do banco islâmico Al-Taqwa
(literalmente «Temor a Alá», o qual, entretanto, mudou o nome para Nada
Management Organization). Note-se também que essas investigações foram
desencadeadas a pedido das autoridades norte-americanas, no âmbito do processo
ligado aos atentados terroristas66de 11 de Setembro de 2001. Apesar das
interrogações legítimas que se podem levantar sobre a sua real autoria não
deixa de ser curioso olhar para as várias facetas da estratégia nele planeadas,
as quais não são acções de tipo militar, nem sequer acções que possam ser
qualificadas como terroristas. Se o referido livro e o documento têm algum
interesse para esta análise (a real autoria do «Projecto» para este efeito é
irrelevante), é, precisamente, pela chamada de atenção de outras facetas
normalmente não discutidas. De facto, a leitura do livro e do documento mostra
a plausibilidade de uma inteligente e paciente estratégia de islamização das
sociedades ocidentais, usando meios à primeira vista inócuos e acções não
percebidas como tendo quaisquer objectivos de «conquista», nem tendo por detrás
uma concepção estratégica coerente e articulada. Para além disso, evidencia a
existência de meios financeiros
67
de vulto mobilizados para acções de islamização, ligados, directa ou
indirectamente, à liquidez gerada pelo petróleo do Médio Oriente e ao zelo
ideológico e proselitista de países, organizações e personalidades do mundo
árabe islâmico, que olham para a Europa e o Ocidente como um targetprioritário
da sua acção. Sugere ainda que essas acções de suporte financeiro usam a
finança islâmica como canal privilegiado – o caso do banco Al-Taqwa é apenas o
exemplo mais conhecido – , para terem a necessária aparência de actuação num
quadro de legalidade e respeitabilidade, condição para a sua estratégia ser
bem-sucedida e não gerar desconfiança. Sendo assim, estamos perante uma forma
hábil de islamizar o social e o político, que actua dentro dos limites da
legalidade, ou explorando as suas zonas cinzentas, através da penetração em
diferentes instituições, sociais, económicas, políticas, educativas, etc., e
operando uma lenta mas contínua desestruturação e «subversão», a partir do seu
interior.
Reflectindo sobre o que foi exposto podemos retirar uma ilação interessante. Ao
contrário do que é a percepção comum, o principal problema estratégico no médio
e longo prazo com que se confrontam as sociedades ocidentais não será, muito
provavelmente, o jihadismo militante que, nos casos mais radicais, recorre a
actos de terror para impor a sua ideologia (contra não muçulmanos e contra
muçulmanos que não se revêem nas suas concepções). O principal problema
consiste no islamismo que é percebido (erradamente) como «moderado» – uma
qualificação conceptualmente bastante pobre –, mas que é o rótulo mais
frequentemente usado por jornalistas, políticos e académicos ocidentais, pelo
simples facto de esse tipo de islamismo não recorrer à violência ao terror e
até condenar actos de organizações como a Al-Qaida e similares. A pobreza desta
conceptualização ocidental não capta, de modo algum, a estratégia hábil e
eficaz de islamização (não violenta), a qual poderíamos designar como uma
estratégia de pequenos passos em direcção a grandes objectivos. Para ser bem-
sucedida não pode ser percebida, aos olhos ocidentais, como uma forma
progressiva e articulada de islamização. Precisa de ser vista como provindo de
um islamismo «moderado» e consistindo apenas em meras reivindicações isoladas
de uma cultura (o islão), similares a outras, efectuadas no quadro das
políticas multiculturais de reconhecimento – este é um aspecto crucial da
questão que analisaremos em seguida. Por estas razões, a previsão pessimista de
Rebecca Bynum que antevê consequências sociais, jurídicas e políticas bastante
negativas associadas aos avanços da finança islâmica nas sociedades ocidentais,
pode muito bem revelar-se correcta. Como esta faz notar, o «simples esforço
feito pelos ocidentais de fornecerem o que é apresentado como “islamicamente
correcto”» e contratarem «clérigos muçulmanos e ”consultores” em lei e finanças
islâmicas para darem a sua aprovação», aumenta a convicção aos muçulmanos de
que «podem viver em qualquer parte do mundo sob um conjunto separado, que nas
suas mentes é superior, de regras económicas»
68
. Por outras palavras, o que está em causa é que se as regras da sharia,em
matéria comercial, forem oficialmente reconhecidas nas sociedades ocidentais
para a finança islâmica, abre-se um precedente incontornável na sua
legitimação. Abrindo-se este precedente, o seu reconhecimento noutras áreas do
direito privado, como em matéria de família e sucessória, será praticamente uma
inevitabilidade, pois os argumentos que serviram numa área podem ser usados
noutra. Mas o assunto nunca poderá ficar encerrado por aqui pois, para o crente
muçulmano ortodoxo, shariaé a lei divina sendo um todo indivisível. Assim,
porque não também o seu reconhecimento oficial noutras áreas, como, por
exemplo, em matéria penal?
