Formação profissional contínua e qualidade dos cuidados de enfermagem: a
necessidade de uma mudança de paradigma educativo
Introdução
O presente trabalho teve como origem as preocupações por nós sentidas, enquanto
docentes e investigadores, com a formação dos estudantes de enfermagem ao nível
da aprendizagem dos conhecimentos teóricos e teórico-práticos destes futuros
profissionais de saúde.
Verificamos, nomeadamente, que, pelas alterações analisadas nos últimos anos,
no ensino de enfermagem e na profissão, houve um processo de crescimento
significativo. Tem sido um caminho repleto de curvas e obstáculos, nem sempre
fáceis de transpor. Porém, é ao nível da qualidade dos cuidados que a
insatisfação mais se faz sentir.
Face a todas estas mudanças, também as funções do enfermeiro têm sofrido
alterações substanciais, nas últimas décadas. Por isso, a preocupação com a
evolução, e com a melhoria da qualidade percebida, dos cuidados de enfermagem,
continua a ser uma constante, quer para os profissionais quer para a Ordem dos
Enfermeiros (OE).
Sendo as competências relacionais e sociais de grande complexidade e de difícil
formalização, a revisão de literatura evidencia que, para além dos programas
curriculares e do trabalho desenvolvido pelos professores, é no decorrer do
ensino clínico (EC) que o estudante consolida os conhecimentos adquiridos nas
aulas teóricas (Carvalho, 2005). É, ainda, durante este período, que o futuro
profissional parece ter uma verdadeira oportunidade de desenvolver e aplicar os
conhecimentos técnicos e científicos, o que implicaria a associação de
atitudes, normas e valores, à sua conduta.
Desta forma, podemos dizer que o estudo das "competências de terceira
dimensão" Aubrun e Orofiamma (1990) sugere que estas devem ser analisadas
à luz do habitus(Bourdieu, 1997) e do processo de socialização profissional
(Dubar, 1997).
A complexidade dos resultados obtidos sugere-nos reforçar a ideia de que apenas
o contexto de trabalho poderia constituir o autêntico fator de promoção do
desenvolvimento das competências. Na perspetiva de Vygotsky (1978), o ser
humano desenvolve-se pela interação social, pelo que o desenvolvimento
cognitivo mantém uma estreita relação com a situação de aprendizagem. Para o
autor, a aprendizagem quando significativa, estimula e desencadeia o avanço
para um nível de maior complexidade, o qual serve, por sua vez, de base para
novas aprendizagens. Assim, a qualidade da aprendizagem contextualizada da
profissão de enfermagem seria mediatizada pela ação tutorial de um indivíduo
mais experiente, a qual, em situação de EC, competiria mais ao enfermeiro
orientador do que à competência do corpo decente da escola. Desta forma, a
emergência das competências pode constituir-se como um fator mediador entre a
formação e os cuidados prestados, na medida em que as dimensões relacionais
(comunicação, informação, apoio emocional, cortesia, disponibilidade) são
valorizadas pelo cliente e constituem o modo a partir do qual estes definem a
qualidade dos cuidados.
Este aspeto evidencia o papel dos contextos no processo de ensino/aprendizagem,
na medida em que exercem grande influência sobre o sujeito que aprende,
promovendo mudanças nos domínios, cognitivo, psicomotor e atitudinal, podendo
ocorrer tanto para responder a necessidades correntes de trabalho como para
desenvolver competências relevantes para atividades futuras. Pode considerar-se
como uma variável responsável pelas diferenças de comportamento das pessoas,
segundo a perspetiva de Fishbein e Ajzen (1980), que as atitudes e as normas
podem influenciar o comportamento de forma indireta através da intenção
comportamental, o que revelaria uma posição mediadora. Logo, à luz da revisão
de literatura os aspetos da socialização e do habitus seriam bastante
relevantes para o desenvolvimento das "competências de terceira
dimensão".
