Alemanha & União Europeia
Alemanha & União Europeia
Patrícia Daehnhardt
Doutorada em Relações Internacionais pela London School of Economics.
Professora de Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Humanas e
Sociais da Universidade Lusíada. Investigadora do IPRI– UNL.
Mary Elise Sarotte, 1989: The Struggle to Create Post-Cold War Europe
Princeton, Princeton University Press, 2009, 321 pp.
No ano em que se comemoraram os vinte anos da queda do Muro de Berlim, as
publicações sobre a história da unificação alemã foram profícuas. Uma das
melhores é a de Mary Elise Sarotte, professora de Relações Internacionais na
Universidade de Southern California. Historiadora de formação, apresentou um
estudo crítico sobre o ano crucial de 1989, como o início da unificação alemã e
da ordem do pós-Guerra Fria, a partir de fontes primárias e acesso a documentos
recentemente disponibilizados em vários arquivos. 1989 representa uma adição
importante aos três livros que até agora constituíam o essencial da história da
unificação alemã: Philip Zelikow e Condoleezza Rice, Germany Unified and Europe
Transformed, Frank Elbe e Richard Kiessler, A Round Table with Sharp Corners:
The Diplomatic Path to German Unity,ambos de 1996, e Robert Hutchings, American
diplomacy and the end of the cold war, de 1997.
A interrogação inicial de Sarotte centra-se à volta da seguinte questão: porque
é que, perante o cenário de mudança, os Estados Unidos e a Alemanha Federal
optaram pelo modelo de ordem prevalente e a manutenção das instituições
existentes na construção da ordem europeia no pós-Guerra Fria? A razão prende-
se com três factores: em primeiro lugar, o papel do chanceler Helmut Kohl, «o
líder mais importante na construção da Europa do pós-Guerra Fria», a quem
atribui sagacidade táctica, ao aproveitar assertivamente a oportunidade
histórica para pressionar uma conclusão rápida da unificação. Em segundo lugar,
o apoio da administração de George Bush, que desde cedo insistiu na condição de
que as Alemanhas só se poderiam tornar uma se a nato permanecesse a aliança de
defesa principal da Alemanha. Por último, o papel de Mikhail Gorbachev, que
Sarotte considera fraco devido à falta de pensamento estratégico no processo
negocial da unificação.
Gorbachev poderia ter insistido, afirma Sarotte, desde logo, que a União
Soviética só aceitaria uma Alemanha unificada se esta participasse nas novas
estruturas pan-europeias por ele propostas, e se o Ocidente lhe desse uma
garantia, por escrito, de que a nato não se alargaria institucionalmente para
Leste. Este último ponto insere-se numa polémica recente nas relações entre a
Rússia e o Ocidente. Na sua oposição ao alargamento da nato até às suas
fronteiras, a Rússia tem vindo a afirmar que o Ocidente teria prometido a
Gorbachev, entre Novembro de 1989 e a Primavera de 1990, que a nato não se
alargaria institucionalmente para Leste de todo o continente europeu, o que não
se verificou. A Alemanha e os Estados Unidos ganharam a competição pelo domínio
da ordem do pós-Guerra Fria, e o legado da sua vitória ainda produz
consequências profundas hoje em dia. Uma delas, a autora conclui com uma nota
pessimista, é a de que «a oportunidade de estabelecer uma cooperação duradoura
com a liderança russa, num momento raro de abertura desta, mesmo que de
fraqueza, perdeu-se, e não irá voltar tão cedo».
Frédéric Bozo, Marie-Pierre Rey, N. Piers Ludlow and Leopoldo Nuti (eds.),
Europe and the End of the Cold War: A Reappraisal
Londres, Routledge, 2008, 256 pp.
Se Sarotte apresenta um estudo centrado essencialmente nas posições dos Estados
Unidos, a União Soviética e a República Federal da Alemanha, a obra de Frédéric
Bozo, Marie-Pierre Rey, N. Piers Ludlow e Leopoldo Nuti trata da posição dos
vários actores e países europeus envolvidos. O livro tem o mérito de reunir
autores de países e perspectivas académicas diferentes, o que permite uma
análise mais completa nas suas dimensões política, social, económica, histórica
e cultural. Consequentemente, a obra debruça-se sobre a importância das
mudanças e dos processos envolvidos no continente europeu, o que, em si mesmo,
é revelador da futura ordem europeia pós-bipolar.
O acesso a novos arquivos e documentos permite a «reavaliação» da política
europeia no final da Guerra Fria e a afirmação de argumentos menos
convencionais. Contrariamente à visão estabelecida, a França e a Grã-Bretanha
não se opuseram à unificação alemã. Como mostra Bozo, a política da França,
inicialmente cautelosa, alterou-se e foi paradoxalmente europeísta já que o que
a motivou ' o receio do aumento do poder da Alemanha ' acelerou o processo de
integração europeia, com o Tratado de Maastricht. Também Jacques Lévesque fala
nas reticências europeias, mas afirma que na Grã-Bretanha quem se opôs
veementemente à unificação foi apenas a primeira-ministra, Margaret Thatcher, e
não o Foreign Office. Robert Hutchings desenvolve o papel crucial dos Estados
Unidos na insistência da adesão da Alemanha unificada à nato. Hannes Adomeit
explica as negociações que levaram ao consentimento de Gorbachev para uma
Alemanha unida, membro da nato. Michael Cox, Helga Haftendorn e Jolyon Howorth
contextualizam o tema a partir da questão da vitória na Guerra Fria, a
interligação entre a unificação alemã e a integração europeia, e a relação
entre a nato e a União Europeia decorrentes do fim da Guerra Fria. Um conjunto
de autores que abordam o tema da perspectiva da Polónia, da Hungria e dos
países bálticos completa esta obra abrangente que, partindo da unificação
alemã, é, acima de tudo, uma história da integração europeia neste período
crucial.
