Educação Inclusiva: um novo paradigma de Escola
Introdução
A escola inclusiva constrói-se. Depende de enquadramento legislativo que lhe dá
suporte, mas só se consolida com a prática dos atores que a implementam, que
está, por seu lado, intimamente ligada não apenas ao saber-fazer, mas também à
atitude com que se perspetiva.
Relativamente à intervenção pedagógica, isto é, ao saber-fazer que referimos, é
fundamental que os intervenientes envolvidos neste processo, em particular os
professores, se sintam capazes de responder adequadamente ao desafio que a
diferença representa.
No que diz respeito à atitude para com a inclusão, sobretudo se esta se refere
a alunos com deficiência ou com necessidades educativas especiais, este é um
ponto crítico. Na verdade, não chega saber como se faz. É necessário querer
fazer e acreditar que é possível construir uma escola e, obviamente, uma
sociedade, onde todos têm um lugar.
A formação contínua de professores é, quanto a nós, um contributo fundamental
para refletir estas questões, como a investigação, nomeadamente a que temos
realizado e que apresentaremos neste artigo, tem evidenciado. A nossa prática,
no âmbito da formação especializada de docentes, relativamente à qual também
apresentamos alguns dados, tem confirmado, por seu lado, a importância deste
contributo.
Inclusão: fundamentos e práticas
Sendo a diversidade um fator inerente a todos os seres vivos, falar de
inclusão, uma palavra de ordem nos nossos dias, conduz-nos à reflexão sobre
este conceito que, embora aceite pela generalidade das pessoas como aquilo que
deve ser, suscita sempre muitas dificuldades quanto à sua implementação. Na
verdade, no mundo global em que vivemos, em que as populações migrantes são uma
constante, o que significa percecionar todos e cada um de acordo com as suas
potencialidades? E como conjugá-las, quando a palavra de ordem é a
produtividade?
A inclusão é, antes de tudo, uma questão de direitos. É também um desafio. E,
porque é um desafio, constitui-se como um valor (Rodrigues, 2003; Leitão, 2006;
Silva, 2011), uma vez que nos obriga a tomar mais consciência da
heterogeneidade e da ou das respostas a que ela nos obriga, também quando
estamos na esfera da educação.
A inclusão, em termos educativos, faz mais sentido se for perspetivada como
educação inclusiva. Isto significa que a escola, para além de proporcionar aos
alunos um espaço comum, tem de proporcionar-lhes, também, oportunidades para
que façam aprendizagens significativas. O que só é possível se aceitarmos que a
diferença não é necessariamente impeditiva de aprendizagem e que todos
aprendemos com os outros, como a investigação evidenciou. Nunca é demasiado
recordar que todos os indivíduos se desenvolvem através da mesma sequência de
estádios, independentemente das dificuldades que apresentem. E que, de acordo
com Sprinthall e Sprinthall (1993), ambientes estimulantes e ricos, segundo
Hunt (1974), tal como ambientes ativos desde os primeiros anos como Bruner
(1987) constatou, são fundamentais e imprescindíveis para o desenvolvimento.
Vygotsky (1987), por seu lado, ao concetualizar a zona proximal de
desenvolvimento, veio reforçar a necessidade da interação, como potenciadora da
aprendizagem, consequentemente, do desenvolvimento.
Referimos autores que se situam numa perspetiva cognitivista. No entanto e,
numa outra perspetiva, também Bandura (1969) evidenciou a importância da
aprendizagem por modelagem e a aprendizagem vicariante.
Mais recentemente, Sameroff e Mackenzie (2003, citados por Bairrão, 2004)
confirmaram estas constatações. De acordo com estes autores, a interação entre
pares conduz sempre a mudanças de comportamento. Por outro lado, concluíram,
tal como Rosenthal e Jacobson já o haviam feito, em 1968, que as expetativas
que os professores têm em relação aos alunos são determinantes para o seu
desenvolvimento. Ou seja: a criança ao interagir com o meio influencia-o, e
este influencia o seu desenvolvimento.
