A Universidade e a pluridiversidade epistemológica: a construção do
conhecimento em função de outros paradigmas epistemológicos não
ocidentocêntricos
1. Modelo de Educação superior neoliberal: o global, o regional e o local
As sociedades contemporâneas têm sido caracterizadas como "sociedades do
conhecimento". Acreditamos que são mais sociedades de profusão de dados e
informação do que de conhecimento, uma vez que a existência de dados e
informação em grande quantidade não resulta, necessariamente, em conhecimento
e, muito menos, em conhecimento científico. O conhecimento científico é uma
construção que supõe um trabalho conceptual e uma metodologia que são
inacessíveis à maioria da população. Por isso, grande parte da população tem
aces-so a dados e informações que não transforma em conhecimentos. No entanto,
é verdade que o conhecimento ocupa, atualmente, um lugar central nos processos
de produção. No atual modelo económico e produtivo o fator mais importante
deixou de ser a disponibilidade de capital, trabalho e matérias primas para
passar a ser o uso intensivo do conhecimento e da informação (Bernheim &
Chauí, 2008). Daí a centralidade das universidades e da educação superior como
instituições estratégicas do desenvolvimento e formação dos cidadãos. A
vantagem da centralidade do conhecimento e das tecnologias da informação
representa o critério diferencial das instituições de educação superior e das
respetivas sociedades. No entanto, é também o critério de exclusão de milhões
de pessoas de se apropriarem do conhecimento dado que este, tendencialmente,
passou a ser "um pilar da riqueza e do poder das nações" (Bernheim
& Chauí, 2008, p. 7) que encaram o conhecimento como mercadoria apropriável
pelo poder económico-financeiro, tornando-o acessível aos "filhos da
riqueza" e inacessível aos "filhos da pobreza" e a todos os
que historicamente foram marginalizados, vilipendiados e explorados. O
conhecimento, património da humanidade, que deveria ser um fator de inclusão e
de aprofundamento da democratização das sociedades torna-se, afinal, num dos
principais fatores de exclusão, sendo a injustiça cognitiva o reverso da
injustiça social. A denominada sociedade do conhecimento e da informação é
governada por uma lógica perversa - a lógica do mercado financeiro
- o que significa a transformação do conhecimento em mercadoria e o
impedimento à participação da comunidade, da sociedade civil, como pilar
fundamental da regulação, na promoção da informação e do conhecimento
necessários à vida social e cultural.
No nosso tempo, as questões relativas à universidade e educação superior trazem
consigo grandes incertezas, quer no que diz respeito às funções da universidade
nas sociedades contemporâneas, à sua organização interna, às relações que
estabelece com os centros de poder político, económico e financeiro quer
relativas à inclusão de novos públicos, ao saber que se transmite e à relação
entre ensino, investigação e inovação. As questões que nos inquietam
relacionam-se com a dimensão epistemológica da universidade, ou seja, como ela
será capaz ou não de incorporar outros modelos de racionalidade e outras
epistemologias que resultam da diversidade e riqueza culturais existentes no
mundo tendo em atenção a incorporação de novas camadas populacionais de origens
sócio-culturais diferenciadas que têm acesso à educação superior, o que não
acontecia num passado relativamente recente e ainda a inclusão das minorias
étnicas. Dito de outro modo, como lida a universidade contemporânea com as
epistemologias invisibilizadas e subalternizadas historicamente no sentido de
criar condições para um diálogo intercultural e, consequentemente, para uma
educação mais ampla, mais holística e, por isso, mais rica e mais cidadã? Terá
o modelo universitário neo-liberal capacidade para se reconstruir em função dos
novos públicos que, no percurso do processo de democratização de acesso ao
ensino superior que acontece em todos os países, embora em ritmos e dinâmicas
diferentes, permita o reconhecimento e inclusão de outros paradigmas culturais
e epistemológicos? O conhecimento não tem fronteiras, tem horizontes e, por
isso mesmo, numa sociedade da informação e, supostamente, do conhecimento,
traçar fronteiras ao conhecimento significará a continuidade de um modelo
epistemológico ocidentocêntrico que instituiu e privilegia a disciplinarização,
os departamentos, numa lógica circular, ensimesmada, não dialética.
A universidade tem sofrido, nos últimos anos e no mundo inteiro, profundas
alterações. Não é ainda o tempo de avaliar quais os efeitos positivos e
negativos das mudanças que têm ocorrido, todavia, os sinais existentes no que
diz respeito à mercadorização da Educação superior são preocupantes.1 Apesar
dos dilemas, incertezas e inseguranças que atravessam as universidades e o
mode-lo hegemónico de educação superior, as concepções hoje existentes sobre o
que deve ser a universidade, o ensino universitário e a educação superior, são
substancialmente diferentes do que se pensava nos séculos XIX e XX. Embora o
modelo universitário atual não esteja ainda muito distante do que foi o modelo
anterior, quer na sua estrutura e nos seus objetivos quer nos modelos
pedagógicos utilizados - apesar das novas tecnologias - e quer no paradigma de
conhecimento hegemónico que propaga e na relação entre ensino e investigação, a
tendência hoje existente de regulação da universidade pelo mercado está a
transformar a própria ideia de universidade, tal como afirma Teodoro (2013):
A transformação do conhecimento numa commodity, da educação num
serviço comercializável e da preferência por sistemas orientados para
o mercado estão a conduzir a profundas transformações na ideia de
universidade e do seu papel na formação das elites culturais e
económicas das sociedades nacionais (p.10).
O modelo universitário americano, tais como os mecanismos de regulação estão a
ser exportados para todo o mundo, ultrapassando as diferenças históricas e
culturais de cada um dos países, assim como as suas reais necessidades. Daí que
a Universidade seja diferente nos diversos países em função das trajetórias de
cada um deles e, apesar da tendência globalizante do modelo universitário
americano, encontram-se experiências desafiantes em muitos países da América
Latina e Caribe (Brasil, Equador, Venezuela, Colômbia, Bolívia e outros) que
apostam num outro modelo de Universidade (Universidades interculturais) que
possa incluir a diversidade cultural dos povos indígenas e afrodescendentes,
promover a interculturalidade 2 e produzir conhecimentos tendo em conta outras
epistemologias que, historicamente, foram silenciadas, invibilizadas,
subalternizadas. A americanização do mundo e, por consequência, da
universidade, tem efeitos nefastos para cada um dos países. Na perspectiva de
Nóvoa (2000), a tentativa de enxertar em culturas universitárias e em países
que têm uma história diferente um modelo americano que tem mais de um século de
existência, essa panóplia de regras e de instrumentos poderão criar problemas
com consequências imprevisíveis.
O mesmo autor, no ano 2000, já referia a existência de uma enorme incapacidade
por parte das instituições universitárias para introduzirem instrumentos de
auto-regulação e que, por isso, a tendência iria no sentido de ser o mercado a
estabelecer essa regulação e mecanismos de controle que, na sua perspectiva,
deveriam ser atribuições do Estado. "Creio, [afirma], que temos de
imaginar formas mais abertas e participadas de regulação, evitando as
tendências corporativas e instaurando processos que valorizem as duas grandes
missões da Universidade: formar pessoas e produzir cultura e ciência" (p.
