Diálogos
Diálogos
Isabel Sanches
A cultura, as políticas e as práticas da nossa escola, no que à educação
inclusiva diz respeito, foi o mote para a conversa entre Isabel Sanches,
professora da Universidade Lusófona, e Sofia, mãe de um jovem a quem foi
diagnosticada síndrome de Asperger e professora de Educação especial
Isabel Sanches- Para partirmos para a nossa conversa, e para conhecer melhor a
pessoa com quem vamos conversar, pedimos que nos trace, resumidamente, o seu
perfil pessoal e profissional.
Sofia - Sou professora licenciada em Línguas e Literaturas Modernas ' ramo
educacional, pela Universidade de Coimbra, tendo exercido funções no ensino
regular até 1998/99 e ainda no ano de 2000/2001, como docente de Português/
Francês, do 7º ao 12º ano. Fui professora também em escolas profissionais, na
mesma área de conhecimento. No ano letivo de 1999/2000, iniciei funções como
docente de apoio educativo, ano em que realizei a minha primeira pós-graduação
na área das necessidades educativas especiais. Desde 2001/02, a minha atividade
profissional tem vindo a desenvolver-se sempre no âmbito do atendimento a
alunos considerados com NEE em diversas escolas do 2º/ 3º Ciclos e Secundário e
mais recentemente também em escolas de 1º ciclo do Ensino Básico. Trabalhei num
Centro de Recuperação Infantil, na área do desenvolvimento de projetos de
transição para a vida ativa e fui formadora pelo Instituto de Emprego e
Formação Profissional (IEFP). Trabalhei numa clínica como técnica de educação
especial, no âmbito do diagnóstico e intervenção em Dificuldades Específicas de
Aprendizagem. Paralelamente, tenho frequentado cursos de formação especializada
em diversas problemáticas relacionadas com a educação especial, nova pós-
graduação em educação especial e mestrado na mesma área. Sou também formadora
de professores na área da educação especial, tendo vindo a promover formação
junto de professores do ensino regular e de educação especial, quer como
formadora do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua (CCPFC) quer
no ensino superior. Trabalho atualmente com crianças com perturbações do
espectro de autismo numa unidade de ensino estruturado de 2º e 3º Ciclos.
No que se refere ao meu perfil pessoal, considero-me uma pessoa bastante
estóica no que diz respeito à defesa dos princípios em que acredito, tentando
aplicá-los e transmiti-los no meu quotidiano e em todas as esferas da minha
vida. Sou casada e tenho um filho de 13 anos, a quem foi diagnosticada síndrome
de asperger aos 8 anos de idade.
Isabel Sanches- Como docente de Educação especial, pertencente ao grupo 910,
como vê e analisa o enquadramento legislativo que regulamenta a área da
Educação especial, nas escolas?
Sofia - Bom eu não sou uma pessoa que tenha por hábito fazer leituras
exclusivamente negativas das mudanças e, em particular, das que dizem respeito
à legislação sobre a Educação em Portugal. Tento sempre fazer uma análise
abrangente, integrando aspetos positivos e menos positivos. Assim, considero,
em primeiro lugar, que em 2008, decorridos 17 anos de vida do já revogado
Decreto-Lei nº 319/91, 23 de agosto, era, de facto, necessário introduzir
alterações no quadro legislativo relativo à educação especial, que de alguma
forma pudessem espelhar as próprias mudanças ocorridas na escola, não só as
decorrentes da sua implementação ' que possibilitou, pela primeira vez em
Portugal, a entrada obrigatória de crianças com necessidades educativas
especiais nas salas de aula do ensino regular ' mas também com a introdução de
outras disposições legais suportadas pelas novas orientações de gestão flexível
do currículo da primeira década deste século (por exemplo, o Decreto-Lei nº 6/
2001, 18 janeiro, e o Despacho Conjunto nº50/2005, 9 novembro). A diversidade
estudantil intensificou-se, sem dúvida, a vaga de imigração no nosso país
inundou as salas de aula de múltiplas e coloridas diferenças e, no meu
entender, era necessário separar um pouco o trigo do joio: assumir que todas
as crianças, de algum modo e por diversas razões, ao longo do seu percurso
escolar experimentam dificuldades e necessidades educativas de diferentes
naturezas e que, dessa fatia imensamente vasta ' a qual requer, atrever-me-ia a
dizer, respostas educativas exclusivamente direcionadas para os diversos
contextos em que se insere a criança e, especificamente, no contexto de
aprendizagem, ao nível da gestão e implementação de práticas pedagógicas
inovadoras - apenas alguns apresentam necessidades educativas especiais de
caráter permanente, requerendo, por isso, e para além daquele tipo de
respostas, um outro conjunto de apoios mais específicos e especializados. Ainda
como docente de apoio educativo, pude experimentar muitos dilemas, dúvidas e
incertezas no que se refere à decisão de incluir ou não determinados alunos no
regime educativo especial vigente na altura; muitas vezes o que estava em causa
eram fatores de âmbito extrínseco ao aluno ' dispedagogias ou outros fatores
relacionados com os contextos educativos, enquadramentos sócio-familiares menos
favoráveis, etc. ' ou até mesmo fatores intrínsecos, mas de caráter temporário;
e não raro estes alunos acabavam por ser abrangidos por medidas do DL 319,
coartando-se, muitas vezes, expectativas por parte dos intervenientes no seu
processo educativo e mesmo as próprias potencialidades desses alunos.
Contudo, e fazendo um balanço dos primeiros 4 anos de implementação do Decreto-
Lei nº 3/2008, de 7 de janeiro, na minha opinião, e sem entrar na questão das
motivações economicistas subjacentes, penso que de tal forma se pretendeu
varrer os excessos estatísticos de alunos apoiados pela educação especial que
se acabou por cair no extremo oposto. Não que não concorde com os princípios
inerentes ao decreto em causa, mas a minha visão dos aspetos menos positivos
deste decreto centra-se muito mais na forma como tem sido conduzida a sua
implementação do que na filosofia inerente ao decreto. Parafraseando Nóvoa
(s/d) e extrapolando para o contexto da pergunta que me coloca, a questão tem
muito mais que ver com a pobreza das práticas (p. 1), do que com o
enquadramento legislativo em causa. Pretendo com isto dizer que os contornos
interpretativos assumidos por direções regionais de educação, equipas de apoio
às escolas (recentemente extintas) e inúmeras escolas, têm vindo a ser, eles
próprios, uma barreira à possibilidade de pegar nos aspetos positivos que
este decreto possibilita, no que se refere à inclusão socioeducativa de
crianças e jovens com dificuldades de caráter permanente. E a verdade é que,
apesar do decreto-lei se referir a alunos com limitações significativas ao
nível da atividade e da participação num ou vários domínios de vida,
decorrentes de alterações funcionais e estruturais, de carácter permanente a
interpretação da população-alvo do decreto se tem restringido, cada vez mais,
ao já desatualizado termo deficiência. Este aspeto tem colocado em situação
de sério risco educacional crianças e jovens que apresentam limitações de
caráter permanente mas a quem tem sido vedado o direito a usufruírem de
respostas educativas adequadas às suas necessidades e a apoios especializados
que poderiam ajudá-los a desenvolver o seu percurso com maior sucesso. Falo,
concretamente, e a título de exemplo, da questão flagrante dos alunos com
dificuldades específicas de aprendizagem, uma problemática amplamente estudada
e cujos especialistas integram nas necessidades educativas especiais de caráter
permanente. E não existe, no decreto-lei, qualquer orientação clara e objetiva
que fundamente a opção tomada por parte da maioria das escolas. Penso que, a
este nível, terá sido feito um retrocesso sim, no que se refere aos princípios
imanados de toda uma ideologia inclusiva subjacente à Declaração de Salamanca e
ao Decreto-Lei nº 319/91, 23 de agosto, ao restringir-se, na prática, a
educação especial a alunos que apresentam limitações de alta intensidade e
baixa incidência, deixando de fora alunos com dificuldades igualmente
intrínsecas e permanentes que, com a devida ajuda especializada, poderiam
perspetivar um maior sucesso académico. Friso que, no meu entender, a questão
passa sobretudo pela aplicação, na prática, da nova legislação. Um outro risco
que considero altamente perigoso relativamente aos princípios inclusivos é a
criação de escolas de referência e respetivas unidades de ensino especializado
para cada uma das problemáticas a que me referi há pouco (ex: multideficiência,
perturbação do espectro de autismo, surdez, cegueira); uma vez mais, não
critico propriamente a sua criação, mas a forma como as mesmas estão a ser
geridas e lidas pelas escolas. Penso que é imperativo organizar esses espaços
de aprendizagem de uma forma muito cautelosa, sob pena dessas mesmas unidades
se transformarem em pequenos nichos de deficiências, forçando uma
coexistência paralela entre dois mundos que, quando muito, se tocam de forma
esporádica, sem nunca se fundirem verdadeiramente um no outro . No fundo, sem a
verdadeira inclusão que se promulga e pretende defender.
E há outros aspetos ainda penso, por exemplo, que o facto da introdução da CIF
como instrumento de classificação e regulador do processo de elegibilidade de
alunos para a educação especial ter sido feita sem a devida formação e
concertação entre as diversas áreas nela implicadas (saúde, educação e
segurança social) trouxe muitas dúvidas e controvérsias, tendo até colocado
supostos parceiros de costas voltadas. Tal facto fez com que todo o processo
fosse implementado de uma forma bastante difusa, inconsistente, acentuando o
caráter subjetivo da elegibilidade, fazendo, por um lado, com que persista uma
enorme variação de critérios, de escola para escola, e por outro, se vá contra
o que é defendido na própria legislação relativamente aos objetivos da
utilização do instrumento em causa. Entre outros aspetos, o processo de
avaliação carece também de uma efetiva e produtiva articulação entre os
elementos das ditas equipas multidisciplinares, legisladas, mas inexistentes na
prática.
Tenho para mim que todos os processos de mudança implicam um certo caos e que,
de alguma forma, há que dar tempo para que todo este processo amadureça e se
reoriente no sentido da inclusão dos alunos e dos cidadãos com pleno direito,
não tanto ao chavão da igualdade, mas a uma diferenciação justa, em função das
potencialidades de cada ser humano.
Isabel Sanches- Embora possa ser um bocado repetitivo, porque já aflorou a
questão na resposta anterior, e difícil de generalizar, atrevo-me a pedir-lhe
que faça a descrição/comentário das práticas educativas desenvolvidas na
escola, pelos seus colegas, docentes de educação especial, relativamente aos
alunos referenciados pelo 3/2008, de 7 janeiro.
Sofia- Bem cheguei à minha atual escola há dois anos e desde logo tive a
sensação de que era necessário desacelerar um pouco, para não dizer muitíssimo
a minha ânsia de mudança. A quase todos os níveis. Tudo me pareceu estar ainda
por fazer nem os conceitos nem a legislação estavam minimamente assimilados,
os procedimentos muito pouco definidos ou uniformizados internamente, parecendo
o grupo de educação especial quase como um barco sem leme, onde tudo era muito
confuso, cada um trabalhando para si e adotando procedimentos muito diferentes
em função do que cada colega entendia ser o mais adequado . Tentando cingir-me
ao máximo à questão central da sua pergunta, posso dizer que, relativamente às
práticas educativas desenvolvidas com alunos considerados com necessidades
educativas especiais, no âmbito do apoio personalizado, elas são, ainda hoje,
muito pouco conhecidas entre colegas pertencentes ao grupo de educação
especial, existindo mesmo, em alguns casos, uma grande resistência à partilha
de experiências e materiais, discussão de casos e interajuda na procura de
estratégias de abordagem, quer aos alunos, quer aos professores do ensino
regular. Fui-me apercebendo, aos poucos, que o estado da educação especial
nesta escola se devia muito menos às controvérsias lançadas com a introdução do
Decreto 3/2008, de 7 janeiro, do que à grande disparidade que existe, no seio
do grupo, na forma como cada colega assume a sua missão como docente de
educação especial, as suas conceções pessoais sobre as questões da inclusão,
existindo mesmo uma corrente, dentro do próprio grupo, muito consentâneo com
os conhecidos e velhos discursos anti-inclusão. Quando cheguei a esta escola,
de 2º e 3º Ciclos, a modalidade de trabalho direto com os alunos em sala de
aula era inexistente ' apenas no 1º Ciclo se tratava de uma prática habitual
por parte dos docentes de educação especial e mesmo essa, feita de uma forma
demasiado estigmatizante para a criança com necessidades educativas especiais '
sendo o apoio prestado exclusivamente em contexto fora da sala de aula,
individualmente ou com grupos de dois/três alunos. Foi necessário desconstruir
muitos conceitos e procedimentos, através da sensibilização, quer dos elementos
da Direção e do Conselho Pedagógico, coordenadores de diretores de turma e
professores do ensino regular e de educação especial Começo agora, finalmente,
a sentir os primeiros sinais de mudança o desmoronar de uma forma de trabalhar
isolada e escondida, uma interação mais frequente entre os elementos do grupo
de educação especial e um maior envolvimento dos professores de ensino regular,
não só pela maior solicitação de informação sobre a legislação e os
procedimentos a acionar (referenciação, avaliação, elaboração de adequações
curriculares individuais e de currículos específicos, etc.), como também pela
maior frequência de pedidos de ajuda na implementação de estratégias de
diferenciação pedagógica / inclusão na sala de aula, já que os docentes de
educação especial passaram a ter entrada nas salas de aulas do 5º ao 9º ano.