Também nesta perspetiva se pode evocar o modelo de Nonaka e Takeuchi (1997) que
apela a quatro processos de criação do conhecimento: socialização,
explicitação, combinação e incorporação. Este modelo evidencia que há
diferenças fundamentais entre a informação, o conhecimento e a competência,
pelo que os autores fazem a distinção entre o conhecimento explícito e o
conhecimento tácito. Na sequência deste modelo presume-se que o acesso ao
ensino formal, mais vocacionado para a obtenção do conhecimento explícito, não
poderia ser distintivo da preparação dos enfermeiros. Seria, antes, no seio de
um processo de evolução em espiral, envolvendo o indivíduo, o grupo e a
organização, que se cria mais conhecimento, como resultado de uma interação
entre todos os atores organizacionais.
Dado que a formação inicial tem um papel determinante no desenvolvimento
profissional, caberia à escola, enquanto instituição formatadora, repensar os
curricula e os modelos pedagógicos que administra, garantir os saberes e o
"treino" cognitivo e, sobretudo, dotar-se dos protocolos
necessários com organizações e com os profissionais devidamente habilitados em
competências tutoriais. Desligadas da prática profissional será difícil que as
escolas possam garantir a aquisição das competências de base, e promover,
adequadamente, as condições indispensáveis de uma socialização profissional
conducente à prestação de cuidados com elevada qualidade.
A escolha desta temática deve-se à nossa preocupação (académica e profissional)
sobre a forma como são prestados os cuidados de saúde, por parte dos
enfermeiros.
A pesquisa desenvolvida segue um modelo descritivo-transversal; para o estudo
empírico optou-se por uma metodologia de tipo multimétodo.
Como objetivos de pesquisa empírica, foram definidos os seguintes: o primeiro
tem algo específico e, igualmente, uma dimensão geral, na medida em que só no
final dos estudos este poderia estar cabalmente respondido. Os restantes
objetivos são específicos. Assim, pretende-se:
Avaliar se os profissionais de enfermagem consideram que a formação inicial se
encontra devidamente orientada para a emergência das competências necessárias
para serem prestados cuidados de qualidade;
Avaliar a perceção da satisfação dos utentes com os cuidados de enfermagem;
Identificar as diferenças que os enfermeiros e os utentes percecionam acerca da
qualidade dos cuidados.
Pretende-se, enfim, compreender de que forma é que os enfermeiros constróiem os
seus saberes e os disponibilizam à comunidade, centrando-nos no papel do ensino
de enfermagem e nas competências adquiridas ao longo da formação profissional
contínua.
1. Metodologia
Este trabalho assenta numa análise multimétodo e contempla duas linhas de
investigação: a 1ª linha constitui o ponto de partida do nosso trabalho. Para
isso, efetuámos dois estudos.
Estudo 1: pretende proceder a uma revisão de literatura pelo que, realizámos
entrevistas exploratórias dirigidas a peritos (enfermeiros chefes, enfermeiros
supervisores, enfermeiros diretores) de organizações públicas e privadas de
saúde, docentes de enfermagem e ex-bastonária da OE, num total de dezassete
(17) participantes, sobre formação, autonomia e modelo de gestão.
Estudo 2: pretende compreender a perceção dos enfermeiros sobre a importância
da formação para a qualidade dos cuidadosPara tal, realizámos entrevistas semi-
directivas, estruturadas a partir de um guião orientador, elaborado a partir
dos temas resultantes, da 1ª linha do estudo. A amostra constituída por vinte e
seis enfermeiros (26) detentores da titulação inicial, há cinco anos e mais, e
com formação pós-graduada, de diferentes categorias, de unidades de CSP e
cuidados hospitalares. Do estudo efetuado resultou um modelo inicial de
investigação que representa os aspetos facilitadores e inibidores da qualidade
dos cuidados.
