Aliados do Armagedão
Aliados do Armagedão
J. A. Teles Pereira
VICTORIA CLARK
Allies for Armageddon: The Rise of Christian Zionism
Londres, Yale University Press, New Haven, 2007
Existe algo de peculiar no judaísmo ' porventura mais nos judeus do que no
judaísmo ', difícil de definir mas fácil de detectar enquanto fenómeno
recorrente, sempre presente numa análise diacrónica da história. Referimo-nos à
propensão a gerar nos outros (nos não judeus, fora do judaísmo) construções
teóricas, oscilando entre um cariz religioso, antropológico, sociológico ou
político, de adesão ou repúdio, construções que tendem a manifestar-se, ou se
manifestam mesmo, em termos paradoxais.
Perseguições religiosas e políticas muitas religiões e grupos as sofreram e
sofrem. Todavia, nenhuma se teorizou ou foi teorizada enquanto categoria
conceptual com vocação de generalidade, nos termos em que isso sucedeu com o
anti-semitismo, como fenómeno mais ou menos endémico, em todo o caso
persistente ' notavelmente persistente, diga-se ' na cultura ocidental.
Embora o livro ao qual se refere a presente recensão nos fale de uma forma de
filojudaísmo, o chamado «sionismo cristão», que poderíamos qualificar, dentro
do mesmo modelo de análise, como o «reverso da medalha» do anti-semitismo, não
deixa de ser adequado convocar aqui a construção, enquanto categoria, do anti-
semitismo, como modelo de aproximação a algo que, sendo aparentado ao seu
oposto (ao seu contrário), não deixa de traduzir uma impressiva relação de
simetria com o anti-semitismo.
Na expressiva caracterização do anti-semitismo feita por Hyam Maccoby,
prefaciando a sua obra A Pariah People: The Antropology of Antisemitism
(Londres: Constable, 1996),
«sugere-se frequentemente que o ódio ao judeu traduz, de alguma forma, algo de
que os próprios judeus seriam responsáveis: seriam muito elitistas, teriam uma
religião diferente da norma, estariam envolvidos numa conspiração para
controlar o mundo, seriam os fundadores do capitalismo e do comunismo, haveria
algo errado com o seu sangue, teriam longos narizes, mau hálito ou pele pálida,
vestir-se-iam de forma diferente ou, mais astutamente, da mesma forma que toda
a gente. Seriam cobardemente pacifistas (como o demonstra a forma dócil como
caminharam nus para as câmaras de gás, sob a mira das metralhadoras) ou
militarmente agressivos (como o demonstraram quando, finalmente, obtiveram
armas para as usar contra os inimigos)» (p. 7).
Trata-se, como é óbvio, de sublinhar o carácter irracional que, paradoxalmente,
parece irmanar o anti-semitismo e o filo-judaísmo. Nada no judaísmo ' nada de
intrínseco ou racionalmente apreensível ' explica ou justifica uma relação de
amor ou de ódio relativamente a ele ou àqueles que, quis o acaso, nasceram
judeus ou como tal se consideram. Só uma construção psicológica de tipo
mitológico pode pretender o contrário, mas não deixará, no confronto com a
realidade, de ser isso mesmo: uma construção mitológica.
Nesse mito, aliás, e trata-se de um exemplo particularmente adequado, não
embarcaram os construtores do Estado de Israel ' os sionistas ', quando
confrontados, em condições dramáticas, com a sobrevivência do seu projecto.
Trataram de construir, em bases racionais, um exército forte (um exército muito
forte), ignorando a suposta superioridade de «Povo Eleito», não confiaram a sua
sorte à espuma daquilo que mais não era que um mito e, como tal, nunca os
poderia defender. É a velha história, frequentemente contada em Israel, da
conversa entre David Ben Gurion e um rabino, em que este lhe dizia: «vocês
lutam porque nós rezamos por vós», ao que Ben Gurion retorquia, «vocês rezam
porque nós lutamos».
É deste mito ' de um mito deste tipo ' que trata o livro da jornalista
(correspondente do jornal Observerem Moscovo) Victoria Clark. Com efeito, da
mesma forma que alguns consideraram os judeus responsáveis pelas desgraças do
mundo, outros, cuja origem remonta ao século XVI e a algumas franjas do
calvinismo, viram neles uma espécie de «predestinados» ao cumprimento da
profecia bíblica do triunfo final do Bem sobre o Mal, «anunciada» no último
livro da Bíblia cristã, o Livro do Apocalipse. Seria nesta batalha final,
oArmagedãoou Armaguedonreferido no capítulo 16 versículo 16 do Livro do
Apocalipse, que ocorreria o confronto final entre Deus e as forças do Bem, e
Satã e as forças do Mal, do qual emergiria o triunfo do Reino de Deus.
