Institucionalização das relações entre democracias: Há uma liga adequada ao
século XXI?
Não existe novidade no conceito de institucionalização das relações entre
democracias,no domínio do pensamento norte-americano. Nem novidade, nem sequer
falta de experiência empírica. A Sociedade das Nações, projectada por Woodrow
Wilson, foi a primeira tentativa de organizar os estados em nome da segurança
colectiva, fazendo uso das regras institucionais democráticas
1
Daí em diante, a qualificação do regime interno passou a ter influência nas
questões relacionadas com a cooperação e a ordem internacional
2
. Os exemplos são diversos: a codificação do Plano Marshall, cujos princípios
levaram os estados sob influência soviética a recusar a ajuda à reconstrução
3
, e forçaram os beneficiários a tomar decisões conjuntas no Comité de
Cooperação Económica Europeia
4
; o apoio americano ao Plano Schuman e, de um modo mais generalizado, à
integração europeia
5
; a NATO, que - apesar de ter admitido Portugal como membro fundador por razões
estritamente estratégicas - codificou no tratado fundador que os seus membros
se comprometiam a salvaguardar os princípios da democracia e da liberdade
individual
6
, e enfatizou sempre o carácter democrático dos seus membros em oposição à
União Soviética e aos países do Pacto de Varsóvia. Nos anos 1990, a Aliança
Atlântica permitiu, ainda, a consolidação da democracia nos estados da Europa
de Leste, e hoje já admite parcerias privilegiadas com estados fora do espaço
euro-atlântico, desde que tenham como regime interno a democracia e participem
nas operações militares da Aliança
7
. Desde o fim da II Guerra Mundial, especialmente a partir da Administração
Truman
8
, é possível delinear o desenvolvimento de uma ordem internacional liberal que
resistiu, até hoje, e que pretende proteger uma determinada forma de
organização social e política, e influenciar os acontecimentos internacionais e
comportamentos dos outros estados.
No entanto, a questão das relações institucionais entre democracias - que nunca
foi um tema pacífico, como se verificou a propósito do alargamento da Aliança
Atlântica aos países do Leste europeu
9
- ganhou um novo impulso quando o candidato às recentes eleições presidenciais
norte-americanas, John McCain, introduziu no seu programa eleitoral a proposta
para fundação de uma Liga das Democracias. Esta organização de estados
democráticos teria como objectivos centrais substituir as Nações Unidas, cada
vez que o Conselho de Segurança não fosse capaz de dar resposta a desafios
internacionais
10
e a difusão da democracia no mundo, "revivendo a solidariedade democrática"
11
do Ocidente durante a Guerra Fria.
Esta associação de democracias tinha ainda três finalidades de fundo, raramente
mencionadas em período de campanha eleitoral. A primeira era o relançamento da
liderança mundial norte-americana
12
- a confiança dos aliados tradicionais e a imagem internacional dos Estados
Unidos saíram danificadas da condução da decisão de invadir o Iraque
13
, daí a importância de encontrar novas formas de exercício de poder. A segunda
era a geração de um novo consenso quanto à legitimidade internacional dessa
liderança, o que requeria, no pensamento de McCain, uma nova organização
internacional que reflectisse novos interesses e valores democráticos comuns
14
. Finalmente, visava a actualização do próprio conceito de Ocidente: hoje, os
estados de regime liberal já não são apenas aqueles institucionalizados nas
alianças tradicionais pós-1945 (NATO, aliança bilateral Estados Unidos-Japão).
Daí, a necessidade de criar uma nova fórmula de entendimento que reflectisse
estes três factores fundamentais à reorganização do sistema pós-Iraque: a
liderança americana, novas formas de legitimidade internacional e reformulação
do conceito de ordem ocidental.
Apesar do reconhecimento de diversos autores e analistas de que a liderança
americana se encontrava em crise, a proposta de John McCain foi objecto de
inúmeras críticas.
Porém, foram pouco rigorosas: ignoraram as repetidas referências do candidato
republicano a uma forma específica de institucionalização das relações entre
democracias
15
.
McCain repetiu que rejeitava "o plano falhado de Woodrow Wilson para uma Liga
das Nações de adesão universal" em detrimento do modelo "semelhante ao que
Theodore Roosevelt idealizou: nações com o mesmo propósito a trabalhar juntas
pela paz e pela liberdade"
16
. Propunha uma forma de institucionalização das relações entre democracias com
um carácter essencialmente diferente das organizações internacionais que
caracterizam a arquitectura liberal internacional que conhecemos.
Esta diferença é significativa e merece uma reflexão mais profunda. Por um
lado, uma interpretação mais esclarecida da proposta de John McCain leva ao
regresso ao debate que opôs Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, não só no que
respeita às suas propostas de ordenamento internacional - de
institucionalização das relações entre estados e, mais concretamente, entre
democracias - mas também no que os distanciou quanto à concepção do papel que
os Estados Unidos deveriam desempenhar como actor internacional liberal. Um
diferendo fundamental e sobejamente relacionado com toda a problemática de
hoje, relativa ao relançamento da liderança americana
17
.
Por outro lado, porque o modelo "rooseveltiano" de McCain contrasta com modelos
"wilsonianos" actualmente também em consideração, entre eles o alargamento da
NATO a estados democráticos fora do espaço euro-atlântico
18
, e uma proposta de um grupo de trabalho da Universidade de Princeton
19
, no qual participou como co-editora Anne Marie Slaughter, a actual directora
do Planeamento Político do State Department.
O facto de os analistas considerarem a "Liga McCain" e a "Liga Princeton" um e
o mesmo projecto
20
desvirtua o debate. A finalidade deste artigo é, pois, tentar evidenciar as
diferenças entre as propostas, ligando-as aos seus contextos históricos e
ideológicos mais amplos.
Para cumprir este objectivo, começa por fazer-se um pequeno enquadramento, em
que se expõem as razões pelas quais diversos autores e decisores se têm
dedicado à temática da revisão da ordem internacional e da consequente
necessidade de criar novas instituições. De seguida, reflecte-se sobre as
origens do debate actual, e de que forma os Estados Unidos têm desenvolvido,
desde o início do século XX, duas visões distintas sobre a melhor forma de
proteger e promover a ordem democrática. Finalmente, regressa-se ao debate
presente para demonstrar que as propostas de John McCain e do Projecto
Princeton têm objectivos diferentes e são inspiradas em perspectivas
ideológicas distintas. Conclui-se que, caso fossem postas em prática, teriam
necessariamente resultados diversos.
