O fenómeno da guerra no nosso século
São inúmeras as questões que têm captado a atenção de várias gerações de
estudiosos das relações internacionais e da estratégia, como por exemplo:
• O que é e por que razão surge a guerra?
• Quais são as tipologias da guerra?
• Como se pode caracterizar a guerra na actualidade?
• Que modalidades de guerra tenderão a prevalecer?
• Qual o posicionamento da entidade Estado como estrutura política no novo
contexto internacional?
• O uso da força nas relações internacionais ainda é útil?
• Porquê, e por quem é a segurança dos estados e das pessoas ameaçada?
• Que estratégias adoptar para enfrentar essas ameaças?
Procurando encontrar respostas a estas questões, articulámos este artigo em
oito capítulos distintos mas inter-relacionados. Ao longo do texto traçaremos
uma perspectiva das transformações ocorridas nos conflitos armados e
caracterizaremos as principais ameaças à segurança, procurando mostrar a
ligação entre estas e a guerra no nosso século. Caracterizaremos ainda as
guerras de alta tecnologia, findando com uma abordagem da civilinização da
actividade militar e o importante papel desempenhado pelas empresas militares
privadas. Esta análise permite-nos, desde logo, verificar a profunda evolução
do fenómeno da guerra. De facto, evoluiu-se de um modelo essencialmente
clausewitziano para um modelo de guerra irregular, global, assimétrica e
permanente, sem uma origem clara e que pode surgir em qualquer lugar.
AS GUERRAS NO NOSSO SÉCULO – UMA PERSPECTIVA
A conjuntura internacional sofreu profundas alterações após a queda do Muro de
Berlim e sobretudo após o 11 de Setembro. No actual sistema internacional
caracterizado pela sua complexidade, não linearidade, imprevisibilidade,
heterogeneidade, mutabilidade e dinamismo, a ameaça, que mantinha coordenadas
de espaço e de tempo bem definidas, desapareceu, dando lugar a um período de
anormal instabilidade, com uma ampla série de riscos e perigos, uns novos,
outros antigos, que apenas subiram na hierarquia das preocupações dos estados.
A comunidade internacional, habituada a um equilíbrio pelo terror do holocausto
nuclear, foi assim forçada a reconhecer que para além do Estado existiam outros
actores que empregavam a força como instrumento nas relações internacionais,
situação que apesar de não ser nova influenciaria decisivamente o fenómeno da
guerra a partir da última década do século XX.
Hoje a violência global é assimétrica e permanente, não tem uma origem clara e
pode surgir em qualquer lugar. Para muitos, trata-se de uma situação típica do
mundo tendencialmente unipolar do ponto de vista do esforço militar1.
A actual conjuntura internacional, onde o papel do Estado soberano está em
crise, também se caracteriza pela flexibilização do conceito de fronteira e
pela aceitação de situações de cidadanias múltiplas e de governança partilhada.
De uma maneira muito genérica, é comum classificar as guerras como regulares ou
convencionais e irregulares ou não convencionais. Como guerras regulares
consideramos os conflitos que obedecem ao modelo clausewitziano. Nesse sentido,
nas guerras irregulares ou não convencionais participam outros e novos actores
para além dos definidos por Clausewitz e não envolvem forças armadas num campo
de batalha, nem recorrem a operações tradicionais no mar e no ar.
As guerras contemporâneas, acentuadamente depois de 1945, tornaram-se cada vez
menos entre estados e passaram a contemplar outros actores, infra-estatais, que
perseguem múltiplos e diversos objectivos, que obedecem a lógicas e a racionais
também diferentes, verificando-se uma extrema plasticidade dos seus actuantes,
assemelhando-se muitas vezes a uma luta pela sobrevivência, sem regras, sem
objectivos claramente definidos. Os estados podem entrar em guerra contra uma
rede terrorista, uma milícia, um movimento independentista, um exército rebelde
ou ainda contra o crime organizado. As guerras irregulares podem também ser
travadas entre dois ou mais grupos organizados, não envolvendo nenhum Estado.
No caso dos países menos desenvolvidos, onde são inúmeros os estados que jamais
foram capazes de se afirmar face a outras entidades sociais, tem-se observado
que, no decorrer de confrontações violentas, a distinção entre Estado, Forças
Armadas e população começou a esbater-se antes mesmo de ter sido correctamente
estabelecida2.
Consideramos neste artigo duas aproximações fundamentais para caracterizar as
guerras no nosso século, sejam elas regulares ou irregulares. A primeira
procura o entendimento de fenómenos como as "novas guerras" e as
"novas ameaças", a segunda dedica-se ao estudo das implicações das
guerras-espectáculo, possibilitadas pelas forças da revolução militar em curso
(RMC), que têm por base os enormes avanços da tecnologia.
Seja qual for a abordagem, existe consenso quanto ao facto de neste século as
guerras se desenvolverem num mundo assimétrico, com fortes desequilíbrios
quantitativos e qualitativos e onde surge um novo e discreto instrumento de
intervenção, as empresas militares privadas (EMP).
Na História existiram as estruturas tribais, as estruturas feudais, as
associações religiosas, os bandos de mercenários ao serviço de senhores da
guerra, e mesmo organizações comerciais. Muitas destas entidades não eram
sequer políticas nem detentoras de soberania. Não possuíam governo, forças
armadas nem população (no sentido actual do termo), mas defrontavam-se em
guerras e campanhas bem organizadas.
O mundo está a enfrentar uma situação de neomedievalismo
3
, ou mesmo um eventual regresso ao primitivo, favorecendo o falhanço do Estado
e o crescimento da violência internacional não estatal, em casos extremos,
privatizada4, perdendo o Estado o uso exclusivo da força.
Passou a haver uma desmilitarização da guerra, no sentido em que os objectivos
civis não se distinguem dos militares e a violência extrema é exercida contra
não-combatentes e sobre todos os domínios da vida social
5
. Nestas novas guerras usam-se profusamente crianças-soldados.
No fundo, a violência ascendeu aos extremos a que Clausewitz
6
se referia, e o que separa a guerra da barbárie é a existência do conceito da
honra do guerreiro7.
Tendo em consideração que os actores deste tipo de conflito são outros, o seu
carácter teve de evoluir: são guerras irregulares, estrutural ou
temporariamente assimétricas, sem frentes, sem campanhas, sem bases, sem
uniformes, sem respeito pelos limites territoriais, de objectivos fluidos, de
combate próximo, estando os combatentes misturados com a população que utilizam
como escudo e, se necessário, como moeda de troca. Os seus pontos fortes estão
na inovação, na surpresa e na imprevisibilidade, onde os fins justificam os
meios, empregando por vezes o terror; onde o estatuto de neutralidade e a
distinção civil/militar desaparecem.
