«Será que verei Lisboa?» Peregrinações de franceses no Processo Revolucionário
em Curso
Entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, o processo
revolucionário que ocorria em Portugal suscitou um interesse invulgar em
França. Os meios de comunicação social, que até ao 25 de Abril de 1974 pouco
interesse demonstravam por Portugal, passariam a cobrir pormenorizadamente os
acontecimentos portugueses. Centenas de franceses vieram a Portugal, sobretudo
a Lisboa, para conhecer a Revolução, vivê-la e participar nela. O auge desta
atenção surgiu entre o 11 de Março de 1975 e Setembro do mesmo ano. Acabados o
Verão e as férias, e Vasco Gonçalves já não sendo primeiro-ministro, a
mediatização do PREC em França e as vindas de franceses diminuem. A 15 de
Setembro de 1975, nas suas crónicas para o semanário socialista L'Unité,
François Mitterrand notava que «Portugal está em descida de nível nas margens
da imprensa audiovisual»[1]. É então entre Março e Setembro de 1975 que conflui
em Lisboa o maior número de «peregrinos revolucionários». A maioria fica alguns
dias ou algumas semanas. Alguns fazem várias idas e vindas entre Lisboa e
Paris. Alguns irão mesmo residir vários meses em Portugal. Quem eram estes
peregrinos? Maioritariamente das várias sensibilidades da esquerda, eram
intelectuais (alguns dominantes no campo intelectual francês como Jean-Paul
Sartre, Alain Touraine, Jean-François Revel ou Jean Daniel), homens políticos
(como Pierre Mendès-France, François Mitterrand, Gaston Deferre, Antoine
Blanca, Lionel Jospin, Georges Marchais, Alain Krivine, Daniel Bensaïd),
sindicalistas, jornalistas, artistas, estudantes, militantes de grupos de
extrema-esquerda. Obviamente, alguns pertenciam a categorias que não eram
estanques.
Este artigo tentará descrever as modalidades da peregrinação revolucionária de
franceses a Portugal durante o PREC e compreender os diferentes motivos que
explicam este fenómeno singular nas relações entre Portugal e a França.
UMA REVOLUÇÃO ACOLHEDORA
Ao contrário da transição espanhola, verificou-se em Portugal uma ruptura
profunda com as instituições e o pessoal político e administrativo da ditadura
[2]. Depois do 25 de Abril de 1974, de um dia para o outro, não apenas os
exilados puderam voltar a Portugal como também estrangeiros que até então
teriam sido expulsos na fronteira (nos aeroportos sobretudo). Até ao 25 de
Abril de 1974, a polícia política, que vigiava as fronteiras (a entrada,
permanência e estada de estrangeiros em Portugal)[3], impedia a entrada da
maioria dos estrangeiros cuja opinião política era contrária ao Estado Novo. Os
estrangeiros que, em Portugal, manifestavam opiniões públicas julgadas
inconvenientes pelas autoridades eram expulsos imediatamente. Foi o caso do
coreógrafo Maurice Béjart, em Junho de 1968, depois de ter pedido ao público do
Coliseu de Lisboa um minuto de silêncio em memória de Robert Kennedy,
assassinado dois dias antes, e «contra todas as formas de violência e de
ditadura»[4]. Assim, se muitos franceses vieram para Portugal, foi porque as
barreiras que existiam antes do 25 de Abril de 1974 desapareceram. Indivíduos
que não queriam visitar um país dominado por uma ditadura poderiam doravante
vir. Alguns acompanharam antigos exilados ou emigrantes que voltavam para
Portugal, caso de Rui Cabeçadas que regressou a Portugal a 30 de Abril de 1974
com o casal Gervais-Marx[5].
Em 1974 e 1975, registou-se também em Portugal uma crise do Estado[6]. As
instituições que constituíam o Estado não colaboravam, o poder estava
fragmentado entre várias entidades antagonistas, parte da população não acatava
as ordens consideradas ilegítimas, a polícia, conotada com o regime ditatorial,
quase não intervinha. Em suma, o Estado quase não funcionava. Esta crise do
Estado levou a que o controlo da entrada e a estada de estrangeiros no País
fosse reduzido. Os estrangeiros podiam ficar em Portugal, e por vezes
irregularmente, sem temer a expulsão ou a monitorização da sua presença pelas
instituições estatais. Primeiro, a Polícia Judiciária, que herdou as
atribuições da Direcção-Geral de Segurança em Abril de 1974; depois a psp que
recebeu estes mesmos poderes em Maio de 1974; e, por fim, a direcção do Serviço
de Estrangeiros, criada em Novembro de 1974, não tinham o «poder infra-
estrutural»[7] para fiscalizarem a presença de estrangeiros no País. Nesta
perspectiva, no processo de «recuperação da capacidade coercitiva do Estado»
[8], processo que se inicia em Setembro de 1975 e se reforça com o 25 de
Novembro de 1975, as autoridades tentaram fazer respeitar a legislação sobre a
estada dos estrangeiros em território português e expulsar estrangeiros
considerados indesejáveis. Um despacho do ministro da Administração Interna,
datado do 28 de Outubro de 1975, estabeleceu «algumas condições para uma maior
eficácia no controlo de estrangeiros, cujas actividades, especialmente
políticas, são causa de grandes preocupações»[9]. Um relatório do Serviço de
Estrangeiros, de 1977, notava que as
«transformações políticas operadas em Portugal que abriram
oportunidades de fixação a nacionais de outros países, perseguidos
políticos, criaram um novo tipo de população que transporta consigo
traumatismos diversos, reivindicações e um desejo de afirmação das
suas opiniões políticas [ ]. As transformações políticas já referidas
[ ] ofereceram condições favoráveis ao desenvolvimento de actividades
contrárias aos interesses nacionais, umas de carácter político outras
de natureza económica ' especulativa, com feição criminosa»[10].