A MIOPIA RELATIVISTA-MULTICULTURALISTA OCIDENTAL
Suponhamos por último, para efeitos de análise teórica, que todo o processo
acabado de descrever ocorria estritamente dentro da tradicional cultura
europeia ocidental. Este resultava de uma hipotética reivindicação cultural e
religiosa do cristianismo, o qual rejeitava a secularização imposta nos últimos
séculos argumentando que esta foi efectuada de forma antidemocrática e exigia,
ainda, reparação e «reconhecimento» ao poder político. Utilizando similares
argumentos aos que suportam a aceitação da finança islâmica, seríamos então
levados a concordar com a «autenticidade» da teologia cristã sobre o juro
anterior à «opressão secularista» moderna, ou seja, ao século XVIII (ou
anterior ao século XVII para os protestantes)…, a promover a criação de
instituições bancárias e financeiras e produtos em estrita conformidade com o
direito canónico e a Bíblia e a recriar um «capitalismo canónico». Teríamos
também de concordar com a integração nos órgãos de gestão ou consultivos de
bancos, seguradoras, sociedadades de locação financeira, etc., de cardeais,
bispos ou padres com formação teológica e especialização em «finanças cristãs»,
eventualmente com os ramos de subespecialização católica, protestante e
ortodoxa, a pensar nos mercados mais exigentes e nos clientes mais pios
(podemos também imaginar como o aumento das vocações e a procura de cursos de
teologia cristã subiria…). Poderíamos igualmente argumentar com a oportunidade
de expansão do mercado da formação académica e profissional na área e
desenvolver uma formação específica ao nível de MBA, em prestigiadas escolas de
negócios e faculdades de Economia, para responder a esta «inovadora» tendência.
Poderíamos ainda qualificar esta nova banca e finança de base religiosa como
sendo naturalmente mais «ética», «solidária» e promotora da «diversidade», por
contraponto à ganância, usura e exploração materialista e capitalista da banca
secular. Naturalmente que uma vez aceite este princípio cada grupo, cultura ou
religião defende a sua banca e finanças, vistas como uma expressão da sua
identidade – e «flexibilizando» o sistema político-jurídico desta forma –, este
se deveria alargar a judeus, hindus, sihks, bahaístas, budistas, xintoístas,
confucionistas, etc., sob pena de estarmos a discriminar grupos minoritários. A
simples hipótese de uma evolução virtual como a que acabamos de descrever, onde
cada cultura ou grupo reclamaria, e obteria, a sua própria finança – na lógica
multiculturalista, mais do que o indivíduo, são a cultura e o grupo quem dispõe
de direitos –, mostra o absurdo onde pode levar a actual obsessão identitária.
