Emília de Sousa Costa: educação e literatura
1.Todas as biografias de Emília de Sousa Costa a associam à criação da Caixa de
Auxílio a Raparigas Estudantes Pobres, e todas referem a sua ligação ao
Conselho Central da Federação Nacional dos Amigos das Crianças e a sua
actividade docente na Tutoria Central de Lisboa, que acolhia crianças
abandonadas ou delinquentes. Estes apontamentos indicam claramente a orientação
da vida de Emília de Sousa Costa, que sempre defendeu a educação infantil e, em
especial, a instrução feminina.
Mas é só em 1982 que o nome de Emília de Sousa Costa surge devidamente
valorizado. No ensaio "Feminismo em Portugal na voz de mulheres
escritoras do início do século XX", publicado primeiro pela Comissão da
Condição feminina e em 1983 na revista Análise Social, Maria Regina Tavares da
Silva contribui de modo muito consistente para o conhecimento mais alargado de
uma mulher que defendeu em várias obras e intervenções públicas um feminismo
moderado. Neste estudo (de 1981), a autora destaca diversas vezes as opiniões
de Emília de Sousa Costa, que escreveu diversos livros sobre a questão
feminista: A Mulher no Lar (1916), A mulher. Educação Infantil(1923), Ideias
Antigas da Mulher Moderna (1923), Olha a Malícia e a Maldade das Mulheres
(1932) e A Mulher Educadora (n.d.).
Empenhada na emancipação social e cultural da mulher, Emília de Sousa Costa
distingue-se das feministas que advogam a "total inversão dos papéis do
homem e da mulher na sociedade" (Silva, 1983, p. 880). É com ironia
queirosiana que a autora se refere a este "falso feminismo", que
ela vê como contrário à natureza mais intrínseca de homens e mulheres:
Assim… eles o afirmam - enquanto o marido aleitará a biberono
filho mais pequenino (porque a natureza não entrará em acordo com a
revolucionária) e dará ordens para o jantar, fiscalizará a cozinha,
remexerá os estrugidos nas caçarolas e nas horas de lazer tocará
piano -, a senhora, entalando no olho direito o seu monóculo
perturbador, chupando gulosamente o seu havano, empunhando a sua
bengalinha de sândalo, irá para o ministério regular os altos
problemas do Estado!... (1923a, pp. 15-16)
No mesmo texto, Emília de Sousa Costa reclama educação e dignidade para a
mulher, mas não a quer ver envolvida no universo da política, porque desse modo
"A sua principal função desvirtuar-se-ia, sem nenhum prestígio lhe
resultar daí" (p. 48). Contudo, avisa que a mulher pode ser obrigada a
assumir comportamentos de liderança, se o homem, insensível às suas
reivindicações, a isso a conduzir: "É tempo do homem culto acabar com
esses preconceitos absurdos e cuidar dos problemas do feminismo, antes da
mulher tomar o partido de exigir uma interferência directa, com o prejuízo
talvez da sua tarefa secular" (p. 49).
Mas, apesar de não ser apologista da participação activa da mulher na política,
de não fazer parte de organizações feministas e de não ter "simpatia
pelos "excessos" das sufragistas inglesas" (Samara, 2007, p.
157), a autora não deixa de fazer comentários políticos apartidários. Não são
raras, nas suas intervenções públicas e na sua obra, palavras muito críticas e
ao mesmo tempo construtivas em relação à situação política portuguesa e à
necessidade de mudança de paradigma político, em nome do país. Em O Poeta do
Amor (1924), por exemplo, escreve:
Urge que um governo, um parlamento, só preocupados com os interesses
vitais da nacionalidade, e não com políticas de seita, mesquinhas e
enervantes, depressivas de energias, animem a fé, estimulem as
cruzadas beneméritas da educação e da instrução verdadeiras,
orientando as novas gerações (…). (p. 28)
Emília de Sousa Costa é, como vemos, ao mesmo tempo progressista e
conservadora. A mulher, que se realiza sobretudo enquanto mãe e guardiã do lar,
não precisa de aspirar a cargos políticos nem às "altitudes do
génio" (1923a, p. 57) masculino. Palavras como estas mostram-nos bem por
que motivo, apesar de todas as reivindicações, "a luta pela participação
política, e particularmente pelo direito de voto", foi "um longo e
difícil processo na história do feminismo português" (Silva, 1983, p.
895).