O fim da crise do Estado português fez emergir de novo uma pensée d'Etat sobre
o estrangeiro tido como indesejável, como fonte de desordem pública, e ameaça à
estabilidade política, económica ou social[11]. Ora, no período revolucionário,
a presença de estrangeiros, que não fossem «simples» turistas, era desejada por
parte da população portuguesa. A Revolução portuguesa foi acolhedora para os
estrangeiros em geral e para os franceses em particular. Os milhares de
portugueses que viviam em França em 1974 convidaram para Portugal amigos de
trabalho, de militância, de estudo. Para estes exilados e emigrantes ser
português constituía uma mais-valia nas interacções sociais. Portugal já não
era automaticamente conotado com miséria, ditadura, guerra ou atraso. Pelo
contrário, Portugal parecia estar na vanguarda e era sinónimo de dinamismo e de
efervescência. Por isso, muitos portugueses tinham um certo orgulho em convidar
franceses a conhecerem o seu país. João Freire recorda os «entusiasmos
partilhados»[12] pela Revolução e as estadas em Portugal de amigos franceses,
«correndo atrás dos eventos políticos que se sucediam»[13]. Para alguns era
também uma forma de retribuição dos auxílios prestados no, muitas vezes,
difícil período do exílio[14]. Assim, em Outubro de 1974, Álvaro Cunhal convida
o secretário-geral do Partido Comunista Francês, Georges Marchais, ao 7.º
Congresso do Partido Comunista Português, em sinal da «profunda gratidão dos
comunistas portugueses para a solidariedade activa do Partido Comunista Francês
relativamente aos comunistas, à classe operária e ao povo de Portugal, ao longo
dos anos negros da ditadura fascista»[15].
Os próprios membros do Governo Provisório português convidaram individualidades
para virem a Portugal e aí dar conselhos. Assim, em Setembro de 1974, José da
Silva Lopes, ministro das Finanças, convidou, em nome do Governo português, o
antigo presidente do Conselho francês e dirigente do psu, Pierre Mendès-France.
Para Silva Lopes, o antigo ministro da Economia francês podia guiar o Governo
português «na solução dos difíceis problemas que se colocam agora à economia
portuguesa»[16]. Devido a problemas de saúde, Mendès-France só veio a Lisboa em
Fevereiro de 1975. Ficou duas semanas e conversou com várias personalidades
portuguesas, pouco antes do 11 de Março de 1975 e das nacionalizações.
As várias formações partidárias presentes na fluida configuração política
também convidavam estrangeiros; algumas para obter recursos indispensáveis à
sua sobrevivência, outras para as suas estratégias de conquista do poder. Nos
congressos dos partidos que se foram multiplicando em 1974 e 1975 (muitos dos
quais realizados primeira vez), a presença de estrangeiros era uma forma de
obter um reconhecimento internacional, de filiar-se em famílias políticas
transnacionais e de facilitar a canalização de recursos. No primeiro congresso
do cds, no Porto, que foi cercado por elementos de extrema-esquerda, havia
militantes franceses do partido Republicains Indépendants, como Dominique
Bussereau, que preveniram o Presidente francês Valéry Giscard d'Estaing dos
acontecimentos[17]. O Partido Socialista português, que organizou o seu
primeiro congresso legal em Lisboa, entre 13 e 15 de Dezembro de 1974, também
convidou várias individualidades francesas entre as quais Robert Pontillon,
Lionel Jospin, Roger Fajardie e Antoine Blanca[18]. Em pleno Verão Quente,
pouco depois da saída dos ministros do Partido Socialista do IV Governo
Provisório e no mesmo dia da manifestação da Fonte Luminosa (19 de Julho), a
Associação António Sérgio acolhia numerosos intelectuais e homens políticos
franceses para debaterem os «problemas da construção do socialismo». Entre os
sessenta e oito convidados estavam Jacques Attali, Charles Bettelheim, Jean-
Pierre Chevènement, Jean-Pierre Cot, Régis Debray, Jean-Marie Domenach, Maurice
Duverger, Georges Friedman, Roger Garaudy, Gisèle Halimi, Edmond Maire, Pierre
Mendès France, Michel Rocard, Alain Touraine[19]. Embora nem todos
comparecessem, estes convites demonstram que os actores políticos portugueses
usaram os seus contactos com estrangeiros para reforçar as suas posições no
campo político português[20]. Num período em que denunciava a suposta intenção
do Partido Comunista Português em tomar o poder e impor um regime político
influenciado pelas democracias populares da Europa de Leste, com este convite a
intelectuais da esquerda não comunista europeia o Partido Socialista queria
inserir, profundamente, Portugal na Europa, isto é, favorecer a implantação de
uma democracia parlamentar. A proliferação das solidariedades europeias era uma
arma da luta que o Partido Socialista travava com o Partido Comunista
Português.
Alguns grupos de extrema-esquerda beneficiaram também da ajuda exterior, na
perspectiva do internacionalismo. Nas suas memórias, o dirigente do partido
trotskista Ligue Révolutionnaire Communiste (LCR), Alain Krivine, refere que
«no Verão de 1974 e até Novembro de 1975, centenas de militantes franceses (e
europeus), dentro dos quais militantes da Ligue e da IV Internacional,
residiram em Portugal. O seu primeiro objectivo era ajudar a Liga Comunista
Internacionalista, organização irmã da Ligue em Portugal»[21]. Um dos
militantes da LCR, Gérard Filoche, recorda que «milhares de páginas foram
escritas dia após dia para comentar, participar, seguir, ajudar, aconselhar e
influenciar os militantes que actuavam em Portugal»[22]. Esta solidariedade
resultava também das sociabilidades criadas em França, onde milhares de
portugueses pertenciam a uma miríade de grupos de extrema-esquerda portugueses
mas também franceses. A vinda de militantes franceses para Portugal traduzia
muitas vezes a sequência de lutas iniciadas antes do 25 de Abril.
APROPRIAÇÕES
Para entender o interesse francês na Revolução portuguesa deve-se, contudo,
estudar o campo intelectual e político francês que, nas décadas de 1960 e 1970,
vive sob a influência da «internacional das referências»[23]. O estrangeiro '
nos anos 1960, sobretudo o Vietname ' é omnipresente no campo intelectual e
político francês. Che Guevara, Fidel Castro, Mao e Ho Chi Minh são figuras que
se inserem nos imaginários e debates intelectuais e políticos[24]. Para a
esquerda, o combate contra o capitalismo e o imperialismo é mundial. Desta
forma, existe uma solidariedade com os povos e grupos oprimidos. A luta contra
a intervenção americana no Vietname e a solidariedade com o povo deste país
mobilizou parte da juventude francesa antes de Maio de 68. A solidariedade
contestatária que unia milhares de jovens europeus também se fazia através de
viagens: muitos estudantes estrangeiros vieram a França participar nos
acontecimentos de Maio de 68[25].
O interesse pela Revolução portuguesa resulta também da sua inserção numa
temporalidade peculiar do campo intelectual e político francês: o pós-Maio de
68, ou «os anos 68», que para alguns historiadores franceses representam uma
sequência que corre de 1962 até 1981[26]. A radicalização política e
intelectual que nasce para alguns com o investimento militante durante a Guerra
da Argélia, desemboca sobre uma vontade de mudança, de revolução. A extrema-
esquerda, dividida entre várias correntes, conhece um crescendo nos anos 1960 e
um apogeu entre os acontecimentos de Maio de 68 e 1971, ano marcado pela morte
do militante maoísta Pierre Overney, às portas da Renault, em Boulogne-
Billancourt. O PREC situa-se assim nos últimos anos da efervescência
esquerdista em França. Aliás, o 25 de Novembro de 1975 pode ser visto como um
dos marcos do refluxo esquerdista, os sonhos de revolução desaparecem. Com ele,
o fracasso da revolução socialista parece patente. Assim, Dominique Pouchin, um
dos enviados especiais do jornal Le Monde e antigo militante trotskista,
designará a Revolução portuguesa como o último evento «leninista»[27].
