Barack Obama vs as guerras da Ásia Ocidental
Barack Obama vs as guerras da Ásia Ocidental
Manuela Franco
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Ao vencer a mais longa campanha eleitoral na história da nação americana,
Barack Obama conquistou o direito a gerir um momento de desafio severo às
capacidades de poder e influência dos Estados Unidos. Trinta dias após a sua
tomada de posse como 44.º Presidente dos Estados Unidos da América, este artigo
propõe um tour d'horizon da política externa dos Estados Unidos perante as
sérias ameaças à segurança nacional e internacional a emanar da Ásia do
Sudoeste e da Ásia Ocidental.
Palavras-chave: Barack Obama, Ásia do Sudoeste, Ásia Ocidental, Médio Oriente
Barack Obama vs the wars of West and Southwest Asia
As the winner of the longest electoral campaign in American history, Barack
Obama has also won the right to lead the nation through a period of severe
challenges to the US power and world prominence. One month after his
inauguration as 44th POTUS, as the new Administration is refocusing US foreign
policy, this article goes through the proverbial tour d'horizon of the serious
threats to national and international security coming out of West and Southwest
Asia.
Keywords: Barack Obama, Southwest Asia, West Asia, Middle East
Ao vencer a mais longa campanha eleitoral na história dos Estados Unidos, Obama
conquistou o direito a gerir um momento singularmente difícil, um momento de
desafio severo às capacidades de poder e influência dos Estados Unidos. Trinta
dias após a tomada de posse do 44.º Presidente dos Estados Unidos da América é
obviamente impossível qualquer análise crítica da política externa da nova
Administração. Mas há já algumas indicações, e este artigo arrisca-se ao
proverbial tour d'horizon.
Com os Estados Unidos envolvidos em duas situações de guerra no Afeganistão e
no Iraque, as ameaças mais sérias à segurança nacional e internacional emanam
da Ásia do Sudoeste e da Ásia Ocidental. A vizinhança reúne um grupo de estados
que não querem, não podem ou não conseguem sanar os conflitos armados e a
dissensão civil. Al-Qaida, Taleban, Hezbollah e Hamas são os nomes mais
conhecidos de organizações militantes armadas, apostadas em instaurar a lei
islâmica e dizimar os seus inimigos, isto é atingir os Estados Unidos, os
países da Europa, Israel, Rússia, China, Índia, Indonésia. O Paquistão acolhe
uma larga variedade de organizações e grupelhos jihadistas direccionados contra
a Índia e contra as forças americanas e a NATO no Afeganistão; e a sua condição
de potência nuclear sublinha bem o calibre dos riscos envolvidos, tanto mais
quanto hoje se tornou evidente a penetração do Exército paquistanês por estas
correntes. O Irão perfila-se como (provavelmente) a segunda nação muçulmana a
adquirir armamento nuclear. A determinação de Jerusalém de impedir a
concretização deste programa nuclear leva o aparelho de segurança americano a
prever fortes probabilidades de crise ou confronto em 2009 entre Israel e o
Irão. Nas semanas anteriores à sua tomada de posse, a Guerra em Gaza, ao trazer
a terreiro o confronto geopolítico invocado pela aliança entre o Hamas e o
Irão, que nem os Estados Unidos nem os estados árabes da região podem ignorar,
mostrou as severas limitações a qualquer acordo na frente ocidental.
E a agenda política dos próximos meses não abre esperanças de détente: o
mandato de M. Abbas como Presidente da Autoridade Palestiniana (AP) acabava a 9
de Janeiro, estando assim mais precária a sua já fraca posição. No início de
Março, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) tomará posição sobre o
dossiê nuclear iraniano. Em Maio, o Líbano deverá ir às urnas, com resultados
imprevisíveis, sobretudo do ponto de vista dos equilíbrios regionais, uma vez
que o Governo de Siniora que, apesar de tudo, tem conseguido manter um razoável
impasse entre as diversas facções libanesas, pode ser substituído por alguém
menos empenhado na independência do Líbano, encorajando os radicais e subindo o
nível de ameaça na fronteira norte de Israel. Em Junho, eleições presidenciais
no Irão. Ainda em 2009 espera-se um referendo no Iraque, sobre o acordo de
segurança com os Estados Unidos, e as crises de sucessão no Egipto e na Arábia
Saudita espreitam.
O TEMA ISLÂMICO
O nível de intensidade com que a ameaça é sentida em Washington é palpável.
Assim o denota a repetição do tema, omnipresente desde o dia primeiro.
Declarando no discurso inaugural que «A nação americana está em guerra contra
uma vasta rede de violência e de ódio», Obama fez sua a guerra contra o terror
e elevou os desafios do mundo islâmico à segurança americana e ocidental a
categoria principal. Lá em cima, junto à crise económica. Aliada à prioridade
do diálogo e da reconciliação com o mundo muçulmano veio a promessa de que os
Estados Unidos não se escusarão a assumir posições fortes com os que não
quiserem «descerrar o punho».
Nos dias seguintes, Obama procedeu de imediato à nomeação de um enviado
especial para o Médio Oriente e de um representante especial para o Afeganistão
e Paquistão. A sua primeira grande entrevista foi para a cadeia de televisão Al
Arabyia (saudita, note-se, e rival da Al Jazzeera, sediada no Qatar, emirato
actualmente alinhado com a «frente pró-iraniana» e que acolhe uma base
americana). Várias vozes autorizadas da Administração anunciaram a política de
diplomacia directa com o Irão, código para contactos públicos de alto nível,
sendo diversas as nuances de condicionalismo (desde descerrar o punho até
renunciar ao enriquecimento de urânio e ao fomento do terrorismo). Obama, na
sua primeira conferência de imprensa, deu por adquirido que o Irão está a
desenvolver armas nucleares, e reiterou o interesse em usar plenamente a via
diplomática, declarando porém inaceitáveis o financiamento do terrorismo e o
disparar de uma corrida às armas nucleares na região. A política da boa fé foi
reiterada na 45.ª Conferência de Munique pelo próprio Vice-Presidente Biden,
que propôs à Rússia «recomeçar do zero». A secretária de EstadoClinton fez a
sua viagem de estreia pela Ásia, com escala na Indonésiapara convidar os
muçulmanos não árabes ao diálogo político.
A MÃO ESTENDIDA
«As pessoas estão de novo entusiasmadas com os Estados Unidos. Vêem-nos a
cumprir a nossa promessa e o nosso potencial e a voltarmos a ser um símbolo de
liderança e esperança para o resto do mundo. É certo que as expectativas estão
extraordinariamente elevadas mas a boa vontade e o desejo de parceria estão
realmente presentes [ ] O perigo é o mundo esquecer que os Estados Unidos são
os Estados Unidos e que, como qualquer outro país, temos os nossos interesses
nacionais e não podemos ' nem seria sensato tentar ' ser ou fazer tudo o que
todos esperam de nós. O que o Presidente Obama traz é uma perspectiva e uma
compreensão diferentes e que consiste em saber que, muito frequentemente, os
interesses americanos serão melhor promovidos trabalhando em conjunto com
outros, procurando construir pontes e relações de cooperação. A maior parte das
vezes não se trata, nem se deveria tratar de "nós contra eles".
Assim, iremos estender a mão e esperar que outros façam o mesmo. [ ] Não iremos
comprar brigas desnecessárias, não procuraremos o confronto pelo confronto.
Queremos imprimir um tom muito diferente e dizer ao mundo que a América está de
volta e que queremos liderar de forma que mereça confiança e respeito. [ ]
Penso que qualquer análise objectiva indica que os EUA passaram uma fase em que
muita gente, por esse mundo fora, perdeu confiança nas nossas intenções e na
nossa liderança. A questão é se essa mudança de percepções sobre os EUA vai
perdurar ou se conseguimos mudar e ver a nossa liderança ser de novo bem
recebida e acatada?»[1]
Estas palavras de Susan Rice, a representante permanente dos Estados Unidos nas
Nações Unidas, dão um perfeito instantâneo das ideias orientadoras da nova
equipa em Washington. Susan Rice, que agora tem assento no Governo americano,
foi uma das mais próximas conselheiras do candidato Obama. Académica e com
prática governativa na Administração Clinton, pode ler-se como voz autorizada,
alguém muito próximo do pensamento do Presidente.
Barack Obama entrou em cena em ombros, com a enorme popularidade da promessa de
«domesticar» a onda de mudança que varre o mundo e que o levou à Casa Branca. A
sua eleição como primeiro Presidente negro dos Estados Unidos é, em si mesma,
um factor dinâmico, de enorme impacto político, tanto nacional como
internacional. Com o país em guerra e a tremenda contestação à Administração
Bush e à sua política externa, os debates entre os candidatos à Presidência dos
Estados Unidos foram seguidos no mundo inteiro, dando uma ideia de participação
«global» e «democrática» na competição eleitoral. Esta novidade trouxe um duplo
efeito: consagrou quase «naturalmente» a preponderância da nação americana; e
incutiu uma dimensão extra ao cariz estritamente nacional da legitimidade do
Presidente eleito. O peso desta dimensão é parte da «mudança» de Obama, e traz
uma dificuldade acrescida no gerir dos objectivos contraditórios de manter a
primazia dos Estados Unidos no tabuleiro estratégico mundial e de continuar a
agradar à plateia global.
