Do aprender para fazer' ao aprender fazendo': as práticas de Educação
inclusiva na escola
Introdução
Falar de Educação inclusiva é, por si só, falar de exclusão, mas é um
comportamento necessário quando se procura atingir o oposto ao que é praticado,
correndo o risco de, por vezes, esse risco se tornar em dura realidade. O
acesso à educação inclusiva tem de passar pela eliminação de qualquer
discriminação, seja ela positiva ou negativa, embora para lá chegar se tenham
de percorrer muitas etapas intermédias, por vezes bem discriminatórias. É
apostar no contexto e no grupo, como ponto de partida e ponto de chegada, sem
deixar de fora nenhum dos seus elementos e aproveitando-os como recurso para
dinamizar e estimular as aprendizagens sociais e educativas. É formar uma
comunidade flexível que modifica o seu funcionamento, de modo a fazer sentido
para cada um dos elementos que a constituem.
Encarada como um desafio, a operacionalização da Educação inclusiva poderá
passar pela implementação da investigação-ação realizada pelo professor (Bell,
1997), envolvendo todos os intervenientes do processo educativo, numa dinâmica
de ação/reflexão/ação, como processo de formação (auto e hétero) e de resolução
de problemas (Sanches, 2005).
Se quem quer arranja maneira', não há motivo que possa superar o querer fazer
e, por isso, neste artigo são apresentados exemplos do que se pode fazer,
aproveitando e mobilizando os recursos que se têm, mas principalmente
congregando vontades, bons profissionais e boas práticas educativas.
Educação e Escola inclusivas: uma utopia realizável?
Viver e aprender com os seus pares, na sua comunidade, incluindo a escola do
seu bairro', é ter acesso a uma Educação inclusiva. Falar de Educação
inclusiva é falar em equidade, diversidade física, intelectual, étnica,
cultural ou religiosa, direitos e também deveres, e romper com as barreiras
impostas pela utopia de alcançar a homogeneidade, a normalização, o homem/
o aluno médio'. É viver e aprender com as diferenças e trazer para as nossas
vidas o esplendor do arco-íris com a sua harmonia, beleza e diversidade de
cores. É respeitar e ser respeitado, é amar e ser amado, éolhar e viver' a
diferença como o direito a ser, a fazer e a estar com os outros, numa
perspetiva de desenvolvimento de sociedades mais inclusivas, logo mais
democráticas.
Na Educação inclusiva, o centro da atenção é transformar a educação no acesso
de cada um aos seus direitos: direito à educação e à igualdade de oportunidades
e de participação, em comunidades educativas corresponsáveis e
corresponsabilizantes, em que a sua escola é capaz de se deixar desafiar para
bem acolher e garantir o sucesso de todos os seus alunos, independentemente da
sua cor, raça, etnia, situação de deficiência ou sobredotação e, ainda, aqueles
que não encontram sentido ou consideram irrelevantes as aprendizagens que a
escola lhes proporciona.
Aceder a uma Educação inclusiva é procurar uma cidadania plena, no que ela
comporta de direito e responsabilidade em estar com outros e com eles colaborar
e aprender, num processo ativo de implicação e de tomada de decisões. A
Educação inclusiva supõe uma escola inclusiva, uma escola que arranja maneira'
de acolher todas as crianças e jovens da sua comunidade, flexibiliza e adapta
os seus currículos, não se limitando a reduzi-los, reestrutura as suas práticas
de organização e de funcionamento, de forma a responder à diversidade dos seus
estudantes, desde os mais vulneráveis aos mais dotados, apostando na mudança de
mentalidades e de práticas, implicando, valorizando e corresponsabilizando
todos os intervenientes no processo educativo. Uma escola inclusiva é uma
escola em movimento, uma escola que evolui sempre, que nunca atinge o estado
perfeito, como afirmam Booth, Ainscow, Black-Hawkins, Vaughan e Shaw (2000),
que é capaz de gerir e tirar partido das mais-valias que comporta a diversidade
dos seus alunos e colaboradores, desde os diretores aos alunos, passando pelos
encarregados de educação, elementos da comunidade, funcionários e professores;
é uma escola sem grades', aberta e disponível para o diálogo e a negociação
dos seus conteúdos e processos de operacionalização, sem deixar de ter
autoridade, exigência e competência;é uma escola que reconhece as diferenças,
respeita a diversidade, é flexível e crítica, não promove a igualdade, mas a
equidade, e tem especial preocupação na promoção da participação e das
aprendizagens dos seus alunos.
Diferentes entendimentos se geram à volta dos conceitos Educação inclusiva e
escola inclusiva (desde os diretores das escolas aos professores, encarregados
de educação, funcionários e aos próprios alunos), o que conduz a práticas de
organização e de funcionamento, por vezes mais excludentes do que inclusivas,
debaixo do mesmo chapéu.
Educação inclusiva, hoje, é um processo, uma caminhada com avanços e recuos,
com obstáculos a vencer, e não algo acabado, o farol' da participação ativa de
todos, descobrindo e ativando o potencial de cada um, na construção da
comunidade que é de todos e de cada um. É olhar fundo para cada pessoa,
apostando na essência do ser e não nas aparências, no parecer, o que pode
conduzir a graves erros de conceção e de operacionalização de práticas
educativas. É encontrar as melhores formas de responder à diversidade, a viver
e a aprender com a diferença, encarando a diferença como um desafio e uma mais-
valia à vida em comunidade e à resolução dos seus problemas. É identificar e
remover barreiras pessoais, sociais e educativas, numa atitude proactiva de
conceber e operacionalizar políticas e práticas que promovam não só a presença
de todas as crianças e jovens na escola, mas que apostem na sua participação
ativa, envolvendo-os em aprendizagens significativas, académicas e sociais, que
desencadeiem o seu sucesso. Não é olhar para as crianças e jovens, através de
testes e exames, mas envolvê-las e avaliá-las em todo o processo de construção
do seu saber, numa dinâmica de cooperação com os seus pares. Não é 'olhar' para
o indivíduo, isoladamente, mas para o grupo em que se insere, numa atitude
mobilizadora e cooperativa, numa perspetiva de diferenciação pedagógica
inclusiva (Sanches & Teodoro, 2006), ou seja, diferenciar tarefas dentro do
grupo e não indivíduos.
