A trajectória de um movimento islamita na Somália
In memoriam Prof. Fred Halliday (22 de Fevereiro de 1946-26 de Abril
de 2010)
«A tentativa de traçar a ascensão e a queda dos movimentos islamitas
remete essencialmente para as sociedades específicas onde estes
emergem».
2
A Somália, após praticamente uma década de menor visibilidade desde a retirada
em 1995 da Operação de Apoio à Paz das Nações Unidas, voltou a ocupar
protagonismo na agenda internacional pelas ramificações regionais e globais do
total colapso e desintegração do Estado desde 1991. Os factores que colocaram a
Somália nos radares dos estados regionais e extra-regionais foram a ascensão do
Conselho de Tribunais Islâmicos (CTI), de Junho a Dezembro de 2006, pelas
alegadas conexões de elementos do mesmo ao movimento militante transnacional
salafita (Al-Qaida) e a maior incidência de ataques de pirataria na bacia da
Somália e no golfo de Adem, desde 2007 até à data de publicação do presente
artigo.
Este artigo tem por objectivo analisar a trajectória do movimento islamita na
Somália desde a sua ascensão até à queda, pela intervenção concertada das
Forças Nacionais de Defesa da Etiópia (FNDE) em apoio ao Governo Federal de
Transição (GFT). Numa segunda parte, observa a sua posterior fragmentação, numa
pluralidade de facções insurreccionais, e radicalização mediante apelos e
mobilização de apoio de mujahidinem oposição à presença de forças de ocupação
ditas estrangeiras (primeiramente as FNDE até Janeiro-Fevereiro de 2009, e,
desde Março de 2007 até ao presente, a Missão da União Africana para a Somália/
Muasom). Finalmente, analisa-se a subsequente inclusão de elementos moderados
num novo GFT através de um processo político impulsionado pelas Nações Unidas:
o processo político de Jibuti e a transformação da insurreição.
O período de análise restringe-se a 2006-2010, ainda que se proceda ao devido
enquadramento histórico do papel do islão na sociedade somali, de modo a traçar
a trajectória do movimento islamita e a analisar a pluralidade de organizações
militantes islamitas que emergiram após a queda do CTI. O fenómeno da pirataria
não será objecto de análise neste contexto uma vez que, até ao presente, não
foi possível estabelecer qualquer conexão entre a pluralidade de facções na
insurreição (e sua intensidade) e a pirataria
3
.
PARA UMA COMPREENSÃO DAS ORGANIZAÇÕES MILITANTES ISLAMITAS À LUZ DA TEORIA DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS
Na sequência do 11 de Setembro de 2001 assistiu-se a uma proliferação de
estudos sobre terrorismo4. Uma das problemáticas que maior enfoque recebeu foi
precisamente o terrorismo suicida perpetrado por indivíduos doutrinados por
organizações militantes islamitas extremistas5. A avalancha em termos de
produção científica, nesta subárea dos estudos de segurança, tendeu no entanto
a concentrar-se num leque reduzido de temáticas, nomeadamente na Al-Qaida ou em
tópicos relacionados com o 11 de Setembro (bombistas suicidas, mártires e
extremismo islâmico). O resulto foi diverso, verificando-se um crescimento de
estudos com abordagens, de qualidade também diversa, e frequentemente carecendo
de enquadramento histórico, teórico e conceptual e da obtenção e produção de
dados empíricos primários
6
. Uma das abordagens que se revela particularmente útil para a compreensão de
sociedades muçulmanas, para o papel do islão político e para a emergência de
organizações militantes islamitas é a sua análise a partir de uma perspectiva
ancorada na teoria dos movimentos sociais
7
. Esta perspectiva tem sido gradualmente aplicada na análise de organizações
não inclusivas e violentas que recorrem a ataques terroristas para fazerem
vingar os seus objectivos de alteração do status quonas sociedades onde
emergem8.
Uma abordagem das organizações militantes islamitas a partir da perspectiva dos
movimentos sociais reporta-se a uma vasta produção científica anterior ao 11 de
Setembro. Neste contexto, revelam-se particularmente válidos os avanços obtidos
através do casamento de perspectivas teóricas e conceitos da área de estudos do
Médio Oriente e de relações internacionais, sendo de assinalar em particular o
vasto corpo teórico e a pluralidade de estudos de caso edificados por um
professor de referência para várias gerações de estudantes e estudiosos de
Relações Internacionais: Fred Halliday
9
. Este artigo encontra-se estruturado a partir de dois pressupostos teóricos
centrais dentro desta perspectiva de análise.