Diferentemente da integração, que colocava o problema no sujeito, que deveria
ser tratado ou reabilitado de acordo com um padrão ou norma, de modo a poder
chegar tanto quanto possível a essa norma, a inclusão considera que é
responsabilidade da sociedade, onde a escola se insere, responder às
capacidades que todos têm, ainda que estas possam parecer insignificantes. Na
verdade, reabilitar primeiro para integrar depois é um percurso impossível para
a maior parte das pessoas com deficiência. Procurar trazê-las para a norma,
para o padrão comum, é negar a sua diferença, seja esta de natureza física,
cultural, étnica, racial ou religiosa. E, no âmbito da diferença a nível
físico, é importante ter em conta que as variações genéticas determinam
múltiplas variações de configuração ou aparência que surgem numa mesma espécie,
em diferentes sujeitos. O fenótipo é uma expressão diversificada de um código
genético comum; é a variabilidade entre sujeitos de uma mesma família
biológica.
A escola inclusiva implica mudanças relativamente à atitude com que a
perspetivamos, que pode determinar o sucesso ou o insucesso dos alunos; à
prática pedagógica que a comunidade escolar desenvolve, que deve ter implícita
a cooperação ou, no mínimo, a colaboração entre todos os atores que intervêm no
seu espaço; à organização e à gestão da escola que, frequentemente, quando as
situações são mais complexas tem de implementar projetos, tantas vezes
parecerias com outras instituições, de modo a garantir uma resposta a mais
adequada possível aos alunos que carecem dela.
A inclusão é muito mais do que a partilha do mesmo espaço físico. No entanto,
embora se aceite facilmente que a escola é um lugar que proporciona interação
de aprendizagens significativas a todos os seus alunos, não é fácil geri-las,
em particular quando alguns têm problemáticas complexas, quando os recursos são
insuficientes e quando a própria sociedade está ainda longe de ser inclusiva.
A dificuldade na construção da escola inclusiva está relacionada, quanto a nós,
com uma prática que vá nesse sentido. A cooperação, entendida como aprendizagem
cooperativa e a diferenciação pedagógica, ainda que mencionada como inclusiva,
muitas vezes presentes no contexto da formação, só têm razão de ser se os
professores souberem pôr em prática atividades e estratégias que vão ao
encontro dos pressupostos que lhes subjazem.
É evidente que sem diferenciação pedagógica não podemos falar de inclusão. No
entanto, se a diferenciação não for inclusiva, isto é, se o trabalho que o
aluno com necessidades educativas especiais ou mesmo com dificuldades de
aprendizagem realiza é marginal relativamente ao que se passa com o resto da
turma, esse aluno está inserido na sua turma mas não está incluído. Isto
significa que estes alunos, ainda que tenham problemáticas muito complexas,
devem, de acordo com as suas capacidades, participar nas atividades em que essa
participação é possível. Para tal, é desejável que os professores criem
ambientes de trabalho facilitadores desta interação e que a promovam, tendo em
conta, no entanto, que?a diferenciação não é um método pedagógico, é uma forma
de organização de trabalho na aula, no estabelecimento e no meio envolvente.
Não se limita a um procedimento particular, nem pode atuar apenas por grupos de
nível ou de necessidade: Deve ter em conta, todos os métodos, todos os
dispositivos, todas as disciplinas e todos os níveis de ensino (Perrenoud,
2010, p. 18).
É evidente que as aulas não têm de processar-se sempre segundo esta lógica. O
ensino e a aprendizagem têm momentos para tudo. O trabalho de grupo é muito
importante, estratégias cooperativas são fundamentais, mas não têm de
substituir aulas expositivas, nem a aprendizagem individual.
De entre as estratégias eletivas para a interação entre os alunos destaca-se a
aprendizagem cooperativa.
Segundo Arends (1995), a aprendizagem cooperativa, que teve a sua origem na
Grécia, destacou-se com Dewey (1916), a que se seguiram, posteriormente, Thelen
(1954, 1960), Slavin (1985) e Johnson e Johnson (1998), entre outros. Todos
estes autores a defenderam, ou porque, tal como Dewey considerou, a escola como
espelho da sociedade deveria refletir os princípios democráticos desta, ou
porque foi fundamental para a integração de alunos com deficiência, como
Johnson e Johnson constataram.
