Um olhar sobre o papel das tecnologias da visão na construção de noções e
práticas de literacia visual entre os jovens
Introdução
Este texto resulta de uma investigação em curso sobre "o papel da escola
no desenvolvimento e valorização social da literacia visual", centrando-
se nos procedimentos de investigação com jovens e professores e numa primeira
interpretação das evidências recolhidas. A colaboração pedida a estes
intervenientes pretende visibilizar discursos e práticas relacionados com a
literacia visual pelo que, sempre que possível, serão colocadas em relação as
evidências recolhidas junto de ambos.
O estudo encontra-se em desenvolvimento pelo que se apresenta uma interpretação
preliminar das evidências recolhidas. A principal vantagem de apresentar
resultados neste momento reside na possibilidade de ir sistematizando e
contextualizando as evidências, ao mesmo tempo que se possibilita, ainda que
teoricamente, a discussão do processo de investigação com a comunidade
científica.
Apresento sucintamente o projeto e a metodologia de investigação com os jovens;
exponho o enquadramento teórico e discuto o papel das tecnologias da visão na
construção do olhar; as noções de literacia visual e as suas práticas na
escola; e indago sobre o papel dos jovens como produtores de cultura visual.
O projeto de investigação
Este estudo, para além de um contributo para a atualização científica da área
da Educação Artística em Portugal, pretende concorrer para a compreensão do
conceito de literacia visual e do papel da escola no seu desenvolvimento e
valorização social. Trará uma visão do conceito assente em três pontos de
vista:
i. Discursos e práticas do campo científico da Educação Artística, considerando
as diferentes abordagens internacionais;
ii. Discursos administrativos que nos são transmitidos pelas leis, pelos
programas curriculares, e pelos documentos orientadores das políticas de
escola;
iii. Discursos e práticas dos sujeitos: alunos e professores;
A metodologia de investigação irá centrar-se no uso de métodos visuais e na
interpretação das evidências recolhidas, mas também na análise documental de
programas, currículos e projetos educativos. No trabalho específico com os
jovens, no qual se centra este texto, foram definidas algumas propostas de
trabalho que visaram a produção de diferentes produtos visuais, em diferentes
suportes, e textos.
A interpretação das evidências recolhidas, assumindo o meu papel como professor
e investigador, irá permitir encontrar categorias, dimensões, dependências e
relações que ajudam a narrar um sentido para o tema em estudo.
Ao longo do processo de investigação, no trabalho colaborativo com os jovens e
na divulgação de resultados, pretendo favorecer uma reflexão sobre a
importância da literacia visual como uma competência quotidiana, (também)
adquirida na escola, e valorizada social e profissionalmente. Pretendo ainda
contribuir para o reforço das competências profissionais e para a melhoria das
práticas pedagógicas dos professores de artes visuais e para a definição de um
currículo capaz de promover o desenvolvimento de capacidades e conhecimentos
adaptados às características das sociedades contemporâneas, nas suas diferentes
dimensões.
Procedimentos de investigação com os jovens
A metodologia de investigação proposta foi aplicada em duas escolas em
Portugal. Em cada uma delas foi aplicado o princípio das amostras intencionais,
tendo-se reunido em cada uma um grupo de 5 jovens com 15 anos, com base na
premissa de que estariam dispostos e em condições de fornecer a melhor
informação sobre o tema.
Com cada grupo foram marcadas 4 sessões de trabalho presenciais, que seguiram
um programa de trabalho flexível e onde todas as tarefas foram postas à
consideração e aval do grupo. Privilegiou-se o uso dos métodos visuais e os
jovens tiveram a oportunidade de escolher o suporte em algumas tarefas,
a. o que lhes permitiu recorrer ao meio de expressão com o qual se sentiam
mais confortáveis. A opção pelos métodos visuais prende-se com o facto de
serem menos intimidatórios, pois são menos diretivos, capazes de aproximar
o jovem e o adulto, não só na utilização das tecnologias associadas como
também na tomada de decisões ao longo do processo (Brooks, Heath, Ireland,
& Cleaver, 2009,
b. 124). A sua utilização pretendeu ainda propor aos jovens algo que é
distinto da natureza da escola, "por norma baseada na palavra"
(Thomson, 2008, p. 12).
