A cultura linguística de alunos do 9.º ano: Reflexões em torno dos resultados
de um inquérito por questionário aplicado no distrito de Aveiro
Introdução
A necessidade de realizar trabalhos de "sondagem" no campo da
educação em línguas, com vista ao melhor conhecimento da relação que os
sujeitos estabelecem com elas e com os povos a elas associados, é uma
preocupação crescente. A pertinência dos estudos que se debruçam sobre a
temática sujeito / línguas relaciona-se não só com a compreensão da identidade
pessoal e social de cada um mas também com a possibilidade de realizar um
trabalho que vise a construção e desenvolvimento de uma cultura de paz
favorecedora de comportamentos dignos de uma cidadania democrática.
O estudo que apresentamos neste artigo pretendeu, de uma forma mais reduzida,
até porque de carácter regional e local e não de cariz nacional e europeu,
realizar uma "sondagem" acerca da forma como os alunos viam e
sentiam diferentes línguas e povos, e como se posicionavam perante a sua
aprendizagem e a sua presença no currículo escolar. As preocupações recentes
com o estado da cultura linguística, que mais adiante definiremos, alarga-se
ainda a uma necessidade de caracterização de um grupo determinado de alunos no
que diz respeito à sua biografia e projectos linguísticos.
Assim, o texto parte de um enquadramento contextual, onde se retratam, de forma
geral, as alterações recentes do tecido demográfico, económico e social de
Portugal e das escolas portuguesas em particular. De seguida, no enquadramento
teórico, propomo-nos reflectir acerca do conceito de cultura linguística e das
suas três dimensões, e sobre a importância deste conceito para uma melhor
caracterização da relação sujeito-língua, na sociedade actual. Explicita-se o
estudo empírico desenvolvido, realizado com base em dados obtidos a partir da
aplicação de um inquérito por questionário junto de uma amostra significativa
de alunos do 9º ano de escolaridade do distrito de Aveiro. Apresentamos os
principais resultados desse estudo e apontamos algumas das ideias base que
estiveram na origem da segunda fase do projecto, motivada por este primeiro
momento de sondagem acerca da cultura linguística. Concluímos o nosso artigo
com uma breve reflexão sobre hipóteses de trabalho futuro e possíveis formas de
desenvolvimento de uma cultura linguística facilitadora da construção da
cultura de paz democrática onde todos ansiamos viver.
Enquadramento contextual do estudo
A importância de um estudo que pretenda conhecer a relação entre os sujeitos e
as línguas (alunos do 9º ano de escolaridade, neste caso) ganha destaque quando
observamos o tecido demográfico de Portugal nos últimos anos e,
particularmente, da população escolar portuguesa.
Segundo o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo de 2010 (SEF: 2010), a
população estrangeira residente em Portugal a 31 de Dezembro de 2010 totalizava
445.262 cidadãos. As nacionalidades mais representadas são, tal como sucedia em
2009: Brasil, Ucrânia, Cabo Verde, Roménia, Angola e Guiné-Bissau, sem que
exista alteração de posição das principais dez nacionalidades.
Enquanto a comunidade brasileira continua a ser a mais representada (com
119.363 residentes em Portugal), regista-se um decréscimo do peso relativo das
comunidades oriundas de Cabo Verde (43.979), Angola (23.494) e Guiné-Bissau
(19.817), assim como dos novos fluxos migratórios provenientes de países do
Leste europeu como a Ucrânia (49.505). A comunidade romena (36.380 pessoas)
assume-se como a mais significativa entre os Estados membros da União Europeia.
O crescimento sustentado dos estrangeiros residentes em Portugal verificado na
última década foi, no entanto, quebrado nos anos de 2005 e de 2010, resultado
de uma combinação de factores, como o aumento da atribuição de nacionalidade
portuguesa (desde a última alteração à lei da nacionalidade), a crise económica
e financeira que Portugal vivencia (redução do investimento e do emprego) e a
alteração dos processos migratórios em alguns países de origem (nomeadamente o
Brasil e Angola).
Quanto à população escolar, o último relatório Eurydice, realizado em 30 países
europeus, concluiu que no ano de 2003/04 havia cerca de 90 mil imigrantes no
sistema de ensino português, sendo que a maior parte deles frequenta o 1º Ciclo
(com 36.740 alunos), também com maior diversidade de nacionalidades de origem,
sendo o 3º Ciclo do Ensino Básico o segundo nível de ensino mais frequentado
(com 19.065 imigrantes). No total, os alunos de origem angolana registavam o
maior número de estudantes (14.081), seguidos dos de origem cabo-verdiana
(12.501), romena (8.784), guineense (4.507), brasileira (3.057), enquanto que
os alunos oriundos de países da UE eram 12.563. Note-se que, nos dias de hoje,
os valores relativos aos imigrantes do leste da Europa e aos brasileiros devem
ser em maior número, devido ao forte crescimento que estes grupos nacionais
registaram desde 2001.