Urge, portanto, umarevolução científica (Kunh, 2006) e que tenha como
pressuposto uma revolução cultural (Gardou, 2003), que consensualize
conceitos e ajude a definir práticas que pressuponham o desenvolvimento, a
aprendizagem e o sucesso de todos, através da sua participação ativa.
Porquê incluir e estar incluído?
Incluir tem vindo a ser a bandeira' de educadores e técnicos que trabalham com
crianças e jovens em situação de deficiência ou com os considerados com
necessidades educativas especiais, como, em termos educativos, são designados.
Hoje questiona-se esta aposta porque deu origem a que os estudantes/cidadãos,
que vêm a sua participação impedida e/ou a precisar de ser melhorada (Ainscow,
2009), não tenham as necessárias oportunidades. Inclusão, hoje, significa
superação da discriminação e da não acessibilidade a bens essenciais, entre os
quais destacamos aqui a Educação, a educação inclusiva, de todos os estudantes
que, por razões várias (comportamentais, deficiência ou pobreza, entre outros),
dela são excluídos.
Incluir não é partir da categorização/rotulagem do indivíduo1, mas sim da
elencagem e superação das barreiras sociais e educativas que impedem o acesso
às aprendizagens e à participação na escola/comunidade. Selecionando as
barreiras, e gerando e gerindo os recursos necessários à sua transposição,
criam-se condições para que todos, e não só um grupo específico, possam
usufruir de resposta às suas necessidades. A perspetiva de resposta individual,
a dominante na maioria dos países (Mittler, 2000), e que tenta ocultar
diferentes razões (culturais, sociais, entre outras), tem de ser substituída
por uma resposta coletiva, obrigando a medidas mais estruturantes e mais
abrangentes. Não ir atrás da deteção das dificuldades/défices, mas
proactivamente, ir à procura das soluções que têm vindo a ajudar a resolver os
problemas, os desafios que se colocam às comunidades, sociais e educativas,
caracterizadas pela diversidade dos seus públicos, como afirma Sanches (2011),
implicando e corresponsabilizando todos os intervenientes e interessados na
resolução do/s problema/s.
Incluir não é partir de expetativas baixas e não acreditar no potencial que o
indivíduo tem para aprender com os seus pares e de participar nas atividades do
seu grupo natural (talvez uma forma de arranjar desculpas), mas documentar-se
adequadamente para poder ultrapassar ideias feitas sobre a essência e os
processos de aprendizagem, resultantes de investigação e reflexão na área,
enfocando na relação com os pares (Vigotsky, 1985). A aprendizagem desenvolvida
com a cooperação dos pares, mediada pelo professor, torna-a mais acessível e
mais estimulante para novas aprendizagens porque o que hoje é feito com ajuda,
como um desafio, prepara para amanhã fazermos sozinhos, interferindo na zona de
desenvolvimento proximale provocando avanços que não se dariam de forma
espontânea (Vigotsky, 1987). A modelagem, quando bem conduzida, é uma ótima
fonte de inspiração para desencadear aprendizagens e comportamentos adequados,
sobretudo nos mais jovens.
Incluir será, também, ultrapassar a perspetiva do indivíduo como único
responsável pelas suas dificuldades e numa procura de resposta na compensação/
reabilitação, para as equacionar em função da interação recíproca contextos/
comunidades e sujeito e apostar na alteração das dinâmicas dos contextos ao
mesmo tempo que se trabalham as dinâmicas individuais.
Segundo Sanches (2005), esta dinâmica de procura de resposta para os desafios
que a educação inclusiva impõe' vai obrigar, necessariamente, a uma atitude de
experimentação de novas práticas, à reflexão sobre elas e a melhor adequar as
estratégias ao grupo, beneficiando, assim, todos os alunos. A mudança de
atitude e de metodologias em relação às práticas poderá ser uma componente
importante para a tão almejada mudança de paradigma em relação à escola. Poderá
ser o contributo que a educação inclusiva pode dar à escola na perspetiva de
uma escola verdadeiramente para todos e para cada um.
Estar incluído significa querer estar, estar disponível para respeitar e ser
respeitado, gerir os seus pré-conceitos e compreender (não implica aceitar) os
dos outros, mudando e fazendo mudar mentalidades, participando e não se
autoexcluindo, tendo odireito à sua diferença e o dever de respeitar a
diferença dosoutros. No processo de inclusão, um processo sempre dinâmico e
inacabado, todos têm a ganhar e a perder: ganha-se em humanidade, aprendizagens
e participação, perde-se em benefícios inerentes à exclusão que se pode
consubstanciar em discriminação positiva ou negativa. Ao direito inalienável de
ser incluído na sua comunidade de pertença (família, escola, comunidade local e
alargada), como elemento constituinte da mesma, cabe o dever de contribuir para
a sua dinâmica, desenvolvimento e prosperidade, de acordo com o seu grau de
funcionalidade, coresponsabilizando-se e implicando-se.
Construindo salas de aula inclusivas
A caminhada para a Educação inclusiva, numa perspetiva de Educação para Todos
(1990) e com todos, está em marcha em muitos países, entre os quais Portugal,
pois tem vindo a ser uma das 'bandeiras' de organizações internacionais, entre
elas a Unesco (1997, 2000, 2001) e a EENET (2000), bem como de autores como
Booth e Black-Hawkins (2001) e Stubbs (2002), entre muitos outros.
Estão neste movimento países como o Reino Unido, com as suas escolas
compreensivas, a tradição Folkeskole na Dinamarca ou a escola comum nos
Estados Unidos (Ainscow, 2009), entre outras. Também à Ásia, África e Austrália
podemos ir colher exemplos desse dinamismo, donde ressaltam as ideias
principais: elencagem das barreiras à aprendizagem e à participação e
implementação de recursos para apoiar a aprendizagem e a participação,
construindo culturas, políticas e práticas de inclusão. Em Portugal verificam-
se exemplos mais ou menos pontuais, verdadeiros nichos de excelência, em
escolas onde se desenvolvem boas práticas2.
A sala de aula é, na escola regular, um local privilegiado para desencadear
atitudes e comportamentos de inclusão, tanto nos alunos como nos professores,
desde que as interações se processem e que todos sejam envolvidos nas tarefas.