Estas guerras de hoje não são apenas mais comuns do que no passado, mas são
também estrategicamente mais importantes e desenvolvem-se em teatros de
operações urbanos; são travadas, essencialmente, em ambiente operacional de
cariz subversivo.
A LUTA URBANA
A luta urbana não é uma técnica nova. Assim foi na América Latina, onde no
final da década de 1960, o centro de gravidade da luta subversiva passou do
campo para a cidade, o que rapidamente originou uma nova doutrina de guerrilha
urbana. No Brasil destacaram-se guerrilheiros urbanos como Carlos Lamarca e
Carlos Marighella. Na selva de cimento do Uruguai, os Tupamaros, na Argentina
os Montoneros e no Peru o Sendero Luminoso. As acções subversivas em ambiente
urbano surgiram ainda, entre outros países, na Itália (Brigate Rosse), na
Alemanha (Baader-Meinhof), em França (Action Directe) e no Japão (Nihon
Sekigun).
Todas desafiaram a integridade política e socioeconómica dos seus países,
criando um clima de instabilidade e de insegurança individual e colectiva
8
, seguindo um processo doutrinário comum de três fases típicas da subversão
urbana: organização, desordem civil e terrorismo, procurando sempre a repressão
violenta do poder9.
No fundo, o aparelho do Estado devia ser desmoralizado, parcialmente
paralisado, destruindo-se assim o mito da sua invulnerabilidade e ubiquidade.
As populações rurais, motivadas pela fome, pela pobreza e pelas guerras,
refugiam-se ou imigram para os grandes centros urbanos, que crescem
desreguladamente. Essas comunidades migrantes vão instalar-se nas favelas,
bairros de lata, das cinturas suburbanas em condições sub-humanas. Neste
ambiente encontram terreno para emergir as mais diversas formas de subversão,
como os gangs de rua
10
que ajustam as suas tácticas e estratégias, no bom reconhecimento de que o
centro do poder político-económico-militar está na conurbação, que o poder pode
e deve ser atacado na sua sede e não na periferia11.
Tal como na guerrilha rural, nas selvas de zinco e adobe, os combatentes que se
misturam com a população com mais facilidade conseguem a cobertura dos media,
mostrando a incapacidade do poder para a proteger12. Neste pano de fundo, a
subversão acaba por controlar uma determinada área e estabelecer formas
alternativas de poder, beneficiando os seus seguidores com a prestação de
alguns apoios (incluindo a distribuição de alimentos).
São bons exemplos de subversão urbana as actuações do Primeiro Comando da
Capital no Brasil a partir de 2001, os motins urbanos que ocorreram em Los
Angeles em 1992, os movimentos urbanos, como as manifestações e formas de
"acção directa anti-hegemónica" da "esquerda festiva",
em 1999, em Seattle, e, mais recentemente, em Paris em Novembro de 2005, ou
ainda os levantamentos populares pró-democracia ocidental e liberal na Europa
Central e de Leste. Todas estas actuações aproveitaram muito o sensacionalismo
dos media.
AS NOVAS AMEAÇAS À SEGURANÇA E A GUERRA
A guerra hoje em dia aparece-nos muito associada às novas ameaças
transnacionais. Assim devemos antes de mais esclarecer o que hoje se entende
por novas ameaças, sabendo-se que reflectem numerosas alterações políticas,
económicas e sociais ocorridas no mundo desde a queda do Muro de Berlim e
sobretudo no pós-11 de Setembro de 2001.
Tradicionalmente, uma ameaça é definida como um qualquer acontecimento ou acção
(em curso ou previsível), de variada natureza, proveniente de uma vontade
consciente e inteligente e que impede a consecução de determinados objectivos;
no fundo, o produto de uma capacidade por uma intenção.
Porém, este conceito, por não ser suficientemente abrangente, apresenta hoje
difíceis problemas quando procuramos precisar o que compreende; além do mais,
não permite a inclusão das consideradas ameaças não tradicionais à segurança
como é o caso da sida. É fácil observar que esta pandemia não é uma ameaça na
concepção clássica, estruturalmente identificável num produto de uma capacidade
por uma intenção. Por outro lado, também não parece possível entendê-la como um
risco, que durante longas décadas se opôs ao conceito de ameaça, entendido como
acção não directamente intencional e eventualmente sem carácter intrinsecamente
hostil13.
Face à multiplicidade de conceitos sobre o assunto, neste estudo optámos por
adoptar a definição de ameaça transnacional do relatório das Nações Unidas, A
More Secure World: Our Shared Responsability, que admite uma concepção bastante
ampla de ameaça, encarada como: "Qualquer acontecimento ou processo que
conduza a mortes em larga escala ou diminua as condições de vida e ponha em
causa o papel do Estado como a unidade básica do sistema internacional é uma
ameaça à segurança nacional […]."
14
Nesta ordem de ideias, consideramos como principais ameaças relacionadas com a
nova conflitualidade: o fracasso dos estados, o crime organizado transnacional,
o terrorismo transnacional e a pandemia da SIDA.
O FRACASSO DO ESTADO E A SUBVERSÃO
São vários os elementos constitutivos do Estado, como o território, o povo e o
poder político soberano, competindo-lhe tradicionalmente garantir a prossecução
dos seus fins de segurança, justiça e bem-estar social. Na definição
tradicional de Jean Bodin, o Estado é supremo na ordem interna e independente
na ordem externa, ou seja, decide por si mesmo como irá enfrentar os seus
problemas internos e externos, incluindo se quer ou não procurar a assistência
de outros e, ao fazê-lo, limitar a sua liberdade chegando a compromissos com
eles.
Os conceitos que nos aparecem associados à definição de estados fracassados são
inúmeros, bem como diversos são os seus critérios de classificação, sejam eles
indicados por académicos de renome como Fukuyama ou Zartman, ou ainda
institucionais como a usaid e, no caso nacional, o documento "Nova Visão
Estratégica para a Cooperação Portuguesa".
Porém, entendemos operacionalizar um conceito como instrumento útil. Assim,
dentro do conceito de Estado fracassado, latu censu, inserem-se três categorias
que nos aparecem de uma forma gradativa:
• Como "Estado fraco" entendemos aquele cujos órgãos de soberania e
as suas instituições não conseguem exercer a sua actividade plena em toda a
extensão do território, são incapazes de garantir os serviços básicos à
população e, perante esta, são tidos como ilegítimos. Muitos dos que ocupam ou
ocuparam posições de relevo na sua administração, ou seja, a sua elite
política, têm uma visão patrimonial do Estado, transformando-se, no fundo, em
gestores de "um complexo sistema de relações sociais, que premeia o
indivíduo em função da lealdade, punindo os tidos por des-leais ou por
competidores)"15.