Também no capítulo da independência económica Emília de Sousa Costa assume uma
posição mais moderada do que a da "generalidade das defensoras do
feminismo" (Silva, 1983, p. 895). Esta autora não fala em emancipação
absoluta, nem na possibilidade de a mulher poder decidir, sem qualquer
restrição, que vida deseja para si; é no lar e na maternidade que a mulher,
mais sensível e mais fraca fisicamente do que homem, encontra a sua verdadeira
natureza. Mas, e nisto Emília de Sousa Costa já está de acordo com as demais
feministas e com o pensamento moderno e contemporâneo mais avançado, é
necessário ter em conta os direitos das mulheres que se vêem obrigadas a
trabalhar fora de casa: "E será equitativo, será admissível, que haja
desigualdade na distribuição de salários ou ordenados quando o trabalho dos
dois sexos seja igual ou equivalente?" (1923a, pp. 35-36).
A independência económica também traz liberdade de espírito à mulher,
"que não necessitará de fingir amor, quando o não sinta" (1923a, p.
39). Francamente progressista neste ponto, Emília de Sousa Costa é,
imediatamente a seguir, conservadora, já que volta a insistir na vocação
feminina por excelência: "Apta a ganhar a vida, só aceitará o amparo do
braço masculino quando a paixão lho aconselhar, e nesse caso depressa se
aclimatará ao lar, se o marido por si só puder prover às despesas, dedicando-se
ela ao bem-estar dos seus, sem por isso se julgar diminuída" (p. 39). A
mulher não está obrigatoriamente condenada a um casamento que não deseja, mas a
condição de casada é a que mais se lhe ajusta.
A educação da mulher é, em todo este processo, fundamental. Carolina Michåelis
de Vasconcelos, Ana de Castro Osório e Virgínia de Castro e Almeida são algumas
das mulheres que, como Emília de Sousa Costa, lembram que o analfabetismo e o
atraso cultural da mulher são a causa da subalternização e da decadência
feminina. Mas também nesta questão Emília de Sousa Costa é menos ambiciosa do
que as feministas mais empenhadas na libertação e emancipação absolutas da
mulher. É na escola, segundo ela, que se deve começar por mudar a condição
feminina e, consequentemente, toda a sociedade, cuja ética e grandeza dependem,
em grande parte, da mulher e da família: "A mulher não pode continuar a
ser para o homem apenas o enlevo dos sentidos, porque é uma alma; um objecto de
luxo, porque é um valor social como ele. Não se perverta, eduque-se"
(1923a, p. 54).
Aquela transcrição permite-nos sublinhar a já referida relação, em Emília de
Sousa Costa, entre progressismo e conservadorismo. A renovação da mentalidade
social não se pode fazer sem a aceitação da inteligência das mulheres, numa
época em que, como se sabe, se defendia que a mulher era intelectualmente
inferior ao homem. A educação feminina deve adequar-se à função principal da
mulher, que é a de zelar pelo crescimento integral dos filhos e pelo bem-estar
e harmonia da instituição familiar. Daí, para Emília de Sousa Costa, não ser
conveniente cair no exagero de pretender que "todas as mulheres devam ser
doutas" (p. 54).
2. A obra literária de Emília de Sousa Costa concretiza o pensamento da autora
sobre a mulher e sobre a educação feminina. Os temas das suas novelas e dos
seus contos escritos para o público adulto têm a ver directamente com a
dedicação da mulher ao marido e aos filhos. Estilisticamente, a prosa de Emília
de Sousa Costa compraz-se no amaneiramento e na solenidade oratória, na frase
longa e no vocabulário erudito e raro. A popularidade da escritora, que quis
provar que se enganavam aqueles para quem uma mulher educada e letrada não
podia ser uma boa dona de casa, deveu muito a este estilo tardo-romântico que
tanto acompanhava o arrebatamento dos gestos e dos sentimentos das personagens
como enfatizava o tipo de urbanidade em que Emília de Sousa Costa acreditava:
Leonor, abalada pelas frases curtas e austeras da amiga, cai de
joelhos, diante do corpo desfalecido da pobre mãe e unge-lhe as mãos
com beijos. O seu rosto, alumiado pelo viço radioso e sensual da
cabeleira fulva, curva-se na graça penetrante da humílima penitente,
orvalhada de contrição e tem agora a castidade esmaecida dos lírios
esmaecidos. (1933, p. 16)
A novela "Quem Tiver Filhas no Mundo…", inserida no livro com o
mesmo nome, é um elogio da mulher, abnegada e civilizada, que se dedica
incondicionalmente à família e a Deus. Olga de Santiago, "viscondessa do
Rosal" (1933, p. 5), reúne todos os predicados femininos que Emília de
Sousa Costa exalta na sua obra de intervenção social: "linda mulher,
vibrante de paixão, amante fiel, inteligente, culta e educada" (p. 5).