2008: O ANO EM QUE O MUNDO MUDOU?
É preciso recuar um pouco e responder à seguinte questão: a que se deve o
ressurgimento do debate acerca da institucionalização das relações entre
estados? A resposta é que, nos últimos anos, se desenvolveu a percepção de que
é necessário reformular a ordem internacional. Num contexto mais alargado, os
actores do sistema aperceberam-se da emergência de novas potências cujo peso
relativo não está contemplado nas instituições vigentes
21
. Do ponto de vista americano, disseminou-se a percepção de que a arquitectura
internacional já não proporciona segurança.
Numa perspectiva mais lata, vários analistas na área da política internacional
têm afirmado que 2008 será o ano que vai ficar assinalado na historiografia
como aquele em que a predominância ocidental terminou. Há quem já tenha
escolhido uma data simbólica: 8 de Agosto de 2008, "o dia da ressurreição
geopolítica dos dois grandes impérios, a China e a Rússia"
22
. Nessa data, assistiu-se, quase em simultâneo, à cerimónia de abertura dos
Jogos Olímpicos de Pequim e à invasão da Geórgia pelas tropas russas, a
pretexto da expulsão das forças georgianas da Ossétia do Sul. Como refere outro
autor, os meios foram diferentes, "a Rússia fê-lo com tanques […] a China com
acrobatas. Mas a mensagem era a mesma: mundo, estamos de volta"
23
. Regra geral, os observadores deste fenómeno projectam um futuro em que
potências liberais (Estados Unidos, Índia) partilharão posições proeminentes de
poder com potências não democráticas (China, Rússia)
24
, num sistema internacional que se prevê multipolar
25
.
O mundo realmente mudou em 2008 e os dois acontecimentos acima referidos são
disso testemunho? Do ponto de vista estrito da distribuição de poder, o mundo
mantém-se tão unipolar como em 1991, quando acabou a Guerra Fria, ou em 2001,
quando se perpetraram os ataques da Al-Qaida a Washington e a Nova York
26
. No plano material, os Estados Unidos continuam a ser a única grande potência
27
. Contudo, ao nível das percepções, há mudanças significativas, que levam a
constatar uma transformação efectiva na forma como os decisores vêem o mundo
28
.
A primeira mudança de percepção relaciona-se com a capacidade dos Estados
Unidos enquanto líder mundial. Por um lado, verifica-se um desgaste material: a
extensão temporal das guerras no Afeganistão e no Iraque evidenciou a finitude
do poder militar norte-americano; por outro, identifica-se um desgaste moral: a
decisão de invadir o Iraque, em 2003, criou um certo grau de desconfiança na
bondade da liderança americana, mesmo da perspectiva dos seus aliados
tradicionais
29
. Parte do preço da invasão não está no resultado final da guerra, mas sim na
percepção de um certo vazio de poder, que abriu caminho para que outros actores
passassem a ter maior peso nas considerações dos decisores. A segunda mudança
de percepção foi a constatação efectiva de que outras potências estariam em
processo de emergência no sistema internacional. Já se referiram os casos da
China e da Rússia, que figuram no centro de debate da transição de poder, uma
vez que são consideradas as potenciais challengers do futuro
30
, mas é cada vez mais notória a presença da Índia e, em menor escala, do
Brasil, nos cálculos dos que decidem em política internacional
31
.
Uma nova distribuição de poder irá requerer uma nova ordem internacional.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, o 11 de Setembro veio revelar duas
realidades.
A primeira é que o consenso de fim da História, que dominou o pensamento
político nos anos 1990, estava errado
32
: a democracia e o mercado livre não são uma fatalidade; por conseguinte, a
ordem democrática americana precisa de ser aprofundada.
A segunda é que a ordem internacional existente - ainda muito dependente das
estruturas e do sistema internacional definido depois de 1945 - não é
suficientemente segura.
Nem impediu os ataques do 11 de Setembro, nem se tem revelado satisfatória na
resposta às ameaças transnacionais presentes. Foram razões suficientes para que
a Administração Bush tenha tentado transformar a ordem internacional, por
métodos diferentes, em duas ocasiões: quando, na sequência dos ataques
terroristas, enunciou a doutrina Bush, que visava, sobretudo, mudar as regras
do uso de poder dos Estados Unidos
33
e, no segundo mandato, quando deu início ao reforço das alianças tradicionais
permanentes com estados liberais e à constituição de novas parcerias
privilegiadas com estados democráticos como a Índia, o Brasil e a Indonésia,
que até aí tinham escassas ou difíceis relações diplomáticas com Washington
34
. A primeira tentativa teve um impacto negativo nas relações externas
americanas
35
; a segunda, mais discreta, mas com maior sucesso, abriu uma janela de
oportunidade para que o actual Presidente, Barack Obama, exerça uma mudança
mais profunda e duradoura na ordem internacional liberal, que acomode as
pretensões americanas de liderança e legitimidade e conceda aos aliados um
espaço de influência e relações de previsibilidade, no espírito da ordem pós-
1945
36
.
AS ORIGENS DO DEBATE: THEODORE ROOSEVELT E WOODROW WILSON - UM ACTOR LIBERAL,
DUAS POLÍTICAS EXTERNAS
Uma nova ordem internacional - universal e liberal - exige uma escolha entre
dois modelos concorrentes, que começaram a ser definidos por Theodore Roosevelt
e Woodrow Wilson a partir do início do século XX. Estes dois presidentes
estiveram muito próximos conceptualmente, no que respeita à política externa
norte-americana, até perto da I Guerra Mundial
37
. Ambos eram tendencialmente intervencionistas
38
. Roosevelt e Wilson partilhavam a linha de pensamento dominante daquela época:
favoreciam a interferência americana directa nos assuntos internos de outros
estados do continente americano
39
, de modo a assegurar a paz e a estabilidade na sua vizinhança
40
.
Roosevelt e Wilson partilhavam ainda outra posição: eram ambos aquilo a que
hoje chamaríamos excepcionalistas. Acreditavam, na linha jeffersoniana
41
, que os Estados Unidos eram uma nação de princípios elevados e,
consequentemente, não deveriam exercer uma política externa amoral semelhante à
dos estados europeus. Este princípio obrigava os decisores a manter uma forma
de tutela continental "desinteressada", que excluísse a colonização como
ferramenta de política externa
42
. Admitiam, com carácter de excepção, a tutela militar e política norte-
americana em territórios estrangeiros, mas apenas o tempo suficiente para que
as populações atingissem a maturidade e as instituições autonomia para se
autogovernarem.