• "Estado falhado", e numa escala de insucesso superior, é aquele
que na ordem interna não tem o monopólio da legítima violência, que Weber16 nos
falava, ou seja, surgem outras entidades, como milícias, exércitos privados ou
uma qualquer organização subversiva, nas suas variadas tipologias, que competem
com o poder formal, por vezes controlando partes significativas do território e
da sua população.
• O "Estado colapsado" aparece-nos no topo desta escala crescente
de inviabilidade do Estado, onde o poder formal simplesmente não existe, os
órgãos de soberania e as instituições num determinado território, que no
passado já possuiu os atributos tradicionais de um Estado, colapsaram; ou seja,
no caos jurídico, legislativo e administrativo prevalece a lei do mais forte,
surgindo ou subsistindo diversas formas de organização social e comunitária,
que possuem capacidade de exercer a força e conduzir operações armadas, que
competem entre si pelo controlo de território e pelo acesso a recursos, e que
controlam e exercem alguma forma de responsabilidade social sobre as populações
residentes.
TIPOLOGIA SUBVERSIVA LUMPEN
Os movimentos lumpen são bandos armados ligeiramente organizados, de estrutura
informal e horizontal, que podem emergir e obter sucesso contra um Estado
fraco. A sua energia irradia da rua e não pelo desenvolvimento intelectual de
uma ideologia, a actuação armada precede a conceptualização dos motivos, em vez
de emergir deles, e é realizada sobretudo em áreas rurais. A disciplina assenta
na brutalidade extrema, com utilização profusa de estupefacientes e de bebidas
alcoólicas, onde o apoio da população surge pela mera questão de sobrevivência,
uma vez que os elementos das unidades lumpen sistematicamente agridem e
exploram as populações; a pertença ao grupo, para além da sobrevivência, é uma
questão de identidade, sendo o recrutamento forçado17. A Frente Unida
Revolucionária da Serra Leoa é um bom exemplo.
TIPOLOGIA SUBVERSIVA ETNOLINGUÍSTICA
A base etnolinguística para a organização social surge em locais como a Somália
e o Afeganistão. A organização é definida pelos laços familiares das estruturas
que podem ser mobilizadas para o conflito em estruturas armadas primitivas e
que são capazes de efectuar pequenas acções, contudo, não um combate
sustentado; são muito idênticas na actuação às forças lumpen, lutando sobretudo
por recursos e, cada vez mais, numa perspectiva de enriquecimento. No entanto,
as lealdades assentam na genealogia e a pertença não é uma opção; uma unidade
de combate de um grupo etnolinguístico é organizada numa estrutura tradicional,
onde as decisões são deliberações dos mais velhos que desempenham um papel de
relevo. A sua perenidade deve-se à necessidade individual de sobrevivência.
As suas forças são a manifestação da sua cultura e apresentam poucos vestígios
de doutrina de insurreição ou de organização em estado-maior, e a liderança é
indicada pelos membros, de onde lhe advém o ascendente pelos pares e a boa
aceitação pelos mais velhos, de quem dependem na angariação de fundos e
recrutamento18.
TIPOLOGIA SUBVERSIVA POPULAR
As forças populares distinguem-se das lumpen e das etnolinguísticas pela sua
ideologia mais elaborada e pela proximidade das populações que apoiam essa
ideologia, tendendo para uma organização armada mais consolidada. Na forma
tradicional, podemos dizer que têm um período pré-insurreccional e um
insurreccional. Surgem de uma organização em segredo que pode evoluir e
conduzir operações prolongadas no tempo. A sua estrutura é celular e tendem a
adquirir uma componente política autónoma em relação à militar. Um exemplo é o
dos movimentos independentistas, como aqueles que o poder português enfrentou
em África.
O fracasso do Estado pode e deve ser relacionado com as outras ameaças aqui
referidas, pois, não possuindo poder, estes ficam permeáveis a que dentro de si
germinem e se desenvolvam as mais diversas formas de terrorismo e de
criminalidade organizada. Esta combinação pode comprometer ainda mais a já de
si frágil existência destes países como realidade política.
O TERRORISMO TRANSNACIONAL
Nos Estados Unidos o entendimento do fenómeno do terrorismo após o 11 de
Setembro de 2001 foi sujeito a revisão na sequência do aparecimento de
estratégias de desestabilização globais e mais radicais. O seu potencial foi
acrescido quer pelo grau de violência, quer pela capacidade organizativa.
Surgiram novas estratégias de recrutamento
19
, e deu-se a privatização da sua actividade
20
. O fenómeno sofreu também uma alteração qualitativa e passámos a falar do
ciberterrorismo, do bioterrorismo, do ecoterrorismo, do terrorismo químico e
mesmo do nuclear.
O terrorismo transnacional procura atingir os pontos mais críticos de
convergência entre a sociedade e o aparelho do Estado e está mais vocacionado
para desgastar o poder que desafia, ou para promover a sua rejeição, do que
para o derrubar, procurando forçar um comportamento repressivo, logo
comprometedor, e demonstrar a constrangedora ineficácia da prevenção
21
. Para além da espectacularidade dos efeitos das suas actuações (concepção e
execução dos actos materiais em si mesmos), procura a ressonância publicitária
junto da opinião pública, bem como os efeitos psicológicos causados nos alvos.
Hoje, a face visível do terrorismo transnacional é bin Laden e a Al-Qaida,
organização armada de estrutura adaptativa complexa, que possui intenções,
objectivos, financiamento e recrutamento globais e que é apoiada por vastas
camadas populacionais que partilham a mesma ideologia ou religião.
A Al-Qaida, ou aquilo que ela representa no nosso imaginário, apresenta uma
maleabilidade, uma plasticidade e um oportunismo nas suas ligações, efectuando
sempre alianças coerentes mas sobretudo convenientes, juntando grupos que
pretendem a derrota do inimigo longínquo, o Ocidente e Israel, com grupos que
apenas pretendem a autonomia local22.