As tarefas1 postas à consideração dos jovens seguiram uma lógica que queria
minimizar as dificuldades da entrada no campo, pois começava por promover
empatias e o espírito de grupo, evoluindo depois para tarefas que pretendiam
desvelar o contexto visual no qual os jovens se movimentam, mas também
perceber, através dos produtos visuais produzidos, quais as suas competências
visuais, e, por último, a necessidade de tornar conscientes e sistematizar
essas mesmas competências.
Nas sessões de trabalho todos apresentámos e partilhámos (incluindo o autor
deste artigo) o material que trazíamos: as imagens e os textos. Depois de cada
apresentação estabelecia-se um diálogo entre todos que tinham como objetivo
ampliar aquilo que os jovens escreveram e disseram na apresentação, levando-os
a refletir de novo sobre as imagens e os textos.
Uma vez que a investigação é feita com os jovens e se recolhem evidências
visuais, há um conjunto de procedimentos éticos que não podem ser
menosprezados, nomeadamente os pedidos de autorização às entidades competentes
na proteção de dados, às escolas, aos estudantes e aos respetivos encarregados
de educação. Certifiquei-me também que todos os intervenientes estavam
devidamente informados sobre os objetivos do estudo, sobre os dados a recolher,
sobre os métodos de recolha e sua disseminação.
As tecnologias da visão e a construção do olhar
Recentemente, ao visitar uma exposição de arte contemporânea eu e quem me
acompanhava detivemo-nos em frente a uma obra. Mantivemo-nos em silêncio por
largos minutos a observar um vídeo de uma performance. Esse silêncio viria a
ser quebrado com uma pergunta que me inquietou: porque é que isto nos prende a
atenção? Conectei-a de imediato com a minha investigação sobre literacia visual
e logo um conjunto de outras questões assomaram: porque prestamos mais atenção
a umas coisas do que a outras? Vemos com mais atenção ou detalhe aquilo que
compreendemos ou o que nos é "estranho"? Que conhecimentos temos de
dominar para conseguir ver e interpretar as imagens?
Leituras posteriores, orientadas por estas perguntas, levaram-me até ao pa-pel
das tecnologias da visão na construção da nossa atenção, na modelação dos
nossos olhares, logo, dos nossos saberes. O tema da "capacidade de
prestar atenção" conectado com a visão foi trabalhado com detalhe por
Crary (1999) que define a atenção como um ingrediente inevitável de uma
conceção subjetiva da visão. A atenção é, assim, o meio através do qual um
indivíduo observador faz a perceção sua e, ao mesmo tempo, se torna aberto para
o controle e anexação por agências externas. O mesmo será dizer que é um meio
pelo qual as nossas subjetividades são produzidas, através do "campo de
práticas da atenção", no qual os discursos, as práticas e os artefactos
estão igualmente envolvidos (Crary, 1999, p. 7). Importa realçar que o modo
como ouvimos, olhamos ou nos concentramos em algo tem um profundo caracter
histórico (Crary, 1990, 1999) e que o nosso olhar tem sido fabricado ao longo
dos séculos pela panóplia de dispositivos técnicos que têm jogado um papel
decisivo no fabrico, na distribuição e consumo das imagens, ao mesmo tempo que
alimentam os imaginários com que as fabricamos e as lemos (Sicard, 2006, p. x).
Sobre o conceito de literacia visual em relação com a educação artística
As mudanças no regime de visualidade operadas na nossa sociedade desde o séc.
