A Educação e o Desenvolvimento sob o Imperativo do Crescimento: Ressignificação
a partir da Sociedade Civil
Introdução
O crescimento está de regresso às agendas políticas do nosso tempo e é mesmo
uma obsessão em determinados países da OCDE, muito particularmente nos Estados-
membros da União Europeia. Aqui, a palavra fetiche, ou a nova figura do
sagrado, é o crescimento económico, único capaz de resgatar o ideal de justiça
social, hoje cada vez mais desacreditado junto de grandes massas de
empobrecidos e excluídos, quer do emprego, quer dos benefícios do Estado-
providência.
A hora parece ter chegado para tudo subordinar às perspetivas do crescimento, e
isso tanto do lado da educação quanto do desenvolvimento. Na verdade, a
educação e o desenvolvimento, enquanto parceiros de viagem, nunca deixaram de
sintonizar com as necessidades do crescimento, pelo menos desde o fim do
segundo grande conflito mundial, mas hoje, face à estagnação e à recessão de
várias economias avançadas, nomeadamente na região europeia, a palavra de
ordem, para a educação e o desenvolvimento, é manifestamente o crescimento.
O relançamento do crescimento económico, sendo incontornável para certos
países, não deixa de causar perplexidades pelo atrofiamento que pode impor em
termos de desenvolvimento e, correlativamente, da educação enquanto estratégia-
chave do seu cumprimento. De facto, o estreitamento das conceções de educação e
desenvolvimento já se está a verificar na região europeia e importa questioná-
lo desde já para não nos lamentarmos, mais tarde, que se avançou
desmesuradamente nesse reducionismo.
Ao mesmo tempo, importa equacionar se é chegada a hora de ressignificar a
educação e o desenvolvimento tendo em conta o superior interesse da pessoa
humana nas circunstâncias presentes e se essa mudança de narrativa pode ser
protagonizada pela sociedade civil, nomeadamente por intermédio das suas
organizações mais emblemáticas e combativas no espaço público: as associações
cívicas e os movimentos sociais.
O propósito é, portanto, este: partir de uma análise da subordinação da
educação e do desenvolvimento às perspetivas do crescimento económico na região
europeia e averiguar, com sentido hipotético e prospetivo, se uma nova
narrativa de educação e desenvolvimento pode ser patrocinada pela sociedade
civil sobre a base de uma ampla consideração dos desafios que hoje se colocam à
pessoa humana, quer em termos de vida em comum nas sociedades democráticas
pluralistas, quer naquilo que tem a ver com a defesa e a proteção das condições
de permanência e viabilidade ecológica dessa vida comunitária.
1. O retorno do feiticismo do crescimento: a educação e o desenvolvimento em
tempos de crise
Como meta do desenvolvimento e tarefa subsidiária da educação, o crescimento
económico não é um paradigma recente. O seu prestígio já vem de longe. Remonta,
pelo menos, aos anos que imediatamente se seguiram à Segunda Guerra Mundial e
às apostas que então se fizeram na industrialização e na modernização.
Abrangendo no mesmo arco a educação e o desenvolvimento, esse paradigma
afirmava claramente os princípios da racionalidade económica mais estrita e
desconsiderava, por esse facto, outras variáveis que não as relativas ao
aumento do produto interno bruto. A grande paixão era o crescimento e este, na
sua dimensão económica, media-se como progressão do PIB, quer dizer, " a
progressão do volume de todas as produções de bens e serviços que se vendem, ou
com preço monetário, produzidos pelo trabalho remunerado " (Latouche,
2011, p. 48-49).
Os círculos internacionais ligados à promoção do desenvolvimento, nutridos pela
experiência de três décadas das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e não
contentes com essa visão excessivamente focalizada na prosperidade económica,
acabam por protagonizar, no início da década de 1990, uma inversão de
perspetivas: desde o palco mundial das Nações Unidas e do seu Programa para o
Desenvolvimento (PNUD) passam a defender, e a inscrever em sucessivos
relatórios, que o paradigma orientador tem que ser outro; não mais o
crescimento pelo crescimento, ou a "fixação economicista no primado do
rendimento e da riqueza" (Sen, 2003, p. 35), mas a efetiva melhoria da
qualidade de vida das pessoas, agora medida em termos de liberdade, democracia,
segurança, igualdade de género, participação, direitos humanos e proteção do
meio ambiente.
A partir desta inversão paradigmática, e até muito recentemente, uma coisa
parecia certa: o desenvolvimento, assessorado pela educação, elege as pessoas
como centro e pensa-se, no âmbito de programas e projetos comunitários, de
maneira integral e multidimensional por forma a abranger, em todo o lado, as
componentes essenciais de uma vida decente e digna.