Ao certo, o que podemos considerar é que actualmente aquela
"organização" funciona cada vez mais como uma confederação23 que
congrega um conjunto de redes, com uma dimensão e estrutura variáveis,
complexas e flexíveis, que gere e utiliza diversos centros de apoio espalhados
por aproximadamente sessenta países24, apoiando-se os grupos radicais
mutuamente, constatando-se ainda a existência de uma rede de solidariedade
activa que se estende da Tchetchénia ao Sudão, passando pelas Filipinas, pela
Somália, pela Malásia e pela Indonésia, e igualmente pela Europa, onde possui
uma muito elevada interoperacionalidade em domínios como a recolha de fundos, o
recrutamento e a aquisição de material não letal25.
Esta estrutura, cuja trajectória político-operacional é, do médio prazo para
diante, uma incógnita26, parece assim estar a evoluir para uma maior
descentralização, num conjunto de redes de base regional27, formando uma
"rede de redes", demonstrando uma capacidade de actuação global,
atacando inclusivamente o coração de grandes poderes, como fez em Nova York,
Madrid e Londres, conseguindo sobreviver a intensas contramedidas
28
. A sua capacidade de sobrevivência advém-lhe da desterritorialização, mas em
nosso entender vem-lhe sobretudo da sua capacidade de aprendizagem
organizacional.
A fim de sustentar o terrorismo e os seus objectivos, a Al-Qaida conseguiu
construir uma complexa teia de apoios e instrumentos políticos, religiosos
económicos e financeiros.
As principais fontes de apoio são os estados, diásporas, guerrilhas exteriores,
refugiados, organizações religiosas e de caridade, instituições bancárias, ONG,
personalidades com fortuna pessoal, o Zakat, o Sadaqah, e inclusive grupos de
activistas de direitos humanos. Para angariar fundos, a
"organização" mantém-se também associada a toda a espécie de
actividades ligadas às organizações criminosas transnacionais (OCT).
Os motivos de apoio são variados. Os estados são mais motivados por questões
geopolíticas do que por afinidades étnicas, ideológicas, ou religiosas. Em
contraste, as diásporas apoiam sobretudo por motivos étnicos e os refugiados
são normalmente motivados pelo desejo de regressar a casa e restaurar as suas
vidas e da sua nação em determinado território
29
. As formas de apoio vão do político nos fora internacionais e junto das
grandes potências, ao simples encorajamento para a subversão do poder, passando
pelo tradicional apoio financeiro, material, de intelligence, acabando no
santuário, no treino ou mesmo em apoio militar directo.
Como uma organização que se modifica e adapta constantemente, procurando novas
formas de evitar a detecção ou de os seus membros serem capturados, a Al-Qaida
tem procurado a surpresa e a exposição mínima, recrutando operacionais oriundos
não só de países muçulmanos mas também de países como a Grã-Bretanha, a França,
a Austrália e os próprios Estados Unidos.
O recrutamento é efectuado essencialmente de duas formas, as quais podemos
designar por recrutamento directo e recrutamento indirecto.
No recrutamento directo o contacto com os elementos a recrutar é feito
directamente e incide sobretudo em jovens previamente sondados e persuadidos,
facilmente manipuláveis, sendo por isso a forma de recrutamento mais eficaz. O
recrutamento indirecto engloba todos os processos utilizados para integrar
novos membros, sem que exista uma abordagem inicial, nem contacto ou interacção
directa entre a entidade recrutadora e o elemento a recrutar. Aqui, a actuação
cinge-se ao campo das emoções, sendo utilizados os conhecimentos das leis da
psicologia, da psicossociologia a da psicotecnologia para influenciar crenças e
sentimentos.
Destes processos os mais conhecidos são a divulgação de cassetes de vídeo,
produzidas por apoiantes de bin Laden, e onde surgem imagens do próprio, além
de propaganda sobre o estado do mundo muçulmano, das causas desse estado e a
solução para o mesmo, que não é senão a "guerra sagrada" contra os
infiéis. Também a internet se tornou um novo meio de recrutamento e treino dos
novos elementos, de captação de fundos e recursos, de divulgação e
reivindicação das suas acções e de comunicação, tudo isto com facilidade de
acesso e a possibilidade de anonimato quase garantida, mesmo com a intensa
vigilância a que esta rede está agora sujeita.
Uma vez que o terrorismo transnacional tem intenções, objectivos, recrutamento
e organização globais, consideramos o fenómeno como uma acção subversiva
global.
O CRIME ORGANIZADO TRANSNACIONAL
As oct possuem objectivos de lucro muito bem definidos, uma capacidade de
planea-mento ao nível estratégico e de condução de conflitos armados,
envolvendo um inimigo ou uma rede de inimigos, socorrendo-se muitas vezes das
mais modernas tecnologias
30
, desenvolvendo a sua actividade pela criação de um ambiente subversivo, não
visando, por norma, a tomada técnica do poder.
Hoje, das diversas actividades a que o crime organizado transnacional se
dedica, o tráfico de estupefacientes é uma das mais rentáveis. Com as verbas
geradas as oct adquirem um nível de poder que compete com o dos estados.
Exprimem-no pela capacidade de criar diversas formas de instabilidade nos
países onde operam, instabilidade de amplo espectro, da social à económica, da
política à psicológica. Ao mesmo tempo, tentam conquistar indirectamente o
poder político pela corrupção dos seus órgãos de soberania e dos funcionários.
Por outro lado, com a finalidade de intimidar o poder instituído de forma a
garantirem completa liberdade de acção nas suas actividades criminosas, certos
grupos, como o Mara Salvatrucha, estão dispostos a usar elevados níveis de
violência armada31 e, tal como já acontece na Bolívia e na Colômbia, chegam a
administrar partes significativas de um determinado território, assumindo para
si os fins de segurança, bem-estar social e por vezes até de administrar a
justiça, substituindo-se plenamente ao Estado, colocando ao mesmo tempo os
conceitos tradicionais de soberania e integridade territorial em causa.
As oct associadas aos conflitos armados que surgem no contexto da globalização,
também têm uma dimensão económica quer na origem, quer nas consequências. São
ainda indivisíveis do que é criminal, que passa para além das fronteiras e
envolve -regiões inteiras, misturando numa rede económica informal o saque
e a pilhagem, o tráfico de seres humanos, de armas e narcóticos, as
contribuições de imigrantes, os "impostos" sobre assistência
humanitária, tudo a viver da insegurança, da guerra, carecendo da continuação
do conflito.
Foram diversas as organizações revolucionárias que criminalizaram as suas
actividades, pondo assim um pouco à parte a vertente ideológica do conflito e
transformando-se em narcoguerrilhas. Porém, este envolvimento, que inicialmente
seria apenas para o financiamento, pode ser depois o próprio motor da guerra.