Outro estudo, realizado pelo ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e
Computacional)1, concluiu, através das respostas a um inquérito por
questionário, que 66.189 (89%) dos alunos a frequentar as escolas de Educação
Básica de um con-junto de concelhos da Área Metropolitana de Lisboa são alunos
portugueses e que 8.406 (11%) são não-portugueses, sendo inventariadas cerca de
58 línguas faladas em casa por estes alunos. Também no estudo de Mira Mateus
(2011) se constata essa diversidade de línguas nas escolas.
Os dados que sumariamente apresentámos, oriundos de diferentes estudos,
evidenciam a realidade escolar que Portugal está a viver, que se concretiza num
alargamento da diversidade linguística e cultural e subsequente aumento de
contactos interculturais. Cabe às escolas, e à educação em línguas em
particular, um papel fundamental, nomeadamente no que respeita ao conhecimento
da relação que os sujeitos estabelecem com as línguas e culturas, conhecimento
esse que acreditamos que o conceito de cultura linguística nos poderá ajudar a
obter. As próprias políticas linguísticas europeias e nacionais têm tentando
fazer face a esta nova realidade (vf. Gonçalves, 2011).
Enquadramento teórico do estudo: a cultura linguística
As primeiras ocorrências do conceito de cultura linguística encontram-se em
Feytor Pinto (1998) e Candelier (2000), ou seja, num período de tempo
relativamente recente e de uma forma pouco expandida, o que determina um estado
ainda incipiente de desenvolvimento teórico do conceito.
Concomitantemente, estes autores equacionam o conceito de forma distinta entre
si, ora numa abordagem mais restritiva, focalizada na dimensão conteudal e
declarativa (como Candelier, 2000), ora numa acepção mais abrangente, mas pouco
desenvolvida do ponto de vista praxeológico (como Paulo Feytor Pinto, 1998).
Este autor, inspirado em Schiffman (1996), apesar de englobar no conceito de CL
o conjunto de comportamentos, atitudes, crenças, representações e modos de
pensar as línguas, não aborda a conceptualização e desenvolvimento do mesmo
numa perspectiva didáctica, em termos de um trabalho escolar com as línguas.
Do nosso ponto de vista, a cultura linguística diz respeito ao "conjunto
de atitudes, estereótipos, representações e mitos relativamente às línguas (…),
envolve saberes, quer sobre a LM do sujeito, quer sobre outras que já aprendeu
ou não, e com que já contactou ou não, que funcionarão como um conjunto de
referências que ajudam à compreensão do mundo plural em que o sujeito vive (…),
que terão implicações na forma como o sujeito se relacionará com as
línguas" (Simões, 2006: 145).
Acreditamos ainda que cultura linguística não será estática, definitiva, fixa e
inalterável, mas antes evolutiva e dinâmica. Será ainda de natureza
tridimensional, englobando três dimensões: (i) cognitiva; (ii)
representacional/imagética e (iii) das práticas. A dimensão cognitiva
relaciona-se com os saberes/conhecimentos dos sujeitos acerca do mundo das
línguas.
A dimensão representacional/imagética diz respeito às atitudes e
representações, estereótipos e preconceitos, ou seja, à imagem que o sujeito
formula acerca das línguas e povos, motivadora de uma eventual relação de amor
ou desamor em relação ao objecto em questão. Muitos são os trabalhos de
investigação realizados nesta área, desde estudos sobre representações face a
uma língua específica(o alemão: Perrefort, 2001; o inglês: Yang & Lau,
2003; o italiano: Paganini, 1994); representações face ao povo que fala essa
língua e ao país correspondente (por exemplo, Cain & De Pietro, 1997);
representações de conjuntos de línguas(por exemplo as línguas românicas e seus
locutores: Billiez, 1996); ou ainda representações face a grupos mais vastos de
línguas ou línguas em geral(Castelloti, Coste & Moore, 2001), ou estudos
sobre os factores envolvidos no processo de construção dessas representações
(Zarate, 1993). Esta dimensão representacional/imagética permite-nos estudar as
representações/imagens que os sujeitos têm sobre as línguas e seus locutores,
assim como os factores que estão na sua origem e que determinam a sua evolução.
A dimensão das práticas remete-nos para as práticas individuais e colectivas
dos sujeitos em relação às línguas e culturas, tais como hábitos de leitura
(livros, revistas, prontuários,...); hábitos de contacto come de utilização
delínguas variadas, em diferentes contextos e circunstâncias; visitas a
instituições culturais ou a exposições de divulgação linguística e/ou cultural;
envolvência na aprendizagem de línguas dentro e fora do contexto escolar;
reacções perante o contacto com a diversidade linguística e cultural; hábitos
de falar línguas e sobre as línguas com outros sujeitos, assim como o
envolvimento em práticas de comunicação em que diferentes línguas se assumam
como instrumentos de comunicação e ou de construção de relações interpessoais.