Aquilo que parecia certo e um dado adquirido, quer ao nível das ações e da
assunção de medidas, quer ao nível da retórica e das intenções, deixou de o ser
a partir de 2008 aproximadamente, altura em que se começa a assistir a um
agravamento e a uma deterioração da situação económico-financeira de
importantes economias avançadas do Ocidente, designadamente, e em grande
medida, das economias da região europeia. Subitamente, e num clima de grande
preocupação quanto ao futuro do Estado social e de sustentação das sociedades
de bem-estar material, dá-se um volte-face nas perspetivas da educação e do
desenvolvimento e um regresso ao passado. Um regresso que significou a retoma
do "velho" paradigma do crescimento económico enquanto modelo
diretor e imaginário orientador quer da educação quer do desenvolvimento.
O volte-face paradigmático, na região europeia, é bem visível em vários
documentos da Comissão Europeia, mas há um que é exemplar na cronologia e na
terminologia: a "Estratégia Europa 2020", dado a lume em março de
2010 e ainda nesse ano rubricado pelo Conselho e o Parlamento europeus. O
objetivo da Estratégia, no meio de tantas ansiedades e incertezas quanto ao
futuro da União, é claro e não deixa dúvidas: "Trata-se de uma agenda
para todos os Estados-Membros, tendo em conta as diferentes necessidades, os
diferentes pontos de partida e especificidades nacionais, a fim de promover o
crescimento de todos" (Comissão Europeia, 2010, p. 12). A prioridade é
manifestamente o crescimento, agora ressignificado como "crescimento
inteligente", já que se trata de relançar e desenvolver "uma
economia baseada no conhecimento e na inovação" (2010, p. 5). O que se
quer é "uma União da inovação... para assegurar que as ideias inovadoras
são transformadas em produtos e serviços que criam crescimento e postos de
trabalho" (2010, p. 6). Visam-se estratégias de retorno ao crescimento e
isso exige instrumentar a educação, sempre de mãos dadas com o desenvolvimento,
no sentido desse crescimento:
Um crescimento inteligente significa reforçar o conhecimento e a
inovação, enquanto fatores determinantes do nosso crescimento futuro.
Para tal é necessário melhorar a qualidade da nossa educação,
reforçar o desempenho da nossa investigação. Promover a inovação e a
transferência de conhecimentos em toda a União, tirar plenamente
partido das tecnologias da informação e da comunicação e assegurar a
transformação das ideias inovadoras em novos produtos e serviços que
criam crescimento e emprego de qualidade e que ajudam a enfrentar os
desafios societais que se colocam a nível europeu e mundial (2010, p.
14).
O crescimento é o eixo articulador de toda a Estratégia e consubstancia-se, in
fine, em crescimento essencialmente económico, ainda que se diga que deve ser
sustentável e inclusivo além de inteligente.
Com essa estratégia, e pelo período de uma década, a União dos vinte e sete
recoloca a educação e o desenvolvimento na linha direta do crescimento e
prepara o terreno para uma mudança de fundo no que concerne a missão das
instituições educativas, nomeadamente as instituições de ensino médio e
universitário. Aqui e ali a mudança já é notória e verifica-se que passa,
fundamentalmente, pelo recentramento da escola na norma da profissionalização e
da empregabilidade. A escola, objeto de culto económico e protagonista de uma
nova narrativa, é pouco a pouco reordenada e reorientada em função da
finalidade profissional dos estudos. Na prática, isso está a passar por uma
definição mais utilitária dos conteúdos de formação, com uma sobrevalorização
das áreas científicas e técnicas; pela seleção dos estudantes através de
dispositivos de orientação e acompanhamento visando a inserção no mercado de
trabalho; pela inculcação do espírito de empresa e pela centração economicista
nas virtudes do empreendedorismo; pela multiplicação dos estágios em contexto
laboral e pela definição estritamente profissional de livretes de competências
como passaportes para o emprego.
Verifica-se, neste espaço europeu de novo obcecado com o crescimento económico,
que a escola está em vias de reorganização curricular e que essa reorganização
visa tão-somente a sua adequação aos imperativos desse crescimento através da
construção de novas funcionalidades e de novas subjetividades. Por um lado,
acentua-se a visão mercantil dos estudos e a relação instrumental com a
escolaridade: "Trata-se menos de aprender do que gerir o seu percurso em
função de imperativos económicos" (Laval, Vergne, Clément, Dreux, 2011,
p. 191). Por outro, opera-se uma relativização da missão de transmissão de
saberes em ordem a favorecer, através da escola, "a fabricação de uma
subjetividade mercantil" (2011, p. 184) e o acesso às competências
congruentes com os objetivos do crescimento.