A criminalização pode também afectar as forças armadas que ou se deixam
corromper entrando numa lógica de enriquecimento pessoal (narcocorrupção), ou
então utilizam os fundos para financiar as suas actividades. Esta situação
acaba por prolongar os conflitos, uma vez que a eliminação das narcoguerrilhas
provocaria também o desaparecimento de uma boa fonte de rendimentos dos poderes
instituídos32.
A SIDA
A infecção por HIV/SIDA representa uma pandemia global, da qual se conhecem
casos em todos os continentes. Desde 1981 já provocou a morte de
aproximadamente 22 milhões de pessoas, deixando 13 milhões de crianças órfãs,
provocou mais baixas do que qualquer conflito armado ocorrido no século XX,
incluindo qualquer uma das Grandes Guerras, e a tendência é para o agravar da
situação. Actualmente, há cerca de 40 milhões de portadores do vírus, ou seja,
HIV positivos.
Podemos comparar a sua progressão à das divisões Panzer do general Guderian,
com a Blietzkrieg. Simplesmente, agora esta progressão é profundamente marcada
por um carácter distintivo e único, na história da humanidade quer pela
extensão da sua propagação, quer na morte que consigo transporta. A progressão
é contínua, global, sem escolher raça nem credo, latitude nem longitude, nem
condição social. O seu poder de destruição estende-se a toda a comunidade. No
epicentro do fenómeno encontramos o continente africano.
A SIDA afecta o Estado como um todo, corroendo, à medida que alastra, as bases
da sociedade, o indivíduo, a família e a própria comunidade. A doença está a
devastar os postos de trabalho ocupados pelos membros mais produtivos da
sociedade. A sua progressão faz-se sentir nas áreas governamental, económica e
de desenvolvimento social, com a agravante de que estes elementos mais
produtivos, das classes média e alta, dificilmente são substituídos.
O fenómeno também incrementa as necessidades orçamentais e as taxas de apoio
social, desencorajando o investimento estrangeiro. A força de trabalho fica
assim reduzida, o que provoca a queda em flecha dos ganhos, sobretudo nos
países mais debilitados ou em desenvolvimento. No final do século XX, a Central
Intelligence Agency previa que os efeitos desta pandemia tivessem um impacto na
economia africana que conduzisse a uma redução do PIB em cerca de 20 por cento,
apenas numa década (até à data, estes dados ainda não foram confirmados). No
fundo, o impacto é global e funciona como desestabilizador social, securitário
e económico.
Dos países africanos com maior incidência de SIDA mais de metade está envolvida
em conflitos armados. As estatísticas também são claras no que diz respeito aos
militares contaminados com o HIV. São aproximadamente cinco vezes superiores
aos civis e em períodos de guerra este valor cresce para cinquenta vezes mais.
A situação é de tal maneira grave que muitas vezes as forças armadas são mesmo
o principal grupo de contaminados. Trata-se, sem dúvida, de uma situação que
leva a que, nalguns casos, seja esta a principal causa de baixas. Além do mais,
como a SIDA não escolhe postos, há consequências importantes nas cadeias de
comando, na capacidade das Forças e mesmo na sua coesão. Os motivos para esta
elevada incidência são diversos: desde razões que se prendem com a idade
biológica, ao distanciamento das companheiras(os) sexuais e finalmente uma
cultura do risco instalada em muitas forças armadas pelo mundo fora.
Temos que notar que os comandos em países onde a taxa de infecção é
significativa já estão preocupados com a capacidade de projecção de força. O
enfraquecimento da instituição militar propicia mecanismos de desestabilização
interna e de debilidade que aumentam a probabilidade de vir a ocorrer um ataque
externo. Verifica-se que a multiplicação de contingentes de militares
infectados com HIV inviabiliza a participação de muitos países em operações de
paz.
Deve observar-se, por outro lado, que a SIDA é crescentemente utilizada como
uma poderosa arma de guerra. Os raptos e os genocídios combinam-se desde sempre
em muitos conflitos. Todavia, o facto relevante é a sua associação, recente, ao
contágio do vírus da SIDA: é possível que a transmissão de SIDA possa
corresponder a uma prática de genocídio, na medida em que parece estar presente
o elemento de intencionalidade na passagem do vírus para a população. Terá sido
isto que se passou no Ruanda e presentemente no Congo, onde mais de 500 mil
mulheres foram desta forma infectadas com SIDA.
Os conflitos armados provocam ainda um mar de refugiados que habitam em campos
onde, normalmente, a miséria é grande e os cuidados profilácticos decrescem.
A GUERRA DAS FORÇAS DA REVOLUÇÃO MILITAR EM CURSO
As guerras típicas das sociedades de terceira vaga têm por base as forças da
RMC e estão ligadas sobretudo aos grandes poderes. Porém, as forças da RMC na
sua formulação mais profunda estão associadas exclusivamente – actualmente e
nos tempos mais próximos – às capacidades do poder militar dos Estados Unidos.
Há uma tendência, que erradamente se generalizou, que caracteriza as guerras
feitas por forças RMC apenas pela alta tecnologia, nomeadamente a tecnologia
ligada à informação. Na verdade, se apenas estiverem ligadas à tecnologia,
podemos considerar que são guerras de forças pós-modernas, mas não são RMC. As
forças RMC actuais apresentam as seguintes características33:
• uso de tecnologia da sociedade da informação;
• utilização do espaço;
• novas tácticas e composição orgânica das unidades;
• necessidade essencial de conter a violência dentro de limites políticos,
éticos e estratégicos aceitáveis pela comunidade internacional;
• papel dos media e da opinião pública;
• civilinização;
• e sobretudo pelo modelo de organização das tecnologias existentes e já
disponíveis mesmo no mercado civil, e a partir das quais é possível criar novas
e diferentes capacidades num sistema de sistemas.
A ordem de batalha nas guerras centradas e em rede, de alta tecnologia,
desenvolve-se em volta do conceito de "domínio rápido", de
operações de reconnaissance, intelligence, surveillance and target aquisition
(RISTA) e dos 4S (scan, swarm, strike, scatter), com profusa utilização de
armas inteligentes, de elevada precisão, selectivas. O novo campo de batalha
está dominado por um sistema de sistemas, com base na command and control
warfare (C2W), constituindo uma quinta dimensão da guerra, onde a manobra
informacional se sobrepõe e por vezes substitui a manobra do terreno.
Face à esmagadora superioridade tecnológica e a operações baseadas nos efeitos,
as baixas tendem a ser zero, ou a aproximar-se do zero, pelo menos de um dos
lados. O objectivo já não é aniquilar, mas imobilizar, controlar, alterar e
moldar o seu comportamento de forma a criar um novo ambiente político com
perdas controladas, mesmo para o inimigo, evitando reacções negativas da
opinião pública. É por esta razão que Edward Luttwak definiu este fenómeno como
guerra pós-heróica; a força pode ser empregue sem o risco de perda de vidas.
