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EuPTHUHu1645-72502014000200009

National varietyEu
Year2014
SourceScielo

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O papel da Educação em Português na promoção e difusão da língua: um estudo com um grupo de estagiárias

Na quinta língua mais falada encontramos a LP (35,7%) e o árabe, aliás, a única referência a esta língua ao longo destas respostas. No que diz respeito à posição para a LP, esta aproxima-se das posições difundidas pela comunicação social e ciberespaço, cujas fontes se baseiam geralmente em Lewis (2013).

Quanto aos falantes de português língua materna (PLM), as formandas não estão seguras da resposta, mas 50% opta pelo valor mais próximo (230 milhões). As restantes respostas incidem sobre '1 bilião', '140 milhões' (14,3%), havendo uma resposta reportando-se a '10 milhões', - provavelmente porque foi considerado Portugal, esquecendo o Brasil, com perto de 190 milhões de falantes nativos (Guerreiro e Junior, 2013).

Relativamente aos países com língua oficial portuguesa, o Brasil é o único país referido por todas. Seguem-se Angola (78,5%), Moçambique, Cabo Verde e Guiné- Bissau (57,1% cada), Timor-Leste (50%) e Macau (14,2%), sendo este último território identificado como país e não como Região Administrativa Especial da China. São de referir ainda as respostas: 'Luxemburgo', talvez por ser o país cuja comunidade estrangeira mais numerosa é a portuguesa, e 'Ásia e África', assinalados como se fossem países.

No estudo de Reto (2012) sobre o uso e perceção dos utilizadores da LP, do ponto de vista dos valores pessoais dos estudantes universitários de português no estrangeiro, os resultados referentes aos países com língua oficial portuguesa foram os seguintes: Brasil (77,8%), Angola (76,3%), Moçambique (73,8%) e Cabo Verde (62,7%); São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau situaram-se abaixo dos 50%; Timor obteve 29,3%. Os autores do estudo ficaram surpreendidos com o baixo nível de conhecimentos dos alunos, "uma vez que se trata de estudantes de língua portuguesa com escolaridade de nível universitário" (p. 165).

No nosso estudo, os resultados são ainda mais surpreendentes, dado tratar-se de um assunto da especialidade, na ordem do dia, e de um público lusófono que, no quadro da prática pedagógica, leciona a LP. De facto, o Brasil é referenciado pelas 14 participantes, ficando o conhecimento dos outros países muito aquém do expectável.

Reportando-nos às Organizações Internacionais onde a LP é oficial, as respostas denotam um grande desconhecimento. Encontramos a União Europeia (21,4%) e a CPLP, União Latina e União Africana, referidas apenas por uma aluna. Este desconhecimento manifestou-se ainda em 71,4 % das respostas inválidas, entre elas, a ONU, - será este, sem dúvida, o grande desígnio para um futuro próximo da LP (IILP, 2010).

Analisemos, por fim, as duas questões de natureza subjetiva, que solicitavam a variedade ou variedades mais corretas de português e a sua justificação.

Verificamos que Portugal (50% das respostas), Brasil (35,7%) e Angola (14,2%) surgem como países onde se fala corretamente a LP. Justificando a razão da escolha, 42,6% das alunas consideram todas as variedades corretas, de acordo com a situação e norma geográfica. As respostas que incidem sobre o Português Europeu (PE) baseiam-se nos seguintes argumentos: i) dimensão afetiva, entre egocentrismo/eu e eurocentrismo/aqui ("porque é a única que falo"), com alguns laivos de 'desacordos ortográficos', pouco assimilados ("A minha LM com o acordo ortográfico é estranha, não me revejo nela") 11 ; ii) dimensão da origem(" a LP nasceu em Portugal") e o sema da pertença/posse (é minha/nossa), cujas marcas são decorrentes da anterior (ego/ eurocentrismo); iii) dimensão formal, prevalência (e poder) da língua oficial ("por ser língua oficial"), recorrendo também ao argumento da origem ("foi a variedade original"). Quando são consideradas corretas as variedades do PE e do Brasil (PB), foca-se a primazia destas (7,1%): sendo Portugal e Brasil os países onde o português é LM, os seus locutores supostamente terão um melhor domínio da LP.