137). Mais recentemente, Teodoro (2013) na mesma linha de Nóvoa, defende que as
tendências atuais vão no sentido de um recuo do papel tradicional do Estado na
definição das políticas para o ensino e Educação superiores, remetendo a
regulação para agências externas de acreditação e avaliação, supostamente
independentes e para a presença avassaladora do mercado na regulação das
políticas públicas. Hans Weiler (2000) considera que uma nova lógica invadiu o
mundo universitário e o seu funcionamento a partir da invasão dos espaços
educativos e universitários por novas linguagens: indicadores, rankings,
performances, accountability, standards, critérios de aferição, etc. O que
provoca dilemas profundos entre mundos universitários diferentes, como é o caso
dos Estados Unidos e Canadá versuspaíses africanos e da América latina. Estes
novos conceitos não são inocentes, explica Nóvoa (2000), "eles estão a
construir e não apenas a descrever as nossas realidades universitárias. Admito
que há a necessidade de instaurar novos dispositivos de regulação no espaço
universitário, mas recuso-me a aceitar que esta "nova língua" se
transforme numa língua única" (p. 137). A tendência crescente para a
mercantilização da educação transformou o estudante num cliente preferencial e
num potencial, disciplinado e fiel consumidor. Como afirma Canclini (2008), a
diminuição da escola pública e o avanço do setor privado na educação resultou
na cedência de autonomia subordinando o processo educacional aos interesses e
aptidões do mercado preocupando-se, sobretudo, com a capacitação técnica e
menos com a formação de profissionais e pesquisadores para uma sociedade do
conhecimento. A autonomia universitária transformou-se, por imposição do
mercado, em heteronomia, ou seja, na imposição de critérios e normas
reguladores, exteriores ao mundo académico. Por outro lado, o
"assalto" do setor privado ao ensino superior, para além dos
objetivos essencialmente financeiros, acaba por oferecer, na maior parte dos
casos, não uma educação universitária, mas uma educação terciária, minimalista.
Muitas das instituições de ensino superior privado, por não serem
universidades, apostam num capitalismo académico, não fazem qualquer
investimento na investigação e, por isso, não estabelecem a relação tão
desejada entre investigação/pesquisa e ensino, a articulação entre a
aprendizagem e inovação e a aposta na produção de conhecimento de acordo com
outros modelos de racionalidade, tendo em consideração o novo perfil dos
estudantes e a diversidade cultural dos povos e nações. A diversidade cultural
e a sua inclusão em todos os graus de ensino e educação, constitui uma fonte de
criatividade e inovação, para além de ser, obviamente, uma questão de direitos
humanos. Não parece que este seja um objetivo da invasão do ensino superior
pelo setor privado e, muito menos, quando assistimos à constituição de
monopólios internacionais que tendem a dominar grande parte do ensino superior,
constituindo-se como mega-empresas com cotação nas bolsas de valores.
Pelo que referimos anteriormente, a partir de posições de académicos que
trabalham ao nível de pesquisa com as políticas para a educação superior e numa
perspectiva de educação comparada, é que consideramos que o modelo de educação
superior tradicional, pelos vícios que encerra, pelos comprometimentos com o
poder político e económico e pela transformação progressiva da sua autonomia em
heteronomia, não tem capacidade para se auto-transformar, para se
"despensar"(unthinking) no sentido de estar ao serviço das
comunidades e de incluir as novas racionalidades e os novos paradigmas
epistemológicos. Defendemos, pois, que o modelo de educação superior que possa
reconhecer, respeitar e incluir no seu seio a interculturalidade deverá, pois,
ser bem diferente daquele que existe, devendo estar enraizado nas comunidades e
com a sua participação, privilegiar a diversidade linguística e responder aos
anseios e necessidades das próprias populações, deverá ser, pois uma educação
superior bottom up e não top-down. O primeiro passo deverá ir no sentido da
descolonização da universidade e é para este sentido que apontam algumas das
experiências que vão ocorrendo em países da América Latina e Caribe.
As políticas culturais têm sido objeto de profundas discussões no âmbito da
mais ampla discussão sobre os modelos de desenvolvimento que tiveram lugar,
sobretudo, a partir da década de oitenta do século XX. Para esta discussão
muito terá contribuído a crise por que passaram os diversos países, decorrente
não apenas dos regimes ditatoriais como também da dívida externa, mas também da
progressiva redução do papel do Estado na vida económica. As culturas passam a
ser uma dimensão da vida social, estratégica para o desenvolvimento das
sociedades latino-americanas e, consequentemente, para a construção de
sociedades mais justas e mais equitativas. Neste contexto, a UNESCO assumiu um
papel fundamental. A Conferência Mundial sobre Políticas Culturais (MUNDIACULT)
que se realizou no México, em 1982, representa o ponto de partida para um
debate a nível internacional e nos países da América Latina e Caribe sobre a
educação superior. A proclamação pela ONU da Década Mundial para o
Desenvolvimento Cultural 1988-1997 incorpora a necessidade de desenvolver a
criação e o conjunto da vida cultural, tal como a necessidade da dimensão
cultural nos processos de desenvolvimento (Muñoz, 2012).
Apesar de a diversidade cultural e do diálogo intercultural não constituirem
objetivos de desenvolvimento do milénio, reconhecidos internacionalmente, Irina
Bokova (2013), Diretora Geral da Unesco, afirmou:
Cuando quedan menos de 1.000 días para 2015, plazo fijado para los
Objetivos de Desarrollo del Milenio, hemos de hacer todo lo posible
por acelerar los avances. La cultura y la diversidad cultural no
forman parte de los objetivos de desarrollo reconocidos
internacionalmente, pero son elementos fundamentales para acelerar su
cumplimiento. En esta nueva época de límites, el ingenio humano y la
innovación constituyen una de nuestras fuentes de energía renovable
más poderosas. Ese es el motivo de que la diversidad cultural sea tan
importante: como manantial de creatividad, dinamismo y
sostenibilidad. Debemos reconocer, apoyar y compartir esta energía,
basándonos en los derechos humanos y los valores universales.3
A humanidade tem o dever de respeitar, divulgar e salvaguardar a riqueza do
património cultural, material e imaterial dos povos. A universidade tem, por
certo, uma função essencial nessa divulgação e salvaguarda desse património
dado que as culturas são um fator fundamental de desenvolvimento e o diálogo
intercultural deverá ser a base para o aprofundamento do desenvolvimento
sustentável quer a nível local, regional ou global. Não é possível que o mundo
dito "civilizado" continue a excluir a diversidade cultural que
existe no mundo e a reger-se por um modelo monocultural, ocidentocêntrico e
etnocêntrico de desenvolvimento. A riqueza das experiências ao nível da
educação superior em alguns países da América Latina, tal como os primeiros
indícios de um novo período institucional, ainda em fase de transição
paradigmática, constituem motivo de reflexão, partilha e aprendizagem.
