Artes visuais e transdisciplinaridade na era da complexidade: uma prática
pedagógica continuada
Introdução
Nesta primeira década do século XXI identifica-se a preocupação de centrar as
questões da educação na responsabilidade da condição humana. Luís Correia
(2006) citando Andy Hargreaves, refere:
a questão central da nossa escola reside no confronto entre duas
poderosas forças: (i) de um lado o crescimento imparável de um mundo
pós-moderno, caracterizado por uma mudança em progressiva aceleração,
uma intensa compressão do tempo e do espaço, um mundo caracterizado
pela diversidade cultural, pela complexidade tecnológica, pela
insegurança e pela incerteza; (ii) do outro lado um sistema escolar
monolítico, que persegue propósitos anacrónicos, assente em
estruturas marcadas pela opacidade e pela rigidez. (Correia, 2006,
p.4)
A transdisciplinaridade surge como resposta aos desafios atuais. No primeiro
Congresso Mundial da Transdisciplinaridade (Arrábida 2004), foi publicada a
Carta da Transdisciplinaridade onde se pode ler no Art. 3º: "(...) a
transdisciplinaridade (…) procura (…) a abertura de todas as disciplinas àquilo
que as atravessa e as ultrapassa (...)" e no Art. 7º: "A
transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova
filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências"
(UNESCO, Carta da Transdisciplinaridade, 2004).
Para além da Introduçãoe da Discussão, este artigo contém o Enquadramento
teóricodos seguintes conceitos: projeto transdisciplinar numa perspetiva
construtivista, investigação-ação e inclusãonuma perspetiva sociológica, que
identificamos como pertencente às teorias personalistas da educação. Na
Apresentação dos projetosfalamos dos três desenvolvidos nos últimos 4 anos na
Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho (ESMAVC) explicitando as
necessidades pedagógicas que os originaram e os conceitos envolvidos. Referimos
as estruturas e o modo como, através da pedagogia de projeto, conjugámos
sinergias explorando abordagens transdisciplinares.
O objetivo é demonstrar a importância das práticas para o desenvolvimento da
versatilidade, organização, integração e compreensão dos conteúdos que veiculam
o conhecimento holístico, tendo em conta a dimensão da vida ao nível do
sentimento, emoção e sensibilidade.
As conclusões que tirámos assentam em metodologias qualitativas baseadas na
observação empírica dos comportamentos, em relação aos processos e aos
produtos. Por considerarmos que a Arte tem um papel fundamental na criação e
implementação de projetos transdisciplinares nas escolas, para que os nossos
jovens a percecionem como espaços de aprendizagens vivenciadas, escrevemos o
presente artigo.
1. Enquadramento concetual
A conceção e desenvolvimento dos projetos descritos basearam-se nos conceitos
de: pedagogia de projeto, transdisciplinaridade, inclusão e investigação-ação.
1.1. Pedagogia de projeto
Isabel Branco refere: "o projetoconstitui um espaço onde se desenvolveram
experiências com impacto na prática educativa e que projeta outras atividades
partindo da reflexão das questões da praxis" (Branco, s.d.). A estrutura
organizativa e pedagógica das nossas escolas obedece a um paradigma analítico
de base cartesiana. As disciplinas estão estruturadas em conteúdos estanques e
enquadradas numa hierarquia de preconceito. Contudo, o ser humano é um
"território biológico onde são tecidos o psíquico, o afetivo, o racional
e o social, ou seja, como um ser complexo que condensa a ligação entre a
unidade e a multiplicidade" (Morin, 2000, p.6), o que contraria
claramente a estrutura curricular e organizativa vigente.
O desenvolvimento de projetos transdisciplinares é "uma forma de
liberdade, de autonomia e de afirmação da individualidade da existência
humana" (Barbier, 1993, p.25) e apresenta-se como alternativa à didática
tradicional.
1.2.Transdisciplinaridade
A transdisciplinaridade visa a unidade do conhecimento, articulando os
conteúdos de forma a contribuir para a compreensão da realidade conjunta e
complexa representando uma cooperação e um pensamento organizador que
ultrapassa um mero somatório - pensamento complexo. A transdisciplinaridade
apresenta-se como um território de desenvolvimento da criatividade, procurando
o contributo das artes, letras e ciências. Esta é uma das características dos
projetos que desenvolvemos.