Toda a narrativa acentuará o desencontro entre esta mulher ao mesmo tempo
angelical e cultivada, que saíra do "colégio" "ignorante da
vida, sedenta de ternura e do carinho que a orfandade lhe negara em tenros
anos" (p. 5), e o marido, "boémio e volúvel" (p. 5). Olga de
Santiago, perante a rebeldia da filha, que não quer seguir uma vida regrada,
morre dignamente: "Ao ter conhecimento do drama, não fala, não gesticula,
não chora. Recolhe ao seu quarto. Ali tranquilamente, santamente, pena, e de
morte lenta se fina passados meses, na graça do Senhor" (p. 35).
Mas esta morte, que é um dos vários motivos românticos e sensacionais da
novela, não será em vão. Leonor, depois de se entregar sem reservas a uma vida
de devassidão, retrata-se, de repente, ao ser trazida à razão por uma amiga da
sua mãe, que a encontrou por acaso num dos "clubs elegantes de
Lisboa" (p. 36): "A tua mãe morreu por ti. O teu desgraçado pai só
espera os teus braços, para neles morrer. Vai amanhã a minha casa. Acompanhar-
te-ei junto daquele desgraçado. Nunca é tarde para te arrependeres" (p.
37).
Numa narrativa atravessada do princípio ao fim por uma ambiência marcadamente
romântica, não faltam os tópicos do arrependimento, dos remorsos e da morte por
amor (a morte física e a morte em vida): Leonor altera completamente o seu
comportamento e passa a viver apenas para os outros. Fiel à memória de Adriano
de Lacerda, não casa, apesar de ser muito pretendida; "a sua alma,
lustrada pelo hálito da munificência divina, exalçou-se às alturas, onde não
chegam as máculas dos humanos delitos. Só para o bem ela vive. Todas as suas
horas são dedicadas a socorrer os que lho solicitam e carecem auxílio moral ou
material" (p. 40). O pai de Leonor, o visconde, há muito arrependido por
não ter sabido educar a filha, "ainda viveu alguns anos acarinhado"
por ela (p. 39).
Entre a escrita de Emília de Sousa Costa e a sua condição de burguesa educada e
letrada há uma correspondência perfeita. A linguagem cuidada destas narrativas
é um prolongamento da preparação cultural que a autora vê como própria da
mulher evoluída; os temas, ligados a episódios do quotidiano de famílias da
aristocracia ou da burguesia, ou a situações que têm a ver com a maternidade,
vêm directamente de uma sociedade em que a mulher, considerada inferior ao
homem, não beneficia dos mesmos privilégios.
Esta consciência do estatuto da mulher e da necessidade de o alterar explica os
arquétipos que encontramos na obra ficcional de Emília de Sousa Costa, e que
permitem estabelecer uma ligação imediata com outros(as) autores da época e com
muitos dos romances e novelas-folhetim do século XIX (que a crítica literária,
talvez porque não os conhece devidamente, tende a designar de paraliteratura):
as dicotomias masculino/feminino, bem/mal, verdade/mentira, fidelidade/traição,
etc., que alimentam o maniqueísmo que sustenta toda a acção. Há, com efeito, um
padrão que se repete: a protagonista é esposa e mãe dedicada, mulher, educada
em colégios, que não agride quem a agride, e o marido um devasso que a
maltrata. Interagem com estas personagens outras, secundárias, que são muito
virtuosas ou muito viciosas.
Mas "Renúncia", da colectânea de novelas Coração - O Ditador
(1942), para além daqueles elementos, que já se encontram na novela "Quem
Tiver Filhas no Mundo…", contém outros que também se inscrevem
integralmente no pensamento feminista de Emília de Sousa Costa. Rosina,
abandonada repentinamente pelo marido, que vende tudo antes de partir para o
Brasil com uma amiga de ambos, recompõe a sua vida e garante o crescimento
equilibrado dos filhos. O narrador, sem se deter em pormenores, diz-nos que ela
"encontrou amparo e protecção nas velhas tias e em almas justas,
condoídas do seu abandono", e que, "Dotada de excepcional valor, e
de virtude inabalável, recorrendo ao esforço quase sobre-humano do seu braço e
do seu cérebro, conseguiu restabelecer o seu lar e educar os filhos" (p.
105). Convergem aqui todos os princípios defendidos por Emília de Sousa Costa e
pelas outras feministas do seu tempo: dignidade, autonomia, trabalho, direito
de educar os filhos em liberdade, na sequência de uma educação escolar que
torna a mulher esclarecida e a prepara para as adversidades.
