"Novos" territórios e agentes educativos em sociologia da educação: o caso da
educação de adultos
Introdução
As transformações ocorridas no campo da educação têm sido intensas e múltiplas,
nomeadamente as verificadas entre nós, mas a sociologia da educação continua
centrada no estudo da escola. É verdade que existem investigações e reflexões
que se têm dedicado a outros contextos e actores educativos (Afonso, 1992,
2001a; Aníbal & Moinhos, 2010; Canário, 2008; Domínguez, 2000; Lima &
Afonso, 2006; Pain, 1990; Palhares, 2008; Sue, 2001). No entanto, quando as
comparamos com as que têm sido feitas sobre a realidade escolar é notória a
pouca importância que continua a ser-lhes dada. Veja-se, a título meramente
exemplificativo, a diminuta quantidade de artigos referentes a outros contextos
educativos, que não o escolar, que aparecem nas revistas de referência nacional
e mundial na área específica da sociologia da educação.
Naturalmente este interesse justifica-se, mas o que é menos compreensível é
continuar a dar-se pouca atenção às outras educações (Loureiro, 2009a). Se já
fazia sentido antes a sociologia da educação dedicar-lhes mais atenção, como
têm alertado alguns autores estrangeiros (Bonal, 1998; Cerdá, 2000; Domínguez,
2000; Maza, 1997; Pain, 1990) e também nacionais, sobretudo Afonso, desde há
longa data (1992, 2001a, 2001b, 2005, 2010), muito mais pertinência tem hoje
fazê-lo, altura em que a educação não formal tem um relevo cada vez maior e
inclusive tem assumido alguns papéis que eram exclusivos da escola, como o da
possibilidade de, em determinados casos, poder realizar certificação escolar.
Enfim, numa época em que assistimos a uma pedagogisação da sociedade
(Bernstein, 2001; Lima, 2010) é de todo essencial intensificar o olhar sobre
essas outras modalidades educativas.
Esse assumir de importância tem sido sentido particularmente no campo da
educação não formal dos adultos, por isso as reflexões que aqui se trazem têmno
por referência. Ou seja, pensamos que esta é uma área que deve ser mais
investigada pela sociologia da educação. Com isto não queremos dizer que ela
não se tem dedicado à educação de adultos. Na verdade, tem-no feito, mas de
forma intermitente e quando o faz tem-se dedicado, grandemente, à educação
escolar dos adultos.
Prova da dedicação, reflexão e também da defesa, de forma mais ou menos
explicita, do estudo da educação de adultos no âmbito da sociologia da
educação, são os trabalhos de, e sem pretendermos ser exaustivos, diversos
autores estrangeiros, tais como Thomas (1982), Elsey (1986), Jarvis (1987,
1989, 1997, 2000), Rubenson (1989), Flecha (1994, 1997), Llavador e Llavador
(1996), Torres (1997), Domínguez (2000), Cabo (2000) e Dubar e Gedea (2001).
Também entre nós é possível encontrar alguns trabalhos que se podem enquadrar
dentro de uma sociologia da educação de adultos. As reflexões mais amplas de
Canário (1999) sobre a educação de adultos, as que articulam a educação de
adultos com o desenvolvimento local, de Melo (2008), as que têm feito
abordagens sociológicas das políticas da educação de adultos (Barros, 2009;
Guimarães, 2009; Lima, 2007; Melo, 2004; Rothes, 2009), que se inscrevem numa
certa tradição de análise das políticas educativas (Afonso, 1999, 2001c;
Teodoro, 1994, 2005; entre outros), as que defendem uma pedagogia para os
adultos baseada no método biográfico (Correia, 1998), as que se debruçam sobre
os adultos pouco escolarizados e os respectivos processos de educação e
formação (Ávila, 2008; Cavaco, 2008), e as que têm analisado a educação de
adultos em contextos educativos não escolares, como as de Lima (2006, 2011a),
Loureiro (2009a, 2010a,b) e Loureiro e Cristóvão (2010), são algumas dessas
ainda poucas investigações e reflexões.