Considero que estamos numa fase, ainda que embrionária, de evolução positiva em
termos da coesão do grupo de educação especial e da uniformidade de critérios.
E este passo é fundamental para poderem ser asseguradas as condições
necessárias a uma maior abertura para cruzar experiências e práticas de sucesso
com os nossos alunos. Só assim poderemos evoluir como grupo e fazer evoluir
esta escola na sua própria identidade, no sentido da construção de um
Agrupamento mais inclusivo.
Isabel Sanches- Como mãe de um jovem de 13 anos a quem foi diagnosticada
síndrome de Asperger, como caracteriza o seu filho, em termos pessoais, sócio-
educativos e de ensino/aprendizagem, e quais são os grandes desafios que ele
coloca à escola e aos seus professores?
Sofia - Bom felizmente, caracterizar o meu filho hoje, não é o mesmo que
caracterizá-lo na altura em que surgiu o diagnóstico, uma vez que tem vindo a
desenvolver de uma forma bastante positiva a sua autonomia e socialização, duas
das suas áreas mais fracas ao nível do comportamento adaptativo. Contudo,
muitos dos seus traços de personalidade são bastante condizentes com a
descrição que é feita nos casos de crianças diagnosticadas com a mesma
problemática: continua a revelar e, por tudo o que tenho aprendido acerca da
síndrome de asperger, sei que revelará sempre, uma certa rigidez de pensamento,
alguns maneirismos típicos, agora mais dissipados, reações extemporâneas a
situações imprevisíveis, e dificuldades em fazer uma leitura adequada das
emoções do outro e das pistas de conduta social; apresenta também uma
determinação/obsessão muito grandes no que diz respeito à concretização dos
seus projetos relacionados com os seus interesses restritos e específicos,
contrastando com o seu quase total alheamento relativamente aos interesses dos
outros e a questões de ordem mais prática, apesar das minhas investidas
constantes no sentido de o inteirar de toda a multiplicidade de situações que
compõem o mundo que o rodeia. Em termos de socialização com os seus pares,
embora tenha feito progressos, continua a tentar, de algum modo, impor os
seus temas na interação com os outros, mesmo que estes não se mostrem muito
interessados no assunto em termos sociais, esta e outras características
específicas da sua maneira de ser causaram-lhe grandes problemas com os pares,
chegando a ser chamado de deficiente, estranho, chato e tendo vivenciado
diversos episódios de bulling, sobretudo no 2º Ciclo. A sua inclusão não foi
fácil e aquilo que designa de desafios colocados aos professores, nessa
altura, foram assumidos, pelos mesmos, como um caso muito difícil de lidar,
sem tentativas de compreensão do problema de caráter permanente que estava em
causa. Os professores não compreendiam, apesar das minhas explicações,
sobretudo pelo facto do Pedro ser um aluno com excelentes capacidades
cognitivas e bons resultados escolares, o que os deixava de algum modo,
desconcertados, perante a sua insólita incompreensão de questões tão triviais
do dia-a-dia escolar, aos olhos da sociedade em geral.
Aquando da sua entrada no 7º ano, numa nova escola, de ensino básico e ensino
secundário, os problemas de integração reemergiram com bastante intensidade e
foi necessário trabalhar muito em parceria com os professores, sobretudo com a
diretora de turma, no sentido de desmontar as situações mais difíceis e apontar
estratégias para contornar, de uma forma positiva, todas as questões
relacionais e comportamentais que se colocavam. À medida que o tempo foi
avançando, as reuniões com a diretora de turma foram surtindo algum efeito, e o
Pedro foi conseguindo ocupar, por ele próprio também, o seu lugar no seio do
grupo, mostrando não só as suas peculiaridades e fragilidades, mas sobretudo as
suas potencialidades cognitivas e outros traços de personalidade muito
positivos, como o ser extremamente honesto com os outros, meigo e muito leal
aos seus, inicialmente, pouquíssimos amigos.
Atualmente no 9º ano, o Pedro já é perfeitamente aceite no seio da sua turma,
já sai com os colegas e já se integra muito melhor nas brincadeiras/assuntos
dos seus pares. É capaz de fazer leituras muito menos literais das situações e
consegue, maioritariamente, manter posturas adequadas na sala de aula. Sei que
este trabalho foi muito fomentado, quer por mim, quer pela diretora de turma,
junto dos professores e Direção da escola, pois nunca quis que o Pedro ficasse
confinado a qualquer tipo de rótulo, sentindo sempre que o que havia a fazer
era mesmo trabalhar os professores e os seus colegas, no sentido de o aceitarem
como ele é, diferente, mas também brilhante, e não pela condescendência
motivada por um diagnóstico, dos mais difíceis de compreender no contexto
escolar. Começo agora a colher os primeiros frutos de um percurso extremamente
conturbado e difícil, não só na escola como também em casa, evidentemente.
Contudo, e apesar de se terem ido limando algumas arestas, de forma muito
diplomática, com os professores do meu filho, penso que os mesmos, de uma forma
geral, não se sentiram verdadeiramente desafiados no bom sentido do termo,
pela criança especial que é o Pedro e pelo que poderiam ter evoluído, enquanto
profissionais da educação, no sentido em que as práticas e formas de agir não
se alteraram muito em função das suas necessidades e de todo o potencial que o
Pedro revela em determinadas áreas do saber. E penso que tal se deve,
sobretudo, à dificuldade que os professores têm em compreender tudo o que se
desvia daquela norma idílica, apaziguadora e reconfortante, que não os inquieta
ou exige, de si próprios, tanto autoquestionamento sobre a sua prática docente.
Posso dizer que, fruto de também o conhecerem já há dois anos e meio, o
aceitam, neste momento, na sua diferença, mas nada é feito no sentido de lhe
proporcionar o atendimento pedagógico que seria mais adequado ao seu perfil.
Por detrás de todo o processo, estou eu, como mãe, a orientá-lo na tomada de
decisões, na assunção de responsabilidades e sobretudo no redirecionar do seu
olhar para uma análise mais sensata e realista das situações com que se depara,
para que possa crescer de forma sadia e sentir-se bem consigo próprio.
Isabel Sanches- Embora assumamos que cada caso é um caso e que cada um deve
ser tratado como tal, não havendo lugar a generalizações, não há dúvidas que há
regras gerais de atuação que devem ser seguidas, tendo em conta cada
problemática. Sendo assim, como agiria, como professora de educação especial
que tivesse na lista dos alunos a apoiar um aluno diagnosticado com síndrome de
asperger, num 1º ano de escolaridade?
Sofia- Obviamente que, para cada caso, é necessário conhecer muito bem a
criança e todos os contornos da situação para se poder traçar um plano de
intervenção o mais adequado possível às suas necessidades individuais. Mas
tentando corresponder então ao desafio, algo perigoso, da generalização, devo
dizer que, numa primeira fase, a minha forma de atuação é um pouco extensível
não só a todas as crianças com síndrome de asperger (SA), como também a
crianças com qualquer outro tipo de problemática. Assim, em primeiro lugar,
tentaria compreender duas vertentes que me parecem ser as essenciais, como
ponto de partida: 1) compreender a criança ' documentando-me sobre ela, mas
sobretudo, através da observação direta da sua pessoa em ação, isto é, dos
aspetos que compusessem a sua personalidade, formas de sentir, agir e reagir em
contextos diversos; inteirando-me do seu nível de competências -
potencialidades (áreas fortes e áreas específicas de interesses) e fragilidades
(áreas em que revelasse menor desenvoltura e áreas do comportamento passíveis
de serem lidas pelos outros como estranhas, como por exemplo determinados
maneirismos ou estereotipias pessoais) - relacionadas com aspetos cognitivos/
académicos mas também com as áreas do comportamento adaptativo ' autonomia e
independência pessoal, comportamento social, comunicação, etc.; 2) compreender
os fatores ambientais relacionados com o contexto escolar em que se inseria a
criança, sobretudo o contexto de aprendizagem e contextos informais de
interação com os pares (momentos de recreio, por exemplo). Nos fatores
ambientais, incluo também, naturalmente, a necessidade de compreender a
dinâmica de sala de aula, a forma como a professora titular de turma lidava com
as diferenças em contexto de sala de aula, bem como o próprio perfil da turma
em que estaria inserida. Tratando-se de uma turma de 1º ano, em que os alunos
se encontram num nível de desenvolvimento ainda precoce, o facto de serem
suficientemente novos para não terem ainda perceções muito definidas sobre o
sucesso académico, seria, quanto a mim, uma grande vantagem para o trabalho a
desenvolver. Na posse deste tipo de dados, o passo a seguir seria trabalhar a
professora, em função das suas próprias necessidades, personalidade e estilo de
ensino, ajudando-a a compreender o meu olhar sobre o assunto, as estratégias
que me pareceriam adequadas implementar de acordo com a situação e, sobretudo,
fomentar nela o sentimento de crença nas potencialidades da criança, diluindo
um pouco a parte do diagnóstico/rótulo e focalizando mais nas possibilidades de
intervenção educativa com a criança e com os seus pares, em contexto de sala de
aula. Assim, e avançando para um passo seguinte, de implementação de
estratégias pedagógicas concretas, um dos desafios que lançaria à professora
seria que, nos dias/períodos letivos em que eu estivesse a trabalhar com a
turma e durante algum tempo (no mínimo, todo o primeiro período letivo) fossem
realizadas sessões de dinâmicas de grupo com a turma, isto é, pequenos jogos de
cooperação, de auto e heteroconhecimento (desenvolvimento pessoal e social),
introduzindo já alguns conteúdos programáticos do ano em causa e que poderiam
ser do domínio de qualquer área curricular (por exemplo, jogos relacionados com
a consciencialização fonológica, uma área tão necessária à aprendizagem da
leitura e da escrita e já contemplada nos novos programas de Língua Portuguesa
do 1º Ciclo/1º ano; ou jogos relacionados com matemática, associação de números
a quantidades, conceitos espaciais, etc., conceitos de estudo do meio, como o
conhecimento do corpo, as cinco sensações, etc.). O mais importante seria,
nesta primeira fase de intervenção, formar um grupo coeso em termos de
relacionamentos interpessoais para dissipar qualquer hipótese de
desencadeamento de um processo de exclusão da criança, possibilitando, ao mesmo
tempo, o início da aquisição de competências académicas por parte dos alunos. A
gestão dos jogos de cooperação e das formas de agir das crianças neste tipo de
jogos (que trabalham uma série de competências sociais, de aceitação do outro,
do querer ajudar e ser ajudado, do saber elogiar o outro, saber não concordar
sem se zangar, negociar interesses, recompensas, etc., etc.) teria de ser feita
em parceria pedagógica e eventualmente depois, proporia à professora que desse
continuidade em outros momentos da semana, assim que a mesma se sentisse à
vontade para o fazer e com vista a tornar a intervenção mais sistemática. Uma
outra situação que me parece importante e que poderia ser implementada com esta
criança, mas também com todas as outras, de forma a diluir o caráter
diferenciador visível aos olhos dos outros, seria dar-lhes algum tempo,
diariamente, após um período de realização de tarefas escolares, para se
dedicarem aos seus interesses pessoais. Não seria como forma de reforço de bons
ou maus comportamentos, mas sim um momento estruturado e integrado na rotina
diária das atividades letivas. Cada criança tem as suas áreas de eleição em
função das suas maiores capacidades (é sabido que, adultos ou crianças, todos
retiramos muito mais prazer daquilo em que nos consideramos mais competentes a
fazer ) e, no caso da criança com síndrome de asperger, esse seria o seu
momento para poder desenvolver trabalho na(s) sua(s) área(s) de interesse mais
restritas e poder tornar mais visíveis aos olhos dos outros, as suas
potencialidades. Existe uma multiplicidade de interesses específicos destas
crianças que podem ser perfeitamente enquadráveis nos contextos de
aprendizagem, até porque muitas das crianças com a problemática em causa
apresentam excelentes capacidades de memorização e de trabalho autónomo na
concretização de pequenos projetos pessoais, mesmo nestas idades mais precoces.
Sempre com a supervisão e mediação da professora da turma, naturalmente, e até
promover a partilha entre os alunos, dos seus trabalhos, projetos
descobertas que tivessem realizado nesse tempo de atividade mais livre.
Rapidamente se poderiam até descobrir outros alunos que não saberiam como
ocupar esse tempo e, nesse caso, teriam de ser ensinados a descobrir-se no
que lhes dá prazer fazer num contexto de aprendizagem. Ainda como forma de
atuação concreta com uma criança com síndrome de asperger, seria necessário
elaborar uma espécie de inventário das situações que, de acordo com o seu
perfil específico, poderiam despoletar comportamentos desajustados / birras na
sala de aula, para poder agir, não no momento das manifestações da criança, mas
antes delas se verificarem, numa vertente de atuação mais preventiva. Na
eventualidade de emergirem disrupções no seu comportamento, a minha atuação e
aconselhamento à professora seria sempre no sentido de não reforçar de todo o
comportamento que estivesse a ser evidenciado (reação por ausência de reação)
facultando à criança e ao grupo um tempo de silêncio absoluto durante a
ocorrência (o que por si, iria diminuir o tempo de manifestação do
comportamento desajustado) e só então, fora da situação, analisar, com a
criança em separado e com todo o grupo depois (criança com SA incluída), todos
os antecedentes que teriam motivado o episódio, dando a possibilidade a todos
de refletirem sobre os factos e apontarem estratégias de resolução de problemas
análogos, a implementar por todos, em situações futuras, nomeadamente: 1-
identificar o problema ocorrido; 2- analisar as emoções da criança, no momento
da explosão e as suas causas; 3- analisar as emoções e reações dos colegas;
4- sugerir alternativas comportamentais à criança ' a que outras formas poderia
recorrer para exprimir o seu desagrado, angústia, incompreensão, etc.) - e
alternativas comportamentais no que se refere a eventuais reações negativas
manifestadas pelos seus pares. A meu ver, e pelos estudos de teor
comportamental de que tenho conhecimento, discursos unilaterais por parte do
professor não surtem qualquer efeito nestas crianças e a utilização de
expressões como portar-se bem ou mal são demasiado ambíguas para a
identificação / obtenção dos comportamentos desejáveis. Este tipo de
intervenção não implica muito tempo, desde que seja ensinada de forma explícita
às crianças e treinada com alguma regularidade, mesmo a propósito de pequenos
conflitos do seu dia-a-dia escolar. Se a atuação for feita de uma forma
consistente, rapidamente as mesmas aprendem o que se espera delas nesses
momentos, quer naquele em que se desencadeia o comportamento disruptivo, quer
no momento de reflexão sobre o mesmo. Outras estratégias que considero
importante implementar de uma forma sistemática (e jamais apenas na presença do
docente de educação especial) em contexto de sala de aula, quando se tem uma
criança considerada com SA são, necessariamente, as que remetem para a forma
como são dadas instruções para a realização de tarefas e a forma como é
reforçado o trabalho realizado pelo aluno, a saber: fazer uso de uma linguagem
totalmente isenta de segundos sentidos, com uma única instrução de cada vez,
devendo a mesma ser precisa, objetiva e concreta, para que a criança entenda
claramente o que se espera dela em termos de trabalho. Há que ter em atenção
que este tipo de crianças tem, geralmente, uma interpretação muito literal,
restrita e idiossincrática da linguagem (por exemplo, apresentam grandes
dificuldades em compreender metáforas, ironias e expressões idiomáticas e por
isso são também muito pouco hábeis na mentira e no contorno de situações que
surjam a seu desfavor), aliada a uma característica que lhes é também inerente
e que se prende com a rigidez/inflexibilidade de pensamento (por exemplo, no
caso de crianças que já saibam ler as horas, se o professor disser que o lanche
é às 10.00h e se o mesmo tiver início às 10.10h, a criança com SA ficará
confusa, não entendendo a insignificância deste tipo de distância temporal).
Tudo tem que lhes ser explicado, mesmo o que nos parece a nós muito óbvio e
passa despercebido à maioria das crianças, que entendem estas pequenas
situações como perfeitamente naturais. Do mesmo modo, relativamente ao reforço,
este deve ser sempre feito de forma a apontar primeiro e muito claramente os
aspetos positivos do trabalho e só depois apresentar alternativas concretas
para o melhorar, dando sempre mais visibilidade, no seio do grupo, aos aspetos
do trabalho em que obteve maior sucesso. Esta questão, podendo parecer de
somenos importância, pelo contrário, irá gerar ou aumentar, nesta e nas outras
crianças, a tão desejada motivação intrínseca para fazer melhor numa próxima
vez, retirando mais prazer nas aprendizagens em que não se revelam tão aptos.
Sendo crianças com interesses muito restritos, os quais assumem, na grande
maioria das vezes, um caráter obsessivo, é com facilidade que se alheiam por
completo de conteúdos ou atividades escolares que não são significativas para
si, sendo da maior relevância que, sempre que possível, se parta dos seus temas
prediletos, através de exemplos relacionados com os interesses específicos,
para os chamar a ter uma participação mais ativa na abordagem aos conteúdos
programáticos, o que é perfeitamente possível desde que se detenha o tal
conhecimento sobre a criança, a este nível.
Outra questão que por vezes interfere com a sua funcionalidade em contexto de
sala de aula são as suas rotinas muito peculiares e extremamente rígidas. Atuar
sobre este aspeto, implicará, por exemplo, estabelecer contratos com o aluno em
que seja muito bem delimitado e esclarecido à criança o que lhe é permitido
fazer (e deverá existir mesmo uma flexibilidade por parte do professor, neste
âmbito), quando e durante quanto tempo. Estas rotinas que uma criança
considerada com SA evidencia são para ela como um tranquilizante,
minimizando-lhe a ansiedade e provocando nela uma sensação de segurança, pelo
que devem ser respeitadas em contexto educativo. Apenas é necessário
estabelecer as regras que permitem a manifestação dessas rotinas pessoais e,
no caso de alunos mais velhos, negociá-las com eles.