Mas, como assinala Alan Gérad-Slama, a própria noção de identidade que suporta
este género de reivindicações pode ser vista como imbuída de uma lógica
«totalitária», no sentido em que «encerra o sujeito numa pertença, numa
religião, numa diferença que o totalizam» e ao qual este «deve responder a cada
instante»
69
. A questão é que a obsessão identitária associada à tendência de culto do
«outro»
70
não são propriamente formas de pensar afastadas do mainstream. Pelo contrário,
como assinala Pierre-André Taguieff, constituem, em grande parte, o
zeitgeistcontemporâneo ocidental, o qual, numa descrição particularmente
mordaz, foi assim desconstruído:
«Este culto contemporâneo do “outro” (ou do “Outro”) ou do “estrangeiro”
representa uma espécie de religião civil internacional que parece desenvolver-
se por si. Este “outrismo”, pelo contrário, deveria espantar-nos: porquê uma
tal preferência pela alteridade em todas as suas figuras? Porquê este amor
obrigatório do “Outro” sob pena de ser julgado “abjecto”? Por que razão a
xenofilia é uma atitude moral, se ela não é mais do que o anverso de um
profundo ódio de si próprio? A “nostrofobia”, ou seja, o sociocentrismo
negativo postulando que “os outros” são melhores do que ”nós” não tem nada a
invejar ao etnocentrismo (ou sociocentrismo positivo: “nós” somos os mais
humanos entre os humanos), nem mesmo à xenofobia. A “bela alma” do século que
se abre, pelo menos em terras europeias, declara publicamente o seu amor ao
“Outro”[…].»71
O «outrismo» criticado por Pierre-André Taguieff revela-se na sua plenitude na
questão do juro e/ou usura (riba), como anteriormente tivemos oportunidade de
referir. De facto, como já fizemos notar, um dos aspectos mais curiosos da
actual atitude ocidental face ao capitalismo shariaé a maneira geralmente
permissiva como é encarado o estigma religioso islâmico face à prática do juro.
Se, nas sociedades europeias e ocidentais, similar atitude cristã é normalmente
vista como uma coisa do passado, sinónimo de uma mentalidade medieval,
incompatível com uma economia moderna e com o progresso – e, não invulgarmente,
como motivo adicional de crítica da Igreja Católica (ou outras igrejas
cristãs), acusada de ser uma força conservadora, reaccionária e obscurantista
–, no caso do islão o julgamento de valor altera-se. Preconceitos religiosos
com raízes religiosas medievais mas recriados modernamente pelos islamitas com
intuitos políticos, são olhados, frequentemente até pelos mesmos críticos, de
uma forma diferente. Sobretudo, encarados de uma maneira muito mais complacente
e simpática, sendo qualificados como uma expressão de «autenticidade cultural»,
um tipo de economia e finança «ética» ou uma «alternativa» à globalização
capitalista do género «comércio justo»
72
. Paradoxalmente, tudo isto ocorre quando, dentro do próprio islão, existem
sinais de se começar a encarar a prática do juro bancário de uma forma mais
liberal e menos proibitiva73, os quais, naturalmente, só podem ser
desencorajados pela atitude relativista-multiculturalista ocidental. Assim, o
enviesamento desta forma de pensar torna-se então desconcertante e pernicioso:
similar atitude antijuro não é boa ou má segundo uma concepção universalista de
ser humano, ou de valores éticos partilhados e de um genuíno progresso social
que sejam comuns e extensíveis à generalidade da humanidade, mas é avaliada
segundo uma concepção variável, que tem por limite a cultura, o grupo, ou a
religião, naquilo que se costuma designar por incomensurabilidade das culturas.
Esta dualidade de critérios e de julgamentos de valor foi duramente criticada
por Ernest Gellner. Este chamou a atenção para os riscos da forma de pensar
relativista-multiculturalista ao evidenciar como o «absolutismo dos outros»
acaba por receber «um tratamento favorável», abrindo-se desta maneira a porta
não só a ideias socialmente retrógradas como a ideologias políticas
totalitárias. Como Gellner explicou, no Ocidente temos
«um movimento que nega a própria possibilidade de uma legitimação e autoridade
extrínseca. De comum acordo, insiste particularmente nesta negação quando a
afirmação contrária dessa legitimação extrínseca provém do interior das suas
fileiras, de não relativistas no seio da sua própria sociedade. Por outro lado,
o pudor relativista e a expiação da culpa ex-colonial não permitem que o
assunto seja devidamente enfatizado junto dos membros pertencentes a outras
culturas. O absolutismo dos outros recebe um tratamento favorável e é objecto
de uma grande simpatia que está muito próxima do apoio oficial»
74
.