Portanto, e reafirmando o defendido antes, é verdade que têm existido alguns
estudos que poderemos enquadrar dentro de uma sociologia da educação de
adultos. No entanto, esta área da educação tem sido, de forma incompreensível,
pouco investigada. Neste artigo1, procuramos dar um pequeno contributo para que
se inverta essa tendência, partindo, essencialmente, do que se tem passado na
última década em Portugal na educação não formal de adultos. Damos particular
atenção à nova oferta educativa que tem marcado este campo (os Centros Novas
Oportunidades - CNO - e os Cursos de Educação e Formação de Adultos -
EFA) no nosso país.
Convém esclarecer que enquadramos tal oferta educativa na educação não formal
tendo em consideração princípios que estiveram na base da construção do seu
modelo educativo, tais como o balanço de competências, a animação local e a
territorialização, e que se encontram plasmados em documentos oficiais (ANEFA,
2002) e são referidos por autores como Melo (2008). Mas, convém também não
esquecer o que alguns investigadores nos têm dado a conhecer quando estudam a
execução no terreno dessa oferta educativa e demonstram que, fruto, por
exemplo, da prevalência de uma lógica sumativa sobre a lógica formativa, ela se
aproxima em diversos aspectos do modelo escolar (Barros, 2011). Ou seja, a
uniformização e a homogeneização, características "de uma pedagogia
técnico-burocrática" (Lima, Guimarães & Oliveira, 2007, p. 44-5),
estarão a conformar a prática de muitos dos promotores no terreno das ofertas
educativas em questão. Tal facto aponta para um desvirtuamento do modelo e põe
em causa as lógicas da educação popular, da emancipação e transformação social.
No entanto, e apesar de concordarmos que essa possa ser a tendência geral
(Loureiro, 2009a), não devemos ficar com a ideia de que todas as concretizações
dessas ofertas educativas são mecânicas, reprodutoras e que não usam
reflexivamente os espaços de autonomia dados pelo modelo e por isso se afastam
dos tais ideais de emancipação e conscienciatização dos adultos envolvidos no
processo (Loureiro, 2009a).
Seja como for, e não perdendo de vista o que tais estudos têm concluído acerca
da concretização destas ofertas educativas, consideramos que o seu modelo é de
cariz não formal e, sendo assim, centramos a discussão: numa abordagem a esses
novos agentes educativos e instituições que enquadram a sua acção, procurando,
por exemplo, analisar a questão da sua identidade profissional; na forma e
conteúdo dos conhecimentos que essas ofertas enformam; nos públicos que afluem
a tais ofertas e no que os motiva; e nas possíveis implicações da introdução
destas ofertas educativas na própria escola, pois também ela as tem vindo a
enquadrar.
Para além disso, tratamos ainda de uma outra temática que se tem constituído,
nos anos mais recentes, como uma das tendências mais fortes na área da educação
não formal de adultos, à qual a sociologia da educação deve também dar mais
atenção: a da educação para a terceira idade, onde se enquadram as
universidades seniores.
A problematização destas temáticas será feita convocando para a mesma,
sobretudo, os contributos dados pela sociologia da educação que se têm dedicado
quer à educação de adultos, quer ao seu objecto de estudo tradicional, a
escola. Pois, como tentaremos mostrar, diversas questões por ela analisadas,
quando se dedica à escola, podem também ser abordadas na área da educação não
formal de adultos.
Novas instituições e agentes educativos
A sociologia da educação, quando estuda os seus actores educativos dedicase,
essencialmente, aos professores e à instituição onde eles trabalham, a escola,
aos alunos e também às famílias. No caso concreto dos professores tem
investigado, desde há muito tempo, sobre a construção da sua identidade
profissional e dos seus processos formativos (Apple, 1989; Aronowitz &
Giroux, 1992; Benavente, 1990; Teodoro, 1994). No caso da escola, tem-na
abordado, por exemplo, como instituição assente em modelos organizativos
diferenciados (Lima, 1998, 2005, 2011b, 2011).