No entanto, este ponto de partida comum derivou em profundas divergências
quando Wilson se tornou presidente. Apesar de ambos manterem o pressuposto
inicial do excepcionalismo americano, e da necessidade de expandir a democracia
como forma de criar um sistema mais seguro, escolheram formas diferentes para o
fazer: Roosevelt era adepto da ideia de que os Estados Unidos deviam
"disseminar a democracia", partindo do princípio que eram o "agente externo
[que] sabe como os povos devem viver as suas vidas" e tinham o dever de impor o
seu ponto de vista. Wilson, em fase mais tardia, passou a professar que o mais
importante era "acabar com a tirania" para dar origem à "libertação de
determinados povos para que encontrem as suas respostas"
43
.
Roosevelt colocava o ónus na responsabilidade americana de transformar o mundo,
enquanto Wilson acreditava que uma vez removidas as barreiras à liberdade de
escolha, os povos tendiam à democracia. Em síntese, tinham ambos a convicção de
que a expansão da democracia era uma finalidade importante da política externa
norte-americana, mas tinham concepções diferentes do papel que os Estados
Unidos deviam desempenhar como actor internacional liberal.
Até certo ponto, Roosevelt acreditava na narrativa do fim da História
44
, que veio a ser tão popular nos anos 1990. A narrativa da época não incidia
sobre a inevitabilidade da democracia, mas identificava os povos anglo-
saxónicos - livres e praticantes da economia de mercado - com o mundo
civilizado para onde se devia encaminhar a História. No pensamento
rooseveltiano estes povos tinham o interesse e a obrigação moral de tutelar os
estados da sua vizinhança, até que estes atingissem suficiente maturidade para
serem, eles próprios, fornecedores de segurança.
Roosevelt propôs um modelo de segurança colectiva, apoiado nestes princípios.
Fê-lo pela primeira vez antes de Wilson, no discurso que proferiu ao aceitar o
prémio Nobel da Paz
45
, em 1906 (na sequência do seu papel de mediação no acordo de paz que pôs termo
à Guerra Russo-Japonesa) e elaborou mais detalhadamente a sua posição em 1914,
em diversos artigos
46
. Teria de ser uma Liga para Impor a Paz, constituída por "todas as nações
civilizadas e poderes militares" para "recolocar a moralidade (righteousness)
pela força"
47
. Para o efeito, constituir-se-ia uma liga de grandes poderes com a dupla
função de proteger os pequenos estados civilizados da intervenção de nações não
civilizadas e levar as nações não civilizadas para o caminho da civilização
48
. A força militar poderia ser usada pelos membros da liga sempre que fosse
adequado, uma vez que eles seriam os "polícias internacionais" da sua área
regional.
Não havia, no modelo de Roosevelt, à época, qualquer incompatibilidade com a
legitimidade internacional. Pelo contrário; estava contida nesta proposta uma
ideia de bem comum
49
, e a pretensão utópica de que a paz poderia ser alcançada pela imposição do
direito e da justiça internacional. Roosevelt acreditava na importância de um
poder supranacional, uma espécie de Leviatã constituído por estados poderosos
com valores morais elevados. Acreditava numa liga que traduzisse a virtude
liberal.
Woodrow Wilson deixou de ver méritos no intervencionismo directo norte-
americano em consequência do episódio de Veracruz
50
. Em 1913, o Presidente americano ordenou uma intervenção militar no México
para enfraquecer a liderança do general Victoriano Huerta. Acabou por reforçar
a posição do opositor, que usou a iniciativa americana para unir a população
contra o inimigo externo comum. Daí a insistência na neutralidade durante a I
Guerra Mundial, que poderia ter chegado às últimas consequências, caso os
Aliados não estivessem em situação de iminente derrota em 1917.
Por isso mesmo, quando reflectiu sobre a melhor forma de construir a paz,
Wilson concluiu que se deveriam conciliar aqueles que, na sua óptica, eram os
três princípios fundamentais: o de que os estados de regime interno democrático
tendem a evitar a guerra entre si, recorrendo a meios pacíficos para resolverem
eventuais diferendos ou conflitos que os opusessem
51
; o de que o sistema americano personificava os valores fundamentais da
democracia e, por conseguinte, deveria ser projectado numa realidade
internacional mais vasta
52
; e o de que o equilíbrio de poder - a ordem internacional concebida pela
Europa - tinha provado ser ineficaz, sendo imperioso criar uma nova fórmula: um
conceito de ordem internacional democrática.
53
São estes princípios que estão contidos na primeira versão institucionalizada
de ordem liberal - a Sociedade das Nações.
A Liga Wilson era, essencialmente, um projecto de segurança colectiva. Por um
lado, pretendia criar um contexto institucional que permitisse aos estados
democráticos garantir a sua segurança sem ter de recorrer com frequência à
guerra. Por outro, procurava fornecer aos estados sem liberdade um contexto
favorável para que seguissem o seu próprio caminho rumo à autodeterminação - e
no pensamento wilsoniano, a autodeterminação conduzia à democracia. A Sociedade
das Nações permitia o aprofundamento de uma forma de relacionamento
internacional tendencialmente liberal
54
.
Wilson acreditava na importância de uma instituição intergovernamental que
fosse disseminando um pensamento liberal comum aos estados tendencialmente
bélicos do sistema internacional. Acreditava numa liga que exprimisse um
contrato liberal entre estados.
Há uma formulação muito simples que resume a diferença fundamental dos
conceitos de Roosevelt e Wilson. O primeiro procurava uma "revolução
democrática" ("to make a democratic world"). O segundo sugeria o
internacionalismo liberal ("to make the world safe for democracy")
55
.
Roosevelt postulava a Pax Americana; Wilson, a ordem liberal americana. Até
hoje, a visão wilsoniana - com diversos fracassos e ajustes - tem-se sobreposto
à rooseveltiana.
A LIGA DA VIRTUDE LIBERAL E A LIGA DO CONTRATO LIBERAL NO SÉCULO XXI
Retratar o debate de um século nas figuras de Theodore Roosevelt e Woodrow
Wilson pode ser redutor, mas também é representativo. Hoje, estão em cima da
mesa duas propostas de institucionalização das relações entre democracias que
espelham, com as devidas actualizações, as avançadas por estes dois
presidentes. A liga introduzida por John McCain reflecte, como o próprio
referiu, o pensamento do 26.º Presidente americano. A Liga Princeton reflecte
os princípios do 27.º.