Pátria, religião e família: recorrendo a um lugar-comum, assim podemos definir
a ideologia que está bem evidente nestas narrativas e, muito em particular, em
"Renúncia". Nesta novela, mais do que em qualquer outra, a
"Pátria" (palavra que surge várias vezes) aparece enaltecida por um
homem, o filho da protagonista, que se mostra feliz por ter sido "provido
no lugar que requerera na África Oriental" (p. 108), onde há
oportunidades para quem, como ele, quiser "trabalhar com gana" (p.
109). Mas também a protagonista exalta os valores patrióticos e os sacrifícios
que todos têm de fazer pelo Império português: "Sou mãe amorosa, mas não
egoísta, nem piegas. Não criei e eduquei os meus filhos para mim, mas para eles
e para a sua Pátria" (p. 108).
A dimensão feminina das novelas de Emília de Sousa Costa indica claramente o
público privilegiado: as jovens, em especial aquelas que se encontravam em
processo de formação escolar e cultural, mas também qualquer mulher leitora,
feminista ou não. A autora tinha em vista a leitora que iria ver nestas
narrativas uma confirmação do seu comportamento moderno; mas, como é óbvio, não
desprezava as leitoras antifeministas nem as feministas radicais. Num tempo em
que o analfabetismo era elevadíssimo, sobretudo entre as mulheres, é fácil
concluir a que classes sociais pertenceriam estas leitoras.
Mas as próprias novelas explicitam o perfil desta clientela: mulheres que
tiveram acesso a uma educação consistente, às vezes ricas, mas infelizes no
casamento ou com obstáculos a uma vida conjugal equilibrada que devem saber
ultrapassar. "É de Sogra!" lembra, neste aspecto, que a sogra
antiquada e intrusiva deve ser tratada com respeito mas não com subserviência,
para que não se intrometa na vida do casal; e "Renúncia" assinala
bem a posição da mãe e sogra consciente do seu lugar. Rosina diz à criada e aos
filhos que não quer viver com eles, por saber que "O aceitar tal situação
é comprar caro uma regalia que custa, em geral, a felicidade dum dos donos da
casa, ou de ambos" (p. 116).
A ocorrência, na citação anterior, da palavra "criados", e a
presença de criados(as) nestas narrativas, aponta imediatamente para o universo
retratado e para o público que se pretende atingir. Nestas novelas há, não
criados, mas criadas: mulheres que se distinguem das protagonistas pela
situação social, postura, educação e, como é evidente, pela linguagem. A criada
de "Renúncia" introduz nesta narrativa e no conjunto das novelas
desta autora uma variação no registo de língua erudito. As duas falas longas e
castiças de Camila, a que o narrador se refere como "fraseado ingénuo da
criada" (p. 115), nada têm da teatralização da fala da patroa. No seu
discurso entram vocábulos, ditados e expressões correntes, corruptelas e
populismos que são, nos casos mais evidentes, assinalados a itálico:
"Casar, apartar- já o dizia a minha mãe que Deus tenha em santa
guarda, porque o pão alheio amarga que nem piornos, entantesseja pão de ló. A
criatura de corage a tudo se afaz, até a viver sem família" (p. 115).
Apesar da diferença de estatuto e cultura, Rosina dialoga com Cesária e até
sabe adequar o seu discurso ao dela. Rosina, ao usar um dos termos populares da
criada, não por acaso um dos menos elegantes e, portanto, um termo que ela vê
como sinónimo de mau gosto, mostra a sua condescendência e civilidade (também
visível no vocativo afectivo, com recurso ao deíctico de posse, "minha
Cesária"). O itálico, na fala de Rosina, faz essa ligação à linguagem
própria da criada e, em sentido mais lato, à voz do povo: "sim, minha
Cesária, de facto ainda não sou velha, nem quero ser trambolho, nem quererei
sê-lo, mesmo em velha" (p. 117).
3. Escritora multifacetada e incansável, Emília de Sousa Costa publicou dois
livros que podemos integrar simultaneamente na literatura memorialística e na
literatura de viagens, e ainda, no segundo título, no género epistolar: Como Eu
Vi o Brasil (1925) e Cartas a uma Brasileira (1927).
Como Eu Vi o Brasil tem a particularidade de integrar as duas formas que
constituem o memorialismo: a "memória" e o "diário".
Este livro obedece a uma estrutura que tem directamente a ver com a viagem de
Emília de Sousa Costa ao Brasil (em 1923, conforme, aliás, a autora assinala no
final da obra): embarque no Andes, viagem até à Madeira, desembarque no
Funchal, passagem por Cabo Verde, avistamento de várias cidades brasileiras, a
começar por Fernando Noronha, desembarque no Rio de Janeiro, embarque no
Curvelo, desembarque na Bahia, no Recife e em Olinda, desembarque na Madeira, e
chegada a Portugal, a Lisboa.