Mas há um conjunto cada vez mais considerável de novos contextos educativos
(associações de desenvolvimento local, associações culturais, Instituições
Particulares de Solidariedade Social, fundações, centros de formação, entre
outros) e actores (formadores, profissionais de Reconhecimento e Validação de
Competências, directores e coordenadores de Centros Novas Oportunidades,
mediadores de cursos EFA, entre outros) que urge estudar de forma mais
continuada. De acordo com dados da Agência Nacional para a Qualificação, já em
2009, existiam em Portugal mais de 450 CNO e mais de 7000 técnicos e formadores
a trabalharem nesses Centros (Gaspar, Milagre & Lima, 2009).
Quem são estes técnicos e formadores? Qual a sua formação académica inicial? É
na área da educação e formação de adultos? Que formação profissional têm feito?
O que fazem? De que se constitui a sua actividade? De que se constitui a sua
rotina e as suas zonas de incerteza laboral? Podemos dizer que estamos perante
profissionais? Perante uma nova profissão ou antes, e quando muito, perante uma
ocupação?
Como se vê, estas são questões que têm a ver com a problemática da construção
da identidade profissional, estudada pela disciplina relativamente aos
professores, como dissemos acima. Não valerá a pena fazer estudos, ou melhor,
mais estudos sobre essa e outras temáticas acerca destes novos actores?
Não temos dúvidas de que há um crescente reconhecimento e valorização social
dos actores que trabalham na educação de adultos. Já há mais de dez anos, Sanz
Fernández (1997) apontava tal facto como uma das principais tendências mundiais
da educação de adultos. Uma das expressões desse ganho de importância foi o
número temático que o European Journal of Education (Volume 44, nº 2, de 2009)
dedicou recentemente a estes agentes educativos.
Mas, e apesar deste ganho de relevo, não estamos ainda perante profissionais
(Loureiro, 2009b; Merriam & Brockett, 1997) pois estes agentes educativos
não reúnem as características normalmente apontadas para o que se considera ser
uma profissão (Rodrigues, 1997). Estaremos perante um conjunto de agentes que
trabalham na área da educação e formação de adultos, que se encontrarão num
processo de construção identitário complexo. As palavras de uma técnica de uma
equipa de um centro de educação e formação, que foi objecto de um estudo
etnográfico por nós realizado, mostram bem esse processo:
…sabe, quando as pessoas me perguntam o que é que faço, nem sei bem o
que dizer. Nós não sabemos bem o que responder… Eu sou socióloga, de
formação, mas trabalho aqui na educação de adultos já há uns anos e
as minhas colegas também e não é muito fácil explicar às pessoas o
que fazemos… nem nós sabemos bem como nos definir…
Relativamente a estas novas instituições educativas também nos parece que
poderão ser levantadas algumas questões com interesse para a sociologia da
educação, por exemplo: de que tipo de instituições estamos a falar? Em que
lógica ou lógicas se baseiam as suas ofertas educativas? São sobretudo lógicas
de serviço público ou serão mais de ordem mercantilista? Em que modelos
organizativos assentam? Tais modelos promovem o trabalho em equipa e, com isso,
potencializam a possibilidade de o trabalho ser qualificante (Correia, 2008),
de essas instituições se tornarem em organizações que aprendem (Senge, 2002) e
suas equipas de trabalho em comunidades de prática e de saber (Wenger, 2001)?
Ou, pelo contrário, assentam em modelos organizativos que, tal como na escola,
promovem o trabalho isolado dos professores? Como está distribuído o poder no
seu seio? Que autonomia é dada a quem nelas trabalha para poderem desenvolver
um trabalho intelectual próximo do que Giroux (1997) defendeu para os
professores?
Estas parecem-nos ser algumas questões às quais urge dar maior atenção. Já
Bernstein (2001) defendia a necessidade de se mapear esses e outros novos
contextos educativos. Existem, entre nós, algumas respostas à questão de se
saber se estas instituições se podem considerar organizações que aprendem e
suas equipas comunidades de prática, aprendizagem e saber (Loureiro,
2010a,b,c). No entanto, é preciso realizarem-se mais estudos nesta área.