Em primeiro lugar, parte-se do pressuposto teórico de que a ascensão de
movimentos islamitas e as formas particulares que assumem se encontram
subordinadas a tendências nacionais
10
. Em segundo lugar, o enfoque na trajectória de um movimento islamita numa dada
sociedade assenta no pressuposto teórico de que cada movimento islamita
reflecte o país (sociedade) onde emerge enquanto força política11.
Através da análise dos contornos da emergência, da ascensão e da queda de um
movimento islamita numa sociedade muçulmana na África Oriental, mais
precisamente na região do denominado Corno de África, pretende-se contribuir
para a reflexão acerca da trajectória e das formas nacionais dos movimentos
islamitas e dos mecanismos conducentes à radicalização de segmentos da
sociedade tendo em vista estimular o debate relativamente aos modos e
estratégias adoptados por uma miríade de actores nacionais, regionais e extra-
regionais face a organizações militantes islamitas extremistas, com ligações à
Al-Qaida, à luz da organização com estas características na Somália: a Al-
Shabaad e, desde 2009, formalmente denominada Harakat Al-Shabaad al-
Mujahidin12.
O Conselho de Tribunais Islâmicos na sua fase de ascensão, que será o enfoque
da primeira parte deste artigo, revelou-se mais do que islâmico ' islamita ' no
sentido definido por Fred Halliday: «como parte de um movimento que procurou
resolver questões políticas e sociais por referência ao Islão»
13
. No entanto, este movimento islamita revelou-se igualmente militante pelo
recurso à força para implementar os seus propósitos. Neste contexto, o recurso
à violência é entendido como um processo dinâmico. A classificação deste tipo
de movimento enquanto «organização terrorista», parafraseando Gunning, torna-se
uma anomalia. De acordo com este autor,
«esta terminologia torna as tácticas terroristas excepcionais mediante a
ocultação da importância do restante reportório de acção de uma organização, as
suas interacções com o movimento social mais amplo, e a natureza temporal do
recurso a tácticas terroristas»
14
.
Com efeito, tal como sublinha o autor, a dicotomia entre organizações
militantes e não militantes islamitas não é concebida de forma tão rígida como
a dicotomia entre organizações terroristas e não terroristas15.
Este debate será introduzido na parte final do presente artigo aquando da
análise da transformação da organização militante islamita extremista Al-
Shabaad e da sua inclusão, em 2008, pelos Estados Unidos, na lista de
organizações terroristas. O argumento central deste artigo sublinha a
importância de evitar tais classificações. De acordo com Gunning, a
classificação de uma organização com as características da Al-Shabaad enquanto
organização militante islamita (extremista), em oposição a uma classificação
enquanto organização terrorista, permite introduzir uma maior fluidez
heurística que, por consequência, contribui para uma análise da violência
«não apenas como uma simples escolha ideológica ou táctica mas como o produto
de intensos debates dentro do próprio movimento e de lutas pelo poder entre
facções, lutas essas alimentadas pelo acesso diferenciado a recursos e pelas
interpretações rivais dos interesses e identidades dos seus membros»16.
Com efeito, a análise da pluralidade de organizações militantes islamitas na
Somália (que emergiram na sequência da queda do CTI) por referência à
trajectória do movimento islamita nacional (Somália) e transnacional (Al-Qaida)
revela-se profícua para analisar a violência enquanto parte das dinâmicas dos
movimentos sociais17.
A DIVERSIDADE DAS FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO ISLÃO NA SOMÁLIA E A ASCENSÃO DO
MOVIMENTO ISLAMITA
A queda do regime de Siyad Barre, em 1991, foi seguida por uma escalada de
violência entre diversas facções rivais que culminou na desintegração e colapso
do Estado. Tanto o sistema legal de justiça como as forças de segurança se
desintegraram.
Neste contexto de vácuo de autoridade assistiu-se a uma reemergência do direito
costumeiro (heer) e do direito islâmico (shari'a). Nas regiões
predominantemente nómadas, os tribunais da shari'aencontravam-se subordinados
às deliberações do direito costumeiro. Nestas zonas, a aplicação da
shari'aestava restringida aos assuntos intraclã e relacionados com disputas de
estatuto pessoal. Mesmo relativamente ao clã a shari'aencontrava-se limitada
pela força do costume local e, por sua vez, os líderes religiosos encontravam-
se subordinados aos líderes dos clãs
18
. Nas regiões do Sul da Somália, onde as ocupações agropastoris tendem a
predominar, e nas zonas costeiras, a shari'atinha uma jurisdição mais ampla.