A estes autores é importante acrescentar Piaget (1966), Vygotsky (1987) e
Bandura (1969), pelos contributos que ajudaram a um melhor enquadramento desta
estratégia. A interação que está subjacente à aprendizagem cooperativa é
fundamental para o desenvolvimento de todos. Os alunos que não têm dificuldades
têm oportunidade de sistematizar melhor as suas aprendizagens sempre que têm de
ajudar os seus colegas com mais dificuldades. Estes, com a interação que se
desenvolve através de um trabalho de ou em grupo, porque veem fazer, aprendem
melhor. Ainda que em alguns casos possamos considerar que essa aprendizagem é
insuficiente ou mesmo irrelevante, é importante termos em conta que só deste
modo estes alunos serão percecionados pelos seus pares como fazendo parte da
turma e da escola.
É claro que nem sempre tudo isto é assim tão linear. Por isso, cabe ao
professor gerir estas situações de interação, com bom senso, o qual, embora não
se fundamente em teorias científicas é determinante na relação entre as
pessoas.
Relativamente à aprendizagem cooperativa, é importante destacar as três
perspetivas em que pode assentar, que diferem entre si em função das
interdependências que lhes estão subjacentes. Temos, deste modo, a
interdependência de objetivos em que assenta a abordagem social, a
interdependência de papéis e de recursos, própria da abordagem sócio-
construtivista e a interdependência de tarefas e de recompensas, em que se
fundamenta a perspetiva comportamentalista (Leitão, 2006). De acordo com este
autor, referindo Johnson, Johnson e Holubec (1993), qualquer das abordagens,
que tem implícito o trabalho de e em grupo, contribui, no entanto, para a
aprendizagem individual.
A organização dos grupos obedece, por seu lado, a determinados princípios.
Destacamos, de entre todos, a heterogeneidade que deve presidir à sua
constituição, que fundamenta a importância do trabalho desenvolvido deste modo,
em particular quando abrange alunos com necessidades educativas especiais,
mesmo que estas sejam complexas.
Como já referimos, respeitando os pressupostos da educação inclusiva, a mesma
atividade pode ser realizada por todos os alunos de uma turma. De acordo,
contudo, com as capacidades de cada um. A aprendizagem faz-se através da
interação que se estabelece entre todos, que permite aprender vendo fazer e
ensinar, fazendo.
A inclusão ' e é relevante voltar a referir que a entendemos sempre numa
perspetiva de educação inclusiva ' aponta para um paradigma de escola que,
embora tenha, pelo menos do ponto de vista legal, já alguns anos, levanta
dúvidas e dificuldades relativamente à sua implementação. E, na ausência de
modelos credíveis e securizantes, opta-se, grande parte das vezes, por
respostas que vinham sendo dadas no âmbito da integração.
De referir que os conceitos de integração e de inclusão, aparecendo
frequentemente juntos, como se tivessem os mesmos pressupostos epistemológicos,
prestam-se a alguma ambiguidade que talvez justifique, em parte, essas
respostas.
A integração teve dois momentos: um centrado no aluno e um outro, posterior, a
partir de 1981, com o Ano Internacional das Pessoas com Deficiência, centrado
na escola. Ou seja, na primeira situação, a responsabilidade pelo atendimento
das crianças e dos jovens com necessidades educativas especiais era da
responsabilidade dos professores de educação especial, que trabalhavam com eles
individualmente ou em pequenos grupos, fora do contexto da turma. Quando a
integração passou a ser entendida como sendo da responsabilidade da escola, a
forma de atendimento a estes alunos mudou, do ponto de vista concetual. Os
professores especialistas deveriam, agora, trabalhar com o(s) aluno(s) na(s)
sua(s) turma(s) de pertença. No entanto, continuou a ser uma intervenção
individual ou em pequeno grupo, que assentava nas dificuldades dos alunos,
tendo em vista a sua normalização.
Provavelmente, a fase de transição para o paradigma da inclusão, que introduziu
uma rutura epistemológica ao defender que todos os alunos têm potencialidades e
que é sobre elas que o trabalho dos professores deve assentar, gerou
ambiguidade em função da prática que vinha sendo desenvolvida. O que, em
conjunto com alguma resistência à inovação, dificuldades em relação à
planificação e gestão das aulas para o conjunto da turma, entre tantas outras
situações mais ou menos complexas, pode justificar práticas que não contribuem
para a inclusão.