Ari Paulo Jantsch, citado por Theophilo Roque (s.d.), apresentou de forma
esquemática as diferenças entre multi, pluri, inter e transdisciplinaridade que
nos dá uma visão clara das inter-relações.
Nicolescu (1999) define a transdisciplinaridade como:
(...) a dualidade que opõe os pares binários: sujeito-objeto,
subjetividade-objetividade, matéria-consciência, natureza-divino,
simplicidade-complexidade, reducionismo-holismo, diversidade-unidade.
Esta dualidade é transgredida pela unidade aberta que engloba tanto o
Universo como o ser humano. Nicolescu (1999, p. 13)
1.3. Inclusão
Em Portugal, a escolaridade obrigatória foi alargada até ao 12º ano. Nesse
sentido surge a necessidade de pensar a didática como uma práxis inclusiva, que
vise percursos de aprendizagem para todos.
Tendo como princípio que "Educar é tornar o homem consciente de si mesmo,
de seus deveres e direitos, de sua responsabilidade para com sua espécie"
(Emerenciana, 1996, p. 18) aproximamo-nos do conceito de inclusão como processo
de consciencialização ética que não deve ser confundido com a "Educação
Especial" (EE), mas lido no contexto da filosofia inclusiva veiculada em
1990, na Conferência Mundial sobre Educação para todos (UNESCO, 1990) que
decorreu em Jomtien. Evitar a exclusão significa ajudar os alunos a construir a
sua identidade pessoal. É fundamental proporcionar didáticas que fomentem as
relações entre os indivíduos, baseadas no respeito pela singularidade
individual. A escola como espaço de socialização, tem um papel muito importante
no desenvolvimento da cidadania, baseada no respeito pelos pares, evitando a
anulação dos sujeitos, prevenindo a violência.
1.4.Investigação-ação
A escola inclusiva passa diretamente pela construção das didáticas. Aprender é
um ato solitário em contextos de inter-relações. Os processos têm que ser
apropriados pelos alunos, para se desenvolver o sentido de pertença, evitando
que se transforme em algo pertencente ao outro - o professor. É
fundamental a valorização do papel do professor investigador capaz de cativar e
motivar. Falamos da investigação baseada na práxis, construída no conhecimento
teórico, contextualizada na sala de aula e estimulada na reflexão contínua do
processo, como Thiollent (2003) afirmou:
(...) um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e
realizada em estreita associação com a ação ou com a resolução de um
problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes
representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo
cooperativo e participativo. (Thiollent, 2003, p. 31)
Considerámos que a investigação-ação era a metodologia que melhor se adaptava
aos projetos que pretendíamos desenvolver. Segundo Almeida (2001) há grandes
vantagens na aplicação desta metodologia porque:
Ela implica o abandono do praticismo não reflexivo, favorece, quer a
colaboração inter profissional, quer a prática pluridisciplinar
- quando não interdisciplinar ou mesmo transdisciplinar
-, e promove, inegavelmente, a melhoria das intervenções em que
é utilizada. (Almeida, 2001, p. 19).
Valle afirma a "não linearidade da pesquisa sociológica e a dificuldade
em a planificar de forma definitiva, relatando a frequente necessidade de
redirecionar, redefinir e alterar o que inicialmente foi planificado ou mesmo
problematizado" (Valle & Bourdier, 2008, p. 100). Rever é a palavra-
chave. O professor tem que ser versátil, transversal, não convencional e
convicto das metodologias que aplica.
Chagas (s.d.) chama a atenção para que a investigação-ação, "usada como
uma modalidade de investigação qualitativa, não é entendida pelos
tradicionalistas como "verdadeira" investigação, uma vez que está
ao serviço de uma causa, a de "promover mudanças sociais" (...), e
refere ainda que é: "um tipo de investigação aplicada no qual o
investigador se envolve ativamente" e por isso sob suspeição.
A falta de validade científica apregoada pelos investigadores da área das
ciências puras não nos preocupa. Consideramos que as metodologias quantitativas
deixam de fora muito do que prezamos - a complexidade do ser humano no
contexto da instituição escola.
2. Descrição dos projetos
A Escola mantém a sua estrutura organizativa tendo como base disciplinas
estruturadas em unidades letivas estanques. Só a consciência individual dos
educadores leva a que se desenvolva a aplicação do conceito de
transdisciplinaridade.
Para que a Escola seja apelativa é fundamental que se contrarie a tendência
para perpetuar a sala de aula centrada no professor e na abordagem dos
conteúdos de forma multidisciplinar.