Tal deve-se à menor saliência do princípio de linhagem e à menor autonomia dos
cultivadores e dos empreendedores urbanos face aos líderes dos clãs
19
. Com efeito, a sociedade na Somália tem-se caracterizado pela distinção clara
entre os papéis seculares e os religiosos, os waranleh(guerreiros) e os wadaad
(líderes religiosos) ocuparam locais distintos, encontrando-se os últimos
subordinados aos primeiros e a actuação dos wadaadlimitava-se à mediação
20
. No entanto, com a desintegração do Estado, os tribunais da shari'ainspirados
no modelo da Arábia Saudita e apoiados por comerciantes somalis adquiriram
maior notoriedade. Mas para os líderes dos clãs, os líderes dos novos tribunais
da shari'aeram pejorativamente apelidados de «jovens xeques ocidentalizados»
21
Tal como sublinha Lewis, a ressurgência de organizações islamitas na sequência
da desintegração do Estado deve ser entendida como uma estratégia, por parte de
líderes locais, de aproveitamento da facilidade de apoio externo por parte de
estados árabes, em termos financeiros e de armas22 .O maior protagonismo da Al
Itihad Al Islamaya (AIAI) neste período inseriu-se nessa tendência. No entanto,
a AIAI também se viu envolvida na luta pelo controlo de recursos críticos
locais com outros senhores da guerra e com milícias dos clãs, nomeadamente em
lutas pelo controlo das cidades portuárias de Mogadíscio, Merca, Kismayo e
Bossaso. Esta estratégia revelou-se fatal e a AIAI sofreu uma derrota no Norte
face à Frente de Salvação Democrática Somali predominantemente identificada com
o clã Darod/Majeerteen23. A AIAI anunciou renunciar à força e centrou a sua
acção no trabalho social ao nível local para garantir o apoio dos clãs para a
sua agenda islâmica
24
.
No entanto, uma parte da AIAI, liderada por Hassan Dahir Aweys, expandiu as
suas operações militares para a Etiópia, tornando os confrontos com as FNDE
inevitáveis, o que, em última instância, levou ao desmantelamento da aiai e à
destruição da sua base em Luuq (região de Gedo) pelas FNDE.
Os tribunais islâmicos resultaram de diversas tentativas de implantação na
capital, com o apoio de poderosos senhores da guerra e de comerciantes, para
garantir alguma ordem e contrariar a atmosfera de ausência de lei e de
impunidade. Durante a vigência do Governo Nacional de Transição (2000-2004), os
tribunais diminuíram em visibilidade e importância. Em 2003, Sheikh Sharif
Ahmed liderou uma nova tentativa de restabelecimento dos tribunais no norte da
capital e, um ano mais tarde, foi eleito secretário-geral dos tribunais na
capital.
Em 2005, assistiu-se a uma vaga de desaparecimentos e assassínios misteriosos
em Mogadíscio. Os alvos foram somalis cujas credenciais como islamitas radicais
os tornavam suspeitos. Posteriormente, em Fevereiro de 2006, com o alegado
apoio da CIA, foi criada a Aliança para a Restauração da Paz e Contra-o-
Terrorismo (ARPCT) liderada por senhores da guerra
25
. O confronto entre elementos da ARPCT e a Al-Shabaab (a facção militar dos
tribunais islâmicos, liderada por Aden Hashi Ayro) pelo controlo do porto de El
Mana, na capital, resultou na derrota da ARPCT e marcou o início da ascensão do
Conselho de Tribunais Islâmicos. Durante a ascensão do CTI, os cidadãos da
capital acolheram com entusiasmo um conjunto de medidas que melhorou
significativamente as condições de vida em Mogadíscio: o desmantelamento dos
controlos de milícias no interior da capital, a recolha de lixo e a atmosfera
de maior ordem e segurança
26
. Os islamitas moderados associados a Sheikh Sharif encontravam-se no Comité
Executivo e os islamitas tidos por extremistas e liderados por Hassan Dahir
Aweys encontravam-se na Shura (o Conselho Consultivo). De Junho a Dezembro de
2006 as ofensivas lideradas pelo CTI contra o Governo Federal de Transição
liderado, na época, pelo senhor da guerra nortenho do clã Darod/Majerteen,
Abdilahi Yussuf, ameaçavam o GTF. Neste contexto, mediante solicitação do GTF,
em Dezembro de 2006, as FNDE intervieram na Somália conduzindo à derrota do CTI
e precipitando o seu desmantelamento com os dois principais líderes em retirada
no exílio. Nesta altura, o conflito entre o CTI e o GFT era representado em
termos demasiado simplistas como um conflito entre um dos clãs do Norte 'Darod
e o clã predominante na capital Hawiye. Apesar de o elemento clânico não ser de
descurar, outros factores contribuíram para a queda do CTI. A retórica de
ressurgimento da ideia expansionista e nacionalista da Grande Somália (que
visava a incorporação dos territórios de estados vizinhos, da Etiópia e do
Quénia, onde há uma maioria de cidadãos de etnia somali), a presença de
elementos na liderança do CTI na lista de terroristas dos Estados Unidos e com
alegadas ligações à Al-Qaida, a retórica de implantação da shari'ae a
estratégia exclusivista e de confronto face ao GFT contribuíram para a
capacidade de forjar alianças do GFT com os estados vizinhos que viam no cti
uma ameaça para a sua segurança interna.