2.4.Internacionalização da LP O primeiro conceito a definir, Lusofonia, revela nas respostas obtidas o recurso aos seguintes semas: 'espaço geográfico da LP' ("espaço onde se fala a LP"); 'falantes' ("A lusofonia relacionada com o conjunto de pessoas (no mundo) que falam o português, 'língua oficial' ("os países que têm o português como língua oficial"). Trata-se de definições parcelares, que privilegiam três aspetos importantes que concorrem para a definição de Lusofonia: os falantes, os países e o espaço geográfico da LP (71,4%). Registamos contudo, algum desconhecimento, manifestado em não respostas/respostas inválidas (28,6%).

Sobre a CPLP, sigla comummente conhecida, e supostamente fazendo parte da bagagem cultural de estagiárias de português, o panorama é ligeiramente inferior ao anterior: 64,2%. É de referir que, na Universidade onde estudam estas participantes, tem havido várias manifestações culturais, amplamente divulgadas, de estudantes da CPLP.

Quanto à questão "O que é o valor económico de uma língua (da LP)?", a maior parte das alunas (78,6%), iniciando-se nesta temática, foi ao encontro de alguns aspetos importantes a analisar para o valor das línguas, embora de uma forma sucinta (Calvet, 2010; Calvet & Calvet, 2012;Esperança, s/d; Reto, 2012). A resposta com maior incidência foi a sua 'importância mundial' (28,6%), seguida do 'mundo do trabalho', das 'relações comerciais', do 'número de falantes' e em último lugar a 'atuação transversal'. Todas as alunas reconhecem a importância da difusão da LP no mundo. Os seus argumentos prendem-se com valores culturais e económicos da língua (42,8%). O número de falantes tem também algum impacto ("É uma língua bastante falada estando entre as 5 mais faladas, a sua difusão ajuda ao seu conhecimento e ao crescimento dos países de língua portuguesa"), sendo a difusão um meio para impulsionar a sua aprendizagem (28,6%). A aprendizagem seria um fim e um meio para difundir a LP, mas a Educação desempenha um papel considerável (50%), com a integração da disciplina de LP, em vários sistemas de ensino, supostamente não universitários e a sensibilização à diversidade linguística (7,1%). Este realce dado ao papel da Educação e da aprendizagem inscreve-se no perfil profissional das participantes.

Outras formas de difusão da língua mencionadas são a comunicação social, as redes sociais e os eventos que ocupam o segundo lugar nas formas consideradas prioritárias para a difusão, a par dos movimentos migratórios. Seguem-se o mercado económico e a divulgação de conhecimento. Apenas uma mestranda referiu as políticas de internacionalização da LP ("Através do estabelecimento dessa difusão como uma prioridade pelas entidades governamentais da CPLP"), como estratégia de difusão.

As razões que estas jovens alegam para a procura da aprendizagem da LP são de natureza muito variada: i) de ordem cultural e científica (42,9%) - atrás de uma língua está necessariamente uma cultura, e a língua é ainda o veículo de acesso à ciência; ii) de ordem económica - o mercado de trabalho (35,7%) facilita a deslocação para outros países de LP. Esta razão enquadra-se na situação atual de Portugal, em crise, pelo que saídas para países de LP, como o Brasil e Angola, ambos com uma economia em ascensão, têm surgido como solução para os jovens portugueses licenciados e no desemprego; iii) ligadas ao desenvolvimento económico de certos países da CPLP - o valor económico que a língua 'ganha' nesses mesmos países; iv) de ordem educacional - "aprender uma língua nova" é uma mais-valia; v) de ordem geográfica - expansão da LP, turismo e a internacionalização.

Recuperando o estudo de Reto (2012), no que diz respeito às motivações para a aprendizagem da LP, por parte de estudantes no estrangeiro, as respostas mais frequentes prendem-se com aspetos ligados à comunicação (importância de saber línguas, facilitação da comunicação com pessoas de outros países). depois surgem razões de caráter cultural (conhecimento das culturas lusófonas e aumento da cultura geral). O valor económico aparece em último lugar na tipologia encontrada pelos autores, embora no nosso estudo tenha tido um peso ligeiramente maior.