Os percursos escolares, a esta luz, já não são referidos a exigências de
verdade e de construção conceptual, ou sequer à formação de cidadãos lúcidos e
críticos em relação à sua situação, mas a uma racionalidade que invade todas as
esferas da existência humana em sociedade: a racionalidade económica.
Sob os auspícios desta racionalidade, as instituições de educação e formação
transformam-se num campo fértil de mercadorização de serviços ao cliente e
assumem-se cada vez mais como lugares de acumulação de capital. Repentinamente,
desinteressam-se da formação de cidadãos, ou de pessoas aptas para viverem em
sociedade, capazes de escolher, julgar e controlar os seus representantes, e
passam a investir em capital humano, ou seja, na produção de subjetividades
acomodadas às exigências do "crescimento inteligente", num mundo de
guerras económicas e financeiras à escala global.
Num contexto como este, e nas condições particulares da região europeia, a
tentação é centrar a ação educativa no desenvolvimento do potencial económico
dos indivíduos e transformar as instituições com esse mandato em campo de
treino, ora da empregabilidade, ora da reciclagem permanente. Como os desafios
do crescimento passam hoje pelo investimento no conhecimento, ou seja, pelo
capital imaterial, esse mandato deve produzir o novo homem conforme à economia
do conhecimento, hoje rebatizada de "inteligente" pela Comissão
Europeia (2010, p. 5).
A grande "casa" europeia, assediada pela guerra económica global e
em risco de ter que rever em baixa as expectativas em relação ao Estado social,
aposta decisivamente no crescimento do produto interno bruto e, assim, contra a
retórica que tem defendido, corre aceleradamente para a maximização do valor
instrumental das pessoas, fazendo delas, nesta época de crise, meros recursos
para as empresas. A crise está a servir de pretexto a essa visão restritiva das
pessoas, quando as pessoas, devidamente consideradas, não são apenas esses
recursos: "Os seres humanos não são meros meios de produção" (Sen,
2003, p. 302). São mais que capital humano ao serviço da economia e do
crescimento económico. Se é verdade que precisamos de pessoas preparadas para
as atividades produtivas, ergopara o mundo do trabalho, e se não podemos
ignorar que o crescimento, dentro de limites sustentáveis, pode ser
imprescindível para o desenvolvimento humano, também é certo que as pessoas são
fins em si mesmas e não meros utensílios da economia. De resto, é preciso
sublinhar que "não há vínculo automático entre crescimento e
desenvolvimento" (Pedrajas y Jordán, 2009, p. 225). A assimilação do
crescimento a uma elevação do bem-estar e, por maioria de razão, à felicidade,
é, segundo a expressão de Jean Baudrillard, "um extraordinário
bluffcoletivo… uma operação de magia branca" (1970, p. 42). O elevado
crescimento económico não se traduz necessariamente no bem-estar de todos:
Não é pelo facto do crescimento aumentar os rendimentos globais e
melhorar a situação média em termos monetários que reduz as
desigualdades de riqueza. Como vem a ser mostrado, desde 2004, pela
Comissão mundial sobre a dimensão social da globalização, muitas
riquezas são criadas, porém, não são de nenhum proveito para muitas
pessoas e muitos países (Laville, 2010, p. 169).
Sem medidas políticas concretas, muitas vezes ao arrepio dos interesses mais
firmemente estabelecidos, não há meio de traduzir o progresso económico em
verdadeiro progresso humano, respeitador da igual dignidade de todos e do
direito que todos têm a "vidas plenas e criativas" (Nussbaum, 2012,
p. 217) no seio de ambientes viáveis e duráveis, tanto naturais como sociais.
O regresso do feiticismo do crescimento económico à região europeia, tanto mais
aclamado quanto se acentuam, no presente momento, os efeitos negativos da crise
das dívidas soberanas, pode fazer perder de vista esse horizonte mais amplo do
desenvolvimento e, por extensão, da educação como vetor estratégico do seu
cumprimento, quer através de instituições de ensino e aprendizagem vocacionadas
para o efeito, quer através da própria sociedade civil, pois, como é justo
reconhecer, as suas organizações também são protagonistas de educação e
desenvolvimento. A promoção do desenvolvimento é uma responsabilidade
partilhada e a sociedade civil, com o seu potencial educativo, também pode dar
um interessante contributo nesse sentido.