Claro que, estando em causa abstracções (o «Bem» e o «Mal»), passíveis das mais
diversas leituras, a tendência irreprimível do sionismo cristão foi a de ir
actualizando este conceito em função dos problemas contemporâneos, daqueles que
sempre se vêem ' que ao longo da história sempre se viram ' na recta final que
antecede a «Batalha do Armagedão». É assim (e estamos a avançar para exemplos
que, sendo mais recentes, são mais facilmente apreensíveis) que o pastor Billy
Sunday (um ex-jogador de basebol dos Chicago White Sox), um dos mais
carismáticos pregadores do período da I Grande Guerra, se recusava a tomar
partido em 1915, dizendo que nada lhe garantia que o «Plano de Deus» fosse «[ ]
usar os Aliados para punir a Alemanha [ ] pelas suas heresias [ ]» ou «[ ] usar
a frota aliada para esmagar a fortaleza islâmica dos Dardanelos e expulsar os
Turcos da Terra Santa, para restaurar o domínio dos judeus na Palestina», ou
até que «[ ] o Todo-Poderoso usasse as tropas do Kaiser como vingança pela
licenciosidade e imoralidade da França» (p. 125). Embora em 1917, quando o
Presidente Wilson declarou guerra à Alemanha, o mesmo pastor tenha «descoberto»
que o conflito da Alemanha com a América opunha, pela mesma ordem, «o Inferno
ao Céu» (p. 126).
Como não poderia deixar de suceder, toda esta construção adquiriu um renovado
significado com o advento do movimento sionista, no final do século XIX, e a
construção do Estado de Israel, que conduziu à sua declaração de independência
em 1948. Foi então que os cristãos sionistas descobriram, naqueles que
recusaram a dimensão religiosa desse movimento e dessa construção, «The wrong
Kind of Jew» (título do cap. 6), os que «[ ] frequentemente se sentiam
embaraçados por aqueles que obsessivamente os queriam ajudar» (p. 129),
passando a identificar-se (num traço distintivo que se mantém nos nossos dias),
tão-só, com aqueles «bons judeus», dos quais constituiu paradigma Zeev
Jabotinsky (1880-1940). Passando a identificar-se apenas com aqueles que, com
pequenas variações de «pormenor», partilharam (e partilham) a construção mítica
do destino do «Povo Judeu» própria do sionismo cristão.
É com este sentido que a «Batalha do Armagedão» foi transferida para o cenário
moderno do conflito do Médio Oriente (para a política corrente da Administração
Bush), representando o lado árabe do conflito (e mais recentemente o Irão e a
Síria), na visão apocalíptica dos mentores da chamadaMoral Majority, como Jerry
Falwell e o pastor John Hagee, o lado do Mal, maximeo Diabo.
Ilustrando impressivamente a visão destes «amigos de Israel», temos, na
introdução do livro, o relato de uma visita de Victoria Clark a Jerusalém, à
«Esplanada das Mesquitas», na companhia de um grupo de «sionistas cristãos»
norte-americanos.
O que estava a mais nesse cenário, antiga localização do «Segundo Templo»,
carente de uma destruição purificadora do local?
Nada mais que a Mesquita de Al-Aqsa, o segundo lugar mais santo do islão.
A este resultado, à intolerância religiosa, conduziria ' como sempre conduziu
ao longo da história ' a construção de opções políticas assentes na
subjectividade das interpretações religiosas. Não é este ' nunca o foi ' o
sentido profundo do sionismo, enquanto projecto de recuperação, sob a forma de
um Estado moderno, da soberania dos judeus, perdida dois mil anos atrás. Como
verdadeira realização fora de um quadro religioso de uma utopia originariamente
religiosa, libertou-se esta, na construção de uma verdadeira Pátria para os
judeus, da «Pátria portátil» que a religião representara durante a Diáspora.
É neste sentido que Max Nordau, um dos pais do sionismo, sucessor de Theodor
Herzl à frente do movimento sionista, afirmava enfaticamente: «[p]retendemos
chegar à Palestina como emissários da cultura europeia e ampliar as fronteiras
da Europa até ao Eufrates».
Neste processo, o papel da religião teve a importância que teve: a de um sinal
identitário. Em qualquer caso, um papel bem menor do que aquele que lhe
atribuem os «cristãos sionistas». Na difícil luta pela sua sobrevivência, nas
várias «Batalhas do Armagedão» que travou no decurso dos seus sessenta anos de
vida, o Estado de Israel confiou pouco, muito pouco mesmo, nas profecias
bíblicas.
É também por isso que ainda hoje existe, quando alguns ' eles sim presos na
espuma de mitos religiosos ' o querem «apagar do mapa».
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