2.5.Valores da LP As duas perguntas deste grupo direcionam-se para os valores da LP, quer de âmbito pessoal, quer de âmbito profissional.

Para o enunciado de caráter pessoal, "Para mim, a LP é…",metade das estudantes destaca, em primeiro plano: os valores identitários, - com recurso sistemático aos possessivos 'meu' e 'minha', e de comunicação, referindo respetivamente que se trata da LM da grande maioria 12 e da língua de trabalho de todas. Num segundo plano, referem os valores de caráter 'profissional (42,8%), ou seja, a língua como objeto didático: o peso histórico e cultural da LP, assim como as características da língua (aspetos estéticos e linguísticos: romântica, doce, bonita; "rica aos níveis semântico, lexical, morfológico"); por último, com 14,3%, a aprendizagem ("difícil de aprender", "gostava de a conhecer melhor").

Para a segunda questão: No âmbito das suas aulas de Português, que aspetos e valores destacaria aos seus alunos? Justifique (porquê e para quê),as respostas centram-se na importância da cultura portuguesa (57,1%) e do valor identitário da língua (50%). A postura 'eu e a minha língua' espelha-se, de novo, quando se afirma a importância de ensinar a cultura portuguesa 'porque é a cultura materna de todos os alunos'. Como vemos, pelo próprio grupo de respondentes, nem todos os docentes de LP são portugueses, e um grande número de alunos no ensino básico português é de origem estrangeira.

13 Estas estagiárias destacam ainda uma abordagem que tenha em conta "a importância da LP num mundo cada vez mais multicultural (), o valor da LP, o número de falantes, os países que têm a LP como oficial." Nesta linha de argumentação, a favor de uma abordagem mais aberta e plural estão igualmente "a importância e o valor de todas as línguas e culturas no sentido de promover o multilinguismo e multiculturalismo e significado da interação com as diversas línguas apelando à interculturalidade".

Quer a preocupação com abordagens interculturais (14,3%) quer com a correção linguística (14,3%) são expressas, mas sem o peso dos primeiros valores citados (histórico e cultural, identitário).

Reflexão final Este estudo revelou-se-nos de especial interesse pelas questões que coloca à Educação em Português 14 , nomeadamente acerca das orientações e temáticas que vigoram no implícito e na imprecisão de cenários didáticos e que urge clarificar, explicitar e reorganizar. Testemunho disso é o tipo de respostas das participantes deste estudo, com pouco rigor e (quase) impressionista, com recurso a uma certa tendência egocêntrica e eurocêntrica nalgumas reações ao questionário. No entanto, nota-se uma abertura a outras modalidades e perspetivas do ensino do português, viradas para uma sociedade contemporânea.

Embora o conhecimento destas mestrandas, a nível da LP e no quadro de um mundo global, não esteja muito sustentado, serão de realçar dois aspetos referidos: i) a importância atribuída à aprendizagem e ao ensino da LP, como formas de difusão e de internacionalização da língua; ii) a importância de aprender outras línguas, como forma de comunicação e de intervenção, num mundo multicultural. Como nos diz Laborinho (2010, p. 54), "no mundo globalizado, as línguas adquirem função de passaporte que permite viajar entre mundos" e "ser cidadãos do mundo".

Estas constatações vão ao encontro da "política de multilinguismo" 15 da Comissão Europeia, que procura ainda atribuir um lugar de destaque às línguas nas empresas - com vista a adquirir/melhorar competências interculturais e linguísticas - e na comunidade - para favorecer a integração social e a compreensão entre culturas.

A (quase) ausência de estudos em Educação em Português que persigam estes objetivos parece-nos uma evidência. O desenvolvimento de projetos desta natureza terá toda a oportunidade, vindo consolidar e recolocar o português, como língua internacional, na convicção de que as línguas nos abrem portas, e a LP é, sem dúvida, a grande chave.


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