Esta trajectória do movimento islamita na Somália sugere a importância de ter
em conta dois aspectos identificados por Robinson na análise de outras
sociedades muçulmanas em África: i) a diversidade da cultura religiosa
islâmica; e ii) a variedade e originalidade da prática islâmica em sociedades
africanas27. Estes factores são determinantes para a compreensão da
transformação do movimento e da proliferação de organizações militantes
islamitas, cuja análise constituirá o objecto da parte final do presente
artigo.
A TRANSFORMAÇÃO DO MOVIMENTO MILITANTE ISLAMITA: A INSURREIÇÃO E O PROCESSO DE
PAZ DE JIBUTI
As transformações do movimento social foram acompanhadas por uma escalada de
hostilidades e por lutas pelo poder intramovimento e entre os diversos actores
e, em certa medida, exacerbadas pelas alianças e rivalidades entre os actores
na Somália e outros actores internacionais (estatais/não estatais, nacionais/
transnacionais, regionais/extra-regionais). Verificou-se uma alteração em
termos dos protagonistas. Esta parte do artigo irá caracterizar os
protagonistas do lado do GTI, ou a aliança entre secularistas e islamitas
moderados e da insurreição, a saber, as seguintes organizações militantes
islamitas: os militantes islamistas extremistas da Al-Shabaab, os militantes
islamitas nacionalistas da Hizb Islam e os militantes islamitas
tradicionalistas da Ahlu Sunna Wal Jamaa.
Com efeito, a queda do CTI conduziu ao desmembramento e fragmentação do
movimento. Inicialmente, de Janeiro de 2007 a Janeiro de 2009, os membros das
organizações militantes islamitas que permaneceram na Somália encontraram duas
justificações ideológicas capazes de mobilizar vastos segmentos da sociedade: o
objectivo de estabelecimento do direito islâmico (sharia) como a lei de um
futuro Estado da Somália e a expulsão das forças estrangeiras da Somália em
particular da Etiópia.
Em Janeiro de 2009, estas duas justificações foram obliteradas pelo processo de
paz de Jibuti. Este processo, sob chancela das Nações Unidas, resultou na
eleição de um islamita moderado (o antigo presidente do Comité Executivo do
CTI) o President Sharif Ahmed, que prontamente tomou a iniciativa de fazer
aprovar pelo Parlamento Federal de Transição o reconhecimento do direito
islâmico como a base de governação e com jurisdição em toda a Somália.
Simultaneamente, assistiu-se a uma retirada das FNDE da Somália. Permaneceram
apenas os contingentes afectos à Muasom contando actualmente com uma força
circunscrita a alguns quarteirões de Mogadíscio, de 6300 peacekeepersoriundos
do Uganda, Burundi e Jibuti28.
Estes dois desenvolvimentos não alteraram significativamente a insurreição, no
entanto, acresceram à já debilitada capacidade da Al-Shabaab encontrar
justificações ideológicas com poder de mobilização, quer dentro do movimento,
quer junto a vastos segmentos da sociedade.
Dentro da panóplia de medidas impopulares levadas a cabo pela Al-Shabaad e,
nalguns casos, também pela Hizb Islam, há que destacar os inúmeros ataques
bombistas suicidas
29
, em particular o de Dezembro de 2009 durante a Cerimónia de Graduação na
Universidade de Mogadíscio, combinados com a destruição dos túmulos
considerados sagrados pelos seguidores de santos sufis desde 200830; as
punições severas impostas nas áreas administradas pela Al-Shabaab face ao
incumprimento dos preceitos e práticas do islão de inspiração wahabita na sua
versão salafita tal como preconizado pela Al-Shabaab (incluindo amputações,
apedrejamento, prática de punição com açoite público) e, finalmente, a
intensificação da insurreição, desde a ofensiva de Maio de 2009, acompanhada
por um aumento de fatalidades (de não combatentes) e provocando uma nova vaga
de deslocados
31
em busca de protecção face à intensidade das hostilidades entre beligerantes na
capital.