2. Outros modelos de Educação Superior na América Latina e Caribe: a ordem dos
princípios
A construção de outros modelos de educação superior na América Latina e Caribe
não é alheia à problemática da "refundação do Estado" (Estado
plurinacional) a partir da refundação política e constitucional, que possa
resgatar a autenticidade e a originalidade da sua identidade cultural (Wolkmer
& Fagundes, 2013). A lógica prevalecente tem sido a de um Estado que domina
internamente excluindo uma elevada percentagem da população dos direitos
democráticos de participação na construção da vida coletiva. Um Estado fraco ao
nível da garantia dos direitos dos povos e um Estado forte na gestão e
legitimação nos espaços nacionais das exigências do capitalismo global (Santos,
2005). Urge, pois, fortalecer a fraqueza e eliminar a força. O modelo colonial,
neocolonial e neoliberal e as crises sucessivas por que vem passando
representam o esgotamento dos modelos submetidos aos grandes interesses
hegemónicos, do poder económico-financeiro internacional; essas crises são
também um sinal de que os princípios políticos e epistemológicos em que se
fundamentam se encontram numa fase de colapso dado que não foram construídos a
partir de pluridiversidade cultural que sempre existiu, mas a partir de um
modelo de Estado moderno de cariz eurocêntrico e colonial. Como explicam
Wolkmer & Fagundes (2013):
A dinâmica de contextualização latino-americana tem sido marcada por
um cenário construído pela dominação interna e pela submissão
externa. Trata-se de uma trajetória fundada na lógica da colonização,
da exploração e da exclusão dos múltiplos segmentos étnicos,
religiosos e societários. Um horizonte de contradições e
desequilíbrios sociais, dominado pelo autoritarismo e pela violência
de minorias detentoras do poder e pela marginalidade e resistência
das maiorias "ausentes da história", como os movimentos
indígenas, negros, campesinos e massas populares (Wolkmer &
Fagundes, 2013, p. 330).
Os mesmos autores defendem que a refundação do Estado passa por uma concepção
crítica do Estado periférico latino-americanoque clarificam do seguinte modo:
Uma concepção crítica do Estado periférico latino-americanopassa pelo
resgate da autenticidade e originalidade de sua identidade cultural.
Em suma, a presença do Estado na América Latina, não é só necessária
como até inevitável, entretanto, não mais como criador e tutor
autoritário da Sociedade Civil, mas como articulador e reordenador
dos espaços democráticos de acesso popular, como autêntico mandatário
da Sociedade Civil, plenamente organizada e pela participação da
cidadania popular (Wolkmer & Fagundes, 2013, p.337).
Por sua vez, Santos (2005) aponta para uma nova forma de Estado democrático,
que denomina experimental e que deverá assentar em dois princípios de
experimentação política: "o primeiro é que o Estado só é genuinamente
experimental na medida em que às diferentes soluções institucionais
multiculturais são dadas iguais condições para se desenvolverem segundo a sua
lógica própria" (p. 348). Significa que um Estado só poderá designar-se
de democrático se garantir o direito de igualdade às diferentes propostas
culturais garantindo, assim, o direito à afirmação de alternativas
democráticas. Não basta que o Estado democrático experimental garanta o direito
à igualdade de oportunidades, é necessário também que "garanta padrões
mínimos de inclusão, que tornem possível a cidadania ativa necessária a
monitorar, acompanhar e avaliar o desempenho dos projetos alternativos"
(Santos, 2005, p. 348). O novo Estado de bem-estar, conclui Santos (2005)
"é um Estado experimental e é a experimentação contínua com participação
ativa dos cidadãos que garante a sustentabilidade do bem-estar" (p. 348).
Na perspectiva de Wolkmer & Fagundes (2013), a refundação do Estado nos
países sul-americanos permitirá "a refundação de horizontes insurgentes,
plurais, interculturais e liberadores, nascidos das práticas sociais no
interior das nações latino-americanas" (p. 340).
É no contexto de múltiplas contradições decorrentes de uma colonização e
neocolonização seculares cuja lógica tem sido a dominação externa e interna, a
exploração e a exclusão de uma grande parte das populações e dos seus saberes,
e no contexto de experiências de reformulações ao nível do Estado em alguns
países da América Latina (Bolívia, Equador, por exemplo), que algumas
universidades avançam com projetos inovadores tendo em vista a construção de
outros modelos de educação superior ajustados à diversidade cultural que
caracteriza a realidade latino-americana. A adesão, por parte das elites
locais, a modelos culturais de matriz eurocêntrica e norte-americana tem
conduzido à perpetuação de estruturas de dominação económica, política, social
e educativa, quer ao nível da educação superior quer não superior,
impossibilitando, mesmo do ponto de vista jurídico-constitucional, a evolução
para uma cultura política, jurídica, social e educativa com características
latino-americanas, ou seja, de uma matriz pluricultural que caracteriza a
identidade da quase totalidade dos Estados latino-americanos (Mato, 2008).
Neste sentido, os povos e as suas culturas foram remetidos para as margens,
para as fronteiras das sociedades, resultando historicamente em culturas e
epistemologias silenciadas, oprimidas, invisibilizadas e ausentes dos processos
de construção social.
Tendo em consideração que o modelo universitário tradicional, quer na sua
estrutura quer nos seus objetivos, não dá conta da pluridiversidade étnica,
linguística e epistemológica que existe no mundo, consideramos que as
experiências ao nível da Educação superior que acontecem em diversos países da
América Latina (Bolívia, Colômbia, Equador, Brasil, Argentina, Venezuela,
México) podem constituir um verdadeiro laboratório de ideias e propostas que
permitam que a universidade e a educação superior possam contribuir não para a
formação de elites, mas de cidadãos sem discriminação de povos e culturas e das
suas epistemologias. Que estejam ao serviço das comunidades e que estas possam
constituir um dos pilares da regulação e não estejam submetidas aos desígnios e
leis do mercado. Os desafios que se colocam às novas universidades são, sem
dúvida, gigantescos, tendo em consideração a necessidade de resistência a um
modelo universitário hegemónico que se globaliza, à racionalidade instrumental
neoliberal que lhe serve de fundamento e ao modelo de saber que reproduz e
perpetua. Importa que a caminhada que as novas universidades iniciaram não
desemboque em "ghetos universitários" na periferia e semiperiferia
do sistema universitário.
