História Internacional
História Internacional
Tiago Moreira de Sá
*
Witney Schneidman, Confronto em África, Washington e a Queda do Império
Colonial Português
Lisboa, Tribuna da História, 2005, 346 pp.
O livro Confronto em Áfricaanalisa a política de três administrações norte-
americanas ' John F. Kennedy, Lyndon B. Johnson e Richard Nixon ' no universo
da questão colonial portuguesa.
O maior interesse da obra reside na grande quantidade de informação que o autor
conseguiu obter através de uma extensa investigação nos arquivos norte-
americanos e da realização de mais de três dezenas de entrevistas a
protagonistas políticos do período histórico em questão. Já a sua grande
limitação radica na sua natureza quase exclusivamente descritiva, abdicando
Schneidman de extrair dos dados obtidos o quadro geral da estratégia de
Washington para Portugal entre 1961 e 1975, bem como as suas motivações.
O início do livro promete, apresentando algumas ideias fundamentais que, porém,
não são depois desenvolvidas no corpo do texto. Em primeiro lugar, o que
podemos designar de contornos dominantes da actuação dos Estados Unidos no
quadro do problema da África portuguesa, definidos pelo autor como «preocupação
constante relativamente aos interesses portugueses e um pequeno apoio às
aspirações africanas de autodeterminação» p. 35. Segundo, os constrangimentos
impostos à estratégia africana de Washington pela sua «defesa das posições
europeias em África»; ainda de acordo com Schneidman houve, entre os dois lados
do Atlântico, «uma divisão táctica da mão-de-obra no terceiro mundo» p. 35.
Finalmente, o dilema África ou Açores, ou seja, como escreveu o autor, «no caso
de Portugal e das suas colónias africanas a política norte-americana acabou
igualmente por revestir a forma de uma competição entre, por um lado, a
manutenção do acesso aos Açores e, por outro, fazer pressão sobre Lisboa para
descolonizar» (p. 29).
Segue-se o capítulo consagrado à Administração Kennedy e à mais grave crise nas
relações luso-americanas desde a II Guerra Mundial em consequência de uma
alteração de fundo na política dos Estados Unidos para o Terceiro Mundo, com
reflexos na África portuguesa. Preocupado com o «espectro dos frágeis governos
africanos a ruir sob o peso dos insurrectos comunistas», Kennedy definiu como
prioridade «conquistar os corações e mentes dos povos do terceiro mundo», quer
contribuindo para o desenvolvimento dos países recentemente independentes, quer
apoiando a luta pela autodeterminação daqueles que ainda se encontravam sob o
governo de potências europeias, como era o caso das colónias portuguesas.
A Administração de Lyndon Johnson, à qual é dedicada a parte seguinte da obra,
também reconheceu a importância da questão africana, mas, como escreveu
Schneidman, «a urgência para intervir desapareceu». A aposta interna no
projecto da «Grande Sociedade», o crescente envolvimento no Vietname e a falta
de actividade soviética e chinesa em África durante uma boa parte do mandato de
Johnson levaram a que a política americana para África fosse «remetida para uma
nota de rodapé».
Já a Administração de Richard Nixon reviu a política dos Estados Unidos para a
África Austral num sentido favorável a Portugal e aos regimes dominados pela
minoria branca da África do Sul e Rodésia. Na base desta mudança esteve um
estudo de um grupo interdepartamental criado pelo NationalSecurity Memorandum
39 sobre os interesses dos Estados Unidos para a África Austral que concluiu
pela seguinte premissa: «Os Brancos estão para ficar e a única via de mudança
construtiva é através deles. Não há esperança de os negros ganharem os direitos
políticos que desejam através da violência; e essa só levará ao caos e
aumentará as oportunidades dos comunistas». Consequentemente, no essencial, a
política de Nixon e Kissinger para a África Austral traduziu-se numa acomodação
ao status quo, isto é, por uma atitude coincidente com as pretensões
portuguesas.