Ironizando sobre tudo isto, Gellner descreveu assim a lógica que lhe está
subjacente: quanto mais compreensivo o «relativista-hermeneuta» (qualificação
na qual Gellner, se fosse vivo, talvez incluísse hoje também o arcebispo de
Cantuária e Lord Phillips…) se mostrar com os preconceitos de outras culturas,
nos aspectos que parecem mais chocantes sob o prisma da cultura europeia e
ocidental – a pré-moderna shariaparece ser um bom exemplo –, maior é o feito
interpretativo. Atente-se na crítica cáustica e perpassada de sarcasmo que este
faz à actual atitude intelectual pós-moderna:
«A relação entre as duas personagens deste drama é interessante. Os
relativistas-hermeneutas estão, de facto, ansiosos por espalhar a sua
tolerância e compreensão de culturas estranhas, universais e ecuménicas. Quanto
mais estranhas, chocantes e perturbadoras forem para os filisteus, para todos
aqueles considerados como os mais provincianos da sua sociedade, melhor. Muito,
muito melhor, pois quanto mais chocante é o outro, mais esta compreensão
evidencia a superioridade do hermeneuta iluminado no seio da sua própria
sociedade. Quanto mais difícil é a compreensão, quanto mais repulsivo for o
objecto destinado à bênção hermenêutica, maior é o feito, a iluminação e o
conhecimento do pós-modernista interpretativo.»
75
A conclusão resulta bastante óbvia. O relativismo-multiculturalista fashionna
academia, nos media, no discurso político é intrinsecamente incoerente,
contraditório e confuso nos seus julgamentos de valor. Pior do que isso, é
politicamente perigoso pelo bloqueio intelectual a que tende a conduzir, algo
que se torna demasiado evidente quando se tem de lidar com questões como as que
estamos a analisar. Na realidade, não é mais do que uma ponta visível da actual
hegemonia relativista-multiculturalista, de perfil académico e ideológico, a
qual, paradoxalmente, se tornou uma aliada de uma outra hegemonia, a de um
capitalismo extremado que procura externalizar os custos das suas acções para a
sociedade. Por tudo isto, a criação de uma finança e economia de base religiosa
dentro das sociedades europeias e ocidentais não deixa de levantar sérias
reservas. A questão que os seus proponentes querem iludir é a de saber se não
se está a abrir a porta a um processo de lenta desestruturação das sociedades
democráticas, pluralistas e seculares, em nome de uma suposta «inclusão»,
promoção da «diversidade cultural» e de valores «éticos» ou «segmento de
mercado a satisfazer» e da captação de «investidores com liquidez». A mistura
de argumentos oriundos de um capitalismo extremado e de um relativismo-
multiculturalista radical não deixa de ser irónica. Sobretudo se tivermos em
conta que as raízes ideológicas de cada um se situam em extremos opostos do
espectro político, pelo que estariam, teoricamente, destinados a um duro
confronto ideológico. Na realidade, pelo menos no caso da finança islâmica,
estas duas hegemonias ideológicas – entrincheiradas, uma na economia, a outra
na cultura –, parecem estar a convergir, de forma bastante pragmática e
calculista, contra as sociedades abertas ocidentais, moldadas por valores
liberais, seculares e democráticos. O resultado pode ser, sob uma aparência de
falso progresso, um verdadeiro retrocesso cultural. Vale a pena relembrar aqui
a reflexão de encerramento de um livro publicado por Christopher Caldwell no
ano passado: «Quando uma cultura insegura, maleável e relativista encontra uma
cultura que é ancorada, confiante e reforçada por doutrinas comuns, é
geralmente esta que muda para seguir a última.»
76
A ilação é clara: se horizonte de sociedade ideal for uma sociedade
comunitarista de tipo pré-moderno e com algumas tonalidades medievais, a
adopção da finança islâmica leva-nos para o bom caminho. Se não for, podemo-nos
questionar se não está a ser criada a engrenagem que nos conduzirá, algures no
futuro, a um regresso, ainda que sob outras formas, a algo similar ao Estado de
natureza hobbesiano da Europa pré-moderna.
NOTAS:
1
cf. QUILLARDET, Jean-Michel et al.– La Finance Islamique menace la laïcité
française, http://www.lemonde.fr/opinions/article/2009/11/20/la-finance-
islamique-menace-la-laicite-francaise_1269797_3232.html (Le Monde, 20 de
Novembro de 2009).
