Um realismo para os nossos tempos?
Um realismo para os nossos tempos?
Pedro Aires Oliveira
ANATO L LIEVEN E JOHN HULSMAN
Ethical Realism. A Vision for America's Role in the World
Nova York, Vintage, 2006, 199 páginas
As opções mais controversas da Administração Bush provocaram divisões na
comunidade de analistas de política externa nos Estados Unidos como não sucedia
desde a Guerra do Vietname. Nos últimos anos, temos assistido a uma sequência
de actos de contrição por parte de figuras que até 2003 haviam apoiado, ou dado
o benefício da dúvida, à estratégia gizada pelo Presidente após o 11 de
Setembro (e até em relação à decisão de depor Saddam pela força). Francis
Fukuyama, Kenneth Polack, George Will ou até mesmo Richard Haas são alguns dos
nomes mais conhecidos deste cortejo de renegados.
À medida que os argumentos invocados para legitimar a expedição militar ao
Iraque foram sendo desmentidos pelos factos no terreno, muita gente começou a
ficar preocupada em ver o seu nome associado a uma Administração tão inepta. De
2005 a esta parte, o mundo das universidades, dos think tankse das revistas
académicas norte-americanas entregou-se à tarefa de delinear novas abordagens
estratégicas para o pós-bushismo. Infelizmente, nem sempre esse esforço tem
sido acompanhado de um questionamento mais profundo de algumas das premissas de
base da política externa americana, as mesmas que em larga medida contribuíram
para a situação delicada em que se encontra o gigante americano.
Daí que este pequeno livro ' meio panfleto, meio ensaio ' mereça ser acolhido
por todos quantos prezam um debate aberto, informado e sem tabus. É assinado
por dois autores, um britânico e o outro norte-americano, que se situam em
pólos políticos senão opostos, pelo menos bem distintos. Anatol Lieven,
actualmente professor no King's College em Londres, foi durante anos
correspondente internacional de jornais como o Timese o Financial Times,
actividade que abandonou em 2001 para se radicar nos eua como investigador no
Carnegie Endowment e, mais recentemente, na New America Foundation.
De ascendência russa e irlandesa, diz-se influenciado pela cultura católica
progressista (ou «solidária») em que foi educado e pela tradição realista das
Relações Internacionais. A fama radical que o acompanha há alguns anos deve-se
em parte à sua análise desassombrada do nacionalismo americano, exposta em
America Right or Wrong(2004)1, bem como às farpas que gostosamente lança à
postura conformista de grande parte da comunidade de política externa de
Washington.
Até recentemente, John Hulsman poderia ser exactamente uma das personagens
visadas por Lieven. Investigado sénior da ultraconservadora Heritage
Foundation, colunista do Washington Timese comentador assíduo da Fox News, foi
um apoiante entusiasta da decisão de invadir o Iraque em 2003. A demonstração
de incompetência e arrogância que produziu a situação caótica no Iraque pós-
Saddam levou-no contudo a repensar a bondade da expedição e toda a retórica
messiânica que a justificou. Assim que começou a tornar públicas essas dúvidas,
os dissabores não tardaram. Em meados de 2006, quando os seus patrões na
Heritage tomaram conhecimento de que se iria associar a Lieven para expandir em
livro um ensaio conjunto publicado na National Interest, foi rapidamente
convidado a abandonar a organização.
CENTRISMO RADICAL
Sendo a ambição do livro o esboço de uma alternativa coerente e viável às
«ortodoxias e piedades» que ditam as agendas dos dois campos partidários nos
EUA, os autores esforçaram-se ao máximo por envolver as suas propostas num
backgroundfamiliar.
Foram assim procurar inspiração naquelas que consideram duas das mais bem-
sucedidas presidências americanas do pós-II Guerra Mundial, a de Truman e a de
Eisenhower, e trataram de fundamentar «filosoficamente» as suas propostas numa
das variantes da tradição realista das Relações Internacionais, por eles
designada de «realismo ético». O resultado é uma visão «centrista radical» que
sem perder nunca de vista o interesse nacional americano procura evitar o
amoralismo cínico que tantas vezes associamos aos praticantes do realismo
político.