As novas tecnologias e a digitalização das unidades ditam novas doutrinas
estratégicas, tácticas e organizacionais. A tendência é para a robotização do
campo de batalha de uma forma progressiva.
As forças RMC empregam muito a guerra de informação, o vector moderno da guerra
psicológica e da subversão tradicionais
34
. No actual ambiente operacional (e no futuro), o mais importante é (e
continuará previsivelmente a ser) o domínio da informação, mais precisamente, o
acesso, o controlo e o respectivo processamento com o objectivo de obter a sua
transformação em conhecimento e depois partilhá-lo em tempo útil.
Em breve, a psicotecnologia disponibilizará novos instrumentos capazes de
influenciar os "corações e as mentes", o que incrementará ainda
mais o papel da guerra psicológica e dos guerreiros da informação que nas suas
operações psicológicas e de informação aprendem a implantar falsas realidades e
a induzir movimentos psicoculturais e políticos, em prol de determinados
interesses nacionais, criando uma realidade virtual quando a realidade efectiva
contradiz os imperativos estratégicos de momento. No fundo, uma verdadeira
guerra de representações, na expressão de Alexandre del Valle35.
Nesta ordem de ideias, um outro elemento a ter em consideração nas guerras da
actua-lidade é a presença e a actuação dos media. Hoje, estes ajudam os
guerreiros da informação a gerir as diversas percepções que as populações têm
da situação. Há uma realidade percebida/construída, diferente da realidade
efectiva.
Ao nível estratégico a guerra de informação implica um domínio do ciberespaço,
uma vez que os ciberataques não podem ser descurados, com as suas bombas
lógicas, vírus e cavalos de Tróia. Esta diferente forma de guerra implica uma
política de segurança e defesa para o ciberespaço, pois este impôs uma nova
dimensão geopolítica, a do próprio ciberespaço36.
Nas guerras das forças RMC a supremacia dos meios e sistemas de comunicações é
um factor imperioso. Na maior parte dos casos o espaço tende a ser entendido
como a quarta dimensão da guerra. Quem tiver capacidade para dominar o espaço
dominará o mundo. Com a colocação de sistemas de armas de intervenção global o
espaço será militarizado
37
, criando uma nova forma de dissuasão. Estes conceitos implicam um outro, um
conceito geopolítico para o espaço.
Com a civilinização a distinção entre civil e militar ficará esbatida, uma vez
que já não são apenas as forças armadas que entram em combate, mas as
comunidades políticas que elas servem. Assim, este fenómeno de interpenetração
é indicador de um novo tipo de forças armadas. Estas tendem a ser
profissionais, com efectivos substancialmente mais reduzidos, com uma maior
ligação aos meios universitários e centros de investigação, a integrarem mais
mulheres e minorias e, em certa medida, tende-se para uma privatização da
actividade militar38.
As guerras com forças RMC são também guerras distantes. O poder que está na
defensiva é castigado e muito limitado na sua resposta. Muitas vezes sente-se
mesmo impotente39. Também distante no comando e controlo, onde os media e a
informação sobre a guerra desempenham um papel primordial. Podemos dizer que é,
em certo sentido, uma guerra subversiva feita pelos grandes poderes na era da
informação.
Nas guerras RMC a duração em termos de uma acção militar intensa é muito curta,
e é importante que assim seja, sobretudo por razões de opinião pública e de
interesse político40, o que não quer dizer que no período posterior à acção
militar decisiva, tipicamente de estabilização, a presença militar não se
arraste por vários anos, já que actua em ambiente subversivo.
Após revisitarmos Clausewitz, consideramos que a sua trindade permanece em
parte válida e actualizada, no sentido em que, apesar de os actores envolvidos
na guerra poderem ser outros, a violência original, a lei das probabilidades e
do acaso, bem como a ligação ao fenómeno político, persistem.
Uma das mais importantes implicações desta mudança qualitativa do conceito de
guerra é a alteração dos laços funcionais entre o poder político e o aparelho
militar. A envolvente política perpassa agora verticalmente todos os níveis de
actuação militar: a estrutura de comando militar nos diversos níveis de
responsabilidade preocupa-se principalmente com a actuação política. Mesmo ao
nível táctico, um comandante de uma pequena força desempenha esse papel no seu
contacto com a população e com as autoridades locais.
As guerras que envolvam a grande potência sozinha ou em coligação, sejam elas
regulares ou irregulares, serão sempre efectuadas por forças RMC. Na actual
guerra no Iraque, a intervenção da coligação internacional pautou-se pela
superioridade tecnológica, pela supremacia aérea, com domínio do espaço, pelo
uso de armas inteligentes e também por uma intensa guerra de informação, num
cenário típico de guerra regular.
A força RMC da coligação, com combates sucessivos e assimétricos, vergou a
vontade de combater iraquiana e a operação militar foi uma nova Blitzkrieg.
Porém, após a ocupação militar, houve uma transformação da natureza do conflito
armado, deixando de obedecer ao modelo clausewitziano; além dos estados, passou
a envolver outros actores. Conforme a circunstância, qualificamos os seus
elementos como bandidos, terroristas, guerrilheiros, mercenários ou milícias.
Estes não representam um Estado e não obedecem a um governo.
As operações militares de estabilização, apesar de feitas por forças RMC,
fazem-se agora num ambiente de cariz subversivo, de combate próximo, onde não
existe uma estratégia e uma táctica bem definidas, sendo os objectivos fluidos,
onde a inovação impera e a surpresa/imprevisibilidade são as suas principais
características. O emprego do terror é frequente, desaparecendo a distinção
civil/militar, estando os combatentes misturados com a população que desempenha
aqui um papel fundamental de apoio de retaguarda logístico, em informações e ao
mesmo tempo como fonte de recrutamento. Por outro lado, também é o alvo
principal e a maior vítima.
Em ambientes operacionais destes é normal a generalização da violação do
direito aplicável aos conflitos armados (internacionais e não internacionais),
bem como do regime de protecção dos direitos humanos.
No Iraque devemos ter presente a velha premissa de que as guerras de cariz
subversivo não se ganham com acção militar, mas perdem-se pela inacção militar.
A CIVILINIZAÇÃO E AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS
Nesta nova conflitualidade devemos ter em consideração o novo paradigma que
surge com a alteração significativa na estrutura das forças armadas e no
emergir da civilinização, onde assumem grande relevância as modernas empresas
militares privadas (EMP) que prestam serviços e tarefas de natureza militar.