2 THE ARCHBISHOP OF CANTERBURY – Civil and Religious law in england: a
Religious Perspective. http://www.archbishopofcanterbury.org/1575 (7 de
Fevereiro de 2008).
3 THE ARCHBISHOP OF CANTERBURY – BBC interview – Radio 4 World at One, http://
www.archbishopofyork.org/1573 (7 de Fevereiro de 2008).
4
cf. AHMED, Murad, e GIBB, Frances – From Leyton to dewsbury, sharia Courts are
already settling disputeshttp://www.timesonline.co.uk/tol/comment/faith/
article3330657.ece (times, 8 de Fevereiro de 2008); 85 sharia Courts in UK,
says Report, http://www.guardian.co.uk/uk/feedarticle/8581818 (The Guardian, 29
de Junho de 2009).
5
Cf., entre outros, BRODER, Henryk M. – Shariah is for everyone!http://
www.spiegel.de/international/europe/0,1518,534772,00.html (Der spiegel, 12 de
Fevereiro de 2008).
6
BUTT, Riazatt – Uproar as archbishop says Sharia law inevitable in UK, http://
www.guardian.co.uk/politics/2008/feb/08/uk.religion (Guardian, 8 de Fevereiro
de 2008).
7
Sharia law Row: archbishop is in shock as he Faces demands to Quit and
Criticism from lord Carey,http://www.dailymail.co.uk/news/article-512876/
sharia-law-row-Archbishop-shock-faces-demands-quit-criticism-lord-carey.html–
ixzz0kevYdipr (Daily Mail, 7 de Fevereiro de 2008); GRIGGS, Ian – Adopting
sharia within British law Would be «disastrous», Lord Carey tells his successor
as archbishop,http://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/adopting-sharia-
within-british-law-would-be-disastrous-lord-carey-tells-his-successor-as-
archbishop-780510.html (Independent, 10 de Fevereiro de 2008).
8 SMITH, Joan – British Women are already suffering from islamic law, http://
www.independent.co.uk/opinion/commentators/joan-smith/joan-smith-british-women-
are-already-suffering-from-islamic-law-780407.html (Independent, 8 de Fevereiro
de 2008); GLEDHILL, Ruth, e SUGDEN, Joanna – Archbishop of Canterbury «Should
Resign» over sharia Row, http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/
article3335026.ece (Times, 8 de Fevereiro de 2008); PHILLIPS, Melanie – Dhimmi–
or Just dim?http://www.spectator.co.uk/melaniephillips/495671/dhimmi-or-just-
dim.thtml (Spectactor, 9 de Fevereiro de 2008); HITCHENS, Christopher – To Hell
With the archbishop of Canterbury. Rowan Williams’ dangerous Claptrap about
«Plural Jurisdiction», http://www.slate.com/id/2184186/ (Slate, 11 de Fevereiro
de 2008), HARI, Johann – Rowan Williams Has shown us one thing – Why
Multiculturalism Must be abandoned, http://www.independent.co.uk/opinion/
commentators/johann-hari/johann-hari-rowan-williams-has-shown-us-one-thing-
ndash-why-multiculturalism-must-be-abandoned-780710.html (Independent, 11 de
Fevereiro de 2008).
9
BENTO XVI – Faith, Reason and the university. Memories and Reflections, Aula
magna of the University of Regensburg, meeting with the representatives of
science http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2006/september/
documents/hf_ben-xvi_spe_20060912_university-regensburg_en.html (12 de Setembro
de 2006).
10cf. GADHER, Dipesh, TAHER, Abul, e MORGAN, Christopher – Rowan Williams Faces
backlash over sharia, http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/faith/
article3342059.ece (Times, 10 de Fevereiro de 2008).
11
Muslim Council of Britain supports Archbishop’s Comments on incorporation of
islamic law
, http://globalmbreport.org/?p=572 (The global Muslim brotherhood daily Report,
16 de Fevereiro de 2008).
12cf. BRIGHT, Martin – When Progressives treat with Reactionaries. The British
state’s flirtation with radical Islamism. Londres: Policy Exchange 2006. O
texto desta publicação está acessível em http://www.policyexchange.org.uk/
images/publications/pdfs/When_prog.pdf
13LORD CHIEF JUSTICE OF ENGLAND AND WALES – Equality before the law, http://
www.judiciary.gov.uk/doc_s_/speeches/lcj__equality_before_the_law_030708.pdf
(East London Muslim Centre, 3 de Julho de 2008).
14Sobre o islamismo como ideologia, cf. FERNANDES, José Pedro Teixeira –
Islamismo e Multiculturalismo. As Ideologias Após o Fim da História, Coimbra,
Almedina.
15KURAN, Timur – Islam and Mammon: The Economic Predicaments of Islamism,
Princeton-New Jersey, Princeton University Press, 2004, p. 2.
16 Banco Islâmico de Desenvolvimento, About Islamic Development Bank (IBD),
http://www.isdb.org:80/irj/portal/anonymous?NavigationTarget=navurl://
24de0d5f10da906da85e96ac356b7af0
17cf. FERNANDES, José Pedro Teixeira – Genealogia do Islamismo Radical: de Ibn
Taymiyya a Sayyid Qutb(Comunicação no V Congresso da APCP, painel Dinâmicas e
Tensões do Islão Europeu, Universidade de Aveiro, 5 de Março de 2010), http://
www.jptfernandes.com/docs/Genealogia_do_Islamismo_Radical.pdf
18KURAN, Timur –Islam and Mammon: the economic Predicaments of islamism, pp. 5-
6.
19 Sobre os desenvolvimentos recentes de um «islão de mercado» em diversos
países árabes e islâmicos cf. também HAENNI, Patrick– L'Islam de Marché:
L'Autre Révolution Conservatrice, Paris, Seuil, 2005.
20KURAN, Timur –Islam and Mammon: the economic Predicaments of Islamism, pp. 8-
9.
21
ibidem
, p. 19.
22
ibidem
, pp. 21-22.
23Divine Quran, http://www.divinequran.com/fr/quran.php?name=2-la-vache
24Cf. SOLOMON, Robert – Business ethics. in SINGER, Peter (ed.) – A Companion
to ethics. Oxford: Blackwell, 1991, pp. 354-365 (tradução portuguesa, 2004, a
Ética empresarial, http://criticanarede.com/html/fil_eticaempresarial.html, p.
2).
25Cf. WEBER, Max – a Ética Protestante e o espírito do Capitalismo. 2ª edição.
São Paulo: Ed. Thomson Pioneira.
26Cf. HOMER, Sidney, e SYLLA, Richard – A History of interest Rates. 4.ª
edição. Nova Jersey: John Wiley & Sons, 2005, pp. 77 e segs.
27cf. Barclays Capital / Islamic Finance, http://www.islamicfinance.de/
?q=taxonomy/term/1083
28cf. SCHILLING, Chelsea – Bailed-out AIG offers Islamic insurance to U.S.,
http://www.wnd.com/index.php?pageId=82726 (WorldNetDaily, 5 de Dezembro de
2008).
29cf. UBS Islamic Finance, http://www.ibb.ubs.com/mc/islamicfinance/index.shtml
30cf. Swiss Re acquires Retakaful licence, sets up Retakaful operation in Kuala
Lumpur, http://www.swissre.com/pws/media%20centre/news/news_releases_2009/
swiss_re_acquires_retakaful_licence.html (News releases, 8 de Outubro de 2009).
31cf. Allianz Takaful, http://www.allianz.com.bh/why_do.html
32cf. Citi Islamic Bank, http://www.citibank.com/uae/gcib/cf_islamic_bkg.htm
33cf. Rebecca Bundhun, Deutsche Bank launches new Shari'ah platform, http://
www.arabianbusiness.com/543208-deutsche-bank-launches-new-shariah-platform
(Arabianbusiness.com, 11 de Janeiro de 2009).
34cf. MSCI Barra to Introduce Global Family of Islamic Indices, http://
www.morganstanley.com/about/press/articles/4797.html
35cf. HBSC Amanah, http://www.hsbcamanah.com
36cf. Lloyds TSB Islamic Financial services, http://www.lloydstsb.com/
current_accounts/islamic_account.asp
37cf. Louise Story, Landon Thomas Jr. e Nelson D. Schwartz, Wall St. Helped to
Mask Debt Fueling Europe’s Crisis, http://www.nytimes.com/2010/02/14/business/
global/14debt.html (New York Times, 13 de Fevereiro de 2010).