XIX, em conjunto com as profundas alterações que se registaram na instituição
escolar em todo o mundo tiveram consequências diretas a nível científico e
técnico na sociedade, mas também a nível pedagógico e curricular dentro da
escola. A escola foi mudando e no final da década de 60 havia já a consciência
de que a penetração dos novos media dava um grande ênfase à representação
visual como prática de comunicação (McDougall, 2004, p. 25), especialmente com
a difusão da imprensa e televisão a cores
2
. A noção de literacia visual vigente baseava-se na existência de uma linguagem
visual
3
que a suportava e definia.
O advento das novas tecnologias e o impacto que elas tiveram (têm) nas nossas
vidas, levou a uma revisão do conceito de literacia e por isso se fala agora em
multiliteraciasou novas literacias, conceitos que articulam a multiplicidade de
canais de comunicação por elas possibilitados, a crescente importância da
diversidade cultural e linguística nas sociedades contemporâneas e as
interações globais a nível social, cultural e tecnológico (Baker, 2010; Cope
& Kalantzis, 2000; Hernández, 2007). O conceito compreende também novas
competências, estratégias, disposições e práticas sociais, associadas ao uso
das novas tecnologias da informação e comunicação e são fundamentais para uma
participação completa na comunidade global. Estas novas literacias, nas quais
se inclui com especial destaque a literacia visual, estão em constante mudança
tal como as próprias tecnologias, são multifacetadas e a nossa compreensão
sobre elas resulta de diferentes pontos de vista coexistentes (Baker, 2010).
Reconhece-se, então, um paralelo entre a evolução das tecnologias da visão e a
revisão da noção de literacia visual, que continua a evoluir e a transformar-se
em resultado da construção social que a valida. Partindo deste suposto
paralelismo conclui-se que o nosso olhar tem sido fabricado pelas tecnologias
da visão e pelos diferentes discursos e contextos que as legitimam.
Relacionar a noção de literacia visual com a educação artística, permite aos
professores estarem na posse de uma ferramenta (partindo do pressuposto que a
teorização de um conceito é encarada como uma ferramenta útil para o trabalho
docente) que destaca a posição do visual e da visualidade num âmbito dominado
pelo texto escrito, fazendo uso da enorme presença do visual na cultura
contemporânea (Raney, 1999).
Numa perspetiva próxima das multiliteracias, Hernández refere que:
adquirir literacia visual deve permitir aos alunos analisar,
interpretar, avaliar e criar, a partir das relações estabelecidas
entre saberes que circulam pelos "textos" orais,
auditivos, visuais, escritos, corporais e, em especial, aqueles
vinculados às imagens que saturam as representações mediadas pela
tecnologia nas sociedades contemporâneas. (Hernández, 2007, p. 22).
No entanto, a prática dos professores parece estar mais próxima de uma
abordagem à literacia visual como conhecimento e domínio da linguagem visual,
pois a maioria das propostas de trabalho relacionam-se com análises formalistas
de obras de arte, aprendizagem de técnicas e sua reprodução mecânica, ou
reprodução de modelos estéticos tidos como mais adequados aos alunos (Agirre,
2010; Reis, 2011). Estas propostas de trabalho assentam na ideia de formar um
"bom olho", ou seja, aquele olho que é capaz de discernir e
analisar profundamente, em suma, um olho conhecedor que sabe gramática visual,
distingue os elementos da forma e conhece a história da arte, mas tem
dificuldade em relacionar, interpretar, avaliar ou criar (Rogoff, 2002).
Contudo, é bom lembrar que o conceito de literacia visual não é um conceito
fixo, pois está em constante modificação, especialmente pela diversidade de
ambientes de ensino-aprendizagem, pelo desenvolvimento nas teorias curriculares
e pedagógicas, e ainda pelo impacto das novas tecnologias na nossa sociedade.