Por outro lado, em Portugal, a própria legislação que a enquadra (DL 3/2008, de
7 de janeiro), ao situá-la no âmbito da educação especial, para a qual define
como objetivos,
a inclusão educativa e social, o acesso e o sucesso educativo, a autonomia, a
estabilidade emocional, bem como a promoção da igualdade de oportunidades, a
preparação para o prosseguimento de estudos ou para uma adequada preparação
para a vida profissional e para uma transição da escola para o emprego das
crianças e dos jovens com necessidades educativas especiais (Artº 1º, ponto 2),
pode contribuir para práticas que nada têm a ver com os mesmos.
Também ao considerar como modalidades específicas de educação (Artº 23º), as
unidades de ensino estruturado para a educação de alunos com perturbações do
espetro do autismo (Artº 25º) e as unidades de apoio especializado para a
educação de alunos com multideficiência e surdocegueira congénita (Artº 26º),
este documento tem favorecido, ainda que involuntariamente, práticas de
separação excludentes em nome de objetivos inclusivos. Não só muitos destes
alunos aqui permanecem durante todo o tempo letivo, sem se lhes dar a
oportunidade de interação com outros modelos, como se remete, frequentemente,
para o seu seio, alunos que nada têm a ver com qualquer das problemáticas
mencionadas. Deste modo, as Unidades, que deveriam ser, apenas, salas de
recursos, tornam-se recursos particularmente úteis para albergar
indiferenciadamente aqueles que, por qualquer razão, se desviam da norma.
Formação Contínua de Professores: um fator facilitador da inclusão
A investigação tem mostrado que é necessário haver formação de professores que
os ajude na tarefa complexa que é gerir as aprendizagens dos alunos no mesmo
espaço, de modo a que haja comunicação/interação e, consequentemente, que todos
beneficiem. A própria necessidade de organizar projetos com outros parceiros,
tendencialmente da esfera da saúde e da reabilitação, fundamentais para que
alguns alunos tenham, deste modo, recursos imprescindíveis ao seu
desenvolvimento, não é uma tarefa linear. É uma resposta que tem de ter em
conta uma multiplicidade de questões, às quais está subjacente a questão
principal: a inclusão do aluno. Mas esta só tem razão de ser se for feita junto
dos seus pares, ainda que, em paralelo, sejam necessárias intervenções muito
específicas.
A formação contínua de professores não resolve tudo, como é óbvio. No entanto,
muitas destas questões podem ser equacionadas com um outro olhar, de modo a
que os alunos não fiquem remetidos às suas dificuldades, independentemente da
sua natureza, e a construção da escola inclusiva vá sendo adiada, pese embora a
existência de leis que a decretaram.
De acordo com a nossa perceção, fundamentada na investigação que temos vindo a
desenvolver e relativamente à qual referiremos alguns dados que nos permitem
refletir sobre a sua importância para a construção da escola inclusiva, a
dificuldade dos professores reside na operacionalização de conceitos com os
quais podem concordar, mas que lhes são familiares apenas teoricamente.
A formação contínua, segundo Éraut (1988), organiza-se de acordo com quatro
paradigmas: o do défice e o da mudança, que se fundamentam em teorias
comportamentalistas e têm a normatividade como ponto de partida; o do
crescimento e o da resolução de problemas, que assentam em teorias
cognitivistas, valorizando a reflexão como ponto de partida para a formação. É
nestes dois paradigmas que se situa a análise de necessidades de formação.
Esta estratégia, porque respeita princípios defendidos para a educação e para a
formação de adultos, tais como as caraterísticas psicológicas que lhes são
próprias, a articulação com a sua prática quotidiana, a sua experiência,
excelente ponto de partida para situações de aprendizagem,a sua inserção em
projetos ou em realidades que lhes dizem respeito,bem comoas suas necessidades,
facilita o equacionamento de muitas questões sobre a inclusão com que os
professores se confrontam no seu quotidiano (Charlot, 1976, 2003; Knowles,
1990).
De acordo com o paradigma do crescimento, a formação resulta do ajustamento das
necessidades dos formandos às do formador. No que diz respeito ao paradigma de
resolução de problemas, a formação decorre das preocupações/necessidades dos
formandos, que o formador ajuda a despoletar.
A formação que se enquadra na investigação-ação, contribuindo para a produção
de conhecimentos sobre a realidade, a inovação no sentido da singularidade de
cada caso ( ) e a formação de competências dos intervenientes (Guerra, 2002,
p. 52), contribui de igual modo e significativamente para uma mudança de
atitude facilitadora da inclusão. Planificar a intervenção, tendo em conta os
pré-requisitos indispensáveis a qualquer ação educativa, implementá-la e
avaliá-la, num processo contínuo de reflexão que permite replanificar,
ajustando êxitos e dificuldades, é, indiscutivelmente, um modo de (re)pensar
muitos dos receios e mitos que estão subjacentes à diferença, em particular
quando esta resulta de deficiência.