Na ESMAVC tem havido a audácia de utilizar a metodologia de projeto e a
investigação-ação para desenvolver projetos onde o conhecimento é abordado de
forma holística. Através destas práticas tornámo-nos conscientes de que as
artes podem ser o centro da reconcetualização de um currículo em que a
criatividade se apresente como o objetivo final.
O Ano Europeu da Criatividade e da inovação (2009) na mesma linha do ano
Europeu do Diálogo Intercultural (2008) trouxeram as referências à construção
dos sentidos e à importância do desenvolvimento da criatividade para o aumento
do bem estar e de motor de crescimento com consequente criação de riqueza -que
contribui para a melhoria dos aspetos sociais de inclusão. As escolas ainda
olham com alguma desconfiança para as artes e muitos temem-nas. Como afirmou
Teresa Eça (2009):
As escolas são instituições sociais que dão muito valor a um certo
grau de conformismo. Os indivíduos criativos podem revelar
características, capacidades e habilidades que os professores tenham
dificuldade em aceitar, como por exemplo a tolerância pela
ambiguidade e o jogar com ideias, materiais e processos. A escola
tende a valorizar um ambiente feito de certezas e
'seriedade' onde o jogo não entra. (De Eça, 2009, p. …)
Ou seja, o primeiro grande entrave ao desenvolvimento da criatividade aparece
pela mão dos professores, aqueles que deveriam ser os seus promotores. Com os
projetos transdisciplinares que realizámos, pretendemos construir uma prática
pedagógica baseada na reflexão e na ação e contribuir para romper a
estanqueidade das disciplinas. Foram explorados métodos sensíveis de
conhecimento, de forma a fortalecer a confiança e os afetos entre os
participantes. Contrariamente ao que acontece em muitas das nossas escolas,
tivemos o apoio da Direção, o que viabilizou o "impensável" na
ótica dos mais tradicionais - os conformistas institucionalizados.
2.1O projeto: "A linha do pensamento, a cor da emoção (2008-2009)
Este projeto nasceu da necessidade concreta de levar uma turma de artes a
refletir as suas competências ao nível da escrita e do desenho, com o objetivo
de as melhorar.
O desafio colocado aos alunos foi: refletir o presente a partir do
tema "Eu e o mundo" e redigir textos, em poesia ou em
prosa. Foram criados blogspara todas as turmas com bandas
personalizadas, projetadas e realizadas pelos alunos de artes, e de
acordo com a área disciplinar a que pertenciam. (…) A publicação
digital dos textos fê-los passar do universo privado para o universo
público, em que a mensagem pessoal se transforma numa comunicação (…)
liberta do seu produtor permitindo leituras variadas (…).
Terminada a fase da produção de texto, deu-se início ao trabalho da relação
entre a palavra e a imagem, unidos no objetivo da comunicação da mensagem.
(Ramos, 2010, pp. 54-57) .
Uma estrutura simples, aliada à polivalência dos intervenientes, criou uma
dinâmica contagiante que o fez alargar a todas as turmas dos 12ºs anos
incluindo os alunos da EE. Nenhum dos alunos ilustrou o seu próprio texto, uma
vez que se pretendiam abordagens polissémicas. Foi seguido o seguinte processo:
A exigência de um procedimento que implicava a exploração de
conceitos variados a partir de um mesmo texto, obrigou cada aluno a
explorar caminhos alternativos (…). Alguns utilizaram caminhos
interessantes, como a associação livre de ideias tendo por base o
"jogo de palavras relacionadas", como forma de
desencadear o processo associativo/criativo. (...) O processo
introspetivo, centrado no seu próprio pensamento calibrado pela
emoção, foi utilizado pelosconscientes do valor da interpretação
pessoal, como princípio da singularidade da produção artística.
(Ramos, 2010, p.55)
A escola cumpriu o papel integrador e formador tendo encontrado um parceiro que
possibilitou a publicação do produto final -um livro de 224 páginas a cores. A
evidência da importância do projeto para os alunos ficou patente na comovente
cerimónia de lançamento do livro.
2.2O projeto: "Plano de voo: arte, ciência e movimento - viagem
transdisciplinar"
"Plano de voo" (2010-2011)partiu do que poderia ser uma brincadeira
para crianças - o avião de papel que foi transformado numa mais-valia
pedagógica. Demonstrámos que os princípios científicos do voo de um avião de
papel são os mesmos que explicam o de uma ave ou do mais moderno avião. Nesta
"aventura", cada disciplina realizou a planificação dos conteúdos
tendo em vista a transversalidade dos mesmos de forma a integrar-se na
planificação/estrutura do projeto.