2. Educação, sociedade civil e desenvolvimento
O desenvolvimento que se revela cada vez mais necessário está fortemente
condicionado por exigências e aspirações que vão além do mero crescimento
económico. O crescimento económico, "não obstante fazer parte de uma
política pública sensata, não é mais que uma parte e um instrumento dessa
política. As pessoas é que importam em última instância" (Nussbaum, 2012,
p. 217). A finalidade do desenvolvimento, tal como a meta de uma boa política
nacional e internacional, consiste em dar alento às aspirações das pessoas, as
quais vão além da satisfação de necessidades básicas. "As pessoas têm sem
dúvida necessidades, porém, também têm valores…Visualizar as pessoas unicamente
em função das suas necessidades poderia transmitir uma visão bastante limitada
da humanidade" (Sen, 2007, p. 54).
A perspetiva do desenvolvimento que não se deixa ofuscar e seduzir pelo fetiche
do crescimento pensa acima de tudo no bem-estar das pessoas. É um
desenvolvimento das pessoas, para as pessoas e com as pessoas. Se não discute a
relevância das variáveis económicas, e da própria sustentabilidade, na
qualificação da vida humana, dado serem essenciais a esse propósito, também não
se conforma com a redução do progresso a essas variáveis e, mais do que isso, a
uma visão da sustentabilidade estritamente vinculada à satisfação de
necessidades, tanto das presentes gerações como das gerações futuras.
Uma nova narrativa de educação e desenvolvimento, quer em termos ambientais,
quer em termos sociais, tem certamente a ganhar com essa largura de perspetivas
e, eventualmente, com o contributo das organizações da sociedade civil. Porquê
sociedade civil? Só porque está na moda desde há alguns anos a esta parte, ou
porque seria um desperdício não aproveitar a sua real implicação em questões de
educação e desenvolvimento?
A sociedade civil, não obstante a confusão e a ambiguidade a propósito do seu
significado, precisa de ser convocada quando está em causa a ressignificação da
educação e do desenvolvimento, pois, como se vai reconhecendo cada vez mais, a
sociedade civil é um importante agente de educação e desenvolvimento.
Concretamente, de que estamos falando quando nos referimos a "sociedade
civil"?
A sociedade civil é um significante de pluralidade e isso quer dizer, em
condições de crescente diferenciação social, que a sociedade civil se estrutura
como conjunto diversificado, e por vezes contraditório, de grupos, movimentos e
associações. O âmbito da sociedade civil, mais ou menos dilatado conforme os
quadros políticos de referência e as práticas institucionalizadas dos seus
atores, configura tanto a solidariedade e a cooperação como a disparidade e a
fragmentação. A sociedade civil é "o reino da fragmentação e da luta, mas
também de solidariedades concretas e autênticas" (Walzer, 1998, p. 16).
Nas suas esferas andam de mãos dadas a racionalidade estratégica e a
comunicativa, a competição de interesses e a cooperação, o individualismo
egoísta e a solidariedade. Se por um lado dá aos indivíduos a oportunidade de
cooperarem em defesa de interesses comuns, também os coloca em rota de colisão
quando autoriza a prossecução de interesses divergentes e contraditórios tanto
nas esferas públicas como privadas.
A sociedade civil, apesar da imprecisão que rodeia o seu significado, é um
valor bem cotado nas estruturas conceptuais do pensamento político
contemporâneo. Renasceu em grande escala nas décadas de 1980 e 1990 e pode
dizer-se, sem grandes exageros, que se tornou a vedeta do pensamento em torno
da sociedade e da política. Há certamente um largo consenso acerca da sua
importância, mas há igualmente um crescente desacordo acerca do seu senti-do
exato. "Há mesmo sinais, diz-nos J. Keane (2001, p. 49), de que os
sentidos da expressão 'sociedade civil' estão a multiplicar-se a um
ponto tal que, como uma frase publicitária que chama a atenção, ela se arrisca
a implodir devido ao excesso de uso".
A linguagem em torno da sociedade civil é cada vez mais confusa, tem diferentes
regras de gramática e, o que é pior, remete frequentemente para vocabulários
contraditórios. Por isso, como se vai reconhecendo, falar de uma sociedade
civil é problemático, pois a expressão faz referência, aqui e agora, a uma
grande variedade de associações, grupos, instituições, atores, movimentos,
todos marcados por uma grande diversidade de objetivos e pontos de vista acerca
do que deve ser uma sociedade 'boa'. Seja como for, algumas
consensualidades se têm construído em torno dessa matéria: longe de
corresponder a uma visão abrangente e totalizadora, onde se incluem as esferas
política , económica e social, tanto no que toca às normas como às instituições
e aos atores, a sociedade civil afirma-se hoje, essencialmente, como uma
realidade formada por redes de agregação voluntária, sejam movimentos sociais,
sejam sobretudo associações.