Relacionando estas dimensões com trabalhos realizados anteriormente sobre
conceitos centrais na Didáctica, encontramos a dimensão cognitiva na
competência plurilingue, em referência às operações de aprendizagem verbal e
aos "processos de aprendizagem que o sujeito é capaz de gerir em situação
de contacto de línguas" (Andrade & Araújo e Sá et al: 2003), situados
em dois níveis: um processual e outro meta-processual (idem), incluindo ainda
as capacidades de aprendizagem linguística e os procedimentos de aprendizagem
de línguas. Também no modelo de competência intercultural (Byram, 1997), o
domínio dos saberes inclui o conhecimento acerca dos grupos sociais (os seus e
os dos outros) e das suas culturas, e o conhecimento acerca dos processos de
interacção ao nível social e individual.
A dimensão representacional/imagética relaciona-se com a componente sócio-
afectiva da competência plurilingue (Andrade, Araújo et al., 2003), que integra
a predisposição e disponibilidade para contactar com diversas línguas e
culturas, incluindo, deste modo, vontades, predisposições, motivações
(instrumentais, integrativas e académicas), qualidades e representações
(Andrade, Araújo et al., 2003: 494). No campo da competência intercultural,
esta dimensão equipara-se à dimensão atitudinal perspectivada por Byram no seu
modelo de trabalho: "attitudes towards people who are perceived as
different in respect of the cultural meanings, beliefs and behaviours they
exhibit, which are implicit in their interaction with interlocutors from their
own social group or other" (1997: 35). O modelo de competência
plurilingue parece ainda conceptualizar a dimensão das práticas
predominantemente em termos de gestão da interacção, na qual as autoras incluem
os "processos interactivos próprios das situações de contacto de
línguas" (Andrade e Araújo e Sá et al, 2003: 495), e onde se observa como
"o locutor aprendente constrói, colaborativamente, trocas plurilingues,
lida com as línguas enquanto instrumentos de comunicação, provoca e se envolve
em trocas de tutela significativas e regula o processo interaccional"
(Andrade e Araújo e Sá et al, 2003: 495). Evidencia-se, pois, a necessidade de
envolvimento dos sujeitos nas práticas que desenvolve e a motivação para agir,
aqui a nível interaccional, mas que alargaremos a outras áreas da actividade
humana.
Descrição do estudo
Como exemplo de um possível trabalho a realizar nas escolas, falaremos do
projecto "A cultura linguística de uma população escolar no final da
escolaridade obrigatória", que teve como principais objectivos: (i)
conhecer a cultura linguística da comunidade educativa portuguesa -
alunos do 9º ano do distrito de Aveiro - face às línguas e ao seu ensino-
aprendizagem e (ii) conceber, experimentar e avaliar um plano de intervenção
didáctica, visando a sensibilização à diversidade linguística e cultural.
Procedimentos metodológicos
Para darmos resposta ao primeiro objectivo acima descrito, decidimos utilizar o
inquérito por questionário, por este instrumento de recolha de dados poder ser
administrado a uma amostra lata do universo e garantir o anonimato. Este
instrumento de recolha de dados, a aplicar a uma vasta amostra de alunos do 9º
ano do distrito de Aveiro, tinha os seguintes objectivos: caracterizar o
público através de dados gerais (idade, sexo, escola,...); definir o perfil
linguístico dos alunos; identificar os projectos linguísticos desses alunos;
identificar as representações dos alunos face a línguas e povos.
Universo e amostra
O universo de alunos de todo o distrito a frequentar este ano de escolaridade
perfazia um total de 7.712 indivíduos, que se distribuem por 77 escolas,
pertencentes a dois CAE (Centro de Área Educativa): o de Aveiro (com 3.982
alunos no 9º ano de escolaridade) e o de Entre Douro e Vouga (com 3.730
alunos). Seleccionámos uma amostra que correspondesse a 25% do universo de
sujeitos, o que completou um total de 1.926 indivíduos num conjunto de 24
escolas. Para se efectuar a escolha da amostra, utilizámos, num primeiro
momento, uma amostra probabilística estratificada de tipo proporcional para
seleccionar o número de alunos a inquirir por concelho. A amostra aleatória ou
probabilística é aquela em que "cada um dos elementos do universo tenha
probabilidade igual de integrar a amostra" (Pardal & Correia, 1995:
34), ou seja, cada um dos indivíduos do universo pode ter a mesma oportunidade
de ficar representado na amostra. A amostragem estratificada apresenta uma
divisão da população em estratos, pressupondo que se faça a repartição do
universo em segmentos homogéneos. No caso da selecção de amostra que
efectuámos, os estratos eram os concelhos de todo o distrito, que constituem
por si só uma forma de categorização. Num segundo momento, utilizámos uma
amostra de tipo não probabilístico intencional para seleccionar as escolas de
cada concelho onde inquirir os alunos.
De um total de 1.926 inquéritos distribuídos, obtivemos a resposta de 1.837, o
que fez com que o número de não resposta fosse apenas de 89 questionários.