Estes factores permitem compreender o decréscimo de popularidade geral da
organização militante islamita extremista. Para além destes factores, há que
mencionar dois adicionais que comprometeram a legitimidade da autoridade da Al-
Shabaab, tanto no plano externo como no plano interno. As duas linhas de
clivagem no interior da própria organização emergem em torno, por um lado, da
oposição entre aqueles que apoiam uma jihadde cunho nacional e entre aqueles
que apoiam uma jihadde cunho interna-cional/global e, por outro lado, entre
aqueles que subordinam a crença e as práticas da interpretação salafita do
islão à identificação clânica (e/ou subclânica); respeitando a solidariedade
clânica em detrimento da rivalidade entre as diversas interpretações e práticas
do islão dos diversos protagonistas do conflito.
A presença de mujahidine de líderes não somalis enquanto assessores dos líderes
da organização militante islamita extremista, Al-Shabaab, são outros factores
que a médio-longo prazo tendem a conduzir à erosão interna da capacidade de
mobilização de apoio por parte desta organização. O controlo de território por
parte da Al-Shabaad, a intensificação da insurreição e a sua capacidade de
mobilização de apoio quer de mujahidinde origem somali, quer de elementos de
outras nacionalidades com ligações à Al-Qaida, tem conduzido a um aumento de
visibilidade e protagonismo da Al-Shabaab na insurreição em proporção inversa à
sua legitimidade face a segmentos da sociedade somali e das formações da
diáspora somali. Este protagonismo, apesar de não constituir uma surpresa,
menorizou a visibilidade e permite aferir do decréscimo do capital simbólico e
de mobilização de apoio que o antigo presidente da Shura (Conselho Consultivo
do CTI), Sheikh Hassan Dahir Aweys, beneficiou internamente durante a fase de
ascensão do CTI e durante uma parte do período de exílio em Asmara (Eritreia).
O protagonismo de Aweys no CTI contribuiu para o exacerbar de receios nos
países vizinhos (em particular na Etiópia) e, por parte dos Estados Unidos, da
preponderância de elementos militantes islamitas extremistas, e com ligações à
Al-Qaida, no CTI. Tal ficou a dever-se às anteriores acções sob liderança de
Aweys na AIAI, nomeadamente os ataques terroristas em Dire Dawa e Adis Abeba
(Etiópia) nos anos 1990, e o apoio logístico providenciado pela AIAI para os
ataques bombistas perpetrados por membros da célula da Al-Qaida na África
Oriental contra interesses americanos nesta região
32
.
Hassan Dahir Aweys permaneceu em Asmara desde a queda do CTI até meados de
Abril de 2009. Em Setembro de 2007, foi um dos líderes fundadores da Aliança
para a Relibertação da Somália (ARS). Esta aliança foi objecto de uma cisão,
tendo gerado duas facções, a de Aweys, que se opôs ao processo de paz de
Jibuti, e a de Sharif, que adoptou uma estratégia de aproximação e de
negociação face ao antigo GFT, denominadas ARS-Asmara e ARS-Jibuti,
respectivamente.
Na sequência da eleição de Sharif, em 2009, o regresso de Aweys à Somália
ocorreu em fase coincidente à reunião do novo GFT com os doadores em Bruxelas
(23 de Abril de 2009) para obtenção de fundos para apoiar a edificação do novo
GFT resultante da aliança entre moderados islamitas e antigos membros do GFT. O
regresso de Aweys à Somália foi antecedido pela criação da Hizb Islam em
Fevereiro de 2009.A Hizb Islam foi o resultado da aliança entre: i) o ARS-
Asmara de Aweys; ii) o Ras Kamboni liderado pelo antigo companheiro de armas de
Aweys dos tempos da AIAI Hassan Turki; Ras Kamboni, até esta data, era uma
facção da Al-Shabaab; iii) outra facção da Al-Shabaab, Anole, também se
integrou na Hizb Islam; e iv) Jabhatul Islam (o acrónimo em somali é Jabiso).
As implicações da escalada de violência para os não combatentes, tanto pelas
ofensivas da Al-Shabaab como pelas ofensivas em aliança com Hizb Islam,
permitem compreender a mudança no alinhamento de anciões do clã Hawiye e a
capacidade de mobilização de apoio junto dos vários subclãs dos Hawiye
33
por parte da Ahlu Sunna Wal Jama (ASWJ) que significa «Seguidores da Via
Profética e do Consenso».