No entanto, a proposta de Liga das Democracias de John McCain tem um contexto
específico, diferente do que se verificava na presidência de Theodore
Roosevelt: insere-se numa visão de confronto, determinada por uma leitura
particular dos acontecimentos actuais. Um dos seus conselheiros, Robert Kagan,
explica-o com muita clareza: hoje, como no século XIX, existem duas formas de
disputa: a competição entre grandes potências pelo poder e influência, e a
tensão permanente relativa à ordem valorativa internacional, que opõem regimes
liberais e regimes autocráticos
56
. Para Kagan, essa competição verifica-se, pelo menos, desde a Guerra do
Kosovo, onde as democracias demonstraram que privilegiam os direitos do
indivíduo em detrimento dos direitos de soberania dos estados e as autocracias
(China e Rússia), ao oporem-se à iniciativa ocidental, manifestaram a sua
concepção de que o direito do Estado à soberania é inalienável, mesmo que a
preservação da vida das populações seja posta em causa
57
.
Kagan (e McCain) acreditam que as autocracias já criaram mecanismos de
resistência à ordem liberal - a Organização de Cooperação de Xangai, a venda de
equipamento militar russo à China, e exercícios militares regulares conjuntos,
são bons exemplos
58
.
É contra esta "ordem autocrática" que os estados democráticos ("todas as
democracias do mundo"
59
) se devem organizar. A Liga das Democracias teria o papel de oposição a
estados não democráticos - enfatizado pela proposta do candidato republicano de
"expulsão da Rússia do G8"
60
- e de promoção da expansão da democracia, para alargamento da esfera de
conforto da ordem ocidental. Seria uma organização que reviveria a righteouness
de Theodore Roosevelt
61
, a liga da virtude liberal, agora numa versão adaptada ao século XXI.
A Liga das Democracias de McCain apresenta quatro problemas fundamentais:
primeiro, retoma a lógica de confronto da Guerra Fria
62
, ou seja, parte do princípio que apenas os estados democráticos têm uma
política externa aceitável. Segundo, pretende legitimar um certo tipo de
intervencionismo que tenderá a desgastar a imagem das democracias no mundo
63
. Terceiro, parte do princípio que todos os actores democráticos têm a mesma
visão do papel internacional das democracias
64
. Finalmente, teria reduzido apoio nos Estados Unidos, uma vez que não reflecte
a tradição central da política externa norte-americana.
O primeiro problema - o do retorno à lógica de confronto da Guerra Fria -
sintetiza-se no objectivo explícito de expandir a democracia, colocando pressão
nos regimes autocráticos. O problema deste raciocínio não é tanto o diagnóstico
do sistema (apesar de muitas democracias continuarem a considerar a soberania
um conceito preponderante nas relações internacionais) mas a ideia de
competição entre estas duas ordens. Está subjacente a posição de que há uma
ordem positiva que se deve impor a uma outra menos legítima. Hostilizar
frontalmente a China e a Rússia, apresentando uma organização internacional
democrática constituída para fazer frente à sua concepção de relações
internacionais, poderia ser uma orientação tendente à criação de conflitos.
O segundo problema - o da legitimação de um certo tipo de intervencionismo -
deve-se à asserção de que a liga deveria substituir a ONU (em caso de ausência
de consenso no Conselho de Segurança) no processo de legitimação de medidas de
coacção impostas a estados que não respeitem os valores humanitários
democráticos. É uma fórmula que comporta certos riscos, uma vez que tende a
facilitar o intervencionismo democrático. Mesmo que houvesse autocontenção na
tentação de fazer guerras de escolha, muitos estados poderiam considerar esta
Liga das Democracias uma entidade expansionista da qual teriam de se defender.
Esta interpretação propicia medidas assertivas de outros estados, que se podem
assemelhar ao problema actual colocado pela nuclearização do Irão.
O terceiro problema é que os proponentes desta liga partem do princípio que
todas as democracias têm a mesma cultura política de oposição às autocracias e
de intervencionismo face à preservação da vida humana. Não é certo que assim
seja; existe uma enorme distância entre "democracias liberais" e "democracias
iliberais"
65
, já para não referir as diferentes concepções de uso de poder entre os Estados
Unidos e os estados europeus (os últimos menos dispostos ao uso da força) ou a
Índia (com uma aproximação mais pragmática às relações internacionais), por
exemplo.
O quarto problema é que seria difícil que este modelo de liga reunisse
consensos no plano interno norte-americano. A Liga McCain segue a linha de
pensamento de Theodore Roosevelt que, com as devidas diferenças, proclama a
legitimidade americana de impor a democracia. Neste contexto, aproxima-se
relativamente da ordem que Bush tentou implementar, logo a seguir ao 11 de
Setembro, quando impulsionou a democratização do Médio Oriente, através da
invasão do Iraque. No entanto, com esta decisão, a Administração americana
anterior quebrou a própria ordem institucional criada pelos Estados Unidos em
1945. Apesar do desenvolvimento, nos últimos anos, da narrativa histórica de
que o expansionismo é o comportamento natural dos Estados Unidos desde que são
uma nação
66
, a tradição dominante da política externa americana, pelo menos desde 1945, é
o realismo liberal
67
. Esta tradição - que acomoda uma estratégia realista numa ordem constitucional
de cariz wilsoniano - valoriza o tipo de regime, privilegia as relações entre
democracias e não exclui o uso da força em determinados contextos, mas não tem
como princípio a intervenção militar para fins que não estejam intimamente
relacionados com a segurança. Além disso, avisa contra o confronto directo dos
Estados Unidos com outros estados. Esta perspectiva assenta na premissa de que
é necessário manter relações estáveis com todos os estados poderosos - daí a
importância da cooperação a diversos níveis.
Há outra proposta de institucionalização das relações entre democracias que
privilegia esta abordagem realista liberal. Esse projecto poderá contribuir
para o reforço da liderança americana e ajustar os moldes da convivência de
estados democráticos, com um impacto menor no sistema: é um modelo wilsoniano
que procura resolver a necessidade de actualização do conceito de Ocidente (um
conceito que implica democracia liberal e não democracia pura e simples) e
recria a ordem ocidental do final dos anos 1940, ajustando-a às realidades de
hoje. É a Liga Princeton.