Os problemas de inadequação das Instituições de Ensino Superior convencionais
para oferecer oportunidades de formação apropriadas às condições de vida e
interesses dos estudantes indígenas ou afrodescendentes e de outros setores
populacionais considerados minorias, tal como a impreparação das mesmas
instituições para elaborar e pôr em prática programas de formação de
professores de educação intercultural bilingue está na origem dos inúmeros
projetos existentes e constituem motivações suplementares para encarar os
desafios que o futuro de uma outra educação superior coloca aos povos e
comunidades envolvidos, nomeadamente a sua intervenção/participação na
definição das políticas públicas. Os obstáculos à construção de um outro modelo
de educação superior, mais equitativo, que inclua a diversidade cultural e
contribua para o "viver bem" estão ligados a uma história
construída a partir de esquemas herdados das relações coloniais e neocoloniais,
entraves a qualquer processo de ruptura com um passado marcado pelo
eurocentrismo e pela colonialidade do poder, da economia, do conhecimento, do
ser, da sexualidade, do género (Mignolo, 2010) como reflexos da amplitude do
processo de colonização. A este propósito, Mato (2008) refere:
En líneas generales, las políticas e instituciones de educación
superior de América Latina han seguido esquemas heredados de las
relaciones coloniales que han dado origen a estas sociedades y que
los movimientos independentistas del siglo XIX y las repúblicas desde
entonces fundadas escasamente han alterado. Salvo contadas
excepciones, las IES de la región se han consagrado acríticamente a
reproducir valores, intereses y formas de producción y aplicación de
conocimientos que han sido generados fuera de la región, lo cual
además frecuentemente las condena a jugar papeles subordinados en los
campos de la educación superior, la ciencia y la tecnología vistos a
escala mundial. Si bien los caminos marcadamente alternos
conscientemente trazados han sido pocos, los problemas económicos,
sociales y políticos, las demandas y proyectos de diversos sectores
sociales, algunas políticas públicas y la labor visionaria de algunos
miembros y colectivos de esas instituciones, han hecho que las IES de
la región por numerosas razones resulten diferentes a sus congéneres
de Estados Unidos y Europa occidental (p. 24).
Apesar dos obstáculos, desde Julho de 2007 que a UNESCO e o IESALC (Instituto
Internacional para a Educação Superior na América Latina e Caribe) têm vindo a
desenvolver projetos no sentido de promover a Educação superior na América
Latina e Caribe partindo das conclusões da Conferência de Havana (1996) de que
"é urgente a transformação da educação superior para que esta possa
responder, no presente e no futuro, às necessidades de um desenvolvimento
humano sustentável."4 Este desenvolvimento sustentável não será possível
com a exclusão de milhões de cidadãos do direito inalienável a uma educação
superior de qualidade que reconheça, valorize e respeite as suas realidades
culturais. O IESALC, organismo da UNESCO, tem os seguintes objetivos
prioritários:
1.Promover a cooperação entre os Estados membros da região, das suas
instituições e especialistas no campo da educação superior;
2.Contribuir para melhorar o conhecimento dos sistemas de educação superior da
região, com a finalidade de facilitar a sua comparação com outras regiões do
mundo e contribuir, assim, para o seu desenvolvimento;
3.Ajudar todos os Estados membros que solicitem a cooperação do Instituto a
melhorar e desenvolver os seus sistemas e instituições de educação superior, no
âmbito dos processos de reforma que tenham empreendido;
4.Promover e apoiar, no âmbito da integração regional, uma maior mobilidade de
profissionais dos estabelecimentos de educação superior, particularmente dos
países com menor desenvolvimento, tendo em vista a melhor utilização de
recursos humanos e educativos, facilitando uma maior fluidez no reconhecimento
de títulos e diplomas de educação superior entre os países da região e das
outras partes do mundo;
5.Promover mecanismos nacionais e regionais de fortalecimento da qualidade da
educação superior por meio de processos de avaliação e acreditação;
6.Promover a utilização das novas tecnologias de informação e de comunicação
nas instituições de educação superior e facilitar a criação de universidades,
laboratórios e bibliotecas virtuais, tal como a criação de redes locais,
nacionais e regionais que tragam uma nova dimensão ao trabalho da educação
superior na região.5
Se repararmos, em nenhum dos objetivos propostos se aborda a questão da
inclusão dos povos indígenas e afrodescendentes, tal como as suas culturas
milenares na educação superior. O que, do nosso ponto de vista, tendo em conta
a necessidade de mudança de paradigma do modelo universitário e de educação
superior, seria uma exigência e, por isso, um objetivo prioritário. No entanto,
em 2007, o mesmo Instituto avança com diversos projetos de pesquisa, entre os
quais o projeto Diversidad Cultural e Interculturalidad en Educación Superior
en América Latina, que parte da necessidade de insistir no plano das
realizações práticas no sentido de aprofundar os avanços na dimensão da
valorização da diversidade cultural e no reconhecimento do caráter
pluricultural das sociedades, tal como da relevância histórica dos povos
indígenas e afrodescendentes da região da América Latina e Caribe.6 O referido
projeto incide sobre mais de 50 instituições distribuídas por 11 países, sobre
os contextos históricos, obstáculos, dilemas e desafios de cada uma delas em
levar por diante experiências inovadoras que possam contribuir para o
enraizamento de uma educação superior nas comunidades locais e,
simultaneamente, incluir os que sempre foram excluídos e oprimidos. A atenção
prioritária centra-se no estudo de experiências de educação superior
deliberadamente direcionadas para dar resposta às necessidades e
questionamentos dos povos indígenas e afrodescendentes:
La orientación expresa de programas e IES a la atención de
necesidades y demandas de esos grupos de población suele reflejarse
en su oferta de carreras, diseño curricular, modalidades de
aprendizaje previstas, formas de articulación entre conocimiento
científico y otros saberes, y modos de producción de conocimientos,
modalidades de relación con las comunidades a las que sirven, entre
otros aspectos significativos de su diseño y vida institucional. Las
respuestas que estos programas e IES se ven obligadas a desarrollar
para responder a esos retos que han escogido atender, hacen de este
conjunto de experiencias un universo sumamente interesante y valioso
de innovaciones educativas (Mato, 2008).
Representa, sem dúvida, em termos práticos, um passo importante para a
constituição de um outro modelo universitário e de educação superior que possa
incluir toda a diversidade epistemológica que, ao longo da história, foi
oprimida, silenciada, subalternizada e invisibilizada pelos processos diversos
de colonização e colonialidade ocidentais. Por outro lado, estes projetos têm a
vantagem de dar visibilidade e registar uma multiplicidade de experiências de
Instituições de Educação Superior orientadas para o estudo e aplicação de
conhecimentos étnicos ou locais, ao desenvolvimento local e à melhoria da
qualidade de vida das populações participantes. A reunião de Belo Horizonte, em
2009, sobre "Diversidade cultural e interculturalidade em Educação
Superior na América Latina", deu origem ao Forum para a promoção da
diversidade cultural e interculturalidade com equidade na Educação Superior na
América Latina. Este Forum tem como finalidade constituir-se como uma
plataforma de colaboração entre as Instituições Interculturais de Educação
Superior e, ao mesmo tempo, entre estas e as instituições que apoiam o
desenvolvimento de programas académicos orientados para o reconhecimento e
valorização da diversidade cultural, contribuindo para a promoção e
desenvolvimento de Instituições de Educação Superior e de sociedades
interculturais equitativas. A formação de professores indígenas e
afrodescendentes em instituições interculturais de educação superior,
representa um passo importante no aprofundamento e ampliação dos projetos em
curso. A participação em programas e projetos de desenvolvimento em colaboração
e com a participação das comunidades indígenas e afrodescendentes de acordo com
as suas necessidades, interesses e expectativas representa, sem dúvida, um
avanço significativo na constituição de outro modelo de educação superior.