Estratégias de formação como a análise de necessidades e a investigação-ação
são, assim, facilitadoras de um novo olhar sobre a escola legislativamente
inclusiva, quantas vezes segregadora em função das práticas que aí se
desenvolvem, em nome de uma proclamada inclusão que os documentos legais
legitimam. A inclusão educativa vai para além do enquadramento legal que a
suporta e que é, obviamente, fundamental, mas insuficiente.
Como referimos atrás, sem formação que conduza a uma reflexão sobre as práticas
desejáveis e aquelas que as escolas vão implementando, é difícil perspetivar
uma escola alicerçada em princípios inclusivos. Efetivamente, nenhum docente
está preparado psicologicamente e didaticamente para a inclusão. Mesmo quando
está, isso representa um acréscimo de trabalho centrado nos alunos incluídos e
no seu ambiente (Perrenoud, 2010, p. 15).
Dados de investigação: testemunhos para a construção da escola inclusiva
A investigação e a formação que temos feito no âmbito da inclusão têm mostrado
que os docentes aderem muito bem a estratégias formativas que têm em conta as
suas preocupações. Por outro lado, o trabalho de orientação de projetos de
intervenção que assentam nos pressupostos da investigação-ação faz-nos supor
que este processo conduz a uma melhoria de atitude e de práticas dos
professores que assim fazem a sua formação.
No que diz respeito a dados que resultaram de investigação, apresentamos,
seguidamente, três situações em que estivemos envolvidas, as quais decorreram
segundo o paradigma de crescimento (2007 e 2008) e o de resolução de problemas
(2008 e 2009).
Relativamente à investigação que realizámos em 2007, pretendíamos identificar
dificuldades que os professores que participavam na mesma sentiam com a
inclusão de alunos com necessidades educativas especiais no ensino regular,
procurando perceber se havia muita diferença relativamente aos dados que
obtiveramos quando de uma outra pesquisa que realizámos no âmbito da
integração. Para tal, entrevistámos 30 professores do 1º Ciclo (26 do sexo
feminino e 4 do sexo masculino), com idades compreendidas entre os 28 e mais de
50 anos, em escolas situadas no centro e na periferia da grande Lisboa.
Identificadas as dificuldades, reunimos de novo com os docentes, devolvendo-
lhes o trabalho que tínhamos realizado. Procurámos, deste modo, que refletissem
os dados para, de seguida e, em conjunto, podermos estabelecer com mais
adequação as dificuldades/necessidades emergentes dos seus discursos, de modo a
ajustarmos o programa de formação que daqui decorreu.
Situando-se no mesmo paradigma, o do crescimento, referimos o levantamento de
necessidades que realizámos no ano de 2008 com 60 alunos dos Mestrados que
lecionávamos. Desta população, que tinha entre 28 e mais de 50 anos de idade,
apenas 2 eram do sexo masculino. Tal como fazemos sempre, embora só o tenhamos
feito sistematizadamente no ano letivo referido, pedimos aos Mestrandos, no
início dos cursos respetivos, que identificassem, a nível individual e
anonimamente, as dificuldades que sentiam relativamente à inclusão, bem como as
expetativas em relação à formação que iam iniciar.
À semelhança do que se processou com a investigação que mencionámos atrás, os
dados, depois de tratados, foram alvo de reflexão, feita em conjunto, o que
permitiu um reajustamento ao programa de formação que tínhamos organizado.
As dificuldades/necessidades identificadas, nas duas situações, decorreram da
expectativa dos sujeitos (Barbier & Lesne, 1986) e podem entender-se como
percebidas (Bradshow, 1972) ou sentidas (Tejedor, 1997).
Situando-se num outro paradigma, o da resolução de problemas, referimos uma
outra situação, que decorreu no âmbito da formação contínua em contexto de
trabalho. Realizou-se em duas escolas do ensino particular e cooperativo, nos
anos de 2008 e 2009, com 35 docentes, dos quais 20, todos do sexo feminino,
lecionavam num dos estabelecimentos de ensino. Dos restantes, que pertenciam à
outra escola, 4 eram do sexo masculino. As idades variavam entre 28 e 40 anos.