Também esta proposta parte de uma leitura particular das relações
internacionais, diferente da de Robert Kagan. Os proponentes deste projecto
acreditam que o sistema internacional é eminentemente anárquico
68
. No entanto defendeu que a cooperação pode mitigar a tendência dos Estados
para o conflito
69
. Sabem, também, que existem diferentes graus de cooperação; a via económica
pode criar relações de maior estabilidade entre estados com interesses
divergentes
70
e os estados com valores comuns podem atingir um grau de entendimento que
ultrapasse os interesses imediatos ou as necessidades primárias de segurança
71
. Assim, defendem que a reorganização da ordem internacional e o relançamento
da liderança americana passa pela criação de diversas formas de cooperação
entre estados - que só resultam quando todos os parceiros concluírem que ganham
mais em pertencer àquela forma de entendimento do que estar excluídos dela -
tendo no centro uma associação de democracias estendida do seu núcleo
tradicional a todos os que queiram cumprir certos critérios de elegibilidade.
Assim, a Liga Princeton é apresentada num contexto em que um concerto de
grandes poderes
72
e a integração económica são igualmente aconselhados
73
. Por outras palavras, a Liga Princeton está inserida numa vasta ordem
internacional onde deveria figurar uma nova organização de segurança composta
pelas potências da Ásia Oriental (China, Japão, Coreia do Sul e Rússia) e pelos
Estados Unidos. Este contexto mais amplo permitiria que os diversos estados do
sistema se sentissem mais seguros e menos desafiados pela ordem liberal.
Na tradição kantiana, a Liga Princeton não procura designar que estados devem
pertencer à associação. A selecção seria feita a partir dos critérios de
adesão. Os estados que quisessem pertencer a esta liga teriam de cumprir quatro
critérios: a abstinência do uso da força entre si; o compromisso de fazerem
eleições multipartidárias em intervalos regulares; a garantia dos direitos
civis e políticos das populações por um poder judicial independente do poder
legislativo e executivo; e aceitar a responsabilidade de proteger. Se
excluirmos este último ponto - que não deveria figurar uma vez que as
democracias liberais não têm todas a mesma vontade política de usar a força em
nome dos direitos humanos e esta exigência tornará o consenso entre os membros
mais improvável e a desconfiança dos outros estados mais provável - os
princípios fundadores da Liga Princeton são muito semelhantes aos de Wilson,
quando pensou na Sociedade das Nações: as democracias não fazem a guerra entre
si; a liga projecta os princípios democráticos internos no sistema de estados;
e constitui a possibilidade de actualizar a ordem internacional democrática,
que está a ficar desfasada da distribuição de poder do futuro e das percepções
dos líderes do presente. Esta liga deveria ter como principal objectivo criar
uma sólida cooperação entre as democracias liberais no domínio da segurança. É
uma nova versão da liga do contrato liberal.
Este modelo continua a apresentar riscos (os mesmos riscos de despoletar
reacções em estados "excluídos", especialmente devido ao compromisso de os
eventuais membros da Liga Princeton exercerem o dever de proteger), mas
distingue-se da Liga McCain em quatro particularidades essenciais, que a tornam
um modelo mais viável e adequado ao século XXI.
Em primeiro lugar, relança a liderança americana no espaço ocidental nos moldes
de 1945 e não de 2001. Procura uma fórmula wilsoniana contratual, preterindo um
modelo mais próximo da imposição de valores.
Em segundo lugar, está inserida num contexto institucional alargado, que
atenuaria o impacto negativo no sistema internacional de uma nova organização
de estados liberais.
Em terceiro lugar é simultaneamente uma instituição inclusiva e que procura um
compromisso dos seus membros: cria a oportunidade de participação de
democracias liberais fora dos acordos tradicionais ocidentais, ou seja, confere
a oportunidade de actualização do conceito de Ocidente. Assume que o Ocidente
já não é uma designação que passa pela geografia, mas essencialmente pela
partilha de determinados valores.
Em quarto lugar, explora uma das mais importantes forças do Ocidente: o
conceito de aliança institucionalizada que é pouco comum fora do espaço onde
foi criada. As relações de segurança com base na confiança relacionada com o
tipo de regime é um capital que tem sido fundamental na estabilidade e
segurança do Ocidente nas últimas décadas e poderá continuar a sê-lo, no
futuro, num contexto mais alargado, para lá das fronteiras do Atlântico Norte.
CONCLUSÕES
Pelas razões acima referidas - a desadequação da ordem ao sistema e a
necessidade de encontrar uma nova forma de legitimidade que relance a liderança
americana - é visível a premência de um debate sobre uma nova ordem
internacional, na qual cabe, igualmente, a importância da revisão da
institucionalização das relações entre as democracias.
Existem, actualmente, pelo menos, seis propostas de Liga das Democracias
74
, sendo que duas delas são exemplificativas das profundas diferenças que cada
projecto desta natureza pode conter. Ambas têm riscos consideráveis, uma vez
que uma nova instituição que reúna as democracias terá sempre ressonância num
contexto mais amplo do sistema internacional, e poderá provocar reacções em
estados como a Rússia e a China, que procuram o seu lugar como grandes
potências internacionais.
Contudo, é importante distinguir a diversidade conceptual das duas propostas de
"Liga das Democracias". Académica e politicamente os projectos da candidatura
de John McCain e do grupo de trabalho de Princeton têm sido apresentados como
se não existissem diferenças entre eles; não cabe neste espaço proceder a uma
avaliação profunda dos modelos, mas procurou-se clarificar as suas diferenças,
para que a ideia de institucionalizar as relações entre as democracias não seja
desvalorizada ainda antes de ser conhecida ou analisada.
A "Liga McCain" e a "Liga Princeton" espelham duas visões diferentes da
política externa americana. A primeira representa a visão do hegemonismo, ou
seja, a visão avançada por Theodore Roosevelt e, com as devidas distâncias,
partilhada por Clinton e Bush (no primeiro mandato), de que a preponderância
americana deve ser preservada, porque dela depende a segurança dos Estados
Unidos. Esta associação seria uma forma de colocar as democracias ao serviço da
legitimação da política externa norte-americana
75
. Corria-se o risco de aceitar uma política externa que fosse contra os
interesses de muitos estados, senão mesmo contra os valores.