Na figura_1, estão representados no modelo os aspetos facilitadores sugeridos
pelos resultados obtidos no estudo por nós realizado, no qual é evidenciado que
a qualidade dos cuidados está intimamente ligada com a formação inicial e com a
formação contínua, embora seja referido que as recentes alterações das
políticas de saúde também tenham influenciado a conceção dos cuidados. Para
este modelo contribuiu, também, a revisão de literatura previamente efetuada.
A figura_2 representa um modelo dos aspetos inibidores da qualidade dos
cuidados sugeridos no estudo por nós realizado e para o qual também contribuiu
a revisão de literatura já efetuada.
Nesta 1ª linha do estudo, foi utilizada a abordagem qualitativa, com
aproximação à metodologia da Teoria Fundamentada, para poder construir um
embrião de explicações teóricas, tão completas quanto possível, de um fenómeno
considerado importante para a profissão: a relação entre formação e qualidade
dos cuidados.
Para uma investigação avançar é indispensável a formulação de objetivos (Quadro
1) de pesquisa empírica, via pela qual optámos.
A 2ª linha deste trabalho, é realizada de uma "forma dedutiva", tendo
por base os conhecimentos teóricos e as entrevistas semi-diretivas efetuadas.
Pretende avaliar a satisfação dos utentes em relação à qualidade dos cuidados.
É um estudo descritivo-transversal com uma metodologia quantitativa e
qualitativa, procedendo à análise documental, em suporte informático. Para a
sua concretização realizámos dois estudos:
Estudo 1: desenvolveu-se a partir da aplicação de dois instrumentos de colheita
de dados, SUCEH21 para contexto de cuidados hospitalares, aplicado a cento e
dezasseis (116) clientes; SUCECS26 para contexto de cuidados de saúde primários
(CSP), aplicado a sessenta e nove (69) clientes destes serviços, tendo
resultado um modelo em que se salientam os aspetos mais relevantes para a
medição da sua satisfação.
Médias da escala de satisfação dos utentes em contexto hospitalar
Relativamente aos clientes do contexto de cuidados de saúde hospitalar,
efetuámos uma média ponderada para obter valores que são diretamente
comparáveis, visto que as dimensões se baseiam num número variável de
afirmações.
Analisando a tabela_1, constatamos que o valor médio de satisfação oscila entre
2,39 (dimensão continuidade dos cuidados) e 13,14 (subescala qualidade no
atendimento). Por sua vez, ao analisar o desvio-padrão, verificamos valores
elevados de dispersão em todas as dimensões à exceção da subescala prontidão na
assistência (aqui as respostas parecem ser unânimes); este facto indicia a
existência de clientes distribuídos em duas faixas: os pouco satisfeitos e os
muito satisfeitos.
Visto que as dimensões se baseiam num número variável de afirmações, efetuámos
uma média ponderada para obter valores que são diretamente comparáveis,
para os participantes do Hospital.
Pela análise da tabela_2, verifica-se que o valor de média de satisfação oscila
entre um mínimo de 1,20 (dimensão continuidade dos cuidados) e o valor máximo
de 2,80 (subescala ambiente terapêutico). Considerando o ponto intermédio de
1,50, observa-se que a dimensão continuidade de cuidados está em terreno
negativo; a dimensão utilidade da informação também não apresenta valores muito
elevados. Por sua vez, ambiente terapêutico, qualidade no atendimento e
prontidão na assistência são dimensões com perceção positiva dos clientes.
Análise correlacional em contexto hospitalar
Para avaliar o objetivo de que existe relação entre as habilitações literárias
dos clientes e a sua satisfação com os cuidados de enfermagem, efetuámos a
correlação de Pearson (tabela_3).
Analisando a tabela_3, podemos concluir que existe uma associação parcial entre
a satisfação e as habilitações literárias. Só encontrámos correlações
estatisticamente significativas com as dimensões qualidade no atendimento (r=-
0,31; p=0,001), ambiente terapêutico (r=-0,24; p=0,01) e continuidade de
cuidados (r=-0,22; p=0,02). Uma vez que todos os valores têm sinal negativo,
concluímos que há uma relação inversa entre as duas variáveis, ou seja, à
medida que aumenta a diferenciação académica dos participantes, a sua
satisfação com os cuidados de enfermagem diminui.