Nas memórias de intelectuais ou de militantes franceses, a Revolução portuguesa
é muitas vezes referida como um «outro Maio de 68». Danièle Gervais-Marx
escreve que Portugal viveu em 1974-1975 «uma espécie de Maio de 68
ininterrupto»[28]. Jean Daniel assinala que no conjunto daqueles que foram para
Portugal, havia os «herdeiros de Maio de 68»[29]. A Revolução dos Cravos é um
marco decisivo para a geração que esteve «na primeira linha dos actores de
Maio, ou estudantes ou que sentiram o seu efeito intelectual e político»[30].
Para aqueles que participaram nos eventos de Maio de 68, o que acontecia em
Portugal era uma repetição, a oportunidade de viver outra vez o que tinha
constituído um ponto alto nas suas existências. Para os que não viveram as
jornadas de Maio, os mais jovens, por exemplo, a Revolução portuguesa era uma
possibilidade de assistir ao que haviam falhado seis ou sete anos antes. Mas
como já foi referido, o 25 de Novembro de 1975 assinala o fim de um ciclo cujo
auge foi Maio de 68. Uma das biógrafas de Jean-Paul Sartre designa a Revolução
dos Cravos como «o último espasmo romântico revolucionário europeu»[31].
O LABORATÓRIO PORTUGUÊS
A romantização posterior à Revolução portuguesa não deve esconder que a
peregrinação política em Portugal foi objecto de um forte investimento
político. Muitos militantes que vinham a Portugal acreditavam no sucesso da
Revolução e queriam participar nesta façanha. Para Gérard Filoche, militante da
Ligue Communiste Révolutionnaire, o PREC era um «laboratório, o teste com as
dimensões reais, em directo, dos nossos debates em matéria de orientação
revolucionária»[32]. Filoche descreve o PREC nas páginas do jornal Rouge, tira
ilações sobre a Revolução com um R maiúsculo e debate com os outros grupos
franceses da extrema-esquerda[33]. No debate que existe em França sobre a
Revolução, a ruptura com o capitalismo, o poder popular, o controlo operário,
Portugal é um campo de intervenção e um campo de estudo. Os artigos e os livros
sobre a revolução portuguesa e sobre os caminhos da Revolução multiplicam-se
[34]. O interesse era tão evidente que muitas das experiências desenvolvidas em
Portugal eram influenciadas por intelectuais e políticos franceses.
Assim, Ernesto Melo Antunes confessou que as suas principais influências
políticas e económicas vinham de França, nomeadamente da deuxième gauche,
liderada por Michel Rocard no campo político, e pela CFDT no campo sindical,
que tentava «conciliar a ideia de socialismo com a necessidade de a desligar da
de colectivismo»[35]. Várias delegações da CFDT visitaram Portugal em 1974 e
1975. A Revolução foi o objecto de importantes debates no seio do sindicato
francês que via com interesse as tentativas de autogestão mas que temia a falta
de pluralidade sindical. Em Setembro de 1975, o Bureau National da CFDT
recapitulava alguns pontos essenciais: «não pode haver uma hierarquia entre
socialismo e liberdade»; «as transformações devem ser feitas pela maioria e não
por uma vanguarda»; «a emancipação da classe operária» não pode ser feita sem
um «sindicalismo construído livremente pelos trabalhadores nos lugares de
trabalho» e o pluralismo e a legitimidade eleitoral devem ser reconhecidos[36].
O ESPELHO PORTUGUÊS
Porém, o interesse manifestado por Portugal era muitas vezes meramente
instrumental. Nem sempre o que interessava era Portugal em si próprio, mas o
uso de Portugal nos debates internos do campo intelectual e/ou político
francês. Como sublinha Jean-François Sirinelli, «é também uma constante da vida
política francesa durante todo o nosso século [xx] repercutir num eco franco-
francês os tremores e os confrontos exteriores»[37]. Quais foram as
controvérsias em que a Revolução portuguesa se inseriu? Sem querer ser
exaustivo, podemos distinguir três.
Na primeira, digladiavam-se as várias correntes da extrema-esquerda que a
partir da Revolução portuguesa queriam compreender os caminhos que conduziam ao
sucesso da Revolução. Os acontecimentos portugueses trouxeram à tona várias
perguntas. A extrema-esquerda deveria aliar-se ao Partido Comunista? Deveria
apoiar-se nas Forças Armadas? Deveria favorecer-se o poder popular? Para muitos
militantes da extrema-esquerda, o sucesso da Revolução era uma certeza. Maio de
68 tinha sido um ensaio geral, e a Revolução portuguesa iniciaria um efeito
dominó: todos os países da Europa do Sul e a Europa no seu todo conheceriam
também um movimento revolucionário. Como analisou um dos dirigentes da Ligue
Communiste Révolutionnaire, Alain Krivine, «muitos militantes da esquerda
radical esperavam que o desmoronamento das ditaduras espanhola e portuguesa
provocaria um movimento de contestação que alimentaria uns e outros»[38].
O segundo debate em que foi inscrita a Revolução portuguesa foi a aliança entre
partidos socialistas e partidos comunistas. Em França, muitas vezes se
confundia François Mitterrand com Mário Soares, Georges Marchais com Álvaro
Cunhal. Em 1972, o Partido Socialista francês, liderado por François
Mitterrand, e o Partido Comunista, cujo secretário-geral era Georges Marchais,
assinaram o programa comum e iniciaram a união da esquerda. Porém esta união
não estava isenta de segundas intenções e de desentendimentos. Para muitos
observadores, a união da esquerda foi usada por François Mitterrand para
conquistar a predominância à esquerda à custa do Partido Comunista. Apesar do
acordo, registaram-se vários desacatos entre os dois partidos, alguns deles
suscitados pelos acontecimentos portugueses. Alex MacLeod sublinha a importação
da Revolução portuguesa no debate entre o PCF e o PSF:
«é através dum prisma bem francês que o Partido Comunista Francês e o
Partido Socialista olham agora para Portugal. Quando os comunistas
franceses acusam Mário Soares de querer reduzir o PCP ao papel de uma
força complementar, dirigem-se a François Mitterrand e ao seu próprio
eleitorado para os informarem de que não perderam nada da sua
tenacidade e que as coisas não ocorreriam da mesma forma em França.
