Relações Internacionais
Relações Internacionais
Carlos Gaspar
*
Kenneth Waltz, Realism and International Politics.Nova York, Routledge, 2008
Kenneth Waltz decidiu reunir e apresentar uma boa parte dos seus artigos,
publicados desde a sua tese até ao post-11 de Setembro. A introdução serve para
insistir nos malefícios da concentração excessiva de poder, já revelados na
invasão do Iraque, mas cada um dos textos tem uma nota de apresentação própria.
O livro confirma a filiação realista, que já pode dispensar o prefixo neo', no
sentido em que Kenneth Waltz, com Man, the State and War e, sobretudo, com
Theory of International Politics, se tornou a referência canónica do realismo
na teoria das relações internacionais. A Teoria é a primeira parte da sua
antologia, que inclui o seu texto sobre Kant ' Kant, Liberalism and War (1962)
' bem como os comentários às críticas do seu clássico, o último enunciado da
sua teoria geral ' Realist Thought and Neorealist Theory (1990) ', bem como os
dois artigos sobre a avaliação das teorias, publicados em 1997 e 2003. A
Política Internacional preenche a segunda parte do livro, desde a célebre
elegia da bipolaridade ' The Stability of a Bipolar World(1964) ' até à sua
análise das tendências multipolares do post-Guerra Fria ' The Emerging
Structure of International Politics(1993) ' e textos mais recentes, incluindo
The Continuity of International Politics, publicado em 2002. Os Assuntos
Militares correspondem à terceira parte, incluindo um ensaio menos conhecido de
1959 ' Reason, Will, and Weapons - e, naturalmente, os textos sobre as virtudes
da proliferação nuclear de 1990 e 1995. A última parte está virada para a
«Policy», o tema forte de Waltz antes de desistir de tratar da Política Externa
no seu clássico de teoria internacional, incluindo uma avaliação da política
europeia de Nixon e Kissinger no Ano da Europa ' America's European Policy
Viewed in Gloabl Perspective(1974).
Os textos de Kenneth Waltz são uma referência obrigatória nos estudos de Teoria
das Relações Internacionais e a sua antologia é, naturalmente, um instrumento
de trabalho indispensável. É também o retrato da melhor parte das reflexões de
um investigador que marcou, decisivamente, a sua disciplina.
Stephen Brooks, William Wohlforth, World out of Balance.International Relations
and the Challenge of American Supremacy.Princeton, Princeton University Press,
2008, 226 pp.
William Wohlforth tem o mérito de ter sido o primeiro a enunciar uma definição
da unipolaridade, no seu artigo The Stability of a Unipolar World, publicado
em 1990, que reproduz o mesmo título do ensaio célebre de Kenneth Waltz sobre a
bipolaridade, publicado nos anos setenta.
A tese de Wohlforth tem três elementos cruciais, que estão reiterados e
actualizados no seu último livro, escrito em parceria com Stephen Brooks. O
primeiro procura medir a concentração excepcional de poder numa única grade
potência ' os Estados Unidos ' que é o resultado mais significativo da Guerra
Fria. O segundo valoriza a natureza do regime político norte-americano, cuja
transparência e previsibilidade tornam os Estados Unidos uma grande potência
menos ameaçadora do que os anteriores pretendentes à hegemonia mundial. O
terceiro recupera a relevância da posição geográfica, que torna a grande
potência marítima uma ameaça remota, por comparação com as grandes potências
contíguas que determinam a lógica de competição estratégica no continente euro-
asiático. O novo livro desenvolve esses argumentos e acrescenta um factor
adicional: a multiplicação de potências relevantes em cada uma das principais
regiões internacionais não só as distingue dos velhos blocos regionais que
travaram a II Guerra Mundial, como torna ainda mais difícil a qualquer das
grandes potências emergentes vir a ser uma potência hegemónica regional, que é
a condição prévia para poder vir a ser um challenger dos Estados Unidos ' a
Alemanha tem de contar com a França e a Grã-Bretanha, a China com o Japão e a
Índia, mesmo a Rússia tem de ter em conta a Ucrânia. Essa circunstância serve
para consolidar a unipolaridade e confirma a sua estabilidade.
Pela primeira vez, neste livro Wohlforth e Brooks tratam também da questão da
legitimidade ' um tema obrigatório depois da invasão do Iraque. Os autores
aceitam que os Estados Unidos não podem prescindir da legitimidade, mas
insistem que também são as grandes potências quem tem o poder indispensável
para fazer e desfazer as regras na política internacional. A lição do Iraque é
importante para mostrar que se trata sobretudo de as desfazer e de as fazer
bem.
David Baldwin, Theories of International Relations,Union Court, Ashgate, 2008,
712 pp.
A antologia dos textos fundamentais das teorias (no plural) das relações
internacionais de David Baldwin ' professor de teoria na Universidade de
Princeton e editor do volume clássico sobre o Neo-realismo e o Neo-liberalismo
' é inovadora tanto na sua organização, como na escolha dos textos.
Desde logo, David Baldwin dispensa quer os prolegómenos das teorias das
relações internacionais, quer a fase inicial dos esforços de sistematização da
disciplina, com excepção de textos emblemáticos sobre problemáticas
específicas, como os ensaios de Ernest Haas sobre a balança do poder ou de
Arnold Wolfers sobre a segurança nacional, publicados ambos nos anos cinquenta.
Os primóridos heróicos ' E.H. Carr, Martin Wight ou Hans Morgenthau ' são
postos de parte. Por outro lado, sem o referir explicitamente, o organizador
concentra-se em três escolas ' o realismo (o neo-realismo), o liberalismo
(incluindo a escola inglesa) e o construtivismo, que toma, com vantagem, o
lugar das escolas idealistas. As primeiras escolhas dos autores para o neo-
realismo, para o liberalismo e para o construtivismo são canónicas ' Kenneth
Waltz, Hedley Bull e Michael Doyle, e Alexander Wendt, respectivamente ' mas
alargam-se para incluir também Robert Gilpin, Andrew Moravscik e Helen Milner,
e Martha Finnemore. Os textos, porém, não são todos escolhas óbvias e, quando
possível, procuram trazer para a primeira linha ensaios menos conhecidos, como
o Realist Thought and Neorealist Theory de Kenneth Waltz, publicado em 1990
no Journal of Internal Affairs, ou o No One Loves a Political Realist de
Robert Gilpin, um texto de 1996, publicado na Security Studies, que abre a
colecção. Por último, a organização, seguindo uma regra de parcimónia, trata
apenas de cinco temas ' as escolas (Approaches ' as três correntes
principais, com Gilpin, Waltz, Moravcsik, Bull, Milner, Finnemore), a politica
interna (incluindo os clássicos de Peter Gourevitch e Robert Putnam), a
anarquia e as instituições (Mearsheimer, Keohane e Nye, Wendt), o poder
(incluindo o ensaio de Baldwin sobre a medição do poder, publicado na World
Politics, em 1979) e a paz e a guerra, que termina com um novíssimo, Jack Levy.
Todas as colecções de textos são parciais e incompletas, por definição, mas
David Baldwin conseguiu fazer um retrato pertinente do estado da arte, sem se
deixar prender pela voragem das modas.
G. John Ikenberry, Thomas Knock, Anne-Marie Slaughter e Tony Smith, The Crisis
of American Foreign Policy. Wisonianism in the Twenty-First Century.Princeton,
Princeton University Press, 2009, 168 pp.
O maître-à-penser da nova geração de analistas estratégicos liberais, que vai
marcar a política externa dos Estados Unidos com a nova administração do
Presidente Barack Obama, publicou, nas vésperas da última eleição presidencial,
um livro com Anne-Marie Slaughter, sua antiga colega em Princeton e actual
directora do Policy Planning Staffdo Departamento de Estado, com Thomas Knock e
Tony Smith, com o título The Crisis of American Foreign Policy.
O título mais adequado é o sub-título ' Wilsonianism in the Twenty-First
Century. Com efeito, o livro inclui duas visões contrastadas sobre a herança
wilsoniana na viragem do século. Por um lado, Tony Smith, professor de ciência
politica na Tufts, argumenta que o internacionalismo democrático dos neo-
conservadores, que marcou a tentação imperial da administração do Presidente
George W. Bush, na resposta ao 11 de Setembro no Afeganistão e no Iraque,
representa a melhor tradição wilsoniana ' uma forma militarista de
wilsonianismo, ou um um wilsonisme botté, na fórmula de Pierre Hassner, mas
parte integrante dessa linha. Por outro lado, Anne-Marie Slaughter entende que
a especificidade do wilsonismo é o multilateralismo, que se espera venha a
caracterizar a administração do Presidente Barack Obama. Para a nova
responsável pela estratégia norte-americana, o paradigma do wilsonismo é a
União Europeia, que se aproxima do modelo de Kant e de Wilson: Wilson veria na
União Europeia a realização da sua visão sobre a auto-determinação e a
democracia,
Esta antecipação da europeização da política externa dos Estados Unidos marca
uma ruptura com a orientação da administração do Presidente Bill Clinton, onde
Antonhy Lake e Madeleine Albright insistiam na necessidade de subordinar o
multilateralismo aos interesses nacionais dos Estados Unidos ' multilateral
when we can, unilateral when we must. O seu desígnio é, justamente, impedir
que os desastres dos Estados Unidos no Iraque provoquem um regresso ao
realismo: a linha justa não é nem o realismo, nem sequer o modelo
rooseveltiano, mas o regresso às origens wilsonianas do liberalismo
democrático: no novo século, continua a fórmula de Wilson ' to make the world
safe for democracy ' continua a ser válida.
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Director do IPRI ' UNL. Professor de Relações Internacionais na Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Assessor da Casa
Civil do Presidente Jorge Sampaio entre 1995 e 2006.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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