A Liga Princeton está contida na tradição do liberalismo institucionalista de
1945. Aceita tacitamente dois princípios. O primeiro, que o sistema está em
mudança, e que os Estados Unidos devem acompanhar a transição pela via da
partilha institucional da decisão com outros estados - especialmente com
democracias, os parceiros mais confiáveis - tendo como ganho futuro uma perda
de poder mais pacífica. Defende que uma boa política externa americana será
aquela que conseguir ler a necessidade de reorganizar a ordem internacional. O
segundo, é que os Estados Unidos têm de desempenhar o papel de liderança no
mundo ocidental, mas que esse papel já não passa pela hegemonia pura e simples,
mas sim pelo regresso ao conceito de potência benigna, que se autocontém no uso
de poder através das instituições, para obter legitimidade internacional e
consenso no desempenho da liderança - tal como ensina a concepção wilsoniana,
reflectida na ordem internacional ocidental que dominou a Guerra Fria.
Se a Liga McCain parece ser o caminho para o desgaste do poder norte-americano,
a Liga Princeton, numa versão cuidada e ponderada, poderá ser uma forma
aceitável para o relançamento da liderança americana, num sistema internacional
com exigências de reorganização.
NOTAS
1
Cf. SMITH, Tony - America's Mission - The United States and Worldwide Struggle
for Democracy in the Twentieth Century. Princeton: Princeton University Press,
1994, p. 84.
2
Entende-se por ordem internacional o conjunto de instituições, normas e
valores que regulam as relações entre os estados que compõem o sistema
internacional.
3
Cf. KUNZ, Diane B. - "The Marshall Plan reconsidered - A complex of motives".
In Foreign Affairs. Washington DC. Vol. 76, N.º 3, Maio-Junho de 1997, pp. 162-
170, p. 165.
4
Cf. REYNOLDS, David - "The European response - Primacy of politics". In
Foreign Affairs. Washington DC. Vol. 76, N.º 3, Maio-Junho de 1997, pp. 171-
184, p. 172.
5
Cf. JUDT, Tony - Post War - A History of Europe since 1945. Nova York:
Penguin, 2006, p. 156.
6
Cf. The North Atlantic Treaty, 4 de Abril de 1949. [Consultado em: Janeiro de
2009]. Disponível em: http://www.nato.int/docu/basictext/treaty.htm.
7
Cf. KOSCHUT, Simon, e RIECKE, Henning - "NATO's global aspirations - The
dispute over enlargement reflects uncertainties about NATO's function". In NATO
at Crossroads, IP, Verão de 2008, pp. 31-37, p. 34.
8
Cf. RUGGIE, John Gerard - Winning the Peace - America and World Order in the
New Era. Nova York: Columbia University Press, 1996, pp. 39 e segs.
9
O alargamento da NATO aos países do Leste da Europa, que teve início em 1999,
levantou inúmeras críticas dos mais variados sectores da política norte-
americana. Cf., por exemplo, GADDIS, John Lewis - "The Senate should halt NATO
expansion". In The New York Times, 27 de Abril de 1998.
10
MCCAIN, John - "An enduring peace built on freedom". In Foreign Affairs,
Washington DC. Vol. 86, N.º 6, Novembro-Dezembro de 2007, pp. 19-34.
11
MCCAIN, John - Senator McCain Addresses the Hoover Institution on U.S. Foreign
Policy. Arlington, 1 de Maio de 2007. [Consultado em: Janeiro de 2009].
Disponível em: www.cfr.publication/13252.
12
Esta tem sido uma das maiores preocupações dos analistas e políticos nos
últimos anos. Sobre a relação liderança/legitimidade, a questão é bem
equacionada no capítulo 1 de BRZEZINSKI, Zbigniew - Second Chance - Three
Presidents and the Crisis of American Superpower. Nova York: Basic Books, 2007.
13
Cf. WALT, Stephen M. - Taming the American Power - The Global Response to U.S.
Primacy. Nova York: W. W. Norton & Company, 2005, p. 225.
14
Cf. CHOLLET, Derek, e GOLDGEIER James - America Between the Wars - From 11/
9 to 9/11 - The Misunderstood Years Between the Fall of the Berlin Wall and the
Start of the War on Terror. Nova York: Public Affairs, 2008, p. 13.
15
Os artigos que consideram os modelos de liga idênticos, ou que nem sequer os
distinguem são diversos. Por exemplo: CAROTHERS, Thomas - "A league of their
own". In Foreign Policy. Washington DC. N.º 167, Julho-Agosto de 2008, pp. 44-
49; CAROTHERS, Thomas - Is a League of Democracies a Good Idea? Carnegie
Endowment for International Peace [Consultado em Janeiro de 2009]. Disponível
em: www.carnegieendowment.org/publications/index.cfm?fa=view&id=20135 ; KUPCHAN,
Charles A. - "Minor league, major problems - The case against a League of
Democracies". In Foreign Affairs. Washington DC. Vol. 87, N.º 6, Novembro-
Dezembro de 2008, pp. 96-109.
16
MCCAIN, John - "An enduring peace built on freedom", In Foreign Affairs.
Washington DC. Vol. 86, N.º 6, Novembro-Dezembro de 2007, pp. 19-34.
17
Cf. COOPER, John Milton - The Warrior and the Priest - Woodrow Wilson and
Theodore Roosevelt. Cambridge: Cambridge University Press, 1983, p. XIII.
18
Cf. DAALDER, Ivo, e GOLDGEIER James - "Global NATO". In Foreign Affairs. Vol.
85, N.º 5, Setembro-Outubro de 2006, pp. 105-113.
19
IKENBERRY, G. John, e SLAUGHTER, Anne-Marie (co-editores) - The Princeton
Project on National Security - Forging a World of Liberty under Law.
[Consultado em: Janeiro de 2009]. Disponível em: http://www.princeton.edu/
~ppns/report/FinalReport.pdf.
20
Cf. nota 15.
21
Daí a insistência na reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e
mesmo das lideranças do FMI e do Banco Mundial, ocupadas por dirigentes
europeus e americanos. Cf., por exemplo, FUKUYAMA, Francis - "The paradox of
international action". In The American Interest. Washington DC. Vol. 1, N.º 3,
Primavera de 2006, pp. 7-18.
22
GRANGE, Arnaud de la - "Russie, Chine: "L'axe do Non" face a l'Occident". In
Le Figaro, 29 de Agosto de 2008. Disponível em: http://www.lefigaro.fr/debats/
2008/08/29/01005-20080829ARTFIG00341-russie-chine-l-axe-du-non-face-a-l-
occident-.php.