Médias da escala de satisfação dos clientes em contexto de CSP
Relativamente aos clientes do contexto de CSP, efetuámos uma média ponderada
para obter valores que são diretamente comparáveis, visto que as dimensões se
baseiam num número variável de afirmações.
Pela tabela_4, verifica-se que o valor médio de satisfação oscila entre 3,10
(dimensão formalização da informação) e 24,94 (subescala qualidade na
assistência). Os valores de desvio-padrão não são elevados nas subescalas
qualidade na assistência e individualização da informação; contudo, nas
dimensões envolvimento do cliente, informação dos recursos, formalização da
informação e elo de ligação, os valores indiciam dispersão dos scores dos
participantes.
Contudo, uma vez que as dimensões se baseiam num número variável de afirmações,
efetuámos uma média ponderada para obter valores que são diretamente
comparáveis.
Pela tabela_5, observa-se que o valor de média de satisfação oscila entre um
mínimo de 1.55 (formalização da informação) e o valor máximo de 2,77 (subescala
qualidade na assistência). Considerando o ponto intermédio de 1,50, constatamos
que as dimensões inf ormação dos r ecursos, formalização da inf ormação e elo
de ligação estão no limite inferior, apresentando valores marginais de
satisfação positiva. No que toca à qualidade na as sistência, individualização
da informação e envolvimento do utente, são dimensões pontuadas positivamente
pelos nossos clientes.
Análise correlacional de satisfação dos clientes em contexto de CSP Para
avaliar o objetivo de que existe associação direta entre as habilitações
literárias dos clientes e a melhoria da satisfação dos mesmos, efetuámos a
correlação de Pearson (tabela 4.42).
Analisando a tabela_6, podemos concluir que existe uma associação parcial entre
a satisfação e as habilitações literárias. Só encontrámos correlações
estatisticamente significativas com as dimensões qualidade na assistência (r=-
0,32; p=0,008), individualização da informação (r=-0,25; p=0,039) e
envolvimento do utente (r=-0,32; p=0,007). Uma vez que todos os valores têm
sinal negativo, concluímos que há uma relação inversa entre as duas variáveis,
ou seja, à medida que aumenta a diferenciação académica dos participantes, a
sua satisfação com os cuidados de enfermagem diminui.
Para testar se existem diferenças na satisfação dos cuidados de enfermagem
relativamente ao género utilizámos o teste t de Student.
Assim, e de acordo com a tabela_7, só foram encontradas diferenças
estatisticamente significativas nas subescalas qualidade na assistência (média
do género masculino = 26,88; desvio-padrão de 0,33; média do género feminino =
24,65; desvio-padrão de 3,60; t=4,68; p=0,000) e informação dos recursos (media
do género masculino = 6,22; desvio-padrão de 1,39; média do género feminino =
4,48; desvio padrão de 2,58; t=3,04; p=0,007). Pelos valores médios, concluímos
que os homens apr esentam níveis mais ele vados de satisf ação.
Pela tabela_8, vê-se que não há diferenças estatisticamente significativas,
exceto na subescala formalização da informação (média dos que recorrem ao
tratamento = 2,38; desvio-padrão de 1,59; média dos outros motivos = 3,41;
desvio padrão de 1,71; t= -2,35; p=0,021) onde quem se desloca por outros
motivos apresenta médias mais elevadas.
No quadro_2, apresentamos os resultados obtidos a partir dos objetivos
analisados, procedendo-se a uma descrição sintética, de modo a realizar a sua
leitura integrada facilitada pelo quadro.
Da análise dos dados obtidos através dos formulários aplicados aos clientes,
podemos concluir que, em contexto hospitalar, a satisfação destes com os
cuidados de enfermagem encontra-se agrupada em três itens:
* Qualidade no atendimento (13,14);
Ambiente terapêutico (11,21);
Prontidão na assistência (5,24).