Os jovens como produtores de cultura visual
O conceito que temos de "jovem" (seja ele qual for) resulta de
movimentos sócio-históricos, mas também de processos de representação. A
visualidade, os circuitos de comunicação de massas, as tecnologias audiovisuais
e digitais são um elemento fundamental na constituição da representação da
juventude tal como a identificamos atualmente (Campos, 2010). Também a
utilização que os jovens fazem das novas tecnologias, desencadeando processos
de autorrepresentação, acaba por modelar a imagem que temos do grupo mas também
a sua visão da vida e do mundo (Feixa, 2011).
Os jovens encontram-se entre os agentes culturais com maior dinamismo e
criatividade na produção, manipulação e consumo de objetos e imagens e, por
isso, as indústrias criativas têm explorado esse potencial em diversas frentes
estando atentas às suas modas e tendências (Aguirre, Olaiz, Marcellán, Arriaga,
& Vidador, 2010). Esses mesmos jovens usam a visualidade"como
território privilegiado de diálogo", mas também como "campo de
combate ideológico e simbólico, de afirmação identitária, de jogo e
prazer" (Campos, 2010, p. 120).
Todo este campo é muitas vezes desconhecido ou até censurado pelos adultos e
pela academia, pois as investigações realizadas tendem a observar os jovens
como usuários/consumidores e raras vezes como produtores
4
.
Mas, em que medida os jovens são realmente produtores de cultura visual?
Perceber as noções e práticas dos jovens no campo da literacia visual implica
considerá-los como capazes de mobilizar saberes e conhecimentos técnicos e
tecnológicos para a produção e criação de imagens com vista a comunicar uma
mensagem específica, tal como lhes era pedido que fizessem durante as sessões
de trabalho. O trabalho desenvolvido e os resultados obtidos indiciam que estes
jovens têm algumas dificuldades na realização de produtos visuais,
especialmente quando a tarefa é pouco dirigida. Ou seja, os jovens tiveram mais
facilidade em executar tarefas cujo enunciado era objetivo e sentiram maior
dificuldade em executar aquelas em que lhes era dada maior liberdade na escolha
do tema, do meio de expressão e modo de apresentação.
Ao longo das semanas em que os jovens tiveram de realizar a terceira tarefa
(menos dirigida) fui recebendo alguns e-mails
5
com perguntas ou desabafos que indiciavam as suas dificuldades.
Josefina; e-mail 29 de Novembro de 2011, 23:23h:
olha eu tenho estado a fazer o trabalho e queria saber se posso apresentar um
projecto de um filme, uma proposta, onde falta o guião das personagens e o
local que será a empresa que me"contratou" que fornece o local e
falta também as personagens que será também a empresa/canal etc. que me
fornecerá onde o que eu apresento é a historia e onde serei a realizadora das
cenas e da história, onde tal se o filme fosse realizado! poderá ser isto ou
terá de ser algo diferente????
Respondo-lhe de seguida relembrando que o tema e a forma de apresentação do
trabalho são livres mas acrescento:
Tendo em conta o imenso panorama visual em que te movimentas (em que tu própria
és criadora de imagens - estou a lembrar-me das tuas fotos e do teu
diário gráfico) não te parece que és capaz de produzir um produto visual que
complemente isso que me dizes? Atenção que eu acho a tua ideia muito boa, só o
digo porque será mais fácil explicares na sessão o que pretendes se usares
imagens também.
Não obtive resposta a este e-mail. A Josefina acabou por abandonar esta sua
ideia inicial e na sessão seguinte apresentou um desenho que, segundo ela, era
um cartaz "para qualquer coisa" (Imagem_1. Produto visual produzido
pela Josefina para a terceira tarefa. A imagem tem a seguinte frase inscrita:
"Be diferente and not normal like everyone". Foto tirada pela
Carolina.).
Uma outra jovem, do mesmo grupo de trabalho, parecia estar ainda com mais
dificuldades. Carolina; e-mail 4 de Dezembro de 2011, 19:01:
Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa não sei o que vou fazer
Respondi ao e-mail dando um exemplo do que poderia fazer, tal como já tinha
feito na sessão de trabalho anterior. Dois dias depois recebo um e-mail de
resposta:
Carolina; e-mail 6 de Dezembro de 2011, 17:18:
Pois eu vou ter de fazer a ultima da hora sim porque não sei o que vou fazer o
mais provavelmente é não fazer nada. Não tenho ideias nenhumas.
A Carolina acabou por apresentar um desenho com uma expressão gráfica próxima
dos graffiti. Segundo ela este foi um desenho que já tinha criado há algum
tempo atrás, ou seja, a solução que ela encontrou foi utilizar um desenho já
feito, como se fosse uma imagem do clipart (Imagem_2. Produto visual produzido
pela Carolina para a terceira tarefa. Foto tirada pela própria.).
Alguns dos outros jovens que participaram no estudo também relataram algumas
dificuldades na execução dos produtos visuais que idealizaram. Com estes
exemplos pretendo sustentar a ideia de que, apesar das suas inúmeras e
inegáveis competências, há que ter em conta que os jovens não são tecnicamente
competentes num determinado meio visual, simplesmente porque a tecnologia está
disponível (Thomson, 2008, p. 12), e essa falta de competência técnica parece
ter influenciado os resultados obtidos, pois alguns deles abandonaram as ideias
que tinham ou reconheceram falta de qualidade aos trabalhos partilhados.
No entanto, há que destacar a capacidade evidenciada para solucionar o
problema: nenhum deixou de apresentar o seu trabalho. Não conseguindo executar
o que tinham em mente, depressa reelaboraram um plano que lhes permitiu
apresentar outro produto que, embora pudesse não ser do seu agrado, espelha de
modo mais fidedigno as suas competências técnicas e as suas práticas no campo
da literacia visual.
Sobre as noções e práticas dos jovens em literacia visual
A apresentação dos procedimentos de investigação, os referentes teóricos já
expostos e a discussão precedente sobre as capacidades dos jovens na realização
de produtos visuais deverão servir como enquadramento ao que a seguir se expõe.
Não pretendo apresentar conclusões (tanto mais que a investigação ainda está em
curso), mas sim lançar pistas para uma reflexão sobre quais as noções e
práticas no campo na literacia visual que transitam pelos discursos e práticas
dos jovens, num processo de construção pessoal mediado pelas tecnologias da
visão na sociedade contemporânea.
Pretendo apresentar o meu olhar de investigador e professor que relaciona os
discursos e práticas dos jovens com um conjunto de imagens, ou seja, apresento
o meu ponto de vista sobre o que se falou quando se falou sobre estas imagens,
dando pistas para que se tornem claros os processos de análise, interpretação,
reinterpretação, apropriação, avaliação, relação entre saberes e também de
criação, levados a cabo pelos jovens durante esta investigação.
A relação que estabeleci entre as imagens e os discursos que lhe deram sentido
no decorrer das sessões de trabalho é enquadrada em seis categorias, que
correspondem a seis conjuntos de imagens. No entanto, esta organização é
contingente dado que uma nova análise dos discursos poderá possibilitar a sua
reorganização ou repetição em vários grupos simultaneamente.
i. Desejos, gostos pessoais e hobbies
A maioria das imagens trazidas pelos jovens falava deles próprios: dos seus
gostos, do que desejavam ser ou ter e também dos seus hobbies. As imagens foram
usadas para falar, sobretudo, do seu gosto pela leitura e pela escrita, pela
música, pelo cinema, pela prática desportiva, pela fotografia, pela astronomia,
por diferentes lugares, por programas de TV, por tocar um instrumento musical
ou por navegar em redes sociais (Imagem_3. Conjunto de imagens trazidas pelos
jovens. Gostos, desejos e hobbies.). Não podemos perder de vista que os
mecanismos de representação, ou seja os modos através dos quais produzimos
discursos sobre os outros e sobre nós próprios, estão relacionados com as
dinâmicas de construção identitária (Hall, 2003), do mesmo modo que a forma
como nos vemos e expressamos está também ela associada à forma como os outros
nos vêem e o exteriorizam, num jogo de olhares cruzados (Goofman cit. por
Campos, 2010, p. 119).