Por seu lado, o Partido Socialista vê no Partido Socialista Português
o exemplo de um partido irmão que enfrenta, com sucesso, as pressões
de um Partido Comunista Português particularmente tenaz.»[39]
A Revolução portuguesa podia assim comprometer a união da esquerda em França e
dar argumentos à direita que atacava o Partido Socialista por aliar-se com o
Partido Comunista. Ela podia também fragilizar ainda mais a posição do Partido
Socialista Francês na Internacional Socialista. Com efeito, esta organização
era dominada pelas social-democracias alemã, sueca e austríaca que recusavam a
colaboração com partidos comunistas[40]. Ora, com a ajuda do partido de
François Mitterrand, o Partido Socialista e o Partido Comunista Português
tinham assinado um contrato político em 1973. Para o Partido Socialista
Francês, este contrato político permitia o alargamento das teses que defendia.
Exportando a sua estratégia, o Partido Socialista Francês esperava liderar um
socialismo da Europa do Sul. Porém, os desentendimentos entre socialistas e
comunistas portugueses, começando com o assunto da organização sindical,
prosseguindo com o caso República e nos confrontos do Verão Quente, davam razão
à social-democracia e enfraqueciam a estratégia de Mitterrand. No entanto,
tanto o Partido Comunista Francês como o Partido Socialista Francês tentaram
controlar os desacatos suscitados pelos eventos portugueses. E isto apesar de
cada partido francês apoiar incondicionalmente o seu homólogo português.
O principal casus belli português que foi importado em França e que ameaçou as
relações entre os dois principais partidos da esquerda francesa foi o caso
República. A perda de controlo pelos socialistas do jornal punha o problema do
socialismo e da liberdade de expressão. Mário Soares deu um relevo especial ao
caso e favoreceu a sua instrumentalização internacional. A repercussão em
França foi importante. A 23 de Junho de 1975, um jornal francês, o Quotidien de
Paris, chegou a publicar uma tiragem do República no qual se encontrava um
artigo, falsamente atribuído ao dirigente soviético Boris Ponomarev, que
relatava a estratégia comunista de tomada de poder em Portugal. Não foi difícil
ao PCF provar que este artigo era falso e que, usando o caso República, a
«direita» queria enfraquecer a união da esquerda. No entanto, houve algumas
disputas sobre o jornal português entre, por um lado, Claude Estier e François
Mitterrand, e, por outro, Georges Marchais e Pierre Laurent.
No Verão Quente, com os assaltos às sedes do PCP e agressões de militantes
comunistas[41], houve também um importante debate em França em torno do
anticomunismo e da possibilidade de uma união entre partidos socialistas e
comunistas. O PCP criticava o PSF por não denunciar as violências
anticomunistas. O PSF, que apoiava Mário Soares, realçava o comportamento
antidemocrático do PCP. Jean Daniel, director do Nouvel Observateur, semanário
de esquerda que tinha uma certa influência em Portugal, nomeadamente junto de
Mário Soares e de Melo Antunes, participou activamente neste debate. Jean
Daniel veio várias vezes a Portugal depois do 25 de Abril, encontrando-se com
Mário Soares e alguns oficiais do MFA. Por ocasião do caso República, defendeu
a liberdade de expressão e criticou Georges Séguy, secretário da CGT, que via
neste caso um simples conflito de trabalho. Em Agosto de 1975, Jean Daniel, nas
páginas do Nouvel Observateur atacava o PCP e a «sua lógica bolchevique
implicando a eliminação dos outros partidos operários»[42], justificando a
aliança do psp com a direita para impedir uma ditadura comunista. Este artigo
valeu-lhe uma dura resposta do jornal do PCF, L'Humanité, que argumentava que
Daniel legitimava massacres anticomunistas. Parte da esquerda não comunista,
casos de François Mitterrand, Michel Rocard, Edmond Maire, apoia Jean Daniel
perante o ataque do PCF. Contudo, os dirigentes dos dois principais partidos da
esquerda francesa tentam limitar as consequências dos eventos portugueses no
seu relacionamento. Assim, a 13 de Agosto de 1975, o PSF, o PCF e o Mouvement
des Radicaux de Gauche assinam um comunicado apelando «à aproximação e
cooperação das forças democráticas e progressistas em Portugal»[43].
Por fim, a Revolução portuguesa constituiu-se como mais um episódio da oposição
entre dois dos principais intelectuais franceses do século xx: Raymond Aron e
Jean-Paul Sartre. Raymond Aron, «ao invés de muitos intelectuais, não fez a
peregrinação a Lisboa»[44]. Todavia, acolheu com «alegria a Revolução dos
Cravos»[45], apoiou o Partido Socialista de Mário Soares e alarmou-se nas
colunas do Figaro da deriva ditatorial do MFA e do PCP. Antes de tudo, Aron
defendeu a democracia liberal. Já Sartre, não querendo contentar-se com relatos
indirectos e querendo ver Lisboa, veio a Lisboa pouco depois do 11 de Março de
1975, de 23 de Março a 6 de Abril de 1975. Acompanhado de Simone de Beauvoir,
que já tinha vindo a Portugal em 1945[46], e do seu secretário Benny Lévy[47],
Sartre, ficou hospedado no Hotel Mundial, visitou os principais lugares da
radicalização do PREC, nomeadamente o RAL 1 onde, segundo Hervé Hamon e Patrick
Rotman, é acolhido como o «messias»[48] e é fotografado com uma G3 na mão.
Sartre também dá algumas conferências e visita fábricas em autogestão. Num
diálogo com Simone de Beauvoir, Pierre Victor, Philippe Gavi e Serge July,
Sartre confia ao jornal Libération as suas impressões face a esta revolução
inédita e original. Pouco antes do 25 de Abril de 1975, Sartre demonstra a sua
desconfiança perante o acto eleitoral:
«Penso que o que é essencial é o poder popular que está a formar-se.
Esta assembleia não me inspira confiança: os partidos não colam a um
movimento popular que pediria qualquer coisa. Os partidos em Portugal
representam uma espécie de ligação estranha que não corresponde a
nada. As fábricas em autogestão, por exemplo, são uma manifestação de
massa muito mais entendida pelas Forças Armadas que pelos partidos
que se opuseram a elas.»[49]
Como sabemos, Sartre sempre demonstrou uma hostilidade perante a democracia
parlamentar. Em 1973, publicou um artigo com o título sugestivo: «Élections
piège à com»[50]. Esta desconfiança perante a democracia parlamentar e as
eleições explica a desilusão de muitos intelectuais franceses depois do 25 de
Novembro de 1975. Para muitos, depois desta data, não há nada a esperar de
Portugal. Por isso, como ironizava Raymond Aron, «Portugal, primeiro,
socialista segundo Mário Soares, depois moderado, deixou de figurar na primeira
página dos jornais europeus. Ninguém se preocuparia com Cuba se Fidel Castro
tivesse criado uma democracia representativa e pluralista, pró-ocidental»[51].