A privatização do conflito e o uso de mercenários não são um fenómeno novo.
Porém, hoje o contexto é substancialmente diferente e as corporate warriors, na
expressão de Singer41, têm um enquadramento jurídico distinto dos mercenários
tradicionais.
Podemos considerar como elementos de diferencialidade das emp em relação aos
mercenários: a sua estrutura organizacional com directores e accionistas; serem
legalmente registadas, prestarem contas ao fisco e à segurança social; visarem
o lucro a longo prazo; operarem em vários teatros e para vários clientes ao
mesmo tempo; ou seja, são organizações privadas de natureza comercial, cujo
objecto é o fornecimento de um largo espectro de serviços de natureza militar e
de segurança a entidades nacionais e não nacionais, apresentando-se assim como
alternativa aos serviços tradicionalmente consagrados às forças armadas dos
estados.
As modernas emp emergem a partir de 1967, ano em que foi criada a Watch Guard
International, uma companhia que empregava antigo pessoal do Special Air
Service britânico para treinar militares no exterior. Depois, a partir dos anos
de 1970, destaca-se em África a Executive Outcomes, com grande envolvimento nas
guerras civis de Angola e da Serra Leoa. Com o esboroar do antigo império
soviético e a sequente redefinição dos dispositivos militares, ficaram
disponíveis inúmeros homens e material, que com iniciativa se organizaram e
criaram diversas empresas que passaram a estar activas e a desempenhar um papel
diferenciador em zonas de conflito ou de transição, um pouco por todo o
planeta. A partir dos anos de 1990 o termo emp começa a ser vulgarizado no
léxico militar.
Com a guerra nos Balcãs a actividade sofre um grande incremento mas o grande
boom vem com o actual conflito no Iraque. A actuação destas empresas é hoje
global, estando contabilizadas mais de 150 companhias que funcionam em mais de
50 países nos diversos continentes, sendo no entanto os seus principais teatros
de intervenção o Afeganistão e o Iraque. Neste território, onde são o segundo
maior contingente da coligação, estimam-se mais de 45 mil funcionários.
As emp vendem os seus serviços a multinacionais, ong, organizações
internacionais como as Nações Unidas, contando como principais clientes os
estados. Em termos financeiros, e só para ficarmos com uma pequena ideia dos
montantes envolvidos, estima-se que o rendimento desta indústria atinja o valor
anual de 202 mil milhões de dólares em 2010.
São inúmeras as justificações que levam os estados a contratar estas empresas.
Nos estados considerados fracos, o recurso a este tipo de empresas prende-se
sobretudo com a incapacidade de dar resposta às necessidades básicas de
segurança das populações, ao passo que no mundo pós-moderno esse recurso
apresenta-se mais como uma consequência de considerandos economicistas, sociais
e políticos42.
O crescimento destas empresas e a diversificação dos serviços por si prestados
não foi no entanto acompanhado pela regulamentação internacional específica.
Apesar desta não existir, não podemos considerar que haja um vazio legal, pois
há um conjunto de legislação nacional e internacional que directa ou
indirectamente cobre esta actividade. Normalmente as emp devem operar de acordo
com o enquadramento legal do país objecto do contrato e a nível internacional
lembramos, entre outros, o direito internacional humanitário e diversa
legislação sobre mercenários. Porém equacionam-se vários problemas, como a
aplicação directa da legislação sobre mercenários, e muitas vezes os estados
que contratam esta prestação de serviços têm um sistema judicial debilitado, o
que os impede de efectuar o controlo destas empresas. No Iraque, por exemplo,
estão protegidas contra a responsabilidade criminal, como foi no caso dramático
da prisão de Abu Ghraib, onde os abusos foram cometidos quer por profissionais
das emp, quer por militares, mas apenas os militares foram responsabilizados
pelos seus actos.
Em Março de 2007, os Estados Unidos deram um passo significativo para
contrariar esta situação, tendo sido aprovada legislação que coloca as emp sob
a alçada da lei e dos tribunais militares. Anteriormente, esta modalidade
aplicava-se apenas em situações em que o Congresso tivesse declarado
formalmente guerra; com a alteração agora introduzida, a lei passa a contemplar
operações de contingência, onde se incluem as realizadas no Iraque e no
Afeganistão.
Estas iniciativas são o indicador de esperança na regulamentação; no entanto,
ficam ainda a faltar os mecanismos de controlo e inspecção a nível
internacional, uma vez que enquanto a regulamentação e fiscalização não forem
eficientes, receamos que este tipo de empresas não possam ou não queiram
entender, na mira do lucro, a "natureza complexa dos interesses nacionais
e aceitem participar num jogo em que a sua posição, sem ser claramente oposta
aos interesses do seu país, também não possa considerar-se favorável"
43
, subsistindo assim o perigo real de existir um poder militar armado não
residente na legitimidade do Estado.
Esta nova realidade complexa e ainda mal estudada carece de regulamentação e
fiscalização e merece o nosso acompanhamento, tanto académico como de cidadãos
interessados no assunto.
UMA CONCLUSÃO
Apesar das incertezas típicas que o futuro nos reserva, a guerra continuará a
ser uma questão de poder e, no actual século, cremos que continuaremos a
assistir a guerras provocadas pela alteração de relações de forças entre
actores não estatais e os estados, guerras irregulares e em ambiente
subversivo, sem regras, sem princípios, sem frente ou retaguarda, onde os
objectivos são fluidos, na boa compreensão que a única legitimidade é a do seu
exercício. Guerras que no fundo não são tão novas assim. Por outro lado,
assistiremos às guerras-espectáculo, típicas das sociedades de terceira vaga e
que têm por base as forças RMC, com um novo tipo de forças armadas, de alta
tecnologia, com profusa utilização do espaço como a quarta dimensão da guerra.
Nestas novas guerras (regulares ou irregulares) emergem ainda as empresas
militares privadas, que acabam por vir enfatizar a utilização do termo
civilinização.
A única certeza que temos quanto às guerras deste século que agora se inicia é
que o factor diferença/surpresa é permanente, como permanentes são o fluir da
História e a diversidade dos cenários e dos homens, pelo que a guerra é uma
constante histórica que persistirá.
NOTAS
* O presente texto corresponde a uma versão resumida da lição de encerramento
apresentada pelo autor nas provas de agregação em Relações Internacionais no
Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.