Essasconsensualidades,ouconvergências,colocamasociedadecivilentreoindivíduo e o
Estado e distinguem-na, na maioria dos casos, da esfera económica e do mercado.
Ou seja, o que predomina hoje é uma visão associativa e auto-organizativa
dasociedadecivil,tantoàmargemdomercadocomodoEstado,bemnalinhadavalorização
tocquevilliana da associação espontânea dos cidadãos. Isto mesmo é reconhecido
por um especialista na matéria, fazendo a síntese das ideias comumente aceites:
Originariamente, a expressão 'sociedade civil' refere-se
a um tipo de sociedade, e inclui tanto o estado como os mercados e o
tecido associativo. Com o tempo, deu-se um deslocamento semântico,
mediante o qual a sociedade civil passou a significar 'o que
não é estado' (mercados e associações) ou a reduzir-se a
associações. Hoje em dia, é muito frequente que na comunidade
académica, política e mediática se use a sociedade civil como
sinónimo de associações ou tecido associativo (Pérez-Dias, 2008, p.
222).
Os usos sociais da noção de sociedade civil são plurais e não se pode esconder
que há apropriações ideológicas dessa noção. A promoção mediática da sociedade
civil nem sempre se articula com um projeto de emancipação coletiva e,
portanto, com uma aposta em novas ideias e novos valores. Ainda assim, é
importante reconhecer o seu protagonismo na educação e na formação das pessoas
e o apoio que pode dar, neste tempo de novos desafios sociais e ambientais, à
promoção de uma nova noção de desenvolvimento.
A ação educativa da sociedade civil, mais além das instituições formais de
ensino, é uma evidência, mesmo que não se vá tão longe quanto Walzer (1998, p.
26). É um facto que a sociedade civil contribui enormemente para nos tornarmos
homens e mulheres sociáveis e comunitários. Nas organizações da sociedade civil
aprendemos a viver juntos, a respeitar regras e a desenvolver os nossos
talentos de seres humanos. "Todas as associações desenvolvem as suas
próprias disposições normativas e fazem a promoção de valores e comportamentos
que julgam os mais adequados" (Pirotte, 2007, p. 54).
Há todo um potencial educativo a explorar nas arenas da sociedade civil,
primeiro pelo trabalho hermenêutico da reflexão pedagógica e, depois, pelas
iniciativas da ação política, visando estas incentivos e recompensas a todas as
organizações que se comprometam com os objetivos do desenvolvimento humano. Com
efeito, não basta assinalar que as organizações da sociedade civil são uma
peça-chave na promoção do desenvolvimento, como de facto vem acontecendo desde
os anos 1980 e 1990, e isso tanto pela Comissão Europeia (2001) como pela
Unesco (2005), ou pelo FMI e o Banco Mundial, na sequência da adoção do
paradigma de desenvolvimento participativo como novo referente da ajuda ao
desenvolvimento. Se nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial a
noção de sociedade civil esteve ausente da reflexão sobre os caminhos do
desenvolvimento, já por volta dos anos 1990 a mesma noção torna-se uma peça
verdadeiramente central, para não dizer indispensável, das políticas de
desenvolvimento tal como foram concebidas e orquestradas pelas agências
internacionais.
A sociedade civil, libertando-se do poder sufocante do Estado e da sua
tendência para castrar as suas iniciativas, ainda que colaborando com ele nas
parcerias do desenvolvimento e da educação para o desenvolvimento,
designadamente através de associações e ONG's, começa a ter o
reconhecimento que merece, não obstante os perigos de instrumentalização a que
está sujeita, quer por parte dos agentes do Estado, quer por parte do mercado.
A sociedade civil não é a única depositária do bem público e nem sequer é um
poço de virtudes. "Não devemos esperar tudo de todo o tipo de associações
da sociedade civil" (Warren, 2004, p. 89). Ainda assim, e na atualidade,
face à necessidade de alavancar, desde as suas esferas, um renovado sentido
humanista da educação e do progresso, ou seja, do desenvolvimento que dá
centralidade aos valores mais apreciados pelas pessoas, importa resgatar e
valorizar o seu potencial, nomeadamente aquele que pode chegar a modificar
profundamente a vida pessoal mediante a transformação de certos estilos de vida
e pautas de comportamento.