UM KATMANDU EUROPEU
As viagens de franceses a Portugal inscrevem-se numa outra faceta do legado de
Maio de 68: o esquerdismo cultural[52]. Para muitos jovens da classe média, a
viagem é um acto político que exprime uma vontade de cortar com o conforto da
sociedade capitalista, um desejo de conhecer-se a si próprio mas também
conhecer novas culturas, novas formas de viver e novos horizontes[53]. Portugal
inseria-se nas partidas para os países longínquos do Terceiro Mundo. De certo
modo, Portugal parecia ser a réplica da Revolução cubana de 1959. Ali se
encontra a revolução, o sol, um ambiente festivo[54]. Sinal da semelhança entre
as duas revoluções: Sartre e Beauvoir visitaram ambas. Mas, ao contrário de
Cuba, a vinda a Portugal estava nas possibilidades financeiras de um maior
número de franceses. Pode vir-se para Portugal de avião, de comboio, de
carro... Os voos charter que se multiplicam nesta época permitam aos estudantes
vir de forma económica para Portugal. E o facto de Portugal ser abandonado
pelos turistas «tradicionais», que preferem a ordem, constituiu um incentivo
suplementar para muitos franceses. Com efeito, uma prática das viagens que se
desenvolveu nos anos 1960 e 1970 pretendia romper com o turismo de massas.
Alguns não queriam ser associados a «simples» turistas, pretendiam fugir das
massas e das viagens organizadas[55]. Para aqueles que procuravam a distinção,
Portugal é então o destino ideal como o comprova um artigo do Primeiro de
Janeiro, a 19 de Março de 1975:
«os franceses, que tradicionalmente desprezavam as atracções
turísticas de outros países, estão este ano vivamente interessados em
visitar Portugal, exactamente por causa da transformação política que
se opera. Os agentes de viagens de Paris dizem que numerosas
organizações de esquerda, que detestavam o anterior regime português,
pretendem agora organizar excursões para observar in loco o que se
passa em Portugal.»[56]
A proximidade de Portugal e o custo acessível da viagem fazem então da viagem a
Portugal um evento particular no conjunto das várias peregrinações políticas do
século xx[57]. É possível a um cada vez maior número de pessoas deslocarem-se a
Portugal do que viajar até Cuba, à União Soviética ou à China. Assim, em
Portugal convergiram milhares de pessoas que relacionam política, lazer,
descoberta de novas culturas e procuram novos encontros, num ambiente próximo
do Maio de 68. Um dos expoentes desta nova forma de encarar a viagem, o Guide
du Routard, criado em 1973, começa em 1977 a apresentar Portugal como destino.
O guia convidava os turistas a rumar a Portugal e «verificar que ali se respira
bem a liberdade»[58]. Na autobiografia de um dos criadores do guia, Philippe
Gloaguen, a viagem a Portugal, nos anos 1974-1975, era apontada como o destino
incontornável dos «globe-trotters da Internacional»[59]. Segundo Catherine
Bertho-Lavenir, o Guide du Routard continha em si o paradoxo do suposto «novo
turista» que nasce nos anos 1960-1970: o turista que não quer ser considerado
como um turista mas para o qual «se organiza em massa viagens longe das massas»
[60]. Assim são com voos charter, símbolos da massificação do turismo, que
afluem a Lisboa peregrinos revolucionários. E, muitas vezes, é em grupo que
viajam os turistas revolucionários porque a militância nos grupos de extrema-
esquerda implicava muitas vezes um fenómeno de agregação em grupos onde não se
separava política e lazer. A militância era uma actividade a tempo inteiro e o
lazer, passado com os camaradas, fortalecia o habitus militante[61]. Jean-
Christophe Cambadélis, na altura militante do grupo trotskista Alliance des
Jeunes pour le Socialisme, relembra que «se organizou um verdadeiro tour-
révolution. Partia-se [ ] para visitar a Revolução na Europa, com passagem
obrigatória pelos estaleiros, lugar tão mítico como as fábricas Poutilov na
Revolução Russa»[62].
Estes peregrinos revolucionários foram alvo das críticas que vinham tanto da
esquerda como da direita. Jacques Frémontier, militante do PCF, denegriria
estes turistas num livro traduzido em português por José Saramago. Frémontier
retratava assim um dia desses turistas:
«às onze horas da manhã visitam de rompante uma creche popular.
Almoçam no restaurante autogerido pelo Ritz, depois dão um salto à
LUARou ao PRP-BR antes de tomarem o barco para Cacilhas, a caminho da
clínica revolucionária. Pelas oito horas da noite, desfilam, de punho
no ar, pelo Rossio, agitam bandeirolas em holandês ou em dinamarquês,
depois de um último copo na esplanada da Pastelaria Suíça, vão jantar
ao Bairro Alto com um guevarista de farda camuflada. Bebem vinho
verde até ao amanhecer, deplorando amargamente que a revolução
portuguesa não se tenha preocupado também em libertar os desejos...
Conheço mesmo um grupo esquerdista italiano que afretou três
Boeings... Felizes sonhadores, infelizes retóricos, que vêm ' pelo
preço de um charter' observar os leões na sua jaula... Receio muito
que este exotismo nada mais lhes revele que os seus próprios
fantasmas!»[63]
Esta crítica surge na continuidade da oposição do Partido Comunista, tanto
francês como português, à extrema-esquerda nos dois países. Para os partidos
comunistas, a extrema-esquerda era um perigo para a Revolução e um inimigo da
classe operária. A 31 de Maio de 1974, Yves Moreau, no L'Humanité, considerava
que os esquerdistas portugueses eram «o instrumento sonhado da reacção»[64] e
faziam o jogo das forças reaccionárias.