Vindos de campos tão distintos, é natural que os dois autores não se
conseguissem pôr de acordo em relação a alguns dos desafios fundamentais que se
colocam às sociedades contemporâneas, em especial no mundo industrializado. No
tocante às alterações climáticas, por exemplo, Liven e Hulsman acharam melhor
deixar esse tópico de fora, tendo em conta as profundas divergências que dizem
manter em relação a ele.
Os dois primeiros capítulos do livro tentam estabelecer um paralelismo entre a
situação vivida pelos EUA à saída da II Guerra Mundial e no pós-11 de Setembro.
Há seis décadas atrás, a América enfrentava igualmente uma ameaça formidável à
sua segurança nacional: uma superpotência de instintos expansionistas e armada
de uma ideologia prosélita preparava-se para pôr em xeque as posições, os
interesses e os aliados dos Estados Unidos em vários pontos do globo.
Retrospectivamente, sabemos que a Rússia de Estaline era na verdade um
adversário bem mais «racional» do que é hoje a Al-Qaida, mas à época essa
percepção estava longe de ser partilhada pela generalidade dos observadores e
decisores políticos no Ocidente. A incerteza acerca das reais intenções do
Kremlin era imensa.
É por isso que o exemplo de Truman é especialmente inspirador. Apesar da sua
praticamente nula experiência em assuntos internacionais ' e de ter de suportar
o peso da comparação com Roosevelt ' o antigo senador do Missouri deu crédito
aos elementos da sua Administração que lançaram o alerta relativamente à
necessidade de a América desenvolver uma estratégia coerente para lidar com a
ameaça soviética, mas sem nunca descurar as possíveis consequências de uma
confrontação militar directa com Moscovo. Para além disso, Truman merece ainda
ser louvado pela assinalável destreza com que construiu o consenso doméstico
indispensável para a viabilização da estratégia de «contenção» da URSS, a qual,
como é bem sabido, estava longe de possuir apenas uma componente militar. A
forma como logrou, por um lado, neutralizar as críticas de Henry Wallace e da
ala esquerdista do Partido Democrata, e, por outro, evitar uma escalada nuclear
do conflito da Coreia, como pretendia o general Douglas MacCarthur e outros
«falcões», dá-nos a exacta medida do seu génio político.
Louvor idêntico deverá ser reconhecido a Eisenhower. Desde logo, porque, ao
contrário do actual Presidente Bush, que com um zelo militante procurou
distanciar-se de todas as iniciativas do seu antecessor,Ikenão teve problemas
em validar a maior parte das políticas de Truman, nem em contrariar as posições
mais extremistas de alguns membros da sua equipa (como o secretário de Estado
John Foster Dulles, que durante a campanha presidencial de 1952 havia
denunciado a doutrina da contenção como «fútil e imoral» por abandonar «milhões
de seres humanos ao despotismo ateu do comunismo»). Ainda mais do que Truman, o
antigo herói da Normandia estava especialmente bem colocado para dizer não aos
lunáticos da estratégia do roll back(uma espécie de antecessora da doutrina da
«guerra preventiva») ou para denunciar os perigos de uma influência excessiva
dos interesses ligados às indústrias militares nas opções de política externa
dos EUA. É certo que foi durante a Administração Eisenhower que a corrida
armamentista entre as duas superpotências atingiu o seu paroxismo, ou que os
EUA se envolveram em acções altamente questionáveis, como a deposição de
Mossadegh no Irão, mas, tudo somado, a autoridade moral dos EUA entre os seus
aliados e em muitos países do emergente Terceiro Mundo saiu reforçada.
Infelizmente, como assinalam Lieven e Hulsman, nos últimos anos o palco central
da política americana tem sido ocupado não pelos descendentes pragmáticos,
moderados e centristas de Truman e Ike, mas pelos discípulos dos ideólogos
megalómanos que ao longo da Guerra Fria foram ' afortunadamente! ' relegados
para as margens do mainstream. As consequências dessa inversão de papéis são
bem conhecidas e constituem o cerne do legado da Administração Bush.