Quanto à questão da mercantilização do sector da educação de adultos,
nomeadamente da não formal, existe efectivamente essa tendência, pelo menos nas
áreas geográficas onde predomina o capitalismo. Para esse facto chamam a
atenção, entre outros, Finger (2008) quando nos diz que a partir dos anos
noventa do século XX se intensificou a privatização do sector, se intensificou
a ideia de se "fazer dinheiro com a educação de adultos" (p.26). No
mesmo sentido vão as reflexões de Sanz Fernández (2008) quando, ao identificar
os vários modelos actuais da educação de adultos, defende que de entre eles o
que tem predominado é o modelo económico produtivo.
Em Portugal teremos também uma realidade que se aproxima desse cenário
mercantilista, como nos alerta Lima (2000, 2008). Na verdade, e não querendo
generalizar a todo o tipo de educação de adultos que entre nós acontece, é
inegável a existência da ideia de mercado, que se consubstancia na ideia de um
produto que se oferece a consumidores, na ideia de concorrência entre agentes
educativos, que não têm parado de aumentar, e até na precariedade de muitos dos
que trabalham no sector da educação de adultos. Como refere Lima (2008), é
"demasiado visível o processo de privatização ou o carácter de empresa
social a que foram sujeitas várias organizações que, no passado, promoveram a
educação popular" e que actualmente vendem "programas de formação no
mercado, produzindo Kits de formação, ou até mesmo consumindo os produtos
impostos por sistemas de franchising" (p.54).
Esta é uma questão que se enquadra na discussão que a sociologia da educação
tem realizado relativamente à escola pública e privada e que, do nosso ponto de
vista, deve fazer também, de forma mais continuada, em relação à educação de
adultos.
Os currículos na educação de adultos
A sociologia da educação tem-se debruçado sobre as questões curriculares, isto
é, sobre a análise da selecção, organização e transmissão do conhecimento
escolar e seus efeitos sociais, desde há longa data. Apple (1987, 1996, 1997),
Perrenoud (1995), Bernstein (1993) e Young (1982) são alguns dos nomes de
referência nesta área. Muito menos frequentes têm sido os estudos realizados
sobre estas temáticas na área da educação de adultos, embora sejam de assinalar
os desenvolvidos por Jarvis (1989, 1997), Flecha (1990), Rubenson (1989),
Llavador e Llavador (1996) e Cabo (2000). Estes autores concluem que, no geral,
tem havido um predomínio do modelo escolar neste tipo de educação e nos seus
currículos, defendendo que tal perspectiva tem contribuído para a reprodução
social e que os currículos na educação de adultos devem basear-se nas
experiências destes, nos seus saberes, vivências, actividades e interesses.
E, na verdade, existem sinais de alguma mudança, há casos de construção
curricular que se afastam do modelo escolar, ao assentar grande parte da sua
filosofia na metodologia do balanço de competências, outra das tendências
actuais da educação de adultos (Pires, 2005). Entre nós, o caso dos cursos EFA
é dos mais visíveis nesta matéria e será aquele que maior possibilidade
apresenta de realizar tal afastamento. Nessa forma de construção curricular
está presente, pelo menos do ponto de vista teórico, a influência de Paulo
Freire (1975) e das suas ideias base. Os temas de vida, as questões geradoras,
preconizadas em tais cursos, são termos que nos mostram a presença do autor.
Julgamos que a sociologia da educação deve continuar a dedicar-se ao estudo dos
currículos da educação de adultos em geral e deve dar particular atenção às
novas formas de construção curricular. Pensamos que o modelo de Bernstein
(1993) relativo à classificação e ao enquadramento do conhecimento escolar
seria muito útil para se analisar e ter uma melhor compreensão dos currículos
na área da educação e formação de adultos. Da mesma forma pensamos ser de
grande utilidade a análise feita por Perrenoud (1995) relativamente ao
currículo formal e currículo real, quando se debruça sobre a acção dos
professores. Tendo ainda em consideração Bernstein (1993, 1998) defendemos que
a sua teoria do discurso pedagógico oficial, com os seus campos de produção,
recontextualização de reprodução desse discurso, é de grande pertinência para
uma análise do que se passa a este respeito na educação de adultos. E embora
seja verdade que já foram feitos alguns estudos usando a sua teoria no campo da
educação de adultos, procurando ver como em contexto de trabalho os agentes
educativos fazem uso desse discurso pedagógico oficial (Loureiro, 2009a;
Loureiro & Cristóvão 2010), muito está ainda por fazer.
No caso concreto das novas formas de construção curricular surgidas na área da
educação de adultos e, em particular, na que se refere à que enforma os cursos
EFA, seria interessante analisar os aspectos potencialmente mais inovadores
desse processo e tentar ver quais os seus efeitos. O que têm de diferente dos
currículos tipicamente escolares? Que implicações têm na forma de trabalhar dos
actores envolvidos nesses processos educativos? O facto de existirem temas de
vida que devem ser trabalhados transversalmente nas diferentes áreas de
competência a atingir pelos adultos em formação "obriga" a um
trabalho mais cooperativo entre os formadores? Esse mesmo aspecto permite pôr
efectivamente em prática a questão da "interdisciplinaridade"? Este
processo de construção curricular permite dar "voz" (Aronowitz &
Giroux, 1993) aos adultos?
Sem termos a pretensão de dar resposta cabal a estas questões, faz-se apenas e
quando muito, uma aproximação às mesmas, a partir de uma breve apresentação e
reflexão sobre esta modalidade curricular, procurando destacar alguns dos
aspectos que consideramos serem potencialmente mais inovadores e que, à
partida, permitiriam responder afirmativamente às três últimas questões
colocadas.
Os cursos EFA foram criados em 2000 pela Agência Nacional de Educação e
Formação de Adultos. Estes cursos destinam-se a pessoas com idade igual ou
superior a 18 anos, com qualificação considerada inadequada para ingressar e/ou
progredir no mundo do trabalho "e, prioritariamente, sem a conclusão do
ensino básico ou do ensino secundário" (Artigo nº 2 da Portaria nº 230/
2008, de 7 de Março). São cursos que, na sua generalidade, assentam numa lógica
de dupla certificação: escolar e formação profissionalizante. Existem os cursos
EFA de nível básico que abrangem a escolaridade obrigatória (até ao 3º ciclo do
ensino básico) e os níveis 1 e 2 de formação; e os cursos EFA de nível
secundário que dizem respeito ao ensino secundário (até ao12º de escolaridade)
e a um nível 3 de formação.
Como defendem alguns autores, estes cursos constituem-se como um novo modelo de
educação e formação de adultos no nosso país (Ávila, 2008; Cavaco, 2008;
Loureiro, 2009b). Em termos de organização curricular podemos distinguir, como
elementos inovadores, cinco aspectos principais. Apesar de a formação de base e
a formação profissionalizante assentarem em concepções curriculares diferentes,
a primeira na lógica das competências e a segunda na lógica das unidades
capitalizáveis do Instituto de Emprego e Formação Profissional, pretende-se que
exista uma efectiva articulação entre as duas, evitando, desta forma, a
separação tradicional que tem ocorrido entre educação escolar e formação
profissional (Rothes, 2009).
O facto de a construção curricular, referente à formação escolar, se basear,
não no modelo disciplinar, mas num referencial de competências-chave
estruturadas em diferentes áreas de competência a atingir ou a desenvolver, que
são transversalmente organizadas e articuladas por temas de vida relevantes
para os adultos em formação, é o segundo aspecto a salientar (Ávila, 2008).
Uma das inovações mais relevantes destes cursos está no facto de a sua
organização curricular ser flexível ao ponto de possibilitar que os adultos,
após um processo prévio de reconhecimento, validação e certificação de
competências - assente na metodologia de balanço de competências -
possam realizar itinerários diferenciados nos cursos de acordo com as
competências que lhe foram reconhecidas (Portaria n.º 230/2008, de 7 de Março).
Outro dos pontos inovadores destes cursos está na responsabilização das equipas
pedagógicas pela construção do plano curricular de cada curso pelo qual é
responsável. Cada equipa deve construir o plano curricular "em torno das
duas componentes e das diferentes áreas de competências-chave com o suporte de
temáticas transversais - os Temas de Vida (TV) -, que assegurem a
coerência e a relevância do projecto formativo" (Rothes, 2009, p.307).