Esta ironia sobre a dimensão festiva e libertária da peregrinação
revolucionária em Portugal foi também expressa nos jornais de direita. Para o
jornal L'Aurore, favorável ao Estado Novo e oposto ao 25 de Abril, «Lisboa
tornou-se o Katmandu do esquerdismo». Num artigo publicado a 28 de Julho de
1975, a ligação entre a revolução portuguesa e o Maio de 68 era claramente
estabelecida: «Desde que Lisboa se tornou na Katmandu do esquerdismo, esta
praça do Rossio, onde domina o soberbo Dom Pedro IV, assemelha-se com o pátio
da Sorbonne em Maio de 68.»[65]
Uma outra particularidade distinguia a peregrinação política para Portugal nos
anos 1974-1975 das outras que existiram no século xx: ela não era organizada
por um regime que pretendia promover-se interna e externamente e controlar a
movimentação dos peregrinos, deixando ver o que lhe convinha. O Estado Novo
tinha organizado este tipo de viagens, convidando intelectuais de direita,
organizando as suas estadas e esperando que, numa contradádiva, os viajantes
escrevessem artigos laudatórios sobre Portugal. Estes artigos alimentariam a
propaganda desenvolvida no exterior. Eles também serviriam de legitimação ao
regime: se os estrangeiros elogiavam o Governo português, era porque ele era
mesmo eficiente[66]. Em 1974-1975, não se verificou o mesmo processo porque o
poder estava fragmentado. O que aconteceu foi que vários grupos convidaram
pessoas e lhes mostraram o Portugal que queriam mostrar, esperando que lhes
prestassem ajuda. Além disso, não se vinha a Portugal ver uma obra já feita mas
um processo em evolução constante. Portugal situa-se assim a meio caminho entre
a viagem revolucionária e militante do século xx e uma tradição mais recente,
no seu aspecto maciço, da descoberta de outros mundos e culturas promovida pelo
esquerdismo cultural.
CONCLUSÃO
A peregrinação revolucionária para Portugal representa um dos últimos momentos
fortes da efervescência esquerdista que a França conheceu desde meados dos anos
1960. O 25 de Novembro português teve uma certa influência no refluxo da
extrema-esquerda francesa[67]. Se a extrema-esquerda não desapareceu[68], o
sonho da Revolução na Europa desanuviou-se. Alguns, como Benny Lévy, o
secretário de Jean-Paul Sartre e um dos dirigentes da Gauche Prolétaire,
decidiram, depois dos eventos portugueses, abandonar a militância[69].
O desejo de Sartre quando veio a Portugal era ver pelos seus próprios olhos os
acontecimentos: «Será que verei Lisboa?»[70], perguntava-se. Como ele, muitos
peregrinos queriam ultrapassar as intermediações, conhecer e viver directamente
a Revolução. Porém, esta humildade não impediu uma visão deturpada dos eventos.
Portugal era para muitos franceses um espelho onde eles se reviam. Alguns
peregrinos analisaram este fenómeno. Serge July, que veio várias vezes a Lisboa
para cobrir o PREC para o jornal Libération, no quinto aniversário do 25 de
Abril de 1974, registava:
«na crónica dos anos de cinzas, esta revolução abortada tomou lugar
cronológico entre o Chile e o Vietname. [ ] Com o detalhe que esta
revolução não tinha nada de exótico, que ela se produzia sob o nosso
olhar, na orla ocidental da Europa, a um dia de comboio de Paris,
Milão e pouco mais de Frankfurt. A Europa esquerdista e
contestatária, mas também a Europa centrista e liberal, a Europa
comunista, a Europa socialista e a Europa fascista desfilaram em
Lisboa, intrigando e pesando sobre os eventos, buscando os seus
respectivos militares e partidos na tormenta de um processo
revolucionário do qual precisamente a Europa se pensava protegida.
Uma multiplicidade de estratégias europeias cruzou-se e enfrentou-se
nas margens do Tejo, nem sempre, longe disso, no benefício dos
portugueses que herdaram, além das dificuldades deles, dos fantasmas
europeus, das teorias de uns e de outros.»[71]
Se este diagnóstico pessimista sobre a participação de estrangeiros no processo
revolucionário português se deve, em parte, à própria trajectória de Serge
July, também se encontra em autores portugueses que realçaram a miopia de
muitos dos turistas revolucionários. César de Oliveira, adjunto do ministro da
Comunicação Social a partir do final do mês de Março de 1975, que tinha entre
as suas tarefas «receber e tentar explicar o que se passava em Portugal a
personalidades estrangeiras, sobretudo jornalistas, que cruzavam o espaço do
Palácio Foz»[72], recordou:
«eu tinha grandes dificuldades em falar e entender-me com os
franceses, jornalistas ou não, com quem estabeleci contactos no
Ministério da Comunicação Social. Normalmente tinha sempre a sensação
de que chegavam ao Aeroporto, iam depositar as malas no hotel, vinham
ao Ministério e ficavam logo a perceber tudo, opinando sobre os mais
intrincados problemas, dando logo as soluções para os mais
complicados imbróglios que nós próprios, em Portugal, mesmo aqueles
que mais por dentro estavam dos problemas, não conseguíamos perceber
adequadamente.»[73]
No entanto, não se pode concluir, como sugerem estes textos escritos
posteriormente, que o interesse por Portugal foi sempre meramente instrumental
e que é impossível conhecer verdadeiramente um país estrangeiro. Houve por
parte de alguns franceses um interesse genuíno nos acontecimentos portugueses,
os quais não eram desligados de ideários e lutas abrangentes. Ajudar a
Revolução em Portugal era para muitos favorecer a revolução mundial. Na
história das peregrinações políticas do século xx, a viagem a Portugal tem uma
especificidade. Ela não foi feita exclusivamente por elites políticas e/ou
intelectuais, acostumadas aos testemunhos e à instrumentalização dos eventos
estrangeiros no quadro das suas estratégias nacionais. Afluíram também a Lisboa
milhares de «turistas revolucionários anónimos» que, no ambiente pós-Maio 68,
acreditavam que uma «outra sociedade» ia nascer em Portugal e espalhar-se além
fronteiras.
NOTAS
[1] Mitterrand, François ' L'abeille et l'architecte. Paris: Flammarion, 1978,
p. 76.
[2] Pinto, António Costa ' «Authoritarian legacies, transitional justice and
State crisis in Portugal's democratization». In Democratization. Vol. 13, N.°
2, 2006, pp. 173-204.
[3] Cf. Pimentel, Irene Flunser ' A História da PIDE. Lisboa: Círculo de
Leitores/Temas e Debates, 2007; Chalante, Susana ' Estado, Estrangeiros e
Fronteiras no Início do Estado Novo (1927-1939). Tese de mestrado em História,
iscte, 2009.
[4] Lopes, Joana ' Entre as Brumas da Memória. Lisboa: Ambar, 2007, p. 118.
[5] Gervais-Marx, Danièle ' Les illets du souvenir. Biarritz: Atlantica, 2006,
p. 20.
[6] Palacios Cerezales, Diego ' O Poder Caiu na Rua. Crise de Estado e Acções
Colectivas na Revolução Portuguesa 1974-1975. Lisboa: Imprensa de Ciências
Sociais, 2003.
[7] Mann, Michael ' «The autonomous power of the state: its origins, mechanisms
and results». In Archives Européennes de sociologie. Vol. 25, 1984, pp. 185-
213.
[8] Palacios Cerezales, Diego ' Estado, régimen y orden público en el Portugal
contemporaneo (1834-2000). Tese de doutoramento, Universidad Complutense de
Madrid, 2008, p. 515.
[9] Despacho do ministro da Administração Interna e do ministro das Finanças,
19 de Novembro de 1975, ANTT/MAI, Gabinete do Ministro, PS 24, cx. 475, pasta
2.
[10] Relatório do Serviço de Estrangeiros redigido pelo coronel de Infantaria
José de Vilhena Ramires Ramos, 30 de Abril de 1977 (AMAI, Gabinete do Ministro,
cx. 534). Este processo foi consultado antes da remessa do arquivo do
Ministério da Administração Interna à Torre do Tombo. As cotas podem
eventualmente ser agora diferentes.
[11] Cf. Sayad, Abdelmalek ' «Immigration et pensée d'Etat». In Actes de la
recherche en sciences sociales. Vol. 129, 1999, pp. 5-14; Spire, Alexis '
Accueillir ou reconduire. Enquête sur les guichets de l'immigration. Paris:
Raisons d'agir, 2008, p. 10.
[12] Freire, João ' Pessoa Comum no seu Tempo. Memórias de Um Médio-Burguês de
Lisboa na Segunda Metade do Século XX. Porto: Afrontamento, 2007, p. 379.
[13] Ibidem.
[14] Sobre o exílio português em França entre 1958 e 1974, cf. Pereira, Victor
' L'exil politique portugais en France de 1958 à 1974. Tese de mestrado em
História, Université de Rouen, 2000.
[15] Macleod, Alex ' La Révolution inopportune. Les partis communistes français
et italien face à la Révolution portugaise (1973-1975). Montréal: Nouvelle
Optique, 1984, p. 145.
[16] Carta do ministro das Finanças, José da Silva Lopes, a Pierre Mendès-
France, 4 de Janeiro de 1974, Arquivo do Ministério das Finanças,
Correspondência do Ministro das Finanças, pasta 3.
[17] Pautard, André ' «Portugal: les masques tombent». In L'express. 3 de
Fevereiro de 1975, p. 54.
[18] «Portugal: un parti responsable». In L'Unité. 20 de Dezembro de 1974.
[19] Lista estabelecida segundo o convite enviado a Pierre Mendès-France.
[20] Sobre a utilização de apoios estrangeiros por parte do Partido Socialista
português, cf. Castro, Francisco ' «A CEE e o PREC». In Penélope. N.º 26, 2002,
pp. 123-157; Eisfeld, Rainer ' «Influências externas sobre a revolução
portuguesa: o papel da Europa Ocidental». In Ferreira, Eduardo de Sousa, Opello
Jr, Walter C. (eds.) ' Conflitos e Mudanças em Portugal. 1974-1984. Lisboa:
Teorema, 1985, pp. 79-99.
[21] Krivine, Alain ' Ca te passera avec l'âge. Paris: Flammarion, 2006, p.
124.
[22] Filoche, Gérard ' 68-98, histoire sans fin. Paris: Flammarion, 1998, p.
221.
[23] Sirinelli, Jean-François, e Ory, Pascal ' Les Intellectuels en France. De
l'affaire Dreyfus à nos jours. Paris: Armand Colin, 1986.
[24] Frank, Robert ' «Imaginaire politique et figures symboliques
internationales: Castro, Ho, Mao et le Che». In Dreyfus-Armand, Geneviève,
Frank, Robert, Levy, Marie-Françoise, e Zancarini-Fournel, Michelle (eds.) '
Les années 68. Le temps de la contestation. Bruxelas: Complexe, 2000, pp. 31-
47.
[25] Jobs, Richard Ivan ' «Youth movments: travel, protest, and Europe in
1968». In The American Historical Review. Vol. 114, 2009, pp. 376-404.
[26] Cf. Artieres, Philippe, e Zancarini-Fournel, Michelle (eds.) ' 68. Une
histoire collective 1962-1981. Paris: La Découverte, 2008.
[27] Pouchin, Dominique ' «O último teatro leninista». In Mesquita, Mário, e
Rebelo, José (eds.) ' O 25 de Abril nos Media Internacionais. Porto:
Afrontamento, 1994, pp. 179-183. Ver também o prefácio que Pouchin escreveu
para o livro de Gérard Filoche (Filoche, Gérard ' Printemps portugais. Paris:
Actéon, 1984, pp. 9-14).
[28] Gervais-Marx, Danièle ' Les illets du souvenir, p. 132.
[29] Daniel, Jean ' L'ère des ruptures. Paris: Grasset, 1979, p. 224.
[30] Winock, Michel ' «Les générations intellectuelles». In Vingtième Siècle.
Revue d'Histoire. N.º 22, 1989, pp. 17-38, p. 34. Sobre as gerações que fizeram
e foram feitas pelo Maio de 68, ver também Brillant, Bernard ' Les clercs de
68. Paris: puf, 2003.
[31] Cohen-Solal, Annie ' Sartre: 1905-1980. Paris: Gallimard, 1985, p. 645.
[32] Filoche, Gérard ' 68-98, histoire sans fin, p. 200.
[33] Cf. «Le Portugal et nos censeurs». In Libération, 23 de Maio de 1975.
[34] Ver, por exemplo, Bensaid, Daniel, Rossi, Carlos, Udry, Charles-André '
Portugal: la Révolution en marche. Paris: Christian Bourgeois, 1975; Semprun,
Jaime ' La guerre sociale au Portugal. Paris: Champ libre, 1975; Faye, Jean-
Pierre,Le Portugal d'Otelo: la révolution dans le labyrinthe. Paris: Lattès,
1976; Fremontier, Jacques ' Portugal: les points sur les i. Paris: Editions
sociales, 1976; Munster, Arno ' Révolution et contre-Révolution au Portugal.
Paris: Galilée, 1977.
[35] Cruzeiro, Maria Manuela ' Melo Antunes. O Sonhador Pragmático. Lisboa:
Editorial Notícias, 2004, p. 148.
[36] «Position du Bureau National sur la situation syndicale portugaise»,
sessão du Bureau National de CFDT, a 5 e 6 de Fevereiro de 1975, Arquivos da
CFDT, 8H129.
[37] Sirinelli, Jean-François ' Intellectuels et passions françaises.Manifestes
et pétitions au XXe siècle. Paris: Fayard, 1990, p. 32.
[38] Krivine, Alain ' Ca te passera avec l'âge, p.132.
[39] Macleod, Alex ' La Révolution inopportune. Les partis communistes français
et italien face à la Révolution portugaise (1973-1975), p. 170.
[40] Sobre a posição do Partido Socialista Francês na Internacional Socialista
e as consequências da Revolução portuguesa neste posicionamento, cf. Estier,
Claude 'J'en ai tant vu. Mémoires. Paris: Le Cherche Midi, 2008; Devin,
Guillaume ' L'Internationale Socialiste. Histoire et sociologie du socialisme
international (1945-1990). Paris: Presses de la Fondation Nationale des
Sciences Politiques, 1993, pp. 190-191; Kassem, Fadi ' Les socialistes français
face à la Révolution Démocratique au Portugal de 1974 à 1981. Tese de mestrado
em Relações Internacionais, Institut d'Etudes Politiques de Paris, 2007.
[41] Palacios-Cerezales, Diego ' «Um caso de violência política: o Verão Quente
de 1975». In Análise Social. Vol. 37, N.º 165, 2003, pp. 1127-1157.
[42] Renou-Nativel, Corinne ' Jean Daniel. 50 ans de journalisme. De l'Express
au Nouvel Observateur. Mónaco: Editions du Rocher, 2005, p. 334.
[43] Kassem, Fadi ' Les socialistes français face à la Révolution Démocratique
au Portugal de 1974 à 1981, p. 80.
[44] Aron, Raymond ' Memórias. Lisboa: Guerra e Paz, 2007 [1983], p. 513.
[45] Ibidem.
[46] Monteiro, Cecília Maria da Silva ' Simone de Beauvoir e Portugal. Tese de
mestrado em Cultura Francesa, Universidade de Aveiro, 2004.
[47]Antigo dirigente da Gauche Prolétarienne.
[48] Hamon, Hervé, e Rotman, Patrick ' Génération, tomo ii, Les années de
poudre. Paris: Seuil, 1988, p. 607.
[49] «Sartre et le Portugal: Les trois pouvoirs. Le MFA, les partis,
l'initiative populaire». In Libération, 26 de Abril de 1975.
[50] Sartre, Jean-Paul ' Situations X. Paris: Gallimard, 1976, pp. 75-87.
[51] Aron, Raymond ' Memórias, p. 515.
[52] Touchard, Jean ' La gauche en France depuis 1900. Paris: Seuil, 1977, p.
347.
[53] Cf. Bertho-Lavenir, Catherine ' La roue et le stylo. Comment nous sommes
devenus touristes. Paris: Odile Jacob, 1999; Rauch, André ' «Les usages du
temps libre». In Rioux, Jean-Pierre, e Sirinelli, Jean-François (eds.) ' La
culture de masse en France de la Belle Époque à aujourd'hui. Paris: Fayard,
2002, pp. 352-409.
[54] Sobre a Revolução cubana e os intelectuais franceses, cf. Verdes-Leroux,
Jeannine ' La lune et le caudillo. Le rêve des intellectuels et le régime
cubain (1959-1971). Paris: Gallimard, 1989; Furet, François ' Le passé d'une
illusion. Essai sur l'idée communiste au xxe siècle. Paris: Robert Laffont/
Calmann-Lévy, 1995.
[55] Sobre esta distinção, ver também Pattieu, Sylvain ' «Nous n'avions rien à
Katmandou. Production militante et usages populaires du tourisme». In Actes de
la Recherche en Sciences Sociales. N.º 170, 2007, pp. 88-101.
[56] Citado em Monteiro, Cecília Maria da Silva ' Simone de Beauvoir e
Portugal, p. 124.
[57] Sobre estas peregrinações políticas ver, além das obras já citadas de
François Furet e Jeannine Verdès-Leroux, Hourmant, François ' Au pays de
l'avenir radieux. Voyages des intellectuels en URSS, à Cuba et en Chine
populaire. Paris: Aubier, 2000; Mazuy, Rachel ' Croire plutôt que voir? Voyages
en Russie Soviétique (1919-1939). Paris: Odile Jacob, 2002.
[58] Gloaguen, Philippe, e David, Michel ' Guide du routard. Vol.1, Europe.
Paris: Hachette, 1977, p. 113.
[59] Gloaguen, Philippe, e Trapier, Philippe ' Génération routard. Paris: Jean-
Claude Lattès, 1993, pp. 228-229.
[60] Bertho-Lavenir, Catherine ' La roue et le stylo. Comment nous sommes
devenus tourists, p. 403.
[61] Yon, Karel ' «Modes de sociabilité et entretien de l'habitus militant.
Militer en bandes à l'ajs-oci dans les années 1970». In Politix. N.º 70, 2005,
pp. 137-167.
[62] Cambadelis, Jean-Christophe ' Le chuchotement de la vérité. Paris: Plon,
2000, p. 97.
[63] Fremontier, Jacques ' Portugal: os pontos nos ii. Lisboa: Moraes editora,
1976, p. 206.
[64] Moreau, Yves ' «Les gauchistes de Lisbonne». In Humanité. 31 de Maio de
1974, p. 1.
[65] Puyalte, Francis ' «Lisbonne est devenu le Katmandou du gauchisme». In
L'Aurore. 28 de Julho de 1975.
[66] Sobre estes usos dos textos de autores estrangeiros sobre Portugal, cf.
Rebelo, José ' Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo. Lisboa: Livros e
Leituras, 1998.
[67] Hourmant, François ' Le désenchantement des clercs: figures de
l'intellectuel dans l'après-mai 1968. Rennes: Presses Universitaires de Rennes,
1997.
[68] Cf. Pechu, Cécile ' Droit au logement, genèse et sociologie d'une
mobilisation. Paris: Dalloz, 2006, pp. 183-188.
[69] Hamon, Hervé, e Rotman, Patrick ' Génération, tomo ii, Les années de
poudre, p. 608.
[70] Beauvoir, Simone de ' A Cerimónia do Adeus. Lisboa: Bertrand, 1986 [1981],
p. 78.
[71] July, Serge ' «Le traumatisme portugais». In Libération. 25 de Abril de
1979.
[72] Oliveira, César ' Os Anos Decisivos. Portugal 1962-1985, Um Testemunho.
Lisboa: Presença, 1993, p. 168.
[73] Ibidem, p. 170. Por seu lado, nas suas memórias, Maria Filomena Mónica
partilha esta análise: «Vieram académicos de universidades prestigiadas, os
quais aproveitaram a ocasião para escrever artigos em que exibiam a sua total
incompreensão relativamente ao que se passava» (Mónica, Maria Filomena '
Bilhete de Identidade. Lisboa: Alêtheia, 2005, p. 325).
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