Revisitar as Raízes do Choque Civilizacional. O Islão e o Ocidente na Travessia
dos Séculos
Revisitar as Raízes do Choque Civilizacional. O Islão e o Ocidente na Travessia
dos Séculos
João Pedro Vieira
Christopher J. Walker.
O Islão e O Ocidente. Uma Harmonia Dissonante de Civilizações.
Lisboa, Edições 70, 2006, 302 páginas
UMA PONTE ENTRE CIVILIZAÇÕES
A história das relações entre o Ocidente e o islão tornou-se um tema clássico
da produção intelectual ocidental das últimas décadas. O mediatismo
recentemente adquirido pela actuação das organizações terroristas islâmicas
veio expandir poderosamente a atenção e sensibilidade dos investigadores e do
público ocidental para o islão, sendo precisamente neste contexto que a
presente tradução portuguesa da obra de Christopher Walker se situa.
Conquanto não ao nível de autores especializados como Bernard Lewis, Walker,
autor de duas publicações sobre a história contemporânea da Arménia e dotado de
uma experiência profissional diversa ligada à Sotheby's e à Penguin, procura
escrever «um estudo das relações entre o Oriente e o Ocidente» (p. 10) ao longo
de nove capítulos. Obra de síntese, O Islão e o Ocidente convoca para a sua
construção uma diversidade de temáticas, recursos expressivos e tipos de
discurso aplicados ao estudo não só das relações entre as duas civilizações,
mas igualmente da representação do islão entre as elites europeias e da sua
importância no desenvolvimento da civilização ocidental.
Nessa medida, a obra cobre um vasto lapso cronológico que se estende desde o
século iv d. C. até às vésperas da I Guerra Mundial e que corresponde ao
desenvolvimento de um trabalho historiográfico não raro atravessado por
momentos de criatividade literária, produzindo uma síntese cuja orientação
global se fixa na valorização dos aspectos positivos do contacto e relação
multissecular entre o islão e o Ocidente.
UMA HISTÓRIA DAS RELAÇÕES ENTRE ISLÃO E OCIDENTE?
A problematização do significado civilizacional das alianças informais de
Isabel I e da rainha Vitória com o Império Otomano marca a abertura do estudo e
lança o interesse de uma indagação histórica que explique o facto de tais
opções políticas não terem suscitado grande celeuma nas respectivas sociedades.
Tais contactos, assim como as experiências pretensamente multiculturais do al-
Andalus e da Sicília, demonstram a possibilidade de uma coexistência pacífica e
tolerante e contrastam veementemente com a época das Cruzadas, que merece a
profunda reprovação do autor.
É a necessidade de explicar as origens profundas das Cruzadas que leva o autor
a recuar até ao século iv d. C. para analisar as origens da peregrinação a
Jerusalém como fenómeno religioso cristão. Para o autor, esse foi um momento de
ressurgência dos aspectos «totémicos», sensitivos e politeístas que o
cristianismo primitivo expurgara da religião. Paralelamente, também os
conflitos político-militares entre bizantinos e sassânidas tinham integrado a
conquista de espaços sagrados e de relíquias, favorecendo a imbricação entre
política, religião e ideologia. O conflito estrutural entre os dois impérios
enfraqueceu-os e abriu espaço para a afirmação político-militar e religiosa do
islão, que oferecia, segundo o autor, uma simplicidade tolerante e unificadora
a um universo religioso povoado por sinuosidades teológicas e perseguições.
Inicialmente, o islão era uma religião pouco controversa, como atestam diversos
testemunhos literários sírios, arménios e ocidentais dos primeiros séculos do
islão. As raízes cristãs do islão eram reconhecidas, tanto mais que a nova
religião era considerada pelos teólogos cristãos orientais como uma derivação
heterodoxa do cristianismo. Datam desta época os primeiros contactos
diplomáticos entre o Ocidente e o islão, quando ainda não existia um
antagonismo pronunciado entre os dois mundos e o islão vivia um intenso
florescimento civilizacional a que corresponderam, segundo Walker, grandes
manifestações de coexistência pacífica na Palestina pré-cruzada e já no al-
Andalus.
Todavia, o relacionamento entre o Ocidente e o islão sofreu uma profunda
transformação entre os séculos xi e xiii, com o movimento das Cruzadas. Deste
modo, o capítulo 2 é preenchido por uma visão altamente crítica sobre as
Cruzadas e as suas consequências, não se inibindo o autor de adoptar uma
posição moralizada ' e.g., repreende a arrogância da ideologia de cruzada como
interpretação abusiva da vontade divina. Para o autor, a militarização do
cristianismo ocidental destruiu a relação entre as religiões e assinalou o
início de um período obscuro e sangrento. A afirmação da intolerância, da
violência e da brutalidade causou atrocidades que, no entanto, não destruíram
universalmente a relação entre cristãos e muçulmanos, e foi de facto no al-
Andalus do século xi e na Sicília normanda medieval que a coexistência, a
tolerância e a cooperação atingiram supostamente o seu auge.
O encerramento da época das Cruzadas ocorre num momento em que «o cres-cimento
do conhecimento estava a devolver aos europeus o uso da razão» (p. 57). O
desvanecimento desse movimento, representando o fim da perversão e da
depravação humana, foi forçado quer pelo despontar do conhecimento na Europa,
quer pela transformação do quadro geopolítico internacional e pela progressiva
secundarização da religião na administração do Estado e na diplomacia
internacional.
No capítulo 3, o leitor é levado num roteiro cultural pelo plurissecular
processo de transmissão do saber clássico ao islão e pelo desenvolvimento da
cultura islâmica, considerando o conhecimento filosófico e teológico e
percorrendo o pensamento filosófico desde Platão e Aristóteles a Ibn S¯ın¯a,
al-R¯az¯ı e Ibn Ruˇsd, entre outros. Contudo, a análise é guiada pela história
europeia, ou seja, é o processo de «perda e recuperação do saber» pela Europa
que importa explorar, num momento em que o conservadorismo político-religioso
se começava a impor no mundo islâmico e a Europa redescobria o legado clássico.
Porém, a Europa estava também a assimilar um legado islâmico, por exemplo, com
a difusão do averroísmo, influente na filosofia e teologia medievais europeias.
Lentamente, as elites europeias desenvolviam uma nova atitude face ao islão
francamente divergente do espírito cruzadístico e anti-islâmico, processo
acompanhado e estimulado pelo incremento dos contactos comerciais e
diplomáticos. Entretanto, conforme sintetiza o capítulo 4, o Médio Oriente
começava a sentir as consequências dramáticas da infiltração turca e mongol. Do
caos político resultou uma reorganização drástica do quadro geopolítico da
região, que passou a ser dominado no século xvi pelo Império Otomano e pela
dinastia safávida, potências que se enfrentavam num conflito de grandes
proporções. Por outro lado, a Turquia otomana vinha agora colocar as fronteiras
da Europa Oriental e Central sob pressão.
É esta a base do período moderno das relações entre a Europa e o islão e o pano
de fundo do início de relações diplomáticas directas entre a Inglaterra, por um
lado, e o Império Otomano e a Pérsia safávida, por outro. A narrativa do autor
entra então, nos capítulos 5 e 6, num registo mais biográfico e centra-se, sem
esquecer o contexto religioso europeu resultante da Reforma e da reacção
tridentina, no percurso de William Harborne, Edward Borton, ambos embaixadores
ingleses na corte otomana, e dos irmãos Anthony e Robert Sherley, que segundo o
autor apostaram numa diplomacia freelance entre a Inglaterra e a Pérsia.
A par do incremento dos contactos comerciais e diplomáticos, a Inglaterra dos
séculos xvi e xvii manifestava um crescente interesse pelo islão para além dos
estudos apologéticos dedicados à refutação teológica da religião muçulmana. Foi
contudo sob a égide dos estudos bíblicos, como mostra o capítulo 7, que o
estudo da cultura árabe se iniciou, contando para isso com o patrocínio de
William Laud, bispo da Igreja Anglicana, e o dinamismo de Edward Pococke,
arabista inglês e precursor nos estudos árabes e islâmicos. Simultaneamente,
ramos heterodoxos antitrinitários como os socinianos e os unitaristas começavam
a cultivar a ideia de uma afinidade religiosa entre o seu cristianismo depurado
e o islão, assente na rejeição do dogma trinitário, como testemunham os
exemplos de Miguel Servet, Sebastião Castellio e Hugo Grócio.
No capítulo 8, Walker mostra como a Europa esclarecida da segunda metade do
século xvii e do século xviii estava a desenvolver representações positivas
sobre o islão que confluíram na criação de um imaginário para que muito
contribuiu a difusão das traduções de Hayy ibn Yaqz¯an, de Ibn Tufayl ' uma das
fontes do empirismo de Locke ', e das Mil e Uma Noites. Entretanto, Simon
Ockley, Edward Gibbon e Voltaire, entre outros, insistiam em diversos
quadrantes da actividade intelectual europeia numa imagem mais concreta e
objectiva do islão, ainda que em larga medida no contexto da tendência
anticatólica manifestada por muitos deles.
Todavia, o islão perdera o seu brilho e o Médio Oriente dos séculos xviii e xix
era marcado pelo lento declínio do Império Otomano, pela multiplicação das
tensões regionais, mormente no Egipto, e pelo anquilosamento das estruturas
sociopolíticas. O recuo do império na Europa Oriental acentuava-se verificando-
se simultaneamente uma espécie de «domesticação» política dos otomanos na cena
internacional. A Inglaterra voltou então a aproximar-se da Turquia,
compreendida aqui no âmbito do equilíbrio de poderes, destacando-se nesse
processo duas personagens: William Pitt, dentro das esferas do poder
instituído, e Urquhart, essencialmente na periferia desse mundo, actuando de
modo informal e muitas vezes ilícito.
Desta forma, Walker regressa no capítulo final ao registo da história política
como fio condutor da narrativa. A intrusão das potências europeias no Médio
Oriente, a ineficácia das reformas otomanas, a expansão do nacionalismo quer na
Europa Oriental, quer mesmo no mundo árabe, revelavam claramente o declínio
turco.
A obra detém-se precisamente no momento em que a Turquia otomana sentia o peso
dos fracassos políticos e militares, a crescente pressão expansionista da
Rússia e a infiltração da Grã-Bretanha e da Alemanha no Médio Oriente, enquanto
a imagem do império sofria uma degradação evidente aos olhos da opinião pública
inglesa.
ENTRE A SÍNTESE HISTÓRICA E O ENSAIO LITERÁRIO
Concluída esta visão panorâmica, impõem-se alguns comentários especialmente
centrados sobre o conjunto de opções discursivas e princípios conceptuais que
fundamentam a obra. Em primeiro lugar, o resumo dos conteúdos acima
desenvolvido permite perceber que a síntese das relações entre o islão e o
Ocidente não se desenrola de um modo uniforme e carece mesmo de alguma
coerência global, sensação reforçada pela inexistência de uma conclusão final
que o escopo da obra e a multiplicidade dos dados aconselharia.
Compreensível enquanto estudo dedicado às relações entre o islão e o Ocidente
temática e narrativamente segmentado, a obra revela-se no entanto insuficiente
como síntese histórica das relações entre as duas civilizações: desde logo,
devido à forte tendência verificada a partir do capítulo 5 para a concentração
da narrativa, no que respeita a margem ocidental desse relacionamento, sobre a
história, religião, política e cultura britânicas, o que a torna
preferencialmente orientada para um público anglo-saxónico. Essa tendência
acaba mesmo por se revelar negativamente limitativa, na medida em que resulta
numa certa lateralização do próprio plano das relações entre o Ocidente e o
islão. Este aspecto remete para um outro problema de fundo da obra: a notável
escassez de perspectivas islâmicas sobre o Ocidente. Fala-se do modo como o
islão é representado, imaginado, utilizado, da sua influência na história
europeia, mas ignora-se flagrantemente as representações que o islão produziu
sobre o Ocidente.
Nesta medida, a obra de Walker poderá ser mais propriamente considerada como
uma espécie de digressão histórico-literária ao longo da história milenar das
relações entre Ocidente e islão. Política, religião e cultura são os prismas de
análise prioritários pelos quais essa relação é avaliada, quer de modo
tematicamente integrado, quer de modo disseminado, conforme mostra a estrutura
interna dos capítulos. As correntes de pensamento antitrinitárias, a filosofia
árabe, as Cruzadas, os contactos diplomáticos e comerciais entre a Inglaterra e
o Império Otomano, assim como a evolução dos equilíbrios geopolíticos na Europa
Oriental e no Médio Oriente, configuram um variegado conjunto de temáticas que
adquirem ascendente conforme o momento da narrativa, mau grado os conteúdos de
tipo cultural e especificamente religioso pareçam fornecer uma das linhas
temáticas dominantes. A obra oscila, por conseguinte, entre a história
política, diplomática e militar, a história da cultura e mentalidades, e a
biografia.
Esta flutuação temática é significati-vamente acompanhada por uma certa
polivalência discursiva que acaba por emprestar ao estudo uma natureza dúplice
e o afasta de certo modo do género historiográfico. Com efeito, a obra acolhe
concomitantemente preocupações e procedimentos explicativos de tipo
historiográfico e marcas de discurso literário, nomeadamente o recurso
consistente e sucessivo a imagens e metáforas que -chegam a desempenhar o papel
de argumentos.
Há no entanto um conjunto de opções e procedimentos que se afiguram altamente
desaconselháveis e contestáveis do ponto de vista historiográfico: o
deslizamento frequente do discurso para a esfera do pitoresco, a utilização de
argumentos -subjectivos e do domínio do acidental, o impressionismo da
linguagem, os juízos morais e a recriação biográfica abusiva de figuras
históricas. De notar ainda que o autor aparenta assentar o seu processo
interpretativo numa concepção essencialista da História, impressão apoiada pela
inclusão de noções como verdade histórica, realidade das coisas, juízo da
História e pela consequente retroprojecção de categorias e valores morais.
De facto, embora demonstrando uma postura de valorização histórica de culturas
não-europeias, o autor parece continuar a alimentar uma perspectiva
particularmente enviesada sobre a própria história medieval europeia,
perspectiva essa claramente tributária da historiografia renascentista e
iluminista, que via na Idade Média uma época de trevas e de simples regressão
civilizacional. Além disso, apoia substancialmente a sua interpretação não na
historiografia contemporânea, mas sim em obras de época como a História do
Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon, escrita nas décadas finais do
século xviii e de leitura cuidadosa, subscrevendo ainda juízos morais nelas
formulados acerca de outros contextos históricos.
São extremamente discutíveis, duvidosos ou contestáveis diversos momentos do
estudo em análise. Em primeiro lugar, a projecção da ideologia
multiculturalista sobre o al-Andalus e a Sicília normanda, que resulta na
produção de uma visão -idealizada das respectivas sociedades, convertidas numa
espécie de paraísos da coexistência pacífica assentes na tolerância, no diálogo
e na cooperação entre fés e culturas. É a propósito do al-Andalus que o mito da
sociedade multicultural é mais visivelmente utilizado: «Aqui, judeus, cristãos
e muçulmanos esqueceram as suas diferenças (e a maior parte dos seus pecados) e
encetaram uma viagem dedicada ao conhecimento, à literatura e ao prazer» (pp.
28-29). Porém, Walker não menciona nem as profundas divisões internas que
agitavam a sociedade do al-Andalus e que suscitaram a periódica proliferação de
revoltas e entidades políticas autónomas, muitas delas de fundo cristão, nem o
movimento de reacção cristão dos mártires de Córdova (850-859), duramente
reprimido e sintomático de um profundo mal-estar no seio das elites cristãs.
Outros exemplos se sucedem: no atinente ao significado da peregrinação aos
lugares santos do cristianismo da Antiguidade Tardia e ao tratamento dos
factores explicativos do movimento das Cruzadas. Por outro lado, a importância
histórica do islão encontra-se em larga medida reduzida a um papel de
transmissão, transformado subrepticiamente aquele numa espécie de civilização
de mediação.
Por fim, importa registar um conjunto adicional de exemplos que, conquanto se
trate de uma tradução, exprimem claramente o tipo de discurso frequentemente
utilizado pelo autor. Acerca da atracção e influência exercida pelos anacoretas
e eremitas cristãos dos desertos sírios sobre as tribos árabes, afirma o autor:
«Eram visões de esperança e de nostalgia, presenças brilhantes que dissolviam
as trevas da alma» (p. 14). Já a propósito da dimensão histórica das Cruzadas
na primeira metade do século xiii, estas são classificadas de «propensão malsã»
e «opiáceo de masculinidade, esteróide de narcisismo» (p. 54). Nos parágrafos
dedicados a Tamerlão, declara que este «acreditava, não na governação
tranquila, mas na devastação e em pirâmides de crânios» (p. 109). Note-se
finalmente a seguinte frase: «O credo é uma fraude em matéria de religião» (p.
121).
Em suma, apesar de constituir uma interessante tentativa de síntese, de
explorar o entrosamento de diversas áreas na -história das relações entre o
islão e o Ocidente, e de apostar num certo embele-zamento literário, o estudo
de Walker revela-se algo deficiente em matéria de rigor, objectividade e
espírito crítico. Infelizmente, o islão, um dos eixos estru-turantes do estudo,
tende por vezes a apagar-se ou a ser representado através de uma imagem passiva
ou mesmo espectral, como um outro ausente sobre o qual as elites europeias
discutiam. Ainda assim, a obra desenvolve nitidamente um esforço no sentido de
matizar a imagem de um antagonismo irredutível entre as duas civilizações,
salientando nesse sentido os contextos de aproximação e coexistência, no que
residirá porventura o seu principal valor.
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