Marcada pela dinâmica eleitoral, a nova Administração arrancou com ambição,
numa plataforma assente em ideias como «uma nova atitude», uma estratégia
anunciada de «restaurar a estatura moral dos Estados Unidos», concretizando-se
muito em função das deficiências atribuídas à Administração Bush: regresso ao
multilateralismo, retirada do Iraque, nova atitude perante a Rússia,
disponibilidade para diálogos sem condições com adversários tradicionais como o
Irão ou Coreia do Norte, novas aberturas quanto à questão palestiniana, ao
Paquistão e ao Afeganistão.
MARGEM MUITO CURTA
Entretanto, a realidade começa a reclamar os seus direitos. O «palco» onde
Obama chega está marcado de forma incontornável pelo comeback da China e do
islão às políticas de potência. A deslocação do centro de gravidade da economia
mundial para o Pacífico e o nascer de uma segunda idade nuclear na Ásia abalam
o sistema internacional. E aqui reside parte da mudança em que precisamos de
acreditar: a dupla ameaça à primazia económica da zona euro-atlântica e a três
séculos de superioridade militar ocidental.
A crise financeira a ameaçar as economias e a agravar todos os ressentimentos
torna as coisas ainda mais cruas. O descalabro do mercado americano interroga
directamente a capacidade de liderança, o mérito do modelo, a reputação de
probidade e legalidade do sistema da democracia liberal. E, em todo o mundo, as
repercussões da crise económica contribuem para a inquietação, a
conflitualidade social e fazem cair os governos. Cerca de um quarto dos estados
denota já efeitos negativos de instabilidade e mudanças de governo directamente
resultantes da contracção da economia internacional. O almirante Blair, o novo
«czar» da segurança nacional declarou ao Congresso que a crise económica global
e a instabilidade que provoca ultrapassou o terrorismo como a mais urgente
ameaça diante dos Estados Unidos.
Neste mundo, não se antevê qual seja a boa vontade capaz de substituir a força
como o mais convincente apoio da diplomacia. Para se ser ouvido, tem de se ter
peso. Ora, o peso de um Estado vem da sua capacidade de se impor aos demais.
Obama terá agora de garantir que tem a capacidade de intervir em prol dos
objectivos que defende, começando por diminuir os gastos, reconstituir forças.
Daí a ideia de relações de cooperação estratégica: convocar aliados ou
parceiros estratégicos, as potências relevantes do sistema internacional ou dos
complexos regionais de segurança para um conceito de segurança cooperativa,
para trabalhar mais estreitamente, para estabilizar e gerir a segurança global,
fomentando a participação estrangeira e a distribuição de tarefas, de esforços
e de despesas. A Administração parece de momento querer acreditar que mediante
a autolimitação e a prudência no uso do poder americano induzirá também a
Rússia e a China à cooperação estratégica.
O problema com as visões elevadas do exercício político da superpotência é
partir do princípio que essa predominância é um facto aceite. Ora esse facto é
justamente o principal modificador dos cálculos de interesse nacional dos
demais actores principais no sistema. A estes ocorre de imediato o velho
arquétipo do lobo debaixo da pele do cordeiro e, logo, a pergunta principal:
qual é a troca? E, de seguida: como alcançar a maior margem de manobra
possível, como reduzir o poder e capacidade de comando dos Estados Unidos, na
vizinhança, na região e no mundo?
É pueril ' para não dizer irresponsável ' pensar que uma instância de poder e
violência como é qualquer Estado constituído se pode apresentar entre os seus
pares prescindindo das prerrogativas do seu estatuto. Em instâncias de poder
não há meio-termo. A força tem de ser usada para criar ordem. E se não o for,
outros usarão imediatamente a oportunidade para avançar: primeiro concretizarão
os interesses, depois tratarão de impor a sua própria ordem.
Não foi preciso esperar muito para que os desafios surgissem: a Rússia, o Irão
e o Paquistão apresentaram rapidamente novidades que só podem ser vistas como
de «marcação». Aos anúncios da bondade da nova Administração, incluindo até a
«esperança de negociar um acordo de desarmamento nuclear que reduzisse os
stocks em 80 por cento», a Rússia respondeu avançando com o programa de
construção de bases militares nos territórios que ocupou na Geórgia, fazendo
ruídos de fraco entusiasmo quanto a novas sanções contra o Irão, e, sobretudo,
«ajudando» o Quirguistão a fechar a base de Manas, a única de que os Estados
Unidos ali dispunham para serviço às suas Forças Armadas no Afeganistão. Depois
de assim interferir numa das principais vias de abastecimento às tropas
americanas, a Rússia veio, magnânima, permitir aos Estados Unidos a passagem
por território russo de provisões não letais, suspensa desde a Guerra da
Geórgia do Verão de 2008. Não sendo difícil conceber que a Rússia tenha
interesse em contribuir para a derrota dos Taleban, é bastante mais fácil de
imaginar o preço que estará disposta a exigir a Obama para tal colaboração: por
exemplo, um recuo firme na linha da Europa Oriental? Na presença americana na
Ásia Central e nas regiões do Cáspio? Um a zero no Grande Jogo?
E Teerão, terá interesse em contribuir para reprimir a ameaça taleban? Parece
ser a esperança do representante especial para o Afeganistão e o Paquistão,
Richard Holbrooke que, em Cabul, na primeira visita à região, apelou
publicamente à colaboração do Irão nessa tarefa ' no exacto momento em que os
iranianos anunciavam ter colocado em órbita um primeiro satélite «de fabrico
caseiro» de comunicações e observação, notificando assim sobre o avanço certo e
seguro em direcção à capacitação nuclear.
Por seu lado, o Supremo Tribunal do Paquistão entendeu levantar a prisão
domiciliária a A. Qhan, o pai do arsenal nuclear paquistanês, iraniano e norte-
coreano. Para que não ficassem dÚvidas, o Tribunal terá especificado que Qhan
pode retomar o seu trabalho «científico», sem dúvida uma contribuição relevante
para o mundo da proliferação nuclear.
Há de resto quem aponte o Paquistão como exemplo de que nem Israel nem o
Ocidente se devem preocupar se o Irão adquirir armas nucleares, pois até hoje
os paquistaneses nunca usaram as suas armas nucleares sendo disso dissuadidos
pela Índia e pelo Ocidente? O facto é que desde o primeiro teste efectuado em
1998, já por duas vezes, em 1999 e 2002, o Paquistão provocou a Índia a um
despique nuclear. Mais importante será ponderar se ' desde que o 11 de Setembro
veio revelar quanto a Al-Qaida e os Taleban devem aos serviços secretos
paquistaneses ' se pode considerar que a capacidade nuclear do Paquistão foi
dissuasora de qualquer intervenção dos Estados Unidos nas zonas tribais sob
soberania nominal paquistanesa. Apesar de os governos do Paquistão não serem de
persuasão revolucionária, é possível argumentar que desde que adquiriu peso
nuclear, o Paquistão se vem afastando do Ocidente, ou mesmo que a posse de
engenho nuclear veio fortalecer e os jihadistas e mobilizá-los para a tomada do
poder.
Por estranho que pareça, persiste a dúvida quanto aos verdadeiros perigos da
potência nuclear. Quando a Índia coloca satélites em órbita, o mundo (excepto o
Paquistão) saúda o feito científico e o progresso económico; quando a China o
faz, também ' embora já, admita-se, com ligeiras apreensões; porquê então a
leitura negativa quanto ao Irão? A tendência para aceitar como facto inelutável
a nuclearização do Irão invoca frequentemente estes exemplos, como também
invoca os tempos da Guerra Fria, e os piores momentos de tensão com a URSS. A
diferença é que se tratava de potências do status quo. Ou, como diz Kissinger
[2], com «analogias de risco mais ou menos comparáveis».
É possível imaginar que, dentro de poucas décadas, qualquer país de riqueza
intermédia possa angariar um grupo de cientistas decentes e construir e
armazenar mísseis de alcance, poder e fiabilidade consideráveis. É claro que se
a proliferação de armas nucleares não for firmemente travada a ideia de um
desastre apocalíptico deixará de ser conversa de esotéricos. A vulgarização da
tecnologia exige que se desenvolvam maneiras de lidar com os respectivos
efeitos desestabilizadores. Não é caso para menos, com armas nucleares a chegar
às mãos de países onde o bombista suicida é considerado uma estratégia e onde o
juízo de valor sobre a vida humana é aquilatado sobre as gratificações do Além.
Acresce que, por via de regra, se trata de sociedades que não dão garantias de
segurança na armazenagem desse tipo de armamento. Para Kissinger, aliás, a
situação do ponto de vista americano quanto à contenção do Irão, resume-se em
três decisões: Quanto tempo há para a via diplomática; Que fazer se o Irão não
respeitasse um voto unânime do Conselho de Segurança, com a Alemanha e o Japão,
a favor da interrupção do programa nuclear iraniano? Quando decidir que já
foram dados todos os passos e que só resta o uso da força?
AS PRIORIDADES
Por agora, a dor de cabeça global é o islamismo radical. A essência do
extremismo islâmico que rejeita a noção de Estado nacional, as instituições
ligadas ao poder representativo e a esfera da liberdade individual, é uma
filosofia de aplicação universal que visa todas as instituições, seja do mundo
muçulmano, seja do ocidental, e uma ameaça a todos os estados com minorias
muçulmanas, ou que tenham (ou pareçam ter) a capacidade de afectar o futuro do
almejado califado. Uma jihad bem-sucedida ameaçará amanhã vários países
europeus ou a Índia tanto quanto hoje ameaça Israel, pois os 20 milhões de
europeus ou os 160 milhões de indianos muçulmanos dificilmente passam
tranquilos por uma onda que varre o mundo islâmico e que, em termos políticos,
é, acima de tudo, de natureza identitária.
O fundamento da tal «Guerra ao Terror» é a necessidade imperiosa de travar o
extremismo islâmico e de demonstrar a sua incapacidade de alcançar os
objectivos que apregoa. O Presidente Obama assumiu esta prioridade do seu
antecessor, e daqui fluem as prioridades do Iraque, do Paquistão, do
Afeganistão e do Irão e do Médio Oriente «clássico».
IRAQUE
Obama prometeu uma retirada rápida do Iraque, a partir de um calendário
incondicional ' ou seja, mais rápido que o previsto no acordo assinado entre a
Administração Bush e o Governo iraquiano. E, a acreditar nas sondagens
americanas a Guerra do Iraque está ganha; os republicanos gabam-se, os
democratas consentem, mudando o assunto para o Afeganistão. Porém, apesar dos
progressos visíveis desde 2006, a situação no Iraque permanece frágil e pode
muito facilmente descambar. Os Estados Unidos, e especialmente os militares
americanos, serão determinantes para a consolidação dos progressos. A retirada
americana vai deixar um Iraque estável e funcional, prosseguindo o seu caminho
em direcção a um futuro melhor? Ou deitará tudo a perder, dinheiro gasto, vidas
perdidas, caindo em guerra civil, com consequências fatais para o golfo Pérsico
e para todo o Médio Oriente?
A guerra não está ganha. Estabilizar o Iraque é uma prioridade vital que não
pode ser negociada com outras dentro da área, sob pena de os Estados Unidos
ficarem em posição ainda mais vulnerável. Se Obama agora «perdesse» a guerra
que foi «ganha» por Bush, decerto se veria em maus lençóis na campanha
eleitoral de 2012. No mínimo.
O AFPAK
A avaliação negra da situação de segurança no reino dos Taleban põe a nu as
dificuldades que se perfilam diante de Obama que, ainda na campanha eleitoral,
categorizou o Afeganistão como ponto focal da sua política externa, esperando-
se desde então uma importante transferência de tropas, a retirar do Iraque.
Ora se o problema do Afeganistão é grande, o seu valor estratégico é inferior.
A opção no Afeganistão parece ser não deixar que a situação se deteriore abaixo
de um determinado nível, mais ou menos equivalente a não perder Cabul. Por um
lado, a presença de tropas e os exercícios tanto na segurança como na
«construção do Estado» demonstraram não ser possível fast forward as
mentalidades e os processos culturais que subjazem a qualquer actividade
política. Por outro lado, desde o último ano da Administração Bush que se torna
cada vez mais claro que o cerne do problema Taleban, Al-Qaida, proliferação de
jihadistas, está no Paquistão. Daí a nova região AFPAK, agora confiada aos
cuidados intensivos do representante especial Richard Holbrooke. Segundo a
intelligence americana não será possível alcançar melhorias significativas no
Afeganistão a menos que o Paquistão assuma pleno controlo das fronteiras, o que
se revelará difícil dado que o Governo do Paquistão estar a perder autoridade
nos territórios, observando-se que mesmo partes mais desenvolvidas do país caem
em poder do radicalismo islâmico. As áreas tribais continuam a albergar a
central de comando da Al-Qaida, de que são notícia as baixas resultantes de
ataques por aviões operados pela CIA via controlo remoto a partir de bases
americanas estabelecidas no Paquistão. Esta «facilidade» concedida aos
americanos parece estar a ser compensada com pagamentos vultuosos feitos (tudo
indica com dinheiros de origem norte-americana) aos Taleban localizados no vale
SWAT, a quem foi também concedida a paz necessária para a instauração da sharia
islâmica. Pelo pormenor, vale a pena referir que esta «paz» é assinada sobre a
destruição de todas as escolas femininas e sobre a proibição de os barbeiros
cortarem um pêlo a qualquer barba. Não se vê como averbar este estado de coisas
senão como uma derrota séria.
No momento em que este artigo é escrito a Administração ainda não clarificou os
objectivos para a campanha do Afeganistão. Detecta-se já uma nova prudência,
com o próprio Presidente Obama a autorizar como «opção cautelar» o envio de
menos de metade das tropas pedidas pelas Forças Armadas no terreno; e a tornar
óbvio o descontentamento americano com o Presidente Karzai, desafio que a não
ser inócuo será ainda mais deletério para a mais que precária situação de
Cabul. Aparentemente estaria em curso uma adaptação da estratégia seguida no
Iraque: habilitar grupos rivais interessados numa solução «nacional» com
dinheiro e armas para guerrearem os «internacionalistas». Ao mesmo tempo,
Washington estaria na disposição de aumentar significativamente a assistência
não militar ao Paquistão, para 1,5 mil milhões de dólares, sem que no entanto
se tenha ouvido ou sabido de exigências quanto ao controlo dos seus serviços
secretos, numa espécie de repetição da política seguida nos anos de 1980,
quanto os ditos ISI se ocuparam das actividades de contrabando nuclear. Será
preciso muito engenho e coragem para inventar maneiras de lidar com o cocktail
jihadista no Paquistão, onde misturam grupos anti-Estados Unidos, anti-Israel,
anti-Índia, anti-Afeganistão, anti-Irão, anti-Rússia, anti-Uzbequistão e anti-
China, todos amigos quando toca a avivar o fogo fundamentalista.
A nomeação do representante especial para o Afeganistão e Paquistão sendo
expedita e dando um sinal claro de atenção ao conflito, foi também já marcada
por tons negativos: ao ter deixado transpirar que o mandato de Holbrooke
contemplaria o assunto da Caxemira, permitiu que se admitisse que lograr um
acordo de paz com o Paquistão pudesse contemplar a possibilidade de pressionar
a Índia. Graças à forte posição imediatamente assumida pelas autoridades
indianas a «ligação» à Índia ficou fora do mandato. No ar ficou a ideia de que
apesar das convicções de que altas esferas paquistanesas estavam ao corrente
(no mínimo) dos atentados perpetrados em Mumbai, se achou plausível sacrificar
um aliado dos Estados Unidos mais depressa que exigir comportamentos de boa fé
ao Paquistão.
O IRÃO
Os Estados Unidos teriam muitos ganhos estratégicos se chegassem a normalizar
as relações com o Irão, quer nos termos do conflito no Iraque, quer com os
Taleban, quer ainda nos conflitos entre a Síria, o Líbano, os palestinianos e
Israel. Porém, agora que a questão nuclear se tornou o problema incontornável,
a Administração tem por herança trinta anos de recusa iraniana às mais diversas
ofertas dos Estados Unidos, abertas ou secretas, de presidentes democratas ou
republicanos. Aliás, a mão que Obama estendeu a Teerão no dia da sua tomada de
posse foi retribuída com o anúncio de colocação em órbita do primeiro satélite
iraniano, o que praticamente garante que o Irão dispõe da tecnologia requerida
para operar mísseis balísticos intercontinentais, eventualmente equipados com
ogivas nucleares ou químicas.
Mas, para um relato desapaixonado destas dificuldades americanas temos as boas
memórias do secretário da Defesa Robert Gates que, em Setembro[3], comentava:
«Há trinta anos que ando envolvido na busca de um iraniano moderado; tem-se
revelado fugidio. Participei no primeiro encontro entre um membro do Governo
americano e líderes do Governo iraniano. Foi em Argel, em finais de Outubro de
1979. O primeiro-ministro iraniano, o ministro da Defesa e o MNE pediram para
se encontrar com Brzezinski que estava em Argel para o 25.º aniversário da
revolução argelina. Eu estava com ele e acompanhei-o para fazer o apontamento
da conversa. Brzezinski entrou na sala e, basicamente, disse: "Vamos
aceitar a vossa revolução, reconhecer o vosso país, o vosso governo. Garantimos
a venda do armamento já contratado com o Xá. Temos um inimigo comum, a norte,
e, no futuro, podemos trabalhar juntos." A resposta dos iranianos foi:
"Dêem-nos o Xá". Cada um repetiu as respectivas posições cinco ou
seis vezes e, por fim Brzezinski, levantou-se e disse: "Entregar-vos o Xá
é incompatível com a nossa honra nacional". E assim ficámos. Três dias
depois, tomaram a nossa embaixada e duas semanas depois aqueles três
governantes haviam sido removidos dos cargos.
Desde então, de uma maneira ou de outra, todas as administrações têm procurado
estabelecer contactos com os iranianos e todas têm falhado. [ ] na verdade,
neste longo período de tempo, a liderança iraniana tem sido consistentemente
inflexível na resposta a repetidas aberturas por parte dos EUA. [ ] E parece-me
que o esforço em que estamos agora envolvidos com os nossos aliados, com a
Rússia e com a China, com vista a tentar exercer pressão sobre os iranianos no
sentido de eles modificarem a abordagem ao resto do mundo é provavelmente a
melhor maneira de alcançar este objectivo. Tenho estado envolvido em
conversações com os iranianos. Esta Administração (Bush 44) em 2004, procurou
os iranianos e nessa altura houve conversações porque havia alguma ambiguidade
sobre se eles estavam ou não a ajudar no Iraque. [ ] Mas com a eleição de
Ahmadinejad e as coisas que diz e as coisas que o Irão continua a fazer, [ ]
não parece ser uma pré-condição irrazoável sujeitar a oportunidade de
estabelecer um diálogo de alto nível à disposição de eles pararem o
enriquecimento de urânio de uma forma verificável [ ].»
«Acções concretas» é o desejo que os iranianos não param de repetir,
continuando a retórica agravada de exigência aos Estados Unidos que peçam
desculpa por todos os «crimes» que cometeram, que retirem de todas as bases do
Médio Oriente e de todas as zonas de conflito onde possam estar envolvidos.
Teerão pretende colocar em cima da mesa o mapa da região, e sobre ele construir
uma nova relação baseada num acordo de repartição de esferas de influência e de
interesses. Os iranianos parecem acreditar que ao lançar uma nova batalha põem
mais pressão no novo Presidente americano, talvez querendo testar se se trata
de um Presidente que faz concessões ao contrário de G. Bush que fazia guerras.
Neste round, a popularidade de Obama propicia um conjunto de reacções
diferente; e a mensagem americana aparece refinada: não se move contra o Irão
por princípio; apenas quer convidar Teerão a compreender as apreensões
internacionais quanto à nuclearização e pretende facultar-lhe a oportunidade de
forjar novas relações com os Estados Unidos e os seus aliados. Senão... Então?
Washington teria de tomar acção preventiva, nas palavras do Vice-Presidente
Biden em Munique, uma posição de resto apoiada por Nicolas Sarkozy e Angela
Merkel, percentagem importante do grupo de negociação europeu que propõe ao
Irão incentivos para que abandone o programa nuclear.
O Irão considera os incentivos insuficientes, sobretudo por não contemplarem o
reconhecimento e a possibilidade do pleno exercício dos seus interesses
regionais, e as novas zonas de influência que tem vindo a estabelecer, com
tanta despesa e esforço, desde o Líbano à Palestina através do Iraque e partes
do golfo Pérsico e do Afeganistão. Ou seja: a região onde melhor se descortinam
as aventuras iranianas e onde os interesses norte-americanos se encontram mais
vulneráveis.
Biden foi mais longe dizendo que o Irão tinha agora a oportunidade de renunciar
aos seus programas nucleares secretos e ao apoio ao terrorismo, e de obter
incentivos adicionais. Está claramente ao alcance do Irão sair do caminho
estreito por onde se meteu e, por via diplomática, tornar obsoleta a opção
militar. Essa é na verdade uma opção que nunca foi retirada da mesa, nem pelos
americanos, nem pelos israelitas.
Que as coisas sejam claras: a mudança de comportamento pedida por Obama inclui
o compromisso de o Irão se portar como um Estado normal, que se reconheça
obrigado pelas leis e pelo costume. Por agora, as manifestações de
disponibilidade de estabelecer diálogo com o Irão não têm em si nada de
especial. Aliás, talvez até já tenham tido um papel na apresentação de Khatami
numa nova candidatura credível às eleições presidenciais de Junho. Talvez daí
as declarações imediatamente subsequentes de Mahmoud Ahmadinejad, no sentido de
que o Irão estava preparado para aceitar a oferta desde que o diálogo tivesse
lugar numa atmosfera «de equidade e respeito mútuo».
Mas a verdadeira questão está em saber como vão os Estados Unidos relacionar-se
de forma produtiva com o Irão quando a república islâmica se mostrou já tão
competente em promover os seus interesses nacionais de maneira muito intrincada
e parece ter as ideias tão mais claras que os Estados Unidos e os seus aliados
quanto aos resultados que pretende obter, a nível estratégico, no terreno
imediato? O que podem os Estados Unidos fazer contra um Irão apostado em usar a
arma nuclear para alcançar uma hegemonia regional? Um Irão que é capaz de
apelar aos xiitas nas sociedades árabes, como no Líbano? Que pode manipular a
simpatia árabe pelos palestinianos e ao mesmo tempo influenciar o que se passa
no Iraque? E que tem a capacidade de fazer subir a temperatura interna em
países tão cruciais como o Egipto, a Arábia Saudita, a Jordânia, ameaçando
regimes cuja legitimidade é questionada pelas próprias sociedades, divididas
pelas mesmas linhas sectárias?
Não se sabe. Por enquanto, apenas se sabe que a Administração diz que «quer
dialogar». De notar: as dificuldades que têm presidido à nomeação de um
representante especial para o Irão ' ao que tudo indica, o lugar irá para
alguém capaz de gerir o nexo Irão/Israel e com acesso e diálogo em Jerusalém.
Fala-se no clintoniano Dennis Ross. Por agora, e atendendo aos pronunciamentos
contra as políticas cessantes, a proclamada intenção de desenvolver uma
política «realista» de fria prossecução do interesse nacional, podemos esperar
que o recauchutado Smart Power seja testado sem dó nem piedade. Se o Irão é uma
potência revolucionária, é também tão nacionalista quanto qualquer outro Estado
e tem uma enorme flexibilidade no manejo das suas armas ideológicas, políticas,
financeiras e militares. A Administração Obama terá de lidar com o Smart Power
iraniano. Que, no mais, joga em casa. Como vão os Estados Unidos conseguir
colocar o Irão na defensiva? Stay tuned...
MÉDIO ORIENTE
Os tempos, as modas ideológicas e os regimes passam mas os conflitos do Médio
Oriente perduram como perdura o contexto, não menos explosivo do que era nos
anos de 1960, quando os insultos voavam entre Amã, o Cairo e Arafat. A corrida
aos armamentos convencionais e estratégicos no Médio Oriente é intensa e a
região está, literalmente, mais inflamável que nunca. As armas modernas,
incluindo as não convencionais, aumentam consideravelmente o potencial
destrutivo de qualquer confrontação militar e reduzem na proporção o tempo
disponível para exercer persuasão para evitar a confrontação. Um conflito entre
Israel e o Irão não duraria seis dias mas provavelmente seis horas.
A região continua severamente dividida, agora já não entre socialistas e
tradicionalistas mas sim entre regimes ditos moderados, a quem convêm os
atributos de Estado e um governo secular, e a onda islamita em crescendo desde
1979. As falanges terroristas, para além de Israel, ameaçam agora também
claramente as sociedades árabes. O peso da influência regional tradicional dos
estados árabes acha-se reduzido, em boa parte pelas tremendas dificuldades que
estes países encontram na modernidade. Israel tem tratados de paz com o Egipto
e a Jordânia, mas continua a ser objecto do ódio da vasta maioria das
populações locais, continuadamente atiçadas pelos líderes. Este ódio alastra do
mundo muçulmano à Europa onde se encontra solidamente implantado, com
repercussões visíveis no anti-semitismo exacerbado que afecta já os processos
políticos e os cálculos de interesse nacional e respectiva projecção externa em
países fulcrais da União Europeia, onde existe ' aí sim ' uma autêntica «rua
árabe» com expressão e peso nas urnas.
A presença dos Estados Unidos no Iraque, e a transformação política ali
ocorrida, alteraram os equilíbrios tradicionais, obrigando a uma clarificação
do sistema de alianças na região, cuja agenda é agora marcada por vários
actores não árabes, como o Irão, a Turquia ou Israel.
A ser alcançado o objectivo iraniano ' aparentemente anódino ' de ver
satisfeita a «ambição de participar no complexo de segurança regional» a
destabilização será imparável. O poder dissuasor do Irão será usado para criar
zonas de segurança inexpugnáveis para grupos de terror. Por ora, é certo que a
penetração estratégica do Irão atinge proporções inéditas na época moderna: o
Crescente xiita estende-se de Teerão às duas falanges no Mediterrâneo Oriental,
Hamas em Gaza e Hezbollah no Líbano, passando pelo Iraque e pela Síria, até ao
Iémen.
LÍBANO
Nos últimos meses, o Líbano tem conhecido um período de calmaria. A vida
retomou os seus direitos em Beirute, onde os negócios prosperam. Mas com as
eleições legislativas previstas para o próximo mês de Maio, as sombras adensam-
se. É impossível prever os timings das irrupções de violência, mas sabe-se que
não poderão ser evitadas. A fronteira entre o Líbano e Israel está calma desde
2006. O Hezbollah demarcou-se claramente da dezena de morteiros disparados
desde que Israel efectuou a operação militar em Gaza. Teme-se que seja a
espécie de calma que precede a borrasca.
Os dezasseis ramos de agências norte-americanas de informação e segurança
consideram que o Hezbollah representa uma ameaça formidável aos interesses dos
Estados Unidos, especialmente se avaliar que Washington ameaça directamente o
Irão ou planeia actuar contra o grupo, a sua infra-estrutura ou liderança.
Concordam ainda que o Hezbollah apoiado pelo Irão, via Síria, e sem incomodar a
UNIFIL, recuperou e aumentou significativamente o arsenal destruído por Israel
na guerra de 2006, e prepara novo round de luta contra o Estado judaico.
Passado um ano sobre o assassinato do seu comandante militar Imad Mugniyeh, em
Damasco, por bomba telecomandada, e nunca claramente creditado a Israel,
continua pendente a retaliação. O secretário-geral do Hezbollah jurou vingança,
coisa que normalmente merece credibilidade. Nos últimos tempos foram notícia
ataques terroristas frustrados contra alvos israelitas na Europa, nos Estados
Unidos e no Azerbaijão. Muitos analistas estimam que Nasrallah se encontra
ainda dissuadido de respostas mais frontais por via do ataque de Israel ao
Líbano em 2006. Seja como for, o Hezbollah até agora optou por manter um low
profile.
Na região é ponto assente que os iranianos já integraram o Hezbollah, o Hamas e
outras facções da resistência palestiniana que subscrevem a estratégia de
destruir Israel, e que os seus peritos empenhados no Líbano e em Gaza
desenvolvem, há anos, as infra-estruturas necessárias para «tirar Israel do
mapa», tomar conta da região e dominar o mundo árabe.
Entre essas infra-estruturas contam-se o arsenal visível, nomeadamente os 40
mil mísseis que o Hezbollah se gaba de possuir, mas também o invisível, como
sejam os túneis que servem toda a sorte de tráficos. Se os túneis ligando Gaza
ao Sinai provaram a sua eficácia no contornar do bloqueio imposto por Israel,
os túneis ligando a Faixa ao Sul de Israel servem para infiltrar as linhas
inimigas. Convém não esquecer que a operação que logrou o rapto do soldado
Gilad Shalit foi feita graças a um desses túneis.
Constatações como esta credibilizam rumores não confirmados sobre parte do
dispositivo do Hezbollah: nos últimos trinta meses, com o apoio dos Guardas da
Revolução iranianos, teriam sido escavados quatro túneis ligando o Sul do
Líbano ao Norte de Israel. O primeiro levaria à Galileia, o segundo a Naqoura
(uma das localizações da UNIFIL e lugar onde no início deste mês de Fevereiro
foi desarmado um conjunto de Katyushas). Os outros dois teriam saída em pleno
território israelita. Seriam túneis de uma profundidade de vinte metros,
escavados graças a cargas explosivas, o que explicaria os tremores que neste
últimos anos vêm sendo sentidos no Sul do Líbano (nomeadamente em Srifa) e
apresentados como sismos. Haverá também outros túneis de ligação à Síria,
providenciando maior liberdade no reabastecimento do Hezbollah e no contornar
das resoluções da ONU que proíbem o rearmamento das milícias libanesas. Estes
túneis, alegadamente em três pontos da fronteira sírio-libanesa ' a norte,
centro e sul do Vale de Bekaa ' seriam inclusive alcatroados, podendo ser
utilizados por viaturas pesadas. O Hezbollah contará ainda com uma «força
marítima» de 1300 homens, dotada de cinco mini-submarinos de fabrico iraniano,
capazes de lançar torpedos, estando já construído um canal submarino ao sul de
Beirute. Graças a estes dispositivos Nasrallah pode manter o peso da sua ameaça
sobre Israel e sobre a vida política libanesa: pois é evidente que o
desarmamento em prol das Forças Armadas nacionais não será uma opção viável. E
se a maioria nas próximas eleições legislativas não vier à mão do partido
xiita, este, enquanto grupo minoritário no Parlamento, teria forçosamente que
reintegrar o Estado, tornando-se inevitável o seu desarmamento. Assim, muitos
temem uma acção do Hezbollah contra as eleições legislativas.
A SÍRIA
«Os Estados Unidos pressionam a Síria para que ajude a desarmar o Hezbollah»,
declarou John Kerry, senador do Massachusetts, ex-candidato democrata à
Presidência e actual presidente do Comité de Relações Exteriores do Senado, no
decurso de uma visita de visibilidade ao Médio Oriente. Vindo de Gaza, a
caminho de Damasco, confirmou em Beirute que a Administração Obama pretende
«desenvolver uma nova abordagem diplomática na região». O senador encontrou-se
com o Presidente Sleiman e com o primeiro-ministro Siniora, a quem garantiu que
uma aproximação entre os Estados Unidos e a Síria não será feita à custa do
Líbano, acrescentando: «Queremos que a Síria respeite a independência política
do Líbano, queremos que a ajuda da Síria no processo de resolver diferendos com
o Hezbollah e com os palestinianos».
O encontro Kerry-Assad é visto como a abertura de uma ofensiva diplomática que
poderá resultar no envio de um embaixador americano para Damasco, donde os
Estados Unidos retiraram desde o assassinato do primeiro-ministro libanês Rafic
Hariri. Embora fosse sublinhado que Kerry se deslocava «na capacidade pessoal»
e sem representar a Administração, a visita à Síria é uma promessa de degelo
nas relações entre os dois países, sobretudo sendo efectuada na semana em que a
Agência Internacional de Energia Atómica revelou que as análises das amostras
retiradas do local bombardeado em 2008 por Israel continham traços de urânio.
Foi também recentemente anunciado que os Estados Unidos iriam enviar peças para
a reparação de aviões de passageiros Boeing que estão no chão.
É no entanto duvidoso que esta visita venha resolver algum do enorme
contencioso entre os dois governos. Assad procura um relacionamento favorável
com a Administração Obama, sem compromisso de cortes com Teerão nem quebra de
apoio a terroristas. Pelo contrário: Assad provavelmente convencerá Kerry que
tais ligações lhe conferem o perfil ideal para servir de intermediário entre
Washington e Teerão; e o Hezbollah no Líbano; e Hamas e a Jihad Islâmica na
Palestina. Até poderá sustentar que o próprio primeiro-ministro turco e bem
assim Mubarak se reconciliaram já com a realidade: não é possível concluir
negócios no Médio Oriente sem incluir Damasco e Teerão.
Por agora, a Administração Obama aparece precavida. Numa nota de prudência que
tem sido uma constante nas declarações dos membros do governo americano quanto
ao Médio Oriente ' provavelmente a concretização da prometida humildade e
professado pragmatismo ' Kerry declarou
«pretendemos renovar a diplomacia mas sem ilusões, sem inocência, sem
expectativas ilusórias de que apenas por falarmos as coisas acontecem
automaticamente. As coisas vão acontecer quando ambas as partes corresponderem;
e é preciso falar com as pessoas para compreender quais são as expectativas e
conseguir estabelecer acordos».
Veio a público que, em Washington, o Presidente Bashar Assad é visto como
«tendo tido a prudência de solidificar o controlo no país pelos meios
tradicionais, seguindo o exemplo do pai e nomeando pessoas da sua confiança
para postos-chave no aparelho de Estado». Espera-se que volte a receber
material nuclear da Coreia do Norte, sendo actualmente já dado por certo que
retomou a construção de um complexo de armas químicas[4]. E Washington preparou
a missão de Kerry a Damasco dando passos para apressar a convocação do Tribunal
Internacional Especial designado pelo Conselho de Segurança da ONU para levar a
julgamento os assassinos do primeiro-ministro libanês Hariri. O seu sucessor
Siniora, confirmou de resto que, no início de Fevereiro, seis grandes caixas de
aço cheias de documentos recolhidos pelos magistrados ao serviço das Nações
Unidas foram levados em segredo do Líbano para a Haia num avião militar francês
[5].
CISMA ÁRABE
A história do Médio Oriente está recheada de episódios de guerras, intrigas e
inimizades entre os líderes e povos árabes e muçulmanos. Desde os primeiros
tempos do islão, em que logo apareceu a divisão xiita e sunita, que os crentes
se digladiam. A unidade foi-se com o império. Períodos houve em que foi
possível disfarçar, sobretudo com destaque para os últimos sessenta anos em que
a criação do Estado de Israel facultou uma magnífica causa de união retórica e
prática política. A unidade árabe existia na posição comum contra a hipótese de
um Estado judaico independente no Médio Oriente.
O apoio à causa palestiniana foi o cerne da diplomacia árabe durante décadas,
mas agora ' com a incursão militar de Israel em Gaza ' vieram a público as
grandes divisões entre os que apoiam a Autoridade Palestiniana e os que apoiam
o Hamas. Um frenesim de cimeiras entre o início da operação militar e até
depois do cessar-fogo unilateral de Israel, a 18 de Janeiro, assinalou um
terramoto nas diplomacias árabes quanto aos palestinianos e quanto à unidade
árabe.
O governo do Egipto alinhou com a operação militar israelita, acusando o Hamas
de provocar o conflito com os seus ataques de morteiro. O Cairo bloqueou a
fronteira com Gaza através da qual o Hamas poderia ter reabastecido os seus
stocks, inclusive de munições. Outros países também falaram cautelosamente
sobre o conflito, condenando Israel mas abstendo-se de validar o Hamas. A
partir do Líbano, Hassan Nasrallah apelava aos egípcios que se revoltassem
contra o Governo. O Irão e a Síria mantiveram-se ao lado do Hamas, juntando-se
a eles o Qatar. O emirato, que tem relações próximas com os Estados Unidos,
assumiu uma posição muito clara a favor do Hamas, convocando uma Cimeira da
Liga Árabe mal começou a operação. A ideia contava com o apoio da Síria e
pretendia apresentar uma frente árabe unida contra Israel. A Arábia Saudita
bloqueou a ideia. O Qatar insistiu em reunir os chefes de Estado árabes e
avançou com a convocação da cimeira. Quando chegou a hora do encontro, o
Egipto, a Arábia Saudita, a Jordânia e a Autoridade Palestiniana não
apareceram. A Jordânia viu-se aflita: com uma maioria palestiniana, e uma
Irmandade Muçulmana ressurgente, tem procurado mover-se de forma a sublinhar a
sua solidariedade com os palestinianos sem alinhar nem com o Hamas nem com os
patrocinadores iranianos. No final acabou por boicotar a reunião de Doha. Ali
estiveram presentes 13 estados, e com eles Ahmadinejad e Assad. Em lugar de
presidentes e reis, o líder exilado do Hamas sentou-se à mesa, fazendo zangar a
Autoridade Palestiniana, o governo oficial dos palestinianos. A reunião não
teve quórum, logo não teve categoria de «cimeira». Mas levou o desafio ao ponto
de aprovar resoluções apelando à retirada do Plano de Paz Saudita e ao fim da
normalização com Israel[6].
São dois campos principais: o eixo iraniano, com a Síria, o Hezbollah, o Hamas,
a Jihad Islâmica da Palestina e, em certa medida, o Qatar; e o grupo adverso,
liderado pelo Egipto e a Arábia Saudita, com a Jordânia e os Estados do Golfo e
a Fatah. Esta cisão tem um impacto considerável a nível local, regional e
internacional, alterando fundamentalmente as opções para a acção diplomática,
tanto no que toca a questão interpalestiniana, como a israelo-árabe, como no
que respeita ao problema do Irão.
CONTER O IRÃO?
Para além de infligir uma pesada derrota ao Hamas e de ter causado a morte e
terror da população, a operação militar de Israel em Gaza mostrou quão abalada
está a arquitectura regional de segurança.
Desde 2006 que a preocupação árabe com as aspirações iranianas ao domínio
regional se tornaram objecto de maior e mais ampla discussão no mundo árabe. A
imprensa saudita e egípcia tem manifestado uma oposição constante, não
hesitando em recorrer aos piores e mais violentos adjectivos. Numa «expansão
como um polvo», o Irão
«controla a região mantendo organizações armadas em países árabes, violando a
lealdade à pátria e substituindo-a pela lealdade ao Irão. E isto tanto mais
quanto o Irão é um país que não dissemina nem tolerância nem uma cultura de
moderação mas sim uma cultura de hegemonia unilateral, parte de um esforço
racista de impor uma espécie de ocupação».
O ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio Al-Gheit declarou que os
«iranianos tentavam espalhar a sua influência e impor uma ideologia
idiossincrática na região», acusando o Irão de «usar cartas árabes para
concretizar interesses e objectivos que não são árabes» e disse ser necessário
«garantir que o Irão não se torna uma potência nuclear»[7].
Já em Julho de 2006, quando Israel retaliou contra o Hezbollah, acontecera uma
coisa muito pouco usual: governos árabes culparam publicamente o Hezbollah por
ter provocado o conflito e deixaram passar um bom momento até se queixarem do
comportamento israelita. Na mais recente operação militar em Gaza a reacção
voltou a repetir-se. Só que desta vez, o alinhamento de facto entre os
interesses de Israel e dos estados árabes foi muito mais óbvio. A maior parte
dos governos árabes parece estar muito mais preocupada com a possibilidade da
hegemonia regional do Irão do que com o que venha de Telavive ou Jerusalém.
Sabem que o Estado de Israel não vai subverter ou conspirar para os derrubar, o
que exactamente esperam do Irão. Nem o Egipto nem a Arábia Saudita decerto
apreciavam o programa nuclear de Israel. Mas nunca retaliaram com um programa
próprio, logo: não o temiam. Agora ameaçam o Irão com uma corrida ao nuclear.
Esta estranha aliança israelita-sunita não é mais que uma aliança táctica. As
capitais árabes não vêem qual é o interesse de se atravessarem no caminho de
Israel quando este trata de enfraquecer inimigos comuns como o Hamas e o
Hezbollah. O problema está em que esta acção defensiva não desfruta de qualquer
compreensão junto dos respectivos cidadãos que nela encontram mais uma razão
para desprezar os regimes que os governam. A opinião pública tende a apoiar o
Hamas, o que aumenta os créditos de destabilização ao Irão e aos seus aliados.
Recentemente, uma declaração do Irão reiterando a sua pretensão ao reino do
Bahrein como província iraniana voltou a pôr as coisas ao rubro.
«Como se a sua ocupação de três ilhas dos Emiratos Árabes Unidos não fosse
suficiente [ ] O Irão já causou tanto dano à região, dividindo os palestinianos
em dois estados, nuns territórios já de si fragmentados e ocupados; não lhe
chega a divisão que criou em Beirute, entre sunitas e xiitas; agora apoia a
secessão dos Al-Huthistas no Iémen; já havia procurado fazer o mesmo no Iraque,
onde felizmente foi derrotado nas últimas eleições onde os xiitas do Sul do
Iraque votaram contra os candidatos do Irão«[8]. [...] Também nós gostaríamos
de acreditar que os iranianos não têm desígnios na nossa região, que não
escondem más intenções e que não procuram sabotar a região árabe. [ ] Porém, as
declarações públicas de Teerão não ajudam quem quer acreditar na bondade das
suas intenções. A captura da mais recente célula terrorista na capital do
Bahrein diz tudo o que é preciso sobre as acções e intenções do Irão.»
Neste incidente foi surpreendente a rapidez da reacção árabe, rechaçando
imediatamente as pretensões iranianas, nomeadamente declarações firmes e
musculadas da Arábia Saudita e as visitas de Hosni Mubarak e do rei da Jordânia
a Manama, capital do Bahrein e que levaram ao pronto desmentido iraniano.
«As posições tomadas pelos líderes árabes contra os comentários iranianos
constituíram uma mensagem clara e rapidamente bem entendida por Teerão, que
rapidamente percebeu o perigo da situação. Esta postura é novidade entre os
árabes mas é o que deve ser feito para confrontar as acções malévolas do Irão
na região»[9]
Será que o Egipto e a Arábia Saudita estão a recuperar da letargia dos últimos
anos?
O PROCESSO DE PAZ
Recém-empossado, Barack Obama afirmou que a sua Administração se empenharia de
imediato na globalidade do Processo de Paz no Médio Oriente, declarando-se
«determinado a quebrar o impasse que há décadas se arrasta» e acreditar que «se
se atentar no trabalho da Administração Bush bem como aos desenvolvimentos na
época de Clinton, é possível descortinar um enquadramento, uma abordagem
possível»[10]. A pronta nomeação do veterano George Mitchell para enviado
presidencial para o Conflito do Médio Oriente, indica que Obama considera
importante sinalizar que leva a sério a causa palestiniana e o conflito entre
árabes e israelitas, que considera plausível uma resolução pacífica, e que uma
solução regional removeria uma das principais bandeiras dos extremistas
islâmicos.
Se a Administração também acredita em tal ideia só o futuro o dirá. Em abono da
lucidez, diga-se que o almirante Blair, director das Informações de Segurança
Nacional, declarou ao Congresso «ser pouco provável» a eventualidade de acordos
de paz entre Israel e os palestinianos, sobretudo enquanto o Hamas governar
Gaza e o Hezbollah dominar o Sul do Líbano; e as possibilidades de progressos
políticos entre as facções palestinianas são "remotas"»[11].
O QUE DEVE OU PODE SER FEITO QUANTO AO CONFLITO ISRAELO-ÁRABE ?
Se o Médio Oriente é um problema, o conflito israelo-árabe é uma indústria.
Inspirado pelos processadores de paz, pelos países árabes e pelos líderes
europeus, Obama terá agora a tentação de acreditar que, com a dose certa de
voluntarismo e esforço, pode resolver o problema. Espera-se que tire um momento
para reflectir sobre factos tão singelos como a incapacidade de alcançar dois
estados já contar pelo menos quinze anos, com as mais diversas configurações e
constelações políticas: já transitaram o Plano de Paz de Reagan, a Conferência
de Madrid de Bush (42.º), os Parâmetros Clinton e, nos últimos oito anos, a
Visão Bush (44.º), o Relatório Mitchell, o Plano Tenet, o Plano Zinni, o Road
Map. Sem esquecer o Plano Saudita de 2002. Resultados?
Os falhanços da Administração Bush trouxeram a nostalgia da época de Clinton.
Mas a verdade é que o activismo de Clinton redundou num falhanço, e tal não
pode evidentemente ser dissociado das políticas da sua Administração. As
experiências de Clinton e G. W. Bush mostram como dois presidentes americanos '
um democrata e outro republicano ' se empenharam num esforço prolongado para
criar um Estado palestiniano: ambos saíram do cargo com mais uma guerra no
Médio Oriente nas mãos. Com tanta coisa nova e com tanta coisa a correr mal
durante tantos anos, seria elementar responder primeiro a questões básicas
como, por exemplo, até onde vai a capacidade de os Estados Unidos influenciarem
os comportamentos dos actores menores? Ou reflectir sobre a incapacidade de
compreender as forças no terreno?
Num artigo recente, Hussein Agha e Robert Malley, que acompanharam de perto o
Presidente Clinton e os encontros de Camp David, desacreditam por completo o
mito urbano de que a Administração Bush esteve demasiado «alheada» dos
problemas do Processo de Paz:
«não pode estar mais longe da verdade histórica [ ] quase desde o início [ ]
interveio na política palestiniana, ajudando a reescrever a lei fundamental,
declarando Arafat como pária, ungindo os seus líderes preferidos, insistindo
numa reforma interna como pré-requisito para a paz, tomando posições sobre um
acordo final numa carta de 2004 de Bush para o primeiro-ministro Sharon [ ]
encorajando o confronto entre a Fatah e os islamitas do Hamas, impondo sanções
à Síria e desencorajando o retomar de conversações entre Israel e a Síria [ ]».
Em 2002, Bush tornou-se o primeiro Presidente dos Estados Unidos a endossar
formalmente um Estado palestiniano, produziu o Road Map e fê-lo adoptar pelas
Nações Unidas, União Europeia, Rússia, Autoridade Palestiniana e Israel; em
2004 entrou num acordo para que Israel saísse de Gaza em 2005, reconhecendo os
requisitos mínimos de segurança do Governo israelita: não regresso às
fronteiras de 1967 mas sim a fronteiras defensáveis como fora prometido pela
Administração Clinton; e não reconhecimento de um «direito de retorno» a
Israel. E no entanto o processo falhou. Terá sido mais uma incompetência de
Bush?
As falhas americanas são bipartisan e não resultam nem de esforço insuficiente
nem de «esperar de mais». O problema é mais fundamental. Por isso se recomenda
a Obama que se demore a
«rever as razões para as falhanços recorrentes, a ponderar a eficácia da
mediação americana, a sabedoria e realismo de buscar uma solução global,
completa do conflito entre israelitas e palestinianos e, mesmo, pensar sobre
qual é a centralidade desse conflito para os interesses dos Estados Unidos»
[12].
Na ausência de perspectiva de conversações de paz sérias, os esforços
principais tenderão a concentrar-se na estabilização e gestão dos conflitos.
A QUESTÃO PALESTINIANA
A cisão palestiniana é uma nova frente na dissensão regional, de que o mais
recente episódio são as cimeiras rivais de reconstrução de Gaza, com o Egipto a
realizar a primeira a 2 de Março e o Irão a convocar uma cimeira rival dias
depois.
Será muito difícil contemplar negociações de paz sérias e credíveis sobre o
estatuto final enquanto não houver um negociador que fale em nome de todos os
territórios palestinianos e que seja capaz de executar qualquer acordo.
À hora de fecho deste artigo havia notícias de que os Estados Unidos estariam
por trás da mais recente tentativa de o Egipto conciliar as facções
palestinianas em ordem à formação de um governo de unidade. Esta seria assim
outra mudança, já de fundo, da nova Administração: a disponibilidade de aceitar
um governo onde estivesse incluído o Hamas. Note-se que John Kerry, na sua
breve visita ao Médio Oriente, aproveitou para constituir a primeira delegação
americana de alto nível a entrar em Gaza desde que o Hamas expulsou a Fatah e
assumiu o controlo em 2007. Fiel ao estilo que caracterizou o resto do seu
périplo, de efectuar declarações para o efeito do que estava a acontecer não
ser aquilo que estávamos a ver, mesmo antes de entrar em Gaza, Kerry clarificou
«que a sua visita não queria dizer que a Administração Obama estivesse a
preparar uma mudança de rumo». Na Conferência do Cairo, a oferta da vultuosa
contribuição financeira americana será sublinhada pela presença da secretária
de Estado Hillary Clinton, na sua primeira visita à região, e do enviado
especial para o Médio Oriente. Ambos reafirmaram que os Estados Unidos não
teriam contactos com o Hamas enquanto este movimento não acatasse as condições
do Quarteto, isto é, aceitar os acordos previamente subscritos pela OLP e a AP
e desistir de destruir Israel.
Passada a operação militar em Gaza, e todas as divisões que revelou, inclusive
quanto à posição do território na frente de combate islâmico pela hegemonia
regional, o Hamas está de novo à carga, desta vez com a proposta de criação de
uma nova organização palestiniana para substituir a OLP que «não serve». O
objectivo seria obter o controlo da OLP através de uma estratégia de não
permitir a reconciliação entre as facções, exigindo por exemplo à Fatah que
acabe a coordenação de segurança com Israel, corte as negociações e aceite um
programa político de «resistência»; procura também dividir a Fatah apelando aos
membros que são contra as negociações com Israel; e fazendo operações de charme
junto da diáspora e dos intelectuais árabes a partir da plataforma política,
como, por exemplo, a exigência do direito de retorno para os refugiados
palestinianos[13]. Enquanto isto, segundo sondagens palestinianas de 9 de
Fevereiro, 56 por cento dos residentes na Faixa de Gaza e 48,3 por cento da
Cisjordânia julgam que o Hamas leva os seus destinos por maus caminhos,
recolhendo o apoio de 27,8 por cento contra 51,5 por cento em Novembro de 2008,
enquanto a Fatah subiu de 31,4 por cento para 42,5 por cento[14].
Do lado dos factos, embora seja voz corrente que Mahmoud Abbas é um líder de
fracas possibilidades políticas, a situação da autonomia palestiniana na
Cisjordânia tem evoluído favoravelmente. A ordem pública tem progredido, as
milícias diminuído. Os principais exemplos são Nablus e Jenin, onde houve
grande concentração de esforços por parte da Autoridade Palestiniana e onde se
regista um grau de satisfação razoável das populações com esses esforços. Por
iniciativa da Administração Bush, começou o treino de forças de segurança
palestinianas num centro de treino na Jordânia. Sob a tutela americana, foram
já formados cerca de 600 polícias da Margem Ocidental, e espera-se que este
número duplique. O programa, da responsabilidade do militar americano Keith
Dayton, não teve um arranque fácil mas as forças de polícia deram provas na
manutenção da ordem pública aquando da operação militar em Gaza. Os indicadores
económicos de base têm evoluído positivamente, com um crescimento da ordem dos
4-5 por cento e queda no desemprego, com aumento de salários, dos indicadores
das trocas e retoma também do turismo na zona de Belém[15]. O primeiro-ministro
Salam Fayyad, com fama de integridade e de capaz administração, tem sido um
argumento a favor dos apoios dados à Autoridade Palestiniana. Fayyad tem
conseguido assegurar uma boa performance económica na Margem Ocidental bem como
contactos profissionais com o Governo israelita; e, aparentemente, também uma
capacidade de trabalhar para a criação de instituições que possam garantir o
funcionamento de um Estado.
ISRAEL CONTIDO?
Nestes primeiros trinta dias a Administração Obama manteve as relações com
Israel num limbo. O fim da operação militar em Gaza, a preocupação com reduzir
a animosidade muçulmana, as eleições em Israel, e ' admita-se ' digerir os
dossiês classificados que de súbito se tornaram sua responsabilidade, poderão
explicar a ausência de sinais claros de direcção. É possível que esse seja o
sinal. Mas é mais provável que as políticas se anunciem cautelosamente e em
silenciosa coordenação com a gestão da frente iraniana.
Israel está numa posição complicada: no olho do furacão, sem recuo estratégico,
severamente condicionado pelas frentes iranianas a norte e a sul, a Síria a
leste e uma incerteza estratégica quanto ao triângulo com os Estados Unidos e o
Irão.
Só com a recente incursão em Gaza se percebeu claramente a sofisticação e o
âmbito dos esquemas de contrabando ali montados e o papel ali desempenhado por
elementos dos Guardas Revolucionários iranianos. Aparentemente, desde a
intercepção por comandos israelitas do barco Karin A ' que em Janeiro de 2002
levava um carregamento de armas para Gaza ' os iranianos mudaram o modo de
funcionamento: passaram a contrabandear pequenas quantidades através de uma
rede complexa de mediadores. Essas «pequenas» remessas incluem Katyushase os
israelitas temem que se sigam mísseis Fajr com alcance de 70 quilómetros a
partir de Gaza. Diz-se que actualmente há mais mísseis balísticos apontados a
Israel em números absolutos do que a qualquer outro país no mundo. Para além
dos creditados ao Irão, Hamas e Hezbollah (mísseis balísticos com alcance de
300 quilómetros), a Síria também está indicada como detentora de um vasto
arsenal de mísseis em silos, capazes de atacar qualquer ponto do território
israelita.
A recente operação militar em Gaza constitui mais um aviso sério no que toca a
retiradas da Cisjordânia: entregar terra não traz paz e diminui as capacidades
de defesa do Estado. Enquanto não houver condições de segurança na Margem
Ocidental, será difícil encontrar israelitas que apoiem uma retirada das Forças
Armadas e de defesa. Uma sondagem de 26 de Fevereiro de 2009 indica 51 por
cento dos israelitas contra um Estado palestiniano, com 32 por cento a favor;
52 por cento estão certos que um Estado governado pela AP causará ataques de
morteiro nas cidades do Centro do Israel; 31 por cento de votantes Kadima
declararam que se soubessem que o seu partido apoiava tal Estado, votariam
noutro partido[16]. A percepção nacional parece ser de que há muito pouco que
se possa fazer em Gaza e na Margem Ocidental a não ser lutar ocasionalmente
contra o Hamas e ajudar os palestinianos a construir instituições, como no caso
da Missão Dayton de treinar e equipar forças de segurança palestinianas.
Acresce que o público israelita está consideravelmente desencantado com o
chamado processo de paz e parece estar maioritariamente inclinado para a
conclusão de que o conflito não é acerca das fronteiras de 1967 mas antes das
de 1948... ou seja: o conflito não é sobre territórios mas sobre a própria
existência do Estado de Israel. Finalmente, o backlash anti-semita e anti-
sionista que grassa no mundo, em crescendo contra a legitimidade do Estado de
Israel, sobretudo nos países europeus, constitui um elemento profundamente
desestabilizador da comunidade política israelita.
Este estado de espírito marcou as recentes eleições legislativas e vem em apoio
de uma liderança com margem de manobra muito, mesmo muito, reduzida.
Israel provavelmente deseja evitar choques com os Estados Unidos, para tentar
facilitar a cooperação no dossiê iraniano, que parece ser uma questão
complicada no relacionamento bilateral. Já o foi na segunda Administração Bush
e agora que a Administração Obama parece estar disposta a uma aproximação ao
Irão, Israel acha-se muito céptico, num cepticismo consensual em todo o
espectro político israelita.
A inclinação de Israel para a direita não significa de modo algum o fim da
solução de dois estados como modelo dominante para a resolução do conflito com
os palestinianos. Israel nunca conheceu uma transferência de poder violenta.
Nos primeiros trinta anos do Estado liderou o Partido Trabalhista, e nos trinta
anos seguintes, salvo raras excepções, foi governado por coligações de direita
ou de centro-direita. A plataforma do Likud limita-se a condenar quaisquer
outras retiradas unilaterais, no modelo do Líbano ou de Gaza. E pode muito bem
trabalhar para a viabilidade da Cisjordânia sob a autoridade da AP e preparar o
dia em que o Hamas não tenha já o poder de exercer um veto sobre uma paz entre
Israel e a AP.
As realidades no terreno tornam realmente inverosímil qualquer acordo de paz.
CONTINUIDADE, PRUDÊNCIA, AMBIGUIDADE
É ainda demasiado cedo para prever as apostas da Administração Obama ou quais
serão os seus sucessos ou os seus falhanços. Muito depende de terceiros, da
sorte e do azar. Para já ressaltam as abordagens de continuidade, prudência,
ambiguidade. Tanto ao nível interno, na questão das escutas, na questão da
redução de suspeitos de terrorismo, na questão de práticas de interrogatório,
como na frente externa a manutenção do conceito operacional de «Grande Médio
Oriente» parecem poder sustentar a afirmação de continuidade. A natureza da
ameaça irá decerto levar a que prevaleça uma abordagem militarizada e orientada
por questões de segurança.
Por agora, as movimentações e nomeações em Washington evocam as recomendações
«realistas» para uma política externa abrangente para toda a região, reunidas
no famoso Iraq Study Group, sob patrocínio de James Baker (republicano) e Lee
Hamilton (democrata).
A ansiedade de Obama em ganhar margem de manobra no mundo muçulmano pode
induzir políticas que levem os Estados Unidos a pressionar os seus aliados '
como a Índia ou Israel ' a fazerem compromissos estratégicos que ameacem a
segurança nacional, ou a suster-lhes a mão em qualquer retaliação aos seus
opositores. Tais pressões terão de ser sopesadas pelos Estados Unidos para
evitar riscos de desestabilizar situações já de si altamente voláteis.
As políticas nacionais são determinadas e moldadas por considerações de
segurança nacional. Admitindo que Obama venha a protagonizar cortes com o
passado e a introduzir uma série de nuances dificilmente poderá mudar os
constrangimentos e as premissas que produzem as políticas americanas. As
realidades estratégicas actuais irão forçar Obama a tomar decisões bem difíceis
nesta matéria.
[1] U.N. Ambassador Rice Says America Is 'Back' : NPR, 20.02.09 http://
www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=100918595
[2] 2008 Scholar-Statesman Award Dinner, Featuring Henry Kissinger, October 10,
2008
http://www.washingtoninstitute.org/templateC07.php?CID=430
[3] Session with Secretary Gates following remarks at National Defense
University's Distinguished Lecture Program at Ft. Leslie J. McNair, Washington,
D.C., Sept. 29, 2008 http://www.defenselink.mil/transcripts/
transcript.aspx?transcriptid=4295
[4] Dennis Blair, Obama's new director of national intelligence, tells Congress
By Greg Miller, February 13, 2009 http://www.latimes.com/news/nationworld/
nation/la-na-security-threat132009feb13,0,3894353,print.story
[5] Evidence in Hariri murder moved to Hague, http://www.dailystar.com.lb/
article.asp?edition_id=1&categ_id=2&article_id=99281
[6] Resolutions of the Arab Summit in Doha Regarding the Zionist Israeli
Terrorist War on Gaza
http://www.amazonepress.com/News/2009/January/16_n/Resolutions_of_the_Arab
Summit_in_Doha_Regarding_the_Zionist_Israeli_Terrorist_War_on_Gaza.htm
[7] An Escalating Regional Cold War ' Part I: The 2009 Gaza War http://
www.memri.org/bin/articles.cgi?Page=archives&Area=ia&ID=IA49209
[8] From Dividing the Palestinians to Threatening Bahrain Asharq Alawsat
Newspaper (English) 15/02/2009, Abdul Rahman Al-Rashed http://aawsat.com/
english/news.asp?section=2&id=15733
[9] Iran and the Bahraini Lesson Asharq Alawsat Newspaper (English), 22/02/
2009 By Tariq Alhomayed
http://aawsat.com/english/news.asp?section=2&id=15825
[10] President Obama Delivers Remarks to State Department Employees, January
22, 2009 http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/01/22/
AR2009012202550_pf.html
[11] - vd nota 4
[12] How Not to Make Peace in the Middle East, By Hussein_Agha, Robert_Malley
http://www.nybooks.com/articles/22230
[13] Recorde-se que a OLP, constituída em 1964, foi reconhecida como o «único
legitimo representante do povo palestiniano» na cimeira da Liga Árabe em Rabat
em 1974 (na altura com fortíssimas objecções da Jordânia). Desde então a OLP é
o representante dos palestinianos para todos os efeitos práticos, inclusive
negociar e assinar e estabelecer os Acordos de Oslo com Israel, criar a
Autoridade Palestiniana sob os seus auspícios. A OLP é a autoridade que
negoceia com Israel e comanda o aparelho diplomático. A organização dominante
dentro da OLP é a Fatah. O Hamas e a Irmandade Muçulmana nunca aceitaram a
legitimidade da OLP. Depois de uma tentativa falhada de se juntar à OLP em
1991, o Hamas lançou uma guerra contra a organização, que ainda hoje perdura,
visando acabar as negociações com Israel, tendo como principal meio de combate
os ataques suicidas que liquidaram o processo de paz. Foi em Março de 2005,
apôs a morte de Arafat e a eleição de Abbas como presidente da AP que as duas
facções chegaram a um acordo que previa uma trégua de um ano com Israel, a
realização de eleições legislativas, a reforma da OLP e a inclusão do Hamas. A
verdade é que a OLP não chegou a acolher o Hamas, e desde que perdeu as
eleições de 2006 a Fatah tem sido quanto a isso intransigente, decerto por medo
de perder a posição de representante oficial do povo palestiniano.
[14] Palestinian poll: Hamas support drops, Feb. 9, 2009 http://www.jpost.com_/
servlet/Satellite?cid=1233304721441&pagename=JPArticle%2FShowFull
[15] Palestinians Work to Jolt West Bank Back to Life, 24/12/08
www.nytimes.com/2008/12/24/world/middleeast/24bethlehem.html
[16] Poll: Most Israelis Opposed to PA State, 26/02/09
http://www.israelnationalnews.com/News/Flash.aspx/160498
*
Diplomata. Investigadora do IPRI ' UNL. Foi secretária de Estado dos Negócios
Estrangeiros e da Cooperação do XV Governo Constitucional.
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1000-155 Lisboa
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