A última parte do livro de Witney Schneidman é dedicada à descolonização de
Angola e à vitória soviética no Confronto em África.Esta é pelo menos a
conclusão do autor que revela a este respeito o conteúdo de uma conversa entre
Henry Kissinger e Brejnev durante o encontro entre ambos em Moscovo, em finais
de Janeiro de 1976, que pelo seu significado importa transcrever parcialmente:
«O principal objectivo de Kissinger era saber se seria possível concluir mais
um acordo SALT com a União Soviética em 1976. [ ] Outro objectivo era convencer
Moscovo a reduzir o seu envolvimento em Angola. [ ] Porém, nas negociações em
Moscovo, Brejnev não se deixou demover pelas pressões de Kissinger sobre
Angola. O líder soviético recusou-se a abordar a questão quando Kissinger falou
no assunto. Brejnev insistiu que os combates em Angola eram uma guerra de
libertação nacional e, como tal, não eram relevantes para a détente» (pp. 285
e 286).
Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa 1959-1976
Chapel Hill,University of North Carolina Press, 2002, 576 pp.
A par com Odd Arne Westad, Piero Gleisejes é um dos melhores especialistas na
questão da Guerra Fria no Terceiro Mundo, constituindo o seu livro
ConflictingMissions: Havana, Washington and Africa 1959-1976uma referência
obrigatória nesta área de estudos.
Centrado fundamentalmente no papel desempenhado por Cuba em África, muito em
particular no Congo Belga (Zaire) e em Angola, a obra tem como ponto forte a
profunda investigação levada a cabo nos arquivos cubanos até então quase
completamente inacessíveis, o que permitiu ao autor o acesso a documentos
inéditos que possibilitam compreender o papel desempenhado pelos cubanos no
apoio aos movimentos nacionalistas africanos, com especial relevo para aqueles
que combatiam Portugal.
O trabalho de Gleisejes revela que o envolvimento de Cuba em África começou
apenas dois anos após a ascensão ao poder de Fidel Castro, nomeadamente na
Argélia, utilizando então como modelo preferencial a exportação de médicos e
professores. O início dos anos de 1960 marcou a primeira escalada da Guerra
Fria no continente africano com o envolvimento de diversas potências
estrangeiras na guerra civil que se seguiu à independência do Congo Belga,
coincidindo com este acontecimento a extensão da acção cubana na África
subsariana. Neste âmbito, é particularmente interessante a descrição
pormenorizada da missão de Che Guevara no Zaire, confirmando o livro o empenho
cubano no auxílio às forças pró-comunistas do território.
Em seguida, Fidel Castro deslocou a sua atenção para o território português da
Guiné-Bissau, tendo começado a apoiar o PAIGC em finais de 1960, inclusive com
material militar. De sublinhar que, segundo o autor, Cuba estava a «levar a
cabo a sua própria política na Guiné», isto é, não actuava como «potência de
procuração» da URSS (p. 212). Porém, segundo documentos recentemente revelados
os «bons ofícios» cubanos parecem ter desempenhado um papel-chave na decisão
soviética de conceder mísseis terra-ar ao PAIGC que, desempenharam um papel
primordial na alteração estratégica da guerra.
Mas a parte mais importante do livro é consagrada à intervenção cubana na
guerra civil de Angola, à qual de resto Gleisejes dedica os últimos sete
capítulos. E aqui as confirmações e as revelações são abundantes, o que se
explica pela elevada quantidade de documentos inéditos a que o autor teve
acesso, bem como pelo número impressivo de entrevistas realizadas a
protagonistas cubanos, angolanos e portugueses. A narrativa da «aventura
africana de Cuba», que se lê com avidez, conta a história do período que vai
desde o início do envolvimento de Havana em Angola até à vitória final cubano-
soviética, passando pela «Operação Carlota». Ficamos a saber que as autoridades
portuguesas no território, com Rosa Coutinho à cabeça, tiveram conhecimento
desde o início da acção cubana; também que a URSS não apoiou inicialmente a
decisão de Fidel Castro de avançar militarmente para o território angolano, só
o fazendo a partir da terceira semana de Outubro de 1975; e ainda que a mudança
soviética foi determinada pela intervenção da África do Sul em Angola, o que
teve igualmente como consequência o fim da oposição de vários países africanos
a um envolvimento directo de Moscovo em Luanda.
ConflictingMissionsé assim um excelente livro. Porém, dificilmente pode ser
considerado totalmente neutro, o que é parcialmente explicável pela
preponderância das fontes de arquivos cubanas (ainda que o autor tenha
consultado também os documentos norte-americanos).
* Doutor em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Investigador no IPRI –
UNL. Autor dos livros Os Americanos na Revolução Portuguesa (2004) e, com
Bernardino Gomes, Carlucci vs. Kissinger. Os EUA e a Revolução Portuguesa
(2008).
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