O fortalecimento do observatório de diversidade cultural e interculturalidade
por meio da ampliação de materiais na Biblioteca Virtual, a criação de um
Diretório de Institições e a promoção do Forum de discussão como rede de
intercâmbio e formação, são outras iniciativas práticas que visam a facilitação
do trabalho colaborativo, tal como a difusão e promoção de exercícios de
investigação que possam articular leituras partilhadas e conduzir à
implementação de mecanismos de acompanhamento dos processos de inclusão e
vivência da interculturalidade com equidade na Educação superior na América
Latina.7
O trabalho colaborativo, a partilha de experiências e conhecimentos através da
utilização das novas tecnologias de informação e comunicação tem em vista a
inclusão de conhecimentos e experiências antes esquecidos e/ou ocultados nos
planos de desenvolvimento de outro modelo de educação superior.
Em Março de 2013, o Conselho de Organizações Aborígenas de Jujuy (COAJ)
participou do Encontro Internacional sobre Educação Superior e Povos Indígenas,
que ocorreu no México, com a participação de um conjunto de países (Argentina,
Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guatemala, México, Nicarágua e Panamá) e que
produziu uma importante Declaração que acabou por ratificar os compromissos
para avançar na ampliação do direito à educação e assinalar as medidas a
incrementar no sentido de consolidar as iniciativas e instituições de educação
superior dos Povos Indígenas na América Latina e Caribe. Na mesma Declaração
"se reconhecem os avanços, lições aprendidas e desafios que enfrenta o
sistema de educação superior dos países da região para responder de forma
efetiva aos direitos dos povos indígenas e afrodescendentes".8
Simultaneamente, no referido encontro, os participantes refletiram sobre
"os desafios que se colocam à inclusão das epistemologias e metodologias
indígenas, afrodescendentes e interculturais na educação superior no sentido de
assegurar o pleno desenvolvimento dos conhecimentos e sabedorias indígenas e
afrodescendentes."9 Sem dúvida que, neste contexto, a pesquisa
intercultural tal como o intercâmbio de experiências entre universidades
interculturais, indígenas e comunitárias assumem um papel relevante tendo em
consideração que um protagonismo cada vez maior dos povos indígenas e
afrodescendentes será uma componente decisiva das estratégias da educação
superior. Na mesma Declaração, os signatários "comprometeram-se a apoiar
a consolidação política, académica, financeira das universidades
interculturais, indígenas e comunitárias como expressões do exercício do
direito à livre determinação e à educação, em todos os níveis, das mulheres e
homens" 10 dos povos indígenas e afrodescendentes.
3. Dos princípios às práticas transformadoras: obstáculos e desafios à criação
de instituições interculturais de Educação Superior na América Latina
Reconhecidamente, a existência de princípios orientadores e de um quadro
jurídico-constitucional, desde que fundamentados nos contextos históricos, nas
realidades contextuais e deles decorrentes, é uma etapa fundamental num
processo complexo e moroso de mudança de paradigmas tendo em vista uma educação
superior mais democrática que inclua toda a diversidade cultural. Todavia, os
constrangimentos existentes que se prendem com a existência de estruturas e
mentalidades ainda coloniais, com práticas conservadoras e mecanicistas
dificultam as dinâmicas de mudança. No que diz respeito à universidade e
educação superior na América Latina, parece ser ainda longo o caminho da teoria
à prática. O que é importante, no entanto, é que esse caminho, apesar de longo,
está aberto para ser percorrido. Os sujeitos que historicamente foram oprimidos
por processos coloniais degradantes e desumanos, a quem Dussel (1993) denomina
de "bloco social de oprimidos" têm agora condições para participar,
como elementos-chave, "na reinvenção do espaço público, como construção
de um novo paradigma, plural e intercultural" (Wolkmer & Fagundes,
2013, p. 334).
As Instituições de Ensino Superior interculturais foram criadas para atender às
necessidades e propostas de formação em educação superior e investigação de
comunidades de povos indígenas da América Latina mas que, no entanto, não se
circunscrevem a este público. Elas estão abertas a outros grupos sociais, cujo
currículo inclui saberes, diferentes visões do mundo, línguas, modos de
aprendizagem e de produção do conhecimento de diversas tradições culturais e,
por isso, se chamam instituições interculturais de educação superior (Mato,
2009). O objetivo destes projetos inovadores é mostrar que há uma diversidade
de conhecimentos provenientes de outros processos históricos e que foram
desperdiçados e desvalorizados ao longo da História. A ideia de que a ciência
constituiria um saber "universal" está associada ao processo
histórico que se iniciou com a expansão militar e comercial de alguns povos
europeus impondo as suas visões do mundo e as suas instituições políticas e
jurídicas aos povos subordinados. A expansão europeia deu lugar ao
estabelecimento de relações coloniais entre os povos e a fundação das
repúblicas nos países colonizados não pôs fim às formas de subordinação dos
povos indígenas da América nem da população africana e dos seus descendentes.
As relações hierárquicas entre dois tipos de saber, um pretensamente universal
e outro local ou regional fazem parte desta dinâmica que conduziu à
desqualificação de todos os modos de produção de conhecimento dos povos
indígenas e afrodescendentes. Esta herança colonial constitui um dos maiores
obstáculos à afirmação de um outro modelo de educação superior que tem por
finalidade fazer uma espécie de "justiça histórica e
epistemológica."
As instituições interculturais de educação superior (IIES), criadas em muitos
países da América Latina e Caribe, constituem um conjunto diverso de
modalidades institucionais inovadoras no âmbito da educação superior. Com
origens, estatutos e modelos diferenciados algumas foram impulsionadas e
financiadas pelos Estados outras por organizações indígenas e afrodescendentes,
outras ainda por instituições de educação superior convencionais e por
organizações de cooperação internacional, com objetivos diferentes mas cuja
ideia comum é a de que a educação superior inclua a diversidade cultural que
caracteriza os di-versos contextos locais e nacionais (Mato, 2009) e,
simultaneamente, contribua para o resgate da diversidade epistemológica
existente nas múltiplas comunidades e nações culturais. A título de exemplo, o
Centro Amazónico de Formação Indígena (CAF), Brasil, a Universidade Indígena
Intercultural Kawsay (UNIK), Bolívia, a Universidade Autónoma Indígena e
Intercultural (UAIIN), Colômbia e a Universidade Intercultural das
Nacionalidades e Povos Indígenas "Amawtay Wasi" (UINPI-AW),
Equador, foram criadas por dirigentes e ou por organizações indígenas; ao passo
que a Universidade das Regiões Autónomas da Costa Caribe Nicaraguense (URACCAN)
surge da iniciativa de dirigentes afrodescendentes e indígenas das duas regiões
autónomas da Nicarágua sendo também considerada uma universidade indígena,
embora os seus promotores tenham sido maioritariamente afrodescendentes, as
ações desenvolvidas conduziram ao reconhecimento da instituição pelo próprio
Estado tal como dos respetivos diplomas, recebendo financiamento do próprio
Estado e fazendo parte do sistema público de educação superior, o que não
acontece com outras instituições, ainda não reconhecidas pelos Estados (Mato,
2009). Na Argentina, o Centro de Investigação e Formação para a Modalidade
Aborígena (CIFMA), foi a primeira experiência ao nível da educação superior
direcionada às comunidades indígenas na Argentina e surge com o objetivo de
formar professores indígenas para todos os níveis de educação não superior,
especializados no ensino e investigação de questões ligadas à sua origem,
realidade étnica e sócio-cultural. Criado numa época de redemocratização do
país e de revalorização da cultura indígena, este Instituto surge para dar
resposta às exigências e necessidades das comunidades aborígenas chaqueñas
(tobas, wichí y mocoví), sobretudo no que diz respeito à valorização da sua
língua e à formação de professores do ensino primário. A sua proposta educativa
bilingue intercultural tem como objetivo:
a formação do professor bilingue intercultural, procurando garantir
uma oferta de qualidade equitativa, justa, que parte do
reconhecimento e valorização dos saberes e práticas tradicionais,
possibilitando o seu enriquecimento para que os estudantes indígenas,
ao terminarem a sua formação, possam adquirir as competências básicas
para o seu desempenho profissional (Valenzuela, 2009, p. 81).