Naturalmente, a classe regular propicia trocas sociais e académicas
significativas, o que faz com que seja um local adequado para as aprendizagens,
mesmo para as crianças e jovens com multideficiência. Dos três locais testados:
Instituição, Unidade especializada em multideficiência (UEM) e Classe regular,
foi a classe regular que se revelou como o local com maior qualidade de ensino
(Maia & Ferreira, 2007), embora, como os próprios autores afirmam, colocar
os alunos na classe regular não é sinónimo de inclusão.
A construção de uma sala de aula inclusiva passa por perspetivar a educação
para todos e com todos, sendo o professor da classe o responsável pela
participação e a aprendizagem de todos os alunos, gerando e gerindo as
condições e os recursos necessários para o seu sucesso. As práticas educativas
dirigidas para o aluno médio, não contemplam a diversidade dos alunos de que é
feita a escola de hoje, logo não pode continuar a ser a resposta oferecida.
Mudar as práticas de sala de aula, assentando no desenvolvimento dos conteúdos
em pequenos projetos, realizados por pequenos grupos, mediados pelo/
s professor/es, apostando na cooperação e na participação ativa dos alunos nas
suas aprendizagens, parece ser um caminho a seguir se queremos dar resposta e
desencadear sucesso em todos, independentemente das suas caraterísticas. Passa,
também, por acreditar mesmo que as crianças e os jovens aprendem mais e melhor
com os seus pares, se devidamente orientados, do que numa relação biunívoca,
adulto/criança ou jovem. Passa por acreditar e experimentar para fundamentar a
sua opinião e ultrapassar o pré-conceito de que com o método tradicional os
alunos aprendem mais e melhor do que com métodos mais ativos e participativos.
O mundo está a mudar tão depressa, por que não havemos de dar a hipótese da
dúvida em relação à mudança das nossas próprias práticas educativas?
É importante a quantidade de tempo (os professores reclamam sempre mais tempo
para dar resposta aos seus alunos, principalmente os que apresentam
dificuldades, como mostram relatos e estudos realizados)3, mas, sobretudo, a
qualidade do tempo que se passa em processo de ensino/aprendizagem. A
repetição, embora importante, não pode ser a única estratégia a utilizar,
impondo-se a necessidade de chamar para o processo de decisão, relativamente a
conteúdos e estratégias de participação, aprendizagem e de avaliação, os
próprios alunos. A sala de aula tem de ser um espaço onde a cooperação dê lugar
à competição, o trabalho em pequenos grupos se sobreponha ao trabalho
individual, a parceria pedagógica, quando possível, seja desejada e não
rejeitada.
Meter as mãos na massa: agir para refletir e refletir para agir
Meter as mãos na massa, significa aqui, comprometer-se com investigar para
agir e agir para investigar, procurando e produzindo conhecimento, para ajudar
a encontrar a resposta para um desafio/um problema, na cumplicidade próxima e
ao mesmo tempo distanciada a que obriga a investigação-ação. É estar presente e
sentir-se parte do contexto, gerando e gerindo comportamentos que mobilizem
vontades, criem condições e recursos para que cada um e todos se sintam
corresponsáveis pelos problemas desse mesmo contexto e, por isso, se empenhem
na procura de respostas individuais, mas principalmente coletivas. É ativar as
variáveis contextuais, fazendo-as interagir (Bronfenbrenner, 1979), para uma
resposta mais contextualizada, mais pertinente, mais adequada e mais oportuna.
A investigação-ação, devidamente operacionalizada, é uma abordagem da
investigação qualitativa que obriga à compreensão da realidade com o objetivo
de a transformar. Olhar e ver o que está à nossa volta e questionar o que está
a acontecer é privilégio de alguns. Sentir-se incomodado com isso e criar
condições para a sua análise crítica e para uma tomada de consciência,
procurando a mudança, é dinâmica de muito poucos. Obriga a mergulhar' na (sua)
realidade, para caracterizar, observando e descrevendo, essa mesma realidade,
nem sempre muito aprazível, fazendo destacar os pontos fortes e os pontos
fracos, as expectativas e as necessidades sentidas e, assim, atacar uns e
valorizar os outros. É transformar uma situação inicial, não desejável, em
situação desejável. Este tipo de metodologia de investigação apresenta-se com
um duplo objetivo: o da investigação, para obter um maior conhecimento e o da
ação, para obter uma mudança. O investigador envolve-se ativamente e assume-se
como um agente de mudança.
Esta metodologia tem por base a resolução de problemas concretos que emergem
nos contextos e nesses mesmos contextos e com os diretamente implicados têm de
ser resolvidos, mediados por outros sim, resolvidos por outros, talvez nunca. A
implicação no processo de resolução ajuda a tomar consciência dos problemas e,
muito provavelmente, a evitar a emergência de outros porque todos são coautores
na pesquisa. O investigador não é um agente externo que realiza investigação
sobre pessoas, é um co-investigador com e para os interessados nos problemas
práticos e na melhoria da realidade, como afirmam Coutinho, Sousa, Dias, Bessa,
Ferreira e Vieira (2009).
É, pois, um trabalho a fazer com outros e não sobre os outros,
cooperativamente, dado que não se concebe um projeto de investigação-ação que
não seja fruto de uma equipa de trabalho corresponsável e corresponsabilizante,
envolvida em todo o processo e dinâmica, desde a conceção até à avaliação
final, passando, necessariamente, pelas etapas intermédias. As etapas
intermédias são elas próprias o cerne desta modalidade de investigação, já que
elas vão permitindo a reflexão/retroação do processo, a partilha e a discussão,
aferindo, ajustando, acrescentando, retirando, enfim, melhorando passos/
metodologias e produtos intermédios, numa ação inacabada e potencialmente
sempre a melhorar.
O trabalho de projeto que vai ser apresentado neste artigo teve como
metodologia principal a investigação-ação, tendo como ponto de partida a
observação atenta da realidade a intervencionar, bem como dos seus principais
intervenientes. A seleção da situação a trabalhar obedeceu a um critério
obrigatório: ser um grupo/uma turma do ensino regular (público ou privado), em
que a diversidade dos alunos contemplasse, necessariamente, um caso de
necessidades educativas especiais, de carácter permanente. Depois de
selecionada a situação, procedeu-se a uma revisão bibliográfica, para
contextualizar teoricamente a/s problemática/s emergentes e fundamentar, em
termos teóricos, a ação daí decorrente. Ao mesmo tempo, procedia-se à recolha e
à análise de dados, usando as técnicas e instrumentos recomendados para este
tipo de abordagem, dos quais se destacam a pesquisa documental, a entrevista, a
observação naturalista e a sociometria, para além de outros instrumentos
pontuais, adequados à respetiva situação. De entre os autores que estiveram na
base da conceção e aplicação das técnicas e instrumentos, destacam-se Duffy
(1997), para a pesquisa e análise documental; Estrela (1986), Bogdan e Biklen
(1994), Bell (1997), Quivy e Campenhoudt (1998), relativamente à entrevista e
observação; Bastin (1980) e Northway e Weld (1957), em relação à sociometria;
Bardin (1977), Robert e Bouillaguet (1997) e Vala (1986), no que à análise de
conteúdo diz respeito.