Há ainda a possibilidade de se fazer uma gestão local do currículo. Isto é, se
a entidade formadora de um curso julgar ser pertinente para o grupo de
formandos pode substituir, após a devida autorização superior, "uma das
unidades em que se encontra estruturado o curso por outra equivalente que se
revele mais adequada ao contexto ou à natureza da área profissional"
(Portaria n.º230/2008, de 7 de Março).
Este modelo de construção curricular aproxima-se, efectivamente, daquilo que
vários autores, entre os quais os referidos anteriormente, defendem deverem ser
os currículos na educação de adultos. No entanto, o facto de o apresentarmos
como um modelo de construção curricular inovador, não que dizer que tenhamos a
ilusão que na sua implementação não existam limitações e desvios a esses traços
inovadores. Por exemplo, Cavaco (2008) alerta-nos para o subaproveitamento do
processo de reconhecimento, validação e certificação de competências e para o
consequente comprometimento dos tais itinerários formativos diferenciados dos
adultos.
Terminamos este ponto defendendo que ainda falta saber, na nossa perspectiva,
quais os efeitos sociais que tal modelo tem produzido. Na secção seguinte
procura-se fazer uma aproximação a esta questão.
Os Adultos
Os públicos que têm sido objecto de estudo da sociologia da educação são, de
forma preferencial, as crianças, os adolescentes e os jovens. Os adultos que
frequentam as diversas ofertas educativas, quer escolares quer extra-escolares
são muito menos estudados. No entanto, e mais que não seja pela crescente
adesão destes a essas ofertas, eles deveriam ser objecto de uma atenção maior.
Só para dar um exemplo desta procura crescente no nosso país, desde que foram
criados e até 2009 tinham sido já mais de 750 mil os adultos a procurarem os
CNO no nosso país (Gaspar et al., 2009).
Quem são os adultos que procuram a educação e a formação? Que tipos de ofertas
são mais procuradas? Estes novos públicos, que têm chegado às novas
possibilidades educativas existentes no nosso país (CNO, cursos EFA…), têm
características diferentes das dos que ao longo dos anos têm procurado as
ofertas tradicionais (ensino recorrente)? Por que razões procuram tais ofertas
e quais são as suas expectativas relativamente aos efeitos da certificação
proveniente delas?
Estas são apenas algumas questões que julgamos serem pertinentes, algumas das
quais passíveis de estudo da sociologia da educação. Efectivamente, a procura
observada terá alguma coisa a ver com a ideia do credencialismo? Ou seja, com a
ideia de valor de troca no mercado de trabalho de um certificado, como ocorreu
e continua a ocorrer relativamente aos certificados escolares do ensino
regular? As pessoas que procuram estas novas ofertas esperam através delas
melhorar a sua condição social? Ou seja, esperam que elas contribuam para a sua
ascensão social? Ou grande parte destes adultos frequenta a educação e formação
fruto de uma política que tem ligado educação e assistência social? Posto de
outra forma, quem vai aos cursos vai porque quer ou porque se não for perde os
rendimentos provenientes da assistência social?
Existem já estudos e reflexões sobre algumas destas problemáticas. A junção
entre política educativa e política social parece ser uma tendência cada vez
maior neste campo da educação, quer em Portugal, quer noutras partes do Globo.
Finger (2008), a propósito do futuro da educação de adultos, identifica um tipo
de educação dirigida "a grupos específicos de risco do actual
turbocapitalismo" (p.28), desempregados, imigrantes, drogados, jovens,
enfim a um conjunto de pessoas que não têm sido capazes de se adaptar à
acelerada transformação social capitalista. Trata-se de um tipo de educação de
adultos que responde a necessidades de "reparação", de existência de
"um certo disfuncionamento da sociedade" (Finger, 2008, p. 29). O
autor critica esta forma de educação de adultos, pois ela afasta-se dos seus
verdadeiros ideais de mudança social e serve para manter em funcionamento o tal
turbo-capitalismo.