1 Telo, António – "Reflexões sobre a revolução militar em curso".
In Nação e Defesa. Vol. 103, 2.ª série, Outono-Inverno de 2002, pp. 211-
249.
2 Olsen, Gorm – "Neo-Medievalism in Africa: Whither government-to-
government relations between Africa and the European Union". In Civil
Wars. Vol. 6, N.º 2, 2003, pp. 94-120.
3 Berzins, Chris, e Cullen, Patrick – "Terrorism and neo-
medievalism". In Civil Wars. Vol. 6, N.º 2, 2003, pp. 8-32.
4 Kaldor, Mary – New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. Stanford
University Press, 2001, pp. 91-96.
5 Munkler, Herfried – "The wars of the 21st century". In IRRC. Vol.
85, N.º 849, 2003, p. 18.
6 Clausewitz, Carl Von – Da Guerra. Lisboa: Perspectivas e Realidades, 1976, p.
75.
7 Ignatieff, Michael – The Warriorís Honor: Etnic War and the Modern
Conscience. Londres: Chatto and Windus, 1998, p. 157.
8 Manwaring, Max – Street Gangs: The New Urban Insurgency. Carlisle: US Army
War College, 2005, p. 29.
9 Laqueur, Walter – Guerrilla. A Historical and Critical Study. Londres:
Westview Press, 1984, p. 377.
10 Manwaring, Max – Street Gangs: The New Urban Insurgency.
11 Ibidem, p. 344.
12 Taw, Jennifer, e hoffman, Bruce – The Urbanization of Insurgency. Santa
Monica: Rand Corporation, 2005, p. 15.
13 Nogueira, José Manuel Freire (coord.) – Pensar a Segurança e Defesa. Lisboa:
IDN/ Edições Cosmos, 2005, p. 73.
14 Nações Unidas – A More Secure World: Our Shared Responsibility – Report of
the High-level Panel on Threats, Challenges and Change, 2004, p. 12. Disponível
em: http://www.un.org/Pubs/chronicle/2004/issue4/0404p77.html.
15 Nóbrega, Álvaro – A Luta pelo Poder na Guiné-Bissau. Lisboa: Instituto
Superior de Ciências Sociais e Políticas, 2003, p. 181.
16 Cf. Weber, Max – From Max Weber: Essays in Sociology. Nova York: Oxford
University Press, 1976.
17 Mackinlay, John – Globalisation and Insurgency. Adelphi Paper 352. Oxford:
Oxford University Press, 2002, pp. 44-54.
18 Ibidem, pp. 54-66.
19 Romana, Heitor – "O novo modelo do terrorismo islâmico: desafios à
análise em informações estratégicas". In Moreira, Adriano (coord.) –
Informações e Segurança: Livro em Honra do General Pedro Cardoso. Lisboa:
Editora Prefácio, 2004, p. 258.
20 Singer, Peter – Corporate Warriors – The Rise of the Privatized Military
Industry. Nova York: Cornell University Press, 2003, p. 52.
21 Monteiro, Amaro – "Sobre a distinção entre guerrilha e
terrorismo". Comunicação apresentada no âmbito do seminário
"Terrorismo: O Combate Nacional e Transnacional", realizado no
Convento da Arrábida, 4 e 5 de Julho de 2002.
22 Zuhur, Sharifa – A Hundred Osamas: Islamist Threats and the Future of
Counter-Insurgency. Carlisle: Strategic Studies Institute, 2005, p. 10.
23 Brissard, J. C. – Terrorism Financing. Nova York: United Nations, 2002, p.
7.
24 Phillips, James – The Evolving al Qaeda Threat. Washington: The Heritage
Foundation, 2006, p. 1.
25 Romana, Heitor – "O novo modelo do terrorismo islâmico: desafios à
análise em informações estratégicas", p. 260.
26 Boniface, Pascal – Guerras do Amanhã. Lisboa: Editorial Inquérito, 2002, p.
20.
27 Singer, Peter – "The war on terrorism: the big picture". In
Parameters. Carlisle: U.S. Army War College, Verão de 2004, p. 145.
28 Mackinlay, John – Globalisation and Insurgency. Adelphi Paper 352. Oxford:
Oxford University Press, 2002, p. 79.
29 Byman, Daniel (et al.) – Trends in Outside Support for Insurgent Movements.
Santa Monica: Rand Corporation, 2001, p. 55.
30 Metz, Steven – Armed Conflict in the 21st Century: The Information
Revolution and Post-Modern Warfare. Carlisle: US Army War College, 2000, pp. 56
e 57; Carriço, Manuel – "Os novos desafios político-militares dos
conflitos assimétricos". In Revista Militar. N.º 8-9, Agosto-Setembro de
2002, p. 622.
31 Santos, Loureiro dos – Convulsões – Ano III da Guerra ao Terrorismo. Lisboa:
Europa-América, 2004, pp. 91 e 92.
32 Labrousse, Alain – "Territoires et réseaux: l'exemple de la
drogue". In Jean, -François, e Rufin, Jean-Christophe (coord.) –
Economies des Guerres Civiles. Paris: Hachette, 1996, pp. 467- 494.
33 Garcia, Francisco Proença – "A transformação dos conflitos armados e
as forças da revolução nos assuntos militares". In Revista Militar.
Lisboa: Novembro de 2005, pp. 1299-1307; Telo, António – "Reflexões sobre
a revolução militar em curso".
34 Valle, Alexandre del – Guerras contra a Europa: Bósnia, Kosovo, Chechenia.
Lisboa: Hugin, 2001, p. 208.
35 Ibidem.
36 Adams, James – The Next World War: The Warriors and Weapons of the New
Battlefields in Cyberspace. Londres: Hutchinson, 1993.
37 Boniface, Pascal – Guerras do Amanhã, p. 122.
38 Moskos, Charles, C., Williams, John Allen, e Segal, David – The Post-Modern
Military: Armed Forces after the Cold War. Nova York: Oxford University Press,
2000.
39 Telo, António – "Reflexões sobre a revolução militar em curso",
p. 222.
40 Ibidem, p. 227.
41 Singer, Peter – Corporate Warriors – The Rise of the Privatized Military
Industry. Nova York: Cornell University Press, 2003.
42 Oíbrien, Kevin – Leash the Dogs of War. Santa Monica: Rand Corporation,
2002. [Consultado em: 5 de Junho de 2006]. Disponível em: http://www.rand.org/
commentary/022002FT.html; Vaz, Mira – "As empresas militares privadas
vieram para ficar?". In Revista Militar. Agosto-Setembro de 2005, pp.
819-833.
43 Vaz, Mira – "As empresas militares privadas vieram para ficar?".