O instrumento: processo de construção e estrutura
O inquérito por questionário, constituído por 27 questões, divide-se em quatro
partes: caracterização geral, perfil linguístico, projectos linguísticos,
representações face às línguas e povos. Foram utilizados diferentes tipos de
perguntas, de acordo com os objectivos que pretendíamos e com o público a que
se destinava: questões abertas (em número reduzido devido ao grande número de
inquiridos), questões fechadas, questões de escolha múltipla (de leque e de
estimação) e diferenciais semânticos.
Realizámos um pré-teste com 47 alunos do 9º ano, em duas turmas de duas escolas
pertencentes ao distrito, que representam duas realidades diferentes a vários
níveis (social, económico, cultural,...). Depois de apresentarmos alguns dados
referentes à elaboração, distribuição e recolha do inquérito por questionário,
importa agora apresentar alguns dos dados obtidos através da análise feita às
respostas dadas, através do programa Spss.
Análise dos resultados
Relativamente à caracterização geral dos alunos, 54% dos inquiridos são do sexo
feminino e 45.5% do sexo masculino (0.5 não responde). No que se refere ao seu
background socioeconómico, e relativamente ao nível de escolaridade dos
progenitores, quer o pai quer a mãe possuem um baixo nível de escolaridade
(maioritariamente o 1º Ciclo do Ensino Básico). Quanto a vivências anteriores,
uma grande percentagem dos alunos (85.4%) nunca viveu no estrangeiro e aqueles
que o fizeram escolheram diferentes destinos, maioritariamente típicos de
emigração portuguesa, como a França, a Venezuela ou os E.U.A. De entre os
alunos que já haviam residido no estrangeiro, 48.2% afirmam saber falar a
língua desse país, 32.1% revelam falar "alguma coisa" e apenas
14.8% não o fazem. A maioria dos alunos (89%) não tem nenhum progenitor de
outra nacionalidade. Destaca-se, pois, nesta caracterização geral, o facto de a
maioria dos alunos não ter experienciado a vivência no estrangeiro e de terem
pais com reduzida escolaridade.
Quanto ao Perfil Linguístico dos alunos, um dos primeiros pontos a observar era
referente à Língua Materna (LM) dos sujeitos. Constatámos que 95.2% dos alunos
tinham o Português como LM, enquanto que apenas 22 alunos tinham o Espanhol,
outros 22 o Francês, 14 o Inglês, e somente 5 alunos outras línguas. Existem
ainda 25 alunos que não respondem à questão.
Note-se, no entanto, que 6.3% dos alunos têm pai e/ou mãe de nacionalidade
estrangeira (a que surge em primeiro lugar é a Angolana) e, desse grupo de
alunos, 43.9% falam a língua do pai e/ou mãe, o que confirma os dados do SEF
atrás mencionados, onde se denota um número crescente de estrangeiros no nosso
país.
Em relação à LE1, a grande maioria dos alunos (86.9%) tem o Inglês como LE1,
enquanto que para apenas 11.5% o Francês é a primeira Língua Estrangeira
estudada na escola. No que diz respeito à Segunda Língua Estrangeira iniciada
na escola, 70% dos alunos têm o Francês como LE2 e só 10.8% tem o Inglês.
Quanto às línguas mais contactadas pelos alunos (em qualquer contexto, formal
e/ou informal), a ordem é a seguinte: Inglês, Francês, Espanhol, Italiano,
Alemão, Línguas Africanas, Chinês, Russo, Grego, Árabe e outras (ver gráfico
1).
Interessava agora analisar as circunstâncias em que ocorreram esses contactos
de acordo com as línguas (cf. tabela_1), sendo que os tipos de contacto mais
referidos foram: "Televisão e cinema" (N= 3.393),
"Música" (N= 3.183), "Familia-res e amigos" (N= 2.076),
"Instruções /rótulos de produtos" (N=1.937) e "Livros e
revistas" (N= 1.734). O tipo de contacto que apresenta um menor número de
ocorrências é "Escolas de línguas" (N= 501).
Concluímos, pois, que as circunstâncias de contacto se relacionam intimamente
com as línguas em questão. Assim, notamos que, por exemplo, com o Inglês
aparece a referência sobretudo no que diz respeito aos Media; no Francês às
vivências familiares; no Espanhol à música e à relação de vizinhança e no
Italiano aos media.
O segundo tópico a analisar é o dos Projectos Linguísticos dos alunos, onde
importa,desde logo, abordar duas vertentes: as línguas que os alunos gostariam
de estudar e as línguas em que os alunos pretendem matricular-se no 10º ano de
escolaridade, que podem ser duas vertentes coincidentes em termos de resultados
ou não.