ii. Valores pessoais
Nos seus discursos os jovens vincaram bem os valores pessoais com que se
identificam e norteiam as suas opiniões e modo de vida. Ainda que alguns desses
valores possam ser construídos pelos discursos associados à juventude e ao seu
modo de vida, não posso deixar de os mencionar, pelo modo como estiveram sempre
presentes ao longo das sessões. Refiro-me a valores como o fair-play, a honra,
a amizade, a honestidade, a cooperação, a igualdade, a valorização das
"pequenas coisas da vida", a "força interior", as
origens e o patriotismo, ou a individualidade. As representações visuais
encerram em si determinados modos de ver e julgar visualmente o que nos rodeia.
Assim, estas imagens representam também o enquadramento social que possibilita
a ocorrência destas relações específicas entre os jovens, os valores que
enunciam e as imagens que os representam.
iii. Preocupações sociais e políticas
Como professor e investigador foi frequente ouvir, também nas sessões de
trabalho com professores, que os jovens "não querem saber",
"não se envolvem" ou "não participam". Um dos dados a
realçar nas imagens e nos discursos dos jovens é a sua preocupação com questões
políticas e sociais, ainda que por vezes possam carecer da necessária
contextualização. Mostraram preocupação por questões como a defesa da natureza,
a proteção e justiça social, a guerra, a fome, as desigualdades sociais, ou a
impotência humana face às catástrofes naturais. Os jovens demonstraram estar
atentos e preocupados com questões políticas e sociais. Demonstraram também
capacidade de ação, especialmente através do uso de novas ferramentas
tecnológicas, como as redes sociais e os dispositivos móveis cada vez mais
ubíquos. Os novos meios não só estão a criar uma nova cultura juvenil como
também uma nova ideologia (Feixa, 2011), que implica novos modos de
participação e de ação.
iv. Atualidade
Foi reduzido o número de notícias mediáticas da atualidade apresentadas pelos
jovens. Apenas trouxeram um surfista que enfrentou uma onda de trinta metros na
Nazaré; um acidente com carros de alta cilindrada no Japão e um sismo na
Turquia. O discurso à volta das imagens esgotou-se na própria informação da
notícia.
Este dado parece contradizer o que se disse no ponto anterior mas quero antes
expandir a compreensão sobre ele e conectá-lo com a ideia, apresentada por
Aguirre et al. (2012), de que os jovens tomam como referentes para a sua
produção de imagens a sua própria imaginação e não os meios de comunicação,
como se suporia. No entanto, parece-me que uma das questões a refletir é sobre
o modo como os jovens estão a construir o seu imaginário, pois parecem não
estar conscientes do papel das imagens mediáticas e das tecnologias da visão
nessa construção.
v. Imaginários juvenis: ação, moda, música e arte
Os discursos e as imagens trazidas pelos jovens denotam a existência de
imaginários que foram sendo construídos ao longo de um grande espaço temporal,
coexistindo no tempo presente o "novo" e o "démodé".
Parece existir uma atemporalidade e uma hipertextualidade que reinterpreta e
apropria movimentos culturais, mas também os modos de ser e estar que tiveram a
sua génese há três ou quatro décadas atrás. As imagens trazidas e os discursos
revelam-nos as tendências da moda e da música dos anos 70 ainda presentes nos
nossos dias; apresentam os graffiti como expressão artística contemporânea de
maior relevo; nutrem o estilo urban e ao mesmo tempo persistem em olhar para
alguns adultos como alguém "que eu gostaria de ser".
Parece haver um lado performativo que leva os jovens a atuar de modo a
exteriorizar a sua singularidade: ser skater, ou ser gótico aparece nos
discursos dos jovens como uma afirmação de si mesmo em que o modo como se
apresentam visualmente (com o vestuário e acessórios diversos, objetos e marcas
de consumo, etc.) faz parte de uma determinada organização simbólica que os
caracteriza enquanto membros desse grupo.