Apesar da tendência apolítica das ordens sufistas, a sua decisão de recorrer à
força foi desencadeada para travar os avanços da Al-Shabaab no Vale de Jubba e
para impedir a destruição de lugares sagrados associados ao culto de santos
sufistas. As ordens sufistas na Somália, tal como em outras sociedades
africanas, associam a profissão de fé no islão a um conjunto de espíritos,
santos e sacrifícios, práticas estas condenadas e classificadas como idólatras
por outros muçulmanos34. Apesar de a ASWJ não reunir uma força para além dos
dois mil efectivos tem conseguido travar os avanços da Al-Shabaab (e do Hizb
Islam) de forma mais consistente e eficiente do que o GFT. O GFT conta
aproximadamente com uma força de três mil elementos, ainda que a força total
planeada para as Forças Somalis de Segurança Nacional seja de oito mil
35
.
O acordo celebrado a 15 de Março de 2010, entre a ASWJ e o GFT, garantindo
cinco posições ministeriais, para além de postos diplomáticos e lugares
seniores dentro da polícia e dos serviços de intelligencepara membros da ASWJ
gerou descontentamento dentro da organização e suscitou críticas por parte de
alguns dos líderes36. Esta divisão de posições face à integração do GFT
confirma a tendência de líderes sufistas em outras sociedades africanas
relativamente ao poder político. Os líderes sufistas, Amadu Bamba do Senegal e
Sheikh Muhamad Shafi da Etiópia, assentavam a sua conduta no princípio de que o
poder corrompe e não serve necessariamente os propósitos de aumento do número
de praticantes, nem a qualidade da prática da fé islâmica37. Inicialmente, esta
aliança de sufistas tradicionais na Somália foi interpretada como uma tentativa
para um dos subclã Hawiye (Habr Gidir) encontrar uma forma alternativa de
defender os seus interesses e de atenuar a sua representação como anti-GFT
38
. A dissensão provocada pelo acordo com o GFT parece sugerir que os fins
iniciais da ASWJ, e de uma parte dos membros que se identificam com a
organização, não contemplavam a tomada de poder.
A sua entrada no conflito ficou a dever-se essencialmente à tentativa da Al-
Shabaab de controlar a cultura religiosa somali, nomeadamente a forma de
apropriação do islão pelas ordens sufistas e a sua veneração de santos.
A insurreição continua e a fragmentação dentro do movimento islamita e dentro
das diversas organizações que o compõem não permite identificar uma tendência
de predomínio por parte dos protagonistas da insurreição. Por seu turno, o GFT
continua fortemente dependente da Muasom e do apoio internacional para a sua
permanência no poder.
CONCLUSÃO
Neste sentido, a análise do estudo de caso revela a importância de ter em conta
a tensão entre a diversidade e tolerância nos modos de apropriação do islão na
Somália e as tendências homogeneizantes do modo de apropriação do islão imposto
através do recurso à força pelo movimento militante islamita salafita, vulgo,
Al-Shabaab39. Com efeito, a intensificação da insurreição e a emergência de
novas organizações militantes islamitas sublinha, por um lado, a complexidade
da identidade islâmica na Somália e a sua resistência a simplificações e
controlo e, por outro, sugere que a tentativa por parte do novo GTF (resultante
da aliança entre islamitas moderados e secularistas) de criar um Estado
islâmico acresce em dificuldades face à quinzena de tentativas falhadas de
reconstruir o Estado na Somália nas últimas duas décadas, desde a queda de
Siyad Barre e o colapso do Estado.
A análise do estudo de caso é particularmente enriquecedora para compreender a
trajectória do movimento islamita e as formas particulares de apropriação do
islão, nas suas versões militantes e não militantes, pela sociedade somali.
Esta análise permite, igualmente, confirmar a asserção de Gunning relativamente
a outras organizações militantes islamitas, a saber, a radicalização de
elementos de organizações militantes islamitas na Somália deve ser entendida
como resultado das dinâmicas dentro do próprio movimento e do contexto externo
40
, nomeadamente as arenas políticas regional e global.
Finalmente, o estudo de caso oferece algumas pistas de reflexão para
compreender o período de gestação de criação de um Estado islâmico numa
sociedade em que o Estado se desintegrou por completo.
NOTAS
1
Este artigo é o resultado do trabalho de campo realizado no âmbito do projecto
de investigação, em curso, financiado pela Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, intitulado «Monitorização de Conflitos no Corno de África».
2HALLIDAY, Fred - The Middle East in International Relations: Power, Politics
and Ideology. Cambridge: Cambridge University Press, 2005, p. 236.
3HANSEN, Stig Jarle ' Piracy in the greater Gulf of Aden. NIBR Report, 2009.