Nesta situação e, de acordo com o paradigma de resolução de problemas, as
dificuldades/necessidades emergiram das preocupações dos professores, que
resultavam de problemas suscitados pela inclusão de alunos com necessidades
educativas especiais com que se viam confrontados. Correspondiam a interesses
confinados a duas escolas.
As necessidades de formação que analisámos nestas três situações estão
correlacionadas com os contextos em que decorreram.
Temos, assim, no âmbito da investigação, necessidades muito operacionais, como
planificar as aulas, gerir o tempo letivo, preparar atividades, selecionar
material conveniente bem como conteúdos.
Já no âmbito dos Mestrados, responder à diversidade de interesses dos alunos,
enquadrar o papel do professor de educação especial e distinguir educação
especial de educação inclusiva, são necessidades localizadas, próprias do
contexto em que decorriam.
Relativamente às que decorreram da formação em contexto de trabalho, podemos
dizer o mesmo. Fazer adequações curriculares, implementar currículos
específicos individualizados e preparar a transição dos alunos para a vida
ativa eram, efetivamente, necessidades muito específicas com que estas escolas
se confrontavam e a que tinham de dar resposta, nomeadamente porque desde 2008,
a introdução de legislação nova no contexto da inclusão (DL 3/2008, de 7 de
janeiro) abrangeu, também, os estabelecimentos de educação e de ensino
particular e cooperativo.
No entanto e, embora a identificação e análise de necessidades tenha ocorrido
em contextos diferentes e se tenha situado em paradigmas também diferentes,
encontrámos nas três situações necessidades de formação idênticas: identificar
necessidades educativas especiais; organizar o trabalho em função de todos os
alunos; avaliar os alunos com necessidades educativas especiais; articular com
outros atores; enquadrar legal e concetualmente as necessidades educativas
especiais.
Estas necessidades de formação implicam, de modo significativo, a prática
pedagógica. Podem ser demasiado abrangentes, como é o caso da identificação de
necessidades educativas especiais ou até dilemáticas, de que a dificuldade em
avaliar estes alunos é um bom exemplo. A este respeito, Caetano (1996)
considera como dilema as vivências subjetivas, os conflitos interiores,
cognitivos e práticos, ocorridos em contextos profissionais e em relação aos
quais o professor equaciona duas ou mais alternativas (de ação ou de reflexão)
(p. 194). No contexto da avaliação, refere o limiar de passagem/reprovação:
valorizar o esforço versus valorizar as capacidades, dilema que nos parece
estar implícito na necessidade de formação atrás referenciada.
Retomando o que mencionámos atrás, parece significativo que estas dificuldades/
necessidades tenham emergido em contextos e tempos diferentes, nomeadamente
porque, como também dissemos, implicam questões de natureza muito pragmática,
fundamentais na prática docente, indispensáveis para que a inclusão possa ser
bem-sucedida.
Quanto a alguns dos dados resultantes dos projetos de intervenção que temos
orientado, salientamos as dificuldades iniciais que as Mestrandas revelavam
relativamente à planificação e à organização do trabalho em função da turma, de
modo a que a interação propiciasse situações de enriquecimento para todos, em
conformidade com uma das necessidades de formação atrás referenciadas '
organizar o trabalho em função de todos os alunos ' que emergiu nas três
situações que descrevemos. No entanto, no final da intervenção, registaram-se
os ganhos deste processo, no que se refere às aprendizagens feitas pelos
alunos e pelas próprias Mestrandas.
Temos, assim, excertos de textos que nos dizem que
a intervenção veio permitir uma mais-valia no nosso percurso profissional,
consciencializando-nos para a importância de continuarmos a desenvolver, no
grupo e com o grupo, estratégias que favoreçam aprendizagens inclusivas há
necessidade de mais investigação sobre as caraterísticas inclusivas da escola
(Catrola, 2010, p. 100), e que nós aprendemos a trabalhar num nível de ensino
que não é o nosso, com crianças de idades diferentes, que têm um currículo e
uma rotina completamente diferente e, sobretudo, aprendemos a planificar para
uma turma que inclui uma criança com dificuldades motoras graves (Ferreira,
2010, p. 82).
Como uma das então Mestrandas refere, este trabalho [de intervenção] foi mais
um valioso contributo para a nossa formação pessoal e profissional (Rodrigues,
2010, p. 103).
No que diz respeito às aprendizagens realizadas pelos alunos, destacam-se
avaliações relativamente ao processo em que participaram, que nos dizem que os
colegas de turma perceberam que aquele aluno também podia dar o seu
contributo o aluno sentiu-se mais participativo e ativo no processo ensino/
aprendizagem e até mesmo a professora reconheceu que os trabalhos em grupo se
revelaram uma boa forma de aquisição de conhecimentos (Ferreira, 2011, p. 82).
De acordo com alguns relatos, dos quais o que transcrevemos é exemplificativo,
esta intervenção centrada no grupo de alunos, permite que haja melhoria do
comportamento social a nível individual [sendo que] em relação ao restante
grupo de alunos, pudemos verificar igualmente uma melhoria na tolerância e
aceitação da diferença (Cúmano, 2011, p. 94).
Um outro testemunho dá-nos conta de situações caraterizadas inicialmente como
falta de respeito pela multiculturalidade, atitude percecionada na turma onde
estava um aluno cujo diagnóstico psicológico anexo ao trabalho referia baixa
autoestima e fracas expetativas face à escola. A intervenção levada a cabo
contribuiu para que este aluno tivesse adquirido mais confiança nas suas
capacidades, valorizasse a sua autoestima e interagisse melhor com o grupo-
turma. Por outro lado, os alunos melhoraram o seu comportamento, ajudando-se
mutuamente na realização das diversas tarefas, demonstraram maior respeito uns
pelos outros, [tendo] estabelecido relações de entreajuda, solidariedade,
companheirismo e cooperativismo (Nunes, 2011, p. 84).
Segundo um outro relato, houve
evolução de todos, em relação ao ponto de partida o reconhecimento dos
professores intervenientes de que todos os alunos evoluíram em relação ao ponto
de partida e de que a inclusão do [aluno] não foi impeditiva de que se
cumprisse o programa das diferentes disciplinas. Para além deste fato, a
necessidade sistemática de se encontrarem as estratégias que permitissem ao
aluno compreender a informação apresentada e participar ativamente na
realização das diferentes propostas de trabalho, facilitou a aprendizagem dos
alunos com mais dificuldades (Tomaz, 2011, p. 114).
Estes são apenas alguns dos inúmeros exemplos que poderíamos apresentar, que
comprovam, quanto a nós, a justificação de um processo de formação fundamentado
na investigação-ação, pela mudança no que diz respeito à intervenção que pode
permitir.
Em síntese, podemos concluir que a formação de professores é um dos pilares
para a inclusão. A identificação de necessidades que parecem emergir
indiferentemente do contexto em que ocorrem e a intervenção fundamentada na
investigação-ação dão-nos conta da importância de processos que assentam na
reflexão sobre a prática, quer seja para poder ajustar a formação oferecida à
formação pretendida, quer seja para (re)planificar a intervenção de modo mais
adequado, isto é, de modo a poder responder a todos.
Considerações finais
A educação inclusiva implica novas práticas docentes. Implica também que a
escola, no seu conjunto, perspetive a inclusão não apenas como um direito, mas
também como um benefício, porque contribui para que todos cresçam, de modo a
viverem e a conviverem mais adequadamente com a diferença que carateriza cada
um de nós.
Porém, tudo isto não passa somente por uma mudança de atitude, pese embora a
sua importância. Nem por boas vontades, reconhecendo, no entanto, que essa
predisposição é inegavelmente importante. Ficar por aqui pode remeter-nos para
a conceção de educação inclusiva como uma utopia.
Quanto a nós, a formação de professores para este novo paradigma de escola de
que se fala há, pelo menos, dezassete anos, é um ângulo de abordagem
fundamental para a sua construção. Contudo, ao longo deste tempo, muitas têm
sido as Conferências, os Colóquios e os Seminários, neste âmbito. A
investigação à volta destas questões tem trazido, por seu lado, inúmeros
contributos, apresentados e discutidos nestes encontros científicos. A formação
inicial de professores, na sua generalidade, tem procurado sensibilizar os
futuros docentes para problemáticas relacionadas com as necessidades educativas
especiais. No entanto, recorrentemente, os professores remetem para a formação
ou a falta da mesma, a dificuldade que sentem em implementar respostas que não
se enquadrem na consideração da turma como uma entidade homogénea.