Interessante foi também perceber a semelhança entre os discursos dos jovens das
duas escolas, que se caracterizou por conceções idênticas sobre estilos de
roupa ou até opiniões sobre preconceitos da sociedade no uso de tatuagens,
piercings e determinadas roupas ou calçado. Esta confluência de conceções pode
ser resultado do imediatismo com que flui a informação através da rede, que
permite que as mesmas músicas, modas e estilos sejam interiorizados por jovens
em diferentes lugares ao mesmo tempo (Feixa, 2011, p. 212).
vi. Estratégias de criação de imagens
Os jovens evidenciaram algumas dificuldades em criar imagens, por manifesta
falta de competência técnica no domínio de algumas tecnologias. No entanto
partilharam alguns produtos visuais onde demonstraram diferentes graus de
destreza com as tecnologias de produção, sejam elas digitais ou não. Nas
imagens partilhadas podemos observar o uso de figuras do clipart; montagens
fotográficas simples (adicionar apenas texto à imagem); retoques digitais a
fotografias utilizando programas tipo Photoshop; apropriação de montagens
fotográficas que circulam na net; experimentação de software de animação;
recurso ao desenho analógico; ou, simplesmente, apresentação de um texto que
descreve uma imagem ou uma situação.
Apesar das dificuldades técnicas em fazê-lo, os jovens não deixam de ser
produtores visuais, utilizando os diferentes meios de expressão ao seu alcance.
Esta autorrepresentação contribui também para a constituição da juventude
enquanto "categoria sociocultural" (Campos, 2010, p. 124). Outro
aspeto importante, que se verifica, por exemplo, na experimentação digital de
um software de animação, é que a facilidade de manuseio das tecnologias
favorece a expressão visual dos jovens, ainda que não tenham abandonado outras
formas de expressão, como o desenho.
Considerações sobre o processo de investigação em curso
Estas seis categorias, nas quais organizei as imagens em relação com os
discursos que lhes deram sentido, tentam colocar em evidência as práticas dos
jovens no campo da literacia visual e parecem indicar que o imenso panorama
visual no qual os jovens se movimentam lhes serve mais como recurso, do qual se
apropriam tal qual ele é, do que como inspiração ou motivo para a criação/
produção de algo novo. Apenas uma pequena quantidade de todas as imagens
partilhadas foi efetivamente produzida por eles (duas fotos, três desenhos,
duas montagens fotográficas e um pequeno clip de animação), todas as outras
foram retiradas da internet. Nenhum jovem apresentou sequer um recorte de
jornal ou revista o que comprova a sua familiaridade com o mundo digital, tão
bem explícito nos seus discursos. Algumas imagens que partilharam são icónicas
ou estereotipadas como, por exemplo, uma clave de sol que representa o gosto
pela música, um monte de livros que representa o gosto pela leitura, ou o uso
de símbolos, logotipos e marcas para expressar o seu gosto por determinado
serviço ou clube desportivo.
Tendo em conta o atrás exposto, parece-me que os jovens evidenciam ter alguma
facilidade em integrar processos de análise, interpretação, reinterpretação,
apropriação, mas têm claramente maior dificuldade nos processos de criação e na
capacidade de relacionar diferentes saberes. Deste modo, os jovens parecem
tirar pouco partido das aprendizagens escolares para o seu dia-a-dia e para a
produção de produtos visuais. Este dado parece corroborar as opiniões dos
jovens, quando afirmam que a escola não os ajuda a seguir uma profissão na área
das chamadas indústrias criativas, situando o seu contributo no desenvolvimento
de competências sociais e no conhecimento da gramática visual. Este
posicionamento dos jovens corrobora as práticas dos professores, evidenciadas
durante a investigação, e parece indicar alguma sistematização do conhecimento
escolar, embora eles não o sintam como útil.