4SILKE, Andrew, (ed.) - Research on Terrorism: Trends, Achievements and
Failures. Londres, Portland. RANSTORP, Magnus - "Mapping terrorism studies
after 9/11: An academic field of old problems and new prospects", In
JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) ' Critical Terrorism
Studies: A new research agenda. Londres: Routledge, 2009, pp. 13-33. SILKE,
Andrew - "Contemporary terrorism studies: issues in research, In JACKSON,
R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) ' Critical Terrorism Studies: A
new research agenda, Londres: Routledge, 2009, pp. 34-48 (p.45).
5RANSTORP, Magnus ' «Mapping terrorism studies after 9/11: an academic field of
old problems and new prospects», pp. 18 e 23; SILKE, Andrew, (ed.) ' Research
on terrorism: trends, achievements and Failures.
6
As dificuldades de obtenção de dados primários para o presente artigo foram
colmatadas mediante realização de trabalho de campo em Hargeisa (Somalilândia/
Somália em Dezembro de 2007) em Addis Abeba e Nairobi (Outubro-Dezembro de
2008) e mediante realização de entrevistas com estudiosos da Somália (membros
de formações da diáspora somali e cidadãos de outras nacionalidades) que
efectuaram trabalho de campo no período sob análise (2006-2010) na Somália. A
análise da trajectória dos movimentos militantes islamistas foi complementada
com dados secundários obtidos através dos relatórios do International Crisis
Group, a saber: International Crisis Group ' "Somalia's Divided Islamists
". Africa Briefing N°74, 18 de Maio de 2010, pp.1-19. International Crisis
Group - "Somalia's Islamists ". Africa Report N°100, 12 de Dezembro
de 2005, pp. 1-34; vários números de Africa Confidential e mediante
participação em Conferências onde foi possível validar algumas das
considerações preliminares face a audiências e participantes de origens
profissionais diversas com o denominador comum do enfoque na Somália e/ou em
movimentos militantes (e não-militantes) islamistas, nomeadamente em Leiden,
Lisboa e Barcelona (2009); Sevilha, St. Andrews, Aveiro, Coimbra e Lisboa
(2010).
7
DALACOURA, Katerina - "Islamist Movements as Non- state Actors and their
Relevance to International Relations." In JOSSELIN, Daphne´ e WALLACE,
William (eds. ' Non-state actors in world politics. Basingstoke: Palgrave,
2001, pp. 235-248.
8
GUNNING, Jeroen - "Social movement theory and the study of
terrorism". JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) '
Critical Terrorism Studies: A new research agenda. Londres: Routledge, 2009,
pp. 156-177.
9
HALLIDAY, Fred ' op. Cit., 2005, entre inúmeras obras, sempre na charneira dos
grandes desafios teóricos que perpassaram a disciplina, como por exemplo a sua
obra HALLIDAY, Fred - Rethinking international relations. Londres: Macmillan
Press, 1994. Na senda de Halliday, Katerina Dalacoura tem contribuído para o
cruzamento frutífero entre a área de estudos do Médio Oriente e Relações
Internacionais, sendo de destacar a recente tentativa de aplicabilidade da
abordagem multidisciplinar da área de estudos à sub-área dos estudos de
terrorismo: DALACOURA, Katerina - "Middle East area studies and terrorism
studies: establishing links via a critical approach." In JACKSON, R.,
SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) ' Critical Terrorism Studies: A new
research agenda. Londres: Routledge, 2009, pp. 124-137
10HALLIDAY, Fred - Islam & the Myth of Confrontation: Religion and Politics
in the Middle East London. Nova York: I. B. Tauris, 1996 (edição revista 2003),
p. 119.
11DALACOURA, Katerina ' «Islamist movements as non-state actors and their
relevance to international relations», p. 246.
12INTERNATIONAL CRISIS GROUP ' «Somalia's divided islamists». In Africa
briefing. N.° 74, 18 de Maio de 2010, pp. 1-19 (p. 7).
13HALLIDAY, Fred ' Islam & the Myth of Confrontation: Religion and Politics
in the Middle east. london, p. X.
14GUNNING, Jeroen (eds.) ' Critical terrorism studies: a new Research agenda,
p. 162.
15
ibidem
.
16
ibidem
.
17
ibidem
, pp. 162-163.
18HELANDER, Bernhard ' «Somalia». In WESTERLUND, David, e SVANBERG, Ingvar
(eds.) ' Islam Outside the Arab World. Curzon. Nova York: St. Martin's Press,
1999, pp. 37-55.
19LEWIS, I. M. ' Saints and Somalis: Popular Islam in a Clan-based society.
Londres: Haan Associates, 1998, p. 25.
20
ibidem
, p. 14.