O "Plano de voo" evidenciou ser mais complexo do que o "A
linha do pensamento" tanto pelo número de disciplinas envolvidas(Área de
Projeto, Educação Física, Física, Matemática, Oficina de Artes, Oficina de
Multimédia e posteriormente Educação Moral Religiosa Católica (EMRC), Geografia
e Português) como pelo seu alargamento a outras escolas.
Todas as disciplinas inseriram as atividades e produtos numa
"trama" de inter-relações temáticas: Biologia do voo (Fig._7),
Física e Performance do voo (Fig._4), Imagéticas do voo (Fig._5),
Transcendência do voo (Fig._3) e Mitologia do voo (Fig._6), publicado na
disciplina Moodle do projeto dar visibilidade à rede de trabalho
transdisciplinar.
Os alunos integraram-se nos grupos de trabalho em que se sentiam mais
vocacionados. A visita de estudo foi programada e orientada pelos alunos que
prepararam o material distribuído: identificações, planos de deslocações e
fizeram de relações públicas. A visita de estudo incluiu idas ao Museu do Ar,
seguida de uma visita às instalações da Academia, onde assistiram a uma
palestra, à esquadra 101 e ao simulador de voo, que alguns alunos puderam
experimentar.
No exterior assistiu-se à demonstração de uma patrulha de F16 e das aeronaves
Chipmunk e Epsilon. Foi presenciada uma largada do falcão pelo falcoeiro.
A avaliação do projeto foi feita através da opinião dos alunos editada no fórum
criado para o efeito1. Numa fase inicial reagiram negativamente em relação ao
tema apresentado porque não perceberam a sua dimensão e potencialidades, tanto
ao nível das temáticas como da integração das motivações pessoais e também em
consequência de experiências anteriores pouco gratificantes.
Com o decorrer das aulas foram percebendo que afinal podiam sentir-se
realizados dentro da estrutura que lhes estava a ser proposta. A partir daí o
projeto "descolou" claramente.
Acho que este projeto tinha uma "máscara" que não nos
deixou desde logo ver sua essência, o quanto interessante era (...).
(C. M.) (...) fomos percebendo que poderíamos tirar partido do
projeto e adaptá-lo ao que mais gostássemos(...) e foi nesse momento
que lhe demos a devida importância. Percebemos que a vida é isto…(M.
M.) Só durante a divisão da turma em grupos, consoante os seus
interesses, é que consegui entender a flexibilidade e a dimensão do
projeto. Só aí, compreendi então a extensão do "voo"
(...). Começando a entender cada vez mais o projeto, comecei também a
interessar-me e a contribuir mais para o avanço do mesmo quer com
ideias, quer oferecendo auxílio a quem necessitasse. (A.M.)
Os alunos ao longo de todo o processo desenvolveram múltiplas competências
tendo-se tornado mais versáteis e atentos ao outro como se pode verificar na
tabela de síntese dos comentários editados fórum pelos alunos. Terminamos a
referência ao projeto com uma frase do J. P. por considerarmos que é
representativa das aprendizagens:
(...) foi um projeto bastante importante para a minha realização como
estudante, ficará sem dúvida na minha memória pelas aprendizagens e
pelas relações.
3.3. O projeto "Desenhos: dinâmicas transdisciplinares" (2011-
2013)tem um caráter bianual. Para além de perseguir os objetivos dos
anteriores, procurou acentuar a consciência da importância formação artística
na atualidade, como se pode ver na seguinte transcrição:
Numa perspectiva de contemporaneidade optámos por uma das
manifestações artísticas da Arte Urbana (Street Art) -a Tape
Artque aborda a linha, enquanto elemento estrutural da linguagem
plástica, como meio de expressão e utilizar as fitas adesivas e vinis
como meios atuantes." (...) Com a utilização deste veículo de
comunicação visual (a arte urbana) pretendemos dar vazão ao impulso
que muitos dos nossos jovens tem de inscreverem os seus tags nas
paredes públicas que se revela como meio de afirmação e/ou
intervenção pessoal e social. Desta forma, a escola (espaço semi-
público) e a sala de aula (espaço semi-privado) poderá representar um
espaço deliberdade de comunicação e construção de conceitos de
conhecimento dinâmico e global. (Ramos, 2010)
As concretizações foram múltiplas com tendências variadas, uma vez que partiram
dos reais interesses pelos alunos e não da imposição da preferência estética
dos professores. A diversidade foi sinónimo de afirmação pessoal e de
crescimento individual. Cada aluno desenvolveu o seu processo criativo, ao
mesmo tempo que participava de forma colaborativa nos trabalhos dos colegas. As
aprendizagens indiretas, pela sua diversidade, revelaram-se enriquecedoras.