38 IslamicFinance.de – Iran allows foreign bank branches: Citibank and Goldman
Sachs among the first applicants, http://www.islamicfinance.de/?q=node/497
39cf. MORAIS, Richard C. – Don't Call It Interest, http://www.forbes.com/
forbes/2007/0723/122.html (Forbes, 23 de Julho de 2007).
40cf. Dow Jones Indexes, http://www.djindexes.com/islamic/index.cfm?go=overview
41cf. Financial Times Stock Exchange (FTSE) http://www.ftse.com/Indices/
FTSE_Shariah_Global_Equity_Index_Series/index.jsp
42cf. a biografia do Xeique Yusuf Talal DeLorenzo em http://muslim-
investor.com/mi/bio-delorenzo.phtml
43cf. Islamonline, http://www.islamonline.net/english/index.shtml
44
cf. Yusuf al-Qaradawi, Islamic Finance System ‘Can Replace Capitalism’, http://
www.cnsnews.com/Public/content/article.aspx?RsrcID=37332 (CNSNews, 13 de
Outubro de 2008).
45cf. a biografia do Mufti Taqi Usmani em http://www.muftitaqiusmani.com/
ProfilePage.aspx
46cf. NORFOLK, Andrew – Our Followers «Must live in Peace until strong enough
to Wage Jihad». http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/faith/
article2409833.ece (Times, 8 de Setembro de 2007).
47 HSBC Launches Global Islamic Equity Fund, http://www.prnewswire.co.uk/cgi/
news/release?id=15781
48cf. Cécilia Gabizon, La finance islamique arrive en France, http://
www.lefigaro.fr/actualite-france/2009/10/09/01016-20091009ARTFIG00007-la-
finance-islamique-arrive-en-france-.php (Figaro, 8 de Outubro de 2009).
49cf. o já referido texto assinado por Jean-Michel Quillardet et. al. do
Observatoire International de la Laïcité contre les Dérives Communautaires
intituladoLa finance islamique menace la laïcité française, http://
www.lemonde.fr/opinions/article/2009/11/20/la-finance-islamique-menace-la-
laicite-francaise_1269797_3232.html (Le Monde, 20 de Novembro de 2009).
50
UK government makes Islamic finance easier
(Halal Journal, 31 de Janeiro de 2007).
51 cf. New Sharia Row over Chancellor’s plans for «islamic bonds».http://
www.thisislondon.co.uk/news/article-23438588-new-sharia-row-over-chancellors-
plans-for-islamic-bonds.do (Evening Standard, 17 de Fevereiro de 2008).
52cf. RINTOUL, Fiona – Islamic investment shows strong momentum, http://
us.ft.com/ftgateway/superpage.ft?news_id=fto040420071150291028&page=2
(Financial Times US, 4 de Abril de 2007).
53
Savings and Souls.
http://www.economist.com/world/middle-east/displaystory.cfm?STORY_ID=12052687
The Economist, 4 de Setembro de 2008.
54 cf. Harvard University Islamic Finance Project, http://
ifptest.law.harvard.edu/ifphtml/
55LAGACE, Martha – How to do business in Islamic Countries. http://
hbswk.hbs.edu/item/2745.html (HBS Global, 2002).
56 A Saïd Business School foi fundada na Universidade de Oxford em 2001, com um
donativo de 20 milhões de libras do negociante de armas sírio Wafic Rida Said.
Cf. Ver o artigo de Jonathan Glancey, When worlds collide, http://
www.guardian.co.uk/education/2001/dec/10/highereducation.mbas (Guardian, 10 de
Dezembro de 2001).
57Oxford University Saïd Business School, Forthcoming events, http://
www.sbs.ox.ac.uk/newsandevents/conferences/OGIBMF/Documents/
MarketingForumJuly10_03.pdf
58Jean-Paul Laramée é também autor da publicação colectiva, La finance
islamique à la française: Un moteur pour l'économie, une alternative éthique,
Paris, Bruno Leprince, 2008.