21Ocidentalizado neste contexto deve ser entendido como sinónimo de
estrangeirado. MARCHAL, Roland ' «Islamic political dynamics in the Somali
civil war. Before and after 9/11». In WAAL, Alex de (ed.) ' Islamism and its
enemies in the Horn of Africa. Londres: Hurst & company, 2004, p. 124.
22LEWIS, I. M. ' Saints and Somalis: Popular Islam in a Clan-based society, p.
44.
23
ibidem
, p. 44.
24HELANDER, Bernhard ' «Somalia», p. 47; MARCHAL, Roland ' «Islamic political
dynamics in the Somali civil war. Before and after 9/11», p. 139.
25PRUNIER, Gerard ' «A world of conflict since 9/11: CIA coup in Somalia». In
Monde diplomatique, setembro de 2006.
26BARNES, Cedric, e HASSAN, Harun ' «The rise and fall of Mogadishu's islamic
courts». Londres: Chatham House, Abril de 2007; SAMATAR, Abdi ismail '
«Briefings: the miracle of Mogadishu». in Review of African Political economy.
N.º 109, 2006, pp. 581-587.
27ROBINSON, David ' Muslim societies in African History. Nova York: Cambridge
University press, 2004, p. 197.
28INTERNATIONALCRISIS GROUP ' «Somalia's divided islamists», p. 16.
29Os ataques suicidas bombistas de Outubro de 2008 levados a cabo
simultaneamente em Hargeisa (Somalilândia) e em Bossaso (Puntlândia) chamaram a
atenção para a capacidade da Al-shabaab de mobilização e de recrutamento de
mujahidinestrangeiros para a Somália pela descoberta, entre os autores dos
atentados, de cidadãos americanos de origem somali dando confirmação à inserção
da jihadsomali na jihadglobal com ligações à Al-qaida.
30A campanha teve início no vale de Jubba nos finais de 2008 e em Março de
2010. Uma campanha renovada de destruição dos túmulos e lugares de culto dos
santos sufistas a norte de Mogadíscio causou indignação e protestos por parte
de vários segmentos da sociedade somali, levando à aparição do termo pejorativo
de «escavadores de sepulturas» para designar al-shabaab. em adição, a criação
de um departamento anti-idolatria por Al-shabaab revela que esta estratégia
permanece central para a organização e se insere na tendência mais ampla
salafita (com ancoragem inicial no movimento wahabita que se caracteriza por
exortar os seus seguidores a rejeitar a veneração excessiva dos túmulos de
santos) (in ROBINSON, David ' Muslim societies in African History, p. 102).
31Entre Maio e Outubro de 2009, estima--se que as hostilidades tenham provocado
150 mortos e 57 mil deslocados. O número total de deslocados na Somália perfaz
1,5 milhões.
32Estamos a referir-nos aos ataques em Agosto de 1998 contra as embaixadas dos
estados Unidos em Nairobi (Quénia) e Dar es Salam (Tanzânia) que resultaram no
caso de Nairobi em 213 mortos (entre os quais 14 cidadãos americanos) e 4500
feridos e no caso de Dar es Aalam balanço da explosão foi de 11 mortos e 85
feridos. Na segunda ocorrência, em Outubro de 2000, uma lancha armadilhada
explodiu contra o destroyer USS Cole, da marinha dos Estados Unidos, ao largo
do Iémen, originando 17 mortos e 39 feridos. dois elementos da AIAI e que,
posteriormente, assumiram protagonismo no CTI e no Hizb islam Hassan Dahir
Aweys e «Hassan turki» (o líder da facção Ras Kamboni) foram designados
terroristas pelos estados Unidos, ordem 13224, e pela resolução do conselho de
segurança das Nações Unidas 1267 pelas suas ligações à Alqaida.
33Inclusive junto do subclã Habr Gidir/Ayr anteriormente associado aos
islamistas extremistas da shurano CTI.
34ROBINSON, David ' Muslim societies in african History, p. 101.
35INTERNATIONAL CRISIS GROUP ' «Somalia's divided islamists», p. 14.
36Tanto o encarregado pelas relações externas da AsWJ, sheikh bashir Adbi Olad,
como «Abu Zakariya» consideraram o acordo como uma traição e alertaram que tal
acordo conduzirá à desintegração da ASWJ; INTERNATIONAL CRISIS GROUP '
«Somalia's divided islamists», p. 14.
37ROBINSON, David ' Muslim societies in african History, p. 207.
38INTERNATIONAL CRISIS GROUP ' «Somalia's divided islamists», p. 11.
39
ibidem.
40
GUNNING, Jeroen (eds.) ' Critical terrorism studies: a new Research agenda, p.
160.
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