Definiu-se à partida que as temáticas tinham que ser transversais à Matemática
ao Português e dividiram-se pelos seguintes itens:
Comics-próximo da Cultura visual, foi muito apreciado pela comunidade
educativa pelo seu caráter mais lúdico.
Geometria das formas-próximo dos conteúdos mais "Científicos"
foram intituladas: "Padrões e outras composições" - que
constituíram uma instalação por toda a escola. Estas intervenções apresentavam-
se inicialmente dentro da área do expectável mas foram intervenções muito
referenciadas pela comunidade devido ao impacto visual de intervenção no espaço
físico.
Retratos do conhecimento-próximo da noção de a arte ao serviço da
comunicação e da divulgação de conhecimento.
Ficou claro que a Hipátia de Alexandria era uma personagem desconhecida. No
presente ano letivo (2012/13) pretendemos continuar a desenvolver este itemcom
o objetivo de dar a conhecer mulheres ilustres no âmbito das ciências, das
artes e do desporto. Esta intervenção realizada em números e símbolos
matemáticos com três tons de cinzento, foi muito apreciada pelo rigor, perícia
e minúcia de execução tendo tido muitos colaboradores voluntários na realização
final.
Poesia visual- próximo de uma exploração plástica mais livre e criativa,
a que chamámos: "Rotas poéticas: visões e invasões". Pretendíamos
uma intervenção móvel e intimista, por isso a escolha dos livros de ponto
(capas) como espaço de intervenção.
Foi interessante ver como a comunidade reagiu. Uns, tendo como ponto de partida
o poema transcrito na contracapa e o poema visual criado pelos alunos de artes,
lecionaram uma aula diferente, outros, perante o inesperado e devido ao
desconhecimento e preconceito mostraram-se indignados.
Não temos dúvida que quando a literatura e as artes visuais unidas se passearam
pelos corredores e entraram em todas as salas o projeto prestou um serviço à
educação. As intervenções nos livros de ponto, tendo como base a poesia visual
pensada com o objetivo transdisciplinar de motivar os alunos a lerem e a
interpretarem a palavra e a imagem, acabaram por ter uma consequência -
promoveram a discussão.
4. Discussão
Os três projetos desenvolvidos na ESMAVC, descritos neste trabalho, ilustram de
forma progressiva a aplicação dos quatro pilares da fundamentação teórica:
pedagogia de projeto, transdisciplinaridade, inclusão e investigação-ação. No
primeiro projeto "A linha do pensamento" foi aplicada a pedagogia
de projeto através de uma abordagem transdisciplinar entre as disciplinas de
português (todas as turmas do 12º ano) e desenho (duas turmas de artes). A
inclusão foi um dos pilares deste projeto, tendo em conta que nele participaram
212 alunos incluindo os da EE. Este projeto teve como produto final a produção
de um livro com 224 páginas de textos ilustrados cuja edição foi patrocinada
por uma grande empresa (Portugal Telecom) que perenizou o esforço de todos os
intervenientes e projetou a imagem da escola numa sessão solene de apresentação
e lançamento do livro com a presença das entidades oficiais (Ministério da
Educação, Autarquia e Assembleia da República). A transdisciplinaridade deste
projeto permitiu captar o interesse dos alunos, desenvolver o gosto pela
escrita e interpretação dos significados, o prazer da ilustração com recurso a
linguagens e técnicas muito variadas. As tecnologias de informação tiveram um
papel preponderante nas fases de construção dos textos e na elaboração das
maquetes.
Com o segundo projeto, "Plano de voo" deu-se um grande passo na
abrangência das disciplinas envolvidas. Usámos as redes sociais como motor de
divulgação dos múltiplos produtos desenvolvidos. Lográmos estabelecer relações
com outras escolas e levá-las a participar. A inclusão foi mais uma vez uma
preocupação que norteou a intervenção de todos os professores. O impacto deste
projeto na comunidade foi tão significativo que mereceu uma reportagem
televisiva por parte do canal SIC
2
.