23
ASH, Timothy Garton - "We friends of liberal international order face a new
global disorder". In The Guardian, 11 de Setembro de 2008. Disponível em: http:
//www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/sep/11/1.
24
Cf. GAT, Azar - "The return of authoritarian capitalists". In International
Herald Tribune, 14 de Junho de 2007. Disponível em: http://www.iht.com/
articles/2007/06/14/opinion/edgat.php.
25
Cf. MONTBRIAL, Thierry de - "Le nouveau système international". In Ramses
2009. [Consultado em Janeiro de 2009]. Disponível em: http://66.102.1.113/
translate_c?hl=pt-PT&sl=en&u=http://www.ifri.org/files/
RAMSES2009_Perspectives.pdf& prev=/
search%3Fq%3Drams%25C3%25A9s%2B2009%26hl%3Dpt-PT& usg=ALkJrhgeGBQ2qpt1sWRH0E_v-
NB_qCsF7A.
26
Cf. BROOKS, Stephen G., e WOHLFORTH, William C. - International Relations and
the Challenge of American Primacy. Princeton: Princeton University Press, 2008,
pp. 1 e 2. Ver indicadores recentes do poder norte-americano em relação ao de
potências emergentes em LUTTWAK, Edward - "The declinists, wrong again - The
Atlantic future of the 21st century". In The American Interest. Washington DC.
Vol. IV, N.º 2, Novembro-Dezembro de 2008, pp. 7-13.
27
Cf. BROOKS, Stephen G., e WOHLFORTH, William C. - "Reshaping the World Order -
How Washington Should Reform International Institution". In Foreign Affairs.
Washington DC. Vol. 88, N.º 2, Março-Abril de 2009, pp. 49-63.
28
Considera-se que as percepções são determinantes para a tomada de decisão.
(Cf. SCHWELLER, Randall L. - Unanswered Threats: Political Constraints on the
Balance of Power. Princeton: Princeton University Press, 2006, p. 38, e
ZAKARIA, Fareed - From Wealth to Power - The Unusual Origins of America's World
Role. Nova York: Princeton University Press, 1998, p. 24). Independentemente da
realidade factual, os líderes tomam decisões com base na sua imagem dos
acontecimentos internacionais - ainda que por vezes imperfeita. (JERVIS, Robert
- Perception and Misperception in International Politics. Princeton: Princeton
University Press, 1976, p. 3). Neste contexto, esta mudança de percepções, que
tem levado ao questionamento da ordem internacional, tem a maior importância,
independentemente de a China e a Índia estarem de facto muito longe dos Estados
Unidos no que respeita às capacidades materiais reais.
29
Cf. GORDON, Philip, e SHAPIRO, Jeremy - Allies at War: America, Europe and the
Crisis over Iraq. Washington DC: McGraw-Hill, 2004, p. 4.
30
No que se refere à China, ver por exemplo ZAKARIA, Fareed - The Post American
World. Nova York: W. W. Norton & Company, 2008, pp. 87 e segs. Numa outra
perspectiva, BURUMA, Ian - "China's dark triumph - The success of its economy
poses a serious challenge to liberal democracy". In Los Angeles Times, 13 de
Janeiro de 2008. Disponível em: articles.latimes.com/2008/jan/13/opinion/op-
buruma13. Quanto aos desafios colocados pela Rússia, cf. TREMIN, Dmitri -
"Russia leaves the West". In Foreign Affairs. Washington DC. Vol. 85, N.º 4,
Julho-Agosto de 2006.
31 Cf. por exemplo, SMITH, David - The Dragon and the Elephant: China, India
and the World Order. Londres: Profile Books, 2007.
32
Cf. KAGAN, Robert - "The end of History - Why the twenty first century will
look like the nineteenth". In The New Republic. Washington DC, 23 de Abril de
2008.
33
A doutrina Bush foi enunciada em BUSH, George W. - The National Security
Strategy of United States of America, 17 de Setembro de 2002. [Consultado em:
Dezembro de 2008]. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/nsc.pdf.
34
Cf. RICE, Condoleezza - "A balance of power that favours freedom", Manhattan
Institute 2002 - Walter B. Wriston Lecture. 1 de Outubro de 2002. [Consultado
em Janeiro de 2009]. Disponível em: http://manhattaninstitute.org/cgi-bin/apMI/
print.cgi. Ver também ALMEIDA, João Marques de - "Bushmarck". In Diário
Económico, 10 de Abril de 2007. [Consultado em: Janeiro de 2009]. Disponível
em: http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=5&ida=251.
35
DAALDER, Ivo, e LINDSAY, James - America Unbound - The Bush Revolution in
Foreign Policy. Washington DC: Brookings Institution Press 2003, p. 13.
36
Cf. IKENBERRY, G. John - After Victory - Institutions, Strategic Restraint and
the Rebuilding of Order After Major Wars. Princeton: Princeton University
Press, 2001, cap. 6 (pp. 163-214).
37
Cf. COOPER - The Warrior and the Priest - Woodrow Wilson and Theodore
Roosevelt, pp. 266 e 267.
38
Cf. KAGAN, Robert - Dangerous Nation - America's Place in the World from Its
Earliest Days to the Dawn of the Twentieth Century. Nova York: Alfred A. Knopf,
2006, p. 208.
39
Cf. RICARD, Serge - "The Roosevelt corollary". In Presidential Studies
Quarterly. Vol. 36, N.º 1, Março de 2006, pp. 17-26, p. 17.
40
Cf. LAFEBER, Walter - The New Empire - An Interpretation of American Expansion
1860-1898. Londres: Cornell University Press, 1963, pp. 3-4.
41
TUCKER, Robert W., e HANDRICKSON, David C. - "Thomas Jefferson and the
American foreign policy". In Foreign Affairs, Washington DC. Vol. 69, N.º 2,
Primavera de 1991, pp. 135-156, p. 157.
42
ZAKARIA, Fareed - From Wealth to Power - The Unusual Origins of America's
World Role, p. 170.
43
GADDIS, John Lewis - "Ending tyranny - The past and future of an idea". In The
American Interest. Washington DC. Vol. IV, N.º 1, Setembro-Outubro de 2008, pp.
7-15, p. 13.
44
Cf. MEAD, Walter Russell - God and Gold - Britain, America and the Making of
the World. Nova York: Knopf, 2008.
45
ROOSEVELT, Theodore - "Nobel Lecture". [Consultado em Janeiro de 2009].
Disponível em: http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/1906/
roosevelt-lecture.html.
46
Cf. ROOSEVELT, Theodore - "The Belgium tragedy". In Outlook, 23 de Setembro de
1914; "How to strive the world peace". In The New York Times, 4 de Outubro de
1914; "An international peace committee". In The New York Times, 8 de Novembro
de 1914.
47
COOPER - The Warrior and the Priest - Woodrow Wilson and Theodore Roosevelt,
p. 279.
48
Cf. HOLMES, James R. - Theodore Roosevelt and World Order - Police Power in
International Relations. Washington DC: Potomac Books, 2007, p. 124.
49
Ibidem, p. 69.
50
Cf. COOPER - The Warrior and the Priest - Woodrow Wilson and Theodore
Roosevelt, p. 268.
51
Cf. IKENBERRY, G. John - "Introduction: Woodrow Wilson, the Bush
Administration and the future of liberalism". In The Crisis of American Foreign
Policy: Wilsonianism in the Twenty First Century. Princeton: Princeton
University Press, 2008, pp. 1-24, p. 10.
52
DIAS, Mónica - "Uma visão intempestiva, um legado intemporal - Woodrow Wilson
e a irresistível tentação da paz democrática". In R:I. N.º 4, Dezembro de 2004,
pp. 33-44, p. 34.
53
MANDLEBAUM, Michael - "The inadequacy of American power". In Foreign Affairs.
Washington DC. Vol. 81, N.º 5, Setembro-Outubro de 2002, pp. 61-73.
54
Cf. IKENBERRY, G. John - "Introduction". In Liberal Order and Imperial
Ambition - Essays on American Power and World Politics. Cambridge: Polity
Press, 2006, pp. 1-18, p. 15.
55
LIND, Michael - The American Way of Strategy - U.S. Foreign Policy and the
American Way of Life. Oxford: Oxford University Press, 2006, p. 25.
56
KAGAN, Robert - The Return of History and the End of Dreams. Londres: Atlantic
Books, 2008, p. 4.
57
Ibidem, pp. 66-67.
58
Ibidem, p. 86.
59
MCCAIN - "An enduring peace built on freedom", p. 26.
60
Cf. REUTERS - "McCain would exclude Russia from G8 nations". [Consultado em
Novembro de 2008]. Disponível em: http://www.reuters.com/article/politicsNews/
idUSN1536962020071015?feedType=RSS&feedName=politicsNews& rpc=22& sp=true.
61
BOOT, Max - "True believer: TR, McCain, and conservatism". In World Affairs.
Washington DC. Outono de 2008. [Consultado em: Janeiro de 2009]. Disponível em:
http://www.worldaffairsjournal.org/2008%20-%20Fall/full-Boot.html.
62
ZAKARIA, Fareed - "The case for Barack Obama". In Newsweek, 27 de Outubro de
2008. [Consultado em Novembro de 2008]. Disponível em: http://www.newsweek.com/
id/164498.
63
Esta é a ideia subjacente a todo o argumento de Robert Kagan.
64
PICONNE, Ted, e HALPERIN, Morton H. - "League of democracies: doomed to
fail?". In International Herald Tribune, 11 de Junho de 2008 [Consultado em
Junho de 2008]. Disponível em: http://www.brookings.edu/options/2008/
0605_democracy_piccone.aspx?p=1.
65
Ver a distinção em ZAKARIA, Fareed - The Future of Freedom - Liberal and
Illiberal Democracy at Home and Abroad. Nova York: W. W. Norton & Company,
2003, pp. 17-18.
66
Cf. DONNELLY, Tom - "Empire of liberty: the historical underpinnings of Bush
doctrine". American Enterprise Institute for Public Research, Junho de 2005.
Disponível em www.aei.og; e KAGAN, Robert. - "Neocon nation: neoconservatism,
C. 1776". In World Affairs. Washington DC. Vol. 170, N.º 4, Primavera de 2008.
67
IKENBERRY, G. John, e KUPCHAN, Charles A. - "Liberal realism - The foundations
of a democratic foreign policy". In The National Interest. Washington DC. N.º
77, Outono de 2004, pp. 38-49.
68
Cf. AXELROD, Robert, e KEHOANE, Robert O. - "Achieving cooperation under
anarchy: strategies and institutions". In Neoliberalism and Neorealism - The
Contemporary Debate. Nova York: Columbia University Press, 1993, pp. 85-158.
69
Cf. KEOHANE, Robert O., e NYE Jr., Joseph - "Power and interdependence in the
information age". In Foreign Affairs. Washington DC. Vol. 86, N.º 6, Novembro-
Dezembro de 2007, pp. 19-34.
70
Cf. HAASS, Richard N. - The Opportunity - America's Moment to Alter the World
History's Course. Nova York: PublicAffairs, 2005.
71
Cf. ADLER, Emanuel, e BARNETT, Michael - "Security communities in a
theoretical perspective". In Security Communities. Cambridge: Cambridge
University Press, 1998, pp. 3-38.
72
O texto final aconselha a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas
de forma a que este reflicta a emergência de novas potências. Neste aspecto,
considera-se que o CS deve ser visto como um concerto de grandes potências,
como Franklin Roosevelt o considerava. (Cf. IKENBERRY, G. John, e SLAUGHTER,
Anne-Marie (co-eds.) - The Princeton Project on National Security - Forging a
World of Liberty under Law, p. 9).
73
Ibidem, p. 16.
74
Além das duas propostas referidas neste artigo, podem contar-se ainda a
Comunidade das Democracias - já instituída, mas sem resultados políticos
assimiláveis; as alianças bilaterais privilegiadas dos Estados Unidos com
outras democracias, desenvolvidas por George W. Bush durante o segundo mandato;
o modelo de alargamento da NATO a Estados fora do espaço euro-atlântico; e um
modelo que procura essencialmente promover o liberalismo internacionalista
humanitário como doutrina universal. É descrito em DAALDER, Ivo, e LINDSAY,
James - "Democracies of the world unite". In The American Interest. Washington
DC. Vol. II, N.º 9, Janeiro-Fevereiro de 2007, pp. 5-15.
75
Cf. CAROTHERS, Thomas - Is a League of Democracies a Good Idea?
* Mestra em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada. Assessora de
Estudos do IDN.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
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