Também Lima (2008) chama a atenção para a existência de um certo
assistencialismo em certas políticas de educação de adultos no nosso país.
Efectivamente, pensamos que, por exemplo, os cursos EFA se podem enquadrar
nesta junção de duas políticas. Não devemos esquecer que a Agência Nacional de
Educação e Formação de Adultos, que lançou estes cursos, era tutelada pelo
Ministério da Educação e pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade. Também
nos parece significativo o facto de várias associações no nosso país, que
desenvolvem actividades de educação de adultos, terem mudado o seu estatuto
jurídico e passarem a Instituições Particulares de Solidariedade Social
(Loureiro, 2009a).
Quanto à questão de a educação ser ou não um factor de mobilidade social
ascendente, é algo que faz parte da tradição da investigação na sociologia da
educação escolar. Também em relação à educação de adultos têm sido
concretizados alguns estudos acerca dos seus efeitos sociais e tais pesquisas
concluem que ela contribui frequentemente, ao contrário do que seria de
esperar, para a reprodução social, e isto porque, na maior parte dos casos, ela
tem andado associada ao modelo escolar (Cabo, 2000; Jarvis, 1989, 1997;
Llavador & Llavador, 1996; Rubenson, 1989).
Dubar e Gadéa (2001), referindo-se ao caso francês e aos efeitos da formação
contínua em termos de mobilidade social, confirmam esta ideia: "Como na
escola, a formação contínua veicula desigualdades sociais e relações de
dominação que reproduzem o capital cultural herdado e transformam-no em méritos
individuais justificando a hierarquia das posições sociais e profissionais (…).
A esperança de uma compensação das desigualdades escolares nunca se realizou
verdadeiramente no contexto da formação pós-escolar francesa" (p. 151,
155).
E quando as ofertas educativas de adultos se afastam do tal modelo escolar,
conferindo, mesmo assim, certificados escolares e profissionais, como é o caso
entre nós dos cursos EFA, conseguem proporcionar efeitos sociais diferentes e
contribuir de forma significativa para a ascensão social dos adultos que as
frequentam? Quais têm sido, entre nós, os efeitos das recentes ofertas
educativas e sua certificação em termos de ascensão social?
Tendo como referência apenas os Resultados da Avaliação Externa, relativos aos
anos 2009-2010, da Iniciativa Novas Oportunidades, coordenados por Carneiro
(2010), e por isso mesmo não podendo a partir deles realizar generalizações,
poderemos dizer (tendo em conta o único indicador que de forma mais objectiva
nos permite fazer uma aproximação à questão da ascensão social dos adultos como
efeito da sua passagem por tal Iniciativa - a progressão na carreira
profissional devido à Iniciativa Novas Oportunidades) - que os resultados têm
sido, à primeira vista, positivos, pois 19% dos inquiridos afirmaram ter
progredido na sua carreira como consequência da sua passagem por tal oferta
educativa.
No entanto, estes resultados oficiais devem ser lidos com alguma precaução. É
necessário perceber-se, por exemplo, que tipo de progressão foi essa, se terá
sido significativa ao ponto de proporcionar a tal ascensão social vertical, ou
seja, a passagem efectiva para outra classe social? Convém não cairmos num
optimismo excessivo, como noutras alturas as teorias funcionalistas da
sociologia da educação o fizeram em relação ao papel desempenhada pela escola.
Para terminar a nossa referência aos públicos destas novas ofertas educativas
do nosso país reflectimos sobre mais uma questão cara à sociologia da educação:
a do insucesso escolar. Quando se faz o estudo desta problemática apontam-se
vários factores explicativos para o percurso escolar negativo dos alunos. Um
deles é o fraco nível de instrução das suas famílias. A questão que se pode pôr
é a seguinte: até que ponto a melhoria do nível de instrução destes adultos que
têm passado por tais ofertas educativas tem influência positiva no percurso
escolar dos seus filhos? É a esta questão que Salgado (2010) tem procurado,
recentemente, responder através de uma investigação que coordena sobre a
influência no sucesso escolar de crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico cujos
pais passaram por processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de
Competências de nível Básico (9º ano). Os resultados e as conclusões prévias a
que tal investigação tem chegado parecem indicar a existência de uma correlação
positiva entre ambas as varáveis.