Apesar da composição de conjunto, à subordinação de todas as partes do texto à
narração de uma viagem, Como Eu Vi o Brasil, que teve duas edições (a segunda
não datada), não esconde o tom de registo quotidiano de factos e impressões.
Esta dimensão é, de resto, assinalada graficamente ao longo de todo o livro,
cujos oito capítulos incluem inúmeras partes separadas através de três
asteriscos (***).A autora empírica, a propósito de um tema e do seu
desdobramento em motivos, ora é mais objectiva ora se concentra mais nas
emoções que lhe despertam pessoas, cenários e acontecimentos. Esta oscilação
gera um efeito de autenticidade que o uso constante de formas verbais no
presente do indicativo confirma. Independentemente da distância temporal que
possa existir entre esta escrita e os acontecimentos evocados, o leitor vê o
que a autora vê e sente no momento. Emília de Sousa Costa narra, rememora,
combina rigor testemunhal e subjectividade: "O mar flagela o costado do
Curvelo, arremete contra as vigias, entoa lá fora a sua salmodia plangente e
funérea. Asfixia-me uma sensação indefinível. É a austeridade tétrica da morte?
É uma infinita piedade a comprimir-me, a dilacerar-me o coração?" (p.
130).
Paisagens, comportamentos, aspectos sociais e culturais de Portugal, Brasil e
não só (há, em especial, algumas notas sobre Inglaterra e Cabo Verde) suscitam
em Emília de Sousa Costa reacções que vão do subjectivismo mais íntimo e
sensorial à observação mais crítica e construtiva sobre feminismo, política,
economia ou recursos naturais. Notemos, por exemplo, que a autora está em
sintonia com o pensamento ambientalista mais avançado da época. Ela lamenta a
ausência de vegetação em Cabo Verde e faz esta pergunta retórica, que lhe
suscita, imediatamente a seguir, um comentário que vem provar que a sua visão
do país e do Império português é alargada:
Porque não se aproveitará a energia daqueles braços, a força daqueles
arcaboiços, a destreza daqueles membros, a rijeza daqueles pulsos,
para replantação das árvores que a cupidez de antepassados ignorantes
- arboricidas como os nossos incultos campónios de hoje -
devastou, transformando em aridez o que era fértil, em horrível o que
era belo, em inóspito o que era acolhedor?
É que, para isso, seria preciso um esforço que nos libertasse das
algemas de uma política sem finalidade patriótica… (p. 19)
Em Como Eu Vi o Brasil, Emília de Sousa Costa refaz, simbolicamente, a via-gem
de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. A voz da autora celebra o glorioso passado
nacional e, enaltecendo o Brasil, presentifica o que em Portugal houve e há de
heróico e único no mundo. Simbólica e afectivamente, o Brasil, apesar de ser um
país independente, é, para Emília de Sousa Costa, Portugal, que ela exalta
constantemente pelos feitos épicos dos seus heróis passados mas também
modernos:
É o Brasil! É Portugal, o bem amado, a acorrer ainda solicito como
uma lembrança grata.
É a Cruz de Cristo a baixar a sua benção de luz trazida nas mãos
gloriosas de Gago Coutinho, de Sacadura Cabral, a afirmar mais uma
vez ao mundo o valor ingente de nossa raça imortal. (p. 22)
Cartas a uma Brasileirareúne as epístolas que Emília de Sousa Costa
(alegadamente) enviou a uma amiga do Brasil, Leonor. De acordo com o que nos
diz a autora no texto introdutório, que também parece ser uma carta, esta
Leonor não é apenas a destinatária de cartas escritas e enviadas desde
Portugal, Espanha e França; ela pede que Emília de Sousa Costa lhe escreva. Não
sabemos se se trata de um artifício de uma escritora que via no Brasil um país
com futuro em todas as áreas, da economia à ciência e às artes, e que, por
razões históricas e culturais óbvias, ela queria exaltar; mas a ausência quer
de datação das cartas quer de informações acerca da destinatária (diz-se
apenas, no primeiro parágrafo, que Portugal é a pátria do marido de Leonor),
parece sugerir que Emília de Sousa Costa criou esta figura. Leonor
representaria o "leitor modelo" (Umberto Eco) deste livro; ou, com
mais rigor, a leitora modelo, literalmente, tendo ainda em conta que a autora
dedica o livro "Às mulheres brasileiras / que o amor sagrou
portuguesas" (p. 5).
4. Em 1987, na "Introdução" da sua