Até 2009 o CIFMA já formou cerca de 163 professores indígenas que desenvolvem a
sua atividade em escolas das suas comunidades; alguns deles trabalham no
Ministério da Educação provincial como responsáveis pedagógicos da educação
indígena e outros como acessores em diversos organismos governamentais.
O Centro Amazónico de Formação Indígena (CAFI), sediado em Manaus, resultado de
um longo processo de luta dos povos indígenas da Amazónia, foi criado sob
controlo e orientação direta da COIAB11 e das lideranças indígenas da Amazónia
e tem por finalidade "preparar os jovens para atuarem na gestão e defesa
dos seus territórios e bem estar das suas comunidades" (Flores, 2009, p.
120). O CAFI recebe jovens originários dos vários Estados da Amazónia
brasileira com experiências, saberes e culturas diferentes que se encontram e
que dialogam entre si. É por isso, uma experiência de interculturalidade.
Flores (2009, p. 110) refere o seguinte:
Na fase inicial de estudos no CAFI, os alunos estudam a cultura e a
identidade indígena; é um período de mergulho na sua própria
história, orientados por grandes líderes indígenas que fazem uma
reflexão conjunta sobre essa história informal, que não está nos
livros da história brasileira ou nos documentários nacionais; aliás,
é uma história desconhecida do grande público, mas muito viva no
cotidiano indígena. Dessa etapa importante da formação do CAFI
renasce o indígena guerreiro que está adormecido dentro da atual
juventude indígena; comprometido com sua história, com as lutas do
seu povo.
Em todas as instituições referidas as experiências são inovadoras no que diz
respeito à organização curricular que é, na maior parte dos casos, discutida
com as lideranças indígenas e, por isso, é ajustada aos interesses e
necessidades das comunidades. Alguns dos aspetos inovadores destas instituições
dizem respeito à integração do bilinguismo, à contratação de docentes indígenas
e afrodescendentes, à articulação entre diversos saberes e formas de
aprendizagem e à prática de novas experiências de colaboração intercultural na
docência, na investigação e na produção de conhecimentos. Um dos aspetos a
destacar na operacionalização destas instituições "é o fortalecimento de
línguas e saberes dos povos indígenas e afrodescendentes, a sua sistematização
e difusão tal como a relação entre os diversos saberes e, inclusive, com os
saberes ocidentais" (Mato, 2009, p. 65). Os desafios são enormes, mas os
obstáculos também. Alguns deles prendem-se com a ausência de financiamento por
parte dos Estados, com o não reconhecimento dos cursos e diplomas pelos
próprios Ministérios da Educação e pela conflitualidade que muitas vezes se
gera com as instituições convencionais.
Para além destas experiências de criação de novas instituições de educação
superior, vocacionadas para atender as demandas, exigências e necessidades dos
povos indígenas e afrodescendentes, no sentido de resgatar e valorizar as suas
culturas, outras experiências "mistas" têm surgido nos diversos
países no âmbitos das instituições convencionais através da promoção de cursos
direcionados para os jovens indígenas e afrodescendentes, casos, por exemplo,
no Brasil, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE); outras ainda que possuem núcleos de pesquisa
direcionada para a diversidade cultural e para o resgate epistemológico das
racionalidades oprimidas, caso, por exemplo, da Universidade Nove de Julho
(UNINOVE), em São Paulo. Para além destas experiências no âmbito do ensino
superior convencional, novas universidades vão surgindo com projetos
pedagógicos diferenciados e para cumprir os objetivos de aproximação entre
povos que falam a mesma língua, contribuir para o desenvolvimento regional,
combatendo o processo de litoralização, tal como permitir o acesso à educação
superior de estratos populacionais antes arredados desse nível de educação:
Universidade de Integração Internacional luso-afro-brasileira (UNILAB), sediada
simbolicamente na cidade de Redenção, Ceará, primeira cidade brasileira a
abolir a escravatura; Universidade Federal de Fronteira Sul (UFFS), sediada em
Xapecó, Santa Catarina e a Universidade Federal da Integração Latino-Americana
(UNILA), sediada em Foz de Iguaçu.
De realçar, ainda, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), fundada em
2005 e sediada em Guararema, na Região Metropolitana de São Paulo, que tem por
objetivo prioritário a formação de quadros do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra). Experiência ímpar no Brasil, enquadra-se num projeto
inovador de educação popular ao nível da educação superior. Os alunos saídos da
ENFF, onde desenvolvem um espírito crítico e internacionalista, voltam para as
suas comunidades rurais onde aplicam os conhecimentos aprendidos nas diversas
área do conhecimento.
Cremos que estas experiências contribuirão, cada uma a seu modo, para a
construção de outros modelos de educação superior, mais abertos, menos
ortodoxos, mais democráticos e populares, envolvendo a participação das
comunidades e respondendo às suas reais necessidades e aspirações.
A proposta de Boaventura de Sousa Santos: a universidade popular dos movimentos
sociais (UPMS)
A ofensiva contra o capitalismo neoliberal que se globalizou exige um movimento
de resistência por parte de todos os povos, vítimas das formas diversas de
opressão histórica e contemporânea, e das diversas organizações progressistas
empenhadas numa globalização contra-hegemónica. Essa ofensiva deverá assumir
contornos locais, regionais e globais e levada a cabo por todas as forças
progressistas que se opoem à globalização hegemónica. A universidade popular
dos movimentos sociais, uma universidade sem espaço físico,12 está enraizada
nos diversos saberes e nas práticas emancipatórias que acontecem nos diversos
lugares do mundo, protagonizadas pelos movimentos sociais e organizações não
governamentais, visa fornecer quadros analíticos e conceptuais que permitam
aprofundar a compreensão das práticas emancipatórias dado que as teorias
sociais existentes não dão conta da riqueza social e política que atualmente
existe no mundo (Santos, 2005).