59 cf. Institut Français de Finance Islamique, http://
www.institutfrancaisdefinanceislamique.fr/fr/
60 cf. Finance islamique: «Une manifestation formidable de l'intégration»,
http://www.lexpress.fr/actualite/societe/religion/finance-islamique-une-
manifestation-formidable-de-l-integration_752896.html(L' Express, 9 de Abril de
2009).
61cf. HERMAN, Michael – Lehman analyst told to suppress negative research,
http://business.timesonline.co.uk/tol/business/law/article6723512.ece (Times,
22 de Julho de 2009).
62cf. PINTO, Martin de Sá – Islamic finance needs clearer rules, http://
www.reuters.com/article/idUSTRE61F49M20100216 (Reuters, 16 de Fevereiro de
2010).
63cf. ALAMI, Mona – Dubai Debts Prompt Review of Islamic Finance, http://
www.globalissues.org/news/2010/01/12/4174 (Global Issues, 12 de Janeiro de
2010).
64cf. O texto que Mahmoud el-Gamal colocou no seu blogue a propósito desta
questão intitulado «Justification and the four-step vicious circle of “islamic
finance”». http://elgamal.blogspot.com/2010/01/justification-and-four-step-
vicious.html (23 de Janeiro de 2010).
65
BESSON, Sylvain – L'islamisme à la conquête du monde, http://www.letemps.ch/
Page/Uuid/7789ca86-aed9-11dd-bf59-ad3d6140ad87/
Lislamisme_%C3%A0_la_conqu%C3%AAte_du_monde (Le Temps, 6 de Outubro de 2005).
Ver também do mesmo autor o livro La conquête de l'Occident. Le projet secret
des islamistes, Paris:Seuil, 2005.
66
KOMISAR, Lucy – Shareholders in the Bank of Terror?, http://www.salon.com/
technology/feature/2002/03/15/al_taqwa/print.html (Salon.com, 15 de Março de
2002).
67
cf. O documento 2 («A estratégia financeira dos irmãos muçulmanos»), incluído
em anexo ao já referido livro de BESANÇON, Sylvain – La conquête de l'Occident.
Le projet secret des islamistes, p. 207.
68
cf. BYNUM, Rebecca – «Voodoo economics». In New English Review, Março de 2008,
http://www.newenglishreview.org/custpage.cfm/frm/16605/sec_id/16605
69
Alain Gérard-Slama citado em FOUREST, Caroline – La dernière utopie. Menaces
sur l'universalisme, Paris : Grasset, 2009, p. 121.
70
Sobre o bizarro zeitgeistcontemporâneo de culto do «outro» associado à atitude
«masoquista» de se denegrir a si próprio, ver o elucidativo ensaio de BRUCKNER,
Pascal – La tyrannie de la pénitence. essai sur le masochisme occidental. paris
: grasset, 2006.
71
TAGUIEFF, Pierre-André – Les contreréactionnaires. Le progressisme entre
illusion et imposture. Paris: Denöel, 2007, pp. 582-583.
72
Estas últimas qualificações denotam a persistência do bafiento espectro
anticapitalista e antilucro da esquerda radical, ainda mal refeita do colapso
da utopia marxista da sociedade sem classes e de uma economia de direcção
central cientificamente planificada.
73
cf. EL-GAMAL, Mahmoud – Al-Azhar Fatwa Debate And The Issue of Wakalah/Agency,
http://tyo.ca/islambank.community/
modules.php?op=modload&name=News&file=article
&sid=1060&mode=thread&order=0&thold=0&POSTNUKESID=72c619956b5173f7e500eb7
056b56e60 (14 de Novembro de 2002). Ver ainda, Islamic institute blesses
interest, http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/2488525.stm (BBC, 18 de Novembro
de 2002).
74
GELLNER, Ernest – Pós-Modernismo, Razão e Religião. Lisboa: Edições Piaget,
2004, p. 106.
75
GELLNER, Ernest – Pós-Modernismo, Razão e Religião, p. 107.
76
CALDWELL, Christopher – Reflexions on the Revolution in Europe. Can Europe be
the same with different People in it?.Londres: Allen lane, 2009, p. 286.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt