Política Externa Norte-Americana
Política Externa Norte-Americana
Diana Soller *
Timothy J. Lynch e Robert S. Singh,After Bush ' The Case for Continuity in
American Foreign Policy
Cambridge, Cambridge University Press, 2008, 382 pp.
O argumento deste livro é, sem dúvida, polémico, num momento em que o mundo
está encantado com a eleição de Barack Obama e ocupado a apontar as diferenças
entre o novo Presidente e o seu antecessor. Timothy Lynch e Robert Singh (da
Universidade de Londres) afirmam que a doutrina Bush não foi uma invenção do
Presidente que a protagonizou. Foi, antes, a resposta lógica aos ataques do 11
de Setembro, informada pela «tradição da política externa norte-americana». A
guerra contra o terrorismo, a que chamam II Guerra Fria, é o sucedâneo, com os
devidos ajustes relacionados com a natureza do opositor, do conflito que opôs
os Estados Unidos à URSS.
Partindo deste princípio, os autores salientam que as principais
características da política externa americana desde o 11 de Setembro e os
métodos para atingir um sistema internacional mais seguro não só foram uma
constante durante a Guerra Fria como fazem parte das orientações externas dos
Estados Unidos desde que são uma nação. Por outras palavras, quer a crença de
que o carácter democrático dos estados é determinante para a estabilidade das
relações internacionais (e que a primazia americana é a melhor forma de manter
a paz) quer a certeza de que o ataque preventivo e a decapitação de regimes
tirânicos através de coligações de vontade são tácticas legítimas são conceitos
que acompanham a política externa norte-americana há mais de 200 anos. Este
argumento é assumidamente herdeiro de Robert Kagan, que tentou provar, em
Dangerous Nation, que os Estados Unidos são naturalmente uma nação
expansionista, apesar do carácter benigno da sua intervenção internacional.
A este argumento, Lynch e Singh impõem duas conclusões: primeira,
independentemente do presidente que ocupar a Casa Branca, as características da
política externa americana dos últimos anos manter-se-ão ' são estruturais.
Segunda, as coligações de vontade são uma forma eficaz de projectar poder,
porque reúnem os estados de identidade anglo-saxónica (Estados Unidos, Reino
Unido, Austrália e Índia). Estes estados partilham o mesmo sistema de valores,
o mesmo entendimento relativamente às necessidades de segurança, e a mesma
vontade de fazer uso da força militar quando necessário. São aliados naturais e
tenderão a manter a liderança do sistema, como se verifica desde a ascensão do
Império Britânico.
Independentemente da inconsistência da tese ' não existe umatradição na
política externa norte-americana, mas pelo menos três, e em permanente
confronto ', Lynch e Singh levantam um debate cada vez mais relevante na
literatura das relações internacionais: numa nova ordem internacional, como se
definirão as fidelidades dos estados? Pela identidade política ou histórico-
cultural? Pelo interesse nacional?
Derek Chollet e James Goldgeier,America between the Wars ' From 11/9 to 9/11 '
The Misunderstood Years between the Fall of the Berlin Wall and the Start of
the War on Terror
Nova York, Public Affairs, 2008, 412 pp.
Charles Krauthammer, colunista do Washington Post, considerou que os doze anos
que compreendem o derrube do Muro de Berlim e os atentados terroristas do 11 de
Setembro foram «umas férias da história». Esta expressão designava a ausência
de ameaças internacionais imediatas, o que teria dado aos decisores americanos
um período de relativo descanso, dispensando-os de crises profundas ou decisões
difíceis.
Quem ler From 11/9 to 9/11, de Derek Chollet (Universidade de Georgetown) e
James Goldgeier (Universidade de George Washington), percebe que Krauthammer só
em parte tinha razão: os anos 1990 foram essencialmente tempos de hesitação e
experiência, em que os decisores, confrontados com um novo sistema
internacional ' unipolar ' procuraram encontrar soluções de governação global
num contexto para o qual não havia modelos na História.
Segundo os autores, desenharam-se duas grandes tendências. Uma foi a
dificuldade de definir as novas regras de uso de poder. Sem amarras '
constrangimentos provocados pelo equilíbrio de poder de outros estados ' os
Estados Unidos tiveram a oportunidade de transformar a ordem valorativa. O
resultado foi, essencialmente, levantar mais questões do que encontrar
respostas: ainda hoje se procura definir, por exemplo, um novo conceito de
legitimidade internacional. O antigo ' o respeito pela soberania dos estados '
está em crise devido às intervenções humanitárias levadas a cabo no período em
apreço.
Outra tendência foi o desenvolvimento de uma maior vontade política de fazer
uso da força militar por razões não relacionadas com a segurança imediata. Nos
anos 1990, desenvolveram-se e acentuaram-se duas doutrinas ' o liberalismo
internacionalista e o neoconservadorismo ' que tinham (e têm) em comum a ideia
de expansão da democracia com a finalidade de obter, a prazo, um sistema
internacional mais estável e pacífico. Liberais internacionalistas e
neoconservadores desenvolveram a ideia de que os Estados Unidos podem (e devem,
em certos casos) exercer o seu poder de transformar o mundo, pela força, se
necessário. Simultaneamente, os conservadores («Contract Republicans») não
foram capazes de fazer propostas suficientemente consistentes para se opor a
esta abordagem mais interventiva que se desenhava em Washington, quer na Casa
Branca, quer nos think tanks.
Os autores concluem realçando as semelhanças entre a Administração Clinton e a
Administração W. Bush, no que respeita às ideias sobre o uso de poder e da
força militar americana ' «maiores do que a maioria dos americanos
percepcionaram ou que os partidários de ambos os lados querem admitir». Se
assim for, os anos 1990 não foram exactamente umas férias da História. Foram o
início de uma história complexa cujo desfecho ainda está por construir.
Thomas E. Ricks,The Gamble ' General Petraeus and the Untold Story of the
American Surge in Iraq, 2006-2008
Londres, Alan Lane, 2009, 394 pp.
Este magnífico relato de Thomas Ricks (correspondente do Washington Post no
Pentágono e autor do muito aclamado Fiasco) sobre as origens e a execução da
surge ' a estratégia da contra-insurreição que mudou o rumo da Guerra do Iraque
' demonstra uma realidade interessante. É que apesar de a estratégia ter sido
desenhada para alterar o resultado do conflito em favor dos Estados Unidos,
impôs uma mudança de mentalidade nas Forças Armadas norte-americanas.
Os péssimos resultados da Guerra do Iraque desde o fim da invasão até ao final
de 2006 criaram condições para uma revisão profunda do pensamento militar
norte‑americano. Até aí, dominava a doutrina Powell constituída por quatro
princípios: o uso maciço da força militar, que visava a limitação do tempo de
permanência em ambiente de conflito; a definição de objectivos precisos; o
abandono do cenário de guerra assim que os objectivos pré-definidos fossem
atingidos. Procurava-se, sobretudo, evitar baixas americanas e manter a opinião
pública a favor das decisões do poder político.
Se estas regras foram eficazes durante a Guerra Fria, tornaram-se obsoletas em
cenários de conflito irregular. A aplicação da doutrina Powell depois da
invasão ao Iraque ' evitar a exposição dos soldados americanos e usar poder
massivo contra guerrilheiros irregulares ' levou a que os norte-americanos se
tornassem espectadores de uma «quase guerra civil» alimentada por milícias
étnicas (sunitas e xiitas) e adversários externos ' a Al-Qaeda e o Irão.
Sem soluções, a Casa Branca cedeu à implementação da surge, uma estratégia com
muito poucos apoios no establishmentpolítico e militar. A «doutrina Petraeus»
mais não é do que a aplicação de regras clássicas de contra-insurreição. Mas
representa a inversão da ideia de uso de poder militar massivo: constitui-se da
limitação dos objectivos políticos (a estabilidade em vez da democracia); do
aumento dos meios humanos; e, principalmente, da protecção da população quer no
que respeita à sua segurança, quer no que respeita à sua dignidade.
O que aconteceu no Iraque entre 2006 e 2008 foi a transformação da doutrina
Powell na doutrina Petraeus. Já se sabe que o alcance dos resultados desta
estratégia nunca poderá ser plenamente apreciado, uma vez que o Exército
americano irá retirar, muito em breve, do Iraque. Fica por saber ' é disso que
se ocupa o último capítulo do livro ' se os poderes político e militar (muito
resistente) irão aceitar esta profunda mudança no conceito de fazer a guerra.
Cabe à Administração Obama ' que já anunciou uma nova surge no Afeganistão '
sedimentar ou abandonar tão profunda transformação nos assuntos militares
americanos.
Simon Schama,The American Future: A History from the Founding Fathers to Barack
Obama
Londres, Vintage, 2009, 416 pp.
Por vezes, surge um autor que, sem querer imitar Alexis de Tocqueville, segue-
lhe as pegadas. Não se fala aqui de igualar a importância e a qualidade da obra
do visitante francês, trata-se de colocar a mesma pergunta que Tocqueville
colocou: o que é que os Estados Unidos, o que é que a democracia e o sistema
político americano têm que os diferenciam dos restantes estados? Muitas vezes,
a resposta vem no formato de um livro muito marcado ideologicamente: ou é um
relato de todas as falhas dos Estados Unidos ou um corolário de todas as suas
virtudes. Este desequilíbrio torna esses trabalhos pouco interessantes e ainda
menos informativos.
O recente livro de Simon Schama (Universidade de Columbia), The American
Future: A History é invulgar neste aspecto. Em parte do livro, o historiador '
um confesso entusiasta da América e um defensor convicto do Partido Democrata '
demonstra uma preferência exacerbada por determinadas figuras históricas em
detrimento de outras, distorcendo, até certo ponto, o papel que cada um
desempenhou na história da concepção da América. Noutros momentos, Schama
demonstra lucidez e mestria, especialmente no que respeita à caracterização de
certos traços do adn americano.
Estas diferenças encontram-se se compararmos primeiro e segundo capítulos,
respectivamente sobre a guerra e a religião. No primeiro, o autor caracteriza a
América através do debate entre Jefferson e Hamilton, tomando como ponto de
partida as concepções que cada um detém para West Point (a academia militar
norte‑americana por excelência). Jefferson preconiza um corpo militar de
elite, em que os cadetes são treinados para a paz, para a reconstrução e para o
desenvolvimento. Hamilton projecta uma força capaz de defender os interesses
americanos no exterior, uma vez que, mais tarde ou mais cedo, seria necessário
usar o poder militar para defender a República. Jefferson é caracterizado como
o estadista ponderado, lockiano, fundador do ideal americano. Hamilton é o
federalista imperialista, que prefere o poder à paz. É deste retrato distorcido
' onde jogam «duas Américas», uma boa, outra má ' que parte toda a análise do
livro. Há, portanto, heróis e anti‑heróis. E a América progride quando os
heróis comandam as instituições.
Schama analisa ainda o sistema institucional americano através da liberdade
religiosa, percebendo que a Primeira Emenda à Constituição proporcionou não só
a separação de poder do Estado e da igreja como uma liberdade religiosa sem
precedentes na História. Assim a América tornou-se um permanente diálogo entre
a fé, a liberdade e a convicção e a tolerância. Em suma, o autor é preciso e
tolerante com as instituições e menos justo com os protagonistas.
* Mestra em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada. Assessora de
Estudos do IDN.
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