Analisaremos apenas as 5 primeiras línguas mais referidas como aquelas que os
alunos mais gostariam de estudar, as quais aparecem por esta ordem: Alemão (821
ocorrências), Italiano (523), Espanhol (441), Latim (252) e Nenhuma língua
(191). Por sua vez, as línguas em que os alunos pretendem matricular-se são as
seguintes: Inglês (716 ocorrências), Francês (380), Alemão (313) e Espanhol
(63). Podemos concluir que não há coincidência entre as línguas que os alunos
gostariam de estudar e aquelas em que vão matricular-se, o que se deve
sobretudo a constrangimentos em termos de oferta linguística da escola e do
currículo. Temos ainda de referir que o número total de ocorrências e, por
isso, de referência a línguas que os alunos gostariam de estudar, perfaz 2.859,
o que nos faz compreender que a grande maioria dos alunos indicou mais do que
uma língua. Além disso, nota-se que a primeira língua mais referida pelos
alunos é, por coincidência ou não, uma das que a escola pode oferecer no 10º
ano de escolaridade (alemão), assim como a quarta (latim), embora a estrutura
curricular não o permita a qualquer aluno.
A escolha da aprendizagem das línguas está intimamente relacionada com a imagem
que os alunos têm das línguas: "L'image de la langue est liée à la
motivation (…) les étudiants et bénéficiaires des programme européens se
tournent vers les langues dites 'utiles' qui sont d'abbord
pour la majorité d'entre eux l'anglais et le français (et dans une
moindre mesure l'allemand)" (Gosse, 1997:156).
Assim, em relação ao constrangimento de oferta linguística da escola, podemos
referir o exemplo do Italiano e do Espanhol aparecerem respectivamente em
segunda e terceira posição como as línguas que os alunos mais gostariam de
aprender e não aparecer, em contrapartida, uma única ocorrência em relação ao
Italiano na matrícula no 10º ano, por esta não ser uma opção nas nossas
escolas. Aparecem apenas 63 alunos a referir que irão matricular-se em Espanhol
(contrastando como o número de 441 que desejaria aprender esta língua), devido
ao facto de poucas escolas terem esta disciplina como opção.
O terceiro tópico a analisar é o das representações dos alunos face à
diversidade linguística e cultural. Quanto ao prestígio que as línguas tinham
para os alunos e as razões que lhes concediam esse prestígio, a ordem das
línguas que os respondentes consideram terem mais prestígio é a seguinte:
Inglês, Francês, Português, Alemão, Espanhol, Italiano, Latim, Chinês, Japonês,
Russo, Grego, Hindu, Hebraico, Holandês e Árabe. Quanto às razões que conferem
prestígio às línguas, elas aparecem por esta ordem: grau de
internacionalização; número de pessoas que fala a língua como LM; importância
cultural e literária; importância científica e tecnológica e importância
política e económica. Os factores de ordem política surgem, de novo, na última
posição.
Relativamente à opinião dos alunos acerca da variedade de oferta de línguas no
currículo escolar, cerca de 46.3% pensam que a escola devia oferecer maior
variedade de línguas, 28.5% não têm opinião (o que é significativo, já que
demonstra que, provavelmente, os alunos ainda nem pensaram nesta hipótese
porque sentem que têm de se integrar no sistema sem possibilidade de o mudar) e
23.7% consideram que a escola não deve oferecer maior variedade de línguas.
Estes dados confirmam uma das conclusões de um estudo realizado por Feytor
Pinto (1998: 78), onde o italiano foi a língua estrangeira que a maioria dos
professores inquiridos (40.3%) considerou ser a próxima língua a ser
introduzida no nosso país como oferta de estudo na educação básica.
As línguas que os alunos referem como aquelas que deveriam aparecer na escola
são: o Italiano (N= 428), o Espanhol (N=398), o Alemão (N=296) e depois várias
línguas "exóticas" (Chinês, Grego, Russo, Japonês,...), ou, como
refere Roualt, " langues ' lointaines' " (Roualt,
2001 : 63)
No entanto, apesar deste desejo de aprender línguas e de se notar a vontade de
alargar a variedade de línguas oferecidas na escola, notamos que os alunos
estão decepcionados com as aprendizagens que têm feito até agora. Isto percebe-
se quando, na resposta à questão "Deixarias de estudar alguma
língua?", um conjunto de 772 alunos (42%) diz que sim (deixariam de
estudar alguma língua), 537 alunos dizem que não (29%), 470 alunos não sabem
(26%) e 60 não respondem (3%). Quando foi perguntado aos alunos que responderam
que sim na resposta anterior que língua(s) deixariam de estudar, 449 alunos
referem o Francês, 378 o Inglês e 37 o Português, o que perfaz um total de 864
alunos. Ao compararmos este número (864) com o total de alunos que responde que
deixaria de estudar uma língua (772), vemos que há alunos que referem o
abandono do estudo de mais do que uma língua (daí a diferença numérica entre os
77 e da reposta anterior e os 864 desta questão). Assim, tendo em conta estes
dados, podemos concluir que há que repensar o ensino-aprendizagem das línguas
na escola e o papel dos professores de línguas, já que parte do público escolar
que se encontra no 9º ano apresenta alguma decepção em relação às aprendizagens
efectuadas até ao momento.