OS PAPAS DO RE ALISMO ÉTICO
O movimento correctivo que os autores advogam apresenta como base intelectual
os ensinamentos de algumas das figuras mais emblemáticas do pensamento realista
em política externa. Os nomes aqui invocados são o teólogo protestante Reinhold
Niebhur, o professor de Relações Internacionais Hans J. Morgenthau e o
diplomata e historiador George Kennan. Para além do impacto que as suas obras
exerceram na própria disciplina das Relações Internacionais, todos eles
desempenharam, por via da sua intervenção cívica ou actividade diplomática, uma
influência crítica no desenho conceptual e na fundamentação ética da postura
americana durante a Guerra Fria.
Aquilo que os torna originais no seio da tradição realista é a atenção que
sempre dedicaram à questão das consequências morais do exercício do poder, à
necessidade de escrutinar as nossas escolhas e decisões em função não apenas
das suas intenções mas também das suas consequências previsíveis (uma
preocupação cara ao sociólogo Max Weber). A rejeição dos absolutismos morais
não pressupõe uma aceitação resignada do relativismo ou até do cinismo; apenas
nos encoraja a procurar o melhor compromisso possível entre os princípios
éticos que nos são caros e um mundo imperfeito e ambíguo. Segundo os autores,
«a conduta da política internacional num espírito realista requer por isso
líderes que combinem mentes abertas, convicções morais profundas e nervos
fortes. As convicções morais por si só, não acompanhadas por mentes abertas,
conduzem à rigidez fanática. Mentes abertas sem uma fundação moral levam a um
oportunismo cínico e de vistas curtas. E até mesmo a combinação de uma mente
aberta e uma fundação moral sólida pode não ser suficiente caso o líder não
exiba a coragem moral que as decisões claras e duras requerem» (pp. 56-57).
Partindo destas premissas, os principais visados pela sua crítica são os
«democratistas», os ideólogos do destino da América enquanto promotora
universal da democracia. Lieven e Hulsman reconhecem que esse sentido
providencial investido à política externa americana constitui uma verdadeira
«fé bipartidária», comungada quer pelos neoconservadores republicanos, quer
pelos falcões liberais do Partido Democrata. A sua resiliência histórica deriva
em grande parte das afinidades que possui com certas facetas do Credo Americano
e dos mitos que lhe estão associados
2
. Sendo a sua finalidade eminentemente louvável, o problema reside na forma
como muitos dos «fiéis» imaginam a sua concretização: invariavelmente ligada a
um modelo de democracia predeterminado e subordinado aos objectivos de curto e
médio prazo da política externa americana, mesmo quando estes colidem com os
interesses nacionais do país a democratizar. A crença cega neste guião de
«transição democrática» resulta em grande medida dos casos de sucesso ocorridos
na Europa de Leste após a queda do comunismo, mas o problema é que muitos dos
factores que os tornaram possíveis (a perspectiva de adesão à nato e à União
Europeia, por exemplo) infelizmente não são replicáveis noutros contextos.
A «GRANDE PAZ CAPITALISTA»
É pois necessário encontrar outro projecto que, sem atraiçoar a fé democrática
do povo americano, ofereça perspectivas mais realistas relativamente à
emergência de uma ordem internacional cooperativa e pacífica. O conceito aqui
avançado é o da «Grande Paz Capitalista» (assim mesmo, com maiúsculas), fundado
na premissa de que os valores associados à economia de mercado (embora não
necessariamente segundo a variante anglo-saxónica) gozam hoje de uma aceitação
muito mais ampla do que os princípios democráticos. Nesse sentido, será mais
fácil conquistar os governantes das novas potências emergentes para um projecto
visando a regulação pacífica e ordeira da globalização capitalista. Sentindo-se
«accionistas» da nova ordem internacional, os líderes desses países tenderão a
ser mais contidos na expressão das suas ambições, porque cientes da estreita
ligação entre a prosperidade económica global e os benefícios que dela colhem
para se legitimarem no plano doméstico. A longo prazo, é muito provável que os
progressos económicos experimentados por algumas das novas potências emergentes
criem as condições para uma democratização política, a qual inevitavelmente
adoptará elementos do modelo americano, à semelhança do que sucedeu com algumas
das antigas colónias da Grã-Bretanha relativamente ao parlamentarismo e à rule
of law.