Terminando ainda que pudesse apontar muitas outras estratégias de fácil
implementação, no que diz respeito a possíveis atuações do foro mais
curricular, uma vez que estas crianças apresentam, muitas vezes, um perfil
intraindividual heterogéneo, com grande discrepância de capacidades nas
diversas áreas do conhecimento, falando de uma forma geral, a minha proposta de
intervenção seria no sentido da diferenciação de objetivos e formas de
avaliação em função dessa mesma discrepância (mesmo que a criança não estivesse
abrangida pelo Decreto-Lei nº3/2008, de 7 de janeiro, dado que nem sempre é
necessário enveredar por esse caminho), ou seja: nas áreas mais fortes da
criança, deveriam ser estipulados objetivos mais ambiciosos do que os definidos
para o ano de escolaridade em causa (à semelhança dos planos de desenvolvimento
previstos no despacho conjunto nº 50/2005, de 9 de novembro, e que podem ser
implementados por área curricular/disciplina) e realizar uma avaliação
complementar à tradicional, isto é, com recurso a outras modalidades
avaliativas, como a construção de portfólio nessas áreas e/ou projetos
apresentados à turma/comunidade escolar; nas áreas mais fracas, prever a
introdução de objetivos intermédios, mais acessíveis e faseados no tempo e
percorridos ao ritmo da criança, com a decorrente diferenciação ao nível da
avaliação também, adequando não só através da diversificação dos instrumentos
de avaliação, mas também nos próprios instrumentos tradicionalmente mais
utilizados na avaliação formativa/sumativa.
Isabel Sanches- Todos sabemos que a cultura, a política e as práticas de uma
escola têm tudo a ver com quem as implementa ou as faz implementar, donde a
importância de lideranças fortes, formadas e informadas. Se fosse nomeada
Diretora da sua escola, o que faria para fazer dela uma verdadeira comunidade
educativa?
Sofia - Bem, não deixa de ser uma coincidência curiosa o facto de focar, na sua
pergunta, os três pontos-chave que me parecem ser os mais importantes e os
quais identifico como sendo os mais fracos da liderança na minha escola em
particular
Para mim, liderança é firmeza, consistência e flexibilidade, ingredientes que
se integram num estilo de atuação assertivo. É ter um papel ativo e muito
interventivo na mudança de mentalidades na escola, criando uma identidade
própria da mesma; é ter uma visão de longo prazo da resolução de problemas, uma
perspetiva de auto-formação/reflexão sobre as suas práticas de liderança e
estar sempre atualizado sobre os estudos científicos que se vão produzindo
sobre a educação ' questões sociológicas, questões científicas e pedagógicas,
inclusão, mas também sobre questões de gestão escolar e especificamente de
gestão de recursos humanos.
Li há tempos um texto de Luiz Ortega Freire, precisamente sobre as lideranças
na escola e o papel do diretor na construção da escola desejável e enquadrável
nas sociedades do século XXI, do qual me ficou uma frase da autoria de Bill
Bethel e que vai muito ao encontro das minhas conceções sobre o assunto. Bethel
refere que uma equipe bem sucedida é um grupo de muitas mãos, mas de uma
mente e este seria o mote da primeira vertente da minha atuação, caso me fosse
lançado o desafio de liderar a minha escola. Tendo em conta o estado atual da
liderança do meu Agrupamento começaria, justamente, por criar uma consistência
sólida entre os elementos da direcção, por forma a obter uma equipa de trabalho
coesa, reflexiva e cooperativa, onde as diversas ideias e diretrizes que fossem
debatidas confluíssem numa única postura, sem ambiguidades e securizante para
toda a comunidade educativa. Sendo necessário, como em qualquer equipa de
trabalho, conciliar ideias diferentes, é fundamental que cada elemento da
direção se reveja nas decisões tomadas no seio da equipa a que pertence para
que possa tornar-se um agente eficiente na concretização das mesmas, na
comunidade escolar. É quase como educar uma criança com base nos princípios da
coerência e da firmeza, da consistência e coesão entre os educadores e alguma
flexibilidade mental para intervir em situações específicas inesperadas para
que os professores possam evoluir não só nas suas práticas de teor mais
pedagógico, mas também na construção de relações profissionais mais produtivas
e pró-ativas, é fundamental que sintam que a voz que os lidera é, ao mesmo
tempo, uma voz estável, firme e sustentada por reflexões bem trabalhadas,
previamente, ao nível interno da direcção e uma voz que lhes soe também a
flexibilidade e positivismo, mostrando-se facilitadora dos processos de mudança
e de resolução de problemas. Faria com que existissem linhas orientadoras
precisas, estáveis e conhecidas de todos, construídas a partir da minha
conceção sobre o papel da escola na formação dos professores e dos jovens de
hoje e sobre o caminho que eu iria querer traçar para a minha escola. Esta
questão implicaria adotar uma postura de estratega, definindo muito bem os
passos a seguir para alcançar este e outros objetivos. Por exemplo, como
primeira estratégia, iria, naturalmente, trabalhar as próprias conceções
pessoais dos vários elementos da direcção com vista a negociar macro-
objetivos para a escola e alcançar consensos no seio da direção. A partir
daqui, a segunda estratégia seria definir melhor as funções de cada um dos
elementos da direção, distribuindo, com clareza, papéis e tarefas, orientando
as muitas mãos de que nos fala Bethel, para que cada elemento pudesse
dedicar-se ao seu pelouro, através da reflexão individual, do
autoquestionando-se e da autoformação e assim contribuir, na parte de gestão
que lhe coube, para o núcleo diretivo a que pertenceria. Operacionalizar esta
estratégia, passaria por implementar reuniões semanalmente para fazer balanços,
refletir em conjunto, avaliar aspetos positivos e aspetos a melhorar e definir
estratégias de atuação face a os problemas de fundo identificados. O sumo
destas reuniões deveria ser, de quando em vez, comunicado à comunidade docente,
por exemplo num balanço de final de período ou de final de ano (não esquecendo
também a comunidade não docente, sempre que se revelasse necessário, dada a
importância também elevada destes agentes educativos, na concretização da
cultura da escola).
Outro aspeto que tentaria melhorar são as formas de fazer chegar a informação a
todos os intervenientes educativos, através da criação de redes eficazes de
comunicação, para que todos estivessem não só devidamente, como também
atempadamente informados sobre as formas de atuação a adotar nas múltiplas
situações da vida escolar. Uma forma de o fazer, seria, tomando o exemplo da
educação especial, a pessoa responsável por esta área na direcção, teria de
disponibilizar a todos os professores do Agrupamento (e no caso de professores
novos na escola, fazê-lo logo na reunião geral de início de ano letivo) um
documento-guião (elaborado, obviamente, pelos Serviços de Educação Especial mas
com a participação desse elemento da direção) onde estivessem bem explícitas as
ideologias da escola neste âmbito, os procedimentos a desenvolver no que se
refere a legislação, implementação de medidas educativas especiais, processos
de referenciação e, ainda, em anexo, todos os instrumentos de trabalho oficiais
da escola, nesta área. Esta seria, quanto a mim, uma forma eficaz de resolver
os imensos problemas, ruídos e falta de informação que existe entre os docentes
em relação à educação especial no meu Agrupamento, por falha na tal rede
coesa e clara de comunicação de informação. Outro exemplo relacionado com esta
questão do estar bem informado é inadmissível que, em plena era das
tecnologias, nem todos os professores tenham acesso imediato às constantes
disposições legais que chegam à escola alguém da direção (penso até que
deveria ser a própria diretora) teria de ser responsável por ler toda a
legislação que surge, analisá-la, debatê-la com os outros elementos da direção
e finalmente fazê-la chegar a todos, sem exceção, e o mais breve possível,
ultrapassando calendários de reuniões departamentais e outras e viabilizando
que as pessoas já estivessem na posse da informação, aquando dessas reuniões de
departamento, para poderem ter uma participação até mais ativa no debate e
compreensão da legislação. Já estive numa escola onde, inclusivamente, era
entregue uma cópia a cada professor e o mesmo tinha de assinar uma folha onde
constavam todos os nomes de professores, assumindo que tinha tido conhecimento
da mesma e pude constatar a eficácia desta estratégia. No meu Agrupamento, e
sobretudo nos conselhos de turma, é notória a falta de informação sobre tantos
procedimentos internos da escola e sobre o que emana do ministério é claro que
aí surgem tantas dúvidas que tornam até as reuniões extremamente ineficazes,
sob vários aspetos.
Por fim, duas questões me surgem ainda: a primeira, tem a ver com a forma como
são conduzidas as questões comportamentais / relacionais na escola, as quais, a
meu ver, deveriam ser objeto de uma atuação mais formativa, preventiva e com
efeitos mais duradouros, articulando devidamente com estruturas como os
serviços de educação especial, os S.P.O. e o gabinete de apoio ao aluno.
Criaria, para concretizar os meus objetivos, um gabinete de mediação, do qual
eu faria parte e que permitisse colocar em prática a gestão construtiva de
conflitos na escola, em todas as suas vertentes (aluno -aluno / aluno-
professor / professor- professor / encarregado de educação- professor). E, por
último, através de uma supervisão atenta do trabalho dos docentes, iria, com
toda a convicção, dar uma maior visibilidade às boas práticas, não como forma
de distinção dos melhores, mas como forma de envolver outros professores na
implementação de experiências pedagógicas ou relacionais em que se obtiveram
bons resultados. Copiar alguém que faz melhor do que nós, não é sinal de
inferioridade, mas sim de sabedoria. É sentir-se desafiado para ir mais longe
E esta minha ideia também se aplica ao papel de diretor, o qual deve,
necessariamente, ter um desejo permanente de autossuperação
Isabel Sanches- A escola, como comunidade educativa, chama a si os pais para
parceiros, não só para acompanhar o percurso do seu filho, mas para participar
ativamente na dinâmica da escola. Como é que as escolas/os professores estão a
lidar com os pais/encarregados de educação e como lhe parece que deveriam
lidar?
Sofia- Apesar de se ter avançado já, na minha opinião, em termos do
reconhecimento da importância do envolvimento dos pais / encarregados de
educação na participação ativa na escola, inclusivamente por parte dos próprios
pais que estão, sem dúvida alguma, muito mais presentes na escola do que há
umas décadas atrás, parece-me a mim que escola e família continuam ainda muito
de costas voltadas e agora coloco a tónica mais em termos da qualidade da
interação do que propriamente da frequência dessa interação. E atribuo muito
mais a responsabilidade desta situação à escola do que propriamente aos
encarregados de educação, pois considero que a mesma ainda não compreendeu, com
o realismo necessário, o poder que tem em mãos para aumentar a qualidade
dessa parceria e dos benefícios que pode ela própria colher, quer em termos do
sucesso educativo, social e emocional dos alunos, quer no que se refere ao
sucesso profissional e bem-estar dos docentes. Primeiro, porque penso que se
continua a colocar o enfoque muito mais no que os pais deveriam fazer, enquanto
educadores, do que naquilo que os professores podem fazer enquanto educadores
também. Ambos contribuem para a formação das crianças / jovens, mas não há que
confundir os papéis e os deveres de cada uma das partes, nesse processo. Há
responsabilidades e problemas que, por pouca coragem que tenhamos em dizê-lo,
só cabem à escola assumir e resolver, assim como existem competências que são
exclusivas das famílias e estes papéis diferenciados continuam demasiado
misturados, dando origem ainda a muitas interferências negativas no diálogo
entre pais e professores Em segundo lugar, entendo que se continua a enfocar
demasiado no que é negativo, mais do que no que se faz de positivo, quer por
parte dos pais em relação aos professores, quer por parte destes em relação a
alunos e respetivos encarregados de educação. Por exemplo, uma das atuações que
sempre me pareceu errada na escola é o facto de os professores contactarem os
encarregados de educação, quer através de caderneta, quer chamando-os à escola,
apenas na sequência de situações problemáticas, sejam elas relacionadas com
assiduidade, desempenhos académicos ou questões comportamentais por que não
chamar à escola os pais em momentos em que existe algo de positivo a comunicar
sobre os seus educandos, mesmo os mais problemáticos e sobretudo os pais
desses? Voltamos à questão da criação de sinergias, geradoras de motivações e
mudanças positivas
Uma outra mudança que penso que poderia contribuir para criar boas parcerias
entre a escola e a família seria alterar as dinâmicas que se implementam para a
articulação entre pais e professores. Dando um exemplo concreto, os pais são
chamados, periodicamente, através dos seus representantes por turma, a
participar em reuniões de conselho de turma. Ora, se existe um encarregado de
educação que é eleito pelos restantes pais de alunos de uma mesma turma para
ser o representante das vozes de todos os outros, seria lógico, a meu ver, que
antes e após os conselhos de turma, se realizassem reuniões entre todos os pais
da mesma turma, quer fosse para levar sugestões ao referido conselho,
relacionadas com diversas questões do grupo-turma em que se inserem os seus
educandos, quer fosse para terem um conhecimento objetivo sobre as informações
oriundas das reuniões com os professores, a meu ver, muito subaproveitadas no
aspeto em análise. Em nenhuma escola por onde tenha passado até ao momento e
noutras onde tenho contacto com colegas, estas reuniões são efetuadas, sendo,
muitas vezes, os contactos feitos em função do grau de proximidade existente
entre alguns pais, acabando por não se concretizarem os objetivos inerentes à
função de representante de pais. Na minha opinião, esta é uma das razões pelas
quais não existe um verdadeiro envolvimento de todos os pais na vida da turma,
encontrando-se estes ainda muito centrados na vida do seu próprio educando,
como se esta fosse dissociável das suas vivências no contexto da turma em que
está inserido.
Outra questão prende-se com o chamar os pais a participar em atividades,
integradas ou não no plano anual de atividades, em projetos existentes e
comemoração de efemérides, que muitas vezes são realizados sem o seu
conhecimento, assistência e muito menos participação ativa (falo, por exemplo
de festividades, jantares de natal, espectáculos realizados por professores e
alunos, integração dos pais nos clubes de música, teatro, etc.). Penso, de
facto que o caminho seria tocar nas diversas questões que aflorei e noutras
ainda que não cheguei a abordar, mas mais uma vez, considero que a questão da
qualidade da parceria escola/ pais só é alterável de uma forma estrutural, se
for essa a cultura da escola e se esta for bem fomentada nos professores por
parte de quem os lidera, por exemplo, através da sua explicitação clara em
documentos oficiais como o projeto educativo e o regulamento interno do
agrupamento.
Isabel Sanches- A sua escola assume-se como elemento ativo da comunidade em que
se insere? Como o faz ou como poderia fazê-lo?
Sofia- Na verdade, querendo focar-me apenas no presente e no futuro, é com
bastante agrado que verifico que a minha escola começa agora a dar passos mais
alargados nesse sentido. Em setembro deste ano letivo, realizámos a segunda
edição de uma atividade que teve o envolvimento total da comunidade local,
tendo trazido às ruas da cidade por volta de cinco mil pessoas, oriundas da
cidade e de outras cidades/distritos; pela primeira vez este ano, foi
assinalado o dia nacional da deficiência na cidade, atividade promovida pelo
meu agrupamento e que envolveu toda a comunidade local, imprensa e segurança
pública e apelou à participação ativa das pessoas em diversas atividades, pelas
ruas da cidade. Obviamente que muito há ainda para fazer, nomeadamente no que
se refere a trazer para fora da escola todos os bons projetos que ali existem e
que podem tornar-se bastante mais ambiciosos se alargados à comunidade,
contribuindo para o seu enriquecimento cultural, artístico e humano, por
exemplo, com exposições em locais da cidade, realizadas pelos alunos sobre
variadíssimos temas abordados nas diferentes disciplinas, montagem de
espetáculos musicais e teatrais nos espaços da comunidade existentes para o
efeito, realização de saraus culturais, jantares temáticos, etc. Penso que um
agrupamento de escolas reúne, potencialmente, fatores bastante facilitadores da
evolução da comunidade em que se insere. É apenas uma questão de otimização de
todo esse potencial e de operacionalização de objetivos
Isabel Sanches- Para finalizar esta nossa conversa, agradecendo este seu
contributo, para esta reflexão sobre a escola e as suas práticas,
principalmente no que à inclusão diz respeito, dou-lhe agora a oportunidade de
completar e ou complementar algo que não tenha sido dito ou perguntado e que,
na sua perspetiva, seja importante acrescentar.
Sofia - É claro que sinto que muito fica ainda por dizer mas gostaria de
destacar apenas, neste momento em que se vive um desânimo generalizado nas
escolas, que nós, professores, não podemos estar à espera, muito menos na
conjuntura económica atual em que se encontra o país, de ser recompensados pelo
que damos de nós à escola, já que escolhemos como profissão educar crianças e
jovens sobretudo, penso que não podemos deixar que as razões que têm provocado
tanto descontentamento - mais do que válido - na nossa classe, influenciem
negativamente a nossa postura uns para com os outros e também perante o grupo
de alunos que é alheio a todas essas questões não só por eles, mas também por
nós, pois acredito que quando lutamos pelo sucesso e bem-estar dos alunos, é
pelo nosso próprio bem-estar que estamos a lutar, pela nossa realização pessoal
e motivação no que fazemos todos os dias e estou convicta que podemos, entre
nós, ao nível da escola e das relações profissionais que estabelecemos
quotidianamente uns com os outros, gerar recompensas e reforços a outros
níveis, para que nos sintamos valorizados na nossa missão. Deixarmo-nos
contagiar pelo entusiasmo de alguns, partilhar com os colegas, não tanto as
angústias da profissão que muitas vezes acabam por ser pouco produtivas e
impeditivas da mudança, mas sobretudo os aspetos positivos e a vontade de fazer
melhor Sei que o sucesso (académico e pessoal) do aluno tem um forte impacto
no sentimento de sucesso do professor e, por este motivo, há que canalizar as
nossas energias para isso mesmo já que todos beneficiaremos, sob o ponto de
vista emocional (entre outros), desta forma de sentir a profissão. E a
propósito de inclusão a mesma é tão necessária entre os alunos, quanto entre
os professores; diria mesmo que aquela depende, em grande parte, desta se
criarmos formas de estar mais próximos uns dos outros, se cooperarmos mais
entre nós, refletindo em conjunto, estabelecendo objetivos comuns e trabalhando
para eles, poderemos desenvolver um outro sentimento de pertença ao nosso grupo
profissional, não aquele que está demasiado marcado por um discurso de palavras
amargas, mas um sentimento mais positivo e mais produtivo naquilo que nenhuma
outra classe alguma vez poderá fazer melhor do que nós: formar cidadãos
assertivos, ativos e criativos e mudar as mentalidades de uma sociedade.
Isabel Sanches' Mais uma vez o meu muito obrigada pelo modo como conseguiu dar
visibilidade ao que realmente é ou poderá ser a nossa escola e, assim, podermos
refletir sobre os nossos próprios contextos institucionais, de modo a dar
continuidade às práticas existentes ou a apostar numa mudança, no sentido da
construção de ambientes educativos mais participados e mais equitativo,
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