Isto nota-se de novo quando se percebe que, apesar de muitos alunos quererem
abandonar o estudo de uma ou mais línguas, grande parte deles tem consciência
da importância da aprendizagem de línguas. Isto porque 1.585 alunos consideram
importante estudar línguas, enquanto que 167 não sabem e 74 dizem que não. Em
relação ao número de línguas que é importante estudar, 40% dos alunos refere
mesmo mais do que duas LE.
Quando se pergunta aos alunos por que é importante estudar línguas, 79% dos
alunos referem objectivos de ordem prática, 11% objectivos culturais, 3%
objectivos formativos e somente 1% objectivos políticos. Sublinhamos a relação
entre estas razões e as da escolha da LE no que diz respeito aos objectivos, já
que os de ordem prática aparecem em primeiro lugar e aparece pouca importância
atribuída aos factores de ordem política.
No campo das representações dos alunos face às línguas, utilizámos ainda um
diferencial semântico com base em outros estudos já realizados, onde incluímos
diferentes binómios: feia/bonita; difícil/fácil; inútil/útil; rica
culturalmente/pobre culturalmente e com importância política/sem importância
política.
Os alunos tinham a liberdade de escolher sete línguas sobre as quais iriam dar
a sua opinião neste diferencial semântico e numa escala de 1 a 7. A ordem de
escolha das línguas é a seguinte: Inglês, Francês, Português, Espanhol;
Italiano, Alemão; Chinês; Russo; Japonês; Grego; Árabe; Neerlandês; Línguas
Africanas e Crioulo. Para além de notarmos que as primeiras são mais ou menos
as mesmas que aparecem nas outras listagens anteriores, temos de referir que
existem duas línguas que não são escolhidas pelos alunos: o Hindu e o Latim. Em
relação à primeira, não é de estranhar o facto de não ser referida, mas em
relação à segunda parece-nos um pouco estranho que assim aconteça, o que
demonstra que os alunos, apesar de a incluírem no grupo de línguas com
prestígio, não parecem saber muito ou terem muitas opiniões formadas acerca do
Latim.
Quanto às representações dos alunos face às diferentes línguas, e referindo-nos
às línguas cuja posição aparece no ponto mais extremo, aparece-nos o Português
no campo mais positivo (mais bonita, mais fácil, mais útil e mais rica
culturalmente), o que demonstra que os alunos têm uma boa imagem da sua língua,
já que só não a colocam no topo no que diz respeito à importância política. De
seguida, aparece o Inglês, com referência a três aspectos: útil, rica
culturalmente e com importância política, o que salienta a imagem desta língua
sobretudo no que se refere a questões práticas. Também noutros estudos (cf.
Simões, 2006) se conclui que a língua inglesa aparece sobretudo associada, por
alunos de diferentes níveis de ensino e de forma muito homogénea e consistente,
a aspectos de ordem pragmática e funcional. Refira-se também as conclusões do
Eurobarómetro das Línguas, onde os sujeitos, quando questionados acerca da(s)
língua(s) que são mais úteis, mencionam, em primeiro lugar, o Inglês (75%).
Por último, ainda no extremo positivo, aparece-nos o Italiano, que aparece
referido apenas uma vez no extremo mais positivo, no que diz respeito ao item
bonito.
Quanto aos extremos negativos, a variedade de línguas é maior e refere-se
sobretudo a línguas mais "longínquas". Aquela que é mais referida é
o Árabe (nos itens feia, difícil e inútil), seguida do Chinês e do Japonês (que
aparecem ambas nos itens difícil e inútil), do Russo (no item feia) e do
Crioulo (no item inútil). No que diz respeito aos itens pobre culturalmente e
sem importância política, não existe nenhuma ocorrência no extremo negativo.
Em relação às representações dos alunos face aos povos e nacionalidade,
utilizámos também um diferencial semântico com um outro conjunto de binómios:
tristes/alegres; organizados/desorganizados; simpáticos/antipáticos; bonitos/
feios; limpos/sujos; barulhentos/silenciosos; solidários/egoístas e racistas/
abertos aos outros.
Importa fazer referência de novo aos povos mais referidos, cuja ordem é a
seguinte: Portugueses, Franceses, Brasileiros, Ingleses, Ciganos, Espanhóis,
Italianos, Alemães, Venezuelanos, Chineses, Moçambicanos, Japoneses, Russos,
Holandeses, Cabo-Verdianos, Polacos, Árabes e Gregos. Note-se a inclusão de
duas novas referências nos cinco primeiros povos mais referidos, que são os
Brasileiros e os Ciganos.
Nota-se uma concentração das representações negativas em relação aos Ciganos
(que a aparecem no extremo negativo em todos os itens com excepção do primeiro
− tristes), tal como acontece noutros estudos (por exemplo, Cortesão e Pinto,
1995), e uma grande referência aos brasileiros nas representações positivas.
Assim, em relação aos extremos negativos, além dos Ciganos, aparece-nos apenas
a referência aos Moçambicanos no primeiro item (tristes/alegres), denotando-se
ainda uma grande frequência de sentimentos neutros face aos outros povos.