Não há que esperar revoluções extraordinárias das organizações da sociedade
civil em termos propositivos e especialmente educativos. Porém, sempre podem
contribuir com novas ideias, novos valores e novas práticas quando se trata de
encarar de frente o desenho e a materialização de uma nova narrativa de
educação e desenvolvimento. Ou seja, quando de afigura premente, tanto em
palavras como em atos, a ressignificação da educação e do desenvolvimento mais
além do feiticismo do crescimento, da criação de riqueza, do produtivismo e da
acumulação de capital.
3. Mais além do crescimento: ressignificando a educação e o desenvolvimento a
partir da sociedade civil
A ressignificação da educação e do desenvolvimento não é uma tarefa exclusiva
da sociedade civil e mal estaríamos se não contássemos, mais cedo ou mais
tarde, com o protagonismo do Estado. Os poderes públicos têm sempre o seu
lugar, quanto mais não seja para tomar medidas legislativas e definir
enquadramentos normativos. O desejável é uma ação conjunta de Estado e
sociedade civil, porém, enquanto isso não acontece, um impulso pode ser dado a
essa ressignificação desde baixo, ou seja, desde as estruturas da sociedade
civil que se empenham, nas diversas arenas do espaço público, em abrir fissuras
no pensamento dominante e em marcar novas direccionalidades à educação e ao
desenvolvimento.
A educação e o desenvolvimento precisam do apoio da sociedade civil para se
libertarem do espartilho do economicismo e isso passa, hoje em dia, por
interpretar as aspirações das pessoas num quadro tão diverso e tão complexo de
desafios como a revitalização da vida em comum nas sociedades democráticas
pluralistas e a preservação dos recursos e das condições ambientais essenciais
a uma vida digna, tanto das gerações presentes como das futuras.
A ressignificação da educação e do desenvolvimento, a ser realista e oportuna,
assume para si esses desafios e organiza, através das organizações mais
combativas da sociedade civil, uma resposta a esse desafios, tanto nas palavras
como nos atos. De que modo é que isso poderia ser feito?
Antes de mais, insistindo na necessidade de uma socialização na diversidade e
de uma rutura com os mecanismos da divisão e da separação do espaço urbano em
ajuntamentos seletivos, enclaves étnicos, zonas proibidas e fechadas conforme a
cultura, a religião e a própria classe social. A socialização na diversidade
ajudaria a combater esse separatismo urbano e teria por ambição, nas áreas de
maior tendência à homogeneização, a sistemática exposição de toda a gente a
toda a gente a fim de as pessoas se tornarem menos estranhas uma das outras,
menos insensíveis e também menos insolidárias. Uma socialização na diversidade,
patrocinada e estimulada pela sociedade civil, pelos seus movimentos e
associações, ajudaria a vencer o medo dos estranhos, a dissipar os temores ao
desconhecido e a adquirir, num contexto de maior proximidade, as competências
sociais e relacionais que a vida em comum exige ou solicita, seja para realizar
iniciativas e projetos de interesse geral, seja para conviver na sociedade
multicultural.
O desenho e a materialização de uma nova narrativa de educação e
desenvolvimento, partindo da sociedade civil e tomando como referência os
desafios mais urgentes do presente, insiste nessa renovada modalidade de
socialização, quanto mais não seja para reaprendermos a viver juntos, e dá
particular atenção a duas importantes figuras de cidadania que precisamos de
reativar: a cidadania democrática, por um lado, e a cidadania ecológica, por
outro.
A importância da cidadania democrática justifica-se por dois motivos: em
primeiro lugar, porque é necessária ao envolvimento ativo dos cidadãos nas
novas formas de governação dos assuntos comuns, hoje mais descentralizadas e
mais próximas das coletividades. Depois, e em segundo lugar, porque não há meio
de a evitar quando se coloca a questão da reconstrução da democracia como
projeto de vida em comum, baseado na prossecução de valores como a liberdade, a
igualdade e a solidariedade, hoje em "estado de moratória" até que
a crise desapareça do horizonte, em particular nas economias da região
europeia.
A primeira das razões tem a ver com a implicação dos cidadãos em novas
modalidades de governação resultantes da manifesta impossibilidade de os
Estados corresponderem, sozinhos, às crescentes demandas sociais e de não serem
capazes de afrontar, com os seus recursos, os desafios emergentes nas áreas da
gestão dos territórios, como, por exemplo, as cidades. Uma dessas novas formas
de governação é a "governança democrática", a qual é hoje
patrocinada, em solo europeu, pela Comissão Europeia. Esta comissão tem vindo a
promover a governança como modo de governar baseado na horizontalidade e na
concertação e isso tem que ver, não apenas com a prática de um governo
supranacional que tem de articular os interesses de diferentes governos dos
Estados-nação, mas também com a necessidade de incorporar os governos
regionais, locais e a própria sociedade civil na construção da Europa. De
acordo com o Livro Branco sobre Governança Europeia, elaborado pela Comissão
Europeia em 2001, o conceito de governança abrange cinco princípios básicos:
abertura, participação, responsabilidade, eficácia e coerência. Os princípios,
segundo a filosofia desse documento, têm em vista fortalecer a relação da UE
com a sociedade civil e um maior uso das capacidades dos atores regionais e
locais em estabelecer as bases de uma clara definição dos objetivos políticos
da UE e centrar os papéis e as responsabilidades de cada instituição. A
governança, nesse sentido, associa-se diretamente com uma aposta de governo
pela descentralização, a participação cidadã e a colaboração da sociedade
civil.
A governança democrática, com esse contributo da Comissão Europeia, é hoje
entendida como nova arte de governar os territórios visando o desenvolvimento
humano, assente na participação dos cidadãos, no fortalecimento dos valores
cívicos, na revalorização da política democrática e na construção coletiva do
interesse geral. Como refere Pascual Esteve,
A governança democrática é uma nova forma de governar o território
que dá prioridade a dois temas: a articulação e complementaridade de
atuações públicas e privadas em projetos de ação com objetivos comuns
(projetos em rede) e a responsabilização e envolvimento dos cidadãos
em temas de interesse geral (2011, p. 290).
Esses temas relacionam-se com a gestão urbana, os cuidados de saúde ou mesmo a
educação. Assim, e desde a sociedade civil, a atribuição de significado
relevante à cidadania democrática acaba por ser necessária à dinamização e à
sustentação dessa nova forma de governação a que se chama presentemente
governança democrática.
A ênfase colocada na cidadania democrática, desde as esferas mais
representativas e mais combativas da sociedade civil, justifica-se, em segunda
análise, pela urgência de reconstruir, nestes tempos sombrios, a própria
democracia como projeto de vida em comum assente nos valores da liberdade, da
igualdade e da solidariedade. Da liberdade como potencialidade de fazer aquilo
que mais valorizamos na vida (Sen, 2003, p. 71); da igualdade ou da mesma
dignidade de todos os seres humanos; e da
solidariedadecomocompromissocívicoemrelaçãoàdefesadasvítimasdonão-
reconhecimento, da exclusão, da indecência e da humilhação.
Igualmente importante para a vida em comum, e mais ainda para a sua
sustentabilidade, é o apoio que a sociedade civil pode dar à cidadania
ecológica por intermédio de associações ambientalistas e de organizações não-
governamentais que se destacam nessa área. Além de cidadãos ativos e
participativos nas novas formas de governação, as sociedades, na era dos
problemas ambientais globais e da crise ecológico-planetária, também precisam
de cidadãos conscientes desses problemas, dessa situação, e dispostos a
colocarem o seu grão de areia na empresa coletiva de se conseguir a
sustentabilidade ambiental.
Além da reivindicação do direito a um meio ambiente adequado para a saúde e o
bem-estar, sempre importante e indispensável, o cidadão ecológico ou ambiental,
encorajado pela sociedade civil e dela colhendo os bons exemplos, estaria
sobretudo preocupado com o bem comum da sustentabilidade, e isso tanto a nível
local como global, já que os problemas ambientais atuais, verdadeiramente
sérios, não têm barreiras nem fronteiras. Uma cidadania ecológica articulada em
torno desse objetivo estaria, segundo Dobson (2010, p. 155), mais centrada nas
responsabilidades do que nas prerrogativas ambientais, ou seja, nos direitos.
Assim, o que se exigiria ao cidadão ecológico, a esse cidadão que a sociedade
civil também ajuda a construir nas suas esferas, é que não comprometa a
capacidade de outras gerações, presentes ou futuras, e não só do seu país, de
realizarem opções valiosas e de viverem uma vida significativa. Se há uma
obrigação para o cidadão, ambiental ou ecológico, essa obrigação só pode ser,
diante da defesa da sustentabilidade, a redução dos impactos no ecossistema, e
isso enquanto se produz e reproduz a vida diária, seja no domicílio, seja nos
lugares públicos. Desta forma, educar para a cidadania ecológica é educar para
assumir responsabilidades não só em relação ao presente mas também em relação
ao futuro, é ir além de territórios bem delimitados, como a esfera privada e o
próprio país, e é ainda uma ação de conscientização visando o conhecimento e a
mobilização para a defesa dos valores ambientais.
A sociedade civil, através dos seus atores e das suas organizações, não
garante, em todo o lado, esse tipo de educação, como aliás não assegura, a
priori, os incentivos à cidadania democrática. Ainda assim, sabemos que ajuda a
enfrentar os desafios ambientais atuais e isso já é reconhecido, inclusive, no
Documento Final da Unesco sobre a Década da Educação para o Desenvolvimento
Sustentável quando é cometido à sociedade civil a tarefa de promover valores,
como: "respeito e cuidado pela grande comunidade da vida, que inclui
proteção e restauração dos ecossistemas da Terra", ou ainda, e tendo em
conta esses valores, "estimular a sensibilização dos cidadãos, organizar
atividades de promoção, campanhas e grupos de pressão" (2005, p. 43 e
70).
A ressignificação da educação e do desenvolvimento, abrangendo no mesmo arco as
palavras e os atos, tem um importante aliado nas organizações da sociedade
civil que investem na revitalização da vida em comum e na preservação das
condições ambientais essenciais a uma vida decente e digna, tanto das gerações
presentes como das futuras. Se a motivação para uma ressignificação da educação
e do desenvolvimento mais além do crescimento não pode vir, na região europeia,
da esfera dos poderes públicos, dada a sua obsessão pela melhoria dos
indicadores económicos, talvez seja adequado olhar noutra direção e depositar
as nossas esperanças nas organizações que, desde baixo, introduzem novas
práticas e novos vocabulários acerca da educação e do desenvolvimento nestes
tempos de negação de direitos e de frustração das mais profundas aspirações
humanas.
Considerações finais
O retorno do feiticismo do crescimento à região europeia, correspondendo a uma
nova aposta no produtivismo e na melhoria dos indicadores económicos, encerra
um perigo para a educação e o desenvolvimento, pois, como vimos, pode
arregimentar a educação a uma visão excessivamente reducionista do
desenvolvimento, de baixa intensidade em preocupações ambientais e não levando
em linha de conta as aspirações das pessoas.
Importa dizer, nestas considerações finais, que a resolução das crises do
emprego e das dívidas soberanas, seja no contexto europeu ou em qualquer outro
lugar, não tem que passar pela ressacralização do crescimento a qualquer preço.
A procura de sociedades mais justas e a defesa da sustentabilidade ambiental
também são boas para o emprego e o controlo das dívidas públicas. Não é
reduzindo o desenvolvimento à melhoria do produto interno bruto e a educação a
uma estratégia de submissão aos seus desígnios que avançaremos para uma
sociedade mais equitativa em termos de oportunidades básicas e também mais
respeitadora das condições ecológicas à sua sobrevivência.
A eventualidade de uma regressão a discursos minimalistas de educação e
desenvolvimento torna atual a necessidade da sua ressignificação através da
reafirmação da centralidade das vidas das pessoas nas perspetivas futuras de
educação e desenvolvimento. O que importa é a vida das pessoas e o respeito
pela dignidade de todas. Ora, isso só é possível numa nova narrativa de
educação e desenvolvimento que não deixe de fora ninguém no seu desenho e na
sua materialização, designadamente as organizações da sociedade civil que, em
múltiplos fóruns e no dia-a-dia, se implicam na educação para um
desenvolvimento sustentável e verdadeiramente humano, porquanto focalizado nos
valores e nas aspirações de mais justiça, liberdade, respeito, reconhecimento,
democracia e participação na condução e gestão daquilo que a todos é
politicamente comum.
A sociedade civil, mesmo a mais inovadora e reivindicativa, não garante, por si
só, a ressignificação da educação e do desenvolvimento nesse sentido, pois essa
tarefa, sem a colaboração da entidade estatal, não irá muito longe. É preciso
contar com a sinergia de ambas, seja na redefinição da educação, seja sobretudo
na reorientação do desenvolvimento (Lucio-Villegas, 2007, p. 40). E se se der o
caso, como na região europeia, em que os poderes públicos vivem demasiado
absorvidos com as agendas do crescimento, importa conquistá-los para a
ressignificação da educação e do desenvolvimento através do protesto e da
apresentação de propostas, como aliás é da tradição das organizações da
sociedade civil que interpelam o status quo e abrem fissuras nas mentalidades
mais firmemente estabelecidas.
Uma vez que a política da sociedade civil, com sublinha Walzer (2008, p. 121),
"é necessariamente experimental", nada mais resta, nas presentes
circunstâncias, que ensaiar, desde as suas esferas, os primeiros passos de uma
ressignificação que se coloca na linha da frente contra a eventual degradação
da educação e do desenvolvimento numa gramática da exploração dos recursos
ambientais e humanos em função do produtivismo e da melhoria dos indicadores
que hoje sobressaem no discurso político mais economicista.