A partir da proposta das epistemologias do Sul, da teoria da tradução e da
ecologia dos saberes, Santos (2005) elabora uma proposta de educação superior
intercultural e de diálogo entre a pluridiversidade de saberes que tem por
finalidade, não só o resgate, o reconhecimento e afirmação dos saberes que
foram marginalizados, desqualificados, oprimidos e invisibilizados ao longo da
história, mas também o diálogo entre todos eles, partindo do princípio de que
cada um deles, tomado isloladamente, se caracteriza pela incompletude. A
ecologia dos saberes constitui um aspeto fundamental das epistemologias do Sul.
No entanto, a praxis da ecologia dos saberes será uma tarefa complexa e morosa
tendo em consideração o saber hegemónico e os graus diversos de colonialidade
desse saber. A sociologia das ausências constitui a estratégia epistemológica
que poderá visibilizar os saberes suprimidos, marginalizados, silenciados e
oprimidos ao longo de todo o processo de colonização. A sociologia das
ausências não é "uma sociologia convencional" (2005, p. 155) e, por
isso, não poderá ser exercida nos lugares convencionais, ou seja, nas
universidades e nos centros de pesquisa convencionais que sempre difundiram e
difundem um saber hegemónico que marginalizou ou suprimiu todos os saberes das
culturas oprimidas, ela deverá ser exercida na universidade popular que é,
segundo a sua própria expressão, "uma contra-universidade" (p.
156), uma ideia e uma prática transgressivas de universidade. A inovação da
proposta de Santos reside no facto de salientar a importância "dos
saberes contextualizados, situados e úteis, ao serviço de práticas
transformadoras" (p. 155), o que significa que os saberes produzidos
deverão estar próximos das práticas que lhes deram origem e dos protagonistas
da ação social que "deverão ser reconhecidos como os protagonistas da
criação do saber" (p. 155).
A proposta de Santos (2005)13 tem como objetivo "proporcionar a auto-
educação dos ativistas e dirigentes dos movimentos sociais, bem como dos
cientistas sociais, dos investigadores e artistas empenhados na transformação
social progressita" (p. 156). Muito claramente, o autor refere que a
universidade popular dos movimentos sociais não é uma universidade para quadros
e dirigentes, não é também um think tank das organizações e dos movimentos
sociais, mas uma instituição que visa contribuir para "aprofundar o
interconhecimento no interior da globalização contra-hegemónica mediante a
criação de uma rede de interações orientada para promover o conhecimento e a
valorização crítica da enorme diversidade de saberes e práticas protagonizadas
pelos diferentes movimentos e organizações" (pp. 156-157). Contrariamente
a propostas de universidades interculturais temáticas (indígenas,
afrodescendentes) que surgem em diversos países da América Latina e ao seu
caráter local, regional ou nacional, a proposta de Santos é intertemática, ou
seja, o seu caráter intertemático reside na promoção de reflexões e
articulações entre a diversidade de movimentos (operários, feministas,
indígenas, afrodescendentes, ecológicos) de modo a criar no mundo um movimento
e ação progressistas e uma nova consciência internacionalista que seja
intercultural e "radicalmente democrática" (p. 157), ultrapassando
a dimensão local, regional ou nacional para se afirmar como proposta global. O
seu caráter intertemático possibilita que a UPMS possa ser uma espécie de
"oficina permanente de interconhecimento onde se reforçam a densidade e a
complexidade das redes de movimentos que combatem a globalização
neoliberal" (p. 158).
A novidade da UPMS é a de que a sua ação educativa é bidirecional, isto é, por
um lado tem uma dimensão teórica, de formação intelectual intercultural,
superando a distinção convencional entre ensinar e aprender e, por outro,
"a sua relação com as necessidades e aspirações concretas que emergem das
novas práticas transformadoras" (p. 158), ultrapassando, assim, o hiato
entre teoria e prática.
Embora a proposta de Santos (2005) seja ainda embrionária e se apresente como
uma proposta para uma discussão ampla, ela contempla já algumas das dimensões e
atividades que deverão configurar e fazer parte da UPMS. Ao nível das
dimensões, inferem-se do texto de Santos as dimensões teórica e prática, a
relação dialética entre ambas e a dimensão de pesquisa-ação. Ao nível das
atividades, da UPMS deverão fazer parte "atividades pedagógicas, de
pesquisa-ação para a transformação social e atividades de difusão de
competências e instrumentos de tradução intertemática, transnacional e
intercultural" (p. 158). As atividades pedagógicas deverão organizar-se
em oficinas que estudarão e discutirão textos e documentos, orais ou escritos,
que incidam sobre ações transformadoras, lutas e campanhas apresentadas pelos
movimentos sociais, análises efetuadas pelos cientistas sociais, atividades
artísticas, etc. Se a UPMS visa ser uma rede de criação de saberes plurais, das
atividades pedagógicas e das respetivas discussões temáticas e intertemáticas
emergirão temas e problemas que constituirão objeto de pesquisa a partir de
metodologias participativas.
A teoria da tradução intercultural constitui uma estratégia metodológica
proposta por Santos tendo em vista a ecologia dos saberes. As atividades de
difusão de competências e instrumentos de tradução consistem, precisamente,
"na difusão dos métodos de tradução e dos resultados concretos obtidos
com eles nas diferentes oficinas, nomeadamente em termos de novos saberes,
designações, conceitos, princípios e métodos de ação coletiva. Que novos
conceitos, princípios, metodologias surgem das discussões temáticas e
intertemáticas e quais os horizontes de aplicação? Que diferenças em relação
aos conceitos tradicionais? Que significados lhes são atribuídos e que
distanciamento em relação aos conceitos, princípios e metodologias de raíz
eurocêntrica? O que entendem as comunidades sobre os conceitos de socialismo,
democracia, direitos humanos, educação ambiental, etc.?
Na perspectiva de uma dialética entre teoria e prática (bidimensionalidade) e
de valorização de todos os saberes, sem a exclusão do saber académico e
científico, importa estabelecer um diálogo frutífero entre todos eles,
reconhecendo e afirmando a sua dignidade e a dos seus protagonistas. Obedecendo
aos seus princípios, um dos quais é a afirmação da UPMS como rede global, o
projeto está em curso e, desde 2007, se vêm realizando oficinas em diversas
cidades de países latino-americanos (Brasil, Argentina, Colômbia), mas também
europeus (Portugal, Espanha) e africanos (Moçambique, Tunísia). Quanto melhor
se conhecer e valorizar a diversidade dos saberes que os movimentos sociais
mobilizam nas suas lutas e quanto mais amplo for o interconhecimento e o
diálogo intercultural, mais esclarecidas serão as ações transformadoras de cada
um dos movimentos e mais autônomos e reflexivos os seus protagonistas.14
4. O legado de Paulo Freire: a opção pelos oprimidos e a proposta de uma
educação emancipatória e popular
Não se opta pelos oprimidos porque são melhores ou piores do que os opressores,
mas apenas porque foram historicamente e ainda são oprimidos. Não se trata,
pois, de mitificar ou romancear, em termos académicos, os deserdados da
história, mas denunciar a situação de oprimido como uma injustiça histórica que
fere a dignidade humana; é pois, uma situação injusta quer do ponto de vista
ontológico quer ético. Esta foi a opção de Paulo Freire e cremos que também o
seu raciocínio. Por isso mesmo sempre esteve, desde muito cedo, ao lado dos
oprimidos, quer do ponto de vista teórico quer na sua praxisao serviço de uma
educação emancipatória. A educação, em qualquer um dos seus níveis, só poderá
ser um instrumento de libertação. Todavia, Freire considera que os sistemas
educativos, tal como estão constituídos nas sociedades opressoras, são
instrumentos do poder hegemónico cuja função é a reprodução da ideologia
dominante e a preservação do poder das classes dominantes. Todavia, na
universidade, verifica-se uma dialética (não uma dialética domesticada (Freire,
1970)) entre a reprodução da ideologia dominante e a preservação do poder, por
um lado e, por outro, a neutralização dessa tarefa. A este propósito, Freire
afirma:
These two tasks are dialectics: one is the task of the system, the
other is ours; therefore, it is determined by the system but not
requested by it. The system believes that it obtains from education
one of the fundamental instruments for the reproduction of its power,
and so dialectically, necessarily, must create its antagonist; its
antagonistic opposite, as a revolutionary task, belongs to us.
(Freire, 1994, p.31)
Talvez seja esse o papel dos intelectuais progressistas nas universidades: a
oposição ao sistema de reprodução social da universidade tradicional e a
tentativa de neutralização dessa tarefa do próprio sistema. É, por isso, uma
função transgressora, revolucionária que exige a tomada de posição pelos mais
fracos, pelos oprimidos, ("os esfarrapados do mundo") por aqueles a
quem foi negado o "direito a ser": transformar a educação superior
significa, na perspectiva de Freire (1994), colocá-la ao serviço dos grupos
sociais mais desfavorecidos, neutralizando as funções de reprodução e de
perpetuação da ideologia dominante. A educação superior ao serviço dos mais
desfavorecidos implica a sua transformação em educação popular assumindo todas
as consequências políticas, ideológicas, sociais, epistemológicas, ontológicas
e éticas: como uma ação de justiça social de um direito que foi historicamente
negado, incluindo as suas culturas, os seus saberes, também eles negados,
desvalorizados ou subalternizados. A educação superior como educação popular
implica a aceitação e o respeito por outras leituras e visões do mundo, o que
quer dizer que se confere dignidade epistemológica aos saberes invisibilizados
ao longo da história, mas também dignidade ontológica aos protagonistas desses
saberes. Aqui reside a função revolucionária da educação que não é, apenas, uma
luta política e ideológica, mas também pedagógica, epistemológica, ética e
ontológica. Se a educação não transforma direta e radicalmente a sociedade ela
é uma "alavanca para a transformação" (1994, p. 34), considerando
as suas dimensões crítica e problematizadora na formação dos cidadãos. A
consciência do poder transformador da educação conduz à recusa do pedagogismo e
à adoção de uma pedagogia revolucionária como testemunho para uma prática
transformadora da sociedade. Uma educação para a emancipação e para a liberdade
supõe, assim, uma pedagogia do oprimido dada a sua incompatibilidade com uma
pedagogia como prática da dominação. A liberdade é uma vocação de todo o ser
humano. Ninguém tem vocação para ser oprimido ou escravizado. No entanto, esta
vocação foi negada "mas também afirmada na própria negação; negada na
injustiça e na exploração, na opressão e na violência dos opressores; mas
afirmada no anseio de liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos pela
recuperação da sua humanidade roubada" (Freire, 1970, p. 16). Neste
sentido, todo o ato educativo libertador é, pois, um ato político e, por sua
vez, todo o processo pedagógico, como processo de conscientização e de
desalienação tem uma função política dada a dimensão de convicção
transformadora e emancipatória que deverá estar presente em todo o ato
pedagógico. A noção de tempo histórico que encontramos permanentemente nas
obras de Freire, permite-nos pensar a relação que estabelece entre a educação e
a historicidade dos sujeitos (não são, mas estão sendo) e a importância da
educação nesse percurso fáctico de estar sendo. É o processo de conscientização
que permite aos sujeitos a sua inserção no processo histórico (Freire, 1970) e,
consequentemente, a dimensão histórica permite a criatividade permanente
bebendo nas fontes da história e da cultura. Esta visão constitui,
inegavelmente, um enriquecimento da educação superior face ao empobrecimento
histórico a que esteve votada pela inclusão de uma única e parcelar visão do
mundo, da história e da existência. O exercício da violência por parte da
universidade, como instituição de educação ao serviço da classe dominante e
determinada por ela, foi não ter considerado todos os seres humanos como seres
históricos e como agentes ativos na construção da história, da sociedade e das
culturas. Este esquecimento/ocultação fez da universidade uma espécie de
"lugar da ópera" onde só se entra de smoking.
Reinventar a educação superior a partir das propostas freirianas de uma
educação superior popular e emancipatória é, não apenas um imperativo socio-
epistemológico mas, sobretudo, um imperativo ético.
Será a universidade, tal como existe, capaz de cumprir estes desafios e pro-
mover um outro modelo de educação superior? Ao longo deste texto manifestamos a
convicção de que não é a partir do modelo de educação superior existente, dado
o seu caráter elitista e reprodutor das desigualdades, que se promove um novo
paradigma de educação superior. E daí as universidades comunitárias,
interculturais, universidade popular dos movimentos sociais, todas elas em
ruptura com o paradigma dominante dada a convicção de que esse modelo não tem
capacidade para se auto-regenerar praticando aquilo que sempre negou: os outros
saberes, outras culturas, afinal, uma radicalização democrática. À questão
formulada anteriormente, Freire (1994, p. 58) responde do seguinte modo:
"I think not, because this would be equivalent to asking the domination
class if it is planning a type of education that would rebel against its
domination."
Se a natureza da universidade não é a de revolucionar a educação, mas manter um
modelo de educação superior ajustado ao modelo social existente e aos grupos
sociais dominantes, -atualmente, a sua submissão aos interesses económico-
financeiros do capitalismo -, então, é tarefa dos educadores, professores e
intelectuais progressistas contribuir, do ponto de vista teórico e prático,
para uma educação superior emancipatória, popular e intercultural e estabelecer
a ruptura com um certo imperialismo académico colonizante, mono-cultural, ainda
dominante, e que constituiu o grande pressuposto da formação das universidades.
A revolução na educação superior não é tarefa fácil, dados os condicionalismos
históricos e os objetivos que presidiram à formação da universidade. Todavia, o
inédito viável de Freire é o que permite, ao nível de todo o pensamento
progressista, que o futuro seja ainda hoje.