A concretização deste grande desígnio (se quisermos ser mauzinhos, poderíamos
chamar-lhe antes utopia) depende, desde logo, de uma liderança americana
esclarecida e corajosa. Esclarecida porque disposta a aceitar o pressuposto
kantiano de que a legitimidade de um sistema concebido naqueles moldes estará
sempre dependente da percepção geral relativamente à aplicação universal das
suas regras. E corajosa porque essa aceitação irá inevitavelmente deparar-se
com uma forte resistência da parte dos sectores mais soberanistas da política
americana que desde o fim da Guerra Fria têm adquirido uma influência
formidável (como ainda recentemente nos recordaram os obituários do senador
Jesse Helms).
Num capítulo final, os autores avançam uma série de recomendações que poderão
ser deduzidas da sua estratégia (e que por razões de espaço apenas poderemos
resumir de forma muito genérica). A primeira é o abandono das ilusões
associadas à «unipolaridade americana» ' a ideia de que a discrepância entre o
poderio militar e económico dos eua e seus competidores mais directos deverá
ser guardada a outrance, nem que isso leve Washington a tratá-los como rivais
hostis. Em alternativa, os eua deverão enveredar por um caminho em tudo
semelhante ao do Império Britânico em finais do século XIX, que quando
confrontado com a emergência de novos poderes tratou de reequacionar as suas
prioridades e alianças para salvar os seus interesses vitais. Deverão também
«actualizar» a componente económica da Pax Britânica, assente na difusão
universal do livre-cambismo, cujos benefícios económicos tornavam os países
mais propensos a alinhar as suas políticas com as de Londres.
Essa actualização deverá consistir num impulso à liberalização do sector
agrícola do comércio mundial, e na reconfiguração dos programas de ajuda a
países cujas perspectivas de desenvolvimento estão intimamente ligadas à
segurança dos EUA (Afeganistão, Paquistão e vários países árabes, mas também os
estados mais frágeis da América Latina). Nas regiões do mundo onde os EUA não
terão capacidade para isoladamente influenciarem a resolução de certas
disputas, ou conter determinadas ameaças, a sua preocupação deve consistir em
fomentar, e se possível liderar, consensos regionais (no fundo, o regresso à
velha ideia do «concerto» praticada na Europa pós-Congresso de Viena).
Como facilmente se depreende, nada disto parece especialmente radical. A
«Grande Paz Capitalista» e a filosofia do realismo ético têm ambas um
pedigreesuficientemente americano para poderem ser aproveitadas (se não na
íntegra, pelo menos em alguns dos seus aspectos) por uma futura administração,
seja ela democrata ou republicana. No entanto, não é isso que parece indicar a
agenda de política externa dos dois actuais candidatos à Casa Branca. Ou por
calculismo eleitoral, ou por convicção genuína, tanto Obama como McCain
encontram-se ainda demasiado próximos das correntes «democratistas» tão
verberadas neste ensaio.
O mais provável, contudo, é que os limites cada vez mais notórios do poderio
americano acabem por empurrá-los na direcção de algumas das sugestões avançadas
por Lieven e Hulsman.
NOTAS
1 E ditado em português pela Tinta‑da‑China (trad. de Pedro Aires Oliveira),
com o título América a Bem ou a Mal(2007). A versão inglesa foi recenseada por
Bernardo Futscher Pereira no número 7 da Relações Internacionais(Setembro de
2005).
2 Sobre o conceito de «Credo Americano», cf. o cap. 2 de América a Bem ou a
Mal.
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