O terceiro projeto "Desenhos: dinâmicas transdisciplinares"
resultou da preocupação de adicionar à pedagogia de projeto e à
transdisciplinaridade a noção de uma manifestação artística marcadamente
contemporânea, tanto pelo médium como pela linguagem, mantendo a metodologia da
investigação-ação. Uma vez mais houve conteúdos lecionados em simultâneo, por
professores de áreas disciplinares diferentes no mesmo espaço aula,
ultrapassando as fronteiras da sala de aula, monodisciplinar, o que representou
um verdadeiro laboratório de experimentação didático-pedagógica .
Através das concretizações "Rotas poéticas: visões e invasões"
logrou-se uma intervenção no "espaço escola" tanto ao nível da
transformação física como dos preconceitos individuais (intervenção nos livros
de ponto).
Em síntese, podemos considerar que com as práticas que referíamos, inovámos e
apontámos caminhos tendo em conta as seguintes afirmações:
(...) a inovação não se traduz no recurso a equipamentos
tecnologicamente sofisticados e atualizados, mas implica uma mudança
bem mais profunda intrinsecamente ligada com a criatividade, com a
capacidade de produzir e de concretizar ideias novas e originais.
(Perrenoud, 1995, p. 15) O estudo da gramática não faz poetas. O
estudo da harmonia não faz compositores. O estudo da psicologia não
faz pessoas equilibradas. O estudo das "ciências da
educação" não faz educadores. Educadores não podem ser
produzidos. (...) O que se pode fazer é ajudá-los a nascer. Para isso
eu falo e escrevo: para que eles tenham coragem de nascer. (Ruben
Alves, s.d.)
A utilização nas escolas, de forma mais abrangente, da metodologia de projeto
em abordagens transdisciplinares pode representar mudanças nas práticas
educativas e potenciar o clima de escola, uma vez que contribui para a
motivação dos alunos e dos professores. Constatámos que as práticas letivas
materializadas em produtos finais com visibilidade valorizam a instituição
escola trazendo-lhe contemporaneidade.
Conclusão
Neste trabalho foram analisados a importância e os fundamentos da
transdisciplinaridade como instrumento de evolução de práticas pedagógicas
através dos projetos transdisciplinares realizados na ESMAVC. As grandes mais
valias dos três projetos foram:
• exploração de pedagogias diferenciadas, próximas do indivíduo e
consequentemente mais eficientes nas aprendizagens,
• a necessidade dos conteúdos passou a ser percepcionada pelos alunos, tendo-se
ultrapassado o - "para que é que isto serve",
• aumentou o interesse e o entusiasmo nas tarefas a realizar,
• aumentou a autoexigência e o espírito colaborativo,
• o papel do professor valorizou-se como gestor de conhecimentos em alternativa
ao de transmissor.
• a escola ganhou atualidade.
É fundamental que se reflita sobre a validade deste tipo de práticas e de que
forma elas têm ou não trazido qualidade às aprendizagens, assim como nas
dificuldades sentidas na sua implementação, para que se possa fundamentar a
criação de espaços de transdisciplinaridade dignos e consistentes.
Trabalhar a transdisciplinaridade numa perspetiva projetual não é sinónimo de
facilitismo. Exige do docente um esforço acrescido para ser capaz de responder
às múltiplas solicitações resultantes dos percursos individuais, uma vez que
tem que trabalhar fora da sua área de conforto (especialidade) de forma a ser
transversal -o que exige um investimento permanente ao nível da atualização dos
conteúdos e das didáticas. Em prol da qualidade e atualidade do ensino, não
podemos deixar que as práticas resultantes das pedagogias abertas e inovadoras
estejam dependentes das boas vontades e empenho dos docentes por não haver
incentivo a que se desenvolvam.
As instituições internacionais responsáveis por pensar e estruturar a educação
e a cultura ao nível global dão uma enorme relevância, à necessidade da
contemporanização da Escola e ao desenvolvimento da criatividade individual, na
consciência de que o conhecimento é complexo e transdisciplinar. Neste sentido,
não compreendemos que no contexto nacional, se implementem restrições que
tornam cada mais adversos estes desenvolvimentos, como o aumento do número de
alunos por turma e a redução da carga horária de disciplinas que se apresentam
como estruturantes nestes processos, como o caso das artes.