Como temos vindo a referir, apesar de tudo, a formação de professores é
fundamental, em particular se contribuir para que estes tenham vivências
gratificantes relativamente às respostas que são capazes de operacionalizar,
nem sempre capazes de arriscar. Para tal, precisam de fundamentos teóricos e
metodológicos que sustentem a intervenção, ou seja, de formação, quer esta
parta das suas dificuldades quer de problemas com que se deparam na sua
atividade profissional, isto é, de projetos que os impliquem na construção de
uma resposta inclusiva. O que vai ao encontro, de resto, de uma das
necessidades encontradas nas três situações que abordámos no contexto da
análise de necessidades - enquadrar legal e conceptualmente a inclusão ' e dos
relatos que transcrevemos atrás.
Uma resposta inclusiva passa pelo trabalho realizado em grupo, numa perspetiva
cooperativa, por exemplo. É uma excelente estratégia para a inclusão, pela
partilha de experiências que propicia. Em termos da sua operacionalização, as
estruturas cooperativas, pela sua organização, dão ao professor a possibilidade
de escolher, entre as várias que a literatura refere, a mais adequada ao tema,
à atividade, à turma, enfim, à problemática em questão.
Se considerarmos os princípios que presidem à formação de grupos, facilmente
compreendemos que estes, sendo heterogéneos, são compostos por alunos que podem
situar-se em estádios de desenvolvimento diferenciados, pelo que, embora a
atividade que realizam seja a mesma, o modo como os elementos do grupo a
desenvolvem, varia. A diferenciação pedagógica inclusiva reside nisso. A
interação que se desenvolve é crítica para as aprendizagens académicas que,
deste modo, todos têm a possibilidade de fazer, ainda que algumas possam
parecer-nos sem importância nesse contexto. É crítica, também, para o
reconhecimento do outro. Afinal, sendo a escola um espelho da sociedade, como
afirmava Dewey, é aí que se aprende a ser, a saber ser, a saber fazer e a saber
viver com os outros (Unesco, 1996).
A identidade é definida pela relação que estabelecemos com os outros que estão
à nossa volta, que nos ajudam a vermo-nos como uma pessoa que participa num
grupo com caraterísticas próprias. Assim sendo, a escola configura-se como um
espaço privilegiado para a criação/recriação de identidades.
Incluir, como nos diz Leitão (2006, contracapa) é apoiar o outro, no seu
esforço de construir vínculos, aos colegas, aos professores, à escola, às
matérias, ao mundo. Ora, para apoiar o outro precisamos de aprender a ser,
porque só assim poderemos saber como podemos viver com os outros.
A este respeito, retomando projetos de intervenção no âmbito do Mestrado em
Educação Especial que temos orientado, são pertinentes os discursos que nos
dizem que é fundamental referir que o grupo foi da maior importância para a
regulação de muitos comportamentos do aluno [com perturbações do espectro do
autismo] (Nicolau, 2010, p. 98), ou que
o que fez a diferença nesta intervenção (porque a inclusão não se impõe,
entende-se como necessária e constrói-se) foram as pontes que conseguimos
estabelecer e que deram a todos os intervenientes (adultos e crianças) a
possibilidade de viver, conviver e aprender colaborativamente, e perceber que
quaiquer que sejam as características que nos tornam singulares, se os
ambientes educativos se adequarem às necessidades identificadas, é sempre
possível melhorar o que sabemos, o que pensamos, o que fazemos, o que somos
(Tomaz, 2011, p. 122).
Já o referimos, mas nunca é demasiado repeti-lo: como em tudo o resto, não pode
nem deve haver uma visão única de um problema. Queremos com isto dizer que
estratégias como a aprendizagem cooperativa são fundamentais para a inclusão,
pelo que devem ser implementadas com frequência, sempre que o trabalho a
realizar o permita. Mas não impedem outras estratégias.
A educação inclusiva não é uma utopia que assenta apenas em valores, embora
estes lhe estejam subjacentes, como é óbvio. Acreditamos que é possível
implementá-la, embora estejamos conscientes da complexidade que envolve
questões desta natureza, nem sempre consensuais. Por isso, pensamos que a
investigação e a formação de professores que daí decorra são caminhos em que
teremos de continuar a investir.