A escola como novo território educativo
O próprio território/agente educativo escola se tem redefinido à luz de parte
desta mesma oferta educativa do campo da educação de adultos. Trata-se de
incorporar numa instituição de educação formal, modelos educativos não formais.
Procurar ver o que mudou em face disto e como tais mudanças alteram as rotinas
da escola, constituem-se, na nossa perspectiva, como novas questões a serem
estudadas pela sociologia da educação.
De forma mais concreta, como se têm organizado as escolas para dar resposta a
esta nova realidade? Estão os professores preparados para trabalhar com estes
novos públicos e modelos de educação? Que dificuldades surgem na relação
pedagógica/andragógica que estabelecem com os adultos? Estas novas ofertas
alteram a sua forma de trabalhar? Promovem o trabalho em equipa? Os professores
vêem estas novas actividades como parte da construção da sua identidade
profissional ou, pelo contrário, vêem-nas como uma imposição com as quais não
se identificam e às quais são obrigados a dar resposta?
Estas são novas questões a estudar em torno daquele que se tem constituído como
o espaço educativo de eleição investigativa da sociologia da educação.
A educação de adultos para a terceira idade
As actividades educativas destinadas aos adultos que estão na designada
terceira idade não são propriamente algo de novo. Só para nos referirmos a uma
dessas várias possibilidades educativas, devemos lembrar que a primeira
universidade da terceira idade foi criada em Toulouse, em 1972 (Quintana,
1991).
No entanto, embora esta área da educação não constitua novidade, tais
actividades têm ganho um relevo cada vez maior na nossa sociedade (Minguez,
2004; Osorio, 2005), o que se deve ao peso crescente deste sector da população.
O nosso objectivo não é fazer qualquer tipo de descrição e/ou tipificação de
tais possibilidades educativas, é, e uma vez mais, chamar a atenção para um
sector da educação não formal que praticamente não tem sido investigado pela
sociologia da educação. Entre nós destacamos o estudo de caso feito por Veloso
(2004, 2007) sobre uma Universidade de Terceira Idade, no qual, entre outros
aspectos, estes espaços são apresentados como um dos outros contextos
educativos para além do escolar.
Julgamos que seria particularmente relevante estudar-se as actividades
educativas para a terceira idade e os locais onde elas ocorrem como potenciais
momentos e lugares de socialização, para além de momentos e espaços de
aprendizagem e educação. Como sabemos embora o período de socialização mais
intenso ocorra nos nossos primeiros anos de existência, este é um processo que
dura toda a vida (Rocher, 1989), diríamos mesmo que cada vez mais dura toda a
nossa vida, fruto das mudanças sociais constantes. Neste contexto seria
pertinente indagar, um pouco na linha de Bogard (1997), se tais processos
contribuem para a socialização, ou re-socialização, destes adultos.
Breve nota final
Perante o que foi dito acima, estas são, para nós, algumas das temáticas às
quais a sociologia da educação deve procurar dar resposta de forma mais
intensa. Tal não significa a defesa do abandono do estudo da escola, muito pelo
contrário. Tal como Afonso (1992), também achamos que a abertura a outros
contextos educativos de investigação não põe minimamente em causa a pertinência
da continuidade do seu estudo. Até porque ela se constitui hoje, como
defendemos acima, como um novo território educativo em surgimento e a
necessitar de ser "de novo" estudada, e isto acontece muito pela
penetração no seu interior de ofertas educativas de adultos assentes em modelos
não formais.
A maior interligação investigativa entre a sociologia da educação e a educação
de adultos será benéfica para ambas as partes. Para a primeira porque se trata
de um campo educativo com crescente relevo ao qual urge dar maior atenção,
sobretudo às práticas educativas não formais, para a segunda porque
beneficiaria de análises teóricas que a ajudariam a fortalecer-se do ponto de
vista epistemológico (Jarvis, 1989).