Quanto às representações positivas, os Brasileiros são o povo que aparece mais
vezes no extremo positivo (só não são referidos no item organizados), seguidos
dos Portugueses (que não são referidos em dois itens: organizados e bonitos),
dos Italianos (referência o item alegres e limpos), dos Ingleses (no item
organizados e limpos) e dos Japoneses (no item organizados). Vários outros
estudos confirmam uma imagem positiva dos italianos (Paganini, 1994).
Note-se, no entanto, que os Ingleses poderão ser confundidos, pelos alunos, com
outros povos falantes de língua inglesa, como os Americanos, devido à forte
presença destes nos mediaa que os alunos têm acesso diariamente (como por
exemplo nas séries televisivas ou no cinema) e à importância dos media na
(re)formulação das representações dos sujeitos. Também os manuais escolares
podem ter esse papel, como referem Amossy & Herschberg Pierrot: "Les
enfants et les adolescents prennent connaissance de certaines réalités à
travers les séries télévisées, la BD, mais aussi les livres scolaires"
(1997: 37).
Podemos ainda destacar um conjunto de povos acerca dos quais os alunos formulam
sobretudo representações neutrais, aparecendo no extremo destas situações,
porque em todos os itens, o povo russo. Com excepção das representações
neutras, os Árabes são vistos como bonitos (3), os Japoneses como simpáticos
(3) e limpos (3), os Gregos como simpáticos (3) e organizados (3), os Cabo-
verdianos como alegres (3), simpáticos (3) e solidários (3), os Chineses como
organizados (3), limpos (3) e simpáticos (3), e os Moçambicanos como simpáticos
(3), solidários (3), abertos aos outros (5) e tristes (3), aliás, única
referência a um povo como sendo triste.
A existência de todas estas representações neutrais denota, desde logo, alguma
dificuldade dos alunos em definirem as suas representações face a alguns povos,
sobretudo os menos contactados, e em relação a determinadas categorias, como é
o caso de "barulhentos/silenciosos" (com 15 povos no campo neutro)
e "racistas/abertos aos outros" (com 14).
Conclusões
Assim, depois de uma análise dos dados recolhidos através deste inquérito por
questionário, podemos delinear algumas notas conclusivas. Pela resposta dos
alunos nota-se a existência de um certo monolinguismo, tanto no que diz
respeito à caracterização dos alunos e aos seus projectos linguísticos, como
nas representações que eles apresentam, que são muito neutras face a várias
línguas e povos. Relacionado com este ponto está também o de os alunos
apresentarem um horizonte linguístico muito reduzido, o que se observa ainda na
sua visão linguística muito limitada, quer no que diz respeito aos seus
projectos curriculares, quer nas circunstâncias de contacto com as línguas,
quer mesmo no que se refere ao seu "futuro linguístico". Apesar de
existirem essas limitações, existe também da parte dos alunos uma abertura à
aprendizagem linguística, por exemplo no que diz respeito ao desejo que os
alunos manifestam em aprender línguas e na compreensão que têm do papel e
importância da aprendizagem das mesmas. Além disso, não se notam muitas
representações de ordem negativa no que diz respeito às línguas e culturas, mas
sim opiniões positivas ou neutras.
O horizonte linguístico limitado que os alunos apresentam deve-se, talvez, aos
constrangimentos que as escolas impõem aos alunos, quer na oferta linguística
limitada, que não aparece satisfazer os desejos de aprendizagem de línguas dos
alunos, quer na rigidez curricular que apresenta (por exemplo, no caso da
impossibilidade de alunos matriculados no 10º ano de determinados departamentos
iniciarem o estudo de mais do que uma LE), quer mesmo no que se refere à carga
curricular apresentada aos alunos.
Através da análise das respostas ao questionário, podemos ainda concluir que
existe uma relação de distanciamento por parte dos alunos face à sua LM, assim
como uma falta de conhecimentos de ordem linguística, entendida aqui como um
conjunto de saberes/conhecimentos acerca das línguas. Esta falta de
conhecimentos revela-se, por exemplo, em relação a alguns tópicos, como: as
famílias linguísticas (desconhecimentos revelados em alguns aspectos das
respostas relativas à proximidade de outras línguas com a Língua Portuguesa);
as variedades e variantes da Língua Portuguesa (quando os alunos referem por
exemplo, a língua * "Brasileira", * "Moçambicana", *
"Angolana",...) e no Latim (evolução e contacto com a "língua
mãe" − que não é quase nunca referido). Alguns destes aspectos não
parecem, no entanto, ser apenas típicos de grupos de alunos, já que outros
estudos evidenciam dificuldades desta ordem junto de professores de línguas
(Feytor Pinto, 1998).
Na globalidade, os alunos parecem ter uma boa imagem da sua LM (a mais bonita,
a mais útil, rica culturalmente e com importância política), apesar de a
considerarem, enquanto objecto escolar, como uma língua difícil. As outras
línguas da escola, consideradas por eles como as que lhes estão mais próximas,
são vistas como as mais úteis (como é o caso do inglês, português e francês,
italiano e espanhol) e aquelas estudadas pelos alunos parecem deter, para eles,
uma maior importância política.