Os dados obtidos através dos questionários administrados aos clientes em
contexto de CSP, sobre a satisfação dos mesmos em relação aos cuidados de
enfermagem, e após a sua análise, agrupámo-los em três itens:
* Qualidade na assistência (24,94);
Individualização da informação (16,42);
Envolvimento do utente (7,77).
Estudo 2constitui a última etapa da investigação e diz respeito à avaliação, de
uma forma global, da insatisfação dos clientes em relação aos cuidados de
enfermagem, relativamente às organizações em estudo. Recorre-se à análise
documental, em suporte informático, das reclamações dos clientes, num total de
noventa e quatro (94), colhidas no "Observatório Nacional do Gabinete do
Utente". Teve como propósito "representar de outro modo a
informação obtida, por intermédio de procedimentos de transformação"
(Bardin, 1995, p.45).
Pela análise da informação obtida, verifica-se que as reclamações incidem mais
nas competências relacionais/comportamentais, logo seguidas da prestação de
cuidados de saúde, das infraestruturas e dos atos administrativos.
1. Competências relacionais/comportamentais' neste âmbito as reclamações
distribuem-se em três níveis:
* Promoção da continuidade de cuidados' onde 5,3% referem falta de informação
aos utentes/familiares"e 1% referem que háfalta de informação sobre os
serviços;
Eficácia na comunicação'3,19% referemdesrespeito no trato interpessoal;
Manutenção do ambiente terapêutico'39% referemfalta de cortesia e 1,6%
desrespeito pala privacidade.
2. Prestação de cuidados' os utentes reclamam da qualidade no atendimento,
sendo que 7,44% se referem a uma má prática e 19,5% referem
negligência".
Conclui-se daqui que, segundo indicam os números, uma percentagem significativa
de utentes considera haver negligência na prestação de cuidados. Ora, não se
tendo aprofundado o conceito de negligência para os clientes, será precipitado
afirmar que os profissionais de enfermagem são tão negligentes como indicam os
resultados, porque é dedutível que esta representação por parte dos clientes é
sempre feita a "quente" e em momentos em que a resposta à
necessidade/ansiedade é avaliada mais na perspetiva da emoção do que da razão.
O mesmo se poderia arguir no que respeita ao que os clientes consideram como
uma má prática.
1. Ainda neste âmbito, 6,4% dos utentes reclamam da prontidão na assistência,
dos quais 3,2% se referem ao "tempo de espera e igual número se queixa
da "recusa da consulta de enfermagem, por falta de processo clínico.
2. Infraestrutura -Verifica-se nesta temática algum descontentamento em
relação aos recursos disponíveis, nomeadamente:
* Recursos físicos (materiais)' 1,08% falam de desadequação do equipamento;
1,06% em escassez" e 2,12% em falta de "higiene do meio
ambiente";
Recursos humanos -3,2% reclamam da "funcionalidade da equipa.
3. Atos administrativos -relacionam-se, sobretudo, com o "extravio
de pertences e com questões relacionadas com a organização e funcionamento dos
serviços, nomeadamente desorganização …" e "desarticulação entre
serviços.
2. Resultados e discussão
Os resultados obtidos estão estruturados segundo uma parte analítica e uma
parte interpretativa, consideradas complementares, procurando-se uma melhor
compreensão dos dados e resultados.
A pesquisa teórica orienta-se para o modelo sintetizado na figura_3, pelo que
ele está ancorado na revisão da literatura.
A qualidade dos cuidados, de acordo com o modelo, seria influenciada pela
formação a qual exerceria, por sua vez, uma ação no paradigma do cuidar,
contribuindo para a satisfação do cliente, e tendo como fator mediador o
desenvolvimento de competências, sobretudo de âmbito relacional e social.
Nesse sentido, surge a necessidade de comparar as representações de
"qualidade dos cuidados" na perspetiva dos enfermeiros e na
perspetiva do utente, destacando-se dois grupos de fatores emergentes, que
denominamos por fatores facilitadores da perceção da qualidade dos cuidados e
fatores facilitadores da perceção da satisfação do cliente. Da comparação,
resulta que é comum aos resultados apresentados o fator competências,
nomeadamente as competências relacionais e sociais que emergem, assim, como uma
variável mediadora da formação e da qualidade dos cuidados.
O primeiro grupo, fatores facilitadores da qualidade de cuidados, é compos-to
pela formação (inicial, pós graduada e contínua), pelo paradigma do cuidar e
pelas políticas de saúde. Cada um destes fatores apresenta uma associação
direta com o fator qualidade dos cuidados, a qual integra, em conjunto com o
fator satisfação do cliente, o segundo grupo de fatores deste modelo. Os
fatores facilitadores da satisfação do cliente não influenciam diretamente a
qualidade dos cuidados, mas contribuem para a satisfação deste, o que se
repercute, de forma indireta, na qualidade dos mesmos. Embora a teoria pareça
indicar que a satisfação está contida nos parâmetros da qualidade, o modelo
separa os dois conceitos talvez porque, devido à assimetria de informação, o
cliente e os interessados em geral acabam por ter alguma lógica na sua
distinção.
O segundo grupo, facilitadores da satisfação do cliente, é composto pela
qualidade do atendimento e prontidão na assistência, pelo ambiente terapêutico,
pela individualização da informação e pelo envolvimento do utente. Este grupo
não apresenta uma relação direta com a qualidade dos cuidados mas contribui
para a satisfação do cliente, o que influencia, de forma indireta, a qualidade
dos cuidados.
Por último, procura-se identificar as possíveis diferenças que os enfermeiros e
os clientes têm da qualidade dos cuidados.
Desta forma, o modelo de chegada é constituído pelos fatores já referidos;
entretanto, com exceção do segundo ciclo de formação, todos os restantes estão
presentes no modelo final, apresentando lógicas relacionais diferentes.
Pode concluir-se, deste modo, que os estudos realizados, de natureza
qualitativa e quantitativa, permitiram a identificação de um conjunto de
variáveis que influenciam, direta e indiretamente a perceção da qualidade dos
cuidados e a satisfação dos clientes, envolvidos na amostra. Neste estudo
empírico verificou-se que, na perspetiva dos profissionais de enfermagem, foram
valorizados três (3) fatores facilitadores da qualidade dos cuidados, que estão
relacionados com a formação e com o contexto organizacional: formação,
paradigma do cuidar e políticas de saúde. Já na perspetiva do cliente, foram
identificados os fatores facilitadores da satisfação que dizem respeito a:
qualidade no atendimento e prontidão na assistência, ambiente terapêutico,
individualização da informação e envolvimento do utente.
Os resultados da pesquisa indicam, assim, que há fatores que estão relacionados
com a formação, pelo que é necessário refletir sobre estes aspetos, para que o
processo formativo contribua, de forma positiva, para a qualidade dos cuidados.
Tendo consciência que há fatores relacionados com aspetos organizacionais que
se cruzam com a formação, parece evidente a necessidade de rever todo o
processo formativo.
Apesar da complexidade dos resultados, parece ser indiscutível que o contexto
de trabalho emerge como o verdadeiro promotor do desenvolvimento das
competências, apoiando a perspetiva de Vygotsky (1978) em que o ser humano se
desenvolve pela interação social, quando o desenvolvimento cognitivo mantém uma
estreita relação com a aprendizagem. Recorde-se que para o autor, a
aprendizagem quando significativa, estimula e desencadeia o avanço para um
nível de maior complexidade que, serve de base para novas aprendizagens. Assim,
a aprendizagem contextualizada seria mediatizada por um indivíduo mais
experiente, que em situação de EC compete ao enfermeiro orientador. A leitura
dos resultados à luz desta perspetiva, permite confirmar que a emergência das
competências pode constituir-se como um fator mediador entre a formação e os
cuidados prestados, na medida em que as dimensões relacionais (comunicação,
informação, apoio emocional, cortesia, disponibilidade) são valorizadas pelo
cliente e que é este o modo como eles definem a qualidade dos cuidados.
Este aspeto evidencia o papel dos contextos no processo de ensino/aprendizagem,
pela sua elevada influência sobre o sujeito que aprende, promovendo mudanças
nos domínios, cognitivo, psicomotor e atitudinal, podendo ocorrer tanto para
responder a necessidades correntes de trabalho como para desenvolver
competências relevantes para atividades futuras. Pode considerar-se como uma
variável responsável pelas diferenças de comportamento das pessoas que, segundo
a perspetiva de Fishbein e Ajzen (1980), as atitudes e nor-mas podem
influenciar o comportamento de forma indireta através da intenção
comportamental, o que revelaria uma posição mediadora. Logo, à luz da revisão
de literatura os aspetos da socialização e do habitus seriam bastante
relevantes para o desenvolvimento das "competências de terceira
dimensão".
Face ao exposto, observa-se que, apesar de na formação inicial se ter feito um
esforço de adequação dos curricula e de reformulação o modelo de EC, a redução
do hiato que parece existir entre a formação e a prática apenas poderá ser
conseguida com uma "escola em alternância" o que parece constituir
a ponte entre as duas perspetivas. A atual ênfase colocada no capital
intelectual exige um novo perfil profissional, mais comprometido afetivamente
com a organização e com os resultados, que possam traduzir-se na satisfação do
cliente e na humanização dos cuidados de saúde; exige ainda um novo modelo de
educação, de caráter mais cognitivo e afetivo, tendo como principal
beneficiário o cliente. Para tal, o perfil do profissional de enfermagem
deveria compreender um compromisso com a universalidade, a equidade e a
integralidade do cuidar.
Conclusão
O conhecimento alcançado em relação à presente pesquisa permite compreender
aspetos importantes do processo de ensino/aprendizagem, não só relacionados com
os conteúdos teóricos mas também com os ensinos clínicos. A pesquisa
desenvolvida abriu leques para a procura de novas informações e permitiu a
elaboração de um quadro de conhecimento de base tendente a questionar a
articulação do sistema de formação com os contextos da prática.
Da investigação surge, ainda, como problema pertinente de pesquisa posterior a
mudança de paradigma: de um ensino sequencial, baseado nos saberes como suporte
para a aquisição de competências do cuidar, para um sistema em que a aquisição
de competências, interagindo em permanência com os saberes adquiridos, se
completaria no contexto de execução como ambiente formativo indispensável.
O paradigma vigente forjaria, deste modo, umhabitussuportado na noção de
saberes, passíveis de serem mobilizados em contexto; esse habitus tenderia,
entretanto, a bloquear o desenvolvimento de competências em exercício. Seria,
pois, de pressupor, no atual paradigma uma espécie de inevitabilidade de o
profissional ter de se desfazer do habitus escolar para adquirir o
habitusprofissional. Esta situação parece criar um problema de identidade
profissional na medida em que a sequência dohabitus escolar seria um
desenvolvimento do tipo biomédico e não um desenvolvimento de cuidar. O
designado mode-lo holístico do sistema vigente pode não passar de um voto de
intenções, na medida em que, para que ele se concretize terá que ser planeado e
construído em consequência das necessidades de cada cliente, como determinante
para a aquisição das competências.
É, efetivamente, neste aspeto que necessitamos de promover uma revolução
paradigmática abrangendo os três atores envolvidos: docentes, estudantes e
supervisores clínicos, de forma a diminuir o fosso entre as organizações de
ensino e as organizações prestadoras de cuidados, no seio das quais deverão ser
recrutados os supervisores e onde ocorre, para o melhor ou para o pior, a
formação/formatação dos profissionais de enfermagem.