Paolo Graziano e Maarten P. Vink (eds.), Europeanization: New Research Agendas
Nova York, Palgrave Macmillan, 2008, 419 pp.
Inserindo-se na crescente popularidade do conceito de Europeanizationa que se
tem assistido na última década, o volume editado por Paolo Graziano e Maarten
Vink tenta, ao mesmo tempo, afirmar-se contra o que os editores esperam não ser
uma moda nos estudos europeus. A obra, que inclui capítulos por autores
conceituados como Tanja Börzel, Simon Bulmer, James Caporaso, Kenneth Dyson,
Klaus Goetz, Claudio Radaelli, Frank Schimmelfennig e Reuben Wong, entre
outros, faz uma análise crítica do estado da arte dos estudos de europeização.
O livro está dividido entre uma primeira parte sobre teoria e métodos, uma
segunda sobre política e polity, e a terceira com dez capítulos sobre políticas
europeias específicas.
Graziano e Vink argumentam que após uma década de investigação dedicada a
delimitações conceptuais e construções analíticas ocorreu uma «viragem
empírica» nos estudos da europeização, o que justifica as novas research
agendas, mais motivadas pelas dinâmicas de mudança e sustentadas por novos
puzzles empíricos. A maioria dos autores do volume define a europeização como
um «processo de adaptação doméstica interna à integração regional europeia» e
analisa de que forma é que a integração europeia, através de políticas, regras
e normas, penetra (feeds back) os sistemas políticos nacionais. O resultado é
uma análise empírica do impacto que a integração europeia tem produzido nos
sistemas políticos internos dos estados-membros, em termos de convergência e
divergência, e através da conceptualização do downloading (abordagem que parte
das políticas europeias e estuda o seu impacto sobre o sistema interno) e do
uploading(abordagem que parte dos actores internos dos estados e estuda o
impacto destes na entidade europeia e a forma como reverte novamente a nível
interno).
A europeização não deve, contudo, ser confundida com a convergência ou
harmonização inevitável entre o nível interno e o nível europeu, já que as
diferenças existentes entre o processo e as suas consequências podem produzir
tanto a convergência como a divergência no grau de adaptação das diferentes
políticas. Por último, os autores não restringem o conceito de europeização ao
impacto da União Europeia e sugerem a aplicação dos instrumentos metodológicos
ao estudo de outros exemplos de integração regional, como a asean, o Mercosul e
a União Africana. Para quem estuda a problemática da europeização, tanto
exclusivamente no contexto da União Europeia, como numa perspectiva mais ampla
de integração regional, este livro é um valioso contributo para a consolidação
da problemática da europeização nos estudos europeus.
Helmut Schmidt e Fritz Stern, Unser Jahrhundert
Munique, C. H. Beck, 2010, 287 pp.
Este livro, apenas disponível por enquanto em língua alemã, faz as delícias de
quem se interessa pelas relações entre as grandes potências e pela política
mundial actual, sempre com um olhar atento à história. Helmut Schmidt e Fritz
Stern, dois observadores astutos da realidade que os rodeia, e que se conhecem
há mais de três décadas, reuniram-se, durante três dias, em Hamburgo, no Verão
de 2009, para discutirem questões de política e história internacionais. O
resultado feliz foi Unser Jahrhundert («O Nosso Século»), uma troca de ideias
inteligente e refrescante.
Trata-se de um diálogo, por vezes discordante, mas sincero, entre duas pessoas
que nasceram muito antes da II Guerra Mundial e que testemunharam as
turbulências do século xx. Schmidt foi chanceler da República Federal da
Alemanha na segunda metade da década de 1970, e é, até hoje, o elder statesman
mais respeitado e ouvido na Alemanha. Stern fez uma carreira académica
brilhante na Universidade de Columbia, em Nova York, onde leccionou a História
da Europa, com ênfase na história do judaísmo e no papel da Alemanha, de onde
emigrara em 1938.
Com uma frontalidade tranquila de quem já não tem que prestar contas a ninguém,
o diálogo entre Schmidt e Stern é fluido e percorre, sem esforço, considerações
sobre as diplomacias e personalidades políticas da Alemanha, dos Estados
Unidos, de Israel, ao mesmo tempo que toca temas históricos relacionando-os com
a actualidade, como as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria, o fim da urss e a
ascensão da China. Muitos dos diálogos circulam em volta da questão que se
tornou a pedra angular da carreira académica de Stern: como foi possível o
Holocausto, e qual a responsabilidade alemã perante os judeus e perante Israel?
Schmidt não evade a questão. Trata-se de um livro com argumentos bem
articulados, que nos transporta para o Zeitgeistde diferentes épocas e nos
convida a ler e reler o raciocínio destes dois grandes pensadores. Mais
decisivamente, é um diálogo não pretensioso que nos estimula a pensar e a
consolidar a nossa própria visão sobre os grandes acontecimentos do século xx e
da primeira década do século xxi. Resta desejar que este testemunho seja
publicado em português.
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