De uma forma geral, podemos dizer que as línguas são sobretudo equacionadas
como objectos mais difíceis do que feios, já que aparecem muito mais
referências nos extremos do binómio facilidade/dificuldade do que no de feia/
bonita. Indicia-se, por isso, a tendência para que: as línguas mais distantes e
menos contactadas sejam vistas como as mais difíceis; as línguas estudadas
pelos inquiridos sejam consideradas ora as mais fáceis (inglês) ora as mais
difíceis (portuguesa) e as línguas românicas próximas, apesar de não estudadas,
como o italiano e espanhol, serem consideradas fáceis, ao contrário do alemão,
que vê perpetuado o mito de língua difícil. Parece ainda ser mais difícil para
os alunos posicionarem-se quanto à riqueza/pobreza cultural das línguas e à sua
importância política, enquanto que facilmente equacionam a imagem que têm das
línguas quanto à sua beleza, facilidade ou utilidade.
Este poderá ainda ser um factor motivador do desenvolvimento de imagens muito
escolarizadas das línguas, muito em particular, por exemplo, no que se refere à
hierarquização das mesmas relativamente a aspectos como a utilidade,
importância ou facilidade.
Os alunos parecem ainda valorizar os aspectos relacionados com a dimensão
instrumental e comunicativa das línguas, nomeadamente nas finalidades de
aprendizagem e nas razões para o prestígio das mesmas, relacionando a
importância de uma língua com a sua utilidade e importância política e,
concomitantemente, com a importância da sua aprendizagem. O inglês, por
exemplo, destaca-se como língua internacional, útil para a comunicação e, por
isso, importante de aprender, principal razão pela qual escolheriam esta língua
como LM.
As línguas próximas da LM dos alunos, italiano e espanhol, indicadas como
línguas que gostariam de aprender, são vistas como bonitas e úteis. Associa-se,
de novo, a aprendizagem e a importância das línguas com a utilidade e a beleza
que lhes são atribuídas. A imagem positiva destas duas línguas pode também
relacionar-se com o facto de existir uma disponibilidade afectiva face a
algumas línguas exteriores ao currículo escolar, criando quase uma imagem
idealizada das mesmas, porque não equacionadas em termos de objectos escolares.
Podemos, ainda, concluir que as imagens que os alunos têm das línguas parecem
condicionar os seus projectos linguísticos: as imagens positivas face ao
italiano e ao espanhol podem estar relacionadas com o desejo de as conhecer
melhor, enquanto que imagens negativas de línguas como o árabe, o japonês ou o
chinês parecem levar os alunos a não gostar de as estudar no futuro.
Quanto às imagens dos povos, podemos concluir que se mantém uma boa auto-imagem
nacional, assim como todo um conjunto de representações positivas face a vários
outros povos, como os Brasileiros, Italianos e Ingleses. Aliás, os Brasileiros
surgem como sendo ainda melhores que os Portugueses em várias características,
os Italianos como povo caloroso, alegre e amistoso e os Ingleses como limpos e
organizados. Nota-se ainda, à semelhança do que aconteceu com as línguas, uma
relação entre o distanciamento e/ou menor contacto com determinados povos e a
presença de representações neutrais face a estes. Parece ainda existir uma
tendência para representações negativas relativamente a minorias, como é o caso
dos Ciganos, grupo que aparece sempre no campo mais negativo, com excepção do
de povo alegre.
Estas conclusões colocam alguns desafios quer ao sistema educativo, quer à
escola, mais propriamente aos professores. Esses desafios passam, no nosso
entender, pela necessidade de realizar um trabalho articulado entre as várias
línguas, no sentido de diversificar as línguas com as quais os alunos podem
contactar e ainda por um trabalho de sensibilização dos alunos para a
diversidade linguística e cultural. Tendo concluído que o reduzido contacto com
determinadas línguas aumenta o seu sentimento de afastamento em relação a elas,
e a ideia de inutilidade das mesmas, acreditamos ser necessário multiplicar e
diversificar as experiências linguísticas e interculturais dos professores e
alunos.
É ainda importante realizar um trabalho bem estruturado que ajude o público
escolar a tornar-se mais consciente não só dos seus conhecimentos sobre e nas
línguas (dimensão cognitiva), das suas representações, imagens, estereótipos e
preconceitos (dimensão imagética/representacional) e das suas práticas e
contactos no universo plurilingue e intercultural que os rodeia (dimensão das
práticas). O desenvolvimento da cultura linguística dos alunos só será possível
se se tentarem abordar as três dimensões deste conceito e se estas foram
trabalhadas de forma integrada e complexificada.
Foi este o desafio com que partimos para a segunda fase do nosso estudo, que
consistiu num trabalho interdisciplinar e colaborativo com uma turma de alunos,
durante um ano lectivo, e que teve como principal objectivo o desenvolvimento
da sua cultura linguística, sendo os resultados desta segunda fase apresentados
noutras publicações.