A recolha e a análise de dados estiveram presentes em todo o processo,
destacando-se a fase inicial para caracterizar toda a situação de partida, em
termos de contextos e intervenientes, e a fase final para avaliação final do
projeto desenvolvido, ou seja, saber até que ponto se tinha alcançado a
situação desejável. Dessa caracterização emergiam os pontos fortes, as áreas
que iriam servir de ponto de partida para a intervenção, delineada em função
das expectativas e necessidades emergentes, numa perspetiva de gerir a
diferença e ajudar a aprender os mais e os menos capazes, como afirma Sanches
(2005, p. 136).
O trabalho de intervenção era organizado, segundo os seguintes pressupostos:
•planificação para todo o grupo - enfoque no desenvolvimento de competências
académicas e sociais, em simultâneo, e na organização dos conteúdos em pequenos
projetos;
•parceria pedagógica - cooperação entre professor da classe e professor de
educaçãoespecial(incluem-se outros técnicos, se existirem, entre eles os
terapeutas e os assistentes operacionais);
•aprendizagem cooperativa - organização da sala em pequenos grupos,
corresponsabilizando cada um pelo sucesso do outro (auto e heteroavaliação) e
desenvolvendo as competências sociais ao mesmo tempo que se aprendem os
conteúdos académicos, tendo em conta objetivos bem determinados, métodos de
ensino/aprendizagem alternativos, um ensino flexível e a constituição de
subgrupos;
•diferenciação pedagógica inclusiva ' organização e distribuição das tarefas ao
grupo e a cada um dos elementos, tendo em conta o seu potencial emergente
(aquilo que ainda não fazem, mas serão capazes de fazer);
•grupos heterogéneos e rotativos ' heterogeneidade em função do sexo,
desempenho académico e social, etnia, cultura, etc;
•ensino estruturado 'planificação, intervenção e avaliação das atividades,
partindo dos saberes já adquiridos para os que se pretendem fazer adquirir, com
reforços adequados e válidos;
•envolvimento da escola/comunidade e seus intervenientes 'saída da sala de aula
para os contextos escola/comunidade, implicando, sempre que possível, os seus
líderes;
•envolvimento das famílias 'participação ativa dos encarregados de educação,
chamando-os a colaborar no projeto educativo que está a ser desenvolvido;
•ação/reflexão/ação ' dinâmica de investigar para agir e refletir para
novamente agir.
Os processos e os produtos eram aferidos semanalmente, em sessões formais e/ou
informais, numa dinâmica de reflexão sobre o que se fez, para se programar o
que se vai fazer, delineando estratégias e selecionando os conteúdos académicos
e sociais mais adequados. Uma caminhada assente na ação e na reflexão,
contínuas e sistemáticas.
Os objetivos de cada um deles, na generalidade, centravam-se no desenvolvimento
de aprendizagens académicas e sociais de todo o grupo/turma, utilizando o
ensino e a aprendizagem cooperativos, bem como a diferenciação pedagógica
inclusiva como principais estratégias e implicando todos os intervenientes do
processo educativo (era desejável implicar ativamente desde o diretor à
professora da classe, passando pelos encarregados de educação e assistentes
operacionais e, naturalmente, os alunos do grupo/turma). Preconizava-se que o
trabalho assim realizado fosse capaz de desencadear (será melhor ficarmo-nos
por sensibilizar) de imediato, mas também a médio prazo uma mudança nas
práticas de sala de aula, passando
• do modelo tradicional de atuação a um modelo democrático, aberto à
diversidade dos alunos,
• de uma sala de aula organizada em U' ou em carreirinhas de mesas, para uma
sala organizada de acordo com as atividades a desenvolver, privilegiando a
organização em grupos de trabalho,
• de um professor centralizador do poder e do saber, para um professor
orientador das aprendizagens, que reflete sobre as suas práticas, que investiga
para encontrar respostas, que experimenta e que faz funcionar a sua
criatividade,
• de um professor autossuficiente, para um professor que procura os seus pares
e com eles partilha vivências e saberes, apostando, sempre que possível na
parceria pedagógica,
• de um professor que procura a homogeneidade do grupo, para um professor que
enfrenta a diversidade como fator para o equilíbrio do seu grupo e dela tira
partido, nas suas aulas,
• de alunos dependentes do professor, para alunos implicados e
corresponsabilizados na procura e apropriação do saber, cooperando com os seus
colegas, os que têm mais e os que têm menos sucesso académico e social,
•de encarregados de educação despreocupados, para encarregados de educação
colaborantes, atentos e corresponsáveis no processo educativo,
• de diretores alheios à diversidade dos seus alunos, para diretores capazes de
eliminar barreiras que estão a impedir que se processem as aprendizagens,
• de escolas que excluem, provocando o insucesso e o abandono dos seus alunos,
para comunidades de aprendizagem em que todos se sentem corresponsáveis pelos
sucessos e insucessos e arranjam maneira de gerar o sucesso de todos os alunos.
Aprender fazendo, para criar ambientes inclusivos
Gerir o arco-iris que é neste momento uma sala de aula é o maior desafio que
enfrentam os professores. Na mesma classe encontram-se hoje diferentes ritmos e
capacidades de aprendizagem, diferentes níveis de conhecimentos académicos e
experienciais, diferentes culturas, diferentes formas de ver e de estar face à
escola, diferentes códigos de acesso ao saber e à comunicação, muitas
diferenças para gerir ao mesmo tempo, tornando muito complicada a atuação do
professor. Os modelos de formação de professores também não têm integrado
práticas inovadoras para responder à diversidade dos alunos.
Nas práticas educativas tradicionais, primeiro aprende-se e depois faz-se, mas
os saberes que a formação transmite, por vezes, não têm muito a ver com aquilo
que as práticas exigem, donde a alternativa aprender fazendo' que não deixa de
ser a estratégia mais utilizada na generalidade das aprendizagens. Apostando no
aprender fazendo', implementámos, no âmbito do Mestrado em Educação Especial,
o desenvolvimento de um Trabalho de projeto, com apoio tutorial, em
substituição da tradicional dissertação. Se não há falta de conhecimentos
sobre o que fazer e como fazer, como diz Wang (1997, p. 63), ao contrário do
que é usualmente dito, é preciso querer fazer e criar a oportunidadede fazer,o
que não é fácil de conseguir. Apostando no querer fazer e criada a
oportunidade, há que gerar e gerir as condições, os meios e os recursos, mas
principalmente as vontades. A protagonista do trabalho que, muito
sinteticamente, a seguir se apresenta soube e quis ir desviando as pedras do
caminho e tornar possível o que à partida ela própria julgava impossível:
proporcionar aprendizagens significativas a um grupo de alunos, tendo em conta
a sua diversidade, dando razão ao saber popular quem quer arranja maneira,
quem não quer arranja desculpas.
Segue-se o exemplo do que se fez para criar ambientes inclusivos e, assim, dar
resposta à diversidade do grupo, na Educação Pré-escolar4.
A Socialização e Inclusão de Crianças consideradas com necessidades educativas
especiais numa sala de jardim-de-infância
Segundo a autora deste trabalho de projeto, o desafio começou pela cons
tatação da não inclusão de uma criança considerada com perturbações do espectro
do autismo, no seu grupo de jardim-de-infância, pelas dificuldades que
apresentava a nível da socialização, autonomia, comunicação e linguagem.
Acrescia a este facto a necessidade de desenvolver um trabalho de projeto5que
contemplasse uma situação de um grupo/turma, em que estivesse inserida uma
criança considerada com necessidades educativas especiais de carácter
permanente, fazendo com que nesse grupo as aprendizagens fossem significativas
para todos e que a participação ativa de todos fosse uma realidade explícita.
A necessidade criou o engenho' e a caminhada começou, delineando etapas, não
forçosamente lineares, mas justapondo-se, por vezes, complementando-se umas às
outras. Assim, o trabalho foi iniciado com uma (i) contextualização teórica das
problemáticas desencadeadoras, como seja, as perturbações do espectro do
autismo, enfocando nas questões socioeducativas que as mesmas fazem emergir e
como ultrapassá-las. Como a preocupação era a da inclusão no grupo e com o
grupo, urgia que fosse feita uma pesquisa e reflexão teórica sobre o conceito,
as estratégias e as práticas da Educação inclusiva, para fundamentar e
legitimar as práticas a desenvolver.
Porque não se pode intervir sem conhecer e compreender a situação e os seus
intervenientes, foi feita uma (ii) caracterização da situação inicial,
utilizando as técnicas e instrumentos usuais na investigação qualitativa, dos
quais se salientam a pesquisa e análise de documentos caracterizadores do
contexto, do grupo e da própria criança (ex: Projeto educativo, Plano
curricular de turma, Processo individual da criança, relatórios médicos, Plano
educativo individual e Relatório técnico-pedagógico); a entrevista para aceder
à opinião dos principais intervenientes do processo educativo (Educadora do
grupo e Encarregada de educação), para caracterizar o contexto, o grupo e a
criança; a observação naturalista para dar conta da atuação de crianças e
adultos, no seu meio natural e, assim, poder aceder a possíveis facilitadores e
inibidores da intervenção a realizar; a sociometria para ter acesso à rede de
interações desenvolvidas no grupo, destacando a interação aluno/grupo/aluno,
uma vez que a socialização era uma das áreas a intervencionar. A informação,
depois de devidamente analisada, permitiu caracterizar a situação inicial em
que se interveio e os contextos em que a mesma se insere: contexto escolar
(espaço físico e logístico, recursos humanos, dinâmica educativa e respostas
explícitas em relação à diversidade dos alunos), o grupo/turma (estrutura e
dinâmica educativa, destacando aqui as interações sociais, as aprendizagens e
os comportamentos), e os casos específicos do grupo/turma, com destaque para
o caso selecionado, no que diz respeito ao seu perfil pessoal e educacional.
O contexto selecionado foi um jardim-de-infância de uma cidade do Alto Alentejo
com uma educadora titular da sala, uma educadora de intervenção precoce, a
autora deste trabalho de projeto, que estava presente na sala à 2ª, e 4ª feira
de manhã, duas assistentes operacionais e uma animadora, para um total de
dezanove crianças, entre os três e os cinco anos de idade. O grupo era reduzido
por dele fazer parte uma criança abrangida pelo Decreto-lei nº 3/2008, de 7 de
Janeiro. O grupo, em termos gerais era calmo, barulhento e com dificuldades de
atenção e concentração, superprotegia a criança caso, ao mesmo tempo que esta
se refugiava, brincava sozinha, não partilhando brinquedos nem brincadeiras,
gritava quando brincava, palrava contínua e melodiosamente e imitava os sons
produzidos. A educadora titular tinha alguma dificuldade em levar a bom termo
as atividades para todo o grupo, dado que a diversidade do grupo era grande, em
termos etários e, consequentemente, a nível de autonomia e de concentração na
tarefa. A família da criança, com nível socioeconómico baixo, tinha dificuldade
em aceder a uma reavaliação da criança, uma vez que o diagnóstico existente era
questionável, em função do seu desempenho no jardim-de-infância.
Para mudar a situação inicial, no sentido de desenvolvimento de competências
académicas e sociais, tendo como base as Orientações curriculares para a
Educação pré-escolar e as características do grupo, a educadora de intervenção
precoce e a educadora titular, em conjunto, conceberam um (iii) plano de ação
que contemplava três áreas cruciais do desenvolvimento: socialização, autonomia
e comunicação, em vários contextos: sala de aula, jardim-de-infância
(refeitório, casa de banho) e na família, não esquecendo a colaboração com os
outros técnicos/especialistas intervenientes, fora do jardim-de-infância. Este
plano de ação foi operacionalizado, durante cinco meses, de Fevereiro a Junho,
com uma periodicidade semanal, na sala de aula. As atividades a desenvolver
eram programadas para todo o grupo, tendo sempre em atenção a sua diversidade
etária, nível de desempenho e objetivos a atingir a nível das relações, da
comunicação e das autonomias. Apostou-se no trabalho a pares e em grupo, com
auto e heteroavaliação das crianças e na diferenciação das tarefas exigidas a
cada um, tendo em conta o seu grau de desempenho e o potencial emergente, não
deixando de as corresponsabilizar pelo seu sucesso/insucesso e o dos colegas.
Eram períodos de tempo, com atividades estruturadas, previamente planificadas e
depois avaliadas, em função do desempenho de cada uma das crianças, observado e
registado, em tabela própria, durante a realização das várias tarefas das
atividades, pelas educadoras e pelas assistentes operacionais, quando estas
eram implicadas. As crianças também emitiam a sua opinião, a nível oral, sobre
o processo e os resultados e o seu desempenho e dos colegas. As atividades
desenvolvidas fora da sala de aula obedeciam a idênticos procedimentos, sendo a
periodicidade mais alargada. No final da semana, para as atividades de sala de
aula, quinzenalmente ou com periodicidade mais alargada, nos outros contextos
de intervenção, procedia-se à reflexão sobre as atividades desenvolvidas, para
fazer o levantamento do que correu bem ou menos bem e fazer sugestões para o
trabalho a desenvolver a seguir. Foram envolvidos os técnicos/especialistas que
intervinham com a criança: terapeuta da fala, equipa de intervenção precoce,
monitora de hidroterapia e da sala snozelen. A família acompanhava de perto
todo o processo, sendo informada e colaborando dando sugestões nas reuniões
periódicas (especialmente programadas para esse efeito) e no trabalho a
desenvolver em casa.
A (iv) avaliação global do trabalho, realizada aos vários níveis: o grupo e a
criança caso, a parceria pedagógica, o contexto escolar, a família e todo o
processo, aponta para o sucesso do trabalho e dos seus intervenientes. Para
além das avaliações semanais, que foram apontando para o sucesso do grupo e da
criança, foram aplicadas novamente técnicas e instrumentos de recolha e de
análise de dados, para poder ser caracterizado o processo realizado e a
situação final da intervenção. Para isso, foi feita uma entrevista à educadora
titular e à mãe da criança e foi novamente aplicado o teste sociométrico, para
verificar a alteração das interações havidas e como se estruturavam. No que
concerne ao grupo, em sala de aula, este aderiu às atividades desenvolvidas, o
que facilitou as aprendizagens. Os objetivos traçados para cada sessão foram
sendo sucessivamente atingidos por cada uma das crianças, verificando-se um
aumento de desempenho à medida que as sessões iam decorrendo, chegando a
alcançar cem por cento de sucesso, nas sessões finais. As crianças evoluíram
significativamente, nas várias áreas de conteúdo das Orientações curriculares,
como afirmou a educadora titular, em entrevista: todas as crianças adquiriram
muitas competências da Educação Pré-escolar. Segundo o relato da educadora
titular, o trabalho a pares, a aprendizagem cooperativa e a responsabilização
de todos os elementos do grupo obrigava ao envolvimento de todos nas tarefas, o
que facilitou a aprendizagem. Durante o período de intervenção foi emergindo um
outro caso, para além do já referenciado, com algumas dificuldades em cumprir
os desempenhos que lhe eram solicitados, o qual começou a ser objeto de uma
maior atenção/preocupação. O grupo foi-se revelando sucessivamente mais coeso,
em termos relacionais, embora dividido por sexo e idades. As raparigas mais
velhas sempre preferiram as raparigas, por similaridade das brincadeiras ( ) os
rapazes (mais novos) rejeitavam as raparigas porque eram da opinião que elas
eram mandonas e não os deixavam brincar como eles queriam (Carapeto, 2011, p.
135).
Relativamente à criança caso,
está perfeitamente incluída no grupo, participa em todas as actividades em que
as restantes crianças participam, consegue fazer jogos, praticar o jogo
simbólico, brincar, fazer desenhos com os colegas e não paralelamente a estes,
como tínhamos observado inicialmente. Tem uma boa relação com os adultos e
comunica com eles por puro prazer ou para satisfazer as suas necessidades
(Carapeto, 2011, p. 134).
É testemunho da mãe, em entrevista, no final do ano letivo: Eu observo todos
os dias quando a vou deixar na escola, os colegas vêm buscá-la e ela já não
lhes bate, vai com eles fazer um jogo, um desenho ou simplesmente brincar.
Também a educadora titular, em entrevista, se refere ao antes e depois da
seguinte maneira:
Em Setembro, quando a menina chegou ao jardim-de-infância vinha, como
costumamos dizer, em bruto, não se relacionava com os pares, pouco se
relacionava com os adultos, batia nos colegas e hoje, após um ano letivo de
trabalho temos uma criança que estabelece uma boa interação com os pares e com
os adultos, brinca com os colegas e não em paralelo, como era hábito, comunica
com pares e adultos, é empenhada em realizar as tarefas que lhe propomos ( ) a
nossa C., como carinhosamente lhe chamamos, é outra menina.
Para fazer daquela sala de aula uma sala inclusiva, a ação tinha de passar,
forçosamente, pela implicação ativa da educadora da sala, em parceria
pedagógica com a educadora de intervenção precoce, a autora do trabalho de
projeto. Para que tal acontecesse foi preciso fazer um namoro com a colega,
procurando convencê-la das vantagens que tal parceria traria para ela como
profissional e para as crianças. Esta parceria resultou mesmo. Vejamos o que
nos diz a educadora titular, na entrevista final (de destacar que usa, no
discurso, a primeira pessoa do plural, dando conta da cumplicidade que se
desenvolveu entre ambas): Proporcionámos as mais variadas atividades para que
as experiências fossem o mais enriquecedoras possível e lhes permitissem fazer
muitas aprendizagens; sempre houve a preocupação de planificarmos para o
grupo e isso resultou, tanto para ela como para os colegas. Foi um ganho
partilhado por todos. Testemunha, na primeira pessoa, que aprendeu, fazendo, e
que essa experiência vai continuar, quiçá, mudar as suas práticas: Eu penso
que todo o trabalho a pares, a aprendizagem cooperativa e outras estratégias
que introduziste e que eu aprendi a utilizar contribuíram para que as
aprendizagens fossem consolidadas; tive a preocupação, e também com a tua
colaboração, de proporcionar a todos um sem número de atividades nas várias
áreas; utilizei novas estratégias com a tua indicação que considerei serem
adequadas para o seu caso e penso que resultou; as estratégias resultaram de
tal forma que penso, para o próximo ano letivo, continuar a utilizá-las porque
foram muito importantes para todo o grupo.
O envolvimento da família, principalmente a mãe, foi outra das estratégias
utilizadas e outro dos contributos importantes para o sucesso da situação que
temos vindo a expor. Reuniões formais e informais com a mãe, os vários
domicílios realizados e até atividades desenvolvidas com as crianças, com a
participação das mães, ajudaram todo o processo: foi muito importante ter
participado naquela atividade com a filha porque sentiu que esta se sentia
muito inchada' [termo usado pela mãe] e tal como as outras crianças tinham a
mãe junto de si, o que acontece poucas vezes (Carapeto, 2011, p. 139) .
É importante que as atividades saiam, por vezes da sala de aula, envolvendo o
contexto escolar e a própria comunidade, para partilhar, dar e receber
contributos que possam dar corpo a projetos alargados. Aconteceu com este
trabalho projeto, ao desenvolver atividades com as mães das crianças e ao
participar nas atividades conjuntas do jardim-de-infância, o que se revelou
motivador e gratificante, para uns e para outros.
O mais difícil, neste processo, segundo relata a autora do projeto, foi a falta
de articulação entre as equipas médicas que acompanham a criança, a escola e a
equipa de intervenção precoce. De qualquer modo, depois de demoradas e
insistentes diligências, foi possível encaminhar a criança para uma consulta
para fazer despistes auditivos, tendo-se verificado uma perda de audição de
60%, tendo-se avançado para a colocação de próteses. Questionou-se o
diagnóstico de perturbação do espectro do autismo, tendo sido pedida uma
reavaliação.
Considerações finais
Diremos, em jeito de reflexão final, que a Educação inclusiva, como uma questão
de direito, de cidadania, é uma caminhada que ainda mal começou e que evoluirá,
num sentido ou no outro, de acordo com o sentido do nosso investimento, ninguém
ficando de fora. Temos uma cultura de exclusão e punição (Foucault, 2003)6, o
que dificulta, mas não impossibilita uma revolução cultural (Gardou, 2003), no
sentido da inclusão.
A escola não foi concebida para incluir, mas sim para selecionar e formar os
que ela própria, de acordo com os seus objetivos, assentes no paradigma
político-social vigente, considera os melhores. Para isso ajudou a formar
mentalidades e concebeu estratégias mais ou menos eficazes, para cumprir a sua
missão, criando uma atuação que privilegia o trabalho individual e,
decorrente deste, uma competição nem sempre saudável.
Mudar é possível, derrubar pré-conceitos e crenças também, mas é preciso lutar
contra a corrente, com os inconvenientes que isso acarreta. Fazer da escola
local de sucesso para todos vai continuar a ser a utopia que nos vai conduzir e
guiar nesta caminhada.
De acordo com o trabalho que temos vindo a desenvolver e que, muito
resumidamente, está expresso no exemplo que acima expusemos, podemos afirmar
que a formação de professores para uma educação inclusiva, ou seja, uma
educação para todos e com todos, tem de ser feita em interação estreita com os
contextos educativos, partindo da compreensão dos problemas reais para a
resolução dos mesmos, com os diretamente interessados na sua resolução, sem
excluir, naturalmente, a cooperação com outros, exteriores à situação e ao
próprio contexto.
A estratégia pode passar pela implementação da investigação-ação nos processos
de formação, a qual preconiza a mudança da situação inicial do contexto em que
se atua, o desenvolvimento dos intervenientes implicados, tornando-os mais
atentos ao seu fazer e ao dos outros, mais reflexivos, mais cooperantes e
empenhados, mais solidários e mais eficientes. Esta abordagem de investigação
obriga a uma experimentação reflexiva, suportada por saber já construído, mas
preocupada também com a construção de novos/outros saberes. A Educação
inclusiva, porque se propõe trabalhar com a diversidade dos públicos,
confronta-se com situações sempre diferentes que não permitem a utilização de
receitas pré-fabricadas. Cada caso é um caso, como é hábito dizer-se e, por
isso, cada situação pedagógica é única e a necessitar, também, de uma resposta
única, donde a necessidade de experimentar novas/outras metodologias e refletir
sobre elas e a necessidade de formar professores investigadores das suas
práticas, como afirma Sanches (2011, pp. 128-129):
Investigar as práticas, segundo Bru (2002), é agir sobre elas, dentro do
princípio agir para conhecer, conhecer para agir, o que obriga a que o
investigador esteja por dentro dessas mesmas práticas, com uma visão de
cidadania de si mesmo e da própria ciência, numa implicação continuada de que é
exemplo a investigação-ação. Esta forma de interesse pelas práticas,
apreendendo-as numa forte proximidade participativa, conduz à sua
transformação.
A investigação-ação, usada como estratégia formativa de professores, facilita a
sua formação reflexiva, promove uma atitude investigativa e a sua própria
emancipação.
Uma outra reflexão que decorre do trabalho desenvolvido tem a ver com o
trabalho na sala de aula e com a experiência de trabalhar diferentes níveis de
aprendizagem e até diferentes estilos de aprendizagem, fazendo com que todos
participem e aprendam, construindo classes verdadeiramente inclusivas (Ainscow,
2009). O ensino, centrando-se no professor e no trabalho individual do aluno,
não pode dar resposta à diversidade dos alunos, não pode passar por falar e
agir para todos como se de um se tratasse. Não pode ser esta a resposta, nem
esta pode passar pelo pré-conceito de que as aprendizagens escolares têm de ser
unicamente intermediadas pelo professor. Também não pode passar,
sistematicamente, por abrir o manual na página x e fazer a respetiva ficha ou o
professor cansar-se a debitar matéria, quando ela é tão mais interessante nas
inúmeras fontes aonde facilmente se pode ir buscar. Onde se situa a
aprendizagem por pequenos projetos, através dos pares e com os pares, com
pequenas pesquisas com os alunos como intervenientes ativos no seu próprio
processo de aprendizagem? Onde está a exploração (sadia) da capacidade que as
crianças e os jovens têm de se mobilizarem, de cooperarem em função de um
objetivo? Não é nada de novo o que estamos a dizer, novo só o fazer disto um
pouco da nossa realidade educativa. Tem de começar, forçosamente, por acreditar
e querer que o ato educativo seja diferente, melhor e motivador, pela
reorganização do espaço físico da sala de aula, pela partilha do poder, por
acreditar e apostar nas capacidades reveladas e emergentes dos alunos, por nos
desafiarmos, acreditando que somos capazes de fazer mais do que aquilo que já
fizemos. Passa por um ensino e uma aprendizagem em cooperação, num discurso
horizontal, mediado pelo professor, ou seja, uma aprendizagem cooperativa, em
que o professor da classe e os próprios alunos se sentem corresponsáveis pela
aprendizagem e a participação ativa de todos os alunos da classe, permitindo,
ao mesmo tempo, uma diferenciação pedagógica inclusiva. A aprendizagem
cooperativa, nas suas diferentes modalidades, e a diferenciação pedagógica
inclusiva, se bem utilizadas e usadas sistematicamente, poderão ser a resposta
para a construção de classes/turmas verdadeiramente inclusivas, segundo Sanches
(2011) e Silva (2011).
Foram estes alguns dos ingredientes que ousámos experimentar nos trabalhos
desenvolvidos e que tornaram as aprendizagens mais motivadoras, mais
desafiantes, mais cooperativas e mais compensadoras para professores e alunos.
A nossa aposta, dentro da sala de aula, também passou por um trabalho cuidado e
sistemático de observar, analisar e compreender a dinâmica da participação, do
ensino/aprendizagem e da relação, para planificar, intervir e avaliar de acordo
com as necessidades e os objetivos que nos propúnhamos, em termos académicos e
sociais, para cada sessão. A diversificação de materiais, de estratégias e de
propostas de trabalho ajudavam a criar suspense, a motivar e a desejar o
momento seguinte. A avaliação final da sessão, com avaliação das aprendizagens
dos alunos, nessa sessão, ajudava a levantar os pontos fracos e os fortes e a
delinear sugestões para um novo momento. Assim, podemos dizer, que o processo
de aprendizagem pode ser motivador e motivar, mas é preciso trabalhar para que
isso aconteça, sendo exigentes connosco e com os outros. Os alunos agradecem e
sabem retribuir à sua maneira, com pequenos gestos ou palavras que nos enchem a
alma.
O trabalho com o aluno considerado com necessidades educativas especiais,
individualmente, para desenvolver competências e saberes, ainda não adquiridos,
também tem/pode ter lugar, mas não para ser feito dentro da sala de aula, face
a todo o grupo. Há que encontrar o espaço e o tempo mais adequados a essa
situação, não passando por retirar o aluno da sala de aula, impedindo-o, assim,
de uma socialização das aprendizagens com os seus pares. Há que pensar no aluno
e no efeito estigmatizador que podem causar as nossas práticas, apesar das
boas intenções que lhe estão subjacentes.
Apesar de, por vezes, parecer impossível, a parceria pedagógica entre professor
de educação especial e professor da turma conseguiu-se e foi extremamente útil
ao desenvolvimento de uma sala mais inclusiva. Essa parceria, quando levada a
sério, é uma mais-valia para todos (professores e alunos), conforme os
testemunhos acima descritos. Parrilha e Daniel (2003), citados por Rodrigues e
Lima-Rodrigues (2011, p. 103), encontraram resultados muito positivos a partir
de grupos de professores que criam laços de trabalho e que, assim, conseguem
resolver muitos dos problemas reais que, sozinhos, não conseguiriam enfrentar.
Na mesma linha, Mota e Sanches (2009) salientam que a cooperação entre
professor titular de turma e professor de educação especial, para além de
beneficiar o desempenho académico de professores e alunos envolvidos, ajuda a
inclusão dos alunos considerados com necessidades educativas especiais.
A cooperação entre professores ajuda à reflexão, ao questionamento das suas
práticas, a uma melhor compreensão do erro seu e dos outros, ao desafio de
procurar respostas para situações novas, usando estratégias diferentes e
diversificadas, porque se sentem acompanhados e, então, os erros e sucessos são
conjuntos.
Outra das apostas que contribuiu para o sucesso, neste e em outros trabalhos de
projeto, desenvolvidos na mesma linha de ação, no âmbito do mestrado, é o
trabalhar com a família/os pais/encarregados de educação, implicando-os
ativamente no processo educativo dos seus filhos.Dunst (1985)defende as
relações de parceria entre pais e profissionais, no sentido de impulsionar e
consolidar as interações entre pais e crianças, trocando informações, ao nível
da educação e do desenvolvimento, e procurando estratégias adequadas a cada
criança. Segundo Cordeiro e Sanches (2005), as perspetivas transacional e
ecológica (Sameroff & Chandler, 1975; Bronfenbrenner, 1979) vêm alterar o
foco da intervenção, antes centrado na problemática da criança e na intervenção
dos técnicos, numa intervenção mais direcionada para o fortalecimento das
capacidades da família e para o seu envolvimento.
Seguindo a peugada de Bronfenbrenner, atrás citado, entre outros, a nossa ação
tem recaído, também, na dinamização dos contextos em que se inserem as
situações educativas selecionadas para a intervenção, numa perspetiva de fazer
interagir contextos e intervenientes. Esta implicação tem vindo a ajudar a
criar outras dinâmicas de interação e a criar ambientes mais favoráveis ao
trabalho com a diversidade dos públicos.
A perspetiva da nossa atuação não foi isolar variáveis, para as testar, mas sim
juntá-las de forma a complementarem-se para a resolução efetiva da situação
problemática selecionada e, de certa forma, produzir conhecimento, através da
experimentação.
Está a faltar, em muitos dos casos trabalhados, a mobilização da gestão das
escolas de forma ativa e participativa. Por vezes, limita-se a autorizar o
projeto que o professor x quer desenvolver, noutros cria alguns obstáculos. A
ação tem de ser de todos e a corresponsabilização também.
Acrescentaremos que, em alguns casos, esta dinâmica é vista como uma espécie de
revolução, geradora de medos e constrangimentos que têm de ser geridos com
cautela e com muita oportunidade, e muito trabalho, para que possam ser
ultrapassados. Afinal os que passam pela experiência valorizam-na e, em alguns
casos, ficam fãs. Torna-se necessário incorporar o paradigma da Educação
inclusiva no fazer educativo, com a experimentação e reflexão de boas práticas,
de forma continuada e consistente. Se é